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16.11.18

DIVÓRCIO: COMO CONTAR ÀS CRIANÇAS

Divórcio - como contar às crianças

A partir de que idade é possível explicar a uma criança que os pais se vão separar? Em que circunstâncias se deve ter essa conversa? Que erros devemos evitar? O Gymboree Portugal desafiou-me a responder a algumas questões sobre uma conversa que ninguém deseja ter.

A partir de que idade é possível explicar a uma criança que os pais se vão separar?

A partir do momento em que a criança adquira a capacidade de compreender a linguagem verbal – normalmente a partir dos 2 anos – pode e deve haver uma explicação ajustada à sua idade. Como é fácil de entender, aquilo que se pode dizer a uma criança de 3 ou 4 anos é bem diferente daquilo que se pode dizer a um pré-adolescente. As crianças pequenas ainda não possuem o pensamento abstrato e, nessa medida, não é ajustado falar sobre sentimentos. Aquilo que importa é explicar que o pai e a mãe já não vão viver na mesma casa e mostrar de forma clara e inequívoca que essa decisão não tem nada a ver com os comportamentos da criança. De resto, essa é uma mensagem que importa repetir em várias fases do processo – antes da separação, imediatamente depois da concretização da separação e na fase de adaptação.

Como ter essa conversa e em que circunstâncias?

Idealmente, esta conversa deveria decorrer na presença dos dois progenitores. Quando o pai e a mãe são capazes de colocar os interesses das crianças acima de qualquer outra coisa, é muito mais provável que a criança consiga lidar com a separação com resiliência. Infelizmente, quando há pelo menos um dos progenitores que se sente extremamente magoado e que exterioriza a sua mágoa através do conflito, sem conseguir colocar os interesses dos filhos no topo das prioridades, é mais provável que o conflito interparental condicione o bem-estar das crianças, dificultando o processo de adaptação.

Nesta conversa não é importante que os pais estejam de acordo em tudo, nem sequer é importante que camuflem a sua tristeza.


Pelo contrário, aquilo que importa é que sejam capazes de mostrar aos filhos que, apesar de poderem não ter, para já, resposta para todas as dúvidas, estão comprometidos em dialogar e negociar em nome do bem-estar das crianças. A ideia é passar a mensagem de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se vai resolver e de que os adultos, embora tristes ou feridos, continuam a ser capazes de cuidar de si e dos seus filhos. Às vezes isso pode implicar ter de recorrer à ajuda externa, seja de um psicólogo ou de um advogado. O que importa é que cada um faça o que estiver ao seu alcance para resolver de forma equilibrada, serena e responsável o que houver para resolver.

Por outro lado, quando os adultos têm oportunidade de exteriorizar os seus sentimentos – sem acusações mútuas -, é mais provável que as crianças aprendam a fazer o mesmo. Infelizmente, algumas crianças esforçam-se por não mostrar a sua tristeza numa tentativa de protegerem os pais. Quando as emoções são exteriorizadas e há alguém que genuinamente se mostra preocupado, é muito mais provável que haja uma resposta resiliente.

É importante que não haja a expectativa de conseguir responder a todas as perguntas das crianças. Às vezes é preferível dizer, com honestidade, «Ainda não sabemos, mas vamos conversar para tomar uma decisão». Além disso, é importante dar tempo para que as próprias crianças processem os acontecimentos e voltar a mostrar, de forma clara, a vontade de conhecer os seus sentimentos e as suas inquietações.

Quais são os erros mais comuns que os casais que se separam cometem no que toca às crianças?

Um dos erros mais comuns consiste em considerar que não há necessidade de explicar às crianças que o divórcio não está a acontecer por culpa delas. Pode parecer desnecessário, mas há diversos estudos que mostram exatamente o contrário. As crianças podem não dizer nada e, ainda assim, alimentar ideias fantasiosas chamando a si a responsabilidade dos acontecimentos.




É essencial assegurar que esta é uma decisão dos adultos e que não só não há culpados como as crianças não têm qualquer responsabilidade.


Outro erro tem a ver com a desvalorização da importância do contacto com o outro progenitor. Nenhum pai ou mãe quer fazer mal aos seus filhos e muitas pessoas acreditam de facto que os filhos estarão melhor consigo do que com o ex-companheiro. Mas, de uma maneira geral, quando há uma ligação saudável com os dois progenitores, mesmo que haja maior proximidade com um do que com o outro, é essencial que esse contacto regular se mantenha. Não se trata de olhar para os direitos de cada um dos progenitores. Trata-se de prestar atenção aos direitos e às necessidades afetivas das crianças.

Um divórcio é uma perda muito significativa para todos. Se a tudo o que a criança perde com o divórcio ainda acrescentarmos a possibilidade de perder um vínculo seguro com um dos progenitores, estamos a falar de danos maiores.

Um outro erro comum tem a ver com a manipulação das crianças. Às vezes os adultos sentem-se tão perdidos, tão desnorteados com a rutura, que ficam demasiado centrados nas suas próprias emoções e acabam por utilizar as crianças para atingir o ex-companheiro. Quando isto acontece, as crianças sentem-se profundamente tristes, há conflitos de lealdade e sensação de desamparo. Mais do que nunca, as crianças precisam de sentir que os adultos de quem dependem emocionalmente vão continuar a estar lá para elas – para as ouvir, para as respeitar e para as proteger.

Nem todas as separações correm bem. O que fazer se o ex-casal está desavindo de forma a proteger as crianças?

É compreensível que uma separação seja geradora de muitas emoções negativas. Esta é normalmente a relação mais significativa da nossa vida, aquela em que damos o nosso melhor e a sensação de abandono e de fracasso é avassaladora. A tristeza, o medo e a raiva são normais e, até certo ponto, adaptativos. Mas quando sentimos que as emoções estão a tomar conta de nós – em vez de sermos nós a gerir as emoções com responsabilidade – é importante pedir ajuda.

A mediação familiar e a psicoterapia são ferramentas que estão ao nosso dispor e que podem revelar-se extremamente úteis quando os adultos não estão a conseguir garantir que o bem-estar e os interesses das crianças constituam as suas prioridades.

É indicado a criança ser acompanhada por um psicólogo? Quais são os sinais de alarme?

Há vários estudos que mostram que as crianças respondem melhor à turbulência de uma separação se houver pelo menos um adulto com quem possam desabafar, exteriorizar as emoções. Aquilo que acontece é que, às vezes, há vários adultos interessados em cumprir esta função mas nenhum tem o distanciamento que permita que a criança se sinta livre. Um psicólogo tem sempre essa distância porque não está emocionalmente envolvido na situação e é sempre uma mais-valia.

Mas há situações muito sérias em que essa ajuda não só é útil como é essencial. Na prática, sempre que a criança esteja a ser exposta a níveis elevados de conflito entre os progenitores, é importante que haja essa resposta terapêutica, independentemente dos sinais que a criança esteja a dar. Há marcas que só são visíveis muito tempo depois dos acontecimentos.

E depois há sinais claros no comportamento da criança que podem ser indicadores da dificuldade em lidar com a instabilidade familiar – comportamentos desafiantes, birras intensas e recorrentes, comportamentos desafiantes, alterações no comportamento alimentar e no sono, medo excessivo, conflitos com o grupo de pares ou queixas somáticas (por exemplo, dores de barriga).

E quando entra uma pessoa nova na vida do pai ou da mãe? Como é que isso deve ser gerido?


Na medida do que for possível, é desejável que se respeite o luto da criança e não se apresente uma pessoa nova pouco tempo depois da separação. Por outro lado, é muito importante que a criança não se sinta atraiçoada. As crianças não gostam de mentiras. Se houver a mínima possibilidade de os filhos desconfiarem de uma ligação romântica, é preferível que os pais assumam a relação com transparência.

É importante que os primeiros contactos sejam breves e que a criança não se sinta obrigada a passar muito tempo com o novo adulto que, na sua ótica, vem desfazer qualquer possibilidade de reconciliação parental.

Por outro lado, é fundamental que haja esforços para que as rotinas a que a criança está habituada, e que contribuem para a sua estabilidade, não sejam alteradas de forma significativa em função da nova relação. As crianças precisam de consistência. Às vezes há a tentativa de implementar muitas mudanças com a melhor das intenções mas é preferível ir devagar.

Se puder dar um conselho a um casal que esteja nesta situação, qual seria?

O meu conselho é o de os pais e mães prestarem muita atenção às suas próprias emoções, às suas próprias necessidades afetivas, e às emoções e às necessidades afetivas das crianças. Quando nos esquecemos de nós, quando desvalorizamos as nossas dores, é mais provável que nos convençamos de que estamos a fazer as escolhas em nome das necessidades das crianças e que falhemos redondamente. É mais provável que os pais e mães consigam dar o seu melhor aos seus filhos e assumam escolhas genuinamente altruístas e responsáveis se prestarem atenção aos seus sentimentos e tentarem cuidar deles – com o amparo da família, dos amigos e eventualmente da ajuda terapêutica. Aceitar a própria dor não equivale a qualquer forma de resignação. Equivale a ser capaz de olhar para ela e escolher o que pode ser feito.

Por outro lado, gostaria de sugerir que as crianças sejam ouvidas. Elas têm uma voz e gostam de se sentir ouvidas. Convidá-las a expressar os seus sentimentos, as suas opiniões e as suas sugestões pode revelar-se surpreendentemente empoderador para os adultos.

13.11.18

ESGOTAMENTO EMOCIONAL NA RELAÇÃO CONJUGAL

Esgotamento emocional na relação conjugal

Há relações que são emocionalmente esgotantes. Há pessoas que parecem sugar toda a nossa energia com as suas queixas, exigências e manipulações. Como é que nos podemos defender destes abusos emocionais e recuperar o bem-estar?


Quando amamos uma pessoa e estamos genuinamente comprometidos com ela, fazemos aquilo que está ao nosso alcance para agradar, para ir ao encontro das suas necessidades, para a fazer feliz. Mas, para algumas pessoas, NADA parece ser suficiente. É como se, apesar de todos os esforços, houvesse sempre do que reclamar, houvesse sempre mais alguma coisa que deveria ter sido feita. E, para quem vai sendo alvo destes exercícios de manipulação, é fácil viver com a sensação constante de culpa, de insuficiência e de desvalor.

Porque é que isto acontece?

Nós acreditamos que, quando alguém está numa relação, quer o melhor para a outra pessoa. E, se a pessoa que está ao nosso lado nos disser sistematicamente que nos ama e que quer o melhor para nós, torna-se mais difícil reconhecer as suas verdadeiras intenções. É como se, apesar do sofrimento que alguns comentários provocam, nos sentíssemos sistematicamente em dívida por não estarmos a corresponder às expectativas, por não estarmos a ser capazes de fazer o outro feliz.

Aquilo que acontece nestas relações é que há uma assimetria na valorização das necessidades dos membros do casal.



Do outro lado está alguém demasiado centrado em si mesmo, que quer que a relação seja definida por si, que impõe a própria vontade demasiadas vezes e que, ainda que fale muito de igualdade e da felicidade a dois, na prática, está disposto a fazer muito pouco para ir ao encontro das necessidades da pessoa que está ao seu lado. 

Como é que estas manipulações acontecem?

De uma maneira geral, a pessoa que está habituada a manipular deseja genuinamente manter a relação e vai fazendo esforços para mostrar ao(à) companheiro(a) que é capaz de ceder, de sair da sua zona de conforto e de fazer escolhas em nome da relação. Na verdade, na maior parte das vezes faz as escolhas que traduzam a SUA vontade, ainda que vá dizendo coisas como «Fiz isto por ti». Quando é confrontado(a) com uma vontade diferente da sua, manipula, pressiona, culpa com frases do tipo:


«Se tu gostasses mesmo de mim não me pedias isso»

«Tu devias ser capaz de ceder.
É isso que se faz quando se está numa relação»

«Não me podes obrigar a fazer isso»

ou «Sinto-me pressionado(a)». 



Em terapia, estes comportamentos são facilmente identificáveis por qualquer psicólogo experiente mas, no dia-a-dia, pode ser mesmo difícil reconhecer que a pessoa que está ao nosso lado está muito mais interessada em fazer as coisas à sua maneira, independentemente do nosso bem-estar, do que com vontade de conhecer e valorizar as nossas necessidades.

Como é que eu posso saber se estou numa relação abusiva?


Muito mais do que prestar atenção aos comportamentos da pessoa que está ao nosso lado, é fundamental que sejamos capazes de prestar atenção ao nosso estado emocional. Se nos sentirmos regularmente exaustos, tristes ou nervosos, como se carregássemos toda a culpa pelos problemas da relação, é muito importante que consigamos falar com alguém que nos possa ajudar a perceber o que está a acontecer. A família e os amigos podem ajudar mas, de uma maneira geral, não têm a distância emocional que lhes permita reconhecer os comportamentos abusivos. Além disso, as pessoas mais manipuladoras dão o seu melhor para cultivar uma imagem pública de afabilidade, altruísmo e simpatia, o que pode contribuir para a descredibilização das queixas da pessoa que está a ser alvo de manipulações.

Como acabar com as manipulações?


Autocompaixão.

Há vários exercícios que nos podem ajudar a prestar atenção às nossas emoções, às nossas necessidades afetivas e a qualquer injustiça a que estejamos a ser expostos. Parar diariamente para observar as próprias emoções e registá-las por escrito é sempre muito terapêutico.


Experimente olhar para o que um episódio específico
lhe trouxe em termos emocionais. Se identificar
tristeza, culpa, sensação de obrigação ou vergonha
intensa, experimente visualizar o mesmo episódio com
outros protagonistas. O que é que diria a alguém de
quem gosta muito se essa pessoa estivesse na sua
posição? Escreva a mensagem que gostaria de dirigir
a essa pessoa a leia-a em voz alta para si.



Troca de papéis.

Este é um exercício que qualquer criança de 4 anos é capaz de realizar e que se torna cada vez mais difícil numa relação abusiva. A propósito de um episódio gerador de tensão, experimente colocar-se na posição do(a) seu(sua companheiro(a). O que é que você diria? Que escolhas faria? Veja se é capaz de reconhecer a assimetria, a existência de dois pesos e duas medidas. 

Assertividade.

Não há volta a dar. Para que as manipulações acabem, você vai ter de treinar a capacidade de dizer «Não» e dar voz, com firmeza, clareza e honestidade, àquilo de que precisa. Vai precisar de dizer muitas vezes «Basta. Não estás a respeitar-me!».

Rede social e familiar.

As pessoas que gostam de si e que genuinamente se preocupam consigo são o melhor sistema imunitário para fazer face a qualquer forma de abusos. Elas ajudam-no(a) a manter a sua autoestima e a olhar com mais discernimento para os episódios em que possa estar a ser alvo de manipulações. Alimente todas as relações afetivas que são importantes para si e não apenas a relação amorosa.

Ajuda.

Peça ajuda psicológica sempre que der por si em círculos viciosos que desgastam a sua autoestima. Quanto mais cedo pedir ajuda – individualmente ou para o casal -, mais rapidamente encontrará ferramentas para voltar a sentir-se em paz.

9.11.18

INSEGURANÇA, ANSIEDADE E AUTOESTIMA

Insegurança, ansiedade e autoestima

Como é que a insegurança pode condicionar a nossa vida? Quais são os sinais de que os nossos níveis de ansiedade não são saudáveis? E o que é que podemos fazer para aumentar a nossa autoestima e para nos sentirmos mais seguros?




A insegurança é um estado emocional que surge na sequência de uma situação que, por algum motivo, encaramos como ameaçadora. Nalgumas situações, a insegurança é protetora e ajuda-nos a lidar com ameaças reais. Aí o que acontece é que vamos mobilizar recursos para “resolver o problema”. Por exemplo, é isto que acontece quando nos preocupamos com a possibilidade de não estarmos suficientemente bem preparados para um exame e nos fechamos em casa a estudar. Neste caso, a insegurança é normal e adaptativa. Mas se a sensação de insegurança for mais permanente do que transitória, se não servir para resolver o que quer que seja e, pelo contrário, nos levar a frequentes círculos viciosos marcados por pensamentos negativos acerca de nós mesmos, níveis muito elevados de ansiedade e incapacidade de lidar com aquilo que percecionamos como problemas, então, muito provavelmente estamos a falar de uma condição que precisa de ser resolvida, às vezes com ajuda terapêutica.

Qual é a causa da insegurança?


A forma como olhamos para nós está muito relacionada com a forma como os adultos à nossa volta olhavam para nós enquanto éramos crianças. As crianças mais seguras são aquelas que recebem a atenção dos pais, aquelas que se sentem vistas, cujos sentimentos são reconhecidos e valorizados, aquelas que sabem que podem falar sobre aquilo que sentem sem que isso seja alvo de críticas ou humilhações. Quando os cuidadores ignoram as necessidades afetivas das crianças, quando assumem uma postura de desvalorização ou, pior do que isso, de hipercrítica, é mais provável que elas se transformem em adultos inseguros.

Como lidar com a insegurança e melhorar a autoestima?


Há passos concretos que podemos dar com a intenção de lidar com a insegurança generalizada e melhorar a nossa autoestima:

Identificar os pensamentos negativos. 


A forma como olhamos para nós está relacionada com todas as crenças negativas que fomos interiorizando. Identificá-las é o primeiro passo para que possamos libertar-nos da forma distorcida como olhamos para nós e que, na prática, consigamos reconhecer que o nosso valor é independente desses pensamentos ou da opinião que qualquer pessoa tenha a nosso respeito.

Desconstruir os rótulos.


Com ajuda externa é mais fácil mas há alguns exercícios que nos podem ajudar a descolar-nos dos rótulos que se foram colando à imagem que temos de nós mesmos. Por exemplo, se cultivarmos a autocompaixão, é muito mais provável que nos libertemos deles. Como?

Insegurança, ansiedade e autoestima

Um exercício simples e terapêutico passa por
anotarmos as situações em que nos sentimos mal
connosco mesmos, aquelas em que claramente nos
penalizámos por não termos sido “suficientemente bons”
ou por não estarmos “à altura”. Depois, a proposta é que
nos coloquemos de fora, imaginando que aquelas seriam
situações vividas por uma pessoa que amamos. O que é
que lhe diríamos? De que forma – honesta e bondosa – a tentaríamos ajudar a reconhecer o seu valor?

Insegurança, ansiedade e autoestima


Revisitar o passado.


Identificar as situações e as pessoas que fizeram críticas e/ou que desvalorizaram as nossas necessidades afetivas não é fácil mas é um passo que pode revelar-se muito terapêutico e libertador. Acalmamo-nos na medida em que consigamos olhar para trás, não com o objetivo de criticar os nossos pais ou quaisquer outros adultos que tenham contribuído para a nossa baixa autoestima, mas sim com a intenção de genuinamente empatizar com as limitações dessas pessoas.

Os adultos que cuidaram de nós fizeram o melhor que sabiam e, quase de certeza, também foram expostos a escolhas menos felizes.


Ouvir as pessoas que gostam de nós.


Quanto mais nos entregarmos aos círculos viciosos dos pensamentos negativos, menor será a nossa capacidade para prestarmos atenção ao discurso das pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco. É difícil acreditar em palavras bonitas e elogiosas quando a visão que temos a nosso respeito está tão distorcida. Parar de propósito para prestar atenção ao que está á nossa volta ajuda-nos a olhar para a realidade como ela é.

Elaborar um plano.


A concretização dos nosso objetivos depende, entre outras coisas, da capacidade de acreditarmos que podemos chegar lá. A baixa autoestima teima em dizer-nos que não vale a pena. Não vale a pena tentar ter mais amigos, não vale a pena lutar pelo emprego dos nosso sonhos… Sermos capazes de reconhecer que não controlamos tudo é tão importante quanto reconhecer qual é o nosso poder. Seja qual for o objetivo – romântico, pessoal, profissional – é fundamental reconhecer os pequenos passos que podemos dar e… agir.

Como lidar com a ansiedade?


Quando nos centramos no trabalho que podemos fazer para melhorar a nossa autoestima e passarmos a sentir-nos mais seguros, percebemos que as coisas não mudam de forma automática ou sequer à velocidade a que gostaríamos. Há situações que geram invariavelmente a subida dos níveis de ansiedade e é preciso lidar com isso. Há muitas ferramentas que nos podem a ajudar a gerir a ansiedade situacional. Tenho-me referido muitas vezes à meditação e a todas as ferramentas do Mindfulness porque é reconhecida a sua eficácia neste campo. Há ainda outros exercícios respiratórios que, quando colocados em prática, nos podem ajudar a autoacalmar-nos. Um desses exercícios é o 4-7-8:

Insegurança, ansiedade e autoestima

Coloque a ponta da língua no céu da boca durante
todo o exercício. Inspire pelo nariz enquanto conta
até 4. Retenha o ar enquanto conta até 7. Deite o ar
pela boca enquanto conta até 8. Repita este ciclo pelo
menos 5 vezes. Treine diariamente, por exemplo,
 antes de adormecer e use esta ferramenta nas
situações  em que se sinta mais agitado(a).

Insegurança, ansiedade e autoestima


Nunca é tarde para trabalharmos a nossa autoestima. Vamos sempre a tempo de parar para cuidar de nós, para olhar para as nossas vulnerabilidades e adquirir as ferramentas que nos permitam reconhecer o nosso valor e viver em paz. Nesta caminhada, é fundamental que nos habituemos a questionar com regularidade e genuína curiosidade:

O que é que me faz feliz?
O que é que eu posso fazer?

30.10.18

COMO PROMOVER A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS

Como promover a autoestima das crianças

O que é que pais e mães podem fazer para promover a autoestima das crianças? E o que é que não devem mesmo fazer? A forma como olhamos para nós mesmos está muito relacionada com a forma como os adultos à nossa volta olhavam para nós enquanto éramos crianças. Felizmente, a maior parte dos pais e mães reconhecem esse impacto e dão o seu melhor para evitar cometer os erros que os seus próprios pais cometeram.


Quando os adultos ignoram as necessidades afetivas das crianças, quando assumem uma postura de desvalorização ou, pior do que isso, de hipercrítica ou humilhação, é mais provável que elas se transformem em adultos inseguros. Por outro lado, as crianças mais seguras são aquelas que recebem a atenção dos pais, aquelas que se sentem vistas, cujos sentimentos são reconhecidos e valorizados, aquelas que sabem que podem falar sobre aquilo que sentem sem que isso seja alvo de críticas ou de humilhações.

QUE COMPORTAMENTOS DOS ADULTOS
PROMOVEM A INSEGURANÇA DAS CRIANÇAS?


Desvalorizar as queixas da criança.

«És um(a) mariquinhas», «Pareces um bebé», «Ainda devias apanhar por cima» são frases que transmitem, ainda que de forma involuntária, a mensagem «Tu não és importante. Aquilo que tu sentes não é importante». Consequentemente, é mais provável que a criança (mais tarde o adulto) interiorize rótulos como «Eu não sou suficiente», «Estou a exagerar» (a propósito da própria tristeza, por exemplo).

Fazer comparações.

A intenção pode ser boa, mas quando dizemos coisas como «Olha para o teu irmão, tão bem comportado» ou «Devias ser como o teu colega X», estamos a transmitir a ideia de que a criança não tem valor suficiente e de que o nosso amor é condicional, isto é, de que gostamos mais ou menos da criança em função dos seus comportamentos.

Prometer e não cumprir.

Quando nos comprometemos com alguma coisa e sucessivamente falhamos, criamos expectativas e sofrimento. É como se estivéssemos a dizer, ainda que de forma involuntária, que os sentimentos das crianças não são importantes. Por outro lado, estamos a descurar a oportunidade de lhes ensinarmos a importância da responsabilidade pessoal.

Ameaçar.

Quando o pai ou a mãe pune física ou emocionalmente os filhos, ou quando os ameaça nesse sentido – mesmo que sejam “só” ameaças do tipo «Se te portares mal, não gosto de ti», aquilo que a criança interioriza é que não é suficientemente boa, que o amor dos adultos não é um amor incondicional.

Elogiar em excesso.

Ao contrário do que se possa pensar, as crianças, tal como os adultos, não precisam de estar permanentemente a ser elogiadas.


As crianças precisam de ser vistas. Precisam que os adultos prestem atenção, que reconheçam os seus esforços. Se a criança correr um corta-mato e ficar em último lugar, não precisa que os adultos lhe digam que «Não faz mal» ou que ela é «a melhor da turma a matemática». Precisa que os adultos se interessem, que queiram saber, que coloquem perguntas e que a confortem com palavras como «Que pena que estás triste. Isto é importante para ti? O que é que achas que podes fazer para melhorar o teu desempenho?». 

QUE COMPORTAMENTOS PROMOVEMA SEGURANÇA E A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS?


As crianças transformam-se em adultos mais seguros na medida em que se sintam reconhecidas e amparadas. Isso implica que haja atenção, que haja a capacidade de dar importância ao que elas sentem e que haja compaixão e bondade.

São exemplos de comportamentos que ajudam a promover a segurança e a autoestima:

Mostrar amor incondicional.

É importante dissociar o valor da criança das suas conquistas e realizações tanto quanto dos seus maus comportamentos. Os pais e as mães podem mostrar o seu amor incondicional pelos filhos dizendo-lhes que os amam, através dos gestos de afeto e prestando-lhes muita atenção – nos bons e nos maus momentos. Isto é diferente de elogiar e dizer «Gosto de ti» apenas quando a criança se “porta bem”.

Estar (mesmo) presente.

As crianças precisam de ser vistas, precisam de sentir que são merecedoras da nossa atenção. Quando brincamos com elas, quando fazemos perguntas sobre os desenhos que nos mostram, quando desviamos o olhar dos nossos brinquedos (telemóveis, tablets e outros) “só” para interagir com elas, estamos a dizer-lhe de forma inequívoca «Tu és importante para mim». Mas também quando paramos para conversar com elas e perceber os sentimentos por detrás de uma birra em vez de as rotularmos de “más”.

Mostrar compaixão e bondade em relação a nós e aos outros.

Se quisermos que os nossos filhos sejam justos – consigo e com os outros – e equilibrados, é muito importante que consigamos educa-los no sentido de serem capazes de olhar para os seus sentimentos e para os sentimentos dos outros com respeito.

Quando reconhecemos as nossas emoções e lhes damos um nome, estamos a educar as nossas crianças no mesmo sentido.


Quando explicamos que, para cada sentimento, há várias “estradas”, estamos a ensiná-los a gerir as suas emoções. Quando mostramos preocupação, empatia e solidariedade em relação a outras pessoas, estamos a incentivá-los a fazer o mesmo.

Lutar por objetivos.

As crianças, tal como os adultos, são mais felizes quando conseguem identificar objetivos e lutar por eles. Nem todos serão alcançáveis mas o nosso bem-estar e a nossa autoestima crescem quando nos focamos naquilo que podemos fazer para perseguir os nossos sonhos – mesmo que isso dê muito trabalho e leve algum tempo.

Elogiar o esforço.

Mais do que elogiar cada sucesso alcançado, é importante prestar atenção e elogiar o empenho das crianças. Nem todos somos bons a matemática, nem todos seremos futebolistas de excelência como o Cristiano Ronaldo. Mas é infinitamente mais provável que os nossos filhos sejam realmente excelentes nalguma das suas áreas de interesse se o seu esforço for reconhecido na medida certa. O importante é que a criança dê o seu melhor.

Promover a autoconfiança.

A nossa autoconfiança numa área específica – como a matemática, o desenho ou o futebol – pode não ser suficiente para que nos sintamos seguros noutras áreas – como falar em público ou conversar com alguém que consideremos interessante, por exemplo. Mas, de uma maneira geral, a autoconfiança ajuda-nos a reconhecer o nosso valor e promove a nossa autoestima. Ajudar a criança a reconhecer as áreas em que pode ser excelente ajudá-la-á a lidar melhor com as suas limitações e também promoverá a sua autoestima.

Não há duas crianças iguais e nenhum livro nem nenhuma fórmula vale tanto quanto a capacidade que cada pai e mãe tem para olhar para as suas crianças e reconhecer as suas necessidades. Quando nos permitimos parar para prestar (mesmo) atenção ao que está a acontecer a cada momento e, sem juízos de valor nem preocupações com aquilo que os outros possam pensar, colocamos perguntas que nos ajudem a perceber aquilo que os nossos filhos estão a sentir, é muito mais provável que encontremos as respostas de que precisamos para os ajudar.

23.10.18

DAR ESPAÇO NUMA RELAÇÃO

Dar espaço numa relação

Quando a pessoa que amamos diz que precisa de espaço, o que é que isso significa? Será que quer dizer que a relação está à beira do fim? Ou será uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes, mais vivos e também mais ligados?





Para a maior parte das pessoas, uma relação de compromisso feliz é uma conjugação de segurança e de aventura. De previsibilidade e de novidade. De proteção e de liberdade. Mas para alguns de nós a necessidade de segurança e de previsibilidade é maior do que qualquer vontade de que haja mistério ou tempo a sós. Quanto maior for o caos em que crescemos, maior é a probabilidade de precisarmos de relações estáveis, em que nos sintamos permanentemente amparados, seguros. Mas quanto mais segura for a nossa relação com a família de origem, quanto maior for a liberdade com que crescemos, maior é a probabilidade de, em adultos, precisarmos de algum mistério nas nossas relações amorosas.

Quando uma pessoa mais ansiosa se compromete com alguém seguro e com a tal necessidade de inovação, liberdade e tempo a sós, a ansiedade cresce. E às vezes cresce tanto que a pessoa que precisa de espaço chega a sentir-se asfixiada.



Tanto que, para algumas pessoas, o desejo começa a diminuir em função desta proximidade “excessiva”.

O QUE FAZER QUANDO A PESSOA QUE AMAMOS DIZ QUE PRECISA DE ESPAÇO?


Independentemente das características de personalidade de cada um, é fundamental que aprendamos a reconhecer e a dar valor aos nossos sentimentos e às nossas necessidades afetivas. Isso não significa que valha tudo ou que seja razoável que um dos membros do casal imponha as suas escolhas ao outro. Aquilo que importa é que as necessidades sejam reconhecidas e que, a dois, haja a negociação que permita que ambos se sintam felizes. Às vezes fixamo-nos em determinados desejos e esquecemo-nos de que há outras formas de preenchermos a mesma necessidade afetiva.

Para que a nossa relação continue a ser uma fonte de satisfação, de alegria e de vivacidade, tanto quanto de segurança e amparo, é fundamental:

Ter os próprios amigos.

Não há nada de errado nas saídas a dois com amigos. É saudável que haja pessoas de quem gostamos e com quem possamos sair enquanto casal. Mas é igualmente importante que cada um tenha a oportunidade de sair sozinho, com outras pessoas. Isso não significa que a ligação esteja a perder-se. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes e, em função disso, mais ligados também.

Cultivar os próprios interesses.

À medida que a relação se vai consolidando, vamo-nos dando conta de que a pessoa que está ao nosso lado não é exatamente a nossa alma gémea. Não gosta de tudo aquilo de que nós gostamos, não se interessa por todas as conversas a que achamos graça. E está tudo bem. Pelo menos, se cada um continuar a cultivar os seus interesses.

Ouvir o companheiro como uma pessoa independente.

Nós achamos muitas vezes que conhecemos muito bem a pessoa que está ao nosso lado. E isso pode ser verdade. Mas não deve impedir-nos de cultivar uma postura de curiosidade genuína, de querer saber. Quando damos a outra pessoa como adquirida e deixamos de prestar atenção, deixamos de fazer perguntas, deixamos de reparar naquilo que vai mudando (e que nem sempre nos agrada), abrimos espaço para que ele/ ela se sinta menos feliz. 

Continuar a surpreender.

É demasiado fácil sermos engolidos pelas rotinas e pela monotonia. É estupidamente fácil deixarmos de associar a nossa relação à alegria e ao entusiasmo que a caracterizava no início. Mas a segurança e a solidez que uma relação nos traz não tem de ser impeditiva de que continuemos a sentir-nos vivos. Prestar atenção aos detalhes e darmos o nosso melhor para surpreender de vez em quando a pessoa que amamos é meio caminho para que a relação continue viva.
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