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26.1.15

O PODER DA VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A propósito das mais recentes notícias a envolver Bárbara Guimarães e alegadas situações de violência doméstica, alguém me perguntou: "O que é que leva uma mulher independente a sujeitar-se a ser vítima de violência doméstica continuada?". A propósito de todos os casos de violência doméstica (e mortes de mulheres), a esta pergunta costumam juntar-se outras:



As perguntas são compreensíveis. Afinal, até há pouco tempo associávamos este crime a mulheres com pouca escolaridade, fracos recursos financeiros e escassa rede de suporte. Era como se apenas as mulheres que estavam financeiramente dependentes dos maridos pudessem esconder esta realidade durante meses ou anos.

Gradualmente começa-se a perceber que não. Afinal, as vítimas também podem ser mulheres bonitas, inteligentes e, pasme-se, bem-sucedidas profissionalmente. Podem ser mulheres informadas e com uma extensa rede de suporte. Pode ser a vizinha do lado, advogada brilhante e temida nos tribunais. Pode ser a médica de família, tão boa a aconselhar os seus doentes. Pode ser a apresentadora de televisão.

Aquilo que a generalidade das pessoas ignora é que a violência doméstica não são "apenas" as chapadas, os pontapés e os empurrões. Há um veneno silencioso, que não deixa marcas visíveis, e que vai corroendo a autoestima, vai promovendo o desespero, vai aprisionando: a violência emocional.



  • São as ameaças feitas de forma clara ou implícita à vida da vítima, À VIDA DOS FILHOS ou à vida de outros familiares.
  • É a chantagem continuada. "Se abrires a boca é pior", "Vou divulgar as tuas fotografias nua", "Faço um escândalo no teu emprego", "Ninguém vai acreditar em ti e eu ainda vou mostrar que tu és desequilibrada", "Vou tirar-te os teus filhos".
  • São os insultos e humilhações, que começam de fininho e que vão crescendo até parecerem, aos olhos da vítima, verdades absolutas. "Não vales nada", "Estás gorda e velha", "És louca", "És uma péssima mãe", "Os teus filhos hão de culpar-te pela separação".
  • São as perseguições, o medo constante, a sensação de vigilância permanente. "Não estavas à espera que eu aparecesse, não é?", "Já viste os teus filhos hoje? Vê lá se queres apanhar um susto", "Com quem é que estavas a falar? Não me queiras ver nervoso".


É a violência emocional – a tal que é difícil de provar nos tribunais – que rouba a energia e o discernimento. Mas é SEMPRE possível romper o ciclo vicioso e é aí que entramos nós enquanto sociedade. É preciso denunciar, apoiar, estar “lá” e deixar de fazer juízos de valor, sobretudo quando não se conhece na pele o terror por que algumas mulheres já passaram. 

19.1.15

AMAR UM HOMEM CASADO


Leonor pediu a minha ajuda para terminar uma relação que rotulou, logo na primeira consulta, de "doentia". Há quase 10 anos que estava envolvida com um homem casado e estava cansada. "É de loucos! Eu sei que ele não se vai separar. Já terminámos inúmeras vezes. Mas acabo por voltar. Preciso de ajuda para me libertar disto". E o que é "isto"? É uma relação desequilibrada, marcada por constantes expetativas irrealistas, sonhos que teimam em não acontecer. A vida de Leonor é a vida de muitas mulheres que reconhecem que vivem de "migalhas", que se sentem permanentemente sós e carentes e que têm muita dificuldade em dar a volta.


A maior parte das mulheres que me procuram nestas circunstâncias são bem-sucedidas profissionalmente, têm amigas, uma rede de suporte mas... Também têm quase sempre sérias dificuldades relacionadas com a autoestima. Às vezes, em função dos cargos que desempenham ou até da beleza que as caracteriza, parecem mulheres seguras, capazes de fazer escolhas melhores.

Um olhar mais minucioso sobre os seus sentimentos permite quase sempre identificar uma bagagem emocional recheada de vulnerabilidades.

São quase sempre as feridas emocionais que carregam - e que muitas vezes se esforçam por camuflar - que as empurram para estes relacionamentos destrutivos.

É a carência. A necessidade de se sentirem amadas. A ânsia de se sentirem valorizadas por alguém que teima em não dar a atenção que evidentemente merecem. Vivem num ciclo vicioso marcado por tentativas de agradar à pessoa de quem gostam, comparações infrutíferas com a esposa (“O que é que ela tem que eu não tenho?”), deterioração da autoestima, sentimentos de culpa e solidão (nem que seja porque os verdadeiros momentos especiais são SEMPRE passados com a esposa).


  • Olhar para trás e identificar as próprias feridas emocionais (eventos difíceis, muitas vezes ocorridos na infância, que contribuíram para estas vulnerabilidades).
  • Identificar as armadilhas da relação com um homem casado (as promessas, os "bons momentos", a falsa segurança, a sensação de conexão que teima em não se traduzir numa relação de compromisso).
  • Reconhecer o próprio poder (desdramatizar o fim da relação, trabalhar a autoestima e as outras relações afetivas).
  • Perspetivar o futuro (porque quando nos libertamos do que nos faz mal é muito mais fácil olhar para a frente e fazer as escolhas que nos aproximem realmente daquilo que merecemos).


14.1.15

AGORA NÓS - ALIENAÇÃO PARENTAL

Ontem estive no programa AGORA NÓS, na RTP 1,
para falar sobre ALIENAÇÃO PARENTAL. Raquel é acusada pelo ex-companheiro de ter raptado a filha.


FAMÍLIAS DE ACOLHIMENTO


A propósito da minha participação no programa AGORA NÓS onde voltámos a falar de Alexandra, a menina russa que vivia com uma família de acolhimento portuguesa e que há seis anos comoveu o país por ser forçada a viver com a família biológica, lembrei-me de um tema que nunca abordei aqui: o luto nas famílias de acolhimento. Como se sabe, estas famílias de coração são quase sempre lares temporários para crianças em risco que, mais cedo ou mais tarde, regressam às respetivas famílias ou são encaminhadas para adoção. Aquilo de que poucas vezes ouvimos falar é do sofrimento por que tantas vezes estas pessoas passam na altura em que têm de se despedir das crianças de quem cuidaram (e a quem, inevitavelmente, se ligaram).


A primeira dificuldade que estas famílias enfrentam é mesmo esta: para quem está de fora, pode parecer estranho falar-se do luto comparável à perda de física de alguém. Mas é exatamente disso que se trata porque, seja qual for a duração do acolhimento, é inevitável que se criem laços que, de um momento para o outro, são desfeitos. Alguns pais e mães de acolhimento reconhecem que começaram a sofrer logo no dia da chegada da criança. Porquê? Precisamente por saberem que um dia teriam de dizer adeus. Essa consciência não os impede de dar todo o amor e a segurança de que as crianças precisam, pelo que é de altruísmo e afeto verdadeiro que falamos quando falamos destas pessoas.

A segunda grande dificuldade associada a este processo diz respeito à impossibilidade de se concluir o luto. Ao contrário do que acontece aquando da morte de um familiar ou amigo, nestes casos a pessoa de quem se gosta continua viva… mas deixa de poder haver contacto. Para algumas destas pessoas é como se tivessem passado pela terrível experiência de desaparecimento de um filho.


Depois há quem os tente confortar dizendo coisas como “Mas tu sabias que este dia ia chegar…”. Sim, é verdade que quem acolhe temporariamente uma criança sabe que o dia da partida pode chegar. Mas isso não faz com que doa menos! Quando uma criança tem uma doença incurável, o pai e a mãe também sabem que o dia da despedida chegará… A dor não é menor. É óbvio que, nestes casos, há a felicidade de saber que a criança está viva e saudável, apesar de estar longe. Mas até isso por vezes é questionável, já que o regresso à família biológica pode implicar que a criança volte a estar exposta a algumas privações ou até às mais diversas formas de violência. Como pode uma família de acolhimento conformar-se com o afastamento quando tem medo que o seu filho do coração esteja a passar dificuldades?

Por outro lado, e tal como acontece no luto “normal”, é importante ter em consideração que os membros do casal podem viver o seu luto de formas diferentes. É muito frequente que um queira falar ininterruptamente sobre os seus sentimentos, sobre a sua perda, enquanto o outro deseje sobretudo que a vida volte à normalidade o mais depressa possível. Cada um tem direito ao seu ritmo e a lidar com as próprias emoções à sua maneira. Mais: não se pode dizer que um esteja a sofrer mais do que o outro. Os mecanismos de defesa é que podem ser diferentes.


O que é verdadeiramente importante é que os familiares e amigos ofereçam toda a ajuda possível. Estando lá, mostrando-se disponíveis para ouvir, ouvir e ouvir, mais do que dar conselhos. E, sobretudo, é fundamental que não tentem desdramatizar uma situação que, vista de fora, é muito menos dolorosa. 
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