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7.3.19

TAREFAS DOMÉSTICAS: AJUDAR VERSUS PARTILHAR


Tarefas domésticas - ajudar versus partilhar

Falar sobre tarefas domésticas implica invariavelmente falar de braços-de-ferro a propósito da sua distribuição. Para a esmagadora maioria das famílias, o bem-estar é maior quando as tarefas são partilhadas de forma equilibrada. No entanto, a maior parte das mulheres acabam por sentir-se sobrecarregadas com estes afazeres ao mesmo tempo que a maioria dos homens acreditam que fazem tanto como elas. Porque é que, na teoria, aplaudimos a ideia de que é importante partilhar e, na prática, na maioria das vezes os homens continuam apenas a ajudar?


(Quase ninguém) dá pulos de contentamento por ter a "oportunidade" de limpar a casa de banho. E, mesmo para as pessoas que gostam de manter a casa limpa e arrumada, a distribuição das tarefas domésticas é um assunto que dá pano para mangas e que está quase sempre envolto em alguma tensão.

No meu trabalho com casais, deparo-me muitas vezes com queixas relacionadas com este assunto. De uma maneira geral, elas sentem-se injustiçadas por terem de realizar muito mais tarefas do que os homens e estes sentem-se injustiçados porque acreditam que fazem tanto como as mulheres.

Quem tem razão?


Os números não mentem. Há diversos estudos que mostram que as mulheres continuam a ter sobre os seus ombros mais tarefas domésticas do que os homens, independentemente de também trabalharem fora de casa. Por exemplo, segundo os dados do estudo “Homens, papéis masculinos e igualdade de género”, os homens gastam oito horas por semana em tarefas domésticas, enquanto as mulheres gastam 21. No que diga respeito aos cuidados familiares, como o cuidado com os filhos, a divisão de tarefas também não é equilibrada. Eles gastam 9 horas por semana com estes afazeres, enquanto elas gastam 17.

É verdade que hoje os homens participam muito mais ativamente nas tarefas domésticas do que há 20 ou 30 anos. É verdade que quase todas as mulheres reconhecem que podem contar com a ajuda do companheiro. Mesmo no que diga respeito aos cuidados prestados às crianças, houve uma mudança muito significativa nas últimas décadas: quase todos os pais (homens) mudam fraldas, dão banhos, ajudam com os trabalhos de casa, etc. Mas, no final das contas, continua a haver desequilíbrio. Aquilo que é curioso é que a maioria dos homens acreditam que fazem mais tarefas do que, na realidade, concretizam.

As coisas pioram quando a mulher ganha mais do que o marido: nestes casos, quanto mais a mulher ganha, de uma maneira geral, menos o marido participa nas tarefas domésticas.


É uma questão de masculinidade?


Poder-se-ia pensar que esta é uma questão que afeta sobretudo os países latinos, onde a masculinidade ainda é colocada em causa por tudo e por nada mas a verdade é que até na Suécia, onde há muitos pais que estão em casa a tomar conta dos filhos a tempo inteiro (sem que isso belisque a sua masculinidade), as mulheres gastam em média mais 45 minutos por dia em tarefas domésticas do que os homens.

A verdade é que, para muitas mulheres, a ideia de o marido passar a desempenhar mais tarefas é agridoce. Por um lado, desejam-no mas, por outro, temem que as tarefas não sejam bem desempenhadas. Não é tanto uma questão de acharem que eles não vão ser capazes. É, sobretudo, uma questão de acharem que eles não vão fazer bem de propósito.

Uma das queixas mais frequentes no meu consultório tem a ver com a falta de reconhecimento. Muitas mulheres queixam-se porque, na sua ótica, o marido não “vê” a extensão do seu trabalho. Sentem-se desvalorizadas. Na prática, muitas vezes aquilo que acontece é que há efetivamente um grau de exigência diferente em relação à forma como as tarefas são executadas. A maior parte das mulheres acabam por ser mais exigentes do que a maior parte dos homens e estas diferenças podem ser interpretadas como falta de interesse ou desvalorização.

Há tempos, no meu consultório uma mulher queixava-se desta forma: «Aquilo que mais me irrita é ter de andar atrás dele [marido], ter de completar aquilo que ele deixa inacabado. Tenho de limpar a bancada depois de ele lavar a loiça. Tenho de retirar os legumes estragados do frigorífico depois de ele arrumar as compras. Tenho de apanhar os pelos que ficam espalhados pelo lavatório depois de ele desfazer a barba – ainda que ele tenha tido o cuidado de varrer o chão e lhe pareça que o espaço ficou impecável».

Estes conflitos acabam por traduzir algumas diferenças em relação à forma como homens e mulheres são educados. Independentemente da luta pela igualdade de género, a maior parte das mulheres acabam por sentir que é sobre si que recairão as críticas se a casa não estiver suficientemente limpa ou se os filhos não estiverem a receber os devidos cuidados. Isso acaba por refletir-se no comportamento de homens e mulheres: elas são muito mais obsessivas, mais atentas aos detalhes e eles são muito mais relaxados. E também se reflete no volume de preocupações: são quase sempre elas que se preocupam com tudo o que há para fazer e que se organizam no sentido de nada ficar para trás. Ouço muitas vezes a queixa «Era bom que ele fizesse [a tarefa X] sem que eu tivesse de lhe pedir». A maior parte dos homens acabam por limitar-se a escolher algumas tarefas da lista definida pela mulher.



Se cada um for capaz de reconhecer e dar voz às suas necessidades, é mais provável que surjam soluções de compromisso que promovam o bem-estar de toda a família. Mas isso não tem de equivaler a que o homem faça exatamente aquilo que a mulher considera que é justo. Aquilo que quero dizer é que se é verdade que há tarefas que não podem deixar de ser feitas – e que é bom que sejam distribuídas de forma equilibrada -, também é verdade que, neste assunto, menos pode ser mais. Na prática, se os membros do casal concordarem que nenhum dos dois tem tempo para aspirar o carro, pode ser mais saudável aceitar que o carro passe semanas sem ser aspirado em vez de alimentar braços-de-ferro sobre quem-fez-o-quê.

26.2.19

O QUE É QUE ACONTECE DEPOIS DA TRAIÇÃO?


Depois da traição

O que é que acontece aos casais que ficam juntos depois da traição? Será que todos conseguem voltar a ser felizes?


Uma traição é um terramoto emocional a que nem todas as relações resistem. Há quem avance para uma rutura, reconhecendo que não será capaz de voltar a confiar e há quem opte por dar uma nova oportunidade à relação. Entre os casais que escolhem ficar juntos, há um elemento em comum:

TODOS reavaliam a relação.

Todos olham para trás, para o que porventura correu mal e abriu espaço para o aparecimento de uma terceira pessoa. E todos olham para a frente, questionando-se sobre o rumo que querem dar à relação.

Quando olhamos para os casais que optam por ficar juntos depois da traição, é possível identificar 3 padrões muito distintos:



#1: AQUELES QUE NUNCA SUPERAM A TRAIÇÃO

Há casais que escolhem dar uma nova oportunidade à relação mas que, na verdade, ficam presos ao passado. De uma maneira geral, a pessoa traída não consegue livrar-se da amargura, do desejo de vingança e dos sentimentos de pena de si mesma.

Estes casais culpam-se mutuamente pela agonia que sentem e, para quem está de forma, pode ser difícil compreender porque é que ficam juntos.


Nestas relações, quase tudo é uma fonte de angústia e conflito. Por exemplo, se a pessoa que traiu não atender o telemóvel, a ansiedade da pessoa traída vem imediatamente à tona, mesmo que tenham passado vários anos. Há muitas acusações e até uma postura de superioridade moral que leva a que a pessoa traída diga coisas como «Tens muita sorte por eu não te ter deixado».

Nalguns casos, a vida da pessoa que traiu fica transformada num inferno porque há muitos comportamentos “à detetive”, muitas cobranças, muitas discussões.

#2: AQUELES QUE SE RECOMPÕEM E SOBREVIVEM À TRAIÇÃO

Estes são os casais que valorizam o compromisso e a estabilidade mais do que qualquer outra coisa. Acabam por superar a traição – não porque não haja sofrimento, mas por considerarem que o seu projeto familiar é mais importante do que este obstáculo. Nestes casos, a relação volta quase sempre ao que era antes da traição.

Nalguns casos, a pessoa que trai chega a apaixonar-se e até pode planear uma separação mas, na hora H, recua porque não quer destruir a família e/ou porque reconhece que ainda tem sentimentos românticos pelo(a) companheiro(a).


Quando há paixão (pela terceira pessoa), é preciso que haja um período de luto para que a pessoa se desvincule. Em terapia, isso pode requerer o acompanhamento individual – para que cada um possa falar abertamente sobre o que sente sem ferir o outro.

#3: AQUELES QUE SE TRANSFORMAM DEPOIS DA TRAIÇÃO

Estes casais sofrem TANTO como os outros. Num minuto estão a dizer «Vai-te embora» e, no outro, estão a dizer «Fica comigo para sempre»!

Aquilo que acontece é que, depois de a traição ser revelada, acabam por conversar muito, olham para trás, para o que contribuiu para o seu afastamento e/ou para a monotonia da relação e decidem assumir a sua responsabilidade. Não é a responsabilidade pela traição – essa responsabilidade é apenas da pessoa que traiu. Estes casais optam por olhar para a responsabilidade de cada um em relação à deterioração da relação e por reconhecer o poder de cada um na reconstrução da relação.

A traição é uma experiência transformadora e um catalisador para a renovação da relação. A terapia ajuda-os a “reinventar” a relação.

19.2.19

A IMPORTÂNCIA DO AMOR-PRÓPRIO NOS REVESES DA VIDA


A importância do amor-próprio nos reveses da vida


Quando a vida nos confronta com obstáculos, com acontecimentos que não estavam nos (nossos) planos e/ou com situações que nos colocam à prova, há um “ingrediente” que nos ajuda a olhar para a realidade como ela é e que nos permite arregaçar as mangas e fazer as escolhas mais conscientes: o amor-próprio.


Quando fazemos um arranhão, lavamos a ferida, colocamos Betadine e, se for preciso, tapamo-la com um penso rápido. Quando nos constipamos, precisamos de bebidas quentes e de lenços. E perante a rejeição, um despedimento ou um divórcio? O que é que podemos/devemos fazer para lidar com os acontecimentos emocionalmente mais difíceis da nossa vida?

Quando alguma coisa corre mal e nos desviamos do que sonhámos ou imaginámos para nós, temos o direito de nos sentirmos tristes. É legítimo que nos deixemos abater e que nos sintamos vulneráveis.

«E agora? O que é que eu vou fazer?»

Quando gostamos de nós e reconhecemos que o nosso valor se mantém, independentemente das conquistas, dos fracassos ou dos reveses da vida, é muito mais provável que consigamos lidar com a tristeza sem que ela tome conta de nós. Falamos sobre os nossos sentimentos, sobre os acontecimentos difíceis e, mais cedo ou mais tarde, arregaçamos as mangas e vamos à luta.

Quando, pelo contrário, olhamos para estes acontecimentos como se eles nos definissem, é mais provável que nos sintamos inferiorizados, que questionemos o nosso valor. Olhamos à nossa volta e sentimo-nos insuficientes.

Quando uma pessoa olha para um insucesso como uma prova do seu pouco valor, é mais provável que se sinta engolida pela vergonha e que evite mostrar a vulnerabilidade a quem quer que seja. Fecha-se sobre si mesma, com medo de que os outros a vejam também dessa forma e, involuntariamente, contribui para um círculo vicioso perigoso.

A verdade é que, quando nos ligamos, sentimo-nos amados.

Quando aceitamos a nossa tristeza e nos expomos, estamos a dizer a nós próprios que continuamos a ser merecedores do amor das pessoas que nos rodeiam, apesar dos fracassos.


Pelo contrário, quando evitamos vulnerabilizar-nos, expomo-nos menos, recebemos menos apoio e convencemo-nos da nossa insuficiência.

Vivemos cada vez mais pressionados no sentido de mostrarmos apenas o lado positivo da vida. Nas redes sociais, tal como na vida real, vamos usando cada vez mais filtros e fugimos do lado lunar, como se não houvesse lugar para o sofrimento. Na prática, arriscamo-nos a ser a geração mais medicada, mais obesa e mais dependente de álcool e drogas – tudo para evitar olhar de frente para as dificuldades da vida.

É normal que, de vez em quando, tenhamos medo de não sermos suficientemente bons, suficientemente interessantes, suficientemente inteligentes ou suficientemente atraentes. Mas é desejável que aceitemos que, apesar de todos os erros, obstáculos, dificuldades ou situações em que nos sintamos rejeitados, a vulnerabilidade é uma forma de nos ligarmos e de nos sentirmos amados. E que a forma como lidamos com a vulnerabilidade vai influenciar a forma como olhamos para o nosso valor.

Por outro lado, é desejável que nos lembremos do poder que cada um de nós tem no sentido de ajudar as pessoas à nossa volta a lidar com os acontecimentos difíceis. A família, os amigos e todas as pessoas que constituem a nossa rede de suporte são elementos fundamentais no desenvolvimento do amor-próprio e da resiliência. Quem é que nunca ouviu frases como

«O meu professor de Matemática sempre me incentivou»,
«A minha mãe sempre acreditou em mim»
ou «A minha avó sempre disse que eu era capaz»?

Muitas vezes, a forma negativa como olhamos para nós é contrabalançada pelo olhar otimista e caloroso de quem não se cansa de nos lembrar do nosso valor. Todos nós temos o poder de fazer o mesmo em relação a quem está à nossa volta. Tem prestado atenção às pessoas que à sua volta estão a viver algum revés? Que papel acha que pode ter no sentido de as ajudar a alimentar o amor-próprio e, em função disso, ser capaz de seguir em frente?

18.2.19

CASAIS COM GRANDE DIFERENÇA DE IDADES


Casais com grande diferença de idades


A idade importa, de facto, numa relação? Ou nem sequer chega a ser assunto quando se ama realmente a outra pessoa? Como é que a família e os amigos olham para um casal quando há uma grande diferença de idades? E quando a mulher é mais velha? Quais são os maiores entraves a uma relação nestas circunstâncias? E as vantagens?


Foi com muito gosto que respondi a estas questões para a reportagem do Diário de Notícias sobre relações em que haja uma grande diferença de idades.

A idade importa, de facto, numa relação? Ou nem sequer chega a ser assunto quando se ama realmente a outra pessoa?

A diferença de idades pode ser um fator de risco para uma relação, tal como qualquer outra assimetria (financeira, por exemplo). Isso está longe de querer dizer que um casal em que haja uma diferença de idade significativa esteja condenado ao insucesso. Na prática, a satisfação conjugal vai depender de um conjunto de fatores. Um desses fatores é a forma como a rede de suporte olha para a relação. Quanto maior for o apoio dos familiares e amigos, maior é a probabilidade de a relação dar certo. Pelo contrário, quanto mais tensões e juízos de valor houver, mais vulnerável fica a relação.

Por outro lado, a diferença de idade pode não ser um problema no início da relação e transformar-se num foco de tensão mais tarde. Cada um dos membros do casal amadurece e é provável que as expectativas mudem. Por exemplo, nalguns casos o elemento mais jovem do casal pode começar por minimizar o facto de o parceiro não querer ter filhos mas, à medida que o tempo avança, a sua própria vontade pode mudar. Algumas vezes aquilo que acontece é que, depois da fase da paixão, cada pessoa reflete sobre as próprias intenções a respeito da relação e é preciso conciliar expectativas.

Porque é que ainda custa tanto a aceitar (socialmente falando) relacionamentos em que haja uma grande diferença entre os parceiros?

A aceitação da diferença é sempre um desafio. De uma maneira geral, somos educados no sentido de corresponder à norma e acabamos por criar muitas expectativas em relação às pessoas de quem gostamos. Isso é especialmente verdadeiro no que diga respeito à existência de filhos e netos.

Para os pais, é quase sempre expectável que os filhos construam relações estáveis e que dessas relações surjam netos.


Quando há uma diferença significativa de idade entre os membros do casal, há mais medos. Há o medo de a pessoa mais nova não vir a ter filhos, há o medo de essa pessoa se fartar e, mais cedo ou mais tarde, não querer estar ao lado de alguém muito mais velho, há o medo de alguém sair muito magoado da relação. De resto, o medo é aquilo que está por detrás da maioria dos preconceitos.

O tabu tende a ser maior se por acaso for a mulher o elemento mais velho da relação? Porquê?

O preconceito é maior quando a mulher é mais velha. Isso está relacionado com a questão da procriação mas também com a estereotipagem dos papeis de género. Continuamos a olhar para os homens como fontes de proteção e continuamos a olhar para as mulheres como mais vulneráveis. A aventura e a experiência continuam a estar muito mais associadas ao papel masculino. Por outro lado, há uma hipervalorização da jovialidade feminina. Nesse sentido, olhamos com mais estranheza para a possibilidade de um homem escolher ter uma relação com uma mulher mais velha.

Quais seriam os maiores entraves a um relacionamento bem-sucedido nestas circunstâncias de grande diferença etária?

Os maiores entraves são, como já referi, a pressão familiar e a dificuldade em conciliar expectativas. Quando a família alargada critica, há pelo menos um dos membros do casal que está mais vulnerável. Quando a essas críticas se junta o isolamento, a sensação de desamparo é maior.

Por outro lado, quando os membros do casal vão mostrando dificuldade em validar as necessidades de cada um, quando há posições muito antagónicas em relação ao que cada um quer, há mais conflito e o risco de rutura é significativamente maior.

E as vantagens?

As vantagens estarão relacionadas com a resiliência do próprio casal. Aquilo que quero dizer é que, tal como acontece em relação a outros acontecimentos difíceis, quando duas pessoas se unem e ultrapassam juntas determinados obstáculos, é muito mais provável que haja uma sensação de compromisso e um projeto com futuro.

Existem mais casos destes atualmente? Ou simplesmente as pessoas têm menos vergonha de assumir (as que amam alguém mais novo) e de aceitar (as que veem isto acontecer)?

Nos meios urbanos há cada vez maior aceitação em relação a esta e outras diferenças. Isso está obviamente relacionado com o grau de exposição a esta realidade. Reconhecemos que há cada vez mais formas novas de família, que há uma multiplicidade de formas de sermos felizes e que há inúmeros casos de “sucesso”. Por outro lado, também estamos – todos – cada vez mais expostos, sobretudo através das redes sociais, às críticas (às vezes anónimas) e, desse ponto de vista, a pressão para alguns casais pode ser maior.

A reportagem “O AMOR NÃO ESCOLHE IDADES (OU SERÁ QUE SIM)?” pode ser lida na íntegra aqui.

11.2.19

PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO NO CASAL


Problemas de comunicação no casal

Quando falamos de comunicação, quais são os comportamentos que mais prejudicam uma relação? Que escolhas é que estão associadas à deterioração de um casamento ou de uma relação de compromisso? E quais são as soluções para cada um destes comportamentos?


Uma das razões por que me sinto constantemente entusiasmada a propósito do meu trabalho como terapeuta conjugal está relacionada com as ferramentas que a investigação nesta área da Psicologia tem trazido. Quando falamos em comunicação no casal, é fácil adivinhar a importância do tema: os casais que comunicam melhor reconhecem e verbalizam mais facilmente os seus sentimentos e aquilo de que precisam para se sentirem unidos e felizes. Não é por acaso que muitos dos casais que me pedem ajuda reconhecem que existem problemas de comunicação que os estão a impedir de se sentirem satisfeitos.

Problemas de comunicação no casal


Pode parecer bizarro mas este é o resultado de várias décadas de investigação liderada pelo professor John Gottman.

4 erros que destroem uma relação


Uma das conclusões desta equipa de investigação está relacionada com o impacto da comunicação na deterioração da relação. O professor John Gottman identificou aquilo a que chamou os 4 cavaleiros do apocalipse, isto é, os comportamentos que mais comummente estão associados a separações e divórcios:


#1: Hipercrítica

Todos os casais discutem e, inevitavelmente, fazem queixas. Mas uma coisa é queixarmo-nos de comportamentos específicos e sermos capazes de continuar a mostrar apreço pela pessoa de quem gostamos. Outra, bem diferente, é fazer críticas que constituam um ataque pessoal.

Quando pelo menos um dos membros do casal se sente constantemente criticado e quando essas críticas tomam a forma de generalizações, é mais provável que, mais cedo ou mais tarde, haja uma rutura.

Solução: Fazer queixas/ apelos.

Uma das “fórmulas” que proponho frequentemente no consultório e que permite que qualquer pessoa manifeste o seu desagrado de forma emocionalmente inteligente é a seguinte:

ABC

A – «Quando…» (descrição clara e objetiva da situação/ comportamento/ episódio)
B - «… eu senti-me» (identificação dos sentimentos)
C - «Preferia que…/ Preciso que…» (reconhecimento das próprias necessidades)

O que é que acontece quando alguém ouve frases como estas:

«É sempre a mesma coisa. Quantas vezes é que é preciso dizer-te para chegares a horas?»

Invariavelmente, sente-se atacado(a) e, instintivamente, defende-se, acabando por deixar a outra pessoa ainda mais enfurecida. É relativamente fácil para qualquer casal entrar nestes círculos viciosos.

Pelo contrário, quando alguém diz:

«Quando tu chegas atrasado, eu sinto-me ignorado(a). Preciso que me envies uma mensagem a avisar»

aumenta MUITO a probabilidade de ambos se sentirem ouvidos e amparados.

É evidente que o desgaste associado à repetição de qualquer comportamento que nos magoa aumenta a probabilidade de nos sentirmos inundados emocionalmente e de, em função disso, nos “saltar a tampa”. Os casais mais felizes são aqueles que nunca erram nem os que, ao fim de vários anos, não cometem erros antigos. São, isso sim, aqueles que fazem escolhas emocionalmente inteligentes, aqueles que insistem em verbalizar as suas necessidades e que reconhecem que só assim continuarão a sentir-se ligados.

#2: Postura defensiva

A postura defensiva não é mais do que a tentativa de reverter a culpa. Na prática, quando uma pessoa se sente atacada, é mais provável que se defenda, colocando o foco no comportamento do outro. Qualquer um de nós já o fez de forma instintiva, ignorando os danos que estão associados a este comportamento.

«Então, e tu?»

Este é um exemplo claro de postura defensiva. Quando a pessoa de quem gostamos nos acusa do que quer que seja e respondemos com «Então, e tu?», até podemos ser capazes de identificar 143 exemplos reais de erros que ele(a) cometeu MAS isso é tudo o que a relação não precisa naquele momento.

Quando nos queixamos, precisamos de perceber que a outra pessoa valoriza a nossa queixa, os nosso sentimentos e as nossas necessidades. Não precisamos que sacuda a água do capote apontando-nos o dedo.

Solução: Assumir a responsabilidade.

Quando aceitamos a queixa e reconhecemos o nosso erro, abrimos caminho para que a pessoa de quem gostamos se sinta ouvida e amparada.

Problemas de comunicação no casal


Pelo contrário, quando pedimos desculpa ganhamos ainda mais legitimidade para fazermos as nossas queixas (no momento certo).

#3: Indiferença

Muitas vezes, em função da crescente tensão, pelo menos um dos membros do casal acaba por fugir ao conflito assumindo uma postura de aparente indiferença em relação à discussão. Algumas pessoas referem-se a este comportamento do(a) companheiro(a) como um amuo: «Quando começo a falar, ele(a) amua» ou «Falo para o boneco…».

Na prática, aquilo que acontece é que a pessoa está tão enervada que (já) não é capaz de entrar na discussão. Involuntariamente, acaba por deixar a outra pessoa ainda mais enfurecida e desamparada. É um círculo vicioso em que ambos se sentem profundamente aflitos.

Solução: Autoacalmar-se.

A dada altura da investigação, a equipa do Professor John Gottman pediu aos casais participantes para interromperem as respetivas discussões para que o equipamento de gravação pudesse ser reparado. Durante meia hora, era proposto que os casais aguardassem numa sala e não conversassem sobre aqueles tópicos. A única coisa que faziam durante esse tempo era folhear algumas revistas disponíveis na sala de espera.

Quando regressavam à sala de observação, voltavam ao assunto sobre o qual estavam a discutir. Aquilo que os investigadores verificaram foi que aquela meia hora a folhear revistas era suficiente para que os casais voltassem aos assuntos geradores de tensão com uma postura MUITO diferente – mais calmos, mais unidos.

No auge de uma discussão, nem sempre é fácil darmo-nos conta de que podemos parar para colocar as coisas em perspetiva. Quando nos permitimos parar, relaxar e voltar posteriormente aos assuntos que precisam de ser discutidos, é mais provável que consigamos empatizar e ligar-nos.

Para algumas pessoas isso pode passar por sair e caminhar um bocado. Para outras, pode ser mais eficaz ver um pouco de televisão ou ler qualquer coisa que prenda a atenção. O importante é que cada pessoa consiga fazer regularmente a escolha intencional de se autoacalmar.

#4: Desprezo

Nada é tão letal para uma relação amorosa como a manifestação de desprezo.



Há um comportamento específico que está associado ao fim de uma relação:

Revirar os olhos.

Poucos comportamentos dizem tanto sobre uma relação como este. Quando uma pessoa revira os olhos, está a dizer que não se interessa, que está farta. E isso é gerador de mágoa, de desamparo.
Há outros comportamentos que mostram desprezo: insultar, ridicularizar, tratar o outro com sarcasmo.

Solução: Apreciar.

Só há uma forma de continuarmos a valorizar a nossa relação e a pessoa que está ao nosso lado: lembrando, com regularidade, as qualidades que fizeram com que nos apaixonássemos por aquela pessoa. Quando prestamos atenção, de forma intencional, às pequenas coisas que o outro faz, e não apenas aos erros que comete, é muito mais provável que consigamos queixar-nos sem rebaixar, sem ferir, sem ameaçar a relação.
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