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2.4.08

CONSULTAS DE PSICOLOGIA E DE PSIQUIATRIA: O ESTIGMA

Catarina tem 30 anos e, apesar de ser uma mulher formada e informada, reagiu com resistência à sugestão da médica de família. Esta falara-lhe na importância de marcar uma consulta de Psiquiatria. Os sintomas – ansiedade acima do que até aí era normal, choro fácil e recorrente, desinteresse generalizado – duram há mais de 4 meses, apesar da medicação prescrita. Prudente, a médica explicou à doente que a melhor opção seria encaminhá-la para uma colega especialista nesta área da saúde (Psiquiatria). “Psiquiatria? Isso não é para malucos?”, perguntou Catarina.

Para esta jovem mulher o problema maior não advinha do facto de lhe ter sido diagnosticada uma depressão, nem do inêxito da medicação antidepressiva. A ideia de consultar um Psi, isso sim, significaria, aos seus olhos, que tinha um problema sério.

O estigma associado à saúde mental é um assunto pouco discutido mas com consequências potencialmente devastadoras. Sempre que adiamos a concretização de uma consulta de especialidade – seja esta de Oftalmologia, Ginecologia, Urologia ou outra – potenciamos a agudização do problema. Então, por que é que as coisas seriam diferentes no que diz respeito à saúde mental?

Perturbações como a depressão, o pânico ou o alcoolismo são quase sempre tratados com medicação e Psicoterapia. Contudo, existem muitos casos que continuam por tratar por causa dos preconceitos associados à Psicologia e à Psiquiatria. Desses preconceitos fazem parte:

  • A ideia de que estas áreas de intervenção se destinam exclusivamente aos casos a que comummente chamamos de loucura;
  • A fantasia de que, nestas consultas, a pessoa consultada deverá deitar-se e falar ininterrupta e friamente sobre os seus problemas;
  • A percepção de que estas dificuldades são passageiras e não requerem intervenção especializada.

Mas nenhuma campanha anti-estigmatização em relação à saúde mental pode ser eficaz se não tiver em consideração o facto de, em termos sociais, também existirem preconceitos:

  • A revelação de que uma pessoa sofre de uma perturbação que a leva a ser seguida por um profissional de saúde mental pode acarretar algum tipo de descriminação no local de trabalho – algumas pessoas chegam a perder o emprego;
  • O facto de alguém ser seguido por um Psi ou tomar psicotrópicos é ainda motivo de troça ou de assédio moral;
  • A doença física é considerada “normal” e tratável, mas a perturbação mental é, muitas vezes, encarada como uma “característica”, logo, não tratável (mesmo entre os familiares do doente).
  • O recurso a este tipo de ajuda especializada ainda é visto como um sinal de fraqueza (quantas vezes ouvi dizer “Não tomo antidepressivos porque sou uma pessoa forte”!).

A maior parte das perturbações associadas à saúde mental não requer o internamento (ou institucionalização). Porque se insiste, então, em encarar a doença, nestes casos, como uma deficiência?

As pessoas que vivenciam estas perturbações devem ultrapassar as barreiras que descrevi, procurar ajuda, falar sobre aquilo que sentem e expor as suas dificuldades. E as pessoas que as rodeiam devem abdicar dos juízos de valor e adoptar uma postura empática. Afinal, estas perturbações são mais frequentes do que se imagina – e amanhã podem ser elas a precisar de ajuda.


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