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21.9.20

O QUE NÃO PODE FALTAR NUM RELACIONAMENTO?

 

O que não pode faltar num relacionamento?

Quase todas as semanas ouvimos ou lemos conselhos e sugestões a propósito da construção de um relacionamento feliz. A existência de tantas publicações sobre o assunto mostra bem a importância que as relações amorosas têm na nossa vida, no nosso bem-estar. Mas o que é que a ciência nos diz? Quais são, de facto, os “ingredientes” para que uma relação dê certo?

Se tentarmos seguir à risca todas as recomendações que são partilhadas por especialistas da área, pelos nossos familiares e amigos mais experientes e pela literatura existente, o mais provável é que nos sintamos baralhados. Olhamos para um lado e há alguém a quem reconhecemos experiência e credibilidade que nos diz que é importante que sejamos absolutamente honestos com o(a) nosso(a) companheiro(a) porque só assim teremos uma relação íntima e segura; olhamos para o outro e há alguém que detém o título de especialista em terapia de casal e terapia sexual que nos aconselha a manter o mistério e a individualidade em nome da vivacidade da relação. Em que ficamos? Entregamo-nos por completo e partilhamos todas as nossas vulnerabilidades ou guardamos algumas coisas para nós? Falamos abertamente sobre tudo o que sentimos ou isso pode comprometer o erotismo e o desejo? Investimos numa relação de maneira a que a base de tudo seja uma profunda amizade ou rejeitamos qualquer hipótese de olhar para a pessoa por quem apaixonamos como o(a) nosso(a) melhor amigo?


Quais são as bases de uma relação amorosa?


A maior parte das pessoas que conheço desconhece que há psicólogos que se dedicam exclusivamente a estudar o amor e as relações amorosas. Uma coisa é sabermos que há profissionais de saúde que estão habituados a ajudar casais em crise; outra, bem diferente, é sabermos que há décadas de estudos científicos que fundamentam a forma como essa ajuda é dada. Um dos maiores estudiosos desta área é o Professor John Gottman, que acompanhou milhares de casais ao longo de várias décadas, monitorizando os seus comportamentos, as respostas fisiológicas em momentos de tensão e cruzando estes dados com a satisfação demonstrada pelos membros do casal. Depois de mais de quarenta anos de estudo, a sua equipa foi capaz de prever, com um grau de precisão de mais de 90 por cento, se um casal se divorciaria ou não nos anos seguintes – apenas a partir da forma como discutia. Impressionante, não é? Parece futurologia, mas é pura ciência.


Uma das conclusões de todos estes anos de investigação diz-nos que os casais mais felizes e com maior probabilidade de continuarem juntos partilham um denominador comum: uma profunda amizade.


Mas o que é que isto quer dizer?


Isso significa, sobretudo, que as pessoas mais felizes no casamento estão ativa e constantemente sintonizadas com os sentimentos do(a) companheiro(a), isto é, elas prestam a devida atenção quando a pessoa de quem gostam faz um apelo e procuram responder às suas necessidades. Não o fazem apenas em relação às grandes matérias. Fazem-no regularmente em relação às pequenas coisas. Eis um exemplo simples:


De manhã, a mulher partilha com o marido:

«Hoje acordei ansiosa. Tive um sonho meio estranho…»

O marido, apressado para o trabalho, responde:

«Que chatice… Estou atrasado para o trabalho e tenho reunião com o meu chefe, mas ligo-te à hora de almoço para falarmos um bocadinho sobre isso», despedindo-se da mulher com um beijo e uma festinha no queixo.

Depois da reunião, liga e pergunta:

«Já te sentes melhor? Qual foi o tal sonho que te deixou nervosa?».


Este é um exemplo daquilo a que eu chamo de responder com atenção e afeto aos apelos da pessoa que amamos, ainda que o apoio não tenha surgido imediatamente. Se o marido tivesse simplesmente respondido «Agora não tenho tempo. Estou atrasado», a mulher poderia sentir-se ignorada, desamparada. Pelo contrário, quando o marido opta por valorizar o apelo da mulher, oferecendo o seu interesse e a sua atenção, fá-la sentir que é importante para ele. Essa é a base de uma relação segura: precisamos de sentir, de forma muito consistente, que a pessoa que está ao nosso lado se importa com os nossos sentimentos, presta atenção. Nalguns casos, isso vai implicar que coloque perguntas que demonstrem interesse genuíno. Noutras situações, implicará que mostre a sua empatia, o seu apoio, que nos dê colo em vez de nos julgar. E noutros momentos implicará que vibre connosco a propósito de um sonho ou de uma vitória qualquer.


Os casais felizes também discutem?


Uma das questões que mais frequentemente são exploradas pela imprensa a propósito das regras para um bom relacionamento é a comunicação. De uma maneira geral, encontramos muitas sugestões bem-intencionadas e com algum fundamento, mas raramente nos deparamos com informação rigorosa sobre as discussões conjugais. O que é que a ciência nos diz? É saudável discutir? Devemos dizer tudo o que pensamos/ sentimos? O que é que não devemos mesmo fazer?


Sim, os casais felizes também discutem – e ainda bem porque isso faz parte de uma relação íntima.



Aquilo que a ciência nos mostra é que há hábitos que protegem as relações amorosas e há escolhas que são autênticos venenos.


Quando falamos de discussões, é possível identificar os 4 cavaleiros do apocalipse, isto é, os 4 hábitos mais arriscados para qualquer relação:


HIPERCRÍTICA. Há uma diferença muito significativa entre dizer «Não te esqueças de baixar a tampa da sanita» e dizer «Vê lá se consegues portar-te como uma pessoa normal e baixar a porcaria da tampa da sanita». No segundo exemplo, o apelo é feito com hipercrítica, atacando a personalidade do companheiro. Eu compreendo que às vezes nos sintamos cansados de repetir os pedidos, que possamos sentir que a pessoa que está ao nosso lado tem desvalorizado as chamadas de atenção feitas de forma doce ou serena e que interiorizemos que as coisas só se resolvam assim. O problema é que qualquer generalização, qualquer ataque vai produzir o efeito contrário àquele que desejamos.


POSTURA DEFENSIVA. Se o marido disser «Disseste que ias buscar a roupa à lavandaria e esqueceste-te de o fazer», a mulher pode responder «Tens razão. Queres que vá lá agora?» em vez de se defender com algo do género «E então? Tu também te esqueces imensas vezes de fazer aquilo que eu te peço!». Quando alguém nos chama a atenção para algo que fizemos (ou que não fizemos), é normal que nos sintamos colocados em causa e é tentador defendermo-nos. Mas nem sempre está em causa uma crítica à nossa personalidade. Nem todas as chamadas de atenção são um ataque de que tenhamos de nos defender.

 

Quando conseguimos olhar para a pessoa de quem gostamos como alguém que também tem o direito de nos criticar e, sobretudo, quando assumimos uma postura de curiosidade, querendo genuinamente perceber o que é que está por detrás do apelo, do que é que a outra pessoa precisa, é mais fácil dizer «Tens razão» ou colocar perguntas que nos aproximem. A postura defensiva potencia o aumento da escalada de agressividade.


AMUOS/ TRATAMENTO DO SILÊNCIO. Há muitas pessoas que se queixam de falar «para o boneco». Porque, enquanto falam, o companheiro sai de cena. Ou sai literalmente, deixando-as a falar sozinhas, ou fica a ouvir em silêncio, olhando para o telemóvel ou para outra coisa qualquer. A atenção não está lá e a pessoa que está a falar sente-se ignorada. Quando um dos membros do casal ignora o outro, a segurança e o amparo deixam de estar associados àquela relação.


DESPREZO. Já reparou que basta um gesto para reduzir a pessoa que está ao nosso lado a praticamente nada? A maior parte das pessoas não têm essa consciência, mas há um comportamento que é porventura o sinal mais claro de alarme numa relação: revirar os olhos. Porquê? Porque traduz desprezo pela pessoa que está ao nosso lado, por aquilo que ela está a dizer. Há outras formas - às vezes mais difíceis de identificar - de mostrar desprezo pelo companheiro. Sempre que o fazemos, a pessoa que está ao nosso lado sentir-se-á profundamente rejeitada e, a prazo, isso pode ter consequências fatais para a relação.


Todas as pessoas já tiveram alguns destes comportamentos. E mesmo nas relações felizes é possível que eles ocorram. Aquilo que é desejável é que tenhamos maior consciência dos perigos que estão associados a cada um destes venenos e que assumamos a intenção de não os repetir. Cada um de nós tem o direito de errar, mas é mais provável que façamos as escolhas que protejam a nossa relação e que, depois de errarmos, mais rapidamente façamos alguma coisa para emendar na medida em que haja conhecimento e vontade de fazer o melhor.


O que diferencia uma relação amorosa de outras relações afetivas?


Quando olhamos para um casal que esteja junto há pouco tempo, o que é que observamos? Provavelmente, já todos reparámos no mesmo: não se largam! Para além de estarem permanentemente a falar da pessoa de quem gostam, quando estão juntos tocam-se constantemente, mesmo que esses gestos não tenham nada de sexual. Esse é o efeito da paixão: o nosso cérebro muda, pelo menos durante algum tempo, forçando-nos a pensar na pessoa de quem gostamos e desviando muitas vezes a atenção de outros assuntos importantes. Esta “fixação” temporária faz com que façamos muitas escolhas para agradar à pessoa que amamos e que vão desde passar por uma pastelaria e trazer o seu bolo preferido ou desmarcar uma reunião “só” para a acompanhar na realização de um exame até andarmos de mão dada, tocarmo-nos várias vezes por dia ou mostrarmos o nosso desejo das mais diversas formas.


À medida que o tempo passa e que a ativação fisiológica provocada pela paixão dá tréguas (deixando que tenhamos cabeça para trabalhar e para cumprir com outras responsabilidades😊), vamos criando rotinas que contribuem para a nossa segurança e que nos ajudam a projetar um futuro a dois. Mas já todos ouvimos falar do lado mais negativo das rotinas. Quando olhamos para alguns casais que conhecemos, damo-nos conta de que houve um esmorecimento e às vezes é difícil perceber o que aconteceu. Há pessoas que se dão bem, que percebemos que funcionam otimamente enquanto equipa – na educação dos filhos, da gestão do dinheiro ou no equilíbrio entre as responsabilidades familiares e os períodos de lazer -, mas que perderam a vivacidade que gostamos de associar às relações amorosas.


Numa relação duradoura, para que ambos continuem a sentir-se felizes não basta que haja segurança, confiança mútua ou que a comunicação flua. Na verdade, há necessidades que cada um de nós tem e que às vezes parecem o oposto de tudo isto.



Quando converso com pessoas que viveram uma relação extraconjugal, ouço-as dizer muitas vezes «Senti-me vivo(a)». Muitas vezes, estas pessoas não estavam à procura de nada e até foram apanhadas desprevenidas pelo seu próprio comportamento. Sentiam-se estáveis nas suas relações, embora provavelmente não estivessem a prestar a decida atenção à necessidade de continuarem a sentir-se estimuladas pela novidade, pelo mistério e pela imprevisibilidade.


Quando olhamos para o início de uma relação, é fácil perceber que o nosso desejo é diretamente proporcional ao facto de aquela pessoa não ser “nossa”. Nada está garantido, tudo está por explorar.


À medida que celebramos anos de relacionamento, é importante que invistamos tanto na consolidação de hábitos que nos ajudem a construir uma relação baseada na revelação mútua, na capacidade de nos vulnerabilizarmos e na confiança, como na promoção da nossa individualidade e daquilo que nos ajude a trazer “novidades” para a relação.


A inteligência erótica implica que reconheçamos a importância do desejo numa relação. Não me refiro ao número de relações sexuais que um casal tem por semana, mas à importância de cada um continuar a olhar para o outro como alguém que não é verdadeiramente seu, que é capaz de continuar a dar voz aos próprios interesses e alimentar outras relações afetivas.


O sexo é o elemento que diferencia as relações amorosas das outras relações afetivas, mas, na prática, vai muito além do ato sexual. Tem a ver com criatividade, mistério, imaginação. Com a vontade de promover uma distância de segurança que permita que reconheçamos que, tal como no início, temos ao nosso lado alguém que é interessante e que não está garantido. Mas também tem a ver com as escolhas que cada um de nós pode fazer para ligar ou desligar o próprio desejo. Tem a ver com a nossa capacidade individual de perceber que quando fazemos as escolhas que nos dão poder e prazer fora da relação, é mais provável que nos sintamos vivos e excitados dentro da relação, ainda que seja mais fácil atribuir a diminuição do nosso desejo àquilo que a pessoa que está ao nosso lado (não) faz.


Às vezes pode parecer que as relações são muito complicadas ou que a felicidade a dois é um bem que só toca a meia dúzia de privilegiados, mas a verdade é que qualquer um de nós pode ser feliz no amor. Na prática, essa felicidade dá mais trabalho do que possa parecer e envolve a nossa capacidade de nos mantermos atentos e curiosos – em relação a nós e à pessoa que está ao nosso lado.

9.7.20

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

Família disfuncional


Quais são as características de uma família disfuncional? E quais são as respostas que devemos procurar quando damos conta de que crescemos numa família disfuncional?


Ouço muitas vezes no meu trabalho com adultos a frase “Cresci numa família disfuncional”. Na maior parte das vezes, a expressão refere-se aos problemas familiares que deixaram marcas profundas, mas nem sempre se trata de famílias com as características de uma família disfuncional.


Quais são as características de uma família disfuncional?


#1: ABUSOS


Nem todas as famílias disfuncionais são caracterizadas pela existência de abusos físicos ou sexuais, mas este é um sinal indiscutível de disfuncionalidade. Para além de todas as consequências que se prolongam pela vida fora, aquilo que observamos nestas famílias é a “normalização” dos abusos.


Já todos ouvimos frases como «Eu apanhei do meu pai/ da minha mãe e estou aqui», como se a sobrevivência fosse sinal de saúde mental.


As crianças que crescem habituadas à violência física tomam esse exemplo como “normal”.


As pessoas que dão afeto e atenção são as mesmas que agridem, às vezes de forma brutal.


Em muitos destes casos, é só na idade adulta que a pessoa se dá conta de que foi alvo de comportamentos abusivos – às vezes essa perceção no contexto de uma relação amorosa, noutros casos surge em terapia.


#2: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A violência emocional pode assumir muitas formas. É por isso que às vezes pode ser difícil reconhecer um comportamento como uma forma de abuso emocional. Ser-se emocionalmente violento não é apenas gritar e insultar. De resto, a maior parte dos exemplos de violência emocional a que acedo no meu trabalho com famílias não incluem quaisquer insultos.


São exemplos de violência emocional (e da disfuncionalidade de uma família):

Ignorar as necessidades (físicas ou emocionais dos filhos);

Retirar o afeto à criança quando não vai ao encontro da vontade do adulto;

Hipercrítica (humilhações);

Fazer ameaças;


#3: AMOR CONDICIONAL


Hoje em dia estamos muito familiarizados com o conceito de amor incondicional. A maior parte dos pais e mães que tenho conhecido dão o seu melhor para que os filhos saibam que são merecedores de amor independentemente das suas opções. Mas há muitos adultos que cresceram num ambiente familiar tão exigente que a sensação era a de que estavam sistematicamente “aquém” das expectativas.


Nas famílias disfuncionais é frequente os adultos mostrarem desilusão a propósito das escolhas dos filhos – não porque eles tenham cometido erros, mas porque contrariaram a vontade dos pais.


Quando os filhos não fazem aquilo que os pais gostariam que eles fizessem, o amor é “retirado”. Na prática, continua a haver comunicação, mas é mais “seca” e desprovida de afeto.


Estas crianças transformam-se frequentemente em “people pleasers”, isto é, em adultos preocupados em agradar a toda a gente, negligenciando os próprios sentimentos e as próprias necessidades.


#4: INEXISTÊNCIA DE FRONTEIRAS


Nas famílias disfuncionais a invasão da privacidade dos filhos é uma constante. O espaço físico (quarto) é invadido, mesmo quando os filhos já são adolescentes ou adultos e a correspondência é frequentemente violada. Mais do que isso: os pais podem sentir-se no direito de tomar decisões em nome dos filhos, mesmo quando estes já têm autonomia para tomar as próprias decisões.


A inexistência de fronteiras também faz com que os pais partilhem demasiadas informações com os filhos, transformando-os em confidentes desde muito cedo. Aquilo que acontece é que os filhos são confrontados com assuntos que só deveriam dizer respeito aos pais e sentem-se muitas vezes obrigados a proteger os progenitores (ou um deles), a tomar decisões e a fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar a resolver os problemas.


Em Psicologia há um nome para estas crianças: são crianças parentificadas, que assumem desde cedo responsabilidades que deveriam recair sobre os ombros dos adultos.



# 5: INEXISTÊNCIA DE COESÃO E INTIMIDADE


Por estranho que pareça, nas famílias disfuncionais não há muita intimidade. Há normalmente um grande emaranhamento, resultante da inexistência de fronteiras. Toda a gente se mete na vida de toda a gente, o que pode ser confundido com coesão familiar. Claro que também pode haver genuína preocupação, mas, de uma maneira geral, os membros da família sentem-se pouco confortáveis com a ideia de partilharem os seus sentimentos mais íntimos uns com os outros. Na prática, não há a devida valorização dos sentimentos ou das necessidades de cada um, não há o devido respeito e, em função disso, torna-se mais difícil falar abertamente e criar verdadeira intimidade.


#6: TRIANGULAÇÃO


Nas famílias saudáveis os assuntos são resolvidos de-um-para-um. Cada pessoa sente-se confortável para manifestar aquilo que sente, para se queixar e até para discutir. Nas famílias disfuncionais é frequente a existência de triangulações. Na prática, quando uma pessoa se zanga com outro membro da família, opta por falar com um terceiro membro em vez de resolver o assunto diretamente. Por exemplo, se a mãe se zangar com o pai, é capaz de ir falar mal do pai junto do filho e até é capaz de o pressionar no sentido de enviar recados. Este padrão relacional tende a eternizar-se e os filhos rapidamente aprendem a fazer o mesmo.


Quando existem estas alianças perversas, há, pelo menos, duas consequências negativas: por um lado, os problemas dificilmente são resolvidos e, por outro, a confiança nos membros da família é muito diminuta.


#7: COMPORTAMENTOS ADITIVOS


Nas famílias disfuncionais encontramos frequentemente o consumo abusivo de álcool e drogas e o vício do jogo. Estes comportamentos trazem muita instabilidade para toda a família. Os filhos crescem quase sempre com muita incerteza e transformam-se quase sempre em crianças (e mais tarde adultos) hipervigilantes e ansiosos. É como se nunca soubessem com o que podem contar, como se nunca tivessem a certeza de que, ao chegar a casa, encontrarão um ambiente tranquilo ou o caos.


Nestas famílias é comum haver muitos gritos, muita violência.

 

Que respostas existem para as famílias disfuncionais?


A família em que crescemos oferece-nos os primeiros conceitos de normalidade. É junto dos nossos pais e familiares mais próximos que interiorizamos, pelo exemplo, o que é normal e o que não é normal. Mas à medida que crescemos e, sobretudo, à medida que construímos outras relações afetivas, vamo-nos dando conta dos erros que os nossos pais e outros cuidadores cometeram.


As pessoas que cresceram numa família disfuncional muitas vezes só se apercebem dessa disfuncionalidade na idade adulta. Às vezes, essa perceção surge na sequência dos problemas existentes na relação conjugal. Noutros casos, surge na sequência de um pedido de ajuda em resposta a uma perturbação ansiosa ou depressiva.



A terapia é invariavelmente um porto seguro

 através do qual o adulto que cresceu numa família disfuncional

tem oportunidade de identificar e tratar as feridas

emocionais que ficaram desse período.




De uma maneira geral, esse processo implica a recuperação da própria voz.


Estas pessoas habituaram-se a conter (ou anular) os próprios sentimentos e pode levar algum tempo até que aprendam a fazê-lo de forma autêntica e assertiva.


Por outro lado, as marcas que ficam afetam quase sempre o amor-próprio, pelo que há um trabalho a ser feito para que a pessoa interiorize que é merecedora de amor e possa fazer escolhas que permitam construir relações emocionalmente saudáveis.


Claro que este trabalho terapêutico também depende da capacidade de reconhecer que é preciso algum afastamento em relação aos comportamentos tóxicos. Na prática, isto pode ser muito difícil porque se trata de adultos que passaram a vida inteira a desvalorizar as próprias necessidades e a sentir a obrigação de agradar aos outros. Reconhecer que têm o direito de se afastar destes comportamentos não é sempre fácil, mas é essencial.


A recuperação também implica o reconhecimento dos padrões de relacionamento disfuncionais e a capacidade de romper com esses padrões, também para evitar que eles se reproduzam na família que se quer construir. É natural que, pelo meio, haja muitos sentimentos de culpa, que haja medo e incerteza, mas, no final, compensa muito.


Todo este processo depende do reconhecimento de que vamos sempre a tempo de melhorar a nossa vida, MAS só podemos mudar o nosso comportamento. Por muito que custe aceitar, não podemos mudar as pessoas de quem gostamos. Podemos, isso sim, relacionar-nos com elas de formas mais saudáveis e protetoras do nosso bem-estar.


6.7.20

CONVERSAS DE CASAL PARA REDUZIR O STRESS

Conversas de casal para reduzir o stress

Sabia que as conversas a dois podem ser autênticos ansiolíticos para lidar com o stress? É verdade. Os casais felizes cultivam o hábito de conversar diariamente sobre aquilo que mexe com cada um e utilizam algumas estratégias para lidar (a dois) com o stress. Por outro lado, há quem chegue a casa diariamente e receba tudo menos o apoio de que precisa. Afinal, o que é que é preciso para que estas conversas diárias nos ajudem a reduzir o stress?


Não sei se já lhe aconteceu, mas quase todos os dias ouço alguém dizer-me que se sente incompreendido(a) pelo(a) companheiro(a). Na maioria das vezes são pessoas que se sentem desamparadas na relação conjugal – ou porque a pessoa que está ao seu lado não presta atenção, ou porque não valoriza os seus sentimentos ou, pior, porque critica em vez de apoiar. Não vale a pena precipitarmo-nos a julgar. A verdade é que, em algum momento, já todos falhámos nesta matéria. Nem sempre é fácil estarmos exatamente no mesmo comprimento de onda que o(a) nosso(a) companheiro(a) e, na azáfama dos dias, há alturas em que estamos tão absorvidos pelas nossas próprias inquietações (ou prazeres) que acabamos por não conseguir estar tão disponíveis para a pessoa que amamos.


Claro que uma coisa é “falhar” a título excecional e outra, bem diferente, é estarmos sistematicamente indisponíveis.


O momento certo para conversar a dois


Quando chega a casa, o que é que prefere? Parar, sozinho(a), durante alguns minutos para “desligar” do stress do trabalho e só depois conversar com a pessoa de quem gosta? Ou é daquelas pessoas que entra em casa pronto(a) para “descarregar” tudo aquilo que lhe aconteceu?


Pessoas diferentes têm necessidades diferentes. E está tudo bem. Pelo menos, na medida em que essas diferenças não se transformem em braços-de-ferro. Se os membros do casal respeitarem as diferenças, é mais provável que encontrem uma solução de compromisso a propósito do momento mais ajustado para que estas conversas aconteçam.


Às vezes, estas conversas a dois acontecem ao longo do jantar, com o “ruído de fundo” das crianças, da televisão e de outras distrações. Noutras, acontecem ao serão, na cama. O importante é que nos disciplinemos para que aconteçam e que aceitemos as limitações e imperfeições da vida no dia-a-dia.


Ao contrário do que possamos idealizar, a maior parte dos casais não têm tempo para conversar diariamente acompanhados de um copo de vinho num ambiente sossegado sem interrupções.



Para que servem estas conversas de casal?


Para descomprimir a dois. Para criar uma sensação de união e pertença. Para que nos sintamos amparados.


As conversas a dois que acontecem habitualmente no final de cada dia são um dos “segredos” dos casais mais felizes. Acontecem praticamente todos os dias e permitem que cada um se sinta visto, compreendido e amado. São autênticos “calmantes” naturais que nos ajudam a perceber que é ao lado da pessoa que escolhemos que nos sentimos mais relaxados. Num dia normal são precisos 20 a 30 minutos para estas conversas.


Mas é preciso ter atenção ao propósito destas conversas e a tudo aquilo que elas Não são! Estas conversas diárias a dois NÃO servem para falar sobre os problemas da relação.


Na verdade, em 99% das vezes estas conversas não são sobre a relação. São conversas sobre todas as pequenas e grandes coisas que mexem com cada um dos membros do casal ao longo do dia. São uma espécie de atualização diária a respeito daquilo que vai acontecendo quando os membros do casal não estão juntos. Claro que a ideia não é apenas a de cada um fazer um relatório do seu dia. A intenção é a de partilhar, acolher, demonstrar interesse, apoiar e incentivar.


Se pensarmos naquilo de que precisamos quando escolhemos desabafar com alguém, é fácil perceber o papel de quem está do outro lado. De uma maneira geral, quando falamos sobre aquilo que mexe connosco, seja pela positiva ou pela negativa, gostamos de:


Perceber que a outra pessoa presta atenção;

Sentir o seu interesse / a sua curiosidade genuína;

Receber o seu apoio / colo;

Perceber o seu entusiasmo em relação ao que nos faz felizes.


No entanto, é quase sempre mais desafiante oferecermos tudo isto à pessoa que amamos. Pelo menos, de forma consistente. Quando ele/ ela comete algum erro ou passa por alguma dificuldade, nem sempre temos o discernimento para dar colo antes de dar um sermão. Quando os sonhos dele/dela colidem com as nossas necessidades nem sempre conseguimos mostrar entusiasmo, quanto mais incentivá-lo(a) a lutar pelos seus objetivos.


É por isso que é tão importante prestar atenção à forma como estamos a comunicar com a pessoa que amamos. É que se deixarmos que o piloto automático tome conta de nós, é muito fácil fazer escolhas que façam com que a pessoa de quem gostamos sinta que está a desabafar com o inimigo!


Como devem ser estas conversas de casal?


Se acha que é daqueles/daquelas que facilmente se enche de boas intenções, mas rapidamente se esquece daquilo que deve fazer, o melhor é apontar ou imprimir as seguintes “regras” e guardá-las num sítio onde seja provável que as releia (na porta do frigorífico?):


#1: ALTERNEM OS PAPÉIS.

Cada membro do casal deve ter (mais ou menos) o mesmo tempo para falar.

#2: NÃO DÊ CONSELHOS QUE NÃO LHE FORAM SOLICITADOS.

Se der rapidamente uma sugestão para o dilema do(a) seu(sua) companheiro(a), ele(a) poderá achar que você está a minimizar a situação. Na prática, você está a dizer «Isso não é assim tão complicado. Porque é que tu não…?».

 

Tente compreender a situação antes de oferecer sugestões.
 

É preciso que a pessoa que ama sinta que você compreende e empatiza com o dilema antes de sugerir uma solução. Por vezes, aquilo de que a outra pessoa precisa nem é de uma solução – basta-lhe que você seja um bom ouvinte, ou que ofereça o seu ombro. Existe uma significativa diferença de género nesta regra. Quando a mulher partilha os seus problemas com o marido, normalmente reage de um modo muito negativo quando ele lhe dá conselhos imediatamente. Em vez disso, ela quer ouvir que ele compreende a situação. Os homens são muito mais tolerantes perante as tentativas imediatas para resolver o problema. Ainda assim, se um homem partilhar com a mulher os seus problemas no trabalho, provavelmente preferirá que ela lhe demonstre empatia em vez de uma solução.

#3: MOSTRE INTERESSE GENUÍNO.

Não deixe que a sua mente divague. Centre-se naquilo que o(a) seu(sua) companheiro(a) está a dizer. Coloque questões. Olhe nos olhos.

#4: MOSTRE A SUA EMPATIA.

Deixe que a pessoa que ama saiba que compreende o que ela está a sentir: «Que frustração! Eu também ficaria em stress. Percebo porque é que te sentes assim».

#5: FIQUE DO LADO DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Isto implica dar apoio, mesmo que considere que a perspetiva dele(a) não é razoável. Não fique do lado oposto. Se o patrão da sua mulher implicou com ela porque chegou 5 minutos atrasada, não diga «Bem, não te deverias ter atrasado». Em vez disso, diga «Que chatice!». A ideia não é ser desonesto(a). A questão é que o timing é determinante. Quando o(a) seu(sua) companheiro(a) vem ter consigo à procura de apoio emocional (e não de conselhos), a sua função não é a de fazer juízos de valor ou a de lhe dizer o que fazer. A sua função é a de dizer «Estou aqui para ti».

#6: EXPRESSE O SEU AFETO.

Abrace o(a) seu(sua) companheiro(a), diga-lhe que o(a) ama.

#7: VALIDE AS EMOÇÕES DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Diga-lhe que aquelas emoções fazem sentido, que ele(a) tem o direito de se sentir “assim”: «Sim, isso é muito triste. Eu também ficaria preocupado(a)».



18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


27.4.20

SEPARAÇÃO DURANTE O ISOLAMENTO – QUANDO SE DEVE CONTAR AOS FILHOS?


Separação ou divórcio durante o isolamento - quando se deve contar aos filhos?

Os casais que foram “apanhados” pela pandemia do Covid-19 em pleno processo de separação debatem-se com dificuldades acrescidas. Uma está relacionada com o momento de comunicar a decisão às crianças. Devem ter esta conversa agora? Ou será mais prudente esperar pelo fim do confinamento?


Continuo a acompanhar pessoas em processo de separação (nas consultas online). Algumas foram “apanhadas” pelo confinamento antes de contarem aos filhos, antes de um dos dois sair de casa, antes de todas as respostas estarem definidas. No princípio, a ideia de estarem de quarentena durante 15 dias parecia compatível com o adiamento de todas as decisões, mas, à medida que o tempo foi passando, a perspetiva de esta pandemia se prolongar por tempo indefinido veio trazer ainda mais ansiedade a pessoas que já estavam a atravessar o período mais difícil das suas vidas.





Comunicar a separação aos filhos:

A conversa que ninguém quer ter


Não é fácil comunicar aos filhos que o pai e a mãe se vão separar. Como explico no livro “Continuar a Ser Família Depois do Divórcio”, esta é a conversa que ninguém quer ter. Há muitas emoções envolvidas – o medo da reação dos filhos e de não ter todas as respostas para as perguntas que possam surgir, a tristeza pelo fim do projeto familiar, a mágoa de quem é deixado, a insegurança em relação ao futuro. Compreensivelmente, há quem vá adiando esta conversa até ao limite.

Com a chegada da pandemia e da obrigatoriedade de confinamento muitos pais e mães adiaram a comunicação da separação aos filhos, questionando se valeria a pena avançar com essa partilha numa altura em que é mais difícil concretizar todos os passos inerentes a um divórcio ou a uma separação. Afinal, o mais certo é que tenham de continuar a conviver na mesma casa durante mais algum tempo.
Mas a verdade é que o segredo é tremendamente tóxico e a minha experiência mostra-me que, apesar de todos os esforços, os filhos sabem quase sempre mais do que os adultos acham que eles sabem.
Às vezes tomam conhecimento da decisão a partir de conversas telefónicas entre um dos progenitores e outros familiares ou amigos, outras vezes ouvem conversas entre o pai e a mãe.

O confinamento veio obrigar as famílias a passar 24 horas por dia em casa, o que, para os casais em processo de separação, pode implicar muitos silêncios, inexistência de gestos de afeto, tristeza, ansiedade, tensão, irritabilidade e amargura. As crianças e os adolescentes são muito sensíveis à linguagem não verbal dos pais e são quase sempre muito perspicazes no que toca ao reconhecimento deste tipo de problemas. Quando os pais optam por continuar em silêncio, isso pode querer dizer que os filhos tenham de lidar com o assunto sem o colo dos adultos.

É por isso que, de uma maneira geral, é preferível que esta conversa aconteça tão cedo quanto possível – mesmo em tempos de confinamento. Assim, os filhos têm a oportunidade de colocar as suas dúvidas, têm oportunidade de pedir ajuda para organizar as suas emoções. Por outro lado, os adultos deixam de ter de fingir e passam a viver uma vida mais autêntica.

Um divórcio ou uma separação é invariavelmente uma perda gigantesca para todos os membros da família, mas, tal como acontece com outras perdas, é preciso dar espaço para que todas as emoções sejam exteriorizadas com verdade, permitindo que os laços se estreitem. Não há nada como a certeza de que há quem genuinamente se importe connosco, com o nosso sofrimento. Quando isso acontece, sentimo-nos invariavelmente mais ligados.

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