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13.11.18

ESGOTAMENTO EMOCIONAL NA RELAÇÃO CONJUGAL

Esgotamento emocional na relação conjugal

Há relações que são emocionalmente esgotantes. Há pessoas que parecem sugar toda a nossa energia com as suas queixas, exigências e manipulações. Como é que nos podemos defender destes abusos emocionais e recuperar o bem-estar?


Quando amamos uma pessoa e estamos genuinamente comprometidos com ela, fazemos aquilo que está ao nosso alcance para agradar, para ir ao encontro das suas necessidades, para a fazer feliz. Mas, para algumas pessoas, NADA parece ser suficiente. É como se, apesar de todos os esforços, houvesse sempre do que reclamar, houvesse sempre mais alguma coisa que deveria ter sido feita. E, para quem vai sendo alvo destes exercícios de manipulação, é fácil viver com a sensação constante de culpa, de insuficiência e de desvalor.

Porque é que isto acontece?

Nós acreditamos que, quando alguém está numa relação, quer o melhor para a outra pessoa. E, se a pessoa que está ao nosso lado nos disser sistematicamente que nos ama e que quer o melhor para nós, torna-se mais difícil reconhecer as suas verdadeiras intenções. É como se, apesar do sofrimento que alguns comentários provocam, nos sentíssemos sistematicamente em dívida por não estarmos a corresponder às expectativas, por não estarmos a ser capazes de fazer o outro feliz.

Aquilo que acontece nestas relações é que há uma assimetria na valorização das necessidades dos membros do casal.



Do outro lado está alguém demasiado centrado em si mesmo, que quer que a relação seja definida por si, que impõe a própria vontade demasiadas vezes e que, ainda que fale muito de igualdade e da felicidade a dois, na prática, está disposto a fazer muito pouco para ir ao encontro das necessidades da pessoa que está ao seu lado. 

Como é que estas manipulações acontecem?

De uma maneira geral, a pessoa que está habituada a manipular deseja genuinamente manter a relação e vai fazendo esforços para mostrar ao(à) companheiro(a) que é capaz de ceder, de sair da sua zona de conforto e de fazer escolhas em nome da relação. Na verdade, na maior parte das vezes faz as escolhas que traduzam a SUA vontade, ainda que vá dizendo coisas como «Fiz isto por ti». Quando é confrontado(a) com uma vontade diferente da sua, manipula, pressiona, culpa com frases do tipo:


«Se tu gostasses mesmo de mim não me pedias isso»

«Tu devias ser capaz de ceder.
É isso que se faz quando se está numa relação»

«Não me podes obrigar a fazer isso»

ou «Sinto-me pressionado(a)». 



Em terapia, estes comportamentos são facilmente identificáveis por qualquer psicólogo experiente mas, no dia-a-dia, pode ser mesmo difícil reconhecer que a pessoa que está ao nosso lado está muito mais interessada em fazer as coisas à sua maneira, independentemente do nosso bem-estar, do que com vontade de conhecer e valorizar as nossas necessidades.

Como é que eu posso saber se estou numa relação abusiva?


Muito mais do que prestar atenção aos comportamentos da pessoa que está ao nosso lado, é fundamental que sejamos capazes de prestar atenção ao nosso estado emocional. Se nos sentirmos regularmente exaustos, tristes ou nervosos, como se carregássemos toda a culpa pelos problemas da relação, é muito importante que consigamos falar com alguém que nos possa ajudar a perceber o que está a acontecer. A família e os amigos podem ajudar mas, de uma maneira geral, não têm a distância emocional que lhes permita reconhecer os comportamentos abusivos. Além disso, as pessoas mais manipuladoras dão o seu melhor para cultivar uma imagem pública de afabilidade, altruísmo e simpatia, o que pode contribuir para a descredibilização das queixas da pessoa que está a ser alvo de manipulações.

Como acabar com as manipulações?


Autocompaixão.

Há vários exercícios que nos podem ajudar a prestar atenção às nossas emoções, às nossas necessidades afetivas e a qualquer injustiça a que estejamos a ser expostos. Parar diariamente para observar as próprias emoções e registá-las por escrito é sempre muito terapêutico.


Experimente olhar para o que um episódio específico
lhe trouxe em termos emocionais. Se identificar
tristeza, culpa, sensação de obrigação ou vergonha
intensa, experimente visualizar o mesmo episódio com
outros protagonistas. O que é que diria a alguém de
quem gosta muito se essa pessoa estivesse na sua
posição? Escreva a mensagem que gostaria de dirigir
a essa pessoa a leia-a em voz alta para si.



Troca de papéis.

Este é um exercício que qualquer criança de 4 anos é capaz de realizar e que se torna cada vez mais difícil numa relação abusiva. A propósito de um episódio gerador de tensão, experimente colocar-se na posição do(a) seu(sua companheiro(a). O que é que você diria? Que escolhas faria? Veja se é capaz de reconhecer a assimetria, a existência de dois pesos e duas medidas. 

Assertividade.

Não há volta a dar. Para que as manipulações acabem, você vai ter de treinar a capacidade de dizer «Não» e dar voz, com firmeza, clareza e honestidade, àquilo de que precisa. Vai precisar de dizer muitas vezes «Basta. Não estás a respeitar-me!».

Rede social e familiar.

As pessoas que gostam de si e que genuinamente se preocupam consigo são o melhor sistema imunitário para fazer face a qualquer forma de abusos. Elas ajudam-no(a) a manter a sua autoestima e a olhar com mais discernimento para os episódios em que possa estar a ser alvo de manipulações. Alimente todas as relações afetivas que são importantes para si e não apenas a relação amorosa.

Ajuda.

Peça ajuda psicológica sempre que der por si em círculos viciosos que desgastam a sua autoestima. Quanto mais cedo pedir ajuda – individualmente ou para o casal -, mais rapidamente encontrará ferramentas para voltar a sentir-se em paz.

9.11.18

INSEGURANÇA, ANSIEDADE E AUTOESTIMA

Insegurança, ansiedade e autoestima

Como é que a insegurança pode condicionar a nossa vida? Quais são os sinais de que os nossos níveis de ansiedade não são saudáveis? E o que é que podemos fazer para aumentar a nossa autoestima e para nos sentirmos mais seguros?




A insegurança é um estado emocional que surge na sequência de uma situação que, por algum motivo, encaramos como ameaçadora. Nalgumas situações, a insegurança é protetora e ajuda-nos a lidar com ameaças reais. Aí o que acontece é que vamos mobilizar recursos para “resolver o problema”. Por exemplo, é isto que acontece quando nos preocupamos com a possibilidade de não estarmos suficientemente bem preparados para um exame e nos fechamos em casa a estudar. Neste caso, a insegurança é normal e adaptativa. Mas se a sensação de insegurança for mais permanente do que transitória, se não servir para resolver o que quer que seja e, pelo contrário, nos levar a frequentes círculos viciosos marcados por pensamentos negativos acerca de nós mesmos, níveis muito elevados de ansiedade e incapacidade de lidar com aquilo que percecionamos como problemas, então, muito provavelmente estamos a falar de uma condição que precisa de ser resolvida, às vezes com ajuda terapêutica.

Qual é a causa da insegurança?


A forma como olhamos para nós está muito relacionada com a forma como os adultos à nossa volta olhavam para nós enquanto éramos crianças. As crianças mais seguras são aquelas que recebem a atenção dos pais, aquelas que se sentem vistas, cujos sentimentos são reconhecidos e valorizados, aquelas que sabem que podem falar sobre aquilo que sentem sem que isso seja alvo de críticas ou humilhações. Quando os cuidadores ignoram as necessidades afetivas das crianças, quando assumem uma postura de desvalorização ou, pior do que isso, de hipercrítica, é mais provável que elas se transformem em adultos inseguros.

Como lidar com a insegurança e melhorar a autoestima?


Há passos concretos que podemos dar com a intenção de lidar com a insegurança generalizada e melhorar a nossa autoestima:

Identificar os pensamentos negativos. 


A forma como olhamos para nós está relacionada com todas as crenças negativas que fomos interiorizando. Identificá-las é o primeiro passo para que possamos libertar-nos da forma distorcida como olhamos para nós e que, na prática, consigamos reconhecer que o nosso valor é independente desses pensamentos ou da opinião que qualquer pessoa tenha a nosso respeito.

Desconstruir os rótulos.


Com ajuda externa é mais fácil mas há alguns exercícios que nos podem ajudar a descolar-nos dos rótulos que se foram colando à imagem que temos de nós mesmos. Por exemplo, se cultivarmos a autocompaixão, é muito mais provável que nos libertemos deles. Como?

Insegurança, ansiedade e autoestima

Um exercício simples e terapêutico passa por
anotarmos as situações em que nos sentimos mal
connosco mesmos, aquelas em que claramente nos
penalizámos por não termos sido “suficientemente bons”
ou por não estarmos “à altura”. Depois, a proposta é que
nos coloquemos de fora, imaginando que aquelas seriam
situações vividas por uma pessoa que amamos. O que é
que lhe diríamos? De que forma – honesta e bondosa – a tentaríamos ajudar a reconhecer o seu valor?

Insegurança, ansiedade e autoestima


Revisitar o passado.


Identificar as situações e as pessoas que fizeram críticas e/ou que desvalorizaram as nossas necessidades afetivas não é fácil mas é um passo que pode revelar-se muito terapêutico e libertador. Acalmamo-nos na medida em que consigamos olhar para trás, não com o objetivo de criticar os nossos pais ou quaisquer outros adultos que tenham contribuído para a nossa baixa autoestima, mas sim com a intenção de genuinamente empatizar com as limitações dessas pessoas.

Os adultos que cuidaram de nós fizeram o melhor que sabiam e, quase de certeza, também foram expostos a escolhas menos felizes.


Ouvir as pessoas que gostam de nós.


Quanto mais nos entregarmos aos círculos viciosos dos pensamentos negativos, menor será a nossa capacidade para prestarmos atenção ao discurso das pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco. É difícil acreditar em palavras bonitas e elogiosas quando a visão que temos a nosso respeito está tão distorcida. Parar de propósito para prestar atenção ao que está á nossa volta ajuda-nos a olhar para a realidade como ela é.

Elaborar um plano.


A concretização dos nosso objetivos depende, entre outras coisas, da capacidade de acreditarmos que podemos chegar lá. A baixa autoestima teima em dizer-nos que não vale a pena. Não vale a pena tentar ter mais amigos, não vale a pena lutar pelo emprego dos nosso sonhos… Sermos capazes de reconhecer que não controlamos tudo é tão importante quanto reconhecer qual é o nosso poder. Seja qual for o objetivo – romântico, pessoal, profissional – é fundamental reconhecer os pequenos passos que podemos dar e… agir.

Como lidar com a ansiedade?


Quando nos centramos no trabalho que podemos fazer para melhorar a nossa autoestima e passarmos a sentir-nos mais seguros, percebemos que as coisas não mudam de forma automática ou sequer à velocidade a que gostaríamos. Há situações que geram invariavelmente a subida dos níveis de ansiedade e é preciso lidar com isso. Há muitas ferramentas que nos podem a ajudar a gerir a ansiedade situacional. Tenho-me referido muitas vezes à meditação e a todas as ferramentas do Mindfulness porque é reconhecida a sua eficácia neste campo. Há ainda outros exercícios respiratórios que, quando colocados em prática, nos podem ajudar a autoacalmar-nos. Um desses exercícios é o 4-7-8:

Insegurança, ansiedade e autoestima

Coloque a ponta da língua no céu da boca durante
todo o exercício. Inspire pelo nariz enquanto conta
até 4. Retenha o ar enquanto conta até 7. Deite o ar
pela boca enquanto conta até 8. Repita este ciclo pelo
menos 5 vezes. Treine diariamente, por exemplo,
 antes de adormecer e use esta ferramenta nas
situações  em que se sinta mais agitado(a).

Insegurança, ansiedade e autoestima


Nunca é tarde para trabalharmos a nossa autoestima. Vamos sempre a tempo de parar para cuidar de nós, para olhar para as nossas vulnerabilidades e adquirir as ferramentas que nos permitam reconhecer o nosso valor e viver em paz. Nesta caminhada, é fundamental que nos habituemos a questionar com regularidade e genuína curiosidade:

O que é que me faz feliz?
O que é que eu posso fazer?

30.10.18

COMO PROMOVER A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS

Como promover a autoestima das crianças

O que é que pais e mães podem fazer para promover a autoestima das crianças? E o que é que não devem mesmo fazer? A forma como olhamos para nós mesmos está muito relacionada com a forma como os adultos à nossa volta olhavam para nós enquanto éramos crianças. Felizmente, a maior parte dos pais e mães reconhecem esse impacto e dão o seu melhor para evitar cometer os erros que os seus próprios pais cometeram.


Quando os adultos ignoram as necessidades afetivas das crianças, quando assumem uma postura de desvalorização ou, pior do que isso, de hipercrítica ou humilhação, é mais provável que elas se transformem em adultos inseguros. Por outro lado, as crianças mais seguras são aquelas que recebem a atenção dos pais, aquelas que se sentem vistas, cujos sentimentos são reconhecidos e valorizados, aquelas que sabem que podem falar sobre aquilo que sentem sem que isso seja alvo de críticas ou de humilhações.

QUE COMPORTAMENTOS DOS ADULTOS
PROMOVEM A INSEGURANÇA DAS CRIANÇAS?


Desvalorizar as queixas da criança.

«És um(a) mariquinhas», «Pareces um bebé», «Ainda devias apanhar por cima» são frases que transmitem, ainda que de forma involuntária, a mensagem «Tu não és importante. Aquilo que tu sentes não é importante». Consequentemente, é mais provável que a criança (mais tarde o adulto) interiorize rótulos como «Eu não sou suficiente», «Estou a exagerar» (a propósito da própria tristeza, por exemplo).

Fazer comparações.

A intenção pode ser boa, mas quando dizemos coisas como «Olha para o teu irmão, tão bem comportado» ou «Devias ser como o teu colega X», estamos a transmitir a ideia de que a criança não tem valor suficiente e de que o nosso amor é condicional, isto é, de que gostamos mais ou menos da criança em função dos seus comportamentos.

Prometer e não cumprir.

Quando nos comprometemos com alguma coisa e sucessivamente falhamos, criamos expectativas e sofrimento. É como se estivéssemos a dizer, ainda que de forma involuntária, que os sentimentos das crianças não são importantes. Por outro lado, estamos a descurar a oportunidade de lhes ensinarmos a importância da responsabilidade pessoal.

Ameaçar.

Quando o pai ou a mãe pune física ou emocionalmente os filhos, ou quando os ameaça nesse sentido – mesmo que sejam “só” ameaças do tipo «Se te portares mal, não gosto de ti», aquilo que a criança interioriza é que não é suficientemente boa, que o amor dos adultos não é um amor incondicional.

Elogiar em excesso.

Ao contrário do que se possa pensar, as crianças, tal como os adultos, não precisam de estar permanentemente a ser elogiadas.


As crianças precisam de ser vistas. Precisam que os adultos prestem atenção, que reconheçam os seus esforços. Se a criança correr um corta-mato e ficar em último lugar, não precisa que os adultos lhe digam que «Não faz mal» ou que ela é «a melhor da turma a matemática». Precisa que os adultos se interessem, que queiram saber, que coloquem perguntas e que a confortem com palavras como «Que pena que estás triste. Isto é importante para ti? O que é que achas que podes fazer para melhorar o teu desempenho?». 

QUE COMPORTAMENTOS PROMOVEMA SEGURANÇA E A AUTOESTIMA DAS CRIANÇAS?


As crianças transformam-se em adultos mais seguros na medida em que se sintam reconhecidas e amparadas. Isso implica que haja atenção, que haja a capacidade de dar importância ao que elas sentem e que haja compaixão e bondade.

São exemplos de comportamentos que ajudam a promover a segurança e a autoestima:

Mostrar amor incondicional.

É importante dissociar o valor da criança das suas conquistas e realizações tanto quanto dos seus maus comportamentos. Os pais e as mães podem mostrar o seu amor incondicional pelos filhos dizendo-lhes que os amam, através dos gestos de afeto e prestando-lhes muita atenção – nos bons e nos maus momentos. Isto é diferente de elogiar e dizer «Gosto de ti» apenas quando a criança se “porta bem”.

Estar (mesmo) presente.

As crianças precisam de ser vistas, precisam de sentir que são merecedoras da nossa atenção. Quando brincamos com elas, quando fazemos perguntas sobre os desenhos que nos mostram, quando desviamos o olhar dos nossos brinquedos (telemóveis, tablets e outros) “só” para interagir com elas, estamos a dizer-lhe de forma inequívoca «Tu és importante para mim». Mas também quando paramos para conversar com elas e perceber os sentimentos por detrás de uma birra em vez de as rotularmos de “más”.

Mostrar compaixão e bondade em relação a nós e aos outros.

Se quisermos que os nossos filhos sejam justos – consigo e com os outros – e equilibrados, é muito importante que consigamos educa-los no sentido de serem capazes de olhar para os seus sentimentos e para os sentimentos dos outros com respeito.

Quando reconhecemos as nossas emoções e lhes damos um nome, estamos a educar as nossas crianças no mesmo sentido.


Quando explicamos que, para cada sentimento, há várias “estradas”, estamos a ensiná-los a gerir as suas emoções. Quando mostramos preocupação, empatia e solidariedade em relação a outras pessoas, estamos a incentivá-los a fazer o mesmo.

Lutar por objetivos.

As crianças, tal como os adultos, são mais felizes quando conseguem identificar objetivos e lutar por eles. Nem todos serão alcançáveis mas o nosso bem-estar e a nossa autoestima crescem quando nos focamos naquilo que podemos fazer para perseguir os nossos sonhos – mesmo que isso dê muito trabalho e leve algum tempo.

Elogiar o esforço.

Mais do que elogiar cada sucesso alcançado, é importante prestar atenção e elogiar o empenho das crianças. Nem todos somos bons a matemática, nem todos seremos futebolistas de excelência como o Cristiano Ronaldo. Mas é infinitamente mais provável que os nossos filhos sejam realmente excelentes nalguma das suas áreas de interesse se o seu esforço for reconhecido na medida certa. O importante é que a criança dê o seu melhor.

Promover a autoconfiança.

A nossa autoconfiança numa área específica – como a matemática, o desenho ou o futebol – pode não ser suficiente para que nos sintamos seguros noutras áreas – como falar em público ou conversar com alguém que consideremos interessante, por exemplo. Mas, de uma maneira geral, a autoconfiança ajuda-nos a reconhecer o nosso valor e promove a nossa autoestima. Ajudar a criança a reconhecer as áreas em que pode ser excelente ajudá-la-á a lidar melhor com as suas limitações e também promoverá a sua autoestima.

Não há duas crianças iguais e nenhum livro nem nenhuma fórmula vale tanto quanto a capacidade que cada pai e mãe tem para olhar para as suas crianças e reconhecer as suas necessidades. Quando nos permitimos parar para prestar (mesmo) atenção ao que está a acontecer a cada momento e, sem juízos de valor nem preocupações com aquilo que os outros possam pensar, colocamos perguntas que nos ajudem a perceber aquilo que os nossos filhos estão a sentir, é muito mais provável que encontremos as respostas de que precisamos para os ajudar.

23.10.18

DAR ESPAÇO NUMA RELAÇÃO

Dar espaço numa relação

Quando a pessoa que amamos diz que precisa de espaço, o que é que isso significa? Será que quer dizer que a relação está à beira do fim? Ou será uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes, mais vivos e também mais ligados?





Para a maior parte das pessoas, uma relação de compromisso feliz é uma conjugação de segurança e de aventura. De previsibilidade e de novidade. De proteção e de liberdade. Mas para alguns de nós a necessidade de segurança e de previsibilidade é maior do que qualquer vontade de que haja mistério ou tempo a sós. Quanto maior for o caos em que crescemos, maior é a probabilidade de precisarmos de relações estáveis, em que nos sintamos permanentemente amparados, seguros. Mas quanto mais segura for a nossa relação com a família de origem, quanto maior for a liberdade com que crescemos, maior é a probabilidade de, em adultos, precisarmos de algum mistério nas nossas relações amorosas.

Quando uma pessoa mais ansiosa se compromete com alguém seguro e com a tal necessidade de inovação, liberdade e tempo a sós, a ansiedade cresce. E às vezes cresce tanto que a pessoa que precisa de espaço chega a sentir-se asfixiada.



Tanto que, para algumas pessoas, o desejo começa a diminuir em função desta proximidade “excessiva”.

O QUE FAZER QUANDO A PESSOA QUE AMAMOS DIZ QUE PRECISA DE ESPAÇO?


Independentemente das características de personalidade de cada um, é fundamental que aprendamos a reconhecer e a dar valor aos nossos sentimentos e às nossas necessidades afetivas. Isso não significa que valha tudo ou que seja razoável que um dos membros do casal imponha as suas escolhas ao outro. Aquilo que importa é que as necessidades sejam reconhecidas e que, a dois, haja a negociação que permita que ambos se sintam felizes. Às vezes fixamo-nos em determinados desejos e esquecemo-nos de que há outras formas de preenchermos a mesma necessidade afetiva.

Para que a nossa relação continue a ser uma fonte de satisfação, de alegria e de vivacidade, tanto quanto de segurança e amparo, é fundamental:

Ter os próprios amigos.

Não há nada de errado nas saídas a dois com amigos. É saudável que haja pessoas de quem gostamos e com quem possamos sair enquanto casal. Mas é igualmente importante que cada um tenha a oportunidade de sair sozinho, com outras pessoas. Isso não significa que a ligação esteja a perder-se. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes e, em função disso, mais ligados também.

Cultivar os próprios interesses.

À medida que a relação se vai consolidando, vamo-nos dando conta de que a pessoa que está ao nosso lado não é exatamente a nossa alma gémea. Não gosta de tudo aquilo de que nós gostamos, não se interessa por todas as conversas a que achamos graça. E está tudo bem. Pelo menos, se cada um continuar a cultivar os seus interesses.

Ouvir o companheiro como uma pessoa independente.

Nós achamos muitas vezes que conhecemos muito bem a pessoa que está ao nosso lado. E isso pode ser verdade. Mas não deve impedir-nos de cultivar uma postura de curiosidade genuína, de querer saber. Quando damos a outra pessoa como adquirida e deixamos de prestar atenção, deixamos de fazer perguntas, deixamos de reparar naquilo que vai mudando (e que nem sempre nos agrada), abrimos espaço para que ele/ ela se sinta menos feliz. 

Continuar a surpreender.

É demasiado fácil sermos engolidos pelas rotinas e pela monotonia. É estupidamente fácil deixarmos de associar a nossa relação à alegria e ao entusiasmo que a caracterizava no início. Mas a segurança e a solidez que uma relação nos traz não tem de ser impeditiva de que continuemos a sentir-nos vivos. Prestar atenção aos detalhes e darmos o nosso melhor para surpreender de vez em quando a pessoa que amamos é meio caminho para que a relação continue viva.

22.10.18

PALMADA PEDAGÓGICA: SERÁ QUE RESULTA?

Palmada educativa: será que resulta?

Há quem defenda que uma palmada na hora certa pode ser a melhor forma de educar uma criança. Será que é assim? Ou será a palmada uma escolha que traduz a “lei do menor esforço”?


Há uns dias assisti a um episódio na sala de espera de uma unidade de Pediatria que bem poderia servir de ilustração a qualquer aula sobre Parentalidade. Naquele caso, os adultos à volta da criança fizeram várias escolhas que dificilmente poderiam figurar como exemplos de atenção, inteligência emocional ou respeito mútuo.

O menino de 3 ou 4 anos chegou acompanhado pelo pai e pelos avós. Depois de uma breve passagem pelos brinquedos que estavam na sala, dirigiu-se, sozinho, ao ecrã tátil que servia para que cada utente retirasse a sua senha. Rapidamente percebeu o “esquema” e foi brincando com o aparelho enquanto colecionava senhas. Quando o pai reparou no que estava a acontecer, chamou a atenção do menino dizendo-lhe «Sai daí», «Para com isso» ou «Isso não é para ti». Em nenhum momento o pai ou os avós tomaram a iniciativa de se levantar e afastar a criança do aparelho. Eles não estavam realmente a “ver” aquela criança – não repararam no seu divertimento nem prestaram genuinamente atenção às consequências que o seu comportamento poderia ter. Até que uma funcionária se aproximou do menino e lhe disse «Não podes mexer aqui», baixando-se para ficar da sua altura e utilizando um tom de voz calmo. Depois disso, a criança voltou a retirar uma senha e, a partir daí, vieram os castigos. Primeiro, a palmada, dada pela avó, na presença de todos os adultos e crianças presentes. Depois, como o menino começou a chorar, veio a chamada de atenção do pai: «És um bebé. És mesmo um bebé. Que vergonha».

Acredito que quer os avós quer o pai estivessem convencidos de que aquela seria a melhor forma de atuar. Estou genuinamente convencida de que, aos seus olhos, aquelas escolhas eram as mais indicadas. Talvez até as únicas capazes de “ensinar” a criança a “portar-se bem”. Mas será que é assim?

AS PALMADAS PODEM EDUCAR?


Um dos argumentos utilizados por quem aplica a palmada na educação dos filhos tem a ver com a existência de situações-limite em que mais nada funciona. No episódio que descrevi, de facto, o pai já tinha chamado a atenção do menino. Mas será que isso significa que estava realmente a prestar-lhe atenção? Ou que deu o seu melhor para explicar a uma criança que não teria mais do que 4 anos porque é que não poderia mexer naquele aparelho, apesar de este lhe parecer tão apelativo? Creio que não.

Há muitas alturas em que a nossa atenção aos comportamentos dos nossos filhos está longe de ser plena. Estamos “com um olho no burro e outro no cigano”, a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo e vivemos com a sensação de que estamos a ser absolutamente claros.


Aquele pai estava à conversa com os avós, provavelmente sobre questões que os estariam a preocupar. Na prática, não conseguiu levantar-se, agarrar na criança e explicar-lhe (baixinho) para que é que aquele ecrã tátil servia. Não teve disponibilidade para prestar genuinamente atenção ao divertimento que a criança estava a sentir ao explorar o “brinquedo” novo e muito menos teve criatividade para lhe propor fazerem um jogo a dois com um dos brinquedos disponíveis na sala.

Não vale a pena recriminarmo-nos. Há alturas em que a nossa atenção é limitada e em que não conseguimos dar o melhor de nós. Há alturas em que nos zangamos, em que nos salta a tampa. Mas aquilo que importa é que, depois de a poeira baixar, sejamos capazes de reparar no que fizemos, sejamos capazes de olhar com curiosidade para as nossas escolhas e, se for caso disso, sejamos capazes de pedir desculpa.

Na prática, aquele menino dificilmente aprendeu alguma coisa com aquele episódio. Pelo menos, alguma coisa sobre o respeito pelos outros. Pelo contrário, as mensagens dos adultos que lhe querem bem foram contraditórias. Numa primeira fase, estava “tudo bem”. Afinal, a criança teve liberdade para explorar o aparelho sozinha. De repente, e muito provavelmente em função da vergonha que os adultos sentiram depois da chamada de atenção da funcionária, surgiram os castigos. Os adultos não foram capazes de lidar com as suas próprias emoções e limitaram-se a “explodir”. Pior do que isso: a palmada e os comentários que se seguiram aconteceram à frente de vários estranhos, funcionando como uma oportunidade para que a criança se sentisse humilhada. Punida fisicamente e humilhada.

AS PALMADAS NÃO EDUCAM.
EDUCAR DÁ TRABALHO.


Dir-me-ão que há alturas em que a palmada “funciona”. Mas eu discordo. É evidente que, naquele caso, os adultos estarão de acordo quanto ao resultado: o menino não voltou a carregar no ecrã. Mas qual é a nossa verdadeira intenção na educação das nossas crianças?



Queremos mostrar-lhes que há alturas em que
devem simplesmente obedecer-nos, sem perceberem
o que se está a passar? Ou queremos que compreendem 
que há escolhas que não devem ser feitas, ainda que
sejam muito apetecíveis, porque isso interfere com a
liberdade dos outros?


Qualquer criança de 3 ou 4 anos seria capaz de compreender que não poderia fazer aquela escolha SE os adultos lhe explicassem, com paciência e tempo, porquê. As crianças adoram cooperar e ajudar os adultos. Claro que isso não significa que sejam SEMPRE capazes de compreender uma regra à primeira explicação ou que percam IMEDIATAMENTE o desejo de fazer aquilo que estavam a fazer. É por isso que somos nós, adultos, que temos de ter a criatividade para as ajudar a encontrar alternativas. Isso dá muito trabalho. Envolve a nossa atenção plena, envolve a capacidade de nos desviarmos dos nossos próprios brinquedos (telemóveis, tablets e outros), envolve a escolha consciente de interrompermos uma conversa que nos está a interessar “só” para prestarmos a devida atenção ao momento presente e, assim, conseguirmos educar as nossas crianças de forma a que elas aprendam a respeitar quem está à sua volta.
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