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12.9.19

EMOÇÕES NO REGRESSO ÀS AULAS


Regresso às aulas


Depois das férias, da maravilhosa oportunidade de passarmos mais tempo (e tempo de qualidade!) com os nossos filhos, chega a altura de nos reorganizarmos para o regresso às aulas. Para algumas famílias, a transição é pacífica e até divertida. Para outras, é uma fonte de stress capaz de pôr à prova a harmonia familiar. O que é que nós, adultos, podemos fazer para (ajudar a) gerir as emoções no regresso às aulas?


A gestão das emoções no regresso às aulas


No que toca às emoções no regresso às aulas, há de tudo: conheço pais e mães que no início do mês de setembro estão “fartinhos” de birras, amuos e da inevitável gestão de conflitos e que, por isso, estão desejosos que as aulas comecem. Mas também há quem sofra por antecipação, por saber que o tempo que sobra para os mimos e brincadeiras passará a ser “engolido” por todas as rotinas e afazeres ou por temer que as crianças sintam dificuldades em adaptar-se ou, pior do que isso, sejam alvo de alguma forma de bullying ou rejeição. Pelo meio, ainda há listas de compras que parecem não ter fim, livros mais difíceis de encontrar do que agulhas em palheiros, pais e mães que se transformam em motoristas para fazer face a todas as atividades extracurriculares das crianças e muita vontade de recuperar a tranquilidade dos dias de férias.

Uma das coisas que mais facilita a nossa vida é a capacidade de nos aceitarmos exatamente como somos – sem comparações, sem culpas.


Se há pais e mães que parecem perfeitos e que fazem com que se sinta culpado/a por estar cansado/a de ter os filhos em casa a tempo inteiro, não se puna. Pare de fazer comparações. Tem o direito de sentir este cansaço e isso não diminui o amor que sente pelos seus filhos. Ser pai ou mãe pode ser o papel mais importante da sua vida e, ainda assim, também o mais desgastante. Aprenda a reconhecer os sinais de stress e faça o que estiver ao seu alcance para o gerir.

Se acha que é stressado/a demais e se estiver convencido/a de que é a única pessoa que sai da escola de lágrimas nos olhos no primeiro dia de aulas, pare de se julgar. É óbvio que há muitos pais e mães para quem a ideia de deixarem os filhos na escola é geradora de ansiedade, sobretudo nas primeiras vezes e quando as crianças mostram a sua própria tristeza ou ansiedade. Mas, mesmo que mais ninguém à sua volta se sinta assim, você tem o direito aos seus sentimentos. Conversar com outros pais e mães e com o resto da comunidade escolar pode ser tranquilizador. Envolva-se mais na realidade dos seus filhos, procure conhecer as rotinas, os gostos, a dinâmica. Vai sentir mais segurança e entusiasmo.

Respeitar a individualidade das crianças


Aprendermos a gerir os nossos sentimentos evitando comparações e juízos de valor não é só importante para o nosso bem-estar. É uma ferramenta que nos ajuda a educar os nossos filhos para o respeito pelos seus sentimentos e pelos sentimentos dos outros. Quando aceitamos que as outras pessoas possam sentir-se de maneiras diferentes a propósito das mesmas etapas e o mostramos de forma clara às crianças, estamos a dizer-lhes que elas também têm esse direito.

Qualquer pai ou mãe com duas ou mais crianças sabe que os filhos podem ser mesmo muito diferentes entre si.

Há crianças que chegam ao portão da escola e “esquecem-se” dos pais. Há outras que se agarram às pernas dos pais como se estivessem prestes a entrar para um filme de terror.


E, está tudo bem, sobretudo se nós, pais, aceitarmos essas diferenças com curiosidade e sem qualquer tipo de castigos.

É mesmo importante que evitemos comparações do tipo «Porque é que não te portas como o teu irmão?» ou «Estás a ver mais algum menino a fazer isto?». É claro que nem sempre é fácil constatar que as nossas crianças possam estar a passar por dificuldades. Qualquer pai ou mãe quer o melhor para os seus filhos e entra em stress pelo facto de alguma coisa não estar a correr como “deveria”. Mas os comportamentos das crianças são um reflexo das suas emoções e, quanto maior for a nossa disponibilidade para tentar entendê-las, maior a probabilidade de, mais cedo ou mais tarde, ficar tudo bem.

Querer – mesmo – saber o que se passa não equivale a assumir uma postura passiva que nos leve a fazer todas as vontades da criança e muito menos a ceder à tentação de levá-la para casa. Conversar, com abertura e curiosidade, pode levar-nos, por exemplo, a constatar que a tristeza ou a ansiedade que a criança revela no início das aulas está mais relacionada com o fim de um período muito feliz (as férias) do que com a existência de um problema na escola. Quem é que nunca sentiu alguma nostalgia no primeiro dia de trabalho depois de umas férias meeeesmo boas? Quem é que nunca pensou «Nunca mais me sai o Euromilhões!» no regresso à correria? É normal. Quando nos expomos, quando falamos abertamente sobre os nossos sentimentos e sobre as nossas próprias lutas, ajustando a linguagem à idade dos nossos filhos, também estamos a ajudá-los a encarar as suas batalhas sem dramas.

Conversar… mesmo.


Uma das coisas que mais nos ajuda a lidar com o stress são as conversas em que nos sintamos escutados e amparados. Não se preocupe se nem sempre conseguir entender exatamente aquilo que o seu filho estiver a sentir. O mais importante é que todos os dias – ou quase – haja genuína vontade e interesse para o ouvir. É preferível dizer «Não percebo muito bem o que estás a sentir… Podes explicar-me melhor?» do que começar a identificar soluções para um problema que nem sequer percebeu bem. A confiança constrói-se nos detalhes: procure assumir uma postura de “jornalista”, tentando conhecer os altos e baixos de cada dia com perguntas divertidas, específicas e que traduzam a atenção que vai prestando ao que ouve: «Voltaste a brincar com o colega com quem te zangaste ontem?», «Qual foi a brincadeira que achaste mais divertida?», «Qual foi o momento mais interessante no dia de hoje?».

Não se esqueça de que a sua vontade de conversar não deve transformar-se numa imposição. Mostrar-se disponível, curioso/a e atento/a é uma coisa, assumir uma postura “chata” e desrespeitadora é outra bem diferente. Às vezes as crianças só querem chegar a casa e “desligar”, sem que isso implique que haja algum problema na escola. E, há alturas em que preferirão brincar com os pais e só depois desse relaxamento são capazes de deitar cá para fora aquilo que estão a sentir.

A importância do tempo livre


A maior parte dos pais e mães sentem que têm pouco tempo para a família, para os seus hobbies e para aquilo que os faz genuinamente felizes. A realidade de cada um de nós é como é e não vale a pena lutarmos contra isso. Mas podemos refletir sobre aquilo que está ao nosso alcance para que o tempo que temos seja gerido de maneira a que as nossas necessidades – de descanso, conexão e divertimento – sejam preenchidas e de modo a que o mesmo aconteça na vida dos nossos filhos.

Na ânsia de preenchermos estas e outras necessidades, apressamo-nos algumas vezes a encontrar mil e uma atividades extracurriculares e frustramo-nos quando, apesar de todos os nossos esforços para sermos pais e mães malabaristas, as crianças andam permanentemente irritadas, desmotivadas ou desafiadoras. Muitas vezes é preciso parar para reconhecer aquilo que está efetivamente a acontecer. Parar para, com curiosidade genuína, escutar o que a criança tem para nos dizer e, assim, podermos, com os recursos que tivermos à nossa disposição, ir ao encontro das suas necessidades.

Os filhos precisam sobretudo de conexão. Precisam de sentir que há espaço (e tempo) para os ouvirmos.


Precisam que estejamos “lá” para eles depois das férias. O não preenchimento dessa necessidade pode traduzir-se de múltiplas formas: birras, comportamentos desafiantes, desmotivação. Quando, ainda antes de os escutarmos, os procuramos estimular com mais uma atividade, podemos estar a ignorar a realidade (e a aumentar as dificuldades).

Se pensarmos na nossa própria realidade, nas nossas próprias lutas, o mais provável é que uma das coisas de que mais sintamos falta seja de tempo. Tempo para relaxar. Tempo para nos divertirmos. Tempo para não fazer nada. As crianças também precisam disso. Conhecer os seus interesses, os seus gostos e aquilo que as faz genuinamente felizes não tem de se traduzir na implementação de esforços que sobrecarreguem os pais e/ou que se traduzam no aumento dos níveis de stress. Há muitas formas de ir ao encontro de cada necessidade. Aquilo que podemos fazer é olhar para cada necessidade com criatividade e com respeito por todos os membros da família. E, se houver, por exemplo, familiares e amigos que possam ajudar, às vezes o melhor do mundo é mesmo poder não fazer nada.

10.9.19

PORQUE É QUE AS PESSOAS TRAEM?


Porque é que as pessoas traem?

Quais são os motivos que podem levar alguém a trair? O que é que faz com que uma pessoa faça escolhas que podem colocar a relação em risco?


Antes de explorar os motivos que costumam estar associados à infidelidade, importa esclarecer que não são só as pessoas que se sentem insatisfeitas no casamento que traem. Tal como escrevi AQUI, as pessoas felizes também traem.

TRAIÇÃO: OS MOTIVOS




SOLIDÃO

A última coisa que associamos a uma relação amorosa é a solidão, mas há muitas pessoas que se sentem profundamente desamparadas apesar de estarem casadas. Há relações em que deixou de haver intimidade e as conversas se resumem às responsabilidades familiares. Quando isto acontece, as demonstrações físicas de afeto são praticamente inexistentes e há pelo menos um dos membros do casal que sente a necessidade de receber muito mais atenção. É esta necessidade (e a sensação de abandono) que está por detrás do aparecimento de uma terceira pessoa.

INSATISFAÇÃO SEXUAL

Alguns casamentos são praticamente assexuados, caracterizados pela apatia e pela inexistência de intimidade sexual. Nalguns casos, nunca chegou verdadeiramente a existir prazer associado à sexualidade. Isto acontece mais frequentemente com mulheres que foram educadas de forma muito conservadora e que durante muito tempo olharam para o sexo como uma obrigação. Noutros casos, a fantasia, o desejo e a imaginação foram “engolidos” pelos afazeres do dia-a-dia e há pelo menos um dos membros do casal que se sente insatisfeito e que procura, através da relação extraconjugal, voltar a sentir-se vivo, voltar a sentir-se desejado.

MONOTONIA

As rotinas fazem parte da vida de qualquer família e, até certo ponto, contribuem para a nossa segurança e estabilidade. Mas a maior parte dos casamentos depende tanto da estabilidade e da segurança quanto da novidade e do mistério. Se a pessoa que estiver ao nosso lado só conseguir oferecer-nos estabilidade, é mais provável que a relação possa ficar estagnada.

Numa relação feliz existe uma “distância de segurança”, que faz com que olhemos para a pessoa que está ao nosso lado como alguém que tem interesses e hábitos individuais, que vão além da vida a dois ou da vida familiar. Ele(a) não está garantido(a), está em constante evolução, luta pelos seus sonhos e dá-nos a sensação de que há sempre algo mais por descobrir.



Algumas relações estagnam ao ponto de os membros do casal deixarem de se sentir vivos ou desejados. Há pelo menos um dos membros do casal que sente que vive em função das obrigações familiares e a relação extraconjugal surge como algo que, pela primeira vez em muito tempo, reacende a sensação de vivacidade e desejo.

JUVENTUDE PERDIDA

Algumas pessoas, sobretudo de gerações mais antigas, casaram pressionadas pela família de origem (e não porque se sentiam apaixonadas) e desenvolveram relações sólidas, estáveis, mas marcadas sobretudo por um grande sentido de obrigação. Foram educadas segundo a ideia de que um casamento seria para a vida toda, independentemente da satisfação conjugal, e ao fim de 20, 30 ou 40 anos, olham pela primeira vez para os próprios sentimentos. Nalguns casos, a relação extraconjugal surge numa altura em que os filhos já são adultos e apanha toda a gente de surpresa.

Raramente há uma busca ativa do que quer que seja. A pessoa acaba por ser surpreendida pelos próprios sentimentos e faz, pela primeira vez na vida, uma escolha centrada em si mesma.

EXPECTATIVAS

Algumas pessoas admitem que se sentem felizes na relação, mas vivem com a expectativa de serem AINDA MAIS felizes Questionam se serão “suficientemente” felizes: «Será que o amor é isto, ou posso ambicionar mais?». Olham para o enamoramento associado à relação extraconjugal como a possibilidade de viverem um amor mais próximo da perfeição.

É importante olharmos para as relações amorosas de forma realista. Cada vez mais, depositamos muitas expectativas na pessoa que está ao nosso lado: esperamos que seja o(a) nosso(a) companheiro(a), o(a) nosso melhor amigo(a), o(a) melhor amante, etc. Nenhum de nós é perfeito e uma relação sólida depende da capacidade de aceitar a pessoa que está ao nosso lado com todas as suas imperfeições (e da capacidade de valorizarmos na medida certa os atributos que nos levaram a apaixonar-nos por ela).

Quando conseguirmos definir de forma clara as nossas intenções, focar-nos no que queremos para nós, para a nossa vida, prestar atenção aos nossos sentimentos e às nossas necessidades e verbalizá-las de forma clara e firme, é mais provável que consigamos fazer as escolhas conscientes que nos ajudem a manter uma relação que nos faça sentir vivos e entusiasmados.

28.8.19

GRATIDÃO


Gratidão


O que é a gratidão? Como é que se pratica a gratidão? Quais são os benefícios que essa prática pode trazer para o nosso corpo e para a nossa mente?


Vemos cada vez mais fotos bonitas no Instagram e no Facebook com a legenda #gratidão. Às vezes é uma paisagem de cortar a respiração, outras é simplesmente uma mulher de biquíni. Será que isto equivale a praticar a gratidão? Estaremos genuinamente a sentir-nos gratos quando partilhamos uma fotografia que simbolize um momento feliz? Na maior parte do tempo isso não corresponde à verdade. Na prática, quase todas as publicações deste género se encaixam naquilo a que se pode chamar gratidão teórica ou superficial.



TIPOS DE GRATIDÃO


Quando falamos de gratidão, podemos identificar 3 tipos: a gratidão teórica, a gratidão passiva e a gratidão ativa. Quando falamos da prática da gratidão estamos normalmente a referir-nos à gratidão ativa.

GRATIDÃO TEÓRICA


A gratidão teórica corresponde a todas as situações em que utilizamos a palavra sem “mergulhar” verdadeiramente no sentimento. Até podemos reconhecer, por instantes, que aquele foi um momento positivo, podemos sentir-nos felizes, MAS isso não significa que estejamos capazes de o valorizar na medida certa.

Este tipo de gratidão é observável nas redes sociais, nos e-mails e SMS.

Quando escrevemos “Obrigado” ou “Agradeço a sua mensagem”, nem sempre estamos a atribuir real valor ao gesto da outra pessoa.


Limitamo-nos a utilizar palavras que aparentam gratidão – por cordialidade, simpatia ou simplesmente por estarmos em “piloto automático”. Até há quem escreva “Grato/ Grata” em quase todos os e-mails depois de ter feito algumas leituras sobre a importância de praticar a gratidão, sem que isso implique que o sentimento genuíno esteja patente.

GRATIDÃO PASSIVA


A gratidão passiva acontece em momentos pontuais e normalmente intensos, como a concretização de uma promoção profissional, o início de um relacionamento amoroso, o nascimento de um filho ou a passagem num exame para o qual nos esforçámos muito. Neste caso, há sempre emoções positivas, há muita atenção ao momento presente, há o reconhecimento do esforço necessário para atingir aquele objetivo e também costumam existir planos concretos para o futuro. Nestes momentos, sentimo-nos genuinamente gratos e isso promove o nosso bem-estar.

O problema é que estes são momentos que acontecem de forma esporádica, pelo que o sentimento (e a respetiva sensação de bem-estar) tende a dissipar-se muito rapidamente.

GRATIDÃO ATIVA


A gratidão ativa implica que nos esforcemos DIARIAMENTE para encontrar motivos pelos quais possamos sentir-nos gratos. Implica que prestemos genuinamente atenção ao momento presente e que reconheçamos o valor dos gestos, das pessoas e das relações que fazem parte da nossa vida – por oposição a dá-los como garantidos. Claro que isso requer prática e disciplina.

QUAIS SÃO OS EFEITOS DA PRÁTICA DA GRATIDÃO?


Quando trazemos a prática da gratidão para a nossa rotina:


Sentimo-nos mais próximos, mais empáticos e
mais calorosos das pessoas que nos rodeiam;
Prestamos mais atenção às necessidades
das pessoas de quem gostamos;
Sentimo-nos mais relaxados e mais capazes de
gerir as nossas emoções (positivas e negativas);
O nosso sono melhora
O nosso sistema imunológico melhora
Sentimo-nos mais motivados para a
prática de exercício físico.



COMO É QUE SE PRATICA A GRATIDÃO?


A forma mais fácil – e sólida – de praticar a gratidão é através do “Diário de gratidão”. Este exercício convida-nos a parar todos os dias com a intenção de identificar pelo menos 3 coisas positivas pelas quais nos possamos sentir gratos.

É fundamental parar para escrever (de preferência, à mão) – não basta “pensar no assunto”.


A ideia não é anotar todos os dias acontecimentos extraordinários, como os que referi a propósito da gratidão passiva, mas sim ser capaz de identificar coisas simples e explicar porque é que elas aconteceram e porque é que nos sentimos gratos.

Por exemplo, num determinado dia podemos escrever que nos sentimos gratos por termos ido ao nosso restaurante preferido. Isso aconteceu porque temos trabalho e temos dinheiro que nos permite fazê-lo. Valorizar estes “luxos”, em vez de os tomarmos como garantidos, ajuda-nos a promover o nosso bem-estar. Também podemos agradecer o facto de o(a) nosso(a) companheiro(a) ter lavado a loiça na nossa vez e reconhecer que isso aconteceu porque ele(a) se preocupa connosco e valorizou o nosso apelo num dia em que nos sentíamos mais cansados.

A ciência mostra-nos resultados impressionantes associados a esta prática. É possível observar mudanças no nosso bem-estar emocional ao fim de apenas um mês de prática regular.

Outra forma de cultivar a gratidão consiste na elaboração de cartas de gratidão. Esta é uma maneira de pararmos para agradecer um gesto, ou um conjunto de gestos, de alguém a quem sintamos que ainda não agradecemos na medida certa. É evidente que é uma forma de retribuição e, em função disso, é natural que façamos a outra pessoa feliz, mas aquilo que também é possível observar é que estas cartas promovem o bem-estar de quem as escreve com autenticidade, isto é, “mergulhando” genuinamente no sentimento de gratidão.

Dizer “Obrigado” com atenção plena ao momento presente, isto é, valorizando de forma genuína o gesto de determinada pessoa, é outra forma de alargar a prática da gratidão. Pode ser utilizada nas situações mais simples – quando reparamos na simpatia com que alguém nos atende numa loja, quando agradecemos a ajuda de um colaborador numa qualquer linha de apoio ao cliente ou quando a pessoa de quem gostamos nos vai buscar ao trabalho para tornar o nosso dia mais fácil.

Finalmente, também é possível treinar a gratidão procurando ativamente o lado positivo de cada episódio da nossa vida. Por exemplo, se nos sentirmos “inundados” em trabalho, com e-mails e mais e-mails para responder, podemos lembrar-nos de que nos sentimos genuinamente gratos por termos trabalho e por tudo o que isso nos proporciona. Se estivermos irritados com o tempo de espera para uma consulta num hospital público, podemos sentir-nos gratos pelo nosso Serviço Nacional de Saúde e por todas as coisas que ele nos oferece.

Não é fácil encontrar sempre o lado positivo de cada acontecimento, especialmente nas alturas em que nos sentimos esmagados pela tristeza, pela raiva ou pelo medo. É por isso que é preciso praticar de forma ativa. Quando nos habituamos a fazê-lo, reparamos que tudo na vida nos pode trazer aprendizagens e motivos pelos quais nos sintamos gratos, mesmo os momentos mais difíceis.

31.7.19

COMO RECUPERAR A CONFIANÇA DEPOIS DE UMA TRAIÇÃO


Recuperar a confiança depois de uma traição

Como é que se reconstrói a confiança depois de uma traição? O que é que a pessoa que traiu pode fazer para ajudar a pessoa traída a voltar a confiar? E o que é que não deve (mesmo) ser feito?


A infidelidade continua a ser um dos motivos pelos quais muitos casais recorrem à ajuda da terapia conjugal. Não é por acaso: por um lado, este é um dos maiores terramotos por que uma relação pode passar e, por outro, mesmo quando ainda há amor e vontade de reconstruir a ligação, nem sempre é fácil identificar aquilo que cada um pode fazer.

Oiço muitas vezes as pessoas que traíram referirem-se à sensação de impotência depois da infidelidade. Sentem genuína vontade de ajudar o(a) companheiro(a), mas os seus esforços nem sempre dão os frutos desejados. Hoje partilho algumas sugestões que podem ajudar a restabelecer a confiança.



#1:
TEMPO

Há boas e más notícias referentes à reconstrução da relação depois de uma traição. A boa notícia é que é possível recuperar a confiança e (voltar a) ter uma relação geradora de satisfação, alegria e cumplicidade. A má notícia é que isso dá trabalho e leva tempo.

É compreensível que duas pessoas que se amam queiram ultrapassar uma crise rapidamente, mas, como em quase tudo o que envolva perdas, é preciso tempo para que as emoções sejam geridas e o luto seja feito.

Quando há uma infidelidade – seja um caso de uma noite ou uma relação de alguns meses -, há uma ferida por sarar. Para a esmagadora maioria das pessoas, isso envolve algum tempo. É fundamental que a pessoa que traiu possa ser paciente e respeitar esse tempo.


#2:
FALAR ABERTAMENTE

Há quem tenha vontade de “colocar uma pedra sobre o assunto”, sobretudo com a intenção de evitar que o sofrimento se prolongue, mas não é assim que a confiança é recuperada. De um modo geral, para que voltemos a confiar e a sentir-nos seguros, precisamos da certeza de que a pessoa que está ao nosso lado se importa com o nosso sofrimento. Se ele(a) não quiser ouvir-nos, se não quiser responder a todas as nossas dúvidas, o mais provável é que nos sintamos desamparados.

A pessoa que traiu pode tentar assumir uma postura de genuína compaixão, procurando responder a todas as perguntas com clareza e honestidade. Quanto mais abertamente conseguir falar sobre o que aconteceu e sobre os próprios sentimentos, mais provavelmente a relação poderá ser recuperada.

Nesse processo, é crucial que se defina alguns limites. Uma coisa é responder com clareza e honestidade a questões que permitam que o(a) companheiro(a) se sinta mais seguro(a) e outra, bem diferente, é partilhar detalhes mais ou menos sórdidos que só acrescentam sofrimento desnecessário. Um dos exercícios que costumo propor é que a pessoa que foi traída possa elaborar uma lista de todas as dúvidas que (ainda) tem acerca do que aconteceu para que possamos, em terapia, avaliar até que ponto é que algumas destas questões devem ou não ser colocadas.

#3:
COMPROMISSO COM A TRANSPARÊNCIA

Um dos passos que a pessoa que traiu pode dar para o restabelecimento da confiança passa por fazer o que estiver ao seu alcance para evitar equívocos que alimentem a insegurança do(a) companheiro(a). Trata-se de telefonar sempre que disser que vai telefonar, chegar a casa à hora a que disse que chegaria e responder às dúvidas que possam existir.

Para a pessoa que foi traída, quase tudo pode passar a ser um sinal de alarme e de intranquilidade, pelo que é muito importante que haja um compromisso sério com a transparência.

Não se trata de nenhuma condenação. A infidelidade não pode funcionar como uma justificação para quaisquer tentativas de controlo, faltas de respeito ou comportamentos abusivos.

Por outro lado, é fundamental que a aflição e a vontade de manter a relação não permita que a pessoa que traiu faça promessas que vão contra a sua própria dignidade ou que traduzam falta de respeito por si mesma.

#4:
DAR ESPAÇO PARA A EXTERIORIZAÇÃO DOS SENTIMENTOS

Raiva, medo, tristeza. De uma maneira geral, a infidelidade é geradora de sentimentos intensos. Se esses sentimentos não forem exteriorizados, a pessoa que foi traída acabará por sentir-se sufocada, ansiosa e incapaz de voltar a confiar.

Oiço muitas vezes a queixa de que a pessoa que traiu não quer voltar a ouvir falar sobre o assunto, mas a verdade é que dizer «Isso é passado, vamos olhar para o futuro» é a última coisa de que uma relação nestas circunstâncias precisa.

A pessoa que traiu pode assumir uma postura genuinamente paciente, escutar atentamente e repetir «Eu estou aqui. É contigo que eu quero ficar».


Por outro lado, é importante aceitar que, neste processo, é natural que haja avanços e recuos. Em momentos de desespero, a pessoa que foi traída terá vontade de mandar a outra embora (e é possível que o faça). De um modo geral, tudo o que precisa é de um abraço e de algumas palavras que lhe devolvam a segurança.

#5:
ASSUMIR A RESPONSABILIDADE

Cada um é responsável pelos próprios comportamentos. Mesmo que haja problemas no casamento anteriores à infidelidade, a pessoa que traiu não deve culpar o(a) companheiro(a) pela sua escolha.

É importante dar um passo de cada vez. Quando somos capazes de assumir inteiramente a nossa responsabilidade, é mais provável que, mais cedo ou mais tarde, haja disponibilidade para olhar para trás e reconhecer aquilo que cada um (não) fez pela relação.

Algumas pessoas sentem-se legitimamente sós e abandonadas na relação. Não andam à procura de uma terceira pessoa, mas sentem-se carentes e negligenciadas. Até certo ponto, sentem-se traídas. Esses sentimentos podem e dever reconhecidos, mas não devem servir de justificação para a infidelidade.

A terapia de casal é, para muitos, a oportunidade de falar abertamente sobre este turbilhão de sentimentos de forma segura e estruturada.

24.7.19

AS FÉRIAS DOS FILHOS DE PAIS SEPARADOS


As férias dos pais separados

No caso dos filhos de pais separados, é preferível que as férias com cada progenitor sejam curtas ou prolongadas? O que é que cada adulto pode fazer para evitar que haja conflitos e para que os dois lados saiam a ganhar? Esta é uma boa altura para introduzir um(a) novo(a) namorado(a)? E se os filhos se recusarem a ir de férias com um dos progenitores?


As tão desejadas férias de verão podem implicar algum stress para as famílias, especialmente depois de um divórcio ou de uma separação. Às dificuldades habituais relacionadas com a escassez de recursos para manter as crianças ocupadas e protegidas enquanto os pais trabalham junta-se a necessidade de conjugar expectativas e de comunicar de forma eficaz. Hoje partilho algumas dicas que podem ajudar a viver esta época sem stress.


Férias curtas ou prolongadas?


A maior parte de nós ambiciona poder parar pelo menos duas ou três semanas e, assim, repor energias para mais uma jornada profissional. Além disso, depois do divórcio, e independentemente do formato da guarda escolhido, todos os pais e mães têm de conviver com a inevitabilidade de não terem os seus filhos sempre por perto. A ideia de umas férias prolongadas permite sonhar com a possibilidade de estar mais tempo com os filhos e, assim, recarregar o mealheiro de afetos. Mas, como em tudo o que diga respeito às decisões após o divórcio, o mais importante é que cada adulto consiga focar-se naquilo que é o melhor para os filhos. De uma maneira geral, um longo período de férias com os filhos implica que eles estejam demasiado tempo sem poder estar com o outro progenitor e isso pode trazer a sensação de desamparo ou abandono, especialmente se se tratar de crianças pequenas.

Aos pais e mães compete colocar a questão «O que é melhor para os meus filhos?» com abertura e curiosidade.


Gerir as expectativas


Todos criamos expectativas em relação às férias. É natural, é humano. Independentemente do nosso contexto, sonhamos com a possibilidade de descansar e, ao mesmo tempo, concretizar todos os planos que, de um modo geral, vamos adiando por falta de tempo no resto do ano. Além disso, idealizamos um período de paz e harmonia, sem stress ou discussões. Mas as férias também são uma porta para tudo o que ficou “desarrumado” e acumulado ao longo do ano. Talvez seja por isso que há tantas separações depois das férias. É que naquelas semanas não estamos mergulhados em trabalho, não temos como não prestar atenção à nossa realidade.

No ramerrame do resto do ano nem sempre há tempo para reparar nas necessidades que ficam por preencher, especialmente nos filhos de pais separados. A paragem das férias pode obrigar a um confronto difícil mas necessário. Se os planos para as férias incluírem a genuína intenção de aproveitar para conhecer ainda melhor as necessidades dos filhos, é mais provável que possam ser refeitos de maneira a contribuir para o bem-estar de todos.

Negociar com o outro progenitor


Independentemente da forma como a relação acaba, é natural que haja a necessidade de gerir a própria vida sem dar satisfações à pessoa com quem deixou de viver. Mas, quando há filhos, essa pode não ser uma boa ideia. Se um dos progenitores decidir marcar férias para um determinado período sem avisar o outro, pode estragar-lhe os planos e trazer stress desnecessário. É possível que ambos estejam habituados a tirar férias na mesma altura e é humano que mantenham o desejo de dar continuidade a essa tradição. No meio de tantas perdas, este pode ser um aspeto difícil de abdicar. Mas, de novo, o mais importante tem de ser o bem-estar dos filhos. E aquilo de que os filhos precisam é de ver os dois progenitores felizes.


Se os pais optarem por sentar-se para conversar
e negociar com antecedência, é mais provável
que alcancem consensos importantes. Por exemplo,
se ambos gostam da ideia de ter férias num
determinado período, talvez possam concordar
em alternar anualmente. Assim, todos ganham,
ainda que ambos tenham de ceder.



Outra questão importante a ter em conta está relacionada com a proximidade dos dois períodos de férias. Talvez não seja boa ideia marcar férias “em cima” do período escolhido pelo outro progenitor. Assim, se houver atrasos ou imprevistos, há tempo e disponibilidade para gerir os acontecimentos sem atrapalhar os planos do outro lado da família.

Presença de novos companheiros


As férias também são muitas vezes aproveitadas para introduzir, de forma mais oficial, um(a) novo(a) companheiro(a) na vida dos filhos. A ideia de muitos pais e mães é aproveitar este período de menos stress e de maior convívio para criar laços. Mas isso pode implicar obrigar os filhos a passar demasiado tempo com alguém com quem ainda não construíram um laço afetivo. De uma maneira geral, as crianças e adolescentes precisam de tempo para se habituarem à ideia de o pai ou a mãe ter um(a) novo(a) namorado(a), pelo que é preferível deixar as férias românticas para o período em que os filhos estiverem com o outro progenitor. Além disso, os filhos ambicionam passar tempo de qualidade com os pais, ambicionam receber a sua atenção exclusiva e tenderão a sentir-se frustrados se tiverem de partilhar este período com outra pessoa a quem o pai/a mãe terá de prestar muita atenção.

E se os filhos não quiserem ir?


Alguns pais e mães são confrontados com o facto de os filhos recusarem ir de férias com o outro progenitor e interrogam-se sobre a melhor alternativa. Devem obriga-los a ir? Ou será preferível ceder? Não há uma resposta que sirva para todos os casos. De novo, aquilo que importa é olhar para a questão com abertura e curiosidade. Se aquilo que está em causa é, sobretudo, uma questão de disparidade em relação às condições que cada um dos progenitores tem para oferecer, é melhor incentivar a criança a ir e, assim, fazer o que estiver ao seu alcance para promover o vínculo com o outro progenitor. Na prática, nenhum pai ou mãe cede a todas as vontades dos filhos. Sabemos que as crianças têm de comer frutas e vegetais porque é o melhor para elas, mas não estamos à espera de que gostem.

Se houver a suspeita de que a criança não se sente segura quando está com o outro progenitor, é importante que o pai e a mãe possam tentar conversar para identificar os medos e as alternativas que melhor se adequem à realidade.

Às vezes é preferível abdicar de um período de férias convencional e apostar em períodos mais pequenos que permitam que a criança se sinta respeitada e segura.


Oportunidade para fazer o que quer


A ideia de passar (ainda mais) tempo sem os filhos pode ser muito angustiante. As saudades são inevitáveis, mas podem ser geridas de forma emocionalmente inteligente. Em primeiro lugar, esta é a oportunidade de reconhecer quão bom/boa pai/ mãe está a ser. Ao facilitar, sem levantar ondas, o contacto dos seus filhos com o outro progenitor, está a tomar uma decisão que garanta o bem-estar dos filhos e, daqui a vinte anos, orgulhar-se-á de o ter feito. Por outro lado, esta também é a oportunidade de colocar em marcha todas as atividades e projetos que foi adiando por falta de tempo para si. Faça aquele workshop com que anda a sonhar, passe um dia inteiro a ver as suas séries preferidas sem culpas ou aproveite para sair à noite. Quanto mais investir na sua lista de desejos, mais revigorado(a) se vai sentir quando voltar a ter os seus filhos consigo.

16.7.19

BURNOUT DAS MÃES



O que é o burnout parental? E porque é que afeta mais mulheres do que homens? No post de hoje partilho algumas dicas que espero que possam ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta situação.

São indiscutivelmente mais mulheres do que homens que me pedem ajuda na sequência de um estado de exaustão relacionado com o exercício da parentalidade. Por um lado, isso está relacionado com o facto de acumularem mais responsabilidades relacionadas com a casa e com os filhos sem deixarem de investir nas respetivas carreiras. Por outro lado, está relacionado com a exigência que colocamos sobre nós mesmas e sobre as mulheres à nossa volta. Somos invariavelmente mais exigentes com as mulheres do que com os homens.

O que é o burnout parental?

O burnout (parental) pode ser caracterizado por um conjunto de sintomas que traduzem um estado de exaustão e que vão desde o cansaço extremo, à irritabilidade constante, perturbações do sono, depressão, ansiedade e impossibilidade de sentir prazer associado ao exercício da parentalidade.

Nem todas as mães mostram os mesmos sintomas e, em função da pressão de que falei antes, é comum que as mulheres guardem para si os próprios sentimentos e que, pelo menos durante algum tempo, tudo pareça “normal”. Mas o burnout é um assunto sério, que merece ser tratado de maneira a que as famílias possam continuar a crescer em genuína harmonia.

O que é que pode ser feito em relação ao burnout das mães?

Se houver um quadro depressivo/ ansioso, o melhor é pedir ajuda especializada. Ninguém merece passar por isto sem ajuda. Paralelamente, há um conjunto de dicas que podem ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta realidade:




#1: TEMPO PARA DESCANSAR


É muuuuito mais fácil falar do que fazer. A verdade é que muitas famílias não dispõem de uma rede de suporte que lhes permita usufruir de uma ou outra noite sem filhos e muito menos de tempo para sair e descomprimir. A cada família compete olhar para a realidade e identificar os recursos que existem. Às vezes, aquilo que é possível fazer é redistribuir as responsabilidades domésticas e familiares. Não me refiro apenas a delegar no marido mais tarefas domésticas.

Muitas vezes a exaustão advém sobretudo da sobrecarga mental associada ao facto de ser a mulher a “ter de” pensar e resolver um vasto conjunto de pequenas questões - a marcação de consultas, o planeamento das refeições, as finanças, as visitas à família alargada, os aniversários dos amigos, etc.


Conversar, com abertura e curiosidade, sobre a melhor forma de fazer esta redistribuição pode trazer muito amparo.

Por outro lado, é importante aprender a deixar cair algumas expectativas e aceitar que, para que haja saúde mental e harmonia familiar, é preferível deixar algumas coisas por fazer. Quase todas as mães idealizam um ambiente familiar perfeito, que inclui crianças sempre limpas, cheirosas e bem vestidas e a casa impecavelmente limpa. A realidade pode ser dura de aceitar, mas é infinitamente mais provável que consigamos sentir-nos felizes e gratos por aquilo que temos se aprendermos a dosear expectativas e a fazer escolhas que nos permitam descansar o mínimo indispensável.

#2: TRAVAR SENTIMENTOS DE CULPA

Muitas mulheres alimentam sentimentos de culpa a propósito de não estarem a conseguir ser as mães que esperavam ser e /ou as mães que acham que os outros esperavam que elas fossem. Como referi antes, gerir as expectativas é essencial. Todos sabemos que não há famílias perfeitas nem mães perfeitas, mas, quando olhamos para o lado, sobretudo para as revistas e para as redes sociais, somos inundados de imagens que nos mostram que, afinal, a perfeição talvez exista.

A verdade é que os exercícios de comparação são sempre inúteis e danosos. Quando nos comparamos com outras mães, esquecemo-nos de que, quer se trate de uma figura pública ou da nossa vizinha, a realidade dos outros é sempre diferente da nossa. Os recursos podem ser diferentes, as crianças são diferentes e cada pessoa tem o direito aos próprios sentimentos e às próprias necessidades. A experiência mostra-me que, além de tudo isto, aquilo que observamos de fora é sempre uma pequenina parte da realidade de cada família. Só as pessoas que convivem diariamente dentro da mesma casa sabem o que lá se passa. Por muito que pensemos o contrário, estamos longe de conhecer os desafios e as dificuldades dos outros. Quando nos comparamos com outras realidades estamos a exercer pressão desnecessária sobre os nossos ombros e a alimentar sentimentos de culpa que nos impedirão de sermos as melhores mães que podemos ser.

#3: ACEITAR E PEDIR AJUDA

Não é fácil pedir ajuda, especialmente no que se refira aos nossos filhos. É natural que queiramos ser nós a fazer praticamente tudo e que nos sintamos frustradas por não conseguirmos.

Pedir ajuda a familiares e amigos – para tomar conta dos nossos filhos, para nos substituírem na realização de algumas tarefas ou para nos ajudarem na concretização de outras não deve ser motivo de vergonha.


Pelo contrário, pedir ou aceitar essa ajuda é um sinal de respeito por nós e um sinal de inteligência emocional. Nenhuma mulher é pior mãe por aceitar que a sogra faça algumas refeições que possam ser congeladas, especialmente se isso permitir que a mãe esteja emocionalmente mais disponível para os seus filhos do que estaria noutras circunstâncias. O mesmo acontece em relação à possibilidade de um familiar ou amigo ficar com as crianças para que a mãe possa sair um par de horas e recarregar baterias.

#4: PRESTAR ATENÇÃO AOS SENTIMENTOS

A exaustão pode estar “lá”, mas nem todas as mulheres escolhem prestar a devida atenção aos próprios sentimentos. A verdade é que deste reconhecimento tem de surgir a inevitabilidade de se efetuar mudanças. Se a mãe estiver exausta, alguma coisa tem mesmo de mudar. E isso pode implicar que a família tenha de sair da sua zona de conforto. Não vale a pena adiar o confronto com a realidade e dizer incessantemente – a si e aos outros – que “está tudo bem”. Quanto mais depressa encarar a realidade como ela é, mais rapidamente recuperará o seu bem-estar.

#5: DEIXAR AS CRIANÇAS SEREM CRIANÇAS

Voltamos às expectativas: num mundo ideal as crianças não fariam birras, muito menos em lugares públicos, mas quase todos os pais e mães sabem que essa não é a realidade. As crianças choram – umas mais do que outras –, fazem birras e, em algumas alturas, isso pode ser extenuante. Mas não vale a pena lutar com a realidade ou alimentar sentimentos de pena em relação a si mesma. Quanto maior for a sua (auto)compaixão, quanto maior for a sua compreensão em relação a uma parte da parentalidade que é geradora de tensão, maior será a probabilidade de você conseguir reagir com serenidade a estes momentos difíceis.

Deixar as crianças serem crianças também passa por aceitar que a sua casa não é um museu nem tem de estar sempre imaculada, pronta para ser fotografada para uma revista. A sua família não é a tropa e quanto mais você conseguir relaxar e aceitar que esta é uma fase (que vai passar), mais provavelmente vai conseguir aproveitar a infância dos seus filhos sem stress desnecessário.

3.7.19

COMO MELHORAR A RELAÇÃO (EM 7 PASSOS)


Como melhorar a relação


Há escolhas que podem fazer toda a diferença numa relação. Se permitirmos, a rotina e alguns (maus) hábitos podem roubar a vivacidade e o romantismo com que sempre sonhámos. Mas, se prestarmos atenção a alguns detalhes, se nos disciplinarmos e fizermos escolhas emocionalmente inteligentes, é mais provável que nos sintamos felizes e gratos pela pessoa que temos ao nosso lado.


Quais são os aspetos que os casais mais felizes têm em comum? Que escolhas é que eles fazem e que os ajudam a retirar mais satisfação da relação amorosa, mesmo depois de vinte ou trinta anos de vida em comum?




#1: GRATIDÃO


Ao fim de algum tempo, descobrimos que a pessoa por quem nos apaixonámos não é perfeita. Tem um conjunto de defeitos irritantes que não vão desaparecer, tem alguns hábitos que mexem connosco (e não é pela positiva). É tentador fazer uma caça ao erro e estar sistematicamente a apontar o dedo. Às vezes são coisas pequeninas e que achamos que vale a pena referir para desencadear a mudança. Mas, no final do dia, é fácil perdermo-nos nas críticas e não prestarmos muita atenção às coisas boas.

Os casais mais felizes cultivam o hábito de reparar nos gestos mais positivos e escolhem não dar relevo às tais pequenas coisas mais irritantes. É mesmo uma questão de escolha. Quando procuramos prestar atenção e verbalizar o nosso apreço por cada gesto que traduza o apoio de que precisamos, a gargalhada que nos ajuda a enfrentar os dias mais difíceis ou o afeto que dá cor à nossa vida, somos mais felizes.

Não é fácil dizer “obrigado” por cada vez que a pessoa de quem gostamos lava a loiça na nossa vez ou toma a iniciativa de nos ir buscar ao trabalho.


É mais fácil olhar para estes gestos como “obrigações”, sobretudo se estivermos habituados a dar de nós. Quando cultivamos a gratidão, não nos limitamos a elogiar a pessoa que está ao nosso lado. Cultivamos o nosso apreço, sentimos genuinamente mais ligados e olhamos para a realidade de forma mais serena e objetiva.


#2: CURIOSIDADE GENUÍNA


Toda a gente acha que conhece bem a pessoa que está ao seu lado. Pelo menos, ao fim de alguns anos. Mas as nossas certezas podem funcionar como filtros que nos impedem de olhar para a pessoa que amamos de forma realista. Cada um de nós vai mudando ao longo do tempo. Todos os dias há acontecimentos novos, todos os dias sentimos coisas diferentes e todos os dias precisamos de sentir que há alguém que se interessa, que quer saber, que está “lá”.

Quando adotamos – de forma intencional – uma postura de curiosidade genuína -, escolhemos colocar mais perguntas. Colocamo-las com a verdadeira vontade de saber como é que o outro está, o que é que mexe com ele(a). Por exemplo, no final do dia, quando perguntamos «Como foi o teu dia?» e prestamos MESMO atenção à resposta, mostramos que nos importamos. Quando a pessoa de quem gostamos nos conta um episódio em que alguma coisa correu mal e, em vez de nos apressarmos a fazer juízos de valor («Já sabia», «É sempre a mesma coisa») e a apontar o dedo, ele(a) sente-se só, desconectado(a). Mas quando colocamos perguntas que nos ajudem a colocar na posição da outra pessoa, a entender aquilo por que está a passar, é mais provável que nos sintamos ligados.

Não é uma questão de nos anularmos nem de passarmos a mão pela cabeça do outro sempre que ele(a) erra. É uma questão de ”querer saber” em vez de “querer julgar”.


#3: LEVEZA


Para alguns casais, sobretudo quando há filhos, o dia-a-dia pode tornar-se demasiado pesado. A páginas tantas, podemos sentir que a única coisa que temos em comum é a gestão das responsabilidades domésticas. Uma relação é tão mais feliz e coesa na medida em que escolhamos encontrar tempo para a diversão, para o namoro. As saídas a dois em que possamos relaxar, rir, dançar ou simplesmente ter conversas de adultos que não envolvam a resolução de problemas são essenciais para que continuemos a sentir-nos vivos no relacionamento.

Mas mesmo quando as saídas a dois escasseiam, sobretudo pela falta de uma rede de suporte, é possível criar momentos de descontração.


Há rituais que nos ajudam a sentir mais ligados
e relaxados: ver uma série de televisão a dois,
jantar sem os filhos, planear as férias, desconectarmo-nos
do trabalho e das redes sociais e fazer programas
em família que não estejam apenas focados no
interesse dos filhos são alguns exemplos.




#4: HONESTIDADE


A mentira é um veneno para qualquer relação. Faz-nos sentir inseguros, faz com que não consigamos dar o melhor de nós. Mas quando me refiro à honestidade, refiro-me a algo mais profundo do que não mentir de forma grosseira ou desleal. Refiro-me à possibilidade de escolhermos revelar-nos por inteiro. Quando damos a conhecer aquilo que mexe connosco, sem medos, e percebemos que a pessoa que está ao nosso lado continua a amar-nos, sentimo-nos invariavelmente mais fortes e mais ligados.

Revelar os nossos sonhos e aquilo que nos entusiasma pode parecer fácil, mas, na prática, nem sempre o é. Sobretudo se alguns desses sonhos colidirem com os sonhos da outra pessoa ou implicarem que a família saia da sua zona de conforto. Mas a verdade é que se nós não nos revelarmos exatamente como nós somos vamos acabar por acumular frustração e ressentimento.

Por outro lado, é fundamental que consigamos falar abertamente sobre aquilo que nos desagrada, sem ocultar nada, sem mascarar sentimentos. Só assim podemos dar oportunidade à outra pessoa de mudar o que for possível mudar e de mostrar que se importa connosco. Só assim poderemos sentir-nos genuinamente felizes.


#5: ABERTURA


Ao fim de vinte ou trinta anos, ninguém é exatamente a mesma pessoa. Nós vamos mudando, vamos evoluindo. Os nossos gostos mudam, os nossos hábitos mudam e às vezes alguns dos nossos valores também. Nem sempre é fácil aceitar as mudanças da pessoa que está ao nosso lado. Às vezes, essas mudanças podem obrigar-nos a sair da nossa zona de conforto. Mas essa é a única forma de continuarmos felizes ao lado daquela pessoa.

Há quem diga que, no futuro, cada um de nós terá de certeza dois ou três casamentos. Alguns de nós teremos o privilégio de viver dois ou três casamentos com a mesma pessoa. Se escolhermos manter-nos presos ao passado, às características que nos atraíram no início e não houver abertura para a novidade, para a mudança, a relação pode estar condenada.


#6: AFETO



Podemos viver (algum tempo) sem sexo. Podemos viver algum tempo mergulhados nos problemas e desafios sem muita disponibilidade para conversas profundas e demoradas. Mas precisamos de ser tocados, precisamos de sentir que a pessoa que está ao nosso lado é capaz de mostrar o seu amor desta forma.

E, mesmo nas alturas de maior stress, é possível cultivar hábitos saudáveis. Por exemplo, se, em vez dos beijinhos apressados de manhã e à noite trocarmos um beijo de seis segundos, sentir-nos-emos mais felizes, mais ligados e, na prática, só gastámos seis segundos de cada vez.


#7: RESPEITO


Há quem fuja a sete pés das discussões, mas as discussões são normais e saudáveis. Ou, pelo menos, podem ser. Quando discutimos, mostramos aquilo que nos desagrada, revelamo-nos e temos a oportunidade de mostrar que nos importamos com o que o outro sente. Mas se o fizermos “à bruta”, corremos mais riscos. Pelo contrário, quando assumimos a intenção de respeitar sempre a pessoa que amamos, mesmo quando discutimos, é mais provável que façamos escolhas que nos protejam, que nos mantenham ligados. Isso pode passar por reconhecer que estamos demasiado enervados e precisamos de fazer um “time out” para não dizermos disparates, estamos a proteger a relação.

Por outro lado, esta intenção pode levar-nos a olhar com mais atenção para os apelos da pessoa que está ao nosso lado. Nem sempre teremos a disponibilidade emocional para ouvir todas as conversas ou para dizer “sim” ao que nos é pedido. Mas se escolhermos tratar a outra pessoa com todo o nosso respeito, não vamos revirar os olhos quando ele(a) se referir a assuntos que não nos interessam nem vamos mostrar desprezo de forma alguma. Vamos saber dizer “não” centrando-nos nas nossas emoções e tratando a outra pessoa com a bondade que merece.

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