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15.5.19

DISCUTIR À FRENTE DOS FILHOS: SIM OU NÃO?


Discutir à frente dos filhos

A maior parte dos pais e mães esforçam-se para que não haja discussões à frente dos filhos, mas, na azáfama dos dias, nem sempre conseguem evitar que isso aconteça. Que impacto é que as discussões conjugais têm no bem-estar das crianças?


Ao contrário do que se possa pensar, as discussões conjugais podem não ter um impacto negativo na vida das crianças. Claro que nenhum filho gosta de assistir a um momento de tensão, mas a verdade é que os conflitos, o sofrimento e a raiva fazem parte da vida. Quando o pai e a mãe discutem, também estão a mostrar às crianças como é que se deve exteriorizar estes sentimentos. Estão a mostrar-lhes, de forma prática, que aquilo que cada um sente pode e deve ser exteriorizado. Ainda mais importante do que isto, estão a mostrar que se importam com esses sentimentos.

Nem todas as discussões ficam resolvidas no momento. Pelo contrário, às vezes ficamos magoados com aquilo que é dito durante a discussão e/ou arrependemo-nos de algumas das coisas que dissemos. Quando um dos membros do casal toma a iniciativa de pedir desculpa ou faz outra tentativa de aproximação, os ânimos acalmam e a normalidade regressa. Quando as crianças assistem com regularidade a estes ciclos, aprendem a dar voz ao seu próprio sofrimento e à sua raiva com respeito pelo outro e aprendem a fazer o que está ao seu alcance para fazer as pazes.

Discutir (e fazer as pazes) na presença dos filhos pode ajudá-los a regular as próprias emoções e a resolver problemas.


Por outro lado, é importante que nos lembremos de que talvez não seja boa ideia darmos o nosso melhor no sentido de escondermos todos os momentos de tensão, uma vez que as crianças são particularmente sensíveis às nossas flutuações de humor. Qualquer criança de dois ou três anos é capaz de reconhecer quando estamos tristes ou zangados. Se evitarmos expô-las a todos os conflitos, é provável que elas se sintam mais alarmadas, com medo do que possa estar a ser ocultado.



Quando é que as discussões fazem mal às crianças?


Claro que nem todas as discussões são oportunidades de ensinar alguma coisa às crianças. Na verdade, há circunstâncias em que as discussões dos pais representam um perigo para a estabilidade emocional dos filhos. Por exemplo, sempre que um ou os dois membros do casal gritar de forma exacerbada com o outro, se houver insultos ou, pelo contrário, o desprezo for evidenciado sob a forma de amuos ou do “tratamento do silêncio”, as crianças sofrem de forma intensa e desnecessária.

Sempre que o comportamento dos membros do casal traduza desrespeito, as crianças sofrem.


O impacto deste tipo de discussões pode envolver:
Perturbações do sono
Perturbações do comportamento alimentar
Ansiedade
Depressão
Comportamentos desafiantes



Por outro lado, e mesmo que não haja sinais de desrespeito, é importante que os membros do casal prestem atenção à frequência e à intensidade das discussões. Se as crianças se derem conta de que o pai e a mãe estão a discutir de forma frequente e intensa, sentir-se-ão provavelmente muito aflitas.

Esta aflição é ainda maior quando, aos olhos das crianças, o pai e a mãe estão a discutir sobre elas ou por culpa delas. Nós sabemos que as crianças não são responsáveis pelas brigas dos pais, mas é fundamental que tenhamos especial atenção aos conflitos que girem à volta de assuntos relacionados com os filhos. Quando o pai e a mãe discutem sobre o dinheiro que tem de ser gasto com a escola ou com a roupa da criança, podem, involuntariamente, criar a sensação de culpa e promover os níveis de ansiedade.

Quando nos mantemos atentos ao estado emocional das crianças, é mais provável que façamos escolhas conscientes, que nos ajudem a manter a felicidade familiar. Por um lado, isso passa por prestar muita atenção à forma como discutimos e, por outro lado, por manter uma postura de curiosidade genuína em relação aos sentimentos das crianças. Oferecer-lhes a nossa autenticidade e o nosso conforto é um passo importante para que se sintam seguras.

2.4.19

7 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO


7 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO


O que é que pode ser considerado assédio sexual no trabalho? Se o chefe convidar a funcionária para jantar, é assédio? E se elogiar a sua roupa? Nem sempre é fácil distinguir um comportamento inapropriado mas, se prestarmos atenção, os sinais estão sempre lá.


Nunca como hoje se discutiu tanto sobre o assédio sobre as mulheres. Graças ao Movimento #MeToo e a tudo o que se seguiu, muitas mulheres conseguiram dar voz a situações abusivas por que passaram e que haviam escondido com medo de serem criticadas. Hoje é mais provável que uma mulher reconheça o assédio sexual no trabalho como tal e que se dê conta de que tem o direito de denunciar e de reivindicar ser tratada com respeito. Claro que deste empoderamento também resultaram algumas dúvidas. Afinal, o que é que pode ser considerado assédio? E o que é que (ainda) pode ser considerado um simples elogio ou galanteio? O que é que é apropriado e o que é que não é? A verdade é que há muitos homens que nunca tiveram comportamentos abusivos e que hoje têm medo de ser mal interpretados.

O assédio sexual só acontece às mulheres?

Não. O assédio sexual em contexto profissional traduz-se por qualquer abuso – físico ou verbal – que envolva a discriminação em função do sexo. Na prática, a pessoa que é assediada é tratada de forma diferente das pessoas do sexo oposto. Há homens que são assediados no trabalho – por outros homens ou por mulheres MAS a esmagadora maioria destas situações acontecem entre abusadores homens e vítimas mulheres.

Um convite para sair constitui assédio?

Depende. Mesmo que o convite parta de alguém hierarquicamente superior, pode não ser assédio, ainda que viole as regras da empresa, por exemplo.

Há assédio quando o convite está associado a qualquer forma de intimidação ou chantagem emocional, mesmo que de forma implícita.


Por exemplo, quando alguém diz «É importante agradar ao chefe» ou «Não fica bem dizer tantos “Nãos” ao chefe», está a assediar, está a desrespeitar a vontade da outra pessoa e a tentar impor a sua através do poder que detém. Por outro lado, mesmo que não haja qualquer ameaça ou chantagem, se houver convites repetidos, também se trata de assédio. Na prática, tratar-se-á de não respeitar a vontade da vítima.

E se já tiver havido envolvimento entre aquelas duas pessoas, continua a ser assédio?

Sim. Se duas pessoas se envolverem romanticamente e houver uma rutura, cada uma continua a ter o direito de dizer “Não”. Se os convites se repetirem, é assédio.

Comentários sobre a roupa constituem uma forma de assédio?

Depende. Quando alguém faz um elogio, seja em que contexto for, podemos sentir-nos confortáveis ou desconfortáveis. Se considerarmos que o comentário é inapropriado e o verbalizarmos, a outra pessoa deve respeitar. Se insistir, é assédio. Além disso, há comentários que constituem assédio, mesmo que não se repitam. Quando alguém faz um comentário que inclua a possibilidade de haver favores sexuais, isso é assédio.

Pedir para agradar aos clientes é uma forma de assédio?

Depende. Em muitos contextos profissionais, há almoços, jantares e até saídas noturnas que se misturam com os negócios sem que ninguém se sinta desrespeitado ou discriminado.

Quando é exigido que alguém faça aquilo que não quer (por se tratar de algo inapropriado) e/ou aquilo que não é exigido aos colegas do sexo oposto, é assédio.


Aceder a pornografia no local de trabalho é assédio?

Depende. Se um trabalhador aceder a imagens com teor sexual no seu gabinete sem que ninguém seja confrontado com esse conteúdo, não é assédio. Quando há alguém na empresa que partilha o mesmo espaço e que se sente desconfortável com esta exposição, tem o direito de se queixar. Se a situação se repetir, é assédio, mesmo que a intenção não seja a de condicionar a outra pessoa.

O contacto físico (abraços, beijos) é assédio?

Depende. Se um chefe abraçar uma funcionária com a intenção de a confortar na sequência de uma perda E ela se sentir confortável, isso não é assédio. Se a funcionária manifestar o seu desconforto e os contactos continuarem – mesmo que alegadamente de forma “involuntária” -, isso é assédio.

Em resumo, constituem formas de assédio todos os comportamentos que traduzam tentativas persistentes de impor a própria vontade depois de ficar claro que a outra pessoa as considera indesejadas e/ou inapropriadas, todos os convites que estejam associados a melhoria das condições de trabalho (chantagem) e todas as abordagens físicas intencionais e desnecessárias.

26.11.18

VIOLÊNCIA NO NAMORO: O QUE É?

Violência no namoro

Em Portugal mais de 50 por cento dos jovens assumem que já foram expostos a comportamentos violentos no namoro. Um em cada 5 admite ter sido vítima de violência emocional. Os números são tão alarmantes quanto a constatação de que, para a maioria dos jovens, perseguir, ameaçar ou empurrar são comportamentos “normais”.


No princípio parecia perfeito. Ele fazia-te sentir realmente especial. Enviava-te 30 mensagens por dia, quase todas “só “ para dizer que te amava e para te perguntar como estavas. Pelo meio também perguntava onde estavas e com quem mas aquilo parecia-te mais uma demonstração de interesse. Quando deste conta, já não eram 30 mensagens, eram centenas, e tu já não te sentias especial. Sentias a obrigação de descrever em detalhe os sítios onde estavas e sentias medo. Medo que ele achasse que não estavas a ser totalmente sincera, medo que ele se zangasse e gritasse contigo, medo que ele te dissesse que não estavas a ser a namorada que ele esperava. Como é que isto aconteceu? Como é que a pessoa que te fez sentir amada passou a ter comportamentos que te fazem sentir constantemente com medo e vergonha?

Tu só querias continuar a viver a história de amor que viveram juntos nos primeiros tempos e não percebeste que, quando ele te dizia coisas como “Se tu gostasses mesmo de mim, não sairias à noite com as tuas amigas", não estava a ser querido e a mostrar os seus sentimentos. Estava a desrespeitar o teu direito de continuares a estar com outras pessoas e a tentar controlar-te. Mas era difícil seres firme e dizeres exatamente aquilo que querias quando, depois das crises de ciúmes em que ele explodia e partia objetos à tua frente, ele voltava a parecer tão querido e tão vulnerável quando te pedia desculpas, prometia que não voltaria a fazê-lo e te fazia as mais bonitas declarações de amor. Acreditaste sempre que ele te disse que só se zangava porque tu eras especial. Convenceste-te de que ele estava a dizer a verdade quando afirmava que os ciúmes só existiam porque te amava e que, se tu gostasses mesmo dele, te preocuparias e farias o que estivesse ao teu alcance para não o veres sofrer. Percebes agora a ironia? Eras tu que sofrias com esta chantagem emocional. Eras tu que te anulavas. Eras tu que sentias a energia a ser sugada.

Aos poucos, foste-te afastando dos teus amigos. Primeiro, porque ele dizia que era um desperdício passar tempo com outras pessoas, depois porque ele passou a por defeitos em todas as pessoas à tua volta. Já não eras a miúda feliz que cumprimentava toda a gente. As tuas amigas estranharam o desaparecimento, insistiram para que te encontrasses com elas e foram desistindo de o fazer à medida que rejeitavas as chamadas ou inventavas desculpas para não estares com elas. Passaste a viver em função das necessidades do teu namorado - o teu amor - e, sem dares por isso, foste perdendo o teu sorriso. Passaste a ser a rapariga de olhos tristes que ora se sentia esperançada de que os “maus momentos fossem passageiros”, ora se se sentia envergonhada por estar a viver um amor assim, com tantos momentos duros.

Andavam sempre juntos e, à primeira vista, parecia mesmo que não queriam estar com outras pessoas. Mas a tua realidade era outra: tu não podias ir a lado nenhum sem ele. Ele dizia-te que era por te amar mas, na verdade, aquilo eram perseguições que te deixavam desconfortável e que serviam para te controlar.

No Instagram e no Facebook não faltavam fotografias vossas, sempre a dois. Mas quem fazia like às tuas publicações estava longe de imaginar que tu nem sequer tinhas autorização para responder às mensagens que te enviavam.


Como é que isto aconteceu? Como é que ele passou a controlar as tuas contas de e-mail? Como é que ele passou a sentir que tinha legitimidade para responder por ti no Whatsapp ou para bloquear amigos no Facebook? No princípio parecia tudo tão claro, tão lógico. “Se tu gostasses mesmo de mim…”. Ele e as manipulações. Ele e as juras de amor. E tu foste acreditando e foste cedendo. Só querias que ele se sentisse seguro e foste tentando dar todas as provas do teu amor, sem perceberes que aquilo não eram exigências razoáveis. Eram tentativas de exercer controlo sobre ti. Eram maus-tratos. Quem ama não nos afasta das pessoas que nos querem bem. 

Quem ama também não precisa de controlar aquilo que tu vestes, não te proíbe de usar calças justas ou minissaia. Tu tinhas o direito de vestir o que entendesses e, ao contrário do que ele te dizia, as tuas roupas não serviam “para engatar outros rapazes”. Isso era apenas ele a tentar que te sentisses culpada.

Não foi o amor que fez com que o teu namorado te humilhasse, te chamasse nomes ou ameaçasse publicar aquelas fotografias que tiraste só para ele. Foi sempre a vontade de te controlar, de te manter sob o seu poder.

Agora parece tudo tão claro: tu não foste respeitada quando disseste que não tinhas vontade de ter relações sexuais e ele te persuadiu – primeiro com chantagem emocional e depois com explosões de raiva. Tu não foste respeitada quando, ao chorares desesperada por ele se ter zangado contigo, o ouviste dizer que a culpa era tua. Tu não tiveste culpa pelas reações agressivas que ele teve. Aquela também era uma forma de exercer poder sobre ti, amedrontando-te. 

O teu medo foi crescendo tanto que te afastaste até da tua família. Os teus pais acharam que era uma fase. Afinal, a adolescência é conhecida pelo período em que os filhos mais vezes têm reações atípicas. “Há de passar”, pensaram eles, desconhecendo o teu sofrimento. Sentias-te cada vez mais triste, cada vez mais envergonhada. Tu amavas aquele rapaz e, ainda que sentisses cada vez menos esperança de que ele pudesse mudar, sabias que estavas perante um problema que não conseguirias gerir sozinha.

Quantas vezes te perguntaram se estava “mesmo” tudo bem e gritaste em silêncio “Não!” enquanto da tua boca saía um tímido “Está”? Quantas vezes tiveste medo e vergonha de contar? Quantas vezes temeste que, se o fizesses, poderias ser julgada? Ainda bem que o diretor da escola se lembrou de fazer aquela palestra. Ainda bem que pudeste ouvir o testemunho de uma rapariga com uma experiência tão parecida com a tua. De repente, os teus problemas ganharam um nome e havia outros rostos que tinham passado pelo mesmo. Melhor do que isso: percebeste que havia alternativas, que havia pessoas interessadas e vocacionadas para te ajudar. Percebeste que podias desabafar com alguém, mesmo que não quisesses dizer o teu nome ou o do teu namorado. Percebeste que poderias conversar com um adulto sem te sentires julgada. 

Percebeste que ali mesmo, na tua escola, havia outras pessoas em situação semelhante. E deste-te conta de que os teus pais, a tua diretora de turma e a psicóloga da tua escola te poderiam ajudar. Ainda bem que confiaste, ainda bem que tiveste a coragem para falar, para dar o primeiro passo na direção do teu bem-estar.

* Texto escrito para o Simply Flow a propósito do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

13.11.18

ESGOTAMENTO EMOCIONAL NA RELAÇÃO CONJUGAL

Esgotamento emocional na relação conjugal

Há relações que são emocionalmente esgotantes. Há pessoas que parecem sugar toda a nossa energia com as suas queixas, exigências e manipulações. Como é que nos podemos defender destes abusos emocionais e recuperar o bem-estar?


Quando amamos uma pessoa e estamos genuinamente comprometidos com ela, fazemos aquilo que está ao nosso alcance para agradar, para ir ao encontro das suas necessidades, para a fazer feliz. Mas, para algumas pessoas, NADA parece ser suficiente. É como se, apesar de todos os esforços, houvesse sempre do que reclamar, houvesse sempre mais alguma coisa que deveria ter sido feita. E, para quem vai sendo alvo destes exercícios de manipulação, é fácil viver com a sensação constante de culpa, de insuficiência e de desvalor.

Porque é que isto acontece?

Nós acreditamos que, quando alguém está numa relação, quer o melhor para a outra pessoa. E, se a pessoa que está ao nosso lado nos disser sistematicamente que nos ama e que quer o melhor para nós, torna-se mais difícil reconhecer as suas verdadeiras intenções. É como se, apesar do sofrimento que alguns comentários provocam, nos sentíssemos sistematicamente em dívida por não estarmos a corresponder às expectativas, por não estarmos a ser capazes de fazer o outro feliz.

Aquilo que acontece nestas relações é que há uma assimetria na valorização das necessidades dos membros do casal.



Do outro lado está alguém demasiado centrado em si mesmo, que quer que a relação seja definida por si, que impõe a própria vontade demasiadas vezes e que, ainda que fale muito de igualdade e da felicidade a dois, na prática, está disposto a fazer muito pouco para ir ao encontro das necessidades da pessoa que está ao seu lado. 

Como é que estas manipulações acontecem?

De uma maneira geral, a pessoa que está habituada a manipular deseja genuinamente manter a relação e vai fazendo esforços para mostrar ao(à) companheiro(a) que é capaz de ceder, de sair da sua zona de conforto e de fazer escolhas em nome da relação. Na verdade, na maior parte das vezes faz as escolhas que traduzam a SUA vontade, ainda que vá dizendo coisas como «Fiz isto por ti». Quando é confrontado(a) com uma vontade diferente da sua, manipula, pressiona, culpa com frases do tipo:


«Se tu gostasses mesmo de mim não me pedias isso»

«Tu devias ser capaz de ceder.
É isso que se faz quando se está numa relação»

«Não me podes obrigar a fazer isso»

ou «Sinto-me pressionado(a)». 



Em terapia, estes comportamentos são facilmente identificáveis por qualquer psicólogo experiente mas, no dia-a-dia, pode ser mesmo difícil reconhecer que a pessoa que está ao nosso lado está muito mais interessada em fazer as coisas à sua maneira, independentemente do nosso bem-estar, do que com vontade de conhecer e valorizar as nossas necessidades.

Como é que eu posso saber se estou numa relação abusiva?


Muito mais do que prestar atenção aos comportamentos da pessoa que está ao nosso lado, é fundamental que sejamos capazes de prestar atenção ao nosso estado emocional. Se nos sentirmos regularmente exaustos, tristes ou nervosos, como se carregássemos toda a culpa pelos problemas da relação, é muito importante que consigamos falar com alguém que nos possa ajudar a perceber o que está a acontecer. A família e os amigos podem ajudar mas, de uma maneira geral, não têm a distância emocional que lhes permita reconhecer os comportamentos abusivos. Além disso, as pessoas mais manipuladoras dão o seu melhor para cultivar uma imagem pública de afabilidade, altruísmo e simpatia, o que pode contribuir para a descredibilização das queixas da pessoa que está a ser alvo de manipulações.

Como acabar com as manipulações?


Autocompaixão.

Há vários exercícios que nos podem ajudar a prestar atenção às nossas emoções, às nossas necessidades afetivas e a qualquer injustiça a que estejamos a ser expostos. Parar diariamente para observar as próprias emoções e registá-las por escrito é sempre muito terapêutico.


Experimente olhar para o que um episódio específico
lhe trouxe em termos emocionais. Se identificar
tristeza, culpa, sensação de obrigação ou vergonha
intensa, experimente visualizar o mesmo episódio com
outros protagonistas. O que é que diria a alguém de
quem gosta muito se essa pessoa estivesse na sua
posição? Escreva a mensagem que gostaria de dirigir
a essa pessoa a leia-a em voz alta para si.



Troca de papéis.

Este é um exercício que qualquer criança de 4 anos é capaz de realizar e que se torna cada vez mais difícil numa relação abusiva. A propósito de um episódio gerador de tensão, experimente colocar-se na posição do(a) seu(sua companheiro(a). O que é que você diria? Que escolhas faria? Veja se é capaz de reconhecer a assimetria, a existência de dois pesos e duas medidas. 

Assertividade.

Não há volta a dar. Para que as manipulações acabem, você vai ter de treinar a capacidade de dizer «Não» e dar voz, com firmeza, clareza e honestidade, àquilo de que precisa. Vai precisar de dizer muitas vezes «Basta. Não estás a respeitar-me!».

Rede social e familiar.

As pessoas que gostam de si e que genuinamente se preocupam consigo são o melhor sistema imunitário para fazer face a qualquer forma de abusos. Elas ajudam-no(a) a manter a sua autoestima e a olhar com mais discernimento para os episódios em que possa estar a ser alvo de manipulações. Alimente todas as relações afetivas que são importantes para si e não apenas a relação amorosa.

Ajuda.

Peça ajuda psicológica sempre que der por si em círculos viciosos que desgastam a sua autoestima. Quanto mais cedo pedir ajuda – individualmente ou para o casal -, mais rapidamente encontrará ferramentas para voltar a sentir-se em paz.

22.10.18

PALMADA PEDAGÓGICA: SERÁ QUE RESULTA?

Palmada educativa: será que resulta?

Há quem defenda que uma palmada na hora certa pode ser a melhor forma de educar uma criança. Será que é assim? Ou será a palmada uma escolha que traduz a “lei do menor esforço”?


Há uns dias assisti a um episódio na sala de espera de uma unidade de Pediatria que bem poderia servir de ilustração a qualquer aula sobre Parentalidade. Naquele caso, os adultos à volta da criança fizeram várias escolhas que dificilmente poderiam figurar como exemplos de atenção, inteligência emocional ou respeito mútuo.

O menino de 3 ou 4 anos chegou acompanhado pelo pai e pelos avós. Depois de uma breve passagem pelos brinquedos que estavam na sala, dirigiu-se, sozinho, ao ecrã tátil que servia para que cada utente retirasse a sua senha. Rapidamente percebeu o “esquema” e foi brincando com o aparelho enquanto colecionava senhas. Quando o pai reparou no que estava a acontecer, chamou a atenção do menino dizendo-lhe «Sai daí», «Para com isso» ou «Isso não é para ti». Em nenhum momento o pai ou os avós tomaram a iniciativa de se levantar e afastar a criança do aparelho. Eles não estavam realmente a “ver” aquela criança – não repararam no seu divertimento nem prestaram genuinamente atenção às consequências que o seu comportamento poderia ter. Até que uma funcionária se aproximou do menino e lhe disse «Não podes mexer aqui», baixando-se para ficar da sua altura e utilizando um tom de voz calmo. Depois disso, a criança voltou a retirar uma senha e, a partir daí, vieram os castigos. Primeiro, a palmada, dada pela avó, na presença de todos os adultos e crianças presentes. Depois, como o menino começou a chorar, veio a chamada de atenção do pai: «És um bebé. És mesmo um bebé. Que vergonha».

Acredito que quer os avós quer o pai estivessem convencidos de que aquela seria a melhor forma de atuar. Estou genuinamente convencida de que, aos seus olhos, aquelas escolhas eram as mais indicadas. Talvez até as únicas capazes de “ensinar” a criança a “portar-se bem”. Mas será que é assim?

AS PALMADAS PODEM EDUCAR?


Um dos argumentos utilizados por quem aplica a palmada na educação dos filhos tem a ver com a existência de situações-limite em que mais nada funciona. No episódio que descrevi, de facto, o pai já tinha chamado a atenção do menino. Mas será que isso significa que estava realmente a prestar-lhe atenção? Ou que deu o seu melhor para explicar a uma criança que não teria mais do que 4 anos porque é que não poderia mexer naquele aparelho, apesar de este lhe parecer tão apelativo? Creio que não.

Há muitas alturas em que a nossa atenção aos comportamentos dos nossos filhos está longe de ser plena. Estamos “com um olho no burro e outro no cigano”, a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo e vivemos com a sensação de que estamos a ser absolutamente claros.


Aquele pai estava à conversa com os avós, provavelmente sobre questões que os estariam a preocupar. Na prática, não conseguiu levantar-se, agarrar na criança e explicar-lhe (baixinho) para que é que aquele ecrã tátil servia. Não teve disponibilidade para prestar genuinamente atenção ao divertimento que a criança estava a sentir ao explorar o “brinquedo” novo e muito menos teve criatividade para lhe propor fazerem um jogo a dois com um dos brinquedos disponíveis na sala.

Não vale a pena recriminarmo-nos. Há alturas em que a nossa atenção é limitada e em que não conseguimos dar o melhor de nós. Há alturas em que nos zangamos, em que nos salta a tampa. Mas aquilo que importa é que, depois de a poeira baixar, sejamos capazes de reparar no que fizemos, sejamos capazes de olhar com curiosidade para as nossas escolhas e, se for caso disso, sejamos capazes de pedir desculpa.

Na prática, aquele menino dificilmente aprendeu alguma coisa com aquele episódio. Pelo menos, alguma coisa sobre o respeito pelos outros. Pelo contrário, as mensagens dos adultos que lhe querem bem foram contraditórias. Numa primeira fase, estava “tudo bem”. Afinal, a criança teve liberdade para explorar o aparelho sozinha. De repente, e muito provavelmente em função da vergonha que os adultos sentiram depois da chamada de atenção da funcionária, surgiram os castigos. Os adultos não foram capazes de lidar com as suas próprias emoções e limitaram-se a “explodir”. Pior do que isso: a palmada e os comentários que se seguiram aconteceram à frente de vários estranhos, funcionando como uma oportunidade para que a criança se sentisse humilhada. Punida fisicamente e humilhada.

AS PALMADAS NÃO EDUCAM.
EDUCAR DÁ TRABALHO.


Dir-me-ão que há alturas em que a palmada “funciona”. Mas eu discordo. É evidente que, naquele caso, os adultos estarão de acordo quanto ao resultado: o menino não voltou a carregar no ecrã. Mas qual é a nossa verdadeira intenção na educação das nossas crianças?



Queremos mostrar-lhes que há alturas em que
devem simplesmente obedecer-nos, sem perceberem
o que se está a passar? Ou queremos que compreendem 
que há escolhas que não devem ser feitas, ainda que
sejam muito apetecíveis, porque isso interfere com a
liberdade dos outros?


Qualquer criança de 3 ou 4 anos seria capaz de compreender que não poderia fazer aquela escolha SE os adultos lhe explicassem, com paciência e tempo, porquê. As crianças adoram cooperar e ajudar os adultos. Claro que isso não significa que sejam SEMPRE capazes de compreender uma regra à primeira explicação ou que percam IMEDIATAMENTE o desejo de fazer aquilo que estavam a fazer. É por isso que somos nós, adultos, que temos de ter a criatividade para as ajudar a encontrar alternativas. Isso dá muito trabalho. Envolve a nossa atenção plena, envolve a capacidade de nos desviarmos dos nossos próprios brinquedos (telemóveis, tablets e outros), envolve a escolha consciente de interrompermos uma conversa que nos está a interessar “só” para prestarmos a devida atenção ao momento presente e, assim, conseguirmos educar as nossas crianças de forma a que elas aprendam a respeitar quem está à sua volta.

3.10.18

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: COMO SABER SE ESTÁ NUMA RELAÇÃO TÓXICA

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: COMO SABER SE ESTÁ NUMA RELAÇÃO TÓXICA


Quando as juras de amor se misturam com comportamentos que nos causam profundo mal-estar, sentimo-nos tristes, confusos e quase sempre sem energia. Sabemos que há qualquer coisa que não está bem, mas nem sempre conseguimos dar um nome ao problema. Quais são os sinais que nos mostram que estamos numa relação abusiva? O que é que caracteriza a violência emocional? 



Recebo muitas pessoas que se queixam de mal-estar associado a problemas na relação. De uma maneira geral, referem-se à angústia, à tristeza, ao nervosismo, à falta de energia e aos sentimentos de culpa sem darem conta de que esses são sinais claros de que estão a ser alvo de comportamentos abusivos. São maioritariamente mulheres – embora também haja homens vítimas de violência emocional – que foram expostas a meses, anos ou décadas de abusos e que, precisamente em função dos exercícios de poder a manipulação de que foram alvo, se sentem cada vez mais responsáveis (e culpadas) pelo mal-estar da relação.

O mal-estar constante, o nervosismo, o medo e a constante sensação de que a energia está a ser sugada pelo companheiro são os principais sinais de que pode estar numa relação abusiva.


TIPOS DE VIOLÊNCIA EMOCIONAL


Quando gostamos de alguém e acreditamos que essa pessoa gosta de nós, pode ser difícil haver a distância emocional que nos permita reconhecer os comportamentos tóxicos ou abusivos. Quanto mais repararmos na forma como as coisas são ditas, e não apenas no conteúdo, maior será a probabilidade de avaliarmos de forma clara se estamos ou não numa relação abusiva.

A violência emocional pode assumir muitas formas:

Chantagem emocional. «Se tu gostasses de mim…», «Se estivesses realmente empenhada nesta relação…» (Imposição da própria vontade).

Humilhações. Acontecem muitas vezes de forma subtil, sem insultos ou palavrões, mas têm o poder de diminuir a autoestima. «Onde vais vestido dessa forma? Pensas que és o Brad Pitt?» 

Reações desproporcionais ou explosivas. Gritos, murros na mesa, arremesso de objetos, condução perigosa. Na prática, trata-se de um exercício de intimidação e de imposição da própria vontade. 

Ameaças. Nem sempre são explícitas e têm como objetivo intimidar. «Toda a gente se vai virar contra ti», «Não vou deixar que vejas os teus filhos».

Isolamento social e familiar. As pessoas que assumem comportamentos abusivos são normalmente pessoas inseguras que se sentem ameaçadas pela rede de suporte do companheiro. Em função disso, vão manipulando e exercendo o seu poder para que a outra pessoa esteja cada vez mais isolada (e, em função disso, cada vez mais fragilizada também).

TUDO O QUE O AMOR NÃO É


Numa relação saudável não está sempre tudo bem. Não há relações perfeitas, não há ninguém que viva SEMPRE num mar de rosas. Numa relação feliz também há discussões, períodos de maior afastamento, birras e mágoas. MAS, de uma maneira geral, quando estamos numa relação saudável, sabemos com o que é que podemos contar, sentimo-nos seguros e amparados na maior parte do tempo, vivemos com a sensação de que podemos ser exatamente aquilo que somos, com a certeza de que podemos estar com as pessoas de quem gostamos e com a convicção de que a pessoa que está ao nosso lado nos ajuda a lutar por aquilo que queremos alcançar. Quando não é assim, não é uma relação saudável. Não é amor.

11.9.18

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: O PERFIL DO ABUSADOR

violência emocional: o perfil do abusador

Quem são as pessoas que praticam violência emocional nas relações? Qual é o perfil de quem exerce esta forma de abusos sobre o companheiro? São pessoas com alguma perturbação de personalidade? E o que é que pode ser feito em termos da sua recuperação?


«É difícil acreditar que aquela pessoa tão simpática e atenciosa possa fazer mal a uma mosca. Quanto mais exercer violência emocional sobre a mulher… Esse foi mais um dos obstáculos que tive de ultrapassar a propósito das tentativas que fiz para sair desta relação. Eu sabia que seria muito difícil que alguém acreditasse em mim. Eu própria levei muito tempo para conseguir reconhecer os abusos, dar-lhes um nome. E, mesmo depois de tomar consciência de que estava a ser vítima de violência emocional, passei muito tempo a acreditar que o meu marido não sabia o que estava a fazer, que estava deprimido e que eu o poderia ajudar.»
Teresa, 48 anos

É natural que associemos quase todas as formas de violência à falta de saúde mental. Quando pensamos na possibilidade de uma pessoa maltratar outra de quem teoricamente gosta, só a existência de uma perturbação nos parece que possa explicar o fenómeno. Mas a minha experiência clínica e as muitas investigações que existem nesta área mostram que, quando falamos de violência emocional na relação, falamos muito mais vezes de uma crise de valores do que de uma perturbação de personalidade.

É verdade que me tenho cruzado com alguns abusadores com perturbação narcísica da personalidade ou com perturbação de personalidade borderline MAS, na maior parte dos casos, não há qualquer perturbação de personalidade.

Há, isso sim, uma imensa vontade de exercer poder sobre a outra pessoa – de a controlar, intimidar, subjugar, humilhar, punir ou isolar. Estes comportamentos tóxicos são gratificantes na medida em que o abusador vai sentindo que tem ao seu lado alguém que tem de estar permanentemente focado em si.

O QUE É A VIOLÊNCIA EMOCIONAL?

A violência emocional pode assumir a forma de críticas e acusações, exercícios de controlo, exigências exageradas, amuos (o famoso «“tratamento do silêncio»”), distanciamento emocional, desprezo e ameaças mais ou menos subtis.


Pode incluir palavras duras mas também pode mostrar-se através de um simples olhar. Há muitas formas de maltratar a pessoa que está ao nosso lado. Os efeitos são sempre devastadores. Independentemente do tipo de abusos a que são submetidas, as vítimas de violência emocional sentem-se quase sempre esgotadas, deprimidas, confusas, culpadas, com dificuldades de concentração e baixa autoestima. É como se alguém – neste caso, a pessoa que menos esperariam – lhes fizesse uma lavagem cerebral. De forma gradual e, infelizmente, difícil de detetar, os abusos vão roubando a autoconfiança e a imagem que a pessoa tem de si mesma. Vistas de fora, estas pessoas até podem parecer as mesmas de sempre. Não há nódoas negras, não há arranhões. As marcas não são visíveis mas estão lá.

O PERFIL DO ABUSADOR


Ao longo da minha experiência como terapeuta de casais tenho trabalhado com muitas pessoas que exerceram violência emocional na relação e posso afirmar que nem todos correspondem ao perfil que geralmente associamos a qualquer forma de violência. Pelo contrário, muitas destas pessoas investem muita energia na tentativa de construírem uma imagem imaculada. Esses esforços não são mais do que exercícios de manipulação com o propósito de que os outros os vejam como “boas pessoas”.

Muitos abusadores são vistos pelos familiares, amigos e conhecidos como pessoas simpáticas, afáveis, altruístas, sedutoras e carismáticas.


Na verdade, também é assim que as vítimas os veem no princípio da relação. Só à medida que o abusador vai percebendo que o afeto da vítima está garantido é que começa a mostrar-se tal como é.

Um médico de meia-idade com quem trabalhei não era só conhecido pela forma atenciosa como tratava os seus pacientes. Também fazia voluntariado e abdicava muitas vezes do tempo livre para ajudar os outros. Infelizmente, esta é a mesma pessoa que maltratou a mulher durante anos, chegando mesmo a agredi-la fisicamente.

Quando olhamos para a história de vida das pessoas que praticam estes abusos emocionais encontramos muitas vezes elementos em comum. Por exemplo, na maioria dos casos com que tenho trabalhado, os abusadores são homens que cresceram em famílias marcadas por esta e outras formas de violência. Por detrás de um abusador há quase sempre um pai abusador. Por outro lado, e mesmo nos casos em que identificamos traços de personalidade mais narcísicos, é possível identificar graves lacunas em termos de autoestima. São pessoas aparentemente confiantes mas que, na verdade, se sentem inseguras e olham para si mesmas como inferiores. Os abusos são formas de gratificação – quando a pessoa olha de forma distorcida para o poder pessoal, acaba por buscar a gratificação no exercício de poder sobre outra pessoa.

O ABUSADOR CONSEGUE MUDAR?


«Será que ele muda?» e «O que é que EU posso fazer para que ele mude?» são duas das perguntas que ouço mais vezes a propósito das relações abusivas. Quanto mais tempo durar uma relação abusiva, maior é a probabilidade de a pessoa exposta aos abusos chamar a si toda a responsabilidade, como se fosse ela que tivesse de mudar alguma coisa para que os comportamentos abusivos tivessem um fim.

Há casos em que a pessoa que costumava ter comportamentos abusivos escolhe mudar e consegue implementar mudanças significativas MAS em quase vinte anos de trabalho eu nunca conheci uma pessoa que tivesse mudado o companheiro. A mudança ocorre quando a pessoa que pratica os abusos:

- percebe que TEM DE mudar, isto é, quando percebe que a relação está em risco e que não basta “portar-se bem” durante algum tempo.

- reconhece os abusos e é capaz de falar deles EM DETALHE e ouvir a vítima. Não chega dizer coisas como «Eu sei que errei… mas agora é tempo de olhar para o futuro».

- procura ajuda terapêutica para mudar o SEU comportamento, reconhecendo que a responsabilidade da violência emocional é apenas sua. Alguns abusadores procuram justificar os abusos com o eventual diagnóstico de uma perturbação de humor, nomeadamente depressão. A verdade é que a depressão não justifica os abusos emocionais. De resto, muitas vítimas de violência emocional desenvolvem episódios depressivos e não se transformam em pessoas violentas.

Na esmagadora maioria das relações abusivas que conheço, aquilo que está «“doente»” é o sistema de valores do abusador. A terapia só é eficaz se o abusador estiver disponível para identificar os pensamentos desajustados que estão associados aos comportamentos abusivos.

29.8.18

4 RAZÕES E 4 DICAS PARA DEIXAR DE GRITAR COM OS SEUS FILHOS


Os pais e as mães não são robôs, não estão sempre calmos, não são perfeitos. E as crianças também não precisam de perfeição. Mas vale a pena refletir sobre tudo o que acontece quando gritamos com os nossos filhos e sobre as alternativas que nos podem ajudar a construir a nossa felicidade em família. Sem perfeição.


Não há ninguém que esteja sempre calmo ou disponível. A raiva, a irritabilidade e a impaciência fazem parte da vida e aquilo que importa é que saibamos lidar com cada uma das nossas emoções, gerindo-as, em vez de permitirmos que sejam elas a comandar-nos e a empurrar-nos para comportamentos impulsivos dos quais possamos arrepender-nos. Os nossos filhos são, provavelmente, as pessoas mais importantes da nossa vida, as pessoas que mais amamos, que mais desejamos proteger e mimar mas… também podem ser aquelas que mais facilmente nos tiram do sério, as que mais nos desafiam e as que mais exigem de nós fisicamente. Num minuto estamos a olhar para as fotografias deles no telemóvel e a ansiar voltar para casa para os abraçar e no outro estamos a entrar em casa, a ouvir berros e «Oh mãe olha o que a mana me fez» e com vontade de voltar a sair.

Quem tem filhos pequenos sabe que que as crianças tão depressa estão a inventar brincadeiras e a rir à gargalhada como depois estão às turras. É normal. Os irmãos zangam-se várias vezes por dia e tendem a solicitar a ajuda dos pais para resolver estas tensões. Quando essa ajuda não aparece podem perder a paciência e começar aos empurrões… À medida que o dia decorre e que este “filme” se repete, é fácil sentirmo-nos impacientes, é fácil resolver a situação com castigos e um par de berros. Mas (quase) toda a gente sabe que isso não resulta.

RAZÕES PARA DEIXAR DE GRITAR COM OS SEUS FILHOS 


#1: NÃO HÁ NADA DE PEDAGÓGICO EM GRITAR.


Há quem defenda que as crianças só aprendem assim ou que só “obedecem” quando ouvem um par de berros. A verdade é que os gritos – assim como as palmadas – podem ser eficazes, pelo menos na medida em que por eficácia entendermos a imposição momentânea da nossa vontade.



Sim, é de descontrolo que falamos. Perante a nossa postura mais agressiva, o que é que a criança sente?

MEDO

Não vale a pena escamotear a realidade. Os gritos amedrontam. Mesmo que a criança nunca tenha sido alvo de violência física, vai assustar-se com os gritos e temer pelas consequências de qualquer “mau comportamento”. Isto é muito diferente de ensiná-la a compreender que as suas escolhas têm consequências ou explicar-lhe porque é que é importante – para nós ou para ela – que faça aquilo que estamos a pedir.

#2: É PRECISO GRITAR CADA VEZ MAIS ALTO.


A partir do momento em que a criança aprenda a lidar com os gritos – o que é muuuuito diferente de compreender a importância do que lhe está a ser pedido -, o mais provável é que se habitue a “desobedecer”, fazendo exatamente aquilo que tem vontade e que vá ao encontro dos seus desejos sempre que não houver gritos. Isto é, numa casa onde haja gritos, as crianças deixam de responder às solicitações normais em que se sintam contrariadas. É como se interiorizassem que só “têm de” o fazer se se sentirem ameaçadas. Por outro lado, se deixarem de se sentir ameaçadas e passarem a encarar os gritos como a forma de comunicação “normal”, os adultos vão precisar de assumir estratégias cada vez mais agressivas.

#3: AUMENTA A PROBABILIDADE DE SEREM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA NO NAMORO.


Como é que gostaria que os seus filhos fossem tratados numa relação amorosa? Todos os pais e mães desejam o melhor para os seus filhos e isso também passa por desejar que eles sejam capazes de construir amizades e relações amorosas em que sejam tratados com respeito e afeto. Numa altura em que tanto se fala em violência no namoro, importa que reflitamos sobre os exemplos que estamos a dar.



Parece dramático. E é.

Quando aprendemos a controlar a nossa própria raiva e impaciência e fazemos escolhas que nos ajudem a respeitar o bem-estar dos nossos filhos ao mesmo tempo que impomos os limites do respeito por nós, estamos a semear para que mais tarde eles construam relações afetivas baseadas nos mesmos valores.

#4: É FÁCIL CRIAR CÍRCULOS VICIOSOS


Há famílias que pedem ajuda para lidar com os “maus comportamentos” dos filhos – ou porque há queixas na escola, ou porque a criança está cada vez mais desafiante em casa. Qualquer psicólogo treinado olhará para a dinâmica familiar, para a comunicação entre o pai e a mãe e para a forma como lidam com os filhos. Não com o objetivo de os julgar ou de recriminar, mas com a intenção de perceber se há círculos viciosos que estejam a escapar ao seu olhar e com a genuína vontade de ajudar a criar condições para que as emoções de cada um sejam geridas de forma mais equilibrada.

Os comportamentos são a face visível das nossas emoções e, de uma maneira geral, os “maus comportamentos” das crianças não são mais do que a sua forma de lidar com emoções difíceis. Se as crianças estiverem habituadas a ser tratadas com gritos, ameaças e castigos, é natural que sintam mais dificuldade em lidar com a sua própria tristeza, frustração e impaciência. É natural que reajam a estas emoções com impulsividade, com comportamentos que nos desafiem e que nos levem a gritar cada vez mais.

DICAS PARA DEIXAR DE GRITAR COM OS SEUS FILHOS


#1: OLHAR PARA TRÁS


Há pessoas que cresceram em ambientes familiares caóticos, marcados por berros e que cedo se habituaram a fazer-se ouvir desta forma. Mais do que uma aprendizagem, os gritos passaram a ser um mecanismo de sobrevivência. Habituaram-se a ter de gritar para se sentirem ouvidas e/ou para imporem a sua vontade sem terem grandes oportunidades de parar para refletir sobre as alternativas. E ainda que, quando comecem a construir a sua própria família, tenham boas intenções, não são capazes de se dar conta de que podem estar a reproduzir os modelos em que foram educadas.

Parar para fazer essa reflexão e identificar os caminhos alternativos pode não ser fácil sem a ajuda externa e é por isso que a psicoterapia é quase sempre um acelerador nesta matéria. Aquilo que importa é que a pessoa seja capaz de identificar aquilo que NÃO quer para as suas relações e, depois, de forma clara e detalhada, definir as suas próprias intenções.

#2: REPARAR NAS PRÓPRIAS NECESSIDADES


É muito mais provável que tenhamos comportamentos impulsivos se deixarmos de prestar atenção às nossas necessidades.



Por exemplo, se uma mãe acordar cedo para preparar o pequeno almoço dos filhos e abdicar de cuidar da sua própria alimentação nesta altura do dia, é muito mais provável que perca a paciência perante as primeiras birras da manhã.

Prestar atenção às nossas necessidades implicar garantir que nos alimentemos e que durmamos aquilo de que precisamos mas também implica que tenhamos a coragem e a honestidade para olhar para os diferentes capítulos da nossa vida e questionar:

«Estou a cuidar de mim?»

«Estou a fazer o que está ao meu alcance para me sentir seguro/a no trabalho, na minha relação conjugal ou noutras áreas da vida?»

«Estou a fazer o que está ao meu alcance para conseguir relaxar, divertir-me e sentir-me vivo/a para além da parentalidade?»


Os filhos vão continuar a desafiar-nos, vão continuar a zangar-se, vão continuar a exigir a nossa disponibilidade física e mental e a testar os limites da nossa paciência. Mas tudo se torna infinitamente mais fácil se cuidarmos das nossas necessidades com afeto e responsabilidade.

#3: REPARAR NAS NECESSIDADES DAS CRIANÇAS


Antes de qualquer outra tentativa para lidar com os desafios da parentalidade, questione-se:

«A criança tem sono?»
«A criança tem fome?»


Uma parte considerável das birras acontecem por estes dois motivos. Depois, há evidentemente outras necessidades por preencher. A necessidade de segurança afetiva, a necessidade de alegria e entusiasmo, a necessidade de exercício e tantas outras.

Nem sempre é fácil manter uma postura de genuína curiosidade em relação às emoções que possam estar por detrás das birras e dos comportamentos desafiantes mas essa é sempre a alternativa emocionalmente mais inteligente. Querer saber, perguntar, mostrar que estamos curiosos e com vontade de ajudar é a melhor forma de garantir à criança que estamos “lá” para ela, mesmo nos momentos mais difíceis. Às vezes é tentador assumir que já sabemos, fazer juízos de valor e assumir uma postura autoritária. Mas isso só desajuda.

Por exemplo, se nos dermos conta de que há a possibilidade de a criança estar a utilizar os comportamentos desafiantes para chamar a atenção para os ciúmes que sente do irmão mais novo, não adianta ignorar as birras ou ralhar. Isso só vai fazer com que as necessidades de segurança afetiva da criança continuem por preencher. Precisamos, isso sim, de tentar perceber de que formas podemos garantir que a criança continue a sentir-se segura do nosso amor incondicional, apesar da presença de outra criança. Ouvi-la, prestar atenção às suas sugestões até pode dar-nos boas ideias sobre o que há a fazer.

#4: DAR ESPAÇO PARA QUE AS CRIANÇAS SE ENTENDAM 


Como referi antes, os irmãos zangam-se várias vezes ao dia. Isso pode ser irritante para os adultos e pode levá-los a querer intervir a cada briga. A verdade é que há dias em que a única coisa que desejamos é que haja alguma paz à nossa volta. É normal. Mas é preciso que estejamos disponíveis para investigar alternativas ao par de berros. E às vezes aquilo que é preciso é aceitar a nossa própria realidade, aceitar que haja zangas e dar espaço para que as crianças se entendam. Noutras alturas, naquelas em que sentimos que estamos prestes a rebentar, é importante que nos questionemos: 

«O que é que eu posso fazer agora?»


Não vale a pena perder tempo ou energia com aquilo que NÃO podemos fazer. Se o marido não puder ajudar nesse instante, não vale a pena pensar em quão bom seria se ele ali estivesse. Mas talvez lhe ocorra a possibilidade de ligar a um amigo para desanuviar. Ou a possibilidade de largar o que estiver a fazer e sair com as crianças para que todos se divirtam com uma atividade fora de casa.

As crianças vão continuar a desafiar-nos e, independentemente de todos os nossos esforços, hão de sempre existir dias em que “a tampa salta” e nos “passamos da cabeça”. Não vale a pena martirizarmo-nos. Talvez possamos, isso sim, aproveitar a nossa própria imperfeição e as nossas falhas para pedir desculpa aos nosso filhos e ensiná-los a aceitar as suas imperfeições.
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