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9.7.20

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

Família disfuncional


Quais são as características de uma família disfuncional? E quais são as respostas que devemos procurar quando damos conta de que crescemos numa família disfuncional?


Ouço muitas vezes no meu trabalho com adultos a frase “Cresci numa família disfuncional”. Na maior parte das vezes, a expressão refere-se aos problemas familiares que deixaram marcas profundas, mas nem sempre se trata de famílias com as características de uma família disfuncional.


Quais são as características de uma família disfuncional?


#1: ABUSOS


Nem todas as famílias disfuncionais são caracterizadas pela existência de abusos físicos ou sexuais, mas este é um sinal indiscutível de disfuncionalidade. Para além de todas as consequências que se prolongam pela vida fora, aquilo que observamos nestas famílias é a “normalização” dos abusos.


Já todos ouvimos frases como «Eu apanhei do meu pai/ da minha mãe e estou aqui», como se a sobrevivência fosse sinal de saúde mental.


As crianças que crescem habituadas à violência física tomam esse exemplo como “normal”.


As pessoas que dão afeto e atenção são as mesmas que agridem, às vezes de forma brutal.


Em muitos destes casos, é só na idade adulta que a pessoa se dá conta de que foi alvo de comportamentos abusivos – às vezes essa perceção no contexto de uma relação amorosa, noutros casos surge em terapia.


#2: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A violência emocional pode assumir muitas formas. É por isso que às vezes pode ser difícil reconhecer um comportamento como uma forma de abuso emocional. Ser-se emocionalmente violento não é apenas gritar e insultar. De resto, a maior parte dos exemplos de violência emocional a que acedo no meu trabalho com famílias não incluem quaisquer insultos.


São exemplos de violência emocional (e da disfuncionalidade de uma família):

Ignorar as necessidades (físicas ou emocionais dos filhos);

Retirar o afeto à criança quando não vai ao encontro da vontade do adulto;

Hipercrítica (humilhações);

Fazer ameaças;


#3: AMOR CONDICIONAL


Hoje em dia estamos muito familiarizados com o conceito de amor incondicional. A maior parte dos pais e mães que tenho conhecido dão o seu melhor para que os filhos saibam que são merecedores de amor independentemente das suas opções. Mas há muitos adultos que cresceram num ambiente familiar tão exigente que a sensação era a de que estavam sistematicamente “aquém” das expectativas.


Nas famílias disfuncionais é frequente os adultos mostrarem desilusão a propósito das escolhas dos filhos – não porque eles tenham cometido erros, mas porque contrariaram a vontade dos pais.


Quando os filhos não fazem aquilo que os pais gostariam que eles fizessem, o amor é “retirado”. Na prática, continua a haver comunicação, mas é mais “seca” e desprovida de afeto.


Estas crianças transformam-se frequentemente em “people pleasers”, isto é, em adultos preocupados em agradar a toda a gente, negligenciando os próprios sentimentos e as próprias necessidades.


#4: INEXISTÊNCIA DE FRONTEIRAS


Nas famílias disfuncionais a invasão da privacidade dos filhos é uma constante. O espaço físico (quarto) é invadido, mesmo quando os filhos já são adolescentes ou adultos e a correspondência é frequentemente violada. Mais do que isso: os pais podem sentir-se no direito de tomar decisões em nome dos filhos, mesmo quando estes já têm autonomia para tomar as próprias decisões.


A inexistência de fronteiras também faz com que os pais partilhem demasiadas informações com os filhos, transformando-os em confidentes desde muito cedo. Aquilo que acontece é que os filhos são confrontados com assuntos que só deveriam dizer respeito aos pais e sentem-se muitas vezes obrigados a proteger os progenitores (ou um deles), a tomar decisões e a fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar a resolver os problemas.


Em Psicologia há um nome para estas crianças: são crianças parentificadas, que assumem desde cedo responsabilidades que deveriam recair sobre os ombros dos adultos.



# 5: INEXISTÊNCIA DE COESÃO E INTIMIDADE


Por estranho que pareça, nas famílias disfuncionais não há muita intimidade. Há normalmente um grande emaranhamento, resultante da inexistência de fronteiras. Toda a gente se mete na vida de toda a gente, o que pode ser confundido com coesão familiar. Claro que também pode haver genuína preocupação, mas, de uma maneira geral, os membros da família sentem-se pouco confortáveis com a ideia de partilharem os seus sentimentos mais íntimos uns com os outros. Na prática, não há a devida valorização dos sentimentos ou das necessidades de cada um, não há o devido respeito e, em função disso, torna-se mais difícil falar abertamente e criar verdadeira intimidade.


#6: TRIANGULAÇÃO


Nas famílias saudáveis os assuntos são resolvidos de-um-para-um. Cada pessoa sente-se confortável para manifestar aquilo que sente, para se queixar e até para discutir. Nas famílias disfuncionais é frequente a existência de triangulações. Na prática, quando uma pessoa se zanga com outro membro da família, opta por falar com um terceiro membro em vez de resolver o assunto diretamente. Por exemplo, se a mãe se zangar com o pai, é capaz de ir falar mal do pai junto do filho e até é capaz de o pressionar no sentido de enviar recados. Este padrão relacional tende a eternizar-se e os filhos rapidamente aprendem a fazer o mesmo.


Quando existem estas alianças perversas, há, pelo menos, duas consequências negativas: por um lado, os problemas dificilmente são resolvidos e, por outro, a confiança nos membros da família é muito diminuta.


#7: COMPORTAMENTOS ADITIVOS


Nas famílias disfuncionais encontramos frequentemente o consumo abusivo de álcool e drogas e o vício do jogo. Estes comportamentos trazem muita instabilidade para toda a família. Os filhos crescem quase sempre com muita incerteza e transformam-se quase sempre em crianças (e mais tarde adultos) hipervigilantes e ansiosos. É como se nunca soubessem com o que podem contar, como se nunca tivessem a certeza de que, ao chegar a casa, encontrarão um ambiente tranquilo ou o caos.


Nestas famílias é comum haver muitos gritos, muita violência.

 

Que respostas existem para as famílias disfuncionais?


A família em que crescemos oferece-nos os primeiros conceitos de normalidade. É junto dos nossos pais e familiares mais próximos que interiorizamos, pelo exemplo, o que é normal e o que não é normal. Mas à medida que crescemos e, sobretudo, à medida que construímos outras relações afetivas, vamo-nos dando conta dos erros que os nossos pais e outros cuidadores cometeram.


As pessoas que cresceram numa família disfuncional muitas vezes só se apercebem dessa disfuncionalidade na idade adulta. Às vezes, essa perceção surge na sequência dos problemas existentes na relação conjugal. Noutros casos, surge na sequência de um pedido de ajuda em resposta a uma perturbação ansiosa ou depressiva.



A terapia é invariavelmente um porto seguro

 através do qual o adulto que cresceu numa família disfuncional

tem oportunidade de identificar e tratar as feridas

emocionais que ficaram desse período.




De uma maneira geral, esse processo implica a recuperação da própria voz.


Estas pessoas habituaram-se a conter (ou anular) os próprios sentimentos e pode levar algum tempo até que aprendam a fazê-lo de forma autêntica e assertiva.


Por outro lado, as marcas que ficam afetam quase sempre o amor-próprio, pelo que há um trabalho a ser feito para que a pessoa interiorize que é merecedora de amor e possa fazer escolhas que permitam construir relações emocionalmente saudáveis.


Claro que este trabalho terapêutico também depende da capacidade de reconhecer que é preciso algum afastamento em relação aos comportamentos tóxicos. Na prática, isto pode ser muito difícil porque se trata de adultos que passaram a vida inteira a desvalorizar as próprias necessidades e a sentir a obrigação de agradar aos outros. Reconhecer que têm o direito de se afastar destes comportamentos não é sempre fácil, mas é essencial.


A recuperação também implica o reconhecimento dos padrões de relacionamento disfuncionais e a capacidade de romper com esses padrões, também para evitar que eles se reproduzam na família que se quer construir. É natural que, pelo meio, haja muitos sentimentos de culpa, que haja medo e incerteza, mas, no final, compensa muito.


Todo este processo depende do reconhecimento de que vamos sempre a tempo de melhorar a nossa vida, MAS só podemos mudar o nosso comportamento. Por muito que custe aceitar, não podemos mudar as pessoas de quem gostamos. Podemos, isso sim, relacionar-nos com elas de formas mais saudáveis e protetoras do nosso bem-estar.


6.7.20

CONVERSAS DE CASAL PARA REDUZIR O STRESS

Conversas de casal para reduzir o stress

Sabia que as conversas a dois podem ser autênticos ansiolíticos para lidar com o stress? É verdade. Os casais felizes cultivam o hábito de conversar diariamente sobre aquilo que mexe com cada um e utilizam algumas estratégias para lidar (a dois) com o stress. Por outro lado, há quem chegue a casa diariamente e receba tudo menos o apoio de que precisa. Afinal, o que é que é preciso para que estas conversas diárias nos ajudem a reduzir o stress?


Não sei se já lhe aconteceu, mas quase todos os dias ouço alguém dizer-me que se sente incompreendido(a) pelo(a) companheiro(a). Na maioria das vezes são pessoas que se sentem desamparadas na relação conjugal – ou porque a pessoa que está ao seu lado não presta atenção, ou porque não valoriza os seus sentimentos ou, pior, porque critica em vez de apoiar. Não vale a pena precipitarmo-nos a julgar. A verdade é que, em algum momento, já todos falhámos nesta matéria. Nem sempre é fácil estarmos exatamente no mesmo comprimento de onda que o(a) nosso(a) companheiro(a) e, na azáfama dos dias, há alturas em que estamos tão absorvidos pelas nossas próprias inquietações (ou prazeres) que acabamos por não conseguir estar tão disponíveis para a pessoa que amamos.


Claro que uma coisa é “falhar” a título excecional e outra, bem diferente, é estarmos sistematicamente indisponíveis.


O momento certo para conversar a dois


Quando chega a casa, o que é que prefere? Parar, sozinho(a), durante alguns minutos para “desligar” do stress do trabalho e só depois conversar com a pessoa de quem gosta? Ou é daquelas pessoas que entra em casa pronto(a) para “descarregar” tudo aquilo que lhe aconteceu?


Pessoas diferentes têm necessidades diferentes. E está tudo bem. Pelo menos, na medida em que essas diferenças não se transformem em braços-de-ferro. Se os membros do casal respeitarem as diferenças, é mais provável que encontrem uma solução de compromisso a propósito do momento mais ajustado para que estas conversas aconteçam.


Às vezes, estas conversas a dois acontecem ao longo do jantar, com o “ruído de fundo” das crianças, da televisão e de outras distrações. Noutras, acontecem ao serão, na cama. O importante é que nos disciplinemos para que aconteçam e que aceitemos as limitações e imperfeições da vida no dia-a-dia.


Ao contrário do que possamos idealizar, a maior parte dos casais não têm tempo para conversar diariamente acompanhados de um copo de vinho num ambiente sossegado sem interrupções.



Para que servem estas conversas de casal?


Para descomprimir a dois. Para criar uma sensação de união e pertença. Para que nos sintamos amparados.


As conversas a dois que acontecem habitualmente no final de cada dia são um dos “segredos” dos casais mais felizes. Acontecem praticamente todos os dias e permitem que cada um se sinta visto, compreendido e amado. São autênticos “calmantes” naturais que nos ajudam a perceber que é ao lado da pessoa que escolhemos que nos sentimos mais relaxados. Num dia normal são precisos 20 a 30 minutos para estas conversas.


Mas é preciso ter atenção ao propósito destas conversas e a tudo aquilo que elas Não são! Estas conversas diárias a dois NÃO servem para falar sobre os problemas da relação.


Na verdade, em 99% das vezes estas conversas não são sobre a relação. São conversas sobre todas as pequenas e grandes coisas que mexem com cada um dos membros do casal ao longo do dia. São uma espécie de atualização diária a respeito daquilo que vai acontecendo quando os membros do casal não estão juntos. Claro que a ideia não é apenas a de cada um fazer um relatório do seu dia. A intenção é a de partilhar, acolher, demonstrar interesse, apoiar e incentivar.


Se pensarmos naquilo de que precisamos quando escolhemos desabafar com alguém, é fácil perceber o papel de quem está do outro lado. De uma maneira geral, quando falamos sobre aquilo que mexe connosco, seja pela positiva ou pela negativa, gostamos de:


Perceber que a outra pessoa presta atenção;

Sentir o seu interesse / a sua curiosidade genuína;

Receber o seu apoio / colo;

Perceber o seu entusiasmo em relação ao que nos faz felizes.


No entanto, é quase sempre mais desafiante oferecermos tudo isto à pessoa que amamos. Pelo menos, de forma consistente. Quando ele/ ela comete algum erro ou passa por alguma dificuldade, nem sempre temos o discernimento para dar colo antes de dar um sermão. Quando os sonhos dele/dela colidem com as nossas necessidades nem sempre conseguimos mostrar entusiasmo, quanto mais incentivá-lo(a) a lutar pelos seus objetivos.


É por isso que é tão importante prestar atenção à forma como estamos a comunicar com a pessoa que amamos. É que se deixarmos que o piloto automático tome conta de nós, é muito fácil fazer escolhas que façam com que a pessoa de quem gostamos sinta que está a desabafar com o inimigo!


Como devem ser estas conversas de casal?


Se acha que é daqueles/daquelas que facilmente se enche de boas intenções, mas rapidamente se esquece daquilo que deve fazer, o melhor é apontar ou imprimir as seguintes “regras” e guardá-las num sítio onde seja provável que as releia (na porta do frigorífico?):


#1: ALTERNEM OS PAPÉIS.

Cada membro do casal deve ter (mais ou menos) o mesmo tempo para falar.

#2: NÃO DÊ CONSELHOS QUE NÃO LHE FORAM SOLICITADOS.

Se der rapidamente uma sugestão para o dilema do(a) seu(sua) companheiro(a), ele(a) poderá achar que você está a minimizar a situação. Na prática, você está a dizer «Isso não é assim tão complicado. Porque é que tu não…?».

 

Tente compreender a situação antes de oferecer sugestões.
 

É preciso que a pessoa que ama sinta que você compreende e empatiza com o dilema antes de sugerir uma solução. Por vezes, aquilo de que a outra pessoa precisa nem é de uma solução – basta-lhe que você seja um bom ouvinte, ou que ofereça o seu ombro. Existe uma significativa diferença de género nesta regra. Quando a mulher partilha os seus problemas com o marido, normalmente reage de um modo muito negativo quando ele lhe dá conselhos imediatamente. Em vez disso, ela quer ouvir que ele compreende a situação. Os homens são muito mais tolerantes perante as tentativas imediatas para resolver o problema. Ainda assim, se um homem partilhar com a mulher os seus problemas no trabalho, provavelmente preferirá que ela lhe demonstre empatia em vez de uma solução.

#3: MOSTRE INTERESSE GENUÍNO.

Não deixe que a sua mente divague. Centre-se naquilo que o(a) seu(sua) companheiro(a) está a dizer. Coloque questões. Olhe nos olhos.

#4: MOSTRE A SUA EMPATIA.

Deixe que a pessoa que ama saiba que compreende o que ela está a sentir: «Que frustração! Eu também ficaria em stress. Percebo porque é que te sentes assim».

#5: FIQUE DO LADO DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Isto implica dar apoio, mesmo que considere que a perspetiva dele(a) não é razoável. Não fique do lado oposto. Se o patrão da sua mulher implicou com ela porque chegou 5 minutos atrasada, não diga «Bem, não te deverias ter atrasado». Em vez disso, diga «Que chatice!». A ideia não é ser desonesto(a). A questão é que o timing é determinante. Quando o(a) seu(sua) companheiro(a) vem ter consigo à procura de apoio emocional (e não de conselhos), a sua função não é a de fazer juízos de valor ou a de lhe dizer o que fazer. A sua função é a de dizer «Estou aqui para ti».

#6: EXPRESSE O SEU AFETO.

Abrace o(a) seu(sua) companheiro(a), diga-lhe que o(a) ama.

#7: VALIDE AS EMOÇÕES DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Diga-lhe que aquelas emoções fazem sentido, que ele(a) tem o direito de se sentir “assim”: «Sim, isso é muito triste. Eu também ficaria preocupado(a)».



18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


27.4.20

SEPARAÇÃO DURANTE O ISOLAMENTO – QUANDO SE DEVE CONTAR AOS FILHOS?


Separação ou divórcio durante o isolamento - quando se deve contar aos filhos?

Os casais que foram “apanhados” pela pandemia do Covid-19 em pleno processo de separação debatem-se com dificuldades acrescidas. Uma está relacionada com o momento de comunicar a decisão às crianças. Devem ter esta conversa agora? Ou será mais prudente esperar pelo fim do confinamento?


Continuo a acompanhar pessoas em processo de separação (nas consultas online). Algumas foram “apanhadas” pelo confinamento antes de contarem aos filhos, antes de um dos dois sair de casa, antes de todas as respostas estarem definidas. No princípio, a ideia de estarem de quarentena durante 15 dias parecia compatível com o adiamento de todas as decisões, mas, à medida que o tempo foi passando, a perspetiva de esta pandemia se prolongar por tempo indefinido veio trazer ainda mais ansiedade a pessoas que já estavam a atravessar o período mais difícil das suas vidas.





Comunicar a separação aos filhos:

A conversa que ninguém quer ter


Não é fácil comunicar aos filhos que o pai e a mãe se vão separar. Como explico no livro “Continuar a Ser Família Depois do Divórcio”, esta é a conversa que ninguém quer ter. Há muitas emoções envolvidas – o medo da reação dos filhos e de não ter todas as respostas para as perguntas que possam surgir, a tristeza pelo fim do projeto familiar, a mágoa de quem é deixado, a insegurança em relação ao futuro. Compreensivelmente, há quem vá adiando esta conversa até ao limite.

Com a chegada da pandemia e da obrigatoriedade de confinamento muitos pais e mães adiaram a comunicação da separação aos filhos, questionando se valeria a pena avançar com essa partilha numa altura em que é mais difícil concretizar todos os passos inerentes a um divórcio ou a uma separação. Afinal, o mais certo é que tenham de continuar a conviver na mesma casa durante mais algum tempo.
Mas a verdade é que o segredo é tremendamente tóxico e a minha experiência mostra-me que, apesar de todos os esforços, os filhos sabem quase sempre mais do que os adultos acham que eles sabem.
Às vezes tomam conhecimento da decisão a partir de conversas telefónicas entre um dos progenitores e outros familiares ou amigos, outras vezes ouvem conversas entre o pai e a mãe.

O confinamento veio obrigar as famílias a passar 24 horas por dia em casa, o que, para os casais em processo de separação, pode implicar muitos silêncios, inexistência de gestos de afeto, tristeza, ansiedade, tensão, irritabilidade e amargura. As crianças e os adolescentes são muito sensíveis à linguagem não verbal dos pais e são quase sempre muito perspicazes no que toca ao reconhecimento deste tipo de problemas. Quando os pais optam por continuar em silêncio, isso pode querer dizer que os filhos tenham de lidar com o assunto sem o colo dos adultos.

É por isso que, de uma maneira geral, é preferível que esta conversa aconteça tão cedo quanto possível – mesmo em tempos de confinamento. Assim, os filhos têm a oportunidade de colocar as suas dúvidas, têm oportunidade de pedir ajuda para organizar as suas emoções. Por outro lado, os adultos deixam de ter de fingir e passam a viver uma vida mais autêntica.

Um divórcio ou uma separação é invariavelmente uma perda gigantesca para todos os membros da família, mas, tal como acontece com outras perdas, é preciso dar espaço para que todas as emoções sejam exteriorizadas com verdade, permitindo que os laços se estreitem. Não há nada como a certeza de que há quem genuinamente se importe connosco, com o nosso sofrimento. Quando isso acontece, sentimo-nos invariavelmente mais ligados.

20.4.20

ENCONTRAR O AMOR NA INTERNET


Amor na Internet


É possível encontrar o amor através da Internet? Que diferenças existem entre os encontros online e os encontros na vida real? Que comportamentos devemos ter para evitar perder tempo e energia com quem possa estar apenas à procura de um engate?


A Internet veio facilitar – e muito – a vida dos adultos à procura de um relacionamento. Há uns anos, quando alguém se separava, tinha de lidar com a dificuldade em conhecer pessoas novas. A sensação que muitas pessoas recém-separadas tinham era de que teriam de fazer muitas escolhas que as obrigariam a sair muito da sua zona de conforto para encontrar um(a) novo(a) companheiro(a) romântico.




Quantas pessoas precisamos de conhecer até encontrar “a tal”?

Não é por acaso que ouvimos falar da “química” do amor. A maioria de nós não se apaixona com facilidade. Podemos sentir-nos atraídos por algumas pessoas, podemos considera-las interessantes de muitos pontos de vista e, ainda assim, podemos constatar que simplesmente não há faísca.



O professor John Gottman, provavelmente um dos mais reconhecidos investigadores na área da conjugalidade (ao ponto de a revista Psychology Today o apelidar de “Einstein do Amor”), contou a determinada altura como é que conheceu a sua mulher, a professora Julie Gottman, com quem está casado há mais de trinta anos. Apesar de o seu trabalho estar centrado na investigação sobre os motivos por que algumas relações resultam e outras falham, John Gottman tinha ultrapassado a barreira dos 40 anos, estava divorciado há sete e colecionava relações mal-sucedidas. Antes de recomeçarem as aulas na universidade, aproveitando o tempo livre de que dispunha, decidiu conhecer o maior número de mulheres que conseguisse. Na altura (1986), não havia Internet e Gottman decidiu responder a todos os anúncios pessoais que encontrasse nos jornais. Em seis semanas, conheceu sessenta mulheres. Sessenta! Julie foi a 61ª. Primeiro, trocaram números de telefone e conversaram durante mais de quatro horas seguidas, sentindo uma empatia imediata. Depois, combinaram um encontro num bar. John Gottman chegou cedo e deu por si a observar as mulheres que entravam no bar interrogando-se «Será que esta é que é a Julie?». Algumas mulheres não (lhe) pareciam muito interessantes e Gottman dava por si a pensar «Espero que não seja esta». Quando Julie entrou no bar, Gottman gostou da sua aparência e pensou «Espero que seja esta». Conversaram, ela riu-se das suas piadas e, no segundo encontro, Gottman sabia que ela era “a tal”.


Nos dias de hoje o que não faltam são opções. Entre o Tinder, o Facebook e os mais variados sites de encontros, sabemos que é muito mais fácil conhecer muitas pessoas em pouco tempo através da Internet do que na vida real. Mas isso não significa que a tarefa seja fácil, sobretudo para quem busca mais do que relações ocasionais.

Um dos primeiros desafios que qualquer pessoa terá de enfrentar se estiver na disposição de procurar um novo amor na Internet tem precisamente a ver com este paradoxo da escolha: O facto de haver tanta oferta tende a baralhar-nos. É como se o facto de sabermos que há milhares de pessoas “disponíveis” nos tornasse menos tolerantes a pequenas falhas e menos pacientes para conhecer melhor cada pessoa com quem nos cruzemos.

As relações que começam online tendem a ser mais curtas porque, de uma maneira geral, as expectativas dos utilizadores são maiores.


O facto de haver aparentemente tanta oferta faz com que também seja mais fácil afastar potenciais companheiros românticos - mesmo que os consideremos interessantes - na esperança de que seja possível encontrar alguém (ainda) melhor.

Qual é o perfil de quem procura o amor na Internet?


Na verdade, há muitos perfis. Na Internet, tal como na vida real, a percentagem de pessoas que procuram relações sem grandes compromissos é maior. Já falei sobre isso AQUI a propósito dos estilos de vinculação amorosa. As pessoas com um estilo de vinculação evitante sentem-se pouco confortáveis com níveis elevados de intimidade emocional e, por isso, têm relações mais curtas, voltam muito mais vezes ao “mercado” dos solteiros e fazem-no de forma mais ativa. É por isso que algumas pessoas se queixam porque aparentemente estão sempre a relacionar-se com as pessoas “erradas”.

Saiba qual é o seu estilo de vinculação – e a pessoa certa para si – AQUI.

A Internet é um mundo “à parte” porque, como é fácil de perceber, permite que haja uma série de passos que sejam dados sob anonimato ou com dados falsos que, cá fora, seriam mais rapidamente detetados. Online há um risco maior de começarmos a conversar com alguém cujas intenções pareçam uma coisa e sejam, na realidade outra.

Mas nem tudo é mau! Aquilo que várias pesquisas demonstram é que quem está na Internet à procura do amor são normalmente pessoas que investem muita energia e às vezes até dinheiro nesta busca. Sim, há quem pague para ter acesso a conteúdos exclusivos ou para que um “especialista” encontre a “alma gémea”. Isto também pode mostrar alguma motivação extra para construir uma relação, por oposição àquela ideia feita de que na Internet só se encontra pessoas à procura de engates.

As pessoas mais velhas também recorrem à Internet?


Sim, mas tendem a ser mais seletivas - em particular as mulheres. Depois de uma certa idade, e, sobretudo, depois de uma ou mais relações significativas de longa duração, tendemos a definir de forma mais precisa aquilo que queremos e aquilo que não queremos para nós. Tem havido um crescimento no número de pessoas com 50 e 60 anos que utilizam a Internet para encontrar um novo amor, mas estas pessoas são normalmente mais exigentes.

Quando é uma pessoa está pronta para procurar o amor na Internet?


Há muitas pessoas que criam um perfil em sites e aplicações de encontros pouco tempo depois da separação, sentindo uma mistura de excitação e insegurança. Por um lado, sentem-se genuinamente maravilhadas com as possibilidades que a Internet oferece (e que na muitas vezes não existiam quando começaram a relação anterior), mas, por outro, sentem-se assustadas com este admirável mundo novo.

É muito importante que cada pessoa avalie se se sente realmente pronta para enfrentar os desafios dos encontros digitais. O luto da relação anterior está feito? Como está a sua autoestima? Está preparado(a) para correr riscos e lidar com a rejeição?

Algumas pessoas iniciam esta procura e interrompem-na pouco tempo depois precisamente por perceberem que ainda se sentem demasiado ligadas à anterior relação ou que simplesmente não adquiriram o estofo e a estabilidade que lhes permita saborear esta aventura sem correr o risco de ver a própria autoestima destruída.

Encontrar o amor online: o que é que procura?


É uma pessoa “com um feitio complicado”? Ou a maior parte das pessoas à sua volta tendem a rotulá-lo(a) de “pragmático(a)”? Gosta muito de viajar e dá-se mal com a monotonia? Ou é uma pessoa de gostos simples e qua não lida bem com demasiada aventura? Aquilo que a ciência nos mostra é que tendemos a sentir-nos mais felizes com pessoas com quem sintamos que haja afinidade. Não, isso não quer dizer que tenhamos de encontrar alguém com os mesmos hobbies.

Antes de partir para a análise de qualquer perfil online, pare um pouco para refletir sobre si. Elabore uma “lista de valores” e organize-nos de acordo com a importância. Gaste algum tempo a refletir sobre este assunto tão sério. O que é que é realmente importante para si? Que características é que um(a) parceiro(a) romântico tem mesmo de ter? Depois, reflita sobre a sua própria experiência. A que sinais é que acha que pode estar atento(a)? Que perguntas vai precisar de colocar para perceber se a outra pessoa partilha os mesmos valores?

O que é que devo incluir no perfil? A importância da autenticidade.


Se há algo que a ciência nos oferece é a certeza de que somos muito mais felizes na medida em que tenhamos uma vida autêntica. Online as coisas não são diferentes. Você não controla a honestidade de quem está do outro lado, mas há muitas escolhas que pode fazer com o objetivo de se aproximar das pessoas certas.

No que toca à vontade de encontrar o amor, o medo pode complicar o processo. Quando uma pessoa se sente ansiosa perante a possibilidade de se sentir rejeitada, pode ser tentador mascarar a própria realidade. Por exemplo, algumas pessoas omitem, propositadamente, o facto de terem filhos com medo de serem automaticamente excluídas pela maioria dos potenciais parceiros. Mas será que vale a pena? A minha experiência mostra-me que não.

A procura do amor não é um concurso de popularidade e a sua autoestima não pode estar dependente do número de pessoas que gostam do seu perfil.

É preferível ser claro(a) e honesto(a) em relação a quem é e àquilo que quer para si. Isso aproximá-lo(a)-á das pessoas certas e permitir-lhe-á investir apenas nas pessoas que estejam dispostas a aceitá-lo(a) exatamente como é. Mesmo assim, é possível que do outro lado haja quem não seja totalmente sincero e possa tentar iludi-lo(a).

Lembre-se de que não há qualquer vantagem em criar uma personagem. Foque-se na minoria que lhe interessa.

Seja honesto(a) também nas fotografias. Não vale a pena publicar uma foto de há 10 ou 15 anos. A desilusão será maior.

Quando é que se deve marcar um encontro presencial?


Cada pessoa sabe de si, naturalmente, mas, de uma maneira geral, é desejável que ninguém gaste muito tempo a investir numa relação cuja comunicação seja apenas digital. A nossa comunicação é, sobretudo, não-verbal. Revelamo-nos muito mais cara a cara do que através de qualquer texto.

Lembre-se de que é mais fácil avaliar se outra pessoa é ou não compatível consigo em 10 minutos de conversa cara a cara do que em várias horas de análise ao perfil digital.


Quando partir para esta etapa, lembre-se de garantir a sua segurança:

·         Combine o primeiro encontro num lugar público;
·         Partilhe a sua localização com um familiar ou um(a) amigo(a);
·         Evite partilhar informações que possam ser utilizadas de forma abusiva.
·        Defina bem os seus limites. Seja claro(a) em relação a qualquer comportamento que considere inapropriado.
Ainda em relação a este primeiro encontro, é importante que procure criar condições para que ninguém se sinta (muito) pressionado:
·         Combine uma ATIVIDADE. Fazer qualquer que permita que ambos se mantenham entretidos, ainda que haja espaço para a conversa, é meio caminho para aliviar a pressão.
·         Não leve tudo demasiado a sério. Sim, você está à procura de uma relação amorosa, mas não encare um primeiro encontro como entrevista de emprego. Procure, sobretudo, avaliar se gostaria de voltar a encontrar-se com esta pessoa uma segunda vez (e não tente perceber logo se ele(a) é a pessoa certa para passar o resto da vida ao seu lado).
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