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31.3.20

CONSULTAS DE PSICOLOGIA E TERAPIA DE CASAL ONLINE


Consultas de Psicologia e terapia de casal online

Em tempos de Covid-19 e isolamento, a terapia online é a única forma de receber ajuda especializada no que toca à saúde psicológica. Será que funciona? Como é que se processa? É para todos? Como é que sabemos que podemos confiar?


Há muitos anos que dou consultas através da Internet. Até há poucas semanas, essa era a exceção na minha prática clínica e estava reservada sobretudo para os portugueses que vivem fora do país e para algumas pessoas que, apesar de viverem em Portugal, têm dificuldade em encontrar um psicólogo/ terapeuta conjugal perto da área de residência ou que simplesmente vivem num meio demasiado pequeno, onde todos se conhecem.

Apesar de preferir as consultas presenciais, habituei-me desde cedo a este formato e percebi que a minha ajuda poderia ser muito significativa para quem, por questões logísticas, pudesse sentir-se ainda mais vulnerável. Tenho acompanhado portugueses em países tão longínquos quanto a Arábia Saudita, Angola, Canadá ou os Estados Unidos e muitos espalhados pela Europa. Em comum têm a vontade de receber ajuda na língua em que se expressam melhor. No caso dos portugueses a viver em meios pequenos, é fácil perceber a diferença que poderia fazer consultar um psicólogo local. Não é uma questão de a confidencialidade das consultas estar em causa. Tem a ver com a exposição de entrar numa clínica e só por isso ser motivo de conversas e rumores. Isso é ainda mais difícil quando falamos de terapia conjugal.

Com a chegada do Covid-19 a Portugal, comecei por reconhecer que o contacto presencial com as pessoas que acompanho nos poderia colocar a todos numa situação vulnerável e passei a realizar as consultas através de videoconferência. Dias depois, a Ordem dos Psicólogos emitiu um comunicado em que dizia que todos os profissionais da área deveriam passar a fazer o seu trabalho neste formato. Entretanto, tornou-se óbvio que esta seria mesmo a única forma de nos protegermos.

Para quem nunca fez consultas online, a ideia pode gerar confusão. Afinal, como é que se processa uma consulta de Psicologia clínica ou de Terapia de Casal online? De que forma se pode garantir a confidencialidade e a segurança das consultas? Será que as consultas neste formato funcionam tão bem como as consultas presenciais?

A Terapia online funciona?


Sim. As consultas de Psicologia e terapia familiar são tão eficazes quanto as consultas presenciais. Não é uma questão de opinião. Há diversos estudos que nos mostram essa eficácia.


  •  Há investigações que mostram que a terapia cognitivo-comportamental, que permite estimular a consciência sobre padrões de pensamentos negativos ajudando os pacientes a responder a situações desafiantes, é tão eficaz por videoconferência quanto pela via presencial.
  •   Um estudo mostrou que os adolescentes que realizaram consultas por telefone para a perturbação obsessivo-compulsiva obtiveram tanto sucesso no tratamento quanto os colegas que foram acompanhados presencialmente.
  •   Uma investigação mostrou que os veteranos que sofrem de perturbação pós stress traumático respondem tão bem à terapia por videoconferência quanto ao tratamento recebido no consultório.

No caso da terapia de casal, há claramente uma vantagem nas consultas online: a gestão do tempo. A maior parte dos casais que acompanho são pessoas ocupadas, com dificuldade em conciliar agendas e assegurar que alguém tome conta das crianças durante duas ou três horas. A consulta dura cerca de uma hora e meia, mas, se juntarmos as deslocações, nem sempre é fácil encontrar tempo para que a sessão seja realizada. Quando as consultas são realizadas por videoconferência, contornam-se mais obstáculos e a probabilidade de o casal conseguir comprometer-se de forma consistente com a terapia é muito maior.

Mas há outra vantagem ainda mais significativa: a diminuição do stress. Não há volta a dar: por mais simpático(a) que o(a) terapeuta seja, há quase sempre mais ansiedade quando temos de nos deslocar a uma clínica.

A nossa casa é o nosso porto seguro e pode funcionar como facilitadora do relaxamento e, consequentemente, da capacidade para expormos as nossas emoções de forma mais segura.


Posso confiar no profissional que

está do outro lado do ecrã?


Nos dias de hoje, não faz sentido fazer escolhas clínicas arriscadas. Se não se sente seguro(a) de que o(a) psicólogo(a) que está a pensar contactar seja o(a) mais indicado(a) para si, há alguns passos que pode/deve dar:


  •   A Ordem dos Psicólogos dispõe de uma lista de todos os profissionais registados e autorizados a exercer em Portugal. Certifique-se de que é acompanhado(a) por um(a) psicólogo(a) inscrito na Ordem.
  •  Converse com o seu médico de família e peça uma recomendação. Os médicos de família estão habituados a fazer o encaminhamento para consultas de especialidade e poderão ajudar a encontrar a melhor alternativa.
  •    Se se sentir confortável, peça uma referência a um(a) amigo(a) ou a um familiar. Não há nada como a certeza de que alguém já foi bem-sucedido no acompanhamento psicológico com determinado(a) profissional.
  •   Faça perguntas. Antes de marcar uma consulta, faça uma lista com todas as suas dúvidas. Telefone ou envie um e-mail para o(a) psicólogo(a) que está a pensar consultar. Estas respostas ajudá-lo(a)-ão a fazer a sua escolha. Se não obtiver resposta, isso também o(a) ajudará a fazer a sua escolha 😊.

Com o que é posso contar na terapia online?


As consultas por videoconferência funcionam de forma idêntica às consultas presenciais. Do outro lado do ecrã está um(a) psicólogo(a) isolado(a) no(a) seu gabinete e capaz de assegurar a confidencialidade da consulta. Tal como acontece nas consultas presenciais, a empatia e a ligação são elementos fundamentais para o sucesso da terapia. Se não se sentir confortável com algum aspeto da consulta, procure expor a sua perspetiva.

Na primeira consulta, o(a) psicólogo(a) informa e explica de forma clara como é feita a recolha e registo dos dados clínicos e, no final, partilha uma declaração de consentimento informado que deve ser assinada/ validada pelo(a)(s) paciente(s).



De uma maneira geral, é nesta altura que se elabora
o “contrato terapêutico”, isto é: há um acordo em
relação aos objetivos terapêuticos, periodicidade e
duração das consultas, propostas de exercícios
e formas de pagamento.



Tal como acontece nas consultas presenciais, é legítimo que queiramos obter mudanças rápidas e que nos sintamos desmotivados se elas demorarem a surgir. A minha experiência mostra-me que na maioria das situações há um alívio e um otimismo que resultam logo das primeiras consultas, mas as mudanças mais sólidas envolvem tempo e compromisso.

O início de um processo terapêutico – individual ou familiar – envolve quase sempre muito desgaste e vulnerabilidade. Marcar a primeira consulta é um primeiro grande passo. É uma forma de mostrar a si mesmo(a) que quer cuidar de si, da sua relação ou da sua família. Pode não ser sempre fácil e algumas consultas até podem ser “duras” por tocarem em feridas profundas, mas aquilo que é expectável é que um(a) psicólogo(a) treinado(a) o(a) ajude a aproximar-se gradualmente dos seus objetivos e a sentir-se mais seguro(a), mais feliz e mais capaz.

26.3.20

COMO MANTER UM CASAMENTO SAUDÁVEL EM TEMPOS DE ISOLAMENTO E COVID-19


Casamento saudável em tempos de isolamento e covid-19

Assim que surgiram as primeiras notícias sobre a necessidade de ficarmos de quarentena, apareceram muitas piadas sobre o que aconteceria aos casamentos. Alguns vaticinaram um baby boom, enquanto outros profetizaram um aumento exponencial do número de divórcios. Que impacto pode ter o isolamento social nas relações amorosas?


Há muitos anos que os psicólogos e os advogados sabem que os períodos pós-férias são sinónimo de aumento do número de separações. O Natal e as férias de verão são duas alturas do ano em que as famílias acabam por passar mais tempo juntas e, para muitas, isso é sinónimo de muita tensão e algumas revelações. Por exemplo, há muitas relações extraconjugais que são descobertas nestes períodos – os casais estão mais tempo juntos, prestam mais atenção a alguns detalhes. Mas não é só: no dia-a-dia, acabamos por estar muito ocupados com todos os compromissos sociais, profissionais e familiares. Quando paramos, as expectativas são altas e a realidade nem sempre corresponde ao que idealizámos. Nalguns casos, essas paragens dão lugar à constatação de que os sentimentos românticos desapareceram. Noutros casos, os sentimentos estão lá, mas há muita tensão e é preciso pedir ajuda.

O que acontecerá às relações amorosas no período de quarentena?


As respostas concretas a esta pergunta só poderão ser dadas com exatidão daqui a alguns meses, mas é possível antecipar alguns cenários e fazer escolhas mais conscientes.

Sabemos que qualquer evento stressante tanto pode unir como pode separar um casal. Pelo meu consultório passam muitos casais que se referem a acontecimentos difíceis que foram autênticas fontes de conexão emocional. Quando duas pessoas se unem contra uma ameaça comum, o sentimento de pertença aumenta. Infelizmente, isto nem sempre acontece e, nalguns casos, a desunião está relacionada precisamente com a forma como cada um encara a ameaça.

Por exemplo, nos dias de hoje algumas pessoas tenderão a sentir-se mais seguras e otimistas se dosearem o acesso às notícias, enquanto outras preferirão manter-se atualizadas “ao minuto”. É muito fácil haver muita tensão entre os membros do casal na medida em que um considere que o outro está a exagerar ou a desvalorizar o problema e, sobretudo, se esses juízos de valor forem manifestados sob a forma de críticas duras.

Nos últimos dias tenho ouvido alguns casais que me descreveram discussões acesas a propósito da forma como cada um tem lidado com as saídas de casa. Para algumas pessoas, as preocupações profissionais – que vão desde o medo de perder o emprego até à vontade de ajudar os membros da equipa – impedem que o trabalho seja feito a partir de casa. Se do outro lado estiver alguém muito ansioso, isso é meio caminho para que haja uma discussão acesa, recheada de acusações.

A Pandemia tem efeito na líbido?


Todos nós já vimos alguns memes sobre um possível baby boom depois da quarentena, mas a verdade é que uma das consequências desta pandemia é a subida dos níveis de ansiedade e isso pode fazer diminuir o desejo sexual. Por outro lado, há pessoas que me dizem que não se sentem particularmente stressadas, mas que simplesmente não têm muita vontade de ter sexo. Essa falta de vontade é muitas vezes sentida como uma forma de rejeição. Se a comunicação não for clara, é fácil haver um distanciamento cada vez maior.

Um dado curioso relacionado com aquilo que temos vivido nas últimas semanas pode ajudar-nos a perceber de que forma é que a nossa sexualidade está a ser impactada pelo isolamento provocado pelo covid-19: no mês de março houve um aumento significativo no acesso a sites de pornografia. Se pensarmos que estes sites são maioritariamente visitados por homens, é fácil calcular que possa começar a haver o tal distanciamento.

Tal como tenho explicado noutros textos, o desejo sexual não depende apenas de quão atraente é a pessoa que amamos.

O desejo que sentimos também está associado ao nosso próprio bem-estar, à estabilidade emocional, à perseguição dos nossos sonhos e à sensação de termos poder sobre a nossa própria vida.


Por outro lado, para a esmagadora maioria das pessoas, o desejo é maior na medida em que haja alguma dose de mistério, novidade e sedução. É como se nos sentíssemos mais atraídos por alguém na medida em que tenhamos a consciência de que aquela pessoa não é verdadeiramente nossa nem está sempre disponível. Ora, essa “distância de segurança” é mais difícil de existir quando ambos estão dentro de casa 24 horas por dia.

Como é que se mantém um casamento no meio de tanta incerteza?


Se olharmos para a história recente, vamos dar-nos conta de que as catástrofes – naturais ou não – não são sempre um trampolim para o divórcio. Pelo contrário, há casais que não só sobreviveram a grandes crises, como conseguiram que a sua relação saísse ainda mais fortalecida. Que competências têm esses casais? Que escolhas fizeram?

Empatia, altruísmo, compaixão


A ciência tem-nos mostrado que os casais mais felizes são genuinamente altruístas. Isso implica que cada um preste atenção aos sentimentos do outro, valorizando-os na medida certa. Não implica que estejam sistematicamente de acordo. Por exemplo, no caso que descrevi antes, o que é importante não é que os membros do casal estejam de acordo em relação ao teletrabalho ou ao trabalho fora de casa. Na verdade, todos os casais vão divergir sobre assuntos importantes – dentro ou fora da quarentena. Aquilo que importa é que cada um seja capaz de falar abertamente sobre aquilo que SENTE a propósito de qualquer assunto e que o outro responda com atenção e afeto. Quando uma pessoa diz «Vê-se mesmo que só pensas em ti» ou «O trabalho é mais importante do que eu», até pode achar que está a mostrar os seus sentimentos, mas NÃO está. Está a permitir que a aflição tome conta de si e assuma a forma de acusações que invariavelmente serão sentidas como injustas. Pelo contrário, se uma pessoa disser «Quando tu escolhes ir trabalhar, eu sinto-me inseguro(a)/ assustado(a)/ muito preocupado(a). Podemos falar sobre isto?», abre espaço para que o(a) companheiro(a) possa responder de forma compassiva e mostre os seus próprios sentimentos.

Aquilo que nos une é a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado se preocupa genuinamente connosco, se importa com aquilo que nós sentimos (mesmo que faça uma escolha diferente da que desejamos).


O mesmo é válido para a comunicação a propósito do sexo e do desejo sexual. Se escolhermos falar abertamente sobre aquilo que sentimos, é mais provável que evitemos a escalada de críticas e agressividade.

Dizer «Quando tu dizes que não tens vontade eu sinto-me rejeitado(a)», é muito diferente de dizer «É sempre a mesma coisa» ou, pior, «Não acho normal».

A importância do toque durante a quarentena


Independentemente de o desejo sexual sofrer alterações, há algo que está ao alcance de todos e que produz milagres na sensação de segurança e de conexão: os gestos de afeto. Quando os dois membros do casal têm mesmo de ficar fechados em casa durante muito tempo, há mais oportunidades para trocar gestos de afeto. Um abraço demorado ou um beijo mais prolongado não nos roubam tempo ao trabalho ou aos afazeres domésticos e trazem a certeza de sermos amados. É muito menos provável que alguém se sinta rejeitado ou abandonado se houver gestos de afeto com regularidade.

Em tempos de isolamento, os casais podem aproveitar todos os tempos “livres” para fazer coisas que, na azáfama normal dos dias passam para segundo plano: criar o ritual de verem séries de televisão agarradinhos, fazer uma pausa a meio do dia para tomar um café ou um chá, organizar, a dois, álbuns de fotografias ou simplesmente organizar a casa. Há um efeito calmante associado ao ato de “destralhar” e organizar armários e gavetas e isso também pode ser feito a dois. Pelo meio, é natural que surjam alguns momentos de tensão, mas se ambos se esforçarem e o toque estiver presente, é mais provável que rapidamente os ultrapassem, porventura com algumas gargalhadas pelo meio.

Gratidão: uma ferramenta poderosa


Há muito tempo que me refiro às práticas de gratidão como ferramentas terapêuticas poderosíssimas. Pararmos diariamente para prestar atenção (e escrever sobre) coisas positivas que nos rodeiam é ainda mais importante em tempos difíceis. É um grande desafio, sim. Não é fácil manter o otimismo ou a gratidão quando nos sentimos esmagados por notícias que nos dão conta de centenas de mortos por dia ou da escassez dos recursos dos diversos serviços de saúde. Também não proponho que nos alheemos da realidade e que finjamos que está tudo bem. Refiro-me, isso sim, à possibilidade de dosearmos o acesso à informação e darmos o nosso melhor para que os gestos de bondade e afeto sejam valorizados na medida certa e alimentem a nossa esperança.

Criar o ritual de aceder às informações uma ou duas vezes por dia – idealmente de manhã – pode não ser fácil, sobretudo porque sabemos que há constantemente novidades a sair. Mas dificilmente vamos sentir-nos melhor se formos bombardeados com informações tantas vezes contraditórias ou, pelo menos, difíceis de compreender.

A par deste doseamento, quando os membros do casal escolhem parar diariamente para escrever sobre as coisas mais positivas de cada dia, estão a trabalhar no sentido de controlar a ansiedade e manter o otimismo. Esta estratégia pode revelar-se crucial para manter a união conjugal. E a que podemos prestar atenção quando o mundo parece estar a desmoronar? Já todos ouvimos e vimos cenários comoventes de dezenas de vizinhos reunidos nas varandas a cantar ou relatos de pessoas que decidiram voluntariar-se para ajudar os vizinhos mais velhos ou mais vulneráveis, disponibilizando-se para ir à farmácia ou ao supermercado.

Se é verdade que a ansiedade é contagiosa, e isso é especialmente válido na relação de casal, também é importante lembrar que a bondade e a calma também podem ser contagiantes.


Quando paramos para escrever sobre os acontecimentos que contribuíram para melhorar o nosso dia, também é mais provável que nos lembremos de escrever coisas como «Sinto-me grato(a) pelo facto de o(a) meu(minha) companheiro(a) ter tido paciência para a minha explosão de hoje» ou «Sinto-me grato(a) pelos abraços que ele(a) me deu». Felizmente, a ciência tem-nos mostrado que este gesto tão simples de nos obrigarmos a escrever sobre aquilo por que nos sentimos gratos é imensamente terapêutico – ajuda a controlar a ansiedade, a desenvolver a empatia e a compaixão, a estreitar laços e a desenvolver a motivação para escolhas que promovam a nossa saúde.

Distanciamento não é desconexão


Começámos este período de isolamento cheios de energia e de vontade de nos mantermos ligados aos familiares e amigos através da tecnologia. Mais do que nunca, as videochamadas e aplicações como o Houseparty vieram trazer a possibilidade de gerirmos as saudades das pessoas que amamos. Mas, ao fim de quase duas semanas, começo a ouvir relatos de cansaço e de desmotivação. Algumas pessoas assumem que já não têm tanta paciência para as mensagens de Whatsapp ou que nem sempre têm vontade de participar numa videochamada de grupo. As reuniões à distância que, no princípio, deram origem a gargalhadas terapêuticas, deram lugar, nalguns casos, a alguma tristeza e cansaço. É natural. Estamos a viver algo absolutamente novo e estamos a adaptar-nos da melhor maneira que conseguimos. As novidades dos primeiros dias deixaram de ser novidade e precisamos de gerir as emoções e os pensamentos que vêm com este isolamento. Para alguns, é sobretudo a preocupação com o futuro profissional e financeiro, o medo de não haver dinheiro para fazer face às despesas essenciais. Para outros, são as saudades de todas as coisas que contribuem para o bem-estar – os abraços à família de origem, os almoços de domingo, as saídas com amigos, o exercício físico ao ar livre. Pelo meio, há sonhos que sabemos que podem ter de ser adiados, há projetos que não sabemos se irão para a frente e isso é desmotivante.

Temos o direito de sentir medo – por nós e pelas pessoas que amamos -, temos o direito de sentir tristeza, raiva ou confusão. E não há por que camuflar estas emoções ou fazermo-nos de mais fortes do que efetivamente somos. Pelo contrário, quando escolhemos mostrar-nos de forma autêntica – à pessoa que está ao nosso lado e aos familiares e amigos que estão do outro lado do ecrã, é mais provável que recebamos o amparo de que precisamos para nos reerguermos. Isto é especialmente impactante para a relação de casal. A vulnerabilidade é muitas vezes vista como fraqueza, mas a verdade é que quando nos vulnerabilizamos, quando mostramos aquilo que estamos a sentir, acabamos por conseguir gerir os nossos sentimentos de forma muito mais equilibrada. Reconhecer aquilo que estamos a sentir e assumir aquilo de que precisamos é um sinal de amor próprio, de respeito por nós mesmos.

Quando os membros do casal se expõem e se vulnerabilizam e quando escolhem responder com atenção e afeto a estes apelos, sentem-se invariavelmente mais unidos, mais seguros e mais otimistas.

Em tempos de isolamento, somos todos malabaristas


Quase todos os casais com filhos pequenos têm sido confrontados com o desafio de, de um momento para o outro, passarem a ter de ser pais, educadores de infância, professores, explicadores, empregados domésticos, profissionais em teletrabalho e, claro, parceiros românticos. Não é fácil manter a calma, o foco, a organização e a paciência quando há muito mais solicitações do que aquelas a que estávamos habituados ou quando simplesmente constatamos que, no final do dia, produzimos muito menos do que seria desejável.

O caminho mais fácil é permitirmos que as emoções tomem conta de nós e desatarmos a descarregar no adulto que está mais perto: o(a) nosso(a) companheiro(a). No meio do malabarismo que é gerir todos os papéis em simultâneo, há alturas em que ficamos com a sensação de que a pessoa que está ao nosso lado está a ser egoísta ou simplesmente não valoriza os nossos sentimentos e as nossas necessidades. Quando ele(a) não faz aquilo que pedimos, quando responde de forma mais acesa ou parece privilegiar a carreira em detrimento da ajuda familiar, é tentador fazer acusações.

Quando um dos membros do casal se fecha numa divisão da casa para reunir com o chefe por videoconferência e o outro não consegue impedir que a criança de cinco anos invada a reunião a gritar por causa do brinquedo desaparecido, pode parecer que houve negligência. Na prática, ambos estão sob muita pressão e praticamente não têm momentos de descompressão.

Uma das ferramentas que nos podem ajudar a manter o foco é a compaixão. Lembrarmo-nos de que este é, efetivamente, um período muito duro para todos é essencial para que olhemos para a pessoa que está ao nosso lado reconhecendo que também ela está apenas a dar o seu melhor.

Por outro lado, é fundamental que haja genuína camaradagem e que cada um possa ter tempo para fazer aquilo que o(a) ajude a descomprimir. Uma hora de exercício físico ou a jogar Playstation enquanto o outro “segura as pontas” pode ser revigorante.

Neste momento, há muita coisa para gerir e demasiada incerteza em relação ao futuro, mas há algo de que não nos podemos esquecer: esta pandemia vai passar. É fundamental que olhemos para o futuro e que façamos hoje as escolhas que nos permitam estarmos junto das pessoas que amamos quando tudo isto passar. Este período é um teste às relações, sim, e é fundamental que nos lembremos de cuidar de nós e das nossas relações hoje, colocando em prática os primeiros socorros psicológicos e pedindo ajuda se necessário.

13.3.20

IMPACTO PSICOLÓGICO DO COVID-19



A chegada em força do COVID-19 a Portugal impactou a maior parte dos portugueses. Da preocupação moderada com um vírus que veio de longe, passámos para a implementação de medidas que há algumas semanas pareciam impossíveis e há cada vez mais relatos de quem dorme mal e/ou vive com medo de ser infetado(a). Paralelamente, muitos portugueses já estão de quarentena e é preciso que reflitamos sobre o impacto provocado por este isolamento. Que escolhas podemos fazer para garantir a nossa estabilidade emocional em tempos de COVID-19?


Se há algumas semanas a maior parte das pessoas brincavam com o novo Coronavírus, numa mistura de despreocupação e descrença de que pudesse afetar-nos, de um dia para o outro – numa combinação do aumento exponencial de casos e do anúncio de pandemia -, muitos portugueses viram os seus níveis de ansiedade subirem de forma vertiginosa.

Que impacto tem o COVID-19 na nossa saúde mental?


A tomada de consciência da facilidade de propagação deste vírus e o reconhecimento da possibilidade de escassez de recursos (médicos, sobretudo) deixou muitos portugueses sem dormir nas últimas noites. Sim, o medo intenso passou a fazer parte da nossa vida. Mas isso está longe de significar que estejamos todos vulneráveis ao desenvolvimento de perturbações ansiosas ou depressivas. Pelo contrário, o medo também pode ser nosso aliado, pelo menos na medida em que nos impeça de correr riscos desnecessários e nos leve a tomar medidas que nos permitam enfrentar esta crise com a seriedade que ela exige.

Claro que há pessoas que, independentemente da chegada do COVID-19, já apresentavam sinais de instabilidade e/ou já tinham um quadro depressivo ou ansioso diagnosticado e para quem pode ser mais desafiante lidar com todos os pensamentos intrusivos que possam surgir. Nestes casos, e sempre que uma pessoa reconheça que os seus níveis de ansiedade o(a) impedem de realizar as suas atividades do dia-a-dia, é importante pedir (ou manter) ajuda especializada. Para quem já é acompanhado, é importante partilhar eventuais alterações com os profissionais que já conhece. Para quem nunca pediu este tipo de ajuda, é importante lembrar que muitas consultas podem ser realizadas por telefone ou por videoconferência. O importante é que todos saibamos que ninguém tem de gerir o medo sozinho.

O que é que podemos fazer para lidar com as emoções provocadas pelo COVID-19?


#1 - FALAR ABERTAMENTE SOBRE AS EMOÇÕES

Independentemente do desenvolvimento de qualquer psicopatologia, é expectável que nos sintamos mais tristes, mais irritados, mais confusos e mais ansiosos. Aceitar que estas emoções surjam é um passo importante para que as possamos gerir, em vez de sermos engolidos por elas. De resto, quando falamos abertamente sobre os nossos medos, damos origem a uma organização mental que nos ajuda a serenar. Pelo contrário, quando fingimos ser mais fortes do que realmente somos, quando tememos ser vistos como inferiores, acabamos por sucumbir mais rapidamente aos elevados níveis de ansiedade.

#2 – ACEDER A INFORMAÇÃO FIDEDIGNA

Vivemos na Era da informação e temos o privilégio de poder aceder a informação rigorosa, baseada no conhecimento científico. Infelizmente, também somos bombardeados com demasiadas fake news, que, neste caso, nos confundem e contribuem para a elevação dos níveis de ansiedade. Por exemplo, há dois dias, circulou a informação de que teria ocorrido a primeira morte por COVID-19 em Portugal. O boato foi propagado pelas redes sociais e por alguns meios de comunicação social. É importante que nos lembremos de que as redes sociais SOMOS NÓS. Se não temos a certeza de que uma notícia é verdadeira, devemos escolher não a divulgar – nem sequer por SMS ou Whatsapp. Mas há mais: também podemos limitar a nossa exposição às redes sociais que, neste momento, estão recheadas de informação falsa. Entre notícias não confirmadas por fontes oficiais, aos vendedores de soluções milagrosas, há muita coisa que pode contribuir para que nos sintamos (ainda) mais agitados e inseguros.

Mas mesmo em relação às notícias divulgadas pela Direção Geral de Saúde e/ou por jornais de referência, é importante que sejamos capazes de dosear o acesso à informação. É tentador passar a maior parte do tempo a atualizar páginas de Internet que nos oferecem informação “ao minuto”, mas, se observarmos com atenção, verificamos que este comportamento não só não acrescenta qualquer segurança real, como pode contribuir para que nos sintamos mais ansiosos.

Sim, é importante que nos mantenhamos informados, mas é igualmente importante que nos distraiamos do assunto várias vezes por dia.


#3 – RESPEITAR AS DIRETRIZES PARTILHADAS PELAS AUTORIDADES

É difícil confiar em alguém de fora quando o problema se assemelha a um daqueles monstros que só aparecem nos filmes de ficção científica e que anunciam crises apocalípticas. Todos nos comovemos e assustámos com a situação vivida em Itália, mas isso não é motivo para que deixemos de confiar nas nossas autoridades. 

Se experimentarmos olhar para os exemplos em que o problema tem sido controlado – como Macau ou a própria China, que apresenta uma clara desaceleração da propagação do vírus -, constatamos que o cumprimento das normas e a confiança nas diretrizes partilhadas pelas autoridades foi essencial.

Se nos mantivermos atentos e escolhermos cooperar, fazendo a nossa parte, não só nos sentiremos mais seguros de que estamos a fazer alguma coisa para lidar com o problema, como observaremos mudanças positivas reais à nossa volta.

#4 – RECONHECER QUE ESTA CRISE VAI PASSAR

Estamos a lidar com uma realidade que é nova para todos, mas que vai passar. É verdade que, independentemente do tempo que leve até que surja uma vacina ou um medicamento capaz de curar a doença provocada por este vírus, vamos continuar a receber notícias de mais pessoas infetadas. Mas podemos e devemos olhar para o que está a acontecer na China, o país onde tudo começou, e constatar que, apesar de também lá continuar a haver casos novos de infeção, o problema está claramente contido.

Podemos e devemos procurar viver um dia de cada vez, reconhecendo que é difícil viver na incerteza, mas lembrando-nos de que tudo isto vai efetivamente passar.

#5 – CUMPRIR A QUARENTENA, SE HOUVER ALGUMA SUSPEITA E/OU FOR IMPOSTA

No momento em que escrevo este texto, a maior parte dos portugueses não estão de quarentena, mas há alguns milhares de pessoas nessa situação. É compreensível que algumas pessoas se sintam mais agitadas e inseguras com esta medida. Por um lado, é sempre difícil lidar com a incerteza associada a uma situação de saúde. Por outro lado, há consequências sociais, familiares, profissionais e financeiras associadas a este isolamento. Nesse sentido, algumas pessoas têm optado por desrespeitar a quarentena, mantendo-se em contacto com outras pessoas e até frequentando lugares públicos. Algumas buscarão o conforto e a distração que só o contacto social oferece. Outras simplesmente desvalorizam o problema.

É fundamental que nos lembremos de que, independentemente da forma como a doença nos possa afetar, o simples facto de sermos portadores do vírus – mesmo que sem sintomas – nos coloca na posição de potenciais contaminadores. E, se contaminarmos outras pessoas, sejam elas quem forem, aumentamos (e muito!) a probabilidade de haver pessoas mais vulneráveis e de quem gostamos que possam ser afetadas. Um jovem de 20 anos a quem seja imposta a quarentena pode escolher ir ao café, ao centro comercial ou à praia e jurar a pés juntos que se preocupa com a avó que tem 80 anos, mas que sabe que está sossegada em casa. Ou com a prima, que tem cancro, e que tem levado uma vida ainda mais resguardada. Mas esquece-se de que as pessoas com quem se cruza nos locais públicos são cidadãos como nós, que trabalham e que circulam por todo o tipo de meios. Elas também vão ao supermercado e à farmácia. Compram pão, abastecem o carro e cuidam de outras pessoas. As cadeias de transmissão são infindáveis e o problema pode chegar rapidamente à avó ou à prima.

Desrespeitar a quarentena pode ser um sinal de medo exacerbado, desinformação ou negligência. Mas é, acima de tudo, uma falha de caráter que pode colocar-nos a todos numa posição muito difícil.

Quem escolhe cumprir à risca aquilo que é proposto pelas autoridades está a cuidar de si e dos outros. Está, por exemplo, a garantir uma probabilidade muito mais elevada de receber os cuidados mais apropriados em caso de doença. É que se todos ficarmos doentes ao mesmo tempo, a probabilidade de não haver recursos para todos é enorme. Mas se cada um fizer a sua parte, mais rapidamente sairemos desta crise (com vida).


É evidentemente difícil lidar com o facto de não sabermos quando é que esta crise acabará. Há muitos planos que simplesmente deixamos de poder fazer, há muitas decisões que não podem ser tomadas. Há férias marcadas que não sabemos se se vão realizar. Há férias por marcar. Há casamentos e batizados que não sabemos se vão acontecer. Há pessoas de quem gostamos que não saberemos quando poderemos visitar. Há escolas que fecham e pais e mães que não sabem como vão responder à possibilidade de terem as crianças em casa. Há muitas pessoas que não sabem se vão conseguir manter o emprego.

Algumas situações são mais aflitivas do que outras e a sugestão de viver um dia de cada vez não implica a desvalorização de problemas sérios. Implica, isso sim, a hierarquização das dificuldades e das necessidades. Não há saúde mental se não houver vida. Mais do que querermos resolver todos os problemas ao mesmo tempo, é importante que enfrentemos uma questão de cada vez. E em primeiro lugar tem de vir a nossa sobrevivência física. Cumprirmos as diretrizes das autoridades de saúde – mesmo que isso implique que percamos muito dinheiro ou o emprego – é a única forma de cuidarmos da nossa vida. Se o fizermos com rigor, mais rapidamente nos livraremos desta epidemia e poderemos enfrentar todas as outras dificuldades.

#7 – MANTER AS ROTINAS (POSSÍVEIS)

Mesmo que tenhamos de trabalhar a partir de casa ou, no limite, o país tenha de estar todo em quarentena, há escolhas que podemos fazer para manter algumas rotinas e, assim, promovermos a nossa saúde mental. Fazermos a nossa higiene, vestirmo-nos como habitualmente (em vez de ficarmos de pijama), cumprir o horário das refeições e deitarmo-nos à hora de sempre são escolhas que nos ajudam a manter a sensação de normalidade – e a oferecer também essa sensação aos nossos filhos.

#8 – PUXAR PELA CRIATIVIDADE E MANTER A ATIVIDADE

Se tivermos de passar muito tempo em casa, e sobretudo se esse tempo estiver associado à suspeição de infeção, é legítimo que nos sintamos mais instáveis. Mas compete-nos fazer aquilo que estiver ao nosso alcance para ocupar a mente e colocar o corpo em movimento. Há muita coisa para fazer dentro de casa. Arrumar gavetas e armários pode ser mais do que uma necessidade – pode ser terapêutico para a cabeça. Descarregar exercícios da Internet que as crianças possam fazer em horas específicas do dia ajudá-lo(a)-á a manter-se ocupado(a) e útil. Concretizar atividades de bricolage pode não ser a sua praia, mas pode revelar-se profundamente calmante. Puxe pela sua criatividade e permita que a resiliência substitua a apatia.

Por outro lado, contrarie qualquer vontade de se enrolar sobre si mesmo(a) no sofá ou na cama durante o tempo que tiver de ficar em casa. Mexa-se – pela sua saúde física e mental. Se não pode ir ao ginásio, mas for viável ir até ao jardim (e não estiver de quarentena), exercite-se lá fora. Se tiver mesmo de estar em casa, descarregue alguns exercícios da Internet. Faça Yoga, Dança ou Fitness. Aproveite para experimentar aquelas aulas para iniciantes que estão disponíveis em plataformas como o Youtube.

#9 – MANTER O CONTACTO COM A FAMÍLIA E COM OS AMIGOS

Pode parecer um contrassenso, mas é precisamente nos momentos em que somos forçados a alguma forma de isolamento que é essencial que façamos aquilo que estiver ao nosso alcance para socializar. Se tiver de ficar em quarentena, utilize o seu telemóvel para fazer aquilo que ele faz melhor: coloca-lo(a) em contacto com as pessoas de quem gosta. Faça videochamadas, desabafe, fale sobre outros assuntos, ria, descontraia.

Lembre-se também de fazer a sua parte em relação às pessoas que estiverem numa situação de isolamento forçado. Se um familiar ou um amigo estiver de quarentena, é provável que, além de tudo o resto, se sinta triste, vulnerável e discriminado(a). Há uma sensação de vergonha associada ao facto de ser posto(a) de lado, mesmo que por circunstâncias como esta. Procure telefonar a esta pessoa, animando-a e incentivando-a a manter alguma normalidade.

Faça o mesmo com os idosos que, nesta fase, estão ainda mais isolados.

Escolher telefonar diariamente a alguém que sabe que pode estar assustado(a) por fazer parte de um grupo de risco e que, por isso mesmo, não pode/ não deve receber a visita das pessoas de quem gosta, pode fazer toda a diferença.


Fazermos algo pelos outros também nos ajuda a lidar com o stress.

#10 – AJUDAR AS CRIANÇAS

A ansiedade dos adultos não só condiciona a estabilidade emocional dos filhos, como é condicionada pelo medo de não conseguir oferecer todas as respostas de que as crianças precisam. Enquanto pais e mães podemos escolher ser claros e honestos com os nossos filhos, adaptando naturalmente a linguagem à idade de cada um. Não adianta mentir e dizer que este não é um problema sério. As crianças são mais sensíveis à linguagem não-verbal do que às palavras que saem da nossa boca. Apercebem-se da nossa tensão e sentir-se-ão mais seguras na medida em que o nosso discurso seja congruente com o estado emocional que lhes transmitimos. Por outro lado, é essencial que limitemos o acesso às notícias. Não há qualquer vantagem em expor as crianças às atualizações “ao minuto” ou à análise minuciosa dos números. Esses são assuntos difíceis de gerir pelos adultos, imagine-se para as crianças.

A alteração das rotinas pode condicionar o humor das crianças, tal como acontece com os adultos. O nosso stress e o stress dos nossos filhos diminui na medida em que aceitemos as suas emoções. Sim, as crianças podem fazer mais birras em consequência da ansiedade que sintam em relação a este assunto, mas também em função da alteração das rotinas. A função dos pais não é permitir tudo, mas a dinâmica familiar melhorará na medida em que os adultos aceitem que pode levar algum tempo até que as crianças se adaptem a esta nova realidade.

Manter uma postura otimista, centrada nas soluções, ajudará a devolver a confiança aos filhos. É importante reconhecer que é duro para todos estar longe dos amigos, dos colegas e dos lugares de diversão, sobretudo porque se trata de um período com duração indeterminada, mas o esforço de cada um pode revelar-se muito compensador.

3.3.20

UMA TRAIÇÃO PODE MELHORAR UM CASAMENTO?


Uma traição pode melhorar um casamento?


Um casamento pode ficar melhor do que era antes de uma infidelidade? Ou isso é só mais um mito propagado por quem quer legitimar as traições? Afinal, uma traição é uma crise por que ninguém quer passar, mas, ao mesmo tempo, ouvimos dizer de forma sistemática que todas as crises são oportunidades de crescimento.





Há tempos, numa consulta de terapia conjugal, o marido dizia «O cancro foi a melhor coisa que nos aconteceu enquanto casal», referindo-se à doença por que a mulher tinha passado e vencido. Naquele instante, reconheci o choque no olhar da mulher, ainda que, nas suas próprias palavras, a doença tenha servido como um ponto de viragem que aconteceu precisamente numa altura em que estavam prestes a separar-se. O turbilhão de emoções por que passaram obrigou-os a rever prioridades, a repensar uma série de escolhas e a olhar para o casamento de forma mais consciente. Ainda assim, foi uma experiência violenta, como o cancro é quase sempre.

Quase todos conhecemos pessoas que, tendo sobrevivido a uma doença grave, passaram a olhar para a vida de forma muito diferente, assumindo uma postura mais grata em relação a um bem que damos por garantido quando vivemos em piloto automático. Ainda assim, não há ninguém que deseje passar por uma experiência como esta e todas as pessoas que estão neste momento a lutar pela vida davam tudo para ter a normalidade de volta.


Traição: um terramoto emocional


Uma infidelidade é um terramoto que só quem já viveu compreende. Quase todos os dias ouvimos falar de histórias de traições e de casamentos que terminam e acabamos por supor que sabemos quase tudo sobre o assunto. Até assumimos, com profunda convicção, aquilo que faríamos (e o que não faríamos) se nos tocasse a nós.

Uma traição é quase sempre mais impactante do que alguém possa supor. É uma perda gigantesca que vai muito além da quebra de confiança.


Em primeiro lugar, há a tristeza e a ansiedade, que surgem com uma intensidade com que ninguém conta. Isto acontece precisamente porque, de uma maneira geral, quando nos ligamos a alguém romanticamente e construímos uma relação duradoura, o nosso bem-estar passa a estar absolutamente correlacionado com o bem-estar da outra pessoa. É um bocadinho como se uma parte do nosso coração passasse a bater fora do nosso corpo. Por exemplo, há diversos estudos que mostram que uma ligação amorosa se estende até a um nível biológico. Isto é, a nossa saúde física, o nosso batimento cardíaco, a nossa imunidade e a probabilidade de sermos afetados por um conjunto de doenças são afetados pela qualidade do estado da relação.

Quando o tapete é puxado e uma pessoa descobre que a pessoa a quem está emocionalmente ligada a traiu, toda a vida parece desmoronar-se e todas as certezas se evaporam. É um pesadelo que ninguém deseja, que ninguém antecipa.

Uma infidelidade pode ser uma oportunidade de crescimento?


Mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas afetadas por uma traição são confrontadas com a necessidade de tomar decisões. É nesta altura que se dão conta de que falar é sempre mais fácil do que fazer e que, afinal, é absolutamente possível querer continuar uma relação depois de uma infidelidade, ainda que, na esmagadora maioria das vezes, não se saiba como o fazer.

Na maior parte das vezes, os casais que escolhem dar uma oportunidade ao casamento comprometem-se em colocar uma pedra sobre o assunto e começar do zero. Dão o seu melhor no sentido de tentarem trazer os elementos a que foram dedicando menos atenção de volta ao dia a dia, como as saídas a dois e os gestos românticos. Invariavelmente, dão-se conta de que, ainda que haja arrependimento genuíno e vontade de ambos de reconstruir a relação, a realidade é quase sempre mais dura e desafiante.

É nesta altura que costumam pedir ajuda da terapia de casal. Por um lado, sabem que o luto é um processo que não acontece com um estalar de dedos e sentem a necessidade de conversar com alguém de fora, que os ajude a identificar aquilo que cada um pode fazer para que essas emoções sejam suficientemente valorizadas, sem que isso roube a esperança num futuro mais risonho. Por outro, começam a dar-se conta de que há outras “pequenas traições” que foram colecionando ao longo do tempo e que, não justificando a infidelidade, precisam de ser reconhecidas, precisam de ser discutidas.

Traições para além da infidelidade


Se duas pessoas são muito agressivas uma com a outra, se se sentem sobretudo presas uma à outra, mas passam a vida a fazer críticas e acusações, como se se tratassem de borboletas cujas asas estão coladas à parede, será que podemos falar da inexistência de traição?

Não termos uma relação extraconjugal não é uma garantia de que sejamos bons maridos ou boas mulheres.


A infidelidade é normalmente hipercriticada. É um sinal claro de que alguém errou, desviando-se não só das escolhas moralmente mais acertadas, mas sobretudo do compromisso que assumiu. Mas quando iniciamos uma relação, não nos comprometemos apenas com a fidelidade, pois não? Comprometemo-nos a ser carinhosos, a estar “lá” para apoiar a pessoa que amamos, para a escutar todos os dias com atenção e a incentivá-la a lutar pelos seus sonhos, por aquilo que a faz feliz.

Muitas vezes, não só nada disto está presente numa relação, como há alguém que é continuamente desprezado, continuamente ignorado, continuamente criticado. E, se não houvesse traição, o círculo vicioso dificilmente se quebraria.

Esta é a verdade nua e crua: alguns casamentos melhoram muito depois de uma infidelidade. Isso não significa que a infidelidade seja a “receita” para melhorar um casamento. Nunca é. Mas, para alguns, é a oportunidade para virar a vida do avesso, repensar escolhas e ter um casamento genuinamente feliz.

17.2.20

COMO MANTER AMIGOS: INTELIGÊNCIA RELACIONAL


Como manter amigos


Como é que mantemos uma amizade? Que escolhas podemos fazer para nos mantermos próximos das pessoas de quem gostamos?


É mais do que sabido que somos mais felizes na medida em que construamos ligações estáveis, que nos façam sentir amados, amparados. A maior parte de nós deseja construir uma ligação romântica, uma família coesa, mas não só: queremos ter (bons) amigos ao nosso lado. Hoje parece tudo muito mais fácil graças ao Facebook, ao Whatsapp ou ao Instagram: é infinitamente mais provável que consigamos saber do paradeiro de ex-colegas de escola, sabemos aonde é que os nossos amigos passam as férias e os fins-de-semana (porque vemos as suas publicações) e recebemos vários pedidos de amizade de pessoas que nunca vimos na vida. Paradoxalmente, podem passar-se meses (ou anos!) sem que tenhamos qualquer conversa significativa com os nossos amigos. E às vezes acabamos por saber que um deles se divorciou, perdeu o emprego ou esteve doente muito tempo depois de algum destes acontecimentos ter ocorrido.

As redes sociais ajudam a manter amizades ou não?

As redes sociais são tão úteis como o telefone. Podem ajudar-nos a manter uma amizade, mas também podem desviar-nos do que é realmente importante.

De que adianta termos um telefone em casa e outro no bolso se nos esquecermos de ligar às pessoas de quem gostamos?


De que adianta termos cinco mil “amigos” no Facebook se vivermos com a sensação de que ninguém nos conhece verdadeiramente ou com a convicção de que não há ninguém com quem possamos realmente contar?

De certeza que qualquer um de nós já passou pela experiência de ver um grupo de amigos num jantar ou numa festa “agarrados” aos smartphones. Muitos estão a trocar mensagens superficiais com amigos que estão do outro lado do ecrã ao mesmo tempo que ignoram a oportunidade de ter as tais conversas significativas com quem está mesmo ali ao lado. Às vezes caímos no ridículo de tomar conhecimento de uma ocorrência importante através das redes sociais e acabamos por perguntar, espantados, à pessoa que temos ao nosso lado «Como é que eu só sei disto pelo Facebook?».

A verdade é que também nos desabituámos de investir o nosso tempo e a nossa paciência para ouvir os longos desabafos das pessoas de quem gostamos. É mais fácil aceder aos resumos que vamos encontrando nas redes, colocar um “gosto” ou até fazer um breve comentário. Mas nenhum de nós trocaria um abraço e o ombro de um amigo por um simples “Força” escrito no Facebook, certo?

Porque é que nos vamos afastando dos nossos amigos?


Quando deixamos que o piloto automático tome conta de nós e vivemos imersos nas responsabilidades familiares e profissionais, é mais provável que deixemos de ser os amigos de que os nossos amigos precisam. Por mais que digamos coisas como “Estou cá para o que der ou vier” ou “Liga-me quando precisares”, isso não significa que estejamos a fazer a nossa parte para que uma amizade se mantenha. Como do outro lado está alguém que, tal como nós, tem várias obrigações para gerir e pouco tempo para refletir sobre o que realmente importa, é fácil ir perdendo contacto (e ligação emocional).

Como é que se mantém uma amizade?

Construir amizades sólidas depende mais da nossa consistência do que de gestos grandiosos. Depende da nossa inteligência relacional.




O que é a inteligência relacional?


A inteligência relacional tem sido amplamente associada ao contexto profissional. Todos sabemos que a progressão na carreira é mais fácil na medida em que tenhamos uma boa rede de contactos. Conhecer as pessoas certas pode ser meio caminho para que nos confrontemos com boas oportunidades. Mas o que é que isto quer realmente dizer? Será que a inteligência relacional tem a ver com “dar graxa” a um conjunto de pessoas para que possamos colher benefícios? Claro que não!

Desenvolver a nossa inteligência relacional e tentar promover e manter boas relações com as pessoas com quem nos vamos cruzando – social ou profissionalmente – não tem nada a ver com qualquer tipo de bajulação. É sobretudo uma questão de reconhecermos que é sempre possível fazermos escolhas que melhorem a vida das pessoas à nossa volta e que isso deixa uma marca positiva, cria ligações emocionais.

Imagine que tem um casamento de um familiar num sábado de manhã. O seu horário de trabalho implica que faça turnos e você está escalado(a) para trabalhar na sexta à noite, mas o seu chefe toma a iniciativa de lhe dar folga para que possa descansar antes do evento que é importante para si. Como é que isso o(a) faz sentir? Que imagem é que esta pessoa lhe transmite? Depois disso, qual é a probabilidade de você tomar a iniciativa de ajudar o seu chefe num momento em que ele precise de si?

Voltemos às relações com os nossos amigos: tal como acontece com a nossa própria vida, há sempre coisas importantes a acontecer na vida dos nossos amigos. Há discussões, há aflições, há perdas, há chatices, há imprevistos e há ninharias que, com o tempo, não têm qualquer importância, mas que, quando acontecem, mexem connosco.

Como é que se sente se partilhar com um amigo um episódio qualquer com que se tenha aborrecido e, dias depois, ele lhe ligar “só” para saber “como estão as coisas”?


É reconfortante, não é? Quantas vezes se lembra de fazer o mesmo? Nos últimos tempos, quantas vezes voltou a contactar com um(a) amigo(a) só para saber se aquele aborrecimento de que ele/ela lhe falou já está resolvido ou simplesmente para saber se ele/ela está mais calmo(a) ou mais sereno(a)?

Lembre-se das pessoas sempre, não apenas quando precisa delas.

Lembrarmo-nos das pessoas de quem gostamos SEMPRE, e não apenas quando precisamos delas, é um sinal de inteligência relacional. Há quanto tempo não telefona aos seus amigos? E se o fizer, o que é que quer saber? Quanto tempo tem disponível para os ouvir? Convida-os para ir a sua casa? Se ler um artigo sobre a área de trabalho daquela pessoa, lembra-se de lhe enviar?

É sempre possível fazer alguma coisa por algum dos nossos amigos – se estivermos atentos e interessados. Podemos dar boleia quando sabemos que um(a) amigo(a) tem o carro na oficina, podemos oferecer o nosso ombro quando ele(a) se chateia com o(a) namorado(a), podemos ajudar com os nossos conhecimentos profissionais. Mas, para tudo isso, é preciso que sejamos consistentes e que façamos parte da vida das pessoas de quem gostamos de forma regular.

É mais provável que consigamos manter-nos próximos dos nossos amigos se:

Formos confiáveis. Há muitas formas de mostrarmos aos nossos amigos que eles podem confiar em nós: quando guardamos um segredo, quando fazemos aquilo que prometemos (Não vale a pena dizer “Eu ligo-te no fim-de-semana” se não tiver a genuína intenção de o fazer).

Escolhermos dar em vez de receber de forma consistente. Oferecer a nossa ajuda, de forma genuinamente desinteressada é a melhor forma de nos ligarmos a alguém. Curiosamente, é a forma mais sólida de construirmos relações que acabem por nos trazer múltiplas vantagens. Em suma, ser-se genuinamente boa pessoa.

Oferecermos o nosso apoio em momentos de aflição. Há poucas coisas que guardemos com maior facilidade na nossa memória do que os momentos de sofrimento em que alguém nos mostrou o seu apoio incondicional. Sabermos que há quem se preocupe connosco e escolha estar “lá” para nós quando mais precisamos não tem preço.

Mostrarmos a nossa autenticidade e a nossa vulnerabilidade. Quando nos enchemos de medo de nos mostrarmos exatamente como somos e usamos máscaras para camuflar as nossas falhas, as nossas imperfeições e as nossas angústias, acabamos por criar personagens plásticas com as quais os outros têm dificuldade em construir ligações. Ninguém precisa de amigos perfeitos, super-homens e supermulheres sempre prontos para nos mostrarem que somos os únicos que erram ou que sentem medo. Mostrar a nossa vulnerabilidade não só não nos transforma em pessoas fracas aos olhos dos nossos amigos, como acaba por construir pontes que estreitam a ligação.

Partilharmos os acontecimentos positivos. Enviar uma mensagem a um amigo, com uma mensagem personalizada, a contar a nossa última aventura tem um impacto muito diferente de qualquer publicação partilhada nas redes sociais. Uma coisa é recebermos uma mensagem em que um amigo se dirige a nós pelo nome próprio, pela alcunha com que sempre nos tratou ou com uma asneirola que só permitimos às pessoas de quem gostamos muito a dizer “Não imaginas o que me aconteceu” e outra, bem diferente, é recebermos uma notificação no telemóvel que nos diga “O teu amigo X identificou-te numa publicação com 99 outras pessoas”.

Mostrarmos o nosso interesse de forma consistente. Não há volta a dar: todas as ligações afetivas dão trabalho e as pessoas que vivem rodeadas de bons amigos não têm apenas sorte. Elas fazem por isso. Manter uma amizade implica manter o contacto, estar perto mesmo quando fisicamente não é possível estar perto. Implica querer saber e mostrar que temos paciência para escutar. Implica telefonar, convidar, acarinhar – e não apenas nas datas comummente consideradas especiais. Implica prestar atenção e querer genuinamente deixar uma marca positiva.
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