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18.10.18

CASADOS À PRIMEIRA VISTA: O QUE DIZ A PSICOLOGIA?

CASADOS À PRIMEIRA VISTA: O QUE DIZ A PSICOLOGIA?

O novo programa da SIC promete acabar com a solidão dos concorrentes através de casamentos “reais” com desconhecidos. Até que ponto pode a Psicologia ajudar a escolher o parceiro ideal? É possível fazer uma avaliação psicológica de cada concorrente e garantir que se encontra o par ideal?


A poucos dias do início de mais um controverso reality show, fui contactada por uma jornalista do Observador para responder a algumas perguntas sobre o programa. Segundo informações veiculadas pela produção internacional do programa “Casados à primeira vista”, todos os concorrentes são submetidos a longas horas de avaliação com o objetivo de serem encontrados os pares mais compatíveis. Basta uma breve pesquisa pela Internet – eu confesso que nunca vi nenhum episódio das versões estrangeiras do programa – para perceber que há casais que escolheram ficar juntos depois de o programa terminar e que há outros que escolheram terminar imediatamente a relação.

CASADOS À PRIMEIRA VISTA:
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA 


Se há algo que uma avaliação psicológica permite identificar são traços de personalidade narcísicos ou a tendência para assumir comportamentos mais explosivos e, ainda segundo as informações veiculadas pela imprensa, esses são critérios de exclusão dos candidatos. Por outro lado, a produção procura descartar todos os candidatos que estejam apenas à procura da gratificação imediata da fama. Até aqui, creio que é fácil de compreender que o trabalho dos psicólogos que façam parte da equipa ajude a cumprir o propósito.

As dúvidas surgem quanto à possibilidade de, dessa avaliação psicológica, saírem resultados fiáveis que permitam assegurar que haja elevada probabilidade de uma relação dar certo.


Relembro que se trata da observação individual dos candidatos e não da observação da forma como se relacionam entre si.

É POSSÍVEL PREVER SE UMA RELAÇÃO

VAI DAR CERTO? 


Ao contrário do que possa parecer, há investigações rigorosas na área da Psicologia da Família que permitem prever com elevado grau de precisão, se uma relação vai dar certo. O professor John Gottman liderou um longo estudo em que acompanhou centenas de casais durante décadas até conseguir identificar os sinais que mostram que uma relação está em risco. Estas conclusões dizem respeito à observação dos comportamentos e dos sinais fisiológicos dos membros do casal durante os momentos de conflito e NÃO ao cruzamento dos dados referentes à avaliação psicológica de cada um.

CASADOS À PRIMEIRA VISTA:
CONSELHOS


Uma das questões que a jornalista Ana Cristina Marques me colocou dizia respeito às sugestões que eu daria aos participantes do programa. A minha resposta é simples: eu sugiro que não participem no programa. Porquê? Porque a participação no programa implica saltar etapas essenciais a qualquer relação. Qualquer um de nós já experimentou a sensação de reconhecer noutra pessoa um vasto conjunto de atributos sem que isso se traduzisse em qualquer atração.

Muitas vezes, a única coisa que falta é a “química”.


E a química é exatamente aquilo de que nós precisamos para nos sentirmos vivos, para sentirmos desejo por outra pessoa. Quem está disposto a desperdiçar essa oportunidade e saltar imediatamente para uma relação de compromisso?

Por outro lado, ao longo do namoro, temos a oportunidade de nos revelarmos e de conhecermos a pessoa que escolhemos. Ninguém parte para uma relação a exigir a lista completa de defeitos e imperfeições do outro. Sabemos que eles existem mas a exploração é feita de forma gradual, permitindo que nos liguemos do ponto de vista afetivo e que, mais cedo ou mais tarde, nos sintamos seguros de que aquilo que sentimos é suficientemente forte para nos permitir adaptar-nos ao tal “pacote” de defeitos. Pelo meio, há tempo para as discussões, para nos acalmarmos enquanto cada um vai para sua casa – sem pressas, nem pressões. É difícil haver tanta pressão quanto aquela que está associada ao casamento com um desconhecido que, inevitavelmente, tem um conjunto de defeitos aos quais não estamos habituados.

Para algumas pessoas, esta pode ser efetivamente uma oportunidade para encontrar o amor. Afinal, já aconteceu noutros países. Mas valerá a pena arriscar tanto e desperdiçar a oportunidade de fazer uma escolha consciente, namorar sem pressões e explorar o outro com todo o tempo que quisermos?

10.10.18

REAÇÃO DOS FILHOS AOS NOVOS RELACIONAMENTOS DOS PAIS

Reação dos filhos aos novos relacionamentos dos pais


Depois de uma separação, é legítimo que os adultos ambicionem voltar a amar. Quando o pai tem uma namorada nova ou quando a mãe tem um namorado novo, a reação dos filhos nem sempre é positiva. Quando é que é o momento certo para apresentar o novo companheiro? O que é que os pais podem fazer para facilitar a adaptação dos filhos à nova relação? E que é que não devem fazer? 





O melhor presente que os pais e mães podem dar a um filho é uma relação conjugal sólida e feliz.
John Gottman

Quando as coisas não correm bem e o divórcio acontece, há muitos sentimentos de culpa, sensação de fracasso e a genuína vontade de fazer o que for possível para minimizar o sofrimento das crianças. Hoje sabemos que o bem-estar e a felicidade dos filhos depende sobretudo do bem-estar e da felicidade dos pais. Depois da separação, nem todos os adultos estão capazes de pensar numa nova relação mas, à medida que o tempo passa e as feridas saram, é natural que isso aconteça. Quando o pai ou a mãe tem um(a) novo(a) namorado(a), a expectativa é grande:


Reação dos filhos aos novos relacionamentos dos pais

Como é que os filhos vão reagir ao novo companheiro?
Quando é que é o momento certo para apresentar
o(a) novo(a) namorado(a)?
O que fazer quando a criança não reage bem
ao novo companheiro do pai ou da mãe?
O que é que os pais e mãe não devem mesmo fazer?

Reação dos filhos aos novos relacionamentos do pais


OS MEDOS DAS CRIANÇAS


De uma maneira geral, o aparecimento de um novo companheiro é sentido como uma ameaça. Aos olhos da criança, é inevitável que esta mudança na vida do pai ou da mãe implique mudanças para a sua própria vida e isso pode ser assustador. Quais são os medos da criança a propósito do novo namorado da mãe ou da nova namorada do pai?

O FIM DO SONHO DA RECONCILIAÇÃO


A maior parte das crianças alimentam o sonho de uma reconciliação entre o pai e a mãe. Quando há uma relação cordial ou até de amizade, isso é ainda mais provável.

Quando surge uma terceira pessoa, a criança pode encará-la como uma ameaça real à concretização desse sonho. O(a) novo(a) namorado(a) é visto como um rival.


MENOS ATENÇÃO


Todas as relações que valem a pena requerem a nossa atenção. Se é verdade que depois da separação a atenção dos pais e mães está muito voltada para o bem-estar dos filhos, é legítimo que estes temam que com a chegada de uma nova pessoa essa atenção diminua. É muito importante que os pais continuem a reservar tempo para escutar os filhos com atenção e que façam o que estiver ao seu alcance para que estes não se sintam desvalorizados. 

MENOS AFETO


Depois do divórcio, e sem que os pais e mães deem conta, é através da relação com os filhos que as suas próprias necessidades afetivas são preenchidas. Nós precisamos do toque, dos beijos e mimos para nos sentirmos felizes. Quando nos apaixonamos, é através da relação conjugal que boa parte das nossas necessidades afetivas são preenchidas e os filhos podem sentir-se ameaçados. Além disso, para algumas crianças, a demonstração clara de afeto entre o pai ou a mãe e o novo companheiro é geradora de desconforto e aversão. Isto é particularmente verdade para as crianças com mais de 6 anos e para os adolescentes.

MENOS TEMPO


Qual é a paixão que não rouba tempo? Quando nos ligamos a alguém, queremos passar todo o nosso tempo ao lado dessa pessoa. Mas as crianças estão habituadas a ter os adultos em exclusivo e é natural que se ressintam desse tempo de exclusividade.

Os pais e mães podem tentar que os encontros mais longos – como os fins-de-semana de namoro – aconteçam nos períodos em que os filhos estejam com o outro progenitor, sobretudo numa fase inicial.


NOVAS ROTINAS


As crianças gostam de consistência e de estabilidade. O surgimento de novas rotinas (e novas regras) é quase sempre percecionado como uma ameaça. É importante que não se tente mudar tudo em pouco tempo e que os hábitos que contribuem para o bem-estar das crianças se mantenham.

QUANDO É QUE É O MOMENTO CERTO PARA APRESENTAR O(A) NOVO(A) NAMORADO(A) AOS FILHOS?


Em teoria, não é positivo que esta revelação aconteça pouco tempo depois da separação. É importante lembrar que o divórcio é uma perda muito significativa para a criança – muitas vezes traumática – e que todas as perdas requerem um luto. Os adultos podem tentar respeitar o luto da criança e apresentar a nova pessoa numa altura em que a criança esteja mais preparada. Cada pai ou mãe conhece os seus filhos e, se prestar atenção, vai conseguir escolher o momento.

Por outro lado, é muito importante que nos lembremos de que as crianças não gostam de mentiras. Às vezes, o amor acontece muito antes daquilo que os adultos tinham previsto e pode ser difícil camuflar a realidade. É fundamental que os pais e mães façam o que estiver ao seu alcance para que os seus filhos não se sintam atraiçoados. Na prática, isso pode implicar a necessidade de uma revelação mais cedo do que estava planeado.

No meio destas variáveis, há um outro fator que importa ter em conta: quão sólida é a relação? A verdade é que quando a relação corre bem, esta é mais uma potencial fonte de afeto ara criança. Mas quando a relação não dá certo, é mais uma perda. E os adultos podem e devem fazer o que estiver ao seu alcance para evitar que as crianças sejam expostas a perdas sucessivas.


É normal que os pais e mães precisem de viver
vários amores até voltarem a encontrar o(a) tal.
Mas é essencial que as crianças não sejam
expostas a perdas sucessivas e à respetiva
instabilidade emocional.



O QUE É QUE OS PAIS E MÃES PODEM FAZER? 


PREPARAÇÃO

Antes de qualquer encontro, é essencial que haja uma conversa com os filhos para os preparar. Os pais e mães podem aproveitar o momento para expor os seus sentimentos e a sua vontade, mas também para ouvir os filhos em relação às suas emoções e às dúvidas que possam surgir.

PRIMEIRO ENCONTRO: DEVE SER CURTO

As crianças vão precisar de tempo para se ligarem a este novo adulto e a adaptação é mais fácil se não houver a imposição de ter de passar logo um fim-de-semana inteiro ao lado daquela pessoa.

O PAI E A MÃE NÃO VÃO SER SUBSTITUÍDOS

Os adultos sabem que o novo companheiro não vem substituir o outro progenitor. Mas as crianças podem sentir conflitos de lealdade, pelo que é muito importante que se converse com elas para assegurar que o novo namorado da mãe não vai tentar substituir o pai, mesmo que este esteja ausente, nem a namorada do pai vai tentar desempenhar o papel da mãe.

EXPECTATIVAS REALISTAS

Quando nos apaixonamos, temos a expectativa e a vontade de que as pessoas mais importantes da nossa vida se liguem de forma instantânea também. É como se as qualidades que reconhecemos e admiramos nesta pessoa tão especial fossem, aos nossos olhos, irresistíveis. Mas isso pode não acontecer e é, naturalmente, gerador de tristeza e desapontamento.

É preciso explorar os sentimentos e as dúvidas dos filhos e dar tempo para que eles se liguem ao novo companheiro.


De resto, a pessoa por quem nos apaixonamos também pode precisar de tempo para se ligar genuinamente às crianças. 

CONSISTÊNCIA DAS REGRAS

Algumas vezes, a vontade de contribuir para o bem-estar de todos e de melhorar algumas coisas faz com que o novo casal decida que é altura para implementar algumas mudanças que, inevitavelmente, mexerão com as rotinas e até as regras a que as crianças estão habituadas. Isso é exatamente aquilo que não deve ser feito – pelo menos, numa fase inicial. O aparecimento de um novo companheiro romântico já é uma mudança muito significativa e geradora de instabilidade.

CONVIDAR A CRIANÇA A PARTICIPAR NO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Às vezes assumimos de tal maneira o papel de decisores e protetores do bem-estar das crianças que nos esquecemos de que elas também têm voz e gostam de ser ouvidas. Os pais e mães podem convidar a criança a dar a sua opinião, a partilhar os seus sentimentos e a dar sugestões sobre o que pode ser feito para melhorar o bem-estar de todos. Não se trata de atribuir à criança todo o poder de decisão e muito menos o de desvalorizar os sentimentos dos adultos. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que os sentimentos e as necessidades de cada um têm o mesmo valor.

8.10.18

INFIDELIDADE EMOCIONAL: QUAIS SÃO OS SINAIS?

Infidelidade Emocional: Quais são os sinais?


Entre as conversas inofensivas com alguém que consideramos atraente e a infidelidade emocional, a fronteira nem sempre é clara. Há quem diga que só há traição quando há interação física. Mas será que é mesmo assim? E se houver mentiras? E se houver esforços para manter algumas escolhas em segredo? Quais são os sinais de infidelidade emocional? 



Na Era das redes sociais e das aplicações de encontros, pode parecer que a infidelidade tem crescido de forma exponencial. A verdade é que há infidelidade desde que há casamentos e nem todas as pessoas precisam da Internet para ultrapassar limites que prejudiquem a relação. Mas a quem compete definir esses limites? De uma maneira geral, são os membros do casal que definem – de forma mais ou menos explícita – os contornos de cada compromisso. Por exemplo, para alguns pode não fazer sentido manter o contacto com ex-namorados. Mas para outros aquilo que não faz sentido é impedir que haja essa comunicação, sobretudo quando os sentimentos estão claros.

Aquilo que acontece é que algumas vezes uma pessoa compromete-se com um conjunto de “regras” e, de um dia para o outro, é confrontada com a vontade de fazer escolhas diferentes. Quando isto acontece EM SEGREDO, é muito mais provável que haja infidelidade emocional – mesmo que a própria pessoa não tenha consciência disso.

#1: MANTER CONVERSAS COM OUTRAS PESSOAS EM SEGREDO


Não há nada de errado em manter conversas com ex-namorados ou com outras pessoas quaisquer, desde que isso aconteça às claras. Quando os membros do casal estão de acordo e conseguem falar abertamente sobre estas relações, isso é um sinal da solidez da relação. O problema acontece quando há ESFORÇOS que são feitos para manter as conversas EM SEGREDO.

Podem ser encontros aparentemente inofensivos para tomar café ou trocas de mensagens via Facebook.

Se houver segredo e, sobretudo, se houver um esforço consciente para manter o segredo, é porque a própria pessoa não está confortável com os sentimentos que estão associados àquela situação.


Quando isto acontece, é mais provável que a pessoa não esteja a prestar atenção às suas emoções e às suas necessidades afetivas e que venha a fazer escolhas de que se arrependa.

#2 MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS NA APARÊNCIA


Há alturas em que nos sentimos mais motivados para cuidar de nós – porque apanhámos um susto, porque queremos ter uma vida mais saudável ou simplesmente porque estamos mais empenhados em tratar da nossa autoestima. Mas estas mudanças também acontecem com frequência depois de nos cruzarmos com alguém que nos atraia e a quem queiramos mostrar-nos no nosso melhor.

Algumas pessoas mudam a aparência de forma radical sem darem conta de que já têm sentimentos românticos por outra. Refiro-me a mudanças muito significativas e que ocorrem em pouco tempo. De repente, a pessoa passa a praticar muito mais exercício físico, perde peso e renova todo o seu guarda-roupa.

Ser capaz de parar para prestar atenção ao que está a acontecer e falar abertamente sobre isso com o companheiro é a única forma de evitar que haja escolhas impulsivas de que venha a arrepender-se. 

Às vezes há pessoas com quem nos cruzamos que nos fazem sentir coisas que não sentíamos há muito tempo. Prestar atenção a essas emoções não implica qualquer forma de traição. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para revitalizar a relação.

#3: MARCAR ENCONTROS SEM O COMPANHEIRO


Qualquer pessoa tem o direito de cultivar amizades para além da relação. E tem a possibilidade de falar abertamente sobre isso com o companheiro. Ninguém tem a obrigação de contar tudo à pessoa com quem vive – todos os segredos, todos os detalhes. Mas uma coisa é manter alguma privacidade e outra, bem diferente, é fazer ESFORÇOS CONCRETOS para que os encontros com uma pessoa se mantenham EM SEGREDO.

Às vezes a pessoa engana-se a si mesma dizendo que são «só amigos» ou que o segredo está relacionado com uma tentativa de «evitar que haja chatices». A questão é que é mesmo muito mais provável que haja chatices se não prestarmos atenção aos sentimentos que nos levam a desviar-nos daquilo que combinámos – mesmo que de forma implícita – com o nosso companheiro.

#4: APAGAR MENSAGENS


Para quê que alguém escolhe apagar determinadas mensagens? Se há e-mails, mensagens de telemóvel ou Facebook que sejam apagadas de propósito «para evitar problemas», o mais provável é que já haja problemas.

#5 ESTAR SEMPRE A FALAR DAQUELA PESSOA


Quando há alguém que admiramos, que nos entusiasma, que nos faz sentir vivos, é natural que pensemos muitas vezes nessa pessoa e que conversemos sobre ela. Quando esses sentimentos são intensos, o interesse e o entusiasmo podem chamar primeiro a atenção de quem está à nossa volta. Às vezes, é o companheiro que repara no “entusiasmo excessivo” e não a própria pessoa.

É melhor parar para prestar atenção aos próprios sentimentos do que fingir que não está a acontecer nada.


#6: IMPACIÊNCIA


Há alturas em que os problemas no trabalho, as dificuldades de relacionamento com a família alargada ou o próprio cansaço nos roubam a paciência para as pessoas que mais gostam de nós. É normal e não tem rigorosamente nada a ver com qualquer forma de infidelidade. Mas quando a impaciência e a irritabilidade têm sobretudo um alvo – o companheiro – e não são justificáveis por nenhum problema em concreto, isso pode ser um sinal de alarme. 

Quando surgem sentimentos românticos por outra pessoa, a disponibilidade para o companheiro pode diminuir drasticamente, ainda que a própria pessoa não dê conta de que esteja a apaixonar-se.

#7: TRATAMENTO ESPECIAL


Nós gostamos de ser tratados de forma especial, sobretudo pela pessoa que amamos, mas nem sempre nos lembramos de que ele(a) precisa dessas demonstrações. No meio da correria, dos afazeres e do cansaço pode ser mais fácil cuidarmos de tudo menos da nossa relação. Às vezes somos mais simpáticos, mais cuidadosos e mais atenciosos com os nossos chefes e clientes do que com a nossa família. Não é desejável, mas acontece.

Quando alguém trata de forma especial uma única pessoa – e não é o companheiro – esse também pode ser um sinal de alarme. Porque a verdade é que é exatamente assim que começam as relações amorosas – pela vontade de agradar, mimar, tratar de forma especial.

Quando os sinais de alarme aparecem, o mais importante NÃO é fazer braços-de-ferro para determinar quem é que tem razão. Aquilo que importa é ter a coragem de olhar para os sentimentos que estão a surgir e procurar fazer as escolhas conscientes que nos ajudem a fazer o caminho que queremos fazer.

3.10.18

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: COMO SABER SE ESTÁ NUMA RELAÇÃO TÓXICA

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: COMO SABER SE ESTÁ NUMA RELAÇÃO TÓXICA


Quando as juras de amor se misturam com comportamentos que nos causam profundo mal-estar, sentimo-nos tristes, confusos e quase sempre sem energia. Sabemos que há qualquer coisa que não está bem, mas nem sempre conseguimos dar um nome ao problema. Quais são os sinais que nos mostram que estamos numa relação abusiva? O que é que caracteriza a violência emocional? 



Recebo muitas pessoas que se queixam de mal-estar associado a problemas na relação. De uma maneira geral, referem-se à angústia, à tristeza, ao nervosismo, à falta de energia e aos sentimentos de culpa sem darem conta de que esses são sinais claros de que estão a ser alvo de comportamentos abusivos. São maioritariamente mulheres – embora também haja homens vítimas de violência emocional – que foram expostas a meses, anos ou décadas de abusos e que, precisamente em função dos exercícios de poder a manipulação de que foram alvo, se sentem cada vez mais responsáveis (e culpadas) pelo mal-estar da relação.

O mal-estar constante, o nervosismo, o medo e a constante sensação de que a energia está a ser sugada pelo companheiro são os principais sinais de que pode estar numa relação abusiva.


TIPOS DE VIOLÊNCIA EMOCIONAL


Quando gostamos de alguém e acreditamos que essa pessoa gosta de nós, pode ser difícil haver a distância emocional que nos permita reconhecer os comportamentos tóxicos ou abusivos. Quanto mais repararmos na forma como as coisas são ditas, e não apenas no conteúdo, maior será a probabilidade de avaliarmos de forma clara se estamos ou não numa relação abusiva.

A violência emocional pode assumir muitas formas:

Chantagem emocional. «Se tu gostasses de mim…», «Se estivesses realmente empenhada nesta relação…» (Imposição da própria vontade).

Humilhações. Acontecem muitas vezes de forma subtil, sem insultos ou palavrões, mas têm o poder de diminuir a autoestima. «Onde vais vestido dessa forma? Pensas que és o Brad Pitt?» 

Reações desproporcionais ou explosivas. Gritos, murros na mesa, arremesso de objetos, condução perigosa. Na prática, trata-se de um exercício de intimidação e de imposição da própria vontade. 

Ameaças. Nem sempre são explícitas e têm como objetivo intimidar. «Toda a gente se vai virar contra ti», «Não vou deixar que vejas os teus filhos».

Isolamento social e familiar. As pessoas que assumem comportamentos abusivos são normalmente pessoas inseguras que se sentem ameaçadas pela rede de suporte do companheiro. Em função disso, vão manipulando e exercendo o seu poder para que a outra pessoa esteja cada vez mais isolada (e, em função disso, cada vez mais fragilizada também).

TUDO O QUE O AMOR NÃO É


Numa relação saudável não está sempre tudo bem. Não há relações perfeitas, não há ninguém que viva SEMPRE num mar de rosas. Numa relação feliz também há discussões, períodos de maior afastamento, birras e mágoas. MAS, de uma maneira geral, quando estamos numa relação saudável, sabemos com o que é que podemos contar, sentimo-nos seguros e amparados na maior parte do tempo, vivemos com a sensação de que podemos ser exatamente aquilo que somos, com a certeza de que podemos estar com as pessoas de quem gostamos e com a convicção de que a pessoa que está ao nosso lado nos ajuda a lutar por aquilo que queremos alcançar. Quando não é assim, não é uma relação saudável. Não é amor.

28.9.18

FAZER AS PAZES DEPOIS DE UMA (GRANDE) DISCUSSÃO

Fazer as pazes depois de uma grande discussão

Imediatamente depois de uma discussão acesa, o mais comum é que nos sintamos feridos e que desejemos que seja a outra pessoa a dar o primeiro passo para a reconciliação. Mas à medida que o tempo passa e isso não acontece, sentimo-nos divididos entre a vontade de fazer as pazes e o medo de que a pessoa que amamos aproveite esta aproximação para dizer «Eu tinha razão». Como é que se faz as pazes depois de uma discussão?


Quando nos apaixonamos, esperamos que o amor que sentimos seja suficientemente forte para nos ajudar a lidar com as diferenças que, inevitavelmente, surgirão. (Quase) ninguém gosta de discutir mas a maior parte de nós reconhece que é impossível manter uma relação autêntica e conhecer realmente a pessoa que está ao nosso lado sem qualquer discussão. As discussões ajudam-nos a revelarmo-nos tal como somos, ajudam-nos a conhecer os sentimentos e as necessidades da pessoa que está ao nosso lado. Ajudam-nos a construir relações íntimas e verdadeiras. Mas é sempre difícil discutir com a pessoa de quem gostamos. Faz-nos mal, sentimo-nos tristes e fragilizados e desejamos que fique tudo bem rapidamente.

Por norma, no início é fácil: estamos tão apaixonados que nos apressamos a tentar resolver as coisas assumindo a nossa responsabilidade, mostrando o nosso afeto e tentando que a nossa aproximação facilite o regresso à normalidade. Mas à medida que o tempo passa e deixamos de estar tão vigilantes também é natural que façamos mais braços-de-ferro (ainda que nem sempre de forma consciente) e que coloquemos mais vezes o orgulho à frente de qualquer tentativa de reaproximação.

FAZER AS PAZES:
QUEM DEVE DAR O PRIMEIRO PASSO?


Quanto melhor conhecemos uma pessoa, maior é a probabilidade de lhe explorarmos as manhas, os defeitos, as limitações e tudo quanto nos irrita. À medida que o tempo passa, até podemos reconhecer, de cabeça fria, que não há pessoas perfeitas e que a pessoa que está ao nosso lado tem o direito a alguns defeitos com os quais teremos de ser capazes de conviver. Mas a vida a dois também é feita de expectativas e de desejos e se há coisa que a maior parte de nós deseja é que a pessoa que está ao nosso lado consiga mostrar de forma clara que se importa com os nossos sentimentos.


Depois de uma discussão – seja lá por que motivo for – precisamos frequentemente de sentir que a pessoa que amamos é capaz de mostrar que se preocupa com os nossos sentimentos.


Nem sempre nos lembramos de que, numa discussão, ambos erram, ambos dizem coisas que magoam. É natural que nos foquemos sobretudo naquilo que ouvimos e nos magoou e não propriamente nos erros que cometemos, nas coisas que dissemos ou nos equívocos de comunicação que surgem quando os ânimos estão exaltados. Sentimo-nos feridos e, pelo menos durante instantes, só queremos um pedido de desculpas e dizemos a nós próprios que vamos ficar zangados até que isso aconteça. Achamos que temos razão e que não há outra volta a dar ao problema.

Claro que, independentemente de quem começou a discussão ou de quem atirou mais farpas, há outras questões que vão sobressaindo. Porque quando ainda há amor não chega dizer a nós mesmos que temos razão. Porque, mesmo que nos sintamos magoados com as coisas que ouvimos, sentimo-nos sobretudo tristes e sentimos a falta da pessoa de quem gostamos. Precisamos que fique tudo bem. 

Desejamos que fique tudo bem. Na maior parte das relações felizes ter razão é pouco importante na altura de fazer as pazes. A urgência de retomar a normalidade e voltar a trocar gestos de afeto sobrepõe-se a tudo o resto. Isto não significa que seja fácil fazer uma reaproximação e muito menos significa que, ao fazer as pazes, o assunto que deu azo à discussão fique automaticamente resolvido.


O que acontece é que para algumas pessoas
há algo que está muito claro:
É preferível cuidar da relação
do que provar que se tem razão.



FAZER AS PAZES O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL


Quanto mais tempo permanecemos zangados com a pessoa de quem gostamos, mais tempo ficamos entregues aos nossos pensamentos negativos, à nossa neura, à nossa ruminação. E o mesmo acontece com o nosso companheiro. Isso vai deixando marcas e vai fazendo com que seja cada vez mais difícil recuperar das discussões. Pelo contrário, quando permitimos que o nosso afeto e a vontade de fazer as pazes nos conduzam a uma tentativa de fazer as pazes ou à capacidade de aceitar qualquer tentativa de aproximação que o nosso companheiro faça, é infinitamente mais provável que os assuntos em que discordemos sejam geridos com inteligência emocional.

Claro que não é fácil engolir o orgulho e dar o primeiro passo. Mas vale a pena lembrar que, se cada um fizer um esforço, ambos saem a ganhar.


COMO FAZER AS PAZES DEPOIS DE UMA DISCUSSÃO:
PASSO A PASSO


#1: Sempre que possível, dê o primeiro passo. Assuma alguma responsabilidade pela escalada de agressividade (sem frases do tipo «Eu só disse isto porque tu disseste aquilo»).

#2: Mostre o seu afeto de forma clara. Um abraço ou um beijo têm poderes curativos. Podemos sentir-nos magoados mas é muito mais provável que abdiquemos de qualquer braço-de-ferro se nos sentirmos amados.

#3: Mostre de forma clara e autêntica que se preocupa com os sentimentos do seu companheiro. Coloque-se na posição dele(a). Procure olhar para a realidade de outro ponto de vista.

#4: Mostre interesse genuíno. Quando se sentir mais calmo(a), faça perguntas que o(a) ajudem a perceber os sentimentos e as necessidades do seu companheiro. 

#5: Não tenha pressa em resolver o problema em questão. É importante que reconheçamos que muitos dos problemas conjugais não vão ser resolvidos. Vão ser geridos. E é mais provável que nos sintamos tranquilos com isso se a gestão tiver em conta a vontade de conhecer e respeitar os sentimentos de ambos.

#6: Aceite SEMPRE um pedido de desculpas genuíno. Evite expor a pessoa de quem gosta a (mais) sentimentos de rejeição. É difícil dar o primeiro passo. Ajude-o(a), acolhendo-o(a) e mostrando o seu afeto.
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