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17.2.20

COMO MANTER AMIGOS: INTELIGÊNCIA RELACIONAL


Como manter amigos


Como é que mantemos uma amizade? Que escolhas podemos fazer para nos mantermos próximos das pessoas de quem gostamos?


É mais do que sabido que somos mais felizes na medida em que construamos ligações estáveis, que nos façam sentir amados, amparados. A maior parte de nós deseja construir uma ligação romântica, uma família coesa, mas não só: queremos ter (bons) amigos ao nosso lado. Hoje parece tudo muito mais fácil graças ao Facebook, ao Whatsapp ou ao Instagram: é infinitamente mais provável que consigamos saber do paradeiro de ex-colegas de escola, sabemos aonde é que os nossos amigos passam as férias e os fins-de-semana (porque vemos as suas publicações) e recebemos vários pedidos de amizade de pessoas que nunca vimos na vida. Paradoxalmente, podem passar-se meses (ou anos!) sem que tenhamos qualquer conversa significativa com os nossos amigos. E às vezes acabamos por saber que um deles se divorciou, perdeu o emprego ou esteve doente muito tempo depois de algum destes acontecimentos ter ocorrido.

As redes sociais ajudam a manter amizades ou não?

As redes sociais são tão úteis como o telefone. Podem ajudar-nos a manter uma amizade, mas também podem desviar-nos do que é realmente importante.

De que adianta termos um telefone em casa e outro no bolso se nos esquecermos de ligar às pessoas de quem gostamos?


De que adianta termos cinco mil “amigos” no Facebook se vivermos com a sensação de que ninguém nos conhece verdadeiramente ou com a convicção de que não há ninguém com quem possamos realmente contar?

De certeza que qualquer um de nós já passou pela experiência de ver um grupo de amigos num jantar ou numa festa “agarrados” aos smartphones. Muitos estão a trocar mensagens superficiais com amigos que estão do outro lado do ecrã ao mesmo tempo que ignoram a oportunidade de ter as tais conversas significativas com quem está mesmo ali ao lado. Às vezes caímos no ridículo de tomar conhecimento de uma ocorrência importante através das redes sociais e acabamos por perguntar, espantados, à pessoa que temos ao nosso lado «Como é que eu só sei disto pelo Facebook?».

A verdade é que também nos desabituámos de investir o nosso tempo e a nossa paciência para ouvir os longos desabafos das pessoas de quem gostamos. É mais fácil aceder aos resumos que vamos encontrando nas redes, colocar um “gosto” ou até fazer um breve comentário. Mas nenhum de nós trocaria um abraço e o ombro de um amigo por um simples “Força” escrito no Facebook, certo?

Porque é que nos vamos afastando dos nossos amigos?


Quando deixamos que o piloto automático tome conta de nós e vivemos imersos nas responsabilidades familiares e profissionais, é mais provável que deixemos de ser os amigos de que os nossos amigos precisam. Por mais que digamos coisas como “Estou cá para o que der ou vier” ou “Liga-me quando precisares”, isso não significa que estejamos a fazer a nossa parte para que uma amizade se mantenha. Como do outro lado está alguém que, tal como nós, tem várias obrigações para gerir e pouco tempo para refletir sobre o que realmente importa, é fácil ir perdendo contacto (e ligação emocional).

Como é que se mantém uma amizade?

Construir amizades sólidas depende mais da nossa consistência do que de gestos grandiosos. Depende da nossa inteligência relacional.




O que é a inteligência relacional?


A inteligência relacional tem sido amplamente associada ao contexto profissional. Todos sabemos que a progressão na carreira é mais fácil na medida em que tenhamos uma boa rede de contactos. Conhecer as pessoas certas pode ser meio caminho para que nos confrontemos com boas oportunidades. Mas o que é que isto quer realmente dizer? Será que a inteligência relacional tem a ver com “dar graxa” a um conjunto de pessoas para que possamos colher benefícios? Claro que não!

Desenvolver a nossa inteligência relacional e tentar promover e manter boas relações com as pessoas com quem nos vamos cruzando – social ou profissionalmente – não tem nada a ver com qualquer tipo de bajulação. É sobretudo uma questão de reconhecermos que é sempre possível fazermos escolhas que melhorem a vida das pessoas à nossa volta e que isso deixa uma marca positiva, cria ligações emocionais.

Imagine que tem um casamento de um familiar num sábado de manhã. O seu horário de trabalho implica que faça turnos e você está escalado(a) para trabalhar na sexta à noite, mas o seu chefe toma a iniciativa de lhe dar folga para que possa descansar antes do evento que é importante para si. Como é que isso o(a) faz sentir? Que imagem é que esta pessoa lhe transmite? Depois disso, qual é a probabilidade de você tomar a iniciativa de ajudar o seu chefe num momento em que ele precise de si?

Voltemos às relações com os nossos amigos: tal como acontece com a nossa própria vida, há sempre coisas importantes a acontecer na vida dos nossos amigos. Há discussões, há aflições, há perdas, há chatices, há imprevistos e há ninharias que, com o tempo, não têm qualquer importância, mas que, quando acontecem, mexem connosco.

Como é que se sente se partilhar com um amigo um episódio qualquer com que se tenha aborrecido e, dias depois, ele lhe ligar “só” para saber “como estão as coisas”?


É reconfortante, não é? Quantas vezes se lembra de fazer o mesmo? Nos últimos tempos, quantas vezes voltou a contactar com um(a) amigo(a) só para saber se aquele aborrecimento de que ele/ela lhe falou já está resolvido ou simplesmente para saber se ele/ela está mais calmo(a) ou mais sereno(a)?

Lembre-se das pessoas sempre, não apenas quando precisa delas.

Lembrarmo-nos das pessoas de quem gostamos SEMPRE, e não apenas quando precisamos delas, é um sinal de inteligência relacional. Há quanto tempo não telefona aos seus amigos? E se o fizer, o que é que quer saber? Quanto tempo tem disponível para os ouvir? Convida-os para ir a sua casa? Se ler um artigo sobre a área de trabalho daquela pessoa, lembra-se de lhe enviar?

É sempre possível fazer alguma coisa por algum dos nossos amigos – se estivermos atentos e interessados. Podemos dar boleia quando sabemos que um(a) amigo(a) tem o carro na oficina, podemos oferecer o nosso ombro quando ele(a) se chateia com o(a) namorado(a), podemos ajudar com os nossos conhecimentos profissionais. Mas, para tudo isso, é preciso que sejamos consistentes e que façamos parte da vida das pessoas de quem gostamos de forma regular.

É mais provável que consigamos manter-nos próximos dos nossos amigos se:

Formos confiáveis. Há muitas formas de mostrarmos aos nossos amigos que eles podem confiar em nós: quando guardamos um segredo, quando fazemos aquilo que prometemos (Não vale a pena dizer “Eu ligo-te no fim-de-semana” se não tiver a genuína intenção de o fazer).

Escolhermos dar em vez de receber de forma consistente. Oferecer a nossa ajuda, de forma genuinamente desinteressada é a melhor forma de nos ligarmos a alguém. Curiosamente, é a forma mais sólida de construirmos relações que acabem por nos trazer múltiplas vantagens. Em suma, ser-se genuinamente boa pessoa.

Oferecermos o nosso apoio em momentos de aflição. Há poucas coisas que guardemos com maior facilidade na nossa memória do que os momentos de sofrimento em que alguém nos mostrou o seu apoio incondicional. Sabermos que há quem se preocupe connosco e escolha estar “lá” para nós quando mais precisamos não tem preço.

Mostrarmos a nossa autenticidade e a nossa vulnerabilidade. Quando nos enchemos de medo de nos mostrarmos exatamente como somos e usamos máscaras para camuflar as nossas falhas, as nossas imperfeições e as nossas angústias, acabamos por criar personagens plásticas com as quais os outros têm dificuldade em construir ligações. Ninguém precisa de amigos perfeitos, super-homens e supermulheres sempre prontos para nos mostrarem que somos os únicos que erram ou que sentem medo. Mostrar a nossa vulnerabilidade não só não nos transforma em pessoas fracas aos olhos dos nossos amigos, como acaba por construir pontes que estreitam a ligação.

Partilharmos os acontecimentos positivos. Enviar uma mensagem a um amigo, com uma mensagem personalizada, a contar a nossa última aventura tem um impacto muito diferente de qualquer publicação partilhada nas redes sociais. Uma coisa é recebermos uma mensagem em que um amigo se dirige a nós pelo nome próprio, pela alcunha com que sempre nos tratou ou com uma asneirola que só permitimos às pessoas de quem gostamos muito a dizer “Não imaginas o que me aconteceu” e outra, bem diferente, é recebermos uma notificação no telemóvel que nos diga “O teu amigo X identificou-te numa publicação com 99 outras pessoas”.

Mostrarmos o nosso interesse de forma consistente. Não há volta a dar: todas as ligações afetivas dão trabalho e as pessoas que vivem rodeadas de bons amigos não têm apenas sorte. Elas fazem por isso. Manter uma amizade implica manter o contacto, estar perto mesmo quando fisicamente não é possível estar perto. Implica querer saber e mostrar que temos paciência para escutar. Implica telefonar, convidar, acarinhar – e não apenas nas datas comummente consideradas especiais. Implica prestar atenção e querer genuinamente deixar uma marca positiva.

14.2.20

DIVISÃO DAS TAREFAS DOMÉSTICAS NO CASAL


Divisão das tarefas domésticas no casal

Por que continua a haver diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito às tarefas domésticas? E que impacto é que essas diferenças têm na vida conjugal?


Recentemente fui entrevistada para a revista Visão a propósito de um estudo que indicava que, em Portugal, continua a haver diferenças de género na concretização das tarefas domésticas. Neste estudo, homens e mulheres assumiram que muitas tarefas – como passar a ferro, lavar e estender a roupa ou cozinhar – estavam maioritariamente a cargo das mulheres. A exceção é a bricolage e as reparações (maioritariamente a cargo dos homens). Além disso, a maior parte dos homens e mulheres entrevistados assumiram que são as mulheres que normalmente ficam em casa com os filhos doentes e que também são elas que mais frequentemente são prejudicadas na carreira a propósito da distribuição das tarefas domésticas.



Tarefas domésticas: Que diferenças de género existem?


À margem deste estudo agora divulgado, há outros que já tinham demonstrado a existência de assimetria entre homens e mulheres nesta área da conjugalidade. Por exemplo, noutras investigações verificou-se que a discrepância entre o tempo que cada um dedicava às tarefas domésticas era muito significativa. Isto é, o tempo que estas tarefas “roubam” à carreira, aos hobbies ou à individualidade continua a ser muito superior nas mulheres. Isto não tem a ver com o tempo que homens e mulheres levam a concretizar tarefas específicas. Traduz, isso sim, um desequilíbrio em termos de distribuição.

Curiosamente, também há estudos que demonstram que a maioria dos homens tende a considerar que faz mais do que, acontece na realidade. A verdade é que a maior parte dos homens têm uma perceção enviesada da carga associada às diferentes tarefas domésticas, acabando por “ajudar” a aliviar essa carga, mas ignorando que não há uma partilha equilibrada.

Tarefas domésticas: As diferenças entre homens e mulheres acontecem por “culpa” das mulheres?


Embora seja tentador atribuir a responsabilidade destas diferenças às mulheres, é importante olhar com atenção para aquilo que acontece na prática. A verdade é que a maior parte das mulheres adultas que vivem em união foram educadas de forma significativamente diferente dos homens com quem vivem e, na maioria das vezes, estão efetivamente habituadas a fazer a maior parte das tarefas (ao contrário deles). Mas isso não significa que chamem a si a esmagadora maioria das tarefas sem “dar luta”. Na verdade, aquilo que observo na minha prática clínica é que a maioria das mulheres não só reivindicam uma divisão equilibrada, como dão o seu melhor para que não haja diferenças de género na educação dos seus filhos. Os meninos e meninas de hoje são mais incentivados a participar nas tarefas domésticas de forma equilibrada.

É importante que as mulheres reconheçam o poder que têm. Por um lado, na educação dos filhos. E, por outro, na demonstração das suas necessidades.


A maior parte das mulheres precisam de tempo para a individualidade, para fazerem aquilo de que gostam e para a progressão na carreira. Quando não há uma divisão equilibrada das tarefas domésticas, é importante que sejam capazes de mostrar aquilo que sentem e aquilo de que precisam. Por outro lado, é importante que, na azáfama do dia a dia, haja tempo e discernimento para reconhecer que, se houve diferenças na forma como os membros do casal foram educados, não é expectável que a maior parte dos homens reconheçam a carga (física e mental) associada a todas as tarefas domésticas ou que as saibam concretizar com a mesma rapidez e eficácia.

É muito fácil entrar em círculos viciosos em que elas “atacam” e eles fogem dos conflitos. Quando isto acontece, o desequilíbrio eterniza-se e a probabilidade de haver insatisfação e ressentimento é muito maior.

Chegam muitas queixas deste tipo ao consultório?


A maior parte das queixas que chegam até mim através da terapia de casal prendem-se sobretudo com a falta de reconhecimento, de valorização e com a carga mental associada às tarefas domésticas. A maioria das mulheres não reivindicam que os companheiros saibam fazer todas as tarefas, mas sentem-se pouco reconhecidas ou desvalorizadas. Mais: em relação a algumas tarefas, queixam-se da carga mental associada e do facto de os companheiros desconhecerem a existência dessa carga. A verdade é que semanalmente há listas de compras para fazer, há refeições para preparar, há mochilas cujo conteúdo varia em função de diferentes atividades extracurriculares, há pagamentos, viagens de estudo, consultas, reuniões e outros compromissos que estão maioritariamente sobre os ombros das mulheres.

Claro que também há muitas queixas a propósito da assimetria na carga física associada à distribuição das tarefas – não é só uma questão de falta de reconhecimento.

Às vezes há mulheres que chamam a si muitas responsabilidades a propósito do nascimento dos filhos, prejudicando a própria carreira, e, alguns anos mais tarde, sentem necessidade de repor o equilíbrio.


Aquilo que importa é que cada casal esteja genuinamente disponível para se adaptar às diferentes etapas do ciclo de vida e que cada uma das pessoas se mantenha genuinamente interessada em prestar atenção aos sentimentos e às necessidades do(a) companheiro(a).

Na era dos movimentos como #metoo, porque continuam mulheres emancipadas a fazer tudo?


Como referi antes, a educação continua a ter um papel fundamental. Os adultos de hoje não cresceram com o #metoo. Pelo contrário, a maior parte dos homens com mais de 40 anos não foram incentivados a fazer quaisquer tarefas domésticas. Por outro lado, de uma maneira geral, as mulheres são mais altruístas, pelo que mais facilmente abdicam da carreira ou da individualidade em nome dos cuidados prestados aos filhos ou da concretização de outras tarefas domésticas.

A verdade é que estas mudanças também dão trabalho e requerem algumas conversas significativas. Na azáfama dos dias, é mais fácil dar um par de berros e, sem querer, alimentar o círculo vicioso. Ter conversas sem zangas, em que cada um possa falar abertamente sobre os próprios sentimentos e mostrar aquilo de que precisa é muito mais trabalhoso. Às vezes, é na consulta de terapia de casal que cada um encontra o espaço seguro para expor estes apelos e, assim, dar início a mudanças que podem melhorar muito a vida conjugal e familiar.

3.2.20

À PROCURA DA ALMA GÉMEA


À procura da alma gémea


Dá por si a dizer “Eu sou muito exigente no amor”, ao mesmo tempo que coleciona relações que teimam em não dar certo? Viveu uma grande amor e mais nenhuma relação foi capaz de o(a) prender? Estas duas situações podem ser armadilhas que o(a) impedem de construir uma relação estável. Saiba porquê.

Já falei sobre o facto de existirem diferentes formas de amar AQUI. Uma percentagem considerável da população (mais ou menos 20 por cento) encaixa-se no perfil EVITANTE. Os evitantes são pessoas que valorizam muito a sua independência, têm pouca paciência para lidar com a “dependência” e a ansiedade de qualquer companheiro(a) romântico(a) e têm muita dificuldade em construir ligações com grande intimidade emocional. Esta descrição talvez o(a) remeta para os bad boys mulherengos, que fogem do compromisso a sete pés. Mas a minha prática clínica e os estudos feitos nesta área mostram que há muitas mulheres com um padrão de vinculação evitante também. Além disso, os evitantes podem assumir uma postura que nos leve a acreditar que procuram uma relação de compromisso baseada na intimidade profunda, pelo que não são só os típicos Casanova.



À procura do(a) tal


Já lhe aconteceu apaixonar-se por uma pessoa que você acha que é incrível e, de repente, começar a reparar em defeitos ou hábitos irritantes, como a forma como a pessoa come ou dança? O mais provável é que dê por si a pensar que é normal e que isso significa simplesmente que você não está assim tão apaixonado(a) por aquela pessoa. A última coisa que lhe passará pela cabeça é que essa possa ser uma estratégia do seu cérebro, que o(a) impede de construir relações emocionalmente profundas.

O padrão de vinculação amorosa evitante resulta das experiências por que a pessoa passou – quer ao longo da sua infância, quer noutras relações amorosas. Não é algo de que a pessoa tenha consciência, nem é uma escolha propositada. É, sobretudo, uma forma de amar a que a pessoa se habituou, sem questionar.



Muitas vezes, a pessoa está de facto convencida
de que tem dado o seu melhor em busca da relação
“perfeita” e ignora que é ela mesma que tem sabotado
qualquer hipótese de construir uma relação estável
porque tem adotado comportamentos que facilmente
colocam potenciais companheiros à distância.




Uma dessas armadilhas é precisamente a idealização de um(a) companheiro(a) perfeito(a). A própria pessoa convence-se de que o(a) tal está algures ao virar da esquina e acaba por focar-se de forma excessiva nos defeitos da pessoa que tem ao seu lado. De uma maneira geral, a pessoa começa por assumir que quer ter uma relação “séria”, acabando por criar expectativas na outra, mas, à medida que a relação se vai estreitando, é mais provável que um(a) evitante se sinta progressivamente asfixiado(a) e sobrevalorize os defeitos da pessoa de quem gosta.

Dificuldade em esquecer um grande amor

Outra estratégia – inconsciente – das pessoas com um perfil evitante passa por acordarem um dia, depois de uma relação ter terminado, a achar que a pessoa X foi o grande amor da sua vida. Isto pode acontecer na sequência de essa pessoa revelar que vai casar ou simplesmente muito tempo depois do fim da relação. De uma maneira ou de outra, a pessoa com um perfil evitante diz a si mesma que já não tem qualquer hipótese com aquele(a) ex-namorado(a) e alimenta estes sentimentos românticos que a impedirão, claro, de se ligar a qualquer nova pessoa que apareça. Neste caso, a distância em relação ao(à) EX faz com que os defeitos daquela pessoa (que foram amplamente exacerbados na altura) passem a ser desvalorizados (e as qualidades sejam sobrevalorizadas).

Quando um evitante se afasta da pessoa de quem gosta, os sentimentos e a admiração pelas suas qualidades regressam!


A distância permite que a sensação de ameaça que a intimidade provoca desapareça e os verdadeiros sentimentos reapareçam. Às tantas a pessoa já nem se lembra dos motivos que a levaram a querer terminar a relação (ou dos comportamentos que adotou e que fizeram com que a outra pessoa quisesse terminar). Coloca-a num pedestal e isso serve para sabotar novas relações.

Nalguns destes casos, a pessoa tenta uma reaproximação para, logo de seguida, esbarrar nos “defeitos” da outra pessoa e se afastar de novo num círculo vicioso interminável.

Esconder-se das próprias emoções… até quando?

Estas pessoas podem passar toda a vida neste registo, sem terem a consciência de que estão a fugir de relações íntimas, mas também há casos em que as pessoas conseguem mudar e conseguem dar-se conta daquilo que está a atrapalhar a sua felicidade. Isto pode acontecer quando a pessoa dá por si numa solidão profunda - por exemplo, quando repara que todas as pessoas à sua volta estão casadas ou em relações sérias. Noutros casos, esta viragem acontece quando há um acontecimento impactante, como uma doença séria ou algo que faça com que a pessoa desperte para a finitude da vida e se questione sobre o que quer para si. Nestas alturas, pode tomar consciência de que a tal independência não é suficiente para si e pede ajuda especializada. A terapia não faz milagres, mas pode ser uma primeira oportunidade para o autoconhecimento e para que surjam mudanças que abram espaço para uma vida mais feliz e realizada.

24.1.20

UM ABUSADOR EMOCIONAL CONSEGUE MUDAR?


Um abusador emocional consegue mudar?

Será que uma pessoa que assuma comportamentos abusivos em relação ao(à) companheiro(a) consegue mudar?

Esta é uma das perguntas mais comuns entre as vítimas de violência – física ou emocional: Será que ele(a) muda? De uma maneira geral, a pergunta resulta da ambivalência que a pessoa sente: por um lado, ainda ama o(a) companheiro(a) e, por outro, está profundamente desgastada com a relação. A maior parte das vítimas de violência emocional lutam durante muito tempo para agradar à pessoa que amam, na esperança de que o seu comportamento possa ajudar a eliminar os comportamentos abusivos. Infelizmente, estas tentativas são quase sempre infrutíferas e até arriscadas, já que a pessoa que pratica os abusos vai fazendo cada vez mais exigências, assumindo um controlo cada vez maior sobre a vida da vítima.



Nos relacionamentos emocionalmente abusivos,
uma parte controla sistematicamente a outra,
minando a sua confiança, dignidade, crescimento,
e estabilidade emocional, e provocando medo,
culpa e vergonha.



Uma pessoa que assuma comportamentos abusivos numa relação pode não o fazer noutra relação?


Sim, mas isso não significa que tenha deixado de ser um abusador. Os abusos emocionais são normalmente praticados por pessoas inseguras e manipuladoras, com dificuldade em empatizar com os sentimentos dos outros. No início de uma relação, o abusador pode assumir comportamentos que aparentemente traduzam respeito pelo(a) companheiro(a), mas, à medida que se sinta mais confiante (de que conquistou a outra pessoa), pode tornar-se tão ou mais agressivo.

Um abusador pode, de facto, mudar?


Sim, pode, MAS essa mudança é rara e envolve MUITO tempo e MUITO trabalho. Quando falamos de abusos emocionais falamos quase sempre de um sistema de valores que está doente e falamos algumas vezes da existência de uma perturbação de personalidade, como a perturbação de personalidade borderline, perturbação narcísica da personalidade ou perturbação de personalidade antissocial.

O que é preciso para que um abusador emocional mude?




#1: Reconhecer que os comportamentos são errados.

O abusador deve ser capaz de identificar todos os comportamentos abusivos. Deve ser capaz de os reconhecer como errados.

#2: Assumir a inteira responsabilidade.

A pessoa que pratica os abusos tem de ser capaz de assumir total responsabilidade pelos seus comportamentos, em vez de responsabilizar a vítima. Quando alguém diz «Eu só agi assim porque tu…» ou «Eu peço desculpa, mas tu…» ou «Eu sei que errei, mas tu…», não está verdadeiramente disponível para assumir a sua responsabilidade e, por isso, não está verdadeiramente capaz de se comprometer com a mudança.

#3: Humildade para pedir desculpa.

A pessoa que pratica os abusos deve ser capaz de empatizar com os sentimentos da vítima, de mostrar interesse pelos danos causados e de mostrar remorsos genuínos em relação ao passado.

Qualquer postura que implique tentar “colocar uma pedra sobre o assunto”, impedindo a vítima de falar sobre o que aconteceu e/ou evitando a demonstração de interesse sobre os sentimentos que resultaram dos abusos são sinais de que não há genuíno compromisso com a mudança.



#4: Disciplina.

A mudança só vai acontecer se a pessoa que pratica os abusos estiver disponível para monitorizar o próprio comportamento com frequência – prestando atenção àquilo que diz e permitindo que a vítima se queixe ou chame a atenção para qualquer situação que seja geradora de desrespeito. Frases como «Estás a ser demasiado exigente», «Não aguento este clima de tolerância zero» ou «Tu és demasiado sensível» são indicadoras da inexistência de um compromisso com a mudança.

#5: Motivação.

A pessoa que pratica os abusos deve ser capaz de mostrar de forma clara, inequívoca e consistente que fará tudo o que estiver ao seu alcance para parar com os abusos. De um modo geral, é mais provável que isso aconteça se o abusador se der conta de que, se não o fizer, há o risco sério de a relação terminar. A motivação é demonstrada através da disponibilidade para ler sobre o assunto e aprender a diferenciar comportamentos abusivos, pedir ajuda profissional e comprometer-se com o processo terapêutico (em vez de contar uma história diferente ao terapeuta e dizer «O psicólogo disse que eu não tenho qualquer problema»).

10.12.19

QUANDO O COMPANHEIRO NÃO RESPONDE ÀS MENSAGENS



Com a chegada do Facebook e do Whatsapp às nossas vidas, passámos a constatar que há alturas em que a pessoa a quem enviamos uma mensagem escolhe ler e não responder – pelo menos, de imediato.

Como é a sua relação com o telemóvel? Como é que se sente quando a pessoa de quem gosta demora algum tempo a responder às mensagens? Sente-se suficientemente seguro(a) para conseguir ficar à espera de uma reposta? Ou entra numa espiral de ansiedade?




Já escrevi sobre os diferentes tipos de vinculação amorosa (ou formas de amar) AQUI. Nessa altura, procurei explicar que alguns de nós têm um padrão de vinculação seguro, enquanto outros têm um padrão ansioso ou um padrão evitante.

Como é que uma pessoa SEGURA reage ao facto de o(a) companheiro(a) não responder às mensagens de telemóvel?


Depende. Se a outra pessoa demorar algum tempo a responder às mensagens, é provável que a pessoa com um padrão de vinculação seguro pense algo como «Ele(a) deve estar ocupado(a). Quando puder, responde».

E quando a mensagem é enviada por Whatsapp e o sinal de “visto” fica azul?

Mesmo que haja indicação de que a outra pessoa leu a mensagem, é pouco provável que uma pessoa segura se sinta ansiosa ou comece a remoer a propósito do atraso na resposta. «Talvez tenha o chefe ali ao lado» ou «Provavelmente está cheio(a) de coisas para fazer» são pensamentos comuns, suficientes para que a pessoa espere pacientemente pela resposta.

E se o(a) companheiro(a) se esquecer de responder?

Neste caso, o mais provável é que a pessoa com um padrão de vinculação seguro seja capaz de perguntar, com genuína curiosidade «O que é que aconteceu? Reparei que viste a minha mensagem, mas não chegaste a responder». E se o assunto for realmente importante, será capaz de mostrar o seu desagrado: «Quando lês as minhas mensagens e optas por não responder sinto-me triste e ignorado(a). Preciso que me mostres a tua atenção».

Como é que uma pessoa ANSIOSA reage ao facto de o(a) companheiro(a) não responder às mensagens de telemóvel?



De uma maneira geral, para uma pessoa com um padrão de vinculação ansioso, este é um ponto de partida para uma espiral de ansiedade e pensamentos negativos.



Quando a ansiedade toma conta da própria pessoa, podem surgir vários comportamentos de protesto.

Exemplos de protestos de separação:

  •    Telefonar inúmeras vezes ou enviar várias mensagens;
  •    Ir ao local de trabalho do(a) companheiro(a);
  •    Amuar – responder de forma seca e monossilábica na esperança de que o(a) companheiro(a) repare no seu descontentamento, conversar com outras pessoas e ignorar propositadamente o(a) companheiro(a) para o(a) castigar;
  •   Vingar-se – prestar atenção ao tempo que a outra pessoa demorou a responder às mensagens e fazer o mesmo da vez seguinte (sem perguntar sobre os motivos que levaram à demora).
  •     Desprezar – Revirar os olhos quando a outra pessoa está a falar, olhar para outro lado ou até sair do mesmo espaço deixando-o(a) a falar sozinho(a) (até que a outra pessoa se lembre de pedir desculpa pelo que aconteceu).
  •   Ameaçar – A pessoa pode dizer coisas como «Se calhar é melhor terminarmos», «Acho que não queremos a mesma coisa para a relação» ou «Nós não somos compatíveis», na esperança de que a outra pessoa interrompa e o(a) impeça de terminar a  relação.
  •   Manipular – fingir que está ocupado(a), deixar de atender o telefone, provocar ciúmes - por exemplo saindo com um(a) Ex.


Como é que uma pessoa EVITANTE reage ao facto de o(a) companheiro(a) não responder às mensagens de telemóvel?


Muitas vezes estas são “boas notícias” para alguém com um padrão de vinculação ansioso, já que para estas pessoas a última coisa que deve acontecer é haver qualquer tipo de “obrigações”. Como não gostam de se sentir “presos”, não gostam que lhes cobrem respostas rápidas ou manifestações claras de que a relação é uma prioridade. Quando o(a) companheiro(a) mostra que se sente à vontade para ler as mensagens e não responder imediatamente, a pessoa com um padrão de vinculação evitante tende a sentir que pode fazer o mesmo.

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