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16.7.19

BURNOUT DAS MÃES



O que é o burnout parental? E porque é que afeta mais mulheres do que homens? No post de hoje partilho algumas dicas que espero que possam ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta situação.

São indiscutivelmente mais mulheres do que homens que me pedem ajuda na sequência de um estado de exaustão relacionado com o exercício da parentalidade. Por um lado, isso está relacionado com o facto de acumularem mais responsabilidades relacionadas com a casa e com os filhos sem deixarem de investir nas respetivas carreiras. Por outro lado, está relacionado com a exigência que colocamos sobre nós mesmas e sobre as mulheres à nossa volta. Somos invariavelmente mais exigentes com as mulheres do que com os homens.

O que é o burnout parental?

O burnout (parental) pode ser caracterizado por um conjunto de sintomas que traduzem um estado de exaustão e que vão desde o cansaço extremo, à irritabilidade constante, perturbações do sono, depressão, ansiedade e impossibilidade de sentir prazer associado ao exercício da parentalidade.

Nem todas as mães mostram os mesmos sintomas e, em função da pressão de que falei antes, é comum que as mulheres guardem para si os próprios sentimentos e que, pelo menos durante algum tempo, tudo pareça “normal”. Mas o burnout é um assunto sério, que merece ser tratado de maneira a que as famílias possam continuar a crescer em genuína harmonia.

O que é que pode ser feito em relação ao burnout das mães?

Se houver um quadro depressivo/ ansioso, o melhor é pedir ajuda especializada. Ninguém merece passar por isto sem ajuda. Paralelamente, há um conjunto de dicas que podem ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta realidade:




#1: TEMPO PARA DESCANSAR


É muuuuito mais fácil falar do que fazer. A verdade é que muitas famílias não dispõem de uma rede de suporte que lhes permita usufruir de uma ou outra noite sem filhos e muito menos de tempo para sair e descomprimir. A cada família compete olhar para a realidade e identificar os recursos que existem. Às vezes, aquilo que é possível fazer é redistribuir as responsabilidades domésticas e familiares. Não me refiro apenas a delegar no marido mais tarefas domésticas.

Muitas vezes a exaustão advém sobretudo da sobrecarga mental associada ao facto de ser a mulher a “ter de” pensar e resolver um vasto conjunto de pequenas questões - a marcação de consultas, o planeamento das refeições, as finanças, as visitas à família alargada, os aniversários dos amigos, etc.


Conversar, com abertura e curiosidade, sobre a melhor forma de fazer esta redistribuição pode trazer muito amparo.

Por outro lado, é importante aprender a deixar cair algumas expectativas e aceitar que, para que haja saúde mental e harmonia familiar, é preferível deixar algumas coisas por fazer. Quase todas as mães idealizam um ambiente familiar perfeito, que inclui crianças sempre limpas, cheirosas e bem vestidas e a casa impecavelmente limpa. A realidade pode ser dura de aceitar, mas é infinitamente mais provável que consigamos sentir-nos felizes e gratos por aquilo que temos se aprendermos a dosear expectativas e a fazer escolhas que nos permitam descansar o mínimo indispensável.

#2: TRAVAR SENTIMENTOS DE CULPA

Muitas mulheres alimentam sentimentos de culpa a propósito de não estarem a conseguir ser as mães que esperavam ser e /ou as mães que acham que os outros esperavam que elas fossem. Como referi antes, gerir as expectativas é essencial. Todos sabemos que não há famílias perfeitas nem mães perfeitas, mas, quando olhamos para o lado, sobretudo para as revistas e para as redes sociais, somos inundados de imagens que nos mostram que, afinal, a perfeição talvez exista.

A verdade é que os exercícios de comparação são sempre inúteis e danosos. Quando nos comparamos com outras mães, esquecemo-nos de que, quer se trate de uma figura pública ou da nossa vizinha, a realidade dos outros é sempre diferente da nossa. Os recursos podem ser diferentes, as crianças são diferentes e cada pessoa tem o direito aos próprios sentimentos e às próprias necessidades. A experiência mostra-me que, além de tudo isto, aquilo que observamos de fora é sempre uma pequenina parte da realidade de cada família. Só as pessoas que convivem diariamente dentro da mesma casa sabem o que lá se passa. Por muito que pensemos o contrário, estamos longe de conhecer os desafios e as dificuldades dos outros. Quando nos comparamos com outras realidades estamos a exercer pressão desnecessária sobre os nossos ombros e a alimentar sentimentos de culpa que nos impedirão de sermos as melhores mães que podemos ser.

#3: ACEITAR E PEDIR AJUDA

Não é fácil pedir ajuda, especialmente no que se refira aos nossos filhos. É natural que queiramos ser nós a fazer praticamente tudo e que nos sintamos frustradas por não conseguirmos.

Pedir ajuda a familiares e amigos – para tomar conta dos nossos filhos, para nos substituírem na realização de algumas tarefas ou para nos ajudarem na concretização de outras não deve ser motivo de vergonha.


Pelo contrário, pedir ou aceitar essa ajuda é um sinal de respeito por nós e um sinal de inteligência emocional. Nenhuma mulher é pior mãe por aceitar que a sogra faça algumas refeições que possam ser congeladas, especialmente se isso permitir que a mãe esteja emocionalmente mais disponível para os seus filhos do que estaria noutras circunstâncias. O mesmo acontece em relação à possibilidade de um familiar ou amigo ficar com as crianças para que a mãe possa sair um par de horas e recarregar baterias.

#4: PRESTAR ATENÇÃO AOS SENTIMENTOS

A exaustão pode estar “lá”, mas nem todas as mulheres escolhem prestar a devida atenção aos próprios sentimentos. A verdade é que deste reconhecimento tem de surgir a inevitabilidade de se efetuar mudanças. Se a mãe estiver exausta, alguma coisa tem mesmo de mudar. E isso pode implicar que a família tenha de sair da sua zona de conforto. Não vale a pena adiar o confronto com a realidade e dizer incessantemente – a si e aos outros – que “está tudo bem”. Quanto mais depressa encarar a realidade como ela é, mais rapidamente recuperará o seu bem-estar.

#5: DEIXAR AS CRIANÇAS SEREM CRIANÇAS

Voltamos às expectativas: num mundo ideal as crianças não fariam birras, muito menos em lugares públicos, mas quase todos os pais e mães sabem que essa não é a realidade. As crianças choram – umas mais do que outras –, fazem birras e, em algumas alturas, isso pode ser extenuante. Mas não vale a pena lutar com a realidade ou alimentar sentimentos de pena em relação a si mesma. Quanto maior for a sua (auto)compaixão, quanto maior for a sua compreensão em relação a uma parte da parentalidade que é geradora de tensão, maior será a probabilidade de você conseguir reagir com serenidade a estes momentos difíceis.

Deixar as crianças serem crianças também passa por aceitar que a sua casa não é um museu nem tem de estar sempre imaculada, pronta para ser fotografada para uma revista. A sua família não é a tropa e quanto mais você conseguir relaxar e aceitar que esta é uma fase (que vai passar), mais provavelmente vai conseguir aproveitar a infância dos seus filhos sem stress desnecessário.

6.6.19

DIREITOS DAS CRIANÇAS AO LONGO DO DIVÓRCIO


Direitos das crianças ao longo do divórcio

O divórcio é uma perda gigantesca para todos os membros da família. Os adultos têm de lidar com sentimentos intensos de tristeza, medo, culpa, raiva e vergonha. Como se isso não fosse bastante, esta é precisamente a altura em que o mundo espera que sejam os melhores pais e mães que possam ser. Quais são as escolhas que podem ajudar a concretizar um divórcio emocionalmente inteligente para os filhos?


Passo mais tempo a “salvar” casamentos do que a ajudar alguém a divorciar-se, mas há cada vez mais pessoas que me pedem ajuda na sequência de um processo de divórcio. Quase todos os pais e mães que me procuram trazem a intenção de garantir que as suas escolhas garantam que os interesses dos filhos sejam salvaguardados. É praticamente impossível passar por um divórcio sem alguma dose de sofrimento, MAS há escolhas que podem fazer com que passados vinte ou trinta anos os pais e mães se sintam orgulhosos do caminho que fizeram. Na prática, se o pai e a mãe se comprometerem e reconhecerem os direitos dos filhos, eles podem continuar a desenvolver-se do ponto de vista emocional de forma tão saudável quanto aconteceria numa família tradicional.



AO LONGO DO DIVÓRCIO OS FILHOS TÊM O DIREITO DE…


#1: SABER QUE NÃO TÊM CULPA


Pode parecer óbvio, sobretudo se os pais estiverem empenhados em proteger os interesses dos filhos, mas a verdade é que as crianças facilmente fantasiam a propósito da sua responsabilidade quando há uma separação. Se os pais já tiveram discussões – normais – a respeito da educação ou dos gastos com os filhos, há alguma probabilidade de as crianças imaginarem que possam ter contribuído para a separação. Os adolescentes tendem muitas vezes a sentir-se culpados por não conseguirem amparar os pais na medida certa e/ou por não conseguirem evitar que eles se zangassem.

Por tudo isto e muito mais, é fundamental que os pais procurem transmitir de forma clara, inequívoca, que os filhos não têm NENHUMA responsabilidade sobre o processo de separação. E é fundamental que esta informação seja repetida várias vezes – antes, durante e depois do divórcio.

#2: SABER O QUE VAI ACONTECER


Os filhos precisam de saber com o que é que podem contar.

O divórcio representa um conjunto de perdas, que por sua vez trazem instabilidade e insegurança. Os filhos sentem-se mais amparados e seguros se souberem onde vão viver, com quem, quando é que vão poder estar com cada um dos progenitores, em que escola vão estudar e que outras mudanças terão de enfrentar. Isto NÃO significa que os pais tenham de ter todas as respostas no momento em que comunicam que se vão separar. Precisam, isso sim, de assumir que serão capazes de resolver cada questão a dois, tendo a intenção de proteger os interesses dos filhos, e de transmitir cada decisão à medida que elas sejam tomadas.

#3: SEREM ESCUTADOS E CONFORTADOS


Não há volta a dar: os filhos sofrem com a separação dos pais e, em muitos casos, choram. Para os pais, pode ser tentador oferecer-lhes oportunidades de se divertirem e distraírem desta tristeza ou ainda esforçarem-se para reconhecer o lado positivo da mudança. Por exemplo, é comum ouvi-los dizer coisas como «Agora vais ter dois quartos» ou «Vais ter brinquedos a duplicar». Mas, tal como acontece com os adultos, a tristeza das crianças precisa de ser vivida e exteriorizada. Os filhos até podem perceber o desconforto dos pais em relação à sua tristeza e fazer esforços para a conter. Isso não significa que não a sintam. Significa apenas que estão a fazer o que podem para proteger os pais. Não é isso que a maior parte dos pais e mães desejam.

Dar oportunidade aos filhos para falarem sobre os seus sentimentos, dar colo e estar “lá” sem tentar disfarçar a tristeza é essencial para garantir que se sintam amparados. Muitas vezes este papel acaba por ser desempenhado por outros adultos, com quem as crianças se sintam livres para expressar tudo o que sentem.

#4: SEREM POUPADOS AOS CONFLITOS


É natural que uma separação esteja envolvida em níveis elevados de tensão. Nem sempre é fácil impedir que os filhos assistam a discussões acesas entre o pai e a mãe. Mas os pais podem fazer o que estiver ao seu alcance para não envolver os filhos nas suas discussões. A última coisa que deve acontecer é que algum dos adultos procure que os filhos lhe atribua razão e/ou se coloque contra o outro progenitor.

Os filhos precisam de sentir que há uma diferenciação clara entre o papel conjugal e o papel parental e que o pai e a mãe continuam a fazer o que é possível para que os problemas dos adultos sejam geridos pelos adultos.

#5: NÃO CONHECER OS DETALHES DA SEPARAÇÃO


Na medida em que haja feridas profundas, associadas a uma traição ou à sensação de abandono, pode ser tentador dizer “a verdade” aos filhos e, assim, conseguir a sua solidariedade, mas esta pode ser uma forma de violência. Independentemente do que aconteça à relação conjugal, o pai e a mãe continuarão a ser figuras de referência para os filhos e os detalhes da separação só acrescentam mágoa.



#6: NÃO SEREM OBRIGADOS A ESCOLHER UM PROGENITOR


Na maior parte das vezes, os pais e as mães estão genuinamente bem-intencionados. Mesmo quando defendem que as crianças fiquem sob a sua guarda total, fazem-no porque acreditam que essa seria a melhor opção. Às vezes, os pais procuram conhecer a opinião dos filhos com a genuína vontade de perceber o que é melhor para eles. Mas uma coisa é pedir a opinião a um(a) filho(a) adolescente sobre a casa onde gostaria de viver e lembrar que a decisão tem de ser tomada pelos adultos. Outra, bem diferente, é pressionar a criança (ou o adolescente) para que escolha um progenitor em detrimento do outro.

#7: NÃO SERVIR DE CORREIO


Quando há tensão, é natural que a vontade de encarar o outro progenitor seja praticamente inexistente, mas quando há filhos há sempre assuntos para tratar. Pode parecer mais simples enviar alguns recados através dos filhos, sobretudo se se tratar de assuntos relacionados com eles, mas, de uma maneira geral, os filhos sentem-se desconfortáveis neste papel. Felizmente, na maioria das vezes acabam por ser muito claros respondendo a estes pedidos com frases como «Trata tu disso». Os pais podem encarar estas respostas como uma forma de rebeldia, mas a verdade é que compete aos adultos encontrar formas de comunicar sem envolver as crianças. O e-mail e as SMS são uma boa alternativa.

#8: MANTER CONVERSAS PRIVADAS COM CADA PROGENITOR


Alguns pais e mães sentem muita curiosidade em relação ao tempo que as crianças passam com o outro progenitor. Nalguns casos, há medo do que ele(a) possa dizer, noutros há sobretudo um braço-de-ferro que ainda não terminou. Independentemente daquilo que esteja por detrás dessa curiosidade, é fundamental que os filhos sejam tratados com respeito e isso também deve implicar o direito a não falar sobre aquilo que é conversado com o outro progenitor – seja quando estão noutra casa, seja quando falam ao telefone. A última coisa de que os filhos precisam é de serem interrogados e forçados a partilhar informações que os façam sentir desconfortáveis.

#9: NÃO SEREM FORÇADOS A MENTIR


À medida que a tensão sobe, é cada vez mais difícil olhar para a realidade com objetividade e serenidade. Quando a mágoa cresce, é possível que cada um dos progenitores olhe para o outro com ressentimento e com a crença de que ele(a) não merece ter a guarda dos filhos. Pior do que isso, nalguns casos a mágoa é tão grande que a intenção é castigar o outro progenitor. Infelizmente, algumas crianças são forçadas a mentir com este propósito. Esta é uma forma de violência que pode deixar marcas irreparáveis.

É importante relembrar que os filhos são mais saudáveis quando têm a oportunidade de continuar a desenvolver um vínculo estável e saudável com os dois progenitores.

#10: CONTINUAR A RELACIONAR-SE COM A FAMÍLIA ALARGADA


Independentemente do que aconteça ao casal, aos olhos das crianças, os avós vão continuar a ser avós, os tios vão continuar a ser tios, os primos vão continuar a ser primos. E cada uma destas pessoas é uma fonte de afeto e segurança para as crianças. Retirar-lhes a possibilidade de se relacionarem com alguns membros da SUA família também é uma forma de violência. O divórcio implica um conjunto de perdas inevitáveis. Não faz sentido que haja ainda mais.

#11: SABER DA EXISTÊNCIA DE NOVOS PARCEIROS


O segredo é sempre tóxico. Quando as crianças suspeitam que há alguma coisa que lhes esteja a ser ocultada, sentem-se mais inseguras. A confiança na relação com o pai e com a mãe também vai depender da capacidade de manter uma postura de genuína honestidade. É compreensível que os adultos não queiram precipitar-se, apresentando à criança um(a) novo(a) namorado(a) e arriscando que a relação termine e a criança seja exposta a mais uma perda, MAS é ainda menos desejável que um(a) filho(a) tenha de lidar sozinho(a) com todos os medos que invariavelmente surgem com esta suspeita.

15.5.19

DISCUTIR À FRENTE DOS FILHOS: SIM OU NÃO?


Discutir à frente dos filhos

A maior parte dos pais e mães esforçam-se para que não haja discussões à frente dos filhos, mas, na azáfama dos dias, nem sempre conseguem evitar que isso aconteça. Que impacto é que as discussões conjugais têm no bem-estar das crianças?


Ao contrário do que se possa pensar, as discussões conjugais podem não ter um impacto negativo na vida das crianças. Claro que nenhum filho gosta de assistir a um momento de tensão, mas a verdade é que os conflitos, o sofrimento e a raiva fazem parte da vida. Quando o pai e a mãe discutem, também estão a mostrar às crianças como é que se deve exteriorizar estes sentimentos. Estão a mostrar-lhes, de forma prática, que aquilo que cada um sente pode e deve ser exteriorizado. Ainda mais importante do que isto, estão a mostrar que se importam com esses sentimentos.

Nem todas as discussões ficam resolvidas no momento. Pelo contrário, às vezes ficamos magoados com aquilo que é dito durante a discussão e/ou arrependemo-nos de algumas das coisas que dissemos. Quando um dos membros do casal toma a iniciativa de pedir desculpa ou faz outra tentativa de aproximação, os ânimos acalmam e a normalidade regressa. Quando as crianças assistem com regularidade a estes ciclos, aprendem a dar voz ao seu próprio sofrimento e à sua raiva com respeito pelo outro e aprendem a fazer o que está ao seu alcance para fazer as pazes.

Discutir (e fazer as pazes) na presença dos filhos pode ajudá-los a regular as próprias emoções e a resolver problemas.


Por outro lado, é importante que nos lembremos de que talvez não seja boa ideia darmos o nosso melhor no sentido de escondermos todos os momentos de tensão, uma vez que as crianças são particularmente sensíveis às nossas flutuações de humor. Qualquer criança de dois ou três anos é capaz de reconhecer quando estamos tristes ou zangados. Se evitarmos expô-las a todos os conflitos, é provável que elas se sintam mais alarmadas, com medo do que possa estar a ser ocultado.



Quando é que as discussões fazem mal às crianças?


Claro que nem todas as discussões são oportunidades de ensinar alguma coisa às crianças. Na verdade, há circunstâncias em que as discussões dos pais representam um perigo para a estabilidade emocional dos filhos. Por exemplo, sempre que um ou os dois membros do casal gritar de forma exacerbada com o outro, se houver insultos ou, pelo contrário, o desprezo for evidenciado sob a forma de amuos ou do “tratamento do silêncio”, as crianças sofrem de forma intensa e desnecessária.

Sempre que o comportamento dos membros do casal traduza desrespeito, as crianças sofrem.


O impacto deste tipo de discussões pode envolver:
Perturbações do sono
Perturbações do comportamento alimentar
Ansiedade
Depressão
Comportamentos desafiantes



Por outro lado, e mesmo que não haja sinais de desrespeito, é importante que os membros do casal prestem atenção à frequência e à intensidade das discussões. Se as crianças se derem conta de que o pai e a mãe estão a discutir de forma frequente e intensa, sentir-se-ão provavelmente muito aflitas.

Esta aflição é ainda maior quando, aos olhos das crianças, o pai e a mãe estão a discutir sobre elas ou por culpa delas. Nós sabemos que as crianças não são responsáveis pelas brigas dos pais, mas é fundamental que tenhamos especial atenção aos conflitos que girem à volta de assuntos relacionados com os filhos. Quando o pai e a mãe discutem sobre o dinheiro que tem de ser gasto com a escola ou com a roupa da criança, podem, involuntariamente, criar a sensação de culpa e promover os níveis de ansiedade.

Quando nos mantemos atentos ao estado emocional das crianças, é mais provável que façamos escolhas conscientes, que nos ajudem a manter a felicidade familiar. Por um lado, isso passa por prestar muita atenção à forma como discutimos e, por outro lado, por manter uma postura de curiosidade genuína em relação aos sentimentos das crianças. Oferecer-lhes a nossa autenticidade e o nosso conforto é um passo importante para que se sintam seguras.

7.1.19

COMO CONTINUAR A SER FAMÍLIA DEPOIS DO DIVÓRCIO

Como continuar a ser família depois do divórcio


Quando um casal se separa, é usual dizer-se que é uma família que se desfaz. O pai vai para um lado e a mãe vai para o outro. Para as crianças as questões logísticas são apenas uma parte do assunto. Para os filhos, a família mantém-se – o pai é o pai e a mãe é a mãe. O que é que os adultos podem fazer para que, apesar das perdas, a família possa continuar a ser uma fonte de paz e segurança?


O divórcio é o segundo acontecimento mais stressante da vida familiar – apenas ultrapassado pela morte do companheiro ou de um filho. Por mais que ouçamos falar de divórcios e de separações de forma mais ou menos banal, por muito que as estatísticas nos mostrem que há cada vez mais famílias a passar por isso – em Portugal já há 7 divórcios por cada 10 casamentos que ocorram -, vale a pena lembrar que este é, de uma maneira geral, um processo doloroso para todos. Talvez se encurtem caminhos na medida em que nos lembremos disso e sintamos compaixão pelo sofrimento de cada pessoa envolvida antes de darmos por nós a fazer juízos de valor precipitados.

Ninguém deseja o divórcio e, mesmo quando um dos adultos toma essa iniciativa, fá-lo quase sempre com muita tristeza e apreensão à mistura.


Quanto maior for a capacidade de cada adulto para gerir as suas emoções, maior a probabilidade de o bem-estar das crianças ser assegurado.

Contar às crianças que os pais se vão separar:

A importância de dizer a verdade.


Quando há filhos, o momento de ter “a” conversa e anunciar o divórcio pode ser particularmente stressante. A maior parte dos pais e mães que conheço desejam genuinamente o melhor para os seus filhos em todas as circunstâncias. Quando o divórcio é o caminho que os adultos sabem que têm de percorrer para voltarem a ser felizes, pode ser muito difícil lidar com a tristeza que as crianças invariavelmente sentirão. Pelo meio, há conflitos, há emoções contraditórias e há quase sempre um adulto que está mais ligado do que o outro e que pode ter dificuldade em manter-se sereno. É normal.

Não é fácil manter o foco, prestar muita atenção à forma como os filhos estão a acompanhar o processo de separação emocional e acompanhá-los antes da decisão oficial. Tenho-me cruzado com muitos pais que achavam que as crianças não sabiam de nada e que foram surpreendidos aquando do anúncio oficial. Não nos apressemos a julga-los. Estão quase sempre a viver o pior momento das suas vidas.

Aquilo que procuro transmitir a todos os pais e mães é que se esforcem por serem verdadeiros com as crianças, adaptando naturalmente a linguagem à idade de cada filho.


Quando a decisão estiver tomada, o ideal é que as crianças possam receber a notícia através de uma conversa serena em que estejam presentes os dois progenitores. Para quê? Para que, sem culpas nem acusações, possam mostrar às crianças que eles – os adultos – são os responsáveis por esta decisão e que continuarão a garantir que elas – as crianças – continuarão a sentir-se amadas pelos dois.

O que é isso de dizer a verdade?


Quando me refiro à importância de dizer a verdade, refiro-me sobretudo a não correr o risco de deixar as crianças desamparadas. Não permitir que haja a possibilidade de os filhos terem de lidar com toda a carga deste acontecimento sem sentirem que há espaço para conversar com os pais. A minha experiência como terapeuta familiar permite-me garantir-vos que há mesmo muitas crianças que mostram solidariedade pelo sofrimento dos adultos e que acabam por sofrer caladas. Por isso, é importante que os adultos não se resignem ao silêncio das crianças e que assumam a verdade de forma proativa.

Mas isto é muito diferente de escolher partilhar com elas os detalhes da separação. O que é que uma criança tem a ganhar com a revelação de uma traição? O que é que acrescenta ao bem-estar de um filho saber os pormenores que conduziram à rutura? Eu direi que é importante que os adultos tenham especial cuidado para não transformarem as crianças nos seus aliados em qualquer missão contra o ex-companheiro.

É normal que uma pessoa se sinta vítima do ex-companheiro. É normal que se sinta injustiçada, magoada. Mas é desejável que consiga gerir essas emoções recorrendo ao apoio de outros adultos e dando o seu melhor para que os filhos continuem a sentir-se amparados tanto pelo pai como pela mãe.

Quando, pelo contrário, uma criança se sente na obrigação de defender um dos progenitores por se tratar do elo mais fraco, isso coloca-a numa posição em que nenhuma criança deveria ter de ficar.

Depois do divórcio:

O que é que vai acontecer?


Ao longo do processo de afastamento emocional, e ainda antes de a decisão se consolidar, é normal que as dúvidas assaltem o pensamento dos adultos. E agora? Como é que vai ser? Será que o dinheiro vai chegar? Para onde vou viver? Quanto tempo vou passar com os meus filhos? Como é que as pessoas à minha volta vão reagir? Será que a tristeza vai passar?

Eu gostava de dizer que a maior parte dos pais e mães têm respostas para estas e outras perguntas no momento da separação mas isso não seria real.

Na prática, pode levar tempo até que os adultos se entendam ou até que as questões práticas se definam. É normal. Há muitas emoções para gerir, lembra-se?


Quando os adultos sentem compaixão por si mesmos e aceitam que as dúvidas façam parte da sua realidade, é mais provável que se sintam em paz, apesar de todas as interrogações. E é exatamente isso que pode ser transmitido às crianças.

É natural que as crianças tenham muitas dúvidas, muitos medos. Algumas crianças fazem muitas perguntas. Outras só querem saber se vão ter de sair da casa onde vivem. Outras não perguntam nada e até podem fazer com que os adultos se convençam de que não têm curiosidade. É a conversar que as podemos confortar. Sempre. Mas isso não significa que os pais tenham de ter as respostas para todas as perguntas.

Os pais podem antecipar algumas perguntas e preparar-se para a(s) conversa(s) mas é importante que deixem espaço para o aparecimento de perguntas para as quais não estejam preparados. Não há qualquer problema em responder «Não sei» ou «Ainda não pensámos nisso». Aquilo de que as crianças mais precisam é da certeza de que os adultos se vão conseguir entender e negociar para que as decisões práticas sejam definidas. 

Vai ficar tudo bem


Quando a decisão é anunciada, é pouco provável que esteja tudo bem. Por norma, pelo menos um dos adultos está devastado e ambos podem ter dificuldade em conter as emoções. Tenho trabalhado com muitos pais e mães que me dizem que fizeram um esforço hercúleo para não chorar à frente dos filhos. Para quê? – pergunto. As crianças não gostam de ver o pai ou a mãe a chorar mas isso não significa que seja preferível tentar ocultar as emoções. Quando o pai ou a mãe chora à frente dos filhos (sem se vitimizar nem acusar o ex-companheiro), está a mostrar as suas emoções e a abrir espaço para que as crianças façam o mesmo. Depois é importante tranquiliza-las e explicar que NESTE MOMENTO não está tudo bem mas vai ficar tudo bem.

Dizer, com clareza e honestidade, que os adultos vão precisar de tempo para gerir tanto as questões práticas como as suas emoções é dar às crianças a mesmíssima possibilidade. Elas também devem ter a oportunidade de viver a tristeza, o medo ou a raiva com o tempo de que precisarem. E podem sempre ser confortadas com a certeza de que VAI MESMO ficar tudo bem.

No meio das incertezas, aquilo que importa assegurar é que os adultos se esforçarão por continuar a focar-se no bem-estar dos filhos e isso também passa por darem o seu melhor no sentido de AMBOS continuarem a estar presentes de forma regular na vida das crianças. A guarda e as responsabilidades parentais podem não estar (ainda) definidas mas as crianças sentir-se-ão infinitamente mais tranquilas se ouvirem os adultos explicar-lhes que serão capazes de conversar e negociar para que ambos continuem a estar presentes nos acontecimentos que fazem parte do dia-a-dia dos filhos – na escola, nas festas, no médico, nas férias, na ronha dos fins-de-semana, nos trabalhos-de-casa, nas conversas sobre as zangas com os amiguinhos.

O divórcio representa um conjunto de perdas para os filhos – não há como negar. Não é sequer desejável que os adultos procurem criar um conjunto de compensações que impeçam os filhos de prestar atenção à própria tristeza. Cada passo tem o seu tempo. Mas o divórcio pode ser muito menos stressante se os adultos derem o seu melhor para garantir que as crianças se sintam respeitadas e livres para continuarem a sentir-se ligadas a todos os adultos de quem gostam – e isso inclui a liberdade de construírem ligações de afeto e proximidade ao pai, à mãe, aos avós, aos tios, aos primos e a todas as pessoas que já faziam parte da sua rede de afetos.

26.11.18

VIOLÊNCIA NO NAMORO: O QUE É?

Violência no namoro

Em Portugal mais de 50 por cento dos jovens assumem que já foram expostos a comportamentos violentos no namoro. Um em cada 5 admite ter sido vítima de violência emocional. Os números são tão alarmantes quanto a constatação de que, para a maioria dos jovens, perseguir, ameaçar ou empurrar são comportamentos “normais”.


No princípio parecia perfeito. Ele fazia-te sentir realmente especial. Enviava-te 30 mensagens por dia, quase todas “só “ para dizer que te amava e para te perguntar como estavas. Pelo meio também perguntava onde estavas e com quem mas aquilo parecia-te mais uma demonstração de interesse. Quando deste conta, já não eram 30 mensagens, eram centenas, e tu já não te sentias especial. Sentias a obrigação de descrever em detalhe os sítios onde estavas e sentias medo. Medo que ele achasse que não estavas a ser totalmente sincera, medo que ele se zangasse e gritasse contigo, medo que ele te dissesse que não estavas a ser a namorada que ele esperava. Como é que isto aconteceu? Como é que a pessoa que te fez sentir amada passou a ter comportamentos que te fazem sentir constantemente com medo e vergonha?

Tu só querias continuar a viver a história de amor que viveram juntos nos primeiros tempos e não percebeste que, quando ele te dizia coisas como “Se tu gostasses mesmo de mim, não sairias à noite com as tuas amigas", não estava a ser querido e a mostrar os seus sentimentos. Estava a desrespeitar o teu direito de continuares a estar com outras pessoas e a tentar controlar-te. Mas era difícil seres firme e dizeres exatamente aquilo que querias quando, depois das crises de ciúmes em que ele explodia e partia objetos à tua frente, ele voltava a parecer tão querido e tão vulnerável quando te pedia desculpas, prometia que não voltaria a fazê-lo e te fazia as mais bonitas declarações de amor. Acreditaste sempre que ele te disse que só se zangava porque tu eras especial. Convenceste-te de que ele estava a dizer a verdade quando afirmava que os ciúmes só existiam porque te amava e que, se tu gostasses mesmo dele, te preocuparias e farias o que estivesse ao teu alcance para não o veres sofrer. Percebes agora a ironia? Eras tu que sofrias com esta chantagem emocional. Eras tu que te anulavas. Eras tu que sentias a energia a ser sugada.

Aos poucos, foste-te afastando dos teus amigos. Primeiro, porque ele dizia que era um desperdício passar tempo com outras pessoas, depois porque ele passou a por defeitos em todas as pessoas à tua volta. Já não eras a miúda feliz que cumprimentava toda a gente. As tuas amigas estranharam o desaparecimento, insistiram para que te encontrasses com elas e foram desistindo de o fazer à medida que rejeitavas as chamadas ou inventavas desculpas para não estares com elas. Passaste a viver em função das necessidades do teu namorado - o teu amor - e, sem dares por isso, foste perdendo o teu sorriso. Passaste a ser a rapariga de olhos tristes que ora se sentia esperançada de que os “maus momentos fossem passageiros”, ora se se sentia envergonhada por estar a viver um amor assim, com tantos momentos duros.

Andavam sempre juntos e, à primeira vista, parecia mesmo que não queriam estar com outras pessoas. Mas a tua realidade era outra: tu não podias ir a lado nenhum sem ele. Ele dizia-te que era por te amar mas, na verdade, aquilo eram perseguições que te deixavam desconfortável e que serviam para te controlar.

No Instagram e no Facebook não faltavam fotografias vossas, sempre a dois. Mas quem fazia like às tuas publicações estava longe de imaginar que tu nem sequer tinhas autorização para responder às mensagens que te enviavam.


Como é que isto aconteceu? Como é que ele passou a controlar as tuas contas de e-mail? Como é que ele passou a sentir que tinha legitimidade para responder por ti no Whatsapp ou para bloquear amigos no Facebook? No princípio parecia tudo tão claro, tão lógico. “Se tu gostasses mesmo de mim…”. Ele e as manipulações. Ele e as juras de amor. E tu foste acreditando e foste cedendo. Só querias que ele se sentisse seguro e foste tentando dar todas as provas do teu amor, sem perceberes que aquilo não eram exigências razoáveis. Eram tentativas de exercer controlo sobre ti. Eram maus-tratos. Quem ama não nos afasta das pessoas que nos querem bem. 

Quem ama também não precisa de controlar aquilo que tu vestes, não te proíbe de usar calças justas ou minissaia. Tu tinhas o direito de vestir o que entendesses e, ao contrário do que ele te dizia, as tuas roupas não serviam “para engatar outros rapazes”. Isso era apenas ele a tentar que te sentisses culpada.

Não foi o amor que fez com que o teu namorado te humilhasse, te chamasse nomes ou ameaçasse publicar aquelas fotografias que tiraste só para ele. Foi sempre a vontade de te controlar, de te manter sob o seu poder.

Agora parece tudo tão claro: tu não foste respeitada quando disseste que não tinhas vontade de ter relações sexuais e ele te persuadiu – primeiro com chantagem emocional e depois com explosões de raiva. Tu não foste respeitada quando, ao chorares desesperada por ele se ter zangado contigo, o ouviste dizer que a culpa era tua. Tu não tiveste culpa pelas reações agressivas que ele teve. Aquela também era uma forma de exercer poder sobre ti, amedrontando-te. 

O teu medo foi crescendo tanto que te afastaste até da tua família. Os teus pais acharam que era uma fase. Afinal, a adolescência é conhecida pelo período em que os filhos mais vezes têm reações atípicas. “Há de passar”, pensaram eles, desconhecendo o teu sofrimento. Sentias-te cada vez mais triste, cada vez mais envergonhada. Tu amavas aquele rapaz e, ainda que sentisses cada vez menos esperança de que ele pudesse mudar, sabias que estavas perante um problema que não conseguirias gerir sozinha.

Quantas vezes te perguntaram se estava “mesmo” tudo bem e gritaste em silêncio “Não!” enquanto da tua boca saía um tímido “Está”? Quantas vezes tiveste medo e vergonha de contar? Quantas vezes temeste que, se o fizesses, poderias ser julgada? Ainda bem que o diretor da escola se lembrou de fazer aquela palestra. Ainda bem que pudeste ouvir o testemunho de uma rapariga com uma experiência tão parecida com a tua. De repente, os teus problemas ganharam um nome e havia outros rostos que tinham passado pelo mesmo. Melhor do que isso: percebeste que havia alternativas, que havia pessoas interessadas e vocacionadas para te ajudar. Percebeste que podias desabafar com alguém, mesmo que não quisesses dizer o teu nome ou o do teu namorado. Percebeste que poderias conversar com um adulto sem te sentires julgada. 

Percebeste que ali mesmo, na tua escola, havia outras pessoas em situação semelhante. E deste-te conta de que os teus pais, a tua diretora de turma e a psicóloga da tua escola te poderiam ajudar. Ainda bem que confiaste, ainda bem que tiveste a coragem para falar, para dar o primeiro passo na direção do teu bem-estar.

* Texto escrito para o Simply Flow a propósito do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

16.11.18

DIVÓRCIO: COMO CONTAR ÀS CRIANÇAS

Divórcio - como contar às crianças

A partir de que idade é possível explicar a uma criança que os pais se vão separar? Em que circunstâncias se deve ter essa conversa? Que erros devemos evitar? O Gymboree Portugal desafiou-me a responder a algumas questões sobre uma conversa que ninguém deseja ter.

A partir de que idade é possível explicar a uma criança que os pais se vão separar?

A partir do momento em que a criança adquira a capacidade de compreender a linguagem verbal – normalmente a partir dos 2 anos – pode e deve haver uma explicação ajustada à sua idade. Como é fácil de entender, aquilo que se pode dizer a uma criança de 3 ou 4 anos é bem diferente daquilo que se pode dizer a um pré-adolescente. As crianças pequenas ainda não possuem o pensamento abstrato e, nessa medida, não é ajustado falar sobre sentimentos. Aquilo que importa é explicar que o pai e a mãe já não vão viver na mesma casa e mostrar de forma clara e inequívoca que essa decisão não tem nada a ver com os comportamentos da criança. De resto, essa é uma mensagem que importa repetir em várias fases do processo – antes da separação, imediatamente depois da concretização da separação e na fase de adaptação.

Como ter essa conversa e em que circunstâncias?

Idealmente, esta conversa deveria decorrer na presença dos dois progenitores. Quando o pai e a mãe são capazes de colocar os interesses das crianças acima de qualquer outra coisa, é muito mais provável que a criança consiga lidar com a separação com resiliência. Infelizmente, quando há pelo menos um dos progenitores que se sente extremamente magoado e que exterioriza a sua mágoa através do conflito, sem conseguir colocar os interesses dos filhos no topo das prioridades, é mais provável que o conflito interparental condicione o bem-estar das crianças, dificultando o processo de adaptação.

Nesta conversa não é importante que os pais estejam de acordo em tudo, nem sequer é importante que camuflem a sua tristeza.


Pelo contrário, aquilo que importa é que sejam capazes de mostrar aos filhos que, apesar de poderem não ter, para já, resposta para todas as dúvidas, estão comprometidos em dialogar e negociar em nome do bem-estar das crianças. A ideia é passar a mensagem de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se vai resolver e de que os adultos, embora tristes ou feridos, continuam a ser capazes de cuidar de si e dos seus filhos. Às vezes isso pode implicar ter de recorrer à ajuda externa, seja de um psicólogo ou de um advogado. O que importa é que cada um faça o que estiver ao seu alcance para resolver de forma equilibrada, serena e responsável o que houver para resolver.

Por outro lado, quando os adultos têm oportunidade de exteriorizar os seus sentimentos – sem acusações mútuas -, é mais provável que as crianças aprendam a fazer o mesmo. Infelizmente, algumas crianças esforçam-se por não mostrar a sua tristeza numa tentativa de protegerem os pais. Quando as emoções são exteriorizadas e há alguém que genuinamente se mostra preocupado, é muito mais provável que haja uma resposta resiliente.

É importante que não haja a expectativa de conseguir responder a todas as perguntas das crianças. Às vezes é preferível dizer, com honestidade, «Ainda não sabemos, mas vamos conversar para tomar uma decisão». Além disso, é importante dar tempo para que as próprias crianças processem os acontecimentos e voltar a mostrar, de forma clara, a vontade de conhecer os seus sentimentos e as suas inquietações.

Quais são os erros mais comuns que os casais que se separam cometem no que toca às crianças?

Um dos erros mais comuns consiste em considerar que não há necessidade de explicar às crianças que o divórcio não está a acontecer por culpa delas. Pode parecer desnecessário, mas há diversos estudos que mostram exatamente o contrário. As crianças podem não dizer nada e, ainda assim, alimentar ideias fantasiosas chamando a si a responsabilidade dos acontecimentos.




É essencial assegurar que esta é uma decisão dos adultos e que não só não há culpados como as crianças não têm qualquer responsabilidade.


Outro erro tem a ver com a desvalorização da importância do contacto com o outro progenitor. Nenhum pai ou mãe quer fazer mal aos seus filhos e muitas pessoas acreditam de facto que os filhos estarão melhor consigo do que com o ex-companheiro. Mas, de uma maneira geral, quando há uma ligação saudável com os dois progenitores, mesmo que haja maior proximidade com um do que com o outro, é essencial que esse contacto regular se mantenha. Não se trata de olhar para os direitos de cada um dos progenitores. Trata-se de prestar atenção aos direitos e às necessidades afetivas das crianças.

Um divórcio é uma perda muito significativa para todos. Se a tudo o que a criança perde com o divórcio ainda acrescentarmos a possibilidade de perder um vínculo seguro com um dos progenitores, estamos a falar de danos maiores.

Um outro erro comum tem a ver com a manipulação das crianças. Às vezes os adultos sentem-se tão perdidos, tão desnorteados com a rutura, que ficam demasiado centrados nas suas próprias emoções e acabam por utilizar as crianças para atingir o ex-companheiro. Quando isto acontece, as crianças sentem-se profundamente tristes, há conflitos de lealdade e sensação de desamparo. Mais do que nunca, as crianças precisam de sentir que os adultos de quem dependem emocionalmente vão continuar a estar lá para elas – para as ouvir, para as respeitar e para as proteger.

Nem todas as separações correm bem. O que fazer se o ex-casal está desavindo de forma a proteger as crianças?

É compreensível que uma separação seja geradora de muitas emoções negativas. Esta é normalmente a relação mais significativa da nossa vida, aquela em que damos o nosso melhor e a sensação de abandono e de fracasso é avassaladora. A tristeza, o medo e a raiva são normais e, até certo ponto, adaptativos. Mas quando sentimos que as emoções estão a tomar conta de nós – em vez de sermos nós a gerir as emoções com responsabilidade – é importante pedir ajuda.

A mediação familiar e a psicoterapia são ferramentas que estão ao nosso dispor e que podem revelar-se extremamente úteis quando os adultos não estão a conseguir garantir que o bem-estar e os interesses das crianças constituam as suas prioridades.

É indicado a criança ser acompanhada por um psicólogo? Quais são os sinais de alarme?

Há vários estudos que mostram que as crianças respondem melhor à turbulência de uma separação se houver pelo menos um adulto com quem possam desabafar, exteriorizar as emoções. Aquilo que acontece é que, às vezes, há vários adultos interessados em cumprir esta função mas nenhum tem o distanciamento que permita que a criança se sinta livre. Um psicólogo tem sempre essa distância porque não está emocionalmente envolvido na situação e é sempre uma mais-valia.

Mas há situações muito sérias em que essa ajuda não só é útil como é essencial. Na prática, sempre que a criança esteja a ser exposta a níveis elevados de conflito entre os progenitores, é importante que haja essa resposta terapêutica, independentemente dos sinais que a criança esteja a dar. Há marcas que só são visíveis muito tempo depois dos acontecimentos.

E depois há sinais claros no comportamento da criança que podem ser indicadores da dificuldade em lidar com a instabilidade familiar – comportamentos desafiantes, birras intensas e recorrentes, comportamentos desafiantes, alterações no comportamento alimentar e no sono, medo excessivo, conflitos com o grupo de pares ou queixas somáticas (por exemplo, dores de barriga).

E quando entra uma pessoa nova na vida do pai ou da mãe? Como é que isso deve ser gerido?


Na medida do que for possível, é desejável que se respeite o luto da criança e não se apresente uma pessoa nova pouco tempo depois da separação. Por outro lado, é muito importante que a criança não se sinta atraiçoada. As crianças não gostam de mentiras. Se houver a mínima possibilidade de os filhos desconfiarem de uma ligação romântica, é preferível que os pais assumam a relação com transparência.

É importante que os primeiros contactos sejam breves e que a criança não se sinta obrigada a passar muito tempo com o novo adulto que, na sua ótica, vem desfazer qualquer possibilidade de reconciliação parental.

Por outro lado, é fundamental que haja esforços para que as rotinas a que a criança está habituada, e que contribuem para a sua estabilidade, não sejam alteradas de forma significativa em função da nova relação. As crianças precisam de consistência. Às vezes há a tentativa de implementar muitas mudanças com a melhor das intenções mas é preferível ir devagar.

Se puder dar um conselho a um casal que esteja nesta situação, qual seria?

O meu conselho é o de os pais e mães prestarem muita atenção às suas próprias emoções, às suas próprias necessidades afetivas, e às emoções e às necessidades afetivas das crianças. Quando nos esquecemos de nós, quando desvalorizamos as nossas dores, é mais provável que nos convençamos de que estamos a fazer as escolhas em nome das necessidades das crianças e que falhemos redondamente. É mais provável que os pais e mães consigam dar o seu melhor aos seus filhos e assumam escolhas genuinamente altruístas e responsáveis se prestarem atenção aos seus sentimentos e tentarem cuidar deles – com o amparo da família, dos amigos e eventualmente da ajuda terapêutica. Aceitar a própria dor não equivale a qualquer forma de resignação. Equivale a ser capaz de olhar para ela e escolher o que pode ser feito.

Por outro lado, gostaria de sugerir que as crianças sejam ouvidas. Elas têm uma voz e gostam de se sentir ouvidas. Convidá-las a expressar os seus sentimentos, as suas opiniões e as suas sugestões pode revelar-se surpreendentemente empoderador para os adultos.

30.10.18

COMO PROMOVER A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS

Como promover a autoestima das crianças

O que é que pais e mães podem fazer para promover a autoestima das crianças? E o que é que não devem mesmo fazer? A forma como olhamos para nós mesmos está muito relacionada com a forma como os adultos à nossa volta olhavam para nós enquanto éramos crianças. Felizmente, a maior parte dos pais e mães reconhecem esse impacto e dão o seu melhor para evitar cometer os erros que os seus próprios pais cometeram.


Quando os adultos ignoram as necessidades afetivas das crianças, quando assumem uma postura de desvalorização ou, pior do que isso, de hipercrítica ou humilhação, é mais provável que elas se transformem em adultos inseguros. Por outro lado, as crianças mais seguras são aquelas que recebem a atenção dos pais, aquelas que se sentem vistas, cujos sentimentos são reconhecidos e valorizados, aquelas que sabem que podem falar sobre aquilo que sentem sem que isso seja alvo de críticas ou de humilhações.

QUE COMPORTAMENTOS DOS ADULTOS
PROMOVEM A INSEGURANÇA DAS CRIANÇAS?


Desvalorizar as queixas da criança.

«És um(a) mariquinhas», «Pareces um bebé», «Ainda devias apanhar por cima» são frases que transmitem, ainda que de forma involuntária, a mensagem «Tu não és importante. Aquilo que tu sentes não é importante». Consequentemente, é mais provável que a criança (mais tarde o adulto) interiorize rótulos como «Eu não sou suficiente», «Estou a exagerar» (a propósito da própria tristeza, por exemplo).

Fazer comparações.

A intenção pode ser boa, mas quando dizemos coisas como «Olha para o teu irmão, tão bem comportado» ou «Devias ser como o teu colega X», estamos a transmitir a ideia de que a criança não tem valor suficiente e de que o nosso amor é condicional, isto é, de que gostamos mais ou menos da criança em função dos seus comportamentos.

Prometer e não cumprir.

Quando nos comprometemos com alguma coisa e sucessivamente falhamos, criamos expectativas e sofrimento. É como se estivéssemos a dizer, ainda que de forma involuntária, que os sentimentos das crianças não são importantes. Por outro lado, estamos a descurar a oportunidade de lhes ensinarmos a importância da responsabilidade pessoal.

Ameaçar.

Quando o pai ou a mãe pune física ou emocionalmente os filhos, ou quando os ameaça nesse sentido – mesmo que sejam “só” ameaças do tipo «Se te portares mal, não gosto de ti», aquilo que a criança interioriza é que não é suficientemente boa, que o amor dos adultos não é um amor incondicional.

Elogiar em excesso.

Ao contrário do que se possa pensar, as crianças, tal como os adultos, não precisam de estar permanentemente a ser elogiadas.


As crianças precisam de ser vistas. Precisam que os adultos prestem atenção, que reconheçam os seus esforços. Se a criança correr um corta-mato e ficar em último lugar, não precisa que os adultos lhe digam que «Não faz mal» ou que ela é «a melhor da turma a matemática». Precisa que os adultos se interessem, que queiram saber, que coloquem perguntas e que a confortem com palavras como «Que pena que estás triste. Isto é importante para ti? O que é que achas que podes fazer para melhorar o teu desempenho?». 

QUE COMPORTAMENTOS PROMOVEMA SEGURANÇA E A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS?


As crianças transformam-se em adultos mais seguros na medida em que se sintam reconhecidas e amparadas. Isso implica que haja atenção, que haja a capacidade de dar importância ao que elas sentem e que haja compaixão e bondade.

São exemplos de comportamentos que ajudam a promover a segurança e a autoestima:

Mostrar amor incondicional.

É importante dissociar o valor da criança das suas conquistas e realizações tanto quanto dos seus maus comportamentos. Os pais e as mães podem mostrar o seu amor incondicional pelos filhos dizendo-lhes que os amam, através dos gestos de afeto e prestando-lhes muita atenção – nos bons e nos maus momentos. Isto é diferente de elogiar e dizer «Gosto de ti» apenas quando a criança se “porta bem”.

Estar (mesmo) presente.

As crianças precisam de ser vistas, precisam de sentir que são merecedoras da nossa atenção. Quando brincamos com elas, quando fazemos perguntas sobre os desenhos que nos mostram, quando desviamos o olhar dos nossos brinquedos (telemóveis, tablets e outros) “só” para interagir com elas, estamos a dizer-lhe de forma inequívoca «Tu és importante para mim». Mas também quando paramos para conversar com elas e perceber os sentimentos por detrás de uma birra em vez de as rotularmos de “más”.

Mostrar compaixão e bondade em relação a nós e aos outros.

Se quisermos que os nossos filhos sejam justos – consigo e com os outros – e equilibrados, é muito importante que consigamos educa-los no sentido de serem capazes de olhar para os seus sentimentos e para os sentimentos dos outros com respeito.

Quando reconhecemos as nossas emoções e lhes damos um nome, estamos a educar as nossas crianças no mesmo sentido.


Quando explicamos que, para cada sentimento, há várias “estradas”, estamos a ensiná-los a gerir as suas emoções. Quando mostramos preocupação, empatia e solidariedade em relação a outras pessoas, estamos a incentivá-los a fazer o mesmo.

Lutar por objetivos.

As crianças, tal como os adultos, são mais felizes quando conseguem identificar objetivos e lutar por eles. Nem todos serão alcançáveis mas o nosso bem-estar e a nossa autoestima crescem quando nos focamos naquilo que podemos fazer para perseguir os nossos sonhos – mesmo que isso dê muito trabalho e leve algum tempo.

Elogiar o esforço.

Mais do que elogiar cada sucesso alcançado, é importante prestar atenção e elogiar o empenho das crianças. Nem todos somos bons a matemática, nem todos seremos futebolistas de excelência como o Cristiano Ronaldo. Mas é infinitamente mais provável que os nossos filhos sejam realmente excelentes nalguma das suas áreas de interesse se o seu esforço for reconhecido na medida certa. O importante é que a criança dê o seu melhor.

Promover a autoconfiança.

A nossa autoconfiança numa área específica – como a matemática, o desenho ou o futebol – pode não ser suficiente para que nos sintamos seguros noutras áreas – como falar em público ou conversar com alguém que consideremos interessante, por exemplo. Mas, de uma maneira geral, a autoconfiança ajuda-nos a reconhecer o nosso valor e promove a nossa autoestima. Ajudar a criança a reconhecer as áreas em que pode ser excelente ajudá-la-á a lidar melhor com as suas limitações e também promoverá a sua autoestima.

Não há duas crianças iguais e nenhum livro nem nenhuma fórmula vale tanto quanto a capacidade que cada pai e mãe tem para olhar para as suas crianças e reconhecer as suas necessidades. Quando nos permitimos parar para prestar (mesmo) atenção ao que está a acontecer a cada momento e, sem juízos de valor nem preocupações com aquilo que os outros possam pensar, colocamos perguntas que nos ajudem a perceber aquilo que os nossos filhos estão a sentir, é muito mais provável que encontremos as respostas de que precisamos para os ajudar.
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