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22.2.17

RESPONDA A ESTAS 3 PERGUNTAS ANTES DE AVANÇAR PARA O DIVÓRCIO


Portugal é o campeão europeu em matéria de divórcio: por cada 100 casamentos há 70 divórcios. Curiosamente, o número de pessoas que se casam pela segunda e pela terceira vez tem aumentado. Continuamos a ter esperança de encontrar a pessoa certa e de viver com ela «para sempre» mas esse parece ser um desafio cada vez maior.

Se uma pessoa se sentir insatisfeita com a sua relação, é legítimo que pense em separar-se mas valerá a pena parar para refletir sobre algumas questões.

1.       A RELAÇÃO TEM UM PROBLEMA INULTRAPASSÁVEL?

Em momentos de fúria, a ideia de um divórcio pode parecer a escapatória para ser mais feliz. Muitos casais felizes identificam momentos de desconexão em que surgiram pensamentos como «O que é que eu estou a fazer nesta relação?» ou «Talvez estivesse melhor sozinho(a)». É normal. Depois a raiva passa e dão conta de que aquilo que os une é mais forte do que aquilo que os separa.



À medida que a sensação de desamparo se instala, é provável que pelo menos uma das partes equacione esta alternativa.

Antes de avançar, procure refletir sobre os motivos por detrás desta escolha. Se estiver numa relação onde haja qualquer forma de maus-tratos ou se a pessoa de quem gosta tiver um problema de alcoolismo ou outra forma de dependência não tratada, o divórcio é, provavelmente, a escolha que lhe permitirá cuidar de si, do seu amor-próprio e, assim, abrir espaço para que, mais cedo ou mais tarde, possa construir uma relação emocionalmente estável com outra pessoa. Mas se der por si a dizer (ou pensar) coisas como «Já não há paixão» ou «Nós estamos muito distantes», não se precipite. Estes são sinais de desconexão comuns à maior parte das pessoas que recorrem à ajuda da terapia conjugal.

Mesmo quando há amor, é relativamente fácil acumular desilusões em relação à pessoa de quem gostamos. Na azáfama dos dias, entre a vontade de continuar a alimentar a relação e ser um super pai ou uma super mãe, dar o melhor em contexto profissional, conseguir estar “lá” para a família alargada e para os amigos, é fácil descurar as necessidades de quem mais gostamos. À medida que isso acontece, é expectável que pelo menos um dos membros do casal se sinta ignorado, desprezado, rejeitado, desamparado. E à medida que as dificuldades de comunicação se instalam e o desespero toma conta de si, é fácil atirar a toalha ao chão e desistir do projeto mais importante da sua vida.

Parar para olhar para as verdadeiras dificuldades, para as circunstâncias em que se sente desvalorizado, ignorado, tomado como garantido ou até desprezado pode implicar que cada um tenha oportunidade de implementar mudanças que façam renascer a esperança.

2.       O DIVÓRCIO EMOCIONAL JÁ ACONTECEU?

Algumas pessoas divorciam-se muito antes de terem consciência disso. Às vezes estão tão absorvidas pelos múltiplos afazeres que nem reparam na própria tristeza. Ou reparam mas não conseguem fazer nada. Continuam casadas mas, se olharmos de perto, reparamos que raramente estão juntas, raramente param para namorar, raramente se divertem a dois. Funcionam como uma equipa – ele leva os miúdos ao colégio, ela vai busca-los; ele vai ao ginásio ao serão enquanto ela trata do jantar; ela vê a série de televisão no quarto enquanto ele trata da cozinha – mas não alimentam o amor romântico. Os anos passam – às vezes passam-se décadas! – e as pessoas habituam-se. Estão lá mas não estão. E há uma altura em que o divórcio até parece fácil. Afinal, é “só” passar para o papel aquilo que tem sido a sua realidade. Na prática, importa parar para prestar atenção ao essencial: o que é que cada um (ainda) sente? Ainda há afeto? Apesar de todo o distanciamento, o que é que ainda os une? Por que é que ainda não se divorciaram?

Em muitos casos não houve divórcio emocional. Houve distanciamento e até mágoas acumuladas. Mas as pessoas foram ficando porque ainda havia amor, porque ainda havia esperança. Se for esse o caso, vale sempre a pena parar para refletir sobre as escolhas que têm prejudicado a relação e dar tempo para que novos hábitos possam dar frutos.

3.       DO QUE É QUE EU PRECISO?

Quase todas as pessoas são capazes de fazer uma lista interminável com as suas necessidades afetivas. Mais do que isso, a maior parte das pessoas são capazes de fazer uma lista com tudo aquilo que acham que merecem. «Eu mereço alguém que queira partilhar todas as tarefas domésticas comigo», «Eu mereço alguém que ganhe tanto como eu», «Eu mereço alguém que saiba do que é que eu gosto quando vai às compras».

Na prática – não me canso de dizer:



E ainda bem. De outro modo, nenhum de nós estaria à altura dos requisitos da pessoa de quem gostamos.

Quanto mais nos agarramos à imagem ideal de um parceiro romântico, mais reparamos nas imperfeições da pessoa (real) que está ao nosso lado. E isso distrai-nos de todas as suas qualidades, as mesmas que nos atraíram no início da relação.


Tentar responder de forma honesta à pergunta «Do que é que eu preciso (mesmo) para ser feliz numa relação?» é essencial para evitar precipitações. Afinal, talvez não seja por acaso que a taxa de divórcios para segundos casamentos é assustadoramente alta.

16.2.17

É POSSÍVEL REATAR UMA RELAÇÃO COM UM EX-NAMORADO E SER FELIZ?


Reatar uma relação com um ex-namorado é o caminho para uma relação mais feliz ou vai tudo voltar a correr mal? Foi com muito gosto que cedi uma entrevista ao Diário de Notícias a propósito deste tema.

1 - Um casal que se reencontra depois de uma primeira relação falhada pode reconstruir uma relação feliz?

Sim, sobretudo se o afastamento der lugar à reflexão sobre o que correu mal da primeira vez e/ou ao amadurecimento individual. Da mesma maneira que crescemos quando estamos numa relação, é provável que amadureçamos na sequência de uma rutura. A distância emocional em relação aos momentos de conflito pode ajudar-nos a olhar para os erros cometidos com sentido de responsabilidade.

2 - E para isso têm que esquecer o que correu mal numa primeira relação? Esse deve ser um assunto esclarecido logo à partida?

Ninguém esquece aquilo por que passou, especialmente se tiver causado mágoa. Não é desejável que se tente apagar o passado, em particular se um dos membros do casal tiver cometido erros graves. Aquilo que deve acontecer é uma tentativa de esclarecer aquilo que porventura tenha ficado por esclarecer.



3 - Como fazer resultar uma relação que já não correu bem uma vez?

Na medida em que se consiga falar abertamente sobre o que correu mal e, sobretudo, na medida em que cada um seja capaz de assumir genuíno arrependimento em relação aos erros cometidos, é mais provável que surjam compromissos importantes. Se tiver havido marcos que tenham abalado a confiança, é fundamental que se esclareça as expectativas e as necessidades de cada um. A inexistência deste tipo de diálogo poderia implicar que, nas mesmas circunstâncias, se repetissem os erros ou que um desenvolvesse expectativas irrealistas em relação ao outro. Por exemplo, em certos casos em que houve uma traição, a pessoa que foi traída pode ter a expectativa de que o companheiro esteja disponível para abdicar do direito à privacidade com o objetivo de restaurar a confiança. A pessoa que traiu pode ter a expectativa de que o cônjuge tenha “esquecido” o assunto e/ou esteja capaz de assumir o compromisso de não voltar a falar nisso.

4 - No caso de pessoas mais velhas que encontram um amor antigo, depois de enviuvar ou de se divorciarem. Como se regressa a uma relação que já passou há décadas? Há alguma coisa ainda da primeira ligação?

Haverá provavelmente memórias de momentos positivos vividos a dois e a sensação de pertença, de proximidade afetiva. Claro que as décadas de afastamento correspondem quase sempre a mudanças muito significativas e nem sempre é fácil o confronto entre as expectativas e a realidade. Por um lado, há a sensação de se estar “em casa”, a sensação de familiaridade, a ideia de que se conhece aquela pessoa de toda a vida mas, por outro, há o confronto com uma bagagem que é desconhecida e que pode trazer surpresas.

5 - Como podem neste caso os elementos do casal afirmar o seu direito a ter uma nova relação e feliz quando muitas vezes os filhos, já adultos, não aceitam?

Os filhos não são donos dos pais e, ainda que uma mudança desta natureza nem sempre seja fácil de aceitar, é fundamental que haja respeito pelas escolhas de cada um. Tal como acontece a propósito do divórcio dos filhos, em que os pais têm o direito à tristeza e ao luto mas não têm o direito de condicionar decisões, nestes casos os filhos adultos têm o direito de se sentirem desconfortáveis ou tristes com a nova relação mas não têm o direito de impor a sua vontade. Infelizmente, na prática há alguns casos em que a rutura acontece – às vezes entre os membros do casal, outras entre pais e filhos.

6 - É mais fácil reconstruir uma história com alguém com quem já se foi feliz? Quais os desafios de uma relação nestes termos?


Nalguns casos pode ser mais fácil, em função da sensação de familiaridade que referi antes. Quando há demasiada tensão na bagagem da relação e/ou demasiados assuntos por resolver pode tornar-se mais difícil. Outro desafio diz respeito aos acontecimentos que ocorreram no intervalo da relação – é preciso falar sobre eles, às vezes intensamente, para que haja a sensação de que se conhece verdadeiramente aquela pessoa. Dez ou quinze anos depois, já não se ouve as mesmas músicas, os interesses mudam e, seguramente, os acontecimentos emocionalmente mais significativos implicaram mudanças na forma como cada um olha para a vida.

14.2.17

A VERDADEIRA IMPORTÂNCIA DO DIA DOS NAMORADOS


A propósito do DIA DOS NAMORADOS, fui entrevistada para o site Notícias ao Minuto.

1. É importante para os casais a celebração do Dia dos Namorados? Porquê?

Nem todas as pessoas valorizam esta data da mesma forma. Aquilo que é importante é que cada um de nós conheça a pessoa que está ao nosso lado e que faça o que está ao seu alcance para a fazer feliz. Isso também se aplica (ou deveria aplicar-se) à celebração do Dia dos Namorados. Gostar verdadeiramente de alguém é querer fazê-lo feliz mesmo que isso implique sair da nossa zona de conforto. Então, mesmo que eu não goste da data ou, pelo menos, não lhe atribua especial significado, posso investir algum tempo no sentido de surpreender a pessoa que amo se isso for importante para ela.

O dia dos Namorados é mais uma oportunidade de celebrar o amor – tal como o são outras datas. Alguns casais cumprem o ritual de ir jantar fora para celebrar o aniversário de casamento, o aniversário de namoro ou até o aniversário da data em que se conheceram. Outros não valorizam nenhuma destas datas mas alimentam a relação com viagens anuais – que são outro tipo de rituais.

2. O que é que os casais jamais devem fazer neste dia?

Aquilo que não devem fazer é desvalorizar os sentimentos da pessoa que amam. Como referi antes, se a pessoa de quem gostamos valoriza a data, não faz sentido ridiculariza-la ou desvalorizar aquilo que sente. Isso implicaria rejeição e a sensação de desamparo.

Também me parece desajustado cobrar à pessoa de quem gostamos que se comporte de forma completamente distinta daquilo que é.



Uma coisa é expressarmos as nossas necessidades e esperarmos que a pessoa de quem gostamos valorize os nossos sentimentos. Outra coisa seria fazer exigências que implicassem que aquela pessoa se sentisse desconfortável.

3. Há alguma fase da relação em que esta data seja realmente importante? Por exemplo, há diferenças no impacto da celebração num casal junto há um ano ou num casal junto há dez?

Para algumas pessoas, esta data será sempre importante na medida em que represente mais uma oportunidade de mostrarem o quanto gostam uma da outra. Para outras, a data pode ir perdendo importância na medida em que haja rituais a que deem mais valor.

4. Os casais menos felizes ou com algum tipo de problema devem aproveitar a data para resolver a situação? Porquê?


Todos os dias são bons para tentar resolver o que está mal numa relação. O Dia dos Namorados está associado ao amor e aos gestos românticos, pelo que pode ser gerador de algum sofrimento para as pessoas que estejam a atravessar um mau momento na relação. A existência de um dia em que se fala de amor e em que se vê rosas vermelhas por todo o lado pode avivar as feridas e, consequentemente, trazer mais alguma tensão a uma relação em crise. Mas também pode servir para que cada um dos membros do casal reflita sobre a importância da relação e, sem pressas, dê o primeiro passo no sentido de mostrar que está disposto a lutar pela reaproximação.

13.2.17

O QUE É QUE FAZ COM QUE UMA RELAÇÃO DÊ CERTO?

O que é que faz com que uma relação dê certo?
O que é que a ciência diz?
Quais são os verdadeiros testes a uma relação?
Como é que os casais felizes respondem às solicitações do dia-a-dia?
Como é que os membros do casal reagem quando um não está de acordo com a forma como o outro castiga os filhos?
Como é que se deve reagir quando a pessoa de quem gostamos não está "lá" para nós?

6.2.17

TUDO O QUE O AMOR NÃO É: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


«És demasiado sensível. Não tens sentido de humor». Foram tantas as vezes que Anabela ouviu aquelas frases que, a partir de certa altura, passou a acreditar neste e em todos os rótulos que o marido lhe foi atribuindo. Foi preciso muito tempo para perceber que as piadas que João fazia junto de familiares e amigos, inferiorizando-a, também eram uma forma de violência emocional. Apesar de sofrer com os comentários, habituou-se a desvalorizar os seus sentimentos. Afinal, era a pessoa que amava que lhe dizia que ela era “demasiado sensível”.


- Estás chateada com o quê?
- Hã? Eu não estou chateada.
- Podes não reparar, mas sempre que vens do curso novo que estás a fazer pareces outra. Andas mais sisuda, mais rabugenta.
- Mas eu nem disse nada…
- Estás a ver? Já estás a arranjar discussão. Não se pode falar contigo.

Rita não se deu conta de que, enquanto o marido definia os seus sentimentos, dizendo-lhe que estava zangada, estava na verdade a sabotar uma atividade de que ela gostava e que o fazia sentir-se ameaçado. Ninguém está permanentemente atento à própria expressão facial e, quando a pessoa de quem gostamos nos diz que estamos com ar cansado ou zangado, acreditamos. A última coisa em que pensamos é que aquilo possa ser uma forma de abuso.


«Se tu gostasses MESMO de mim, não me obrigavas a ir a esse jantar. A tua mãe está sempre a falar dela mesma e o teu pai não perde uma oportunidade para se queixar disto e daquilo. Numa relação é importante fazer cedências e prestar atenção ao que a pessoa de quem gostamos sente. Tu não te preocupas comigo?». Claro que Rute se preocupa com o marido. E é óbvio que Vasco sabe disso. Por que faz chantagem emocional? Porque é que  não diz qualquer coisa como «Eu sei que era importante para ti que eu fosse mas hoje sinto me cansado, impaciente. Não te importas que eu fique?». Porque para si é mais gratificante exercer poder sobre a mulher, definir os sentimentos dela («se tu gostasses mesmo de mim…»), forçá-la a fazer uma escolha diferente daquela que gostaria, potenciar sentimentos de culpa e colocar-se numa posição de superioridade, capaz de identificar os comportamentos certos e errados de uma boa relação.


«Como é que tu achas que os nossos filhos vão olhar para ti? Vão acusar-te de egoísmo e malvadez. Não se desiste assim de uma família. Não se tira a estabilidade emocional a duas crianças nem se termina um amor de vinte anos só por causa de meia dúzia de discussões. Pergunta a quem quiseres. Até os teus pais vão ficar em choque. Eles sabem que eu te adoro.».

Nuno sabia aquilo que estava a dizer. Sabia que ao definir a personalidade da mulher e ameaça-la com os juízos de valor dos filhos estava a tocar no seu maior medo. Ainda que a mulher e os filhos tenham sido vítimas continuadas das suas explosões, das suas críticas e da sua chantagem emocional, Nuno deu o seu melhor para manter uma imagem de pai de família imaculado. Sabia que toda a gente à sua volta o via como uma pessoa simpática, generosa e altruísta. É assim que muitos abusadores se comportam fora de casa.


Quando Luís entrou na sala de cinema com a mulher, sabia que viriam dias difíceis. Tinha acabado de ser simpático com a funcionária que lhe vendeu as pipocas, sorrindo perante uma brincadeira. Ana, a mulher, não gostou e, à entrada para o cinema disse apenas «És ridículo». Seguiram-se dois dias de “tratamento do silêncio”. Luís estava habituado a esta forma de violência embora não tivesse consciência de que era disso que se tratava. Sabia que se contrariasse as expectativas da mulher poderia estar horas, dias ou semanas sem receber qualquer gesto de carinho. Sofria com isso mas estava longe de perceber que os comportamentos abusivos estavam a destruir a sua autoestima.


«Não vales nada.». É curioso como a frase, repetida até à exaustão, deixou de escandalizar Diana. Era ela que trabalhava fora de casa, era ela que brilhava no mundo corporativo e era ela que sustentava a família. Fernando estava desempregado há muito tempo e Diana habituou-se a atribuir as humilhações à diminuição da autoestima do marido. Durante muito tempo não percebeu que aquela era só mais uma forma de controlo, mais uma forma de o marido se superiorizar e, em função disso, mantê-la sob as suas ordens.



A violência emocional pode assumir muitas formas. Pode ser feita em voz baixa, quase doce, confundindo a vítima. Pode incluir gritos, insultos e explosões. Mas também pedidos de desculpas que parecem uma nova lua-de-mel. Muitas vezes é praticada por alguém que publicamente tem uma imagem imaculada e que, em privado, vai aprimorando técnicas para exercer o seu poder sobre a pessoa que alegadamente ama. Normalmente não há um plano maquiavélico. Aquilo que existe é uma espécie de filme, imaginado por si, e uma vítima que, na sua cabeça, deveria comportar-se sempre de acordo com as suas expectativas. É como se houvesse um guião e a pessoa amada fosse uma personagem. Quando a personagem ganha vida e revela vontades, sentimentos ou interesses próprios, surgem comportamentos abusivos.
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