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12.9.18

5 SINAIS DE QUE UMA RELAÇÃO ESTÁ A DAR CERTO

5 sinais de que uma relação está a dar certo

Preocupamo-nos com o que é preciso fazer para que a nossa relação dure a vida toda e esquecemo-nos frequentemente de prestar atenção ao momento presente, às pequenas coisas que nos mostram de forma clara que o amor está presente e que a pessoa que está ao nosso lado pode mesmo ser “a tal”.


Há quem prefira associar o amor romântico a níveis elevados de adrenalina, como quando navegamos num mar bravo. E há quem precise sobretudo da tranquilidade que associamos às águas calmas. Na verdade, a maior parte de nós precisa de um pouco das duas coisas. No dia-a-dia, há vários sinais que nos mostram que a nossa relação contribui para o nosso bem-estar e para a nossa felicidade e que a pessoa que está ao nosso lado é capaz de ser aquela com quem vamos (mesmo) querer envelhecer.

#1: É A ELE(A) QUE VOCÊ LIGA QUANDO ALGUMA COISA CORRE MAL


Quando chega atrasado(a) ao emprego e recebe um ralhete do seu chefe, você sabe que a responsabilidade sua, sente-se mal por ter ficado até tarde a ver episódios da sua série preferida e telefona ao seu companheiro. Ele sabe que a “culpa” foi sua mas a última coisa que faz é dar-lhe um sermão. Pelo contrário, escuta-o(a), pergunta-lhe se precisa de alguma coisa e/ou tenta animá-lo(a).

Quando olhamos para a pessoa que está ao nosso lado como aquela a quem podemos contar tudo, isso traz-nos uma sensação de paz e de união.


As coisas não estão sempre bem numa relação mas é importante saber que a pessoa de quem gostamos está normalmente mais preocupada em apoiar-nos do que em mostrar que tem razão.

#2: ELE(A) CONHECE A SUA HISTÓRIA


Há uma sensação de “estar em casa” associada à certeza de que a pessoa que amamos nos conhece muito bem porque simplesmente presta atenção àquilo que vamos contando e está mais centrada nesse conhecimento do que em fazer juízos de valor. Percebemos que podemos falar sobre o nosso passado, mesmo que ele inclua erros, vulnerabilidades ou traumas porque há alguém que genuinamente se importa, faz perguntas e respeita os nossos sentimentos. Isso não significa que nunca haja críticas ou mal-entendidos. Significa, isso sim, que a pessoa que está ao nosso lado nos mostra de forma clara que tem boas intenções e jamais usaria essa informação para nos prejudicar.

#3: ELE(A) INCENTIVA-O(A) A CONCRETIZAR OS SEUS SONHOS


Há poucas coisas na vida tão mágicas quanto a possibilidade de continuarmos a sonhar. Aos 20 anos até podemos achar que pararemos de sonhar depois de casar com o grande amor da nossa vida, ter filhos e um super emprego. Mas a verdade é que a maior parte de nós precisa de continuar a correr atrás de objetivos que deem cor à nossa vida. Para alguns podem ser coisas pequeninas, para outros serão passos gigantes com repercussão para o mundo à sua volta. Para algumas pessoas, experimentar coisas novas, viajar ou “colecionar” cursos e workshops é aquilo que as faz sentir vivas e entusiasmadas. Para outras, isso passa sobretudo pelo crescimento pessoal e pela entrega aos outros. Mas todos nós valorizamos a possibilidade de termos ao nosso lado alguém que valoriza os nossos sonhos e que faz o que está ao seu alcance para nos ajudar a concretizá-los (mesmo que isso implique que a vida familiar sofra algumas reviravoltas).

#4: DIVERTEM-SE JUNTOS


A vida a dois (ou a três ou a quatro, se houver filhos) não é sempre divertida. Há dias chatos, há dias de cão e há dias que parecem iguaizinhos aos dias anteriores porque não acontece nada que sobressaia. Mas quando sabemos que a monotonia não é eterna e quando vivemos com a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado gosta de se divertir ao nosso lado, vivemos muito mais felizes. A família alargada e os amigos são muito importantes na nossa vida e somos muito mais saudáveis do ponto de vista emocional se pudermos contar com eles para momentos de descompressão e diversão. Quem é que nunca experimentou a sensação de voltar para casa muito mais paciente e com as baterias renovadas depois de uma saída com os amigos? A vitalidade de um casamento também depende da solidez da nossa rede de suporte. MAAAAAAAS numa relação a dois é preciso contar com muitos momentos em que... serão mesmo só os dois. Quando a comunicação flui e ambos se interessam genuinamente pelos gostos e interesses do companheiro é mais fácil combinar programas que permitam que ambos se divirtam.

#5: DISCUTEM (E ESTÁ TUDO BEM)


Ninguém gosta de discutir (embora às vezes possa parecer que sim) mas as discussões são praticamente inevitáveis numa relação genuinamente íntima. Sabermos disso e termos a liberdade para dizermos aquilo que sentimos, aquilo que pensamos ou aquilo de que precisamos é libertador. Claro que isso implica ter alguns cuidados, implica que haja limites e que quer um quer o outro reconheçam que há uma linha a partir da qual não se pode avançar. Discutir com respeito não é falar num tom de voz sempre calmo e apaziguador.

Há dias em que nos salta a tampa e dizemos coisas que magoam.


Mas depois há a genuína vontade de fazer as pazes, de voltar a namorar – mesmo que o assunto em questão não fique totalmente resolvido. Esta certeza de que as discussões não são o fim do mundo nem representam o fim da relação dá-nos a liberdade de nos revelarmos exatamente como somos e de nos sentirmos aceites, compreendidos e amparados.

11.9.18

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: O PERFIL DO ABUSADOR

violência emocional: o perfil do abusador

Quem são as pessoas que praticam violência emocional nas relações? Qual é o perfil de quem exerce esta forma de abusos sobre o companheiro? São pessoas com alguma perturbação de personalidade? E o que é que pode ser feito em termos da sua recuperação?


«É difícil acreditar que aquela pessoa tão simpática e atenciosa possa fazer mal a uma mosca. Quanto mais exercer violência emocional sobre a mulher… Esse foi mais um dos obstáculos que tive de ultrapassar a propósito das tentativas que fiz para sair desta relação. Eu sabia que seria muito difícil que alguém acreditasse em mim. Eu própria levei muito tempo para conseguir reconhecer os abusos, dar-lhes um nome. E, mesmo depois de tomar consciência de que estava a ser vítima de violência emocional, passei muito tempo a acreditar que o meu marido não sabia o que estava a fazer, que estava deprimido e que eu o poderia ajudar.»
Teresa, 48 anos

É natural que associemos quase todas as formas de violência à falta de saúde mental. Quando pensamos na possibilidade de uma pessoa maltratar outra de quem teoricamente gosta, só a existência de uma perturbação nos parece que possa explicar o fenómeno. Mas a minha experiência clínica e as muitas investigações que existem nesta área mostram que, quando falamos de violência emocional na relação, falamos muito mais vezes de uma crise de valores do que de uma perturbação de personalidade.

É verdade que me tenho cruzado com alguns abusadores com perturbação narcísica da personalidade ou com perturbação de personalidade borderline MAS, na maior parte dos casos, não há qualquer perturbação de personalidade.

Há, isso sim, uma imensa vontade de exercer poder sobre a outra pessoa – de a controlar, intimidar, subjugar, humilhar, punir ou isolar. Estes comportamentos tóxicos são gratificantes na medida em que o abusador vai sentindo que tem ao seu lado alguém que tem de estar permanentemente focado em si.

O QUE É A VIOLÊNCIA EMOCIONAL?

A violência emocional pode assumir a forma de críticas e acusações, exercícios de controlo, exigências exageradas, amuos (o famoso «“tratamento do silêncio»”), distanciamento emocional, desprezo e ameaças mais ou menos subtis.


Pode incluir palavras duras mas também pode mostrar-se através de um simples olhar. Há muitas formas de maltratar a pessoa que está ao nosso lado. Os efeitos são sempre devastadores. Independentemente do tipo de abusos a que são submetidas, as vítimas de violência emocional sentem-se quase sempre esgotadas, deprimidas, confusas, culpadas, com dificuldades de concentração e baixa autoestima. É como se alguém – neste caso, a pessoa que menos esperariam – lhes fizesse uma lavagem cerebral. De forma gradual e, infelizmente, difícil de detetar, os abusos vão roubando a autoconfiança e a imagem que a pessoa tem de si mesma. Vistas de fora, estas pessoas até podem parecer as mesmas de sempre. Não há nódoas negras, não há arranhões. As marcas não são visíveis mas estão lá.

O PERFIL DO ABUSADOR


Ao longo da minha experiência como terapeuta de casais tenho trabalhado com muitas pessoas que exerceram violência emocional na relação e posso afirmar que nem todos correspondem ao perfil que geralmente associamos a qualquer forma de violência. Pelo contrário, muitas destas pessoas investem muita energia na tentativa de construírem uma imagem imaculada. Esses esforços não são mais do que exercícios de manipulação com o propósito de que os outros os vejam como “boas pessoas”.

Muitos abusadores são vistos pelos familiares, amigos e conhecidos como pessoas simpáticas, afáveis, altruístas, sedutoras e carismáticas.


Na verdade, também é assim que as vítimas os veem no princípio da relação. Só à medida que o abusador vai percebendo que o afeto da vítima está garantido é que começa a mostrar-se tal como é.

Um médico de meia-idade com quem trabalhei não era só conhecido pela forma atenciosa como tratava os seus pacientes. Também fazia voluntariado e abdicava muitas vezes do tempo livre para ajudar os outros. Infelizmente, esta é a mesma pessoa que maltratou a mulher durante anos, chegando mesmo a agredi-la fisicamente.

Quando olhamos para a história de vida das pessoas que praticam estes abusos emocionais encontramos muitas vezes elementos em comum. Por exemplo, na maioria dos casos com que tenho trabalhado, os abusadores são homens que cresceram em famílias marcadas por esta e outras formas de violência. Por detrás de um abusador há quase sempre um pai abusador. Por outro lado, e mesmo nos casos em que identificamos traços de personalidade mais narcísicos, é possível identificar graves lacunas em termos de autoestima. São pessoas aparentemente confiantes mas que, na verdade, se sentem inseguras e olham para si mesmas como inferiores. Os abusos são formas de gratificação – quando a pessoa olha de forma distorcida para o poder pessoal, acaba por buscar a gratificação no exercício de poder sobre outra pessoa.

O ABUSADOR CONSEGUE MUDAR?


«Será que ele muda?» e «O que é que EU posso fazer para que ele mude?» são duas das perguntas que ouço mais vezes a propósito das relações abusivas. Quanto mais tempo durar uma relação abusiva, maior é a probabilidade de a pessoa exposta aos abusos chamar a si toda a responsabilidade, como se fosse ela que tivesse de mudar alguma coisa para que os comportamentos abusivos tivessem um fim.

Há casos em que a pessoa que costumava ter comportamentos abusivos escolhe mudar e consegue implementar mudanças significativas MAS em quase vinte anos de trabalho eu nunca conheci uma pessoa que tivesse mudado o companheiro. A mudança ocorre quando a pessoa que pratica os abusos:

- percebe que TEM DE mudar, isto é, quando percebe que a relação está em risco e que não basta “portar-se bem” durante algum tempo.

- reconhece os abusos e é capaz de falar deles EM DETALHE e ouvir a vítima. Não chega dizer coisas como «Eu sei que errei… mas agora é tempo de olhar para o futuro».

- procura ajuda terapêutica para mudar o SEU comportamento, reconhecendo que a responsabilidade da violência emocional é apenas sua. Alguns abusadores procuram justificar os abusos com o eventual diagnóstico de uma perturbação de humor, nomeadamente depressão. A verdade é que a depressão não justifica os abusos emocionais. De resto, muitas vítimas de violência emocional desenvolvem episódios depressivos e não se transformam em pessoas violentas.

Na esmagadora maioria das relações abusivas que conheço, aquilo que está «“doente»” é o sistema de valores do abusador. A terapia só é eficaz se o abusador estiver disponível para identificar os pensamentos desajustados que estão associados aos comportamentos abusivos.

10.9.18

SUICÍDIO: COMO FICA A FAMÍLIA?

Suicídio: Como fica a família?


O tabu que existe à volta do suicídio pode ser mais um entrave à ajuda terapêutica. Os sobreviventes, aqueles que já tentaram o suicídio, são muitas vezes estigmatizados e os familiares (e amigos) sentem-se muitas vezes culpados, confusos e impotentes.


Falar de um tema como o suicídio ainda é falar de um assunto ao qual está associada vergonha e muito estigma. Quando sabemos da notícia de algum caso, interrogamo-nos em silêncio sobre os motivos, sobre a possibilidade de haver alguma fatalidade súbita que pudesse ter estado na origem do desespero e, quando nos damos conta de que a depressão é quase sempre “o” motivo, perguntamo-nos sobre o que poderíamos ter feito – para identificar o problema e, sobretudo, para ajudar. E os familiares mais próximos? E os amigos? Eles também são muitas vezes apanhados de surpresa. Para eles, é ainda mais difícil gerir os sentimentos associados à perda.

A PERGUNTA QUE FICA: PORQUÊ?


Os remorsos – associados a tudo aquilo que foi dito sem pensar, às coisas que ficaram por dizer e, sobretudo, à ajuda que não se conseguiu dar – são apenas uma parte do turbilhão emocional que é preciso gerir. A verdade é que é normal que as pessoas mais próximas sintam raiva da pessoa que “escolheu” partir, mesmo que reconheçam todo o seu sofrimento; é normal que se sintam culpadas, ainda que boa parte dessa culpa não tenha qualquer fundamento; é normal que se sintam em choque; é normal que se sintam confusas e que tenham dificuldade em aceitar que a morte tenha ocorrido por suicídio.

Gerir todas as emoções começa precisamente por reconhecer que é normal sentir tudo isto e por aceitar, devagarinho, que há perguntas que poderão ficar sem resposta.

É dificílimo lidar com a morte de alguém de quem gostamos muito mas é ainda mais penoso quando há tantas dúvidas, tantas interrogações, tantos «E se…?».


Mesmo quando sabemos que a pessoa sofria de depressão e quando a perda surge ao fim de vários anos de doença, pode ser difícil conviver com as dúvidas que ficam. Tenho trabalhado com pais e irmãos que cometeram suicídio e, para muitos, as perguntas que ficam sem resposta são uma grande fonte de sofrimento.

A terapia não pode, obviamente, trazer todas as respostas. Mas ajuda (muito) a lidar com a ausência delas. É preciso dar espaço para que a pessoa exteriorize todos os pensamentos negativos que a levem a alimentar sentimentos de culpa. É preciso ajudá-la a olhar para a realidade de forma mais clara e racional. É preciso colocar em prática algumas ferramentas que a ajudem a conviver com aquilo que não pode controlar.

LUTO DEPOIS DO SUICÍDIO:
CADA PESSOA PRECISA DO SEU TEMPO


O tempo não cura tudo mas é um aliado muito poderoso. Felizmente, a maioria das pessoas reconhece que, à medida que o tempo passa, e, sobretudo, na medida em que se sintam amparadas, o sofrimento diminui, a perda vai deixando de ser o único assunto que ocupa os seus pensamentos e é possível encontrar novos objetivos na vida.

Para alguém que tenha acabado de viver esta dor, pode ser difícil acreditar na possibilidade de voltar a ser feliz. É preciso ir devagarinho e aceitar que há sugestões que podem facilitar o caminho:

#1: ACEITAR OS PRÓPRIOS SENTIMENTOS.


Parece óbvio. Se uma pessoa está de luto, é natural e legítimo que se sinta triste. Se a perda ocorreu por suicídio, é natural que haja raiva, confusão, culpa. Mas, na prática, pode parecer mais simples limpar as lágrimas e avançar com a própria vida como se não tivesse acontecido nada. Para algumas pessoas, não faz sentido que alguns meses depois da perda ainda esteja tudo muito fresco e que os sentimentos continuem à flor da pele. Por outro lado, as pessoas à sua volta podem insistir na necessidade de “voltar ao normal” e estas tentativas de ajudar podem fazer com que se sinta ainda mais pressionada, ainda mais culpada.

Cada pessoa tem o seu ritmo e a tristeza e todos os outros sentimentos são normais e podem demorar a desvanecer-se. Não vale a pena querer acelerar o processo.


#2: FALAR SOBRE OS SENTIMENTOS.


As pessoas não são todas iguais e nem todas se sentem à vontade para falar sobre emoções tão intensas como aquelas que surgem na sequência de uma perda. Parar de fazer comparações com as outras pessoas é sempre uma boa opção MAS é importante reconhecer que há uma sensação de amparo associada à possibilidade de falarmos sobre o que estamos a sentir e verificarmos que há alguém que se importa. Há pessoas que perguntam «Para quê?», como se falar sobre os sentimentos só valesse a pena se a pessoa que nos ouve tivesse o poder de nos devolver a pessoa que partiu. Na prática, a pessoa que está “lá”, que escuta com atenção e que tenta dar esperança num futuro mais risonho até pode estar a léguas deste tipo de sofrimento MAS está disponível para lidar com o turbilhão emocional e pode, devagarinho, ser um pilar fundamental. 

#3: AJUDAR OUTROS MEMBROS DA FAMÍLIA.


A vida é sempre mais bonita e tem mais significado quando percebemos que podemos ajudar os outros. Quando toda a família está em sofrimento, pode surgir a sensação de que não há ninguém para nos ajudar. Mas quando cada um procura escutar, amparar e dar esperança, a união pode mesmo dar força. Ao longo do processo de luto, há dias melhores do que outros, há alturas em que uma pessoa está mais capaz de ajudar e há outras em que está mais necessitada de ajuda.

#4: ACEITAR AS DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO.


Os amigos e os familiares podem querer ajudar mas nem sabem como fazê-lo. É natural que algumas pessoas à sua volta tenham medo de falar na palavra suicídio ou evitem determinados assuntos. Fale sobre aquilo de que precisa e aceite que haja pessoas que simplesmente não vão conseguir dar-lhe o apoio de que precisa. Pode ser necessário conversar com um psicólogo para deitar tudo cá para fora.

#5: APRENDER A LIDAR COM O FUTURO.


As primeiras vezes depois da perda podem ser muito duras. Os aniversários, o Natal e todas as datas a que associamos a palavra “família” passarão a ser vividas de forma diferente. Isso não significa que não voltará a celebrá-las. Mas cada coisa tem o seu tempo e é preciso deixar que os sentimentos mais intensos se instalem nestas primeiras vezes. Procure rodear-se das pessoas com quem se sinta suficientemente à vontade para desabafar se sentir necessidade. Se puder, converse com pessoas que tenham enfrentado processos de luto há mais tempo e que possam ajudar a desconstruir os pensamentos mais catastrofistas e a olhar para o futuro com otimismo realista.

5.9.18

FALAR SOBRE SEXO NA RELAÇÃO


Há quem acredite que quanto mais se fala sobre sexo, menos se faz. E há quem tenha medo de falar abertamente sobre os próprios gostos ou preferências com medo de que o companheiro leve a mal e/ou pense que está a fazer tudo errado. Nada poderia estar mais longe da verdade. Quanto mais abertamente o casal conseguir falar sobre a sua sexualidade, maior é a probabilidade de ambos se sentirem satisfeitos.


Uma percentagem considerável dos casais com quem tenho trabalhado assumem que têm dificuldade em falar sobre sexo. Apesar de se tratar da relação mais íntima – quer do ponto de vista físico, quer emocional – a comunicação conjugal nem sempre flui com transparência e naturalidade quando o assunto é a intimidade sexual.

Por pudor, com medo de ferir a suscetibilidade do companheiro ou pura e simplesmente por falta de hábito, muitas pessoas limitam-se a aceitar o que o outro tem para oferecer.


Claro que muitas vezes o resultado é o empobrecimento da conexão. Afinal, se o sexo é uma das formas de nos ligarmos à pessoa que amamos, é legítimo que sintamos a necessidade de nos revelarmos (para que o outro possa vir ao encontro do que desejamos) e que queiramos conhecer a pessoa que está ao nosso lado (e fazê-la feliz também).

NÃO É FÁCIL FALAR SOBRE SEXO


«Cresci com a ideia de que o sexo era uma coisa suja e feia. Falar sobre isso era o mesmo que ser rotulada de ordinária, pelo que em casa dos meus pais era impensável haver qualquer transparência em relação ao tema. Mas acho que os efeitos que essa educação teve sobre mim foram muito além da comunicação. Quando comecei a namorar, parti para a relação com a ideia de que o meu papel era agradar aquele que viria a ser o meu marido. Nunca me preocupei com o meu prazer dentro da relação. Claro que explorei o meu corpo e conheci o prazer físico – mas sempre sozinha, como se estivesse a fazer alguma coisa que não deveria ser feita. Só depois da infidelidade do meu marido e da crise que se instalou no meu casamento é que começámos a falar sobre estes assuntos. A traição foi o maior terramoto da minha vida e trouxe-me muito sofrimento mas foi a oportunidade para que eu começasse a olhar para a minha sexualidade de forma mais saudável.»

Maria, 55 anos

«Já tentei tudo mas a minha mulher pura e simplesmente não é capaz de me dizer do que é que gosta ou o que é que deseja que eu faça. Falar sobre as fantasias de cada um é impensável. Parece que estou a falar com uma freira. Há muito tempo que me queixo, há muito tempo que procuro expor as minhas necessidades e o resultado é sempre o mesmo: sinto-me rejeitado e julgado. É como se eu fosse um “tarado” que está a falar-lhe de aberrações que, na verdade, são coisas banais de que deveríamos, pelo menos, ser capazes de falar. Sei que teve uma educação muito conservadora – eu conheço o meu sogro e também me lembro de todas as restrições que ele impunha enquanto namorávamos – mas não consigo acomodar-me a esta repressão»

Mário, 38 anos

Embora os casos que aqui identifiquei se refiram a dificuldades vividas por mulheres, a comunicação à volta do sexo pode ser constrangedora tanto para homens como para mulheres. É verdade que (ainda) há diferenças na forma como homens e mulheres são educados e que, pelo meu gabinete, passam mais mulheres com marcas de uma educação demasiado conservadora. Mas também é usual trabalhar com casais em que é a mulher que mostra vontade de falar abertamente sobre estas matérias e é o homem que mostra resistência. Além disso, estas dificuldades são extensíveis aos casais homossexuais – masculinos e femininos.

A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO


Quando reconhecemos a importância de nos revelarmos e assumirmos uma postura de curiosidade em relação à pessoa de quem gostamos e fazemos a escolha de falar abertamente sobre a nossa sexualidade, é importante que o façamos de forma consciente. Isso implica prestar atenção a alguns detalhes: 

ESCOLHER O MOMENTO. Não basta falar sobre sexo durante o ato sexual e muito menos será positivo fazê-lo apenas em tom crítico. É importante que estas conversas aconteçam também (ou será sobretudo?) antes e depois.

Gaste algum tempo a arrumar os seus pensamentos e a tentar explorar, pela positiva, os seus gostos, as suas preferências, as suas fantasias e as suas expectativas.


HONESTIDADE NÃO É BRUTALIDADE. Como em quase tudo na vida, ser frontal não é necessariamente uma qualidade. É claro que é importante dar-se a conhecer – tanto quanto é importante que assuma uma postura de genuína curiosidade em relação às preferências do seu parceiro – MAS isso não significa que deva criticá-lo de forma gratuita. Lembre-se de que esta é uma oportunidade para se conhecerem (ainda) melhor e para se ligarem. Se se sentirem criticados, é mais provável que se retraiam. 

ATENÇÃO À COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL. É importante ter cuidado com as palavras e tentar ser claro(a) e honesto(a) em relação aos seus sentimentos, necessidades e expectativas MAS é ainda mais importante que preste atenção à FORMA como comunica. Assuma a intenção de transmitir a sua mensagem de forma calorosa, divertida, carinhosa. Traga para estas conversas os gestos e as carícias que sabe que ajudam o seu parceiro a acalmar-se e a sentir-se acarinhado. Toque-o(a) sempre que o(a) vir em tensão e procure que o seu rosto traduza a vontade de se conectarem e não a vontade de criticar.

Sempre que exploramos novos caminhos, é legítimo que nos sintamos entusiasmados e inseguros. A vontade de melhorar uma área da vida que pode levar-nos a sentirmo-nos ainda mais felizes pode fazer com que cometamos alguns erros. É normal. O importante é que não desistamos e, se for necessário, saibamos pedir ajuda, sem dramas.

4.9.18

MANTER A CHAMA ACESA NUMA RELAÇÃO


No meu trabalho com casais há duas perguntas comuns: «Como manter a chama acesa na relação?» e «Como ultrapassar a falta de desejo?». O sexo já não é só uma das componentes do amor romântico e muito menos uma “obrigação conjugal”. Precisamos do desejo sexual para nos sentirmos felizes e ligados à pessoa que está ao nosso lado e procuramos fazer as escolhas que permitam que ele faça parte do nosso dia-a-dia.


Até há bem pouco tempo era comum que muitos casais permanecessem juntos ainda que já não se sentissem apaixonados. Para muitos, manter a relação era a forma de manter a família unida e corresponder aos padrões sociais e a paixão era muitas vezes vivida fora da relação. Ter um(a) amante era para muitas pessoas a única possibilidade de continuarem a sentir-se desejadas, escolhidas, especiais – a única forma de se sentirem mesmo VIVAS.

A infidelidade não desapareceu das nossas vidas MAS há cada vez mais pessoas capazes de colocar um ponto final à sua relação para poderem viver uma paixão com um novo companheiro.




AMOR E DESEJO


No meu trabalho com casais ouço muitas vezes queixas como:

«Eu amo o meu marido mas não me sinto apaixonada por ele»

«Eu sei que ela gosta de mim mas há muito tempo que não me sinto desejado»

«Ele não fala comigo e depois quer que tenhamos sexo»

«Eu estou sempre pronto mas não me lembro da última vez que a minha mulher tomou a iniciativa»

«Nunca tive um orgasmo com o meu marido. Só sozinha»

«Nós não falamos sobre sexo»

«Depois de me sentir rejeitado vezes sem conta, deixei de voltar a tentar»


A história de cada casal é única e especial e é evidente que os casais que me pedem ajuda não têm todos os mesmos problemas. Há casais que estão demasiado distantes do ponto de vista emocional e para quem o afastamento físico e sexual é “só” mais uma consequência dessas dificuldades. Mas também há muitos casais que são verdadeiramente companheiros, que conversam diariamente sobre os seus sentimentos, sobre as suas vivências e para quem o desejo sexual vai esmorecendo. Amam mas não se sentem apaixonados. Sentem-se próximos mas não sentem vontade de namorar. É quase como se estivessem “demasiado próximos”.

A certeza de que amamos a pessoa que está ao nosso lado mas não a desejamos pode ser desesperante – tanto quanto a sensação de não nos sentirmos desejados.

Ainda que a maior parte das pessoas opte por manter a relação mesmo quando já não se sentem apaixonadas, mais cedo ou mais tarde a diminuição do desejo transforma-se num problema. Para muitos casais que chegam até mim, o problema tem um nome: infidelidade. Há muitas pessoas que são apanhadas de surpresa pelo terramoto da traição. Não me refiro só à pessoa que é traída. Refiro-me à pessoa que trai e que, muitas vezes, faz uma escolha que jurou que nunca faria. Isto é o que acontece quando deixamos de prestar atenção aos nossos sentimentos, às nossas necessidades afetivas e vamos “empurrando a vida com a barriga” à espera que as coisas se resolvam ou quando nos convencemos de que é normal que a paixão desapareça.

É evidente que numa relação duradoura não há a inquietação dos primeiros tempos de namoro. À medida que o tempo passa e nos vamos ligando de forma segura à pessoa por quem nos apaixonámos, o coração deixa de bater de forma tão acelerada, o cérebro deixa de funcionar como se estivesse sob uma certa forma de demência e conseguimos pensar noutras coisas para além da pessoa de quem gostamos. Mas isso não significa que as relações tenham de passar a ser mornas, que a paixão desapareça completamente ou que seja normal e saudável amar sem desejar. 

ALIMENTAR O DESEJO


Quando combinamos jantar no nosso restaurante preferido, começamos imediatamente a sonhar com o prato que adoramos e que queremos voltar a degustar. Dias antes de lá voltarmos, somos perfeitamente capazes de visualizar a experiência, somos capazes de sentir alegria, entusiasmo e prazer em relação a uma coisa que ainda não aconteceu. Até somos capazes de começar a salivar. O mesmo acontece quando planeamos uma viagem que desejamos muito que aconteça. E o mesmo acontece em relação a um beijo que ainda não demos. Quem é que nunca sentiu prazer só por sentir que o desejo por outra pessoa está prestes a materializar-se?



O desejo é uma energia potentíssima. Faz com que nos sintamos vivos, entusiasmados, felizes e otimistas. Quando desaparece, nem sempre reparamos no impacto que isso tem no nosso bem-estar, na qualidade da nossa relação, na vontade de estar com o nosso companheiro.

Preocupamo-nos em assegurar que a pessoa que está ao nosso lado saiba que nos importamos com ela mas nem sempre fazemos o que podemos para mostrar que a desejamos. Nem sempre continuamos motivados para a seduzir. E nem sempre reparamos na importância de continuarmos a ser seduzidos.

Manter a chama de uma relação acesa também passa por aí: por manter a sedução. Como é que isso se faz? Sobretudo com criatividade, com novidade mas também com genuína curiosidade pelo que faz com que o outro se sinta desejado ou excitado. Não me canso de dizer que a inteligência emocional numa relação também passa pelo respeito pela novidade. O que quero dizer é que é infinitamente mais provável que continuemos a desejar a pessoa que já temos se ela continuar a trazer-nos coisas novas. Isso nem sempre passa por novas posições sexuais ou escolhas demasiado excêntricas. Passa, isso sim, por uma postura de incentivo mútuo à vivência de experiências positivas a dois e individualmente e pelo contínuo investimento na individualidade de cada um.

Quando uma pessoa investe em si mesma e cultiva relações profissionais e de amizade para além da relação conjugal, quando se mostra disponível para olhar para si e para o outro com contínua curiosidade, é mais provável que dê conta de que há sempre coisas novas para descobrir e que esse mistério pode ser entusiasmante. 

Não há receitas que funcionem para todos os casais. Algumas pessoas precisam de fazer quase tudo a dois, precisam de sentir muita segurança para continuarem a sentir vontade de tocar e de fazer amor. Outras precisam de um certo afastamento que as faça continuar a sentir um friozinho na barriga.

Quando procuramos olhar para nós com curiosidade, sem juízos de valor, e quando assumimos aquilo que sentimos e aquilo de que precisamos com abertura e coragem, é mais provável que construamos a relação que nos faça sentir seguros, entusiasmados e com vontade de continuar.
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