Consultório            Facebook           Instagram            YouTube            Página Inicial


6.6.19

DIREITOS DAS CRIANÇAS AO LONGO DO DIVÓRCIO


Direitos das crianças ao longo do divórcio

O divórcio é uma perda gigantesca para todos os membros da família. Os adultos têm de lidar com sentimentos intensos de tristeza, medo, culpa, raiva e vergonha. Como se isso não fosse bastante, esta é precisamente a altura em que o mundo espera que sejam os melhores pais e mães que possam ser. Quais são as escolhas que podem ajudar a concretizar um divórcio emocionalmente inteligente para os filhos?


Passo mais tempo a “salvar” casamentos do que a ajudar alguém a divorciar-se, mas há cada vez mais pessoas que me pedem ajuda na sequência de um processo de divórcio. Quase todos os pais e mães que me procuram trazem a intenção de garantir que as suas escolhas garantam que os interesses dos filhos sejam salvaguardados. É praticamente impossível passar por um divórcio sem alguma dose de sofrimento, MAS há escolhas que podem fazer com que passados vinte ou trinta anos os pais e mães se sintam orgulhosos do caminho que fizeram. Na prática, se o pai e a mãe se comprometerem e reconhecerem os direitos dos filhos, eles podem continuar a desenvolver-se do ponto de vista emocional de forma tão saudável quanto aconteceria numa família tradicional.



AO LONGO DO DIVÓRCIO OS FILHOS TÊM O DIREITO DE…


#1: SABER QUE NÃO TÊM CULPA


Pode parecer óbvio, sobretudo se os pais estiverem empenhados em proteger os interesses dos filhos, mas a verdade é que as crianças facilmente fantasiam a propósito da sua responsabilidade quando há uma separação. Se os pais já tiveram discussões – normais – a respeito da educação ou dos gastos com os filhos, há alguma probabilidade de as crianças imaginarem que possam ter contribuído para a separação. Os adolescentes tendem muitas vezes a sentir-se culpados por não conseguirem amparar os pais na medida certa e/ou por não conseguirem evitar que eles se zangassem.

Por tudo isto e muito mais, é fundamental que os pais procurem transmitir de forma clara, inequívoca, que os filhos não têm NENHUMA responsabilidade sobre o processo de separação. E é fundamental que esta informação seja repetida várias vezes – antes, durante e depois do divórcio.

#2: SABER O QUE VAI ACONTECER


Os filhos precisam de saber com o que é que podem contar.

O divórcio representa um conjunto de perdas, que por sua vez trazem instabilidade e insegurança. Os filhos sentem-se mais amparados e seguros se souberem onde vão viver, com quem, quando é que vão poder estar com cada um dos progenitores, em que escola vão estudar e que outras mudanças terão de enfrentar. Isto NÃO significa que os pais tenham de ter todas as respostas no momento em que comunicam que se vão separar. Precisam, isso sim, de assumir que serão capazes de resolver cada questão a dois, tendo a intenção de proteger os interesses dos filhos, e de transmitir cada decisão à medida que elas sejam tomadas.

#3: SEREM ESCUTADOS E CONFORTADOS


Não há volta a dar: os filhos sofrem com a separação dos pais e, em muitos casos, choram. Para os pais, pode ser tentador oferecer-lhes oportunidades de se divertirem e distraírem desta tristeza ou ainda esforçarem-se para reconhecer o lado positivo da mudança. Por exemplo, é comum ouvi-los dizer coisas como «Agora vais ter dois quartos» ou «Vais ter brinquedos a duplicar». Mas, tal como acontece com os adultos, a tristeza das crianças precisa de ser vivida e exteriorizada. Os filhos até podem perceber o desconforto dos pais em relação à sua tristeza e fazer esforços para a conter. Isso não significa que não a sintam. Significa apenas que estão a fazer o que podem para proteger os pais. Não é isso que a maior parte dos pais e mães desejam.

Dar oportunidade aos filhos para falarem sobre os seus sentimentos, dar colo e estar “lá” sem tentar disfarçar a tristeza é essencial para garantir que se sintam amparados. Muitas vezes este papel acaba por ser desempenhado por outros adultos, com quem as crianças se sintam livres para expressar tudo o que sentem.

#4: SEREM POUPADOS AOS CONFLITOS


É natural que uma separação esteja envolvida em níveis elevados de tensão. Nem sempre é fácil impedir que os filhos assistam a discussões acesas entre o pai e a mãe. Mas os pais podem fazer o que estiver ao seu alcance para não envolver os filhos nas suas discussões. A última coisa que deve acontecer é que algum dos adultos procure que os filhos lhe atribua razão e/ou se coloque contra o outro progenitor.

Os filhos precisam de sentir que há uma diferenciação clara entre o papel conjugal e o papel parental e que o pai e a mãe continuam a fazer o que é possível para que os problemas dos adultos sejam geridos pelos adultos.

#5: NÃO CONHECER OS DETALHES DA SEPARAÇÃO


Na medida em que haja feridas profundas, associadas a uma traição ou à sensação de abandono, pode ser tentador dizer “a verdade” aos filhos e, assim, conseguir a sua solidariedade, mas esta pode ser uma forma de violência. Independentemente do que aconteça à relação conjugal, o pai e a mãe continuarão a ser figuras de referência para os filhos e os detalhes da separação só acrescentam mágoa.



#6: NÃO SEREM OBRIGADOS A ESCOLHER UM PROGENITOR


Na maior parte das vezes, os pais e as mães estão genuinamente bem-intencionados. Mesmo quando defendem que as crianças fiquem sob a sua guarda total, fazem-no porque acreditam que essa seria a melhor opção. Às vezes, os pais procuram conhecer a opinião dos filhos com a genuína vontade de perceber o que é melhor para eles. Mas uma coisa é pedir a opinião a um(a) filho(a) adolescente sobre a casa onde gostaria de viver e lembrar que a decisão tem de ser tomada pelos adultos. Outra, bem diferente, é pressionar a criança (ou o adolescente) para que escolha um progenitor em detrimento do outro.

#7: NÃO SERVIR DE CORREIO


Quando há tensão, é natural que a vontade de encarar o outro progenitor seja praticamente inexistente, mas quando há filhos há sempre assuntos para tratar. Pode parecer mais simples enviar alguns recados através dos filhos, sobretudo se se tratar de assuntos relacionados com eles, mas, de uma maneira geral, os filhos sentem-se desconfortáveis neste papel. Felizmente, na maioria das vezes acabam por ser muito claros respondendo a estes pedidos com frases como «Trata tu disso». Os pais podem encarar estas respostas como uma forma de rebeldia, mas a verdade é que compete aos adultos encontrar formas de comunicar sem envolver as crianças. O e-mail e as SMS são uma boa alternativa.

#8: MANTER CONVERSAS PRIVADAS COM CADA PROGENITOR


Alguns pais e mães sentem muita curiosidade em relação ao tempo que as crianças passam com o outro progenitor. Nalguns casos, há medo do que ele(a) possa dizer, noutros há sobretudo um braço-de-ferro que ainda não terminou. Independentemente daquilo que esteja por detrás dessa curiosidade, é fundamental que os filhos sejam tratados com respeito e isso também deve implicar o direito a não falar sobre aquilo que é conversado com o outro progenitor – seja quando estão noutra casa, seja quando falam ao telefone. A última coisa de que os filhos precisam é de serem interrogados e forçados a partilhar informações que os façam sentir desconfortáveis.

#9: NÃO SEREM FORÇADOS A MENTIR


À medida que a tensão sobe, é cada vez mais difícil olhar para a realidade com objetividade e serenidade. Quando a mágoa cresce, é possível que cada um dos progenitores olhe para o outro com ressentimento e com a crença de que ele(a) não merece ter a guarda dos filhos. Pior do que isso, nalguns casos a mágoa é tão grande que a intenção é castigar o outro progenitor. Infelizmente, algumas crianças são forçadas a mentir com este propósito. Esta é uma forma de violência que pode deixar marcas irreparáveis.

É importante relembrar que os filhos são mais saudáveis quando têm a oportunidade de continuar a desenvolver um vínculo estável e saudável com os dois progenitores.

#10: CONTINUAR A RELACIONAR-SE COM A FAMÍLIA ALARGADA


Independentemente do que aconteça ao casal, aos olhos das crianças, os avós vão continuar a ser avós, os tios vão continuar a ser tios, os primos vão continuar a ser primos. E cada uma destas pessoas é uma fonte de afeto e segurança para as crianças. Retirar-lhes a possibilidade de se relacionarem com alguns membros da SUA família também é uma forma de violência. O divórcio implica um conjunto de perdas inevitáveis. Não faz sentido que haja ainda mais.

#11: SABER DA EXISTÊNCIA DE NOVOS PARCEIROS


O segredo é sempre tóxico. Quando as crianças suspeitam que há alguma coisa que lhes esteja a ser ocultada, sentem-se mais inseguras. A confiança na relação com o pai e com a mãe também vai depender da capacidade de manter uma postura de genuína honestidade. É compreensível que os adultos não queiram precipitar-se, apresentando à criança um(a) novo(a) namorado(a) e arriscando que a relação termine e a criança seja exposta a mais uma perda, MAS é ainda menos desejável que um(a) filho(a) tenha de lidar sozinho(a) com todos os medos que invariavelmente surgem com esta suspeita.

28.5.19

COMO MANTER UMA RELAÇÃO FELIZ E DURADOURA



Os opostos atraem-se. Marido e mulher não devem ser amigos. As discussões fazem mal à relação. Estas são algumas das frases que ouvimos a propósito do amor romântico. Será que são verdadeiras? Como é que se constrói relações felizes e duradouras?


Mito #1: Os opostos atraem-se.


Nem todas as relações felizes são feitas de pessoas com interesses idênticos ou características de personalidade semelhantes. Às vezes, a pessoa por quem nos apaixonamos é muito diferente daquilo que tínhamos idealizado e tem poucos atributos que, teoricamente, consideramos atrativos. Por outro lado, há pessoas que física e emocionalmente parecem reunir todas as características da nossa checklist e por quem pura e simplesmente não sentimos paixão.

Aquilo que está por detrás da paixão também é uma questão de química que nem sempre conseguimos explicar. No limite, é possível que nos apaixonemos por alguém muito diferente de nós e que assumamos, de forma autêntica, que os opostos podem mesmo atrair-se.

Mas isso está longe de querer dizer que as relações mais felizes sejam aquelas em que duas pessoas tenham pouco em comum. Mais importante do que isso, este cliché NÃO deve servir para escamotear problemas sérios numa relação. Na medida em que alguém dê por si a sentir-se permanentemente insatisfeito(a) ou, pior do que isso, a sentir-se desrespeitado(a), é essencial que olhe para a realidade como ela é, em vez de tentar enganar-se com esta desculpa.

Quanto mais cedo formos capazes de terminar uma relação que não funciona e/ou em que nos sintamos desrespeitados, mais rapidamente abrimos espaço para viver uma história de amor à nossa medida.


Mito #2: Marido e mulher não podem ser melhores amigos


Há quem tema que a amizade entre marido e mulher possa estragar a relação, transformando-a em algo mais fraternal. Se é verdade que para algumas pessoas o amor romântico acaba por dar efetivamente lugar a algo monótono e desprovido de desejo, na prática, aquilo que as investigações sobre a conjugalidade nos mostram é que a amizade é a base de qualquer relação amorosa.

Sentimo-nos mais felizes e ligados quando temos a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado é alguém em quem podemos confiar, alguém a quem podemos revelar-nos e alguém que empatiza com aquilo que sentimos.

Por exemplo, quando falamos de sexo, há um dado curioso que resulta da observação de casais felizes: a forma como reagimos aos «Nãos» é determinante para a satisfação conjugal e sexual. Quando um dos membros do casal diz que não tem vontade de fazer amor, rejeitando a tomada de iniciativa do outro, é fácil reagir de forma explosiva. Mas a verdade é que quando a pessoa que é rejeitada procura compreender os motivos por detrás do «Não» e mostra genuína empatia, os membros do casal acabam invariavelmente por sentir-se mais conectados e isso reflete-se em mais e melhor sexo.


Mito #3: As discussões fazem mal à relação.


Algumas pessoas, sobretudo mais velhas, procuram transmitir a ideia de que é preferível “engolir sapos" e evitar a todo custo que haja discussões. Ninguém gosta de discutir com a pessoa que ama, mas será que as discussões são sempre prejudiciais à relação?

A verdade é que a ciência nos mostra exatamente o oposto. As discussões são essenciais para que possamos construir uma relação verdadeiramente íntima. Quando fazemos alguma coisa que fere a pessoa de quem gostamos e ela se queixa, mesmo que de forma acesa, isso permite-nos conhecê-la exatamente como é, permite-nos saber o que mexe com ela e, claro, permite que façamos alguma tentativa de reparação.




Todas as pessoas erram num relacionamento.
Todas as pessoas fazem porcaria.
Os casais mais felizes estão muito longe de ser perfeitos.
Aquilo que os diferencia é a capacidade de darem voz
aos seus sentimentos e a capacidade de mostrar que se
preocupam genuinamente com os sentimentos do outro.



De resto, quando fazemos as pazes depois de uma discussão, sentimo-nos mais vivos. Há qualquer coisa que muda quando discutimos. A sensação de perda e os esforços que fazemos para mimar, galantear e reconquistar a pessoa que amamos acabam por promover o desejo e mostrar que ninguém está garantido.

Mito #4: Não devemos contar tudo à pessoa que está ao nosso lado.


Há quem diga que a melhor forma de manter a chama da relação acesa é manter algum mistério. A verdade é que os casais que alimentam a sua individualidade e que cultivam interesses para lá do projeto conjugal e familiar são, genericamente, mais felizes, MAS isso está longe de querer dizer que devamos ocultar propositadamente o que quer que seja.

Quando nos revelamos exatamente como nós somos, quando nos vulnerabilizamos e quando percebemos que a outra pessoa está “lá" e se importa, a intimidade emocional aumenta e isso potencia a probabilidade de corrermos riscos que promovam o desejo.


Mito #5: Não devemos mostrar demasiado afeto


A ideia por detrás deste mito está relacionada com os jogos de sedução e com o objetivo de mostrar à outra pessoa que nada está garantido. Algumas pessoas pura e simplesmente não mostram com clareza e regularidade o seu afeto, mas a verdade é que uma relação viva e coesa depende em larga medida dos gestos que mostrem de forma inequívoca os nossos sentimentos.

Na verdade, um dos factos que a ciência nos mostrou foi que as relações mais felizes são construídas por pessoas capazes de mostrar, de forma verbal e não verbal, o amor, a gratidão e a admiração que sentem.

Quando nos habituamos a dizer obrigado pelas pequenas coisas que a pessoa que amamos faz por nós, ou pela relação, por oposição a dizer que não fez mais do que a sua obrigação, sentimo-nos mais próximos e mais felizes. Quando nos habituamos a reconhecer, sem medo, os atributos que valorizamos no outro, ele ou ela sente-se mais feliz e valorizado(a). Quando nos habituamos a mostrar fisicamente aquilo que sentimos – através do toque – sentimo-nos mais amparados.

Há dois factos que ilustram bem a importância das manifestações de afeto:

  • · Quando olhamos para a forma como os casais felizes comunicam, verificamos que por cada interação negativa (momento de tensão ou desconexão), há, pelo menos, cinco interações positivas (demonstrações de carinho ou admiração). Quando este rácio baixa, a relação passa a estar em perigo.
  • · Só 7 por cento dos casais que nunca dormem aconchegados assumem que se sentem satisfeitos do ponto de vista sexual.


15.5.19

DISCUTIR À FRENTE DOS FILHOS: SIM OU NÃO?


Discutir à frente dos filhos

A maior parte dos pais e mães esforçam-se para que não haja discussões à frente dos filhos, mas, na azáfama dos dias, nem sempre conseguem evitar que isso aconteça. Que impacto é que as discussões conjugais têm no bem-estar das crianças?


Ao contrário do que se possa pensar, as discussões conjugais podem não ter um impacto negativo na vida das crianças. Claro que nenhum filho gosta de assistir a um momento de tensão, mas a verdade é que os conflitos, o sofrimento e a raiva fazem parte da vida. Quando o pai e a mãe discutem, também estão a mostrar às crianças como é que se deve exteriorizar estes sentimentos. Estão a mostrar-lhes, de forma prática, que aquilo que cada um sente pode e deve ser exteriorizado. Ainda mais importante do que isto, estão a mostrar que se importam com esses sentimentos.

Nem todas as discussões ficam resolvidas no momento. Pelo contrário, às vezes ficamos magoados com aquilo que é dito durante a discussão e/ou arrependemo-nos de algumas das coisas que dissemos. Quando um dos membros do casal toma a iniciativa de pedir desculpa ou faz outra tentativa de aproximação, os ânimos acalmam e a normalidade regressa. Quando as crianças assistem com regularidade a estes ciclos, aprendem a dar voz ao seu próprio sofrimento e à sua raiva com respeito pelo outro e aprendem a fazer o que está ao seu alcance para fazer as pazes.

Discutir (e fazer as pazes) na presença dos filhos pode ajudá-los a regular as próprias emoções e a resolver problemas.


Por outro lado, é importante que nos lembremos de que talvez não seja boa ideia darmos o nosso melhor no sentido de escondermos todos os momentos de tensão, uma vez que as crianças são particularmente sensíveis às nossas flutuações de humor. Qualquer criança de dois ou três anos é capaz de reconhecer quando estamos tristes ou zangados. Se evitarmos expô-las a todos os conflitos, é provável que elas se sintam mais alarmadas, com medo do que possa estar a ser ocultado.



Quando é que as discussões fazem mal às crianças?


Claro que nem todas as discussões são oportunidades de ensinar alguma coisa às crianças. Na verdade, há circunstâncias em que as discussões dos pais representam um perigo para a estabilidade emocional dos filhos. Por exemplo, sempre que um ou os dois membros do casal gritar de forma exacerbada com o outro, se houver insultos ou, pelo contrário, o desprezo for evidenciado sob a forma de amuos ou do “tratamento do silêncio”, as crianças sofrem de forma intensa e desnecessária.

Sempre que o comportamento dos membros do casal traduza desrespeito, as crianças sofrem.


O impacto deste tipo de discussões pode envolver:
Perturbações do sono
Perturbações do comportamento alimentar
Ansiedade
Depressão
Comportamentos desafiantes



Por outro lado, e mesmo que não haja sinais de desrespeito, é importante que os membros do casal prestem atenção à frequência e à intensidade das discussões. Se as crianças se derem conta de que o pai e a mãe estão a discutir de forma frequente e intensa, sentir-se-ão provavelmente muito aflitas.

Esta aflição é ainda maior quando, aos olhos das crianças, o pai e a mãe estão a discutir sobre elas ou por culpa delas. Nós sabemos que as crianças não são responsáveis pelas brigas dos pais, mas é fundamental que tenhamos especial atenção aos conflitos que girem à volta de assuntos relacionados com os filhos. Quando o pai e a mãe discutem sobre o dinheiro que tem de ser gasto com a escola ou com a roupa da criança, podem, involuntariamente, criar a sensação de culpa e promover os níveis de ansiedade.

Quando nos mantemos atentos ao estado emocional das crianças, é mais provável que façamos escolhas conscientes, que nos ajudem a manter a felicidade familiar. Por um lado, isso passa por prestar muita atenção à forma como discutimos e, por outro lado, por manter uma postura de curiosidade genuína em relação aos sentimentos das crianças. Oferecer-lhes a nossa autenticidade e o nosso conforto é um passo importante para que se sintam seguras.

24.4.19

MEDO DE SER FELIZ



Medo de ser feliz


Porque é que, quando tudo corre bem, temos medo que aconteça uma desgraça? O que é que nos impede de viver com alegria as fases da vida em que todas as peças se encaixam?


Numa conversa com o meu marido, falava-lhe sobre o sentimento de gratidão por estarmos ambos envolvidos em projetos que estão a trazer-nos muito prazer e entusiasmo. A resposta dele foi «Não fales já que dá azar». Eu poderia dizer que esta é uma atitude tipicamente portuguesa, mas a verdade é que o medo de ser feliz é algo universal.

Quantas vezes deu por si a olhar à sua volta e a pensar «O trabalho está a correr bem, a minha família tem saúde, os meus amigos são fantásticos, a minha relação está num momento tão bom... Que desgraça estará para acontecer?», estragando automaticamente um momento que poderia ser de felicidade e gratidão?

Boa parte deste processo está relacionado com a neurofisiologia do nosso cérebro. Nós estamos neurologicamente programados para reconhecer potenciais ameaças à nossa sobrevivência e responder em conformidade. É esta capacidade que nos salva quando prestamos atenção aos reais sinais de perigo e reagimos - lutando ou fugindo. Mas…

Aquilo que nos protege das ameaças verdadeiras também pode funcionar como uma armadilha e comprometer a nossa felicidade.


Se há algo que as pessoas mais otimistas têm em comum é o reconhecimento de que a realidade pode ser olhada de múltiplas formas. A história que nós contamos a nós próprios a propósito de um acontecimento que vivemos tem uma influência direta sobre a forma como nos sentimos.



Quando olhamos à nossa volta e nos sentimos
felizes com aquilo que temos, é possível que
o nosso cérebro nos trapaceie inundando-nos
de pensamentos negativos. Se prestarmos
atenção e identificarmos esses pensamentos
como PENSAMENTOS e não como ameaças
reais, é mais provável que consigamos estender
o sentimento de gratidão e que nos sintamos
genuinamente felizes, sem medo.



Uma das práticas que mais me tem ajudado, quer pessoalmente, quer no meu trabalho clínico, é a meditação Mindfulness. Quando paramos de propósito para meditar, estamos a dar ao nosso cérebro a possibilidade de se exercitar, tal como fazemos com o nosso corpo.

Por outro lado, quando nos habituamos a fazer pausas com regularidade "apenas" para prestar atenção às coisas pelas quais nos sentimos genuinamente gratos, sentimo-nos invariavelmente mais felizes. Isto não tem nada a ver com "dourar a pílula", escondermo-nos dos problemas ou resignarmo-nos a uma vida sem ambição. Tem a ver, isso sim, com a possibilidade de nos permitirmos olhar para a realidade de forma objetiva, com atenção plena às coisas e às pessoas que valorizamos e com uma curiosidade gentil em relação aos sonhos que queremos conquistar.

8.4.19

QUANDO A PAIXÃO ACABA


Quando a paixão acaba

O que é que acontece às relações quando a paixão acaba? Porque é que é tão difícil manter uma relação feliz e duradoura? O que é que podemos fazer para manter viva a chama da relação?


A paixão acaba mesmo?


É verdade. A paixão e o conjunto de alterações que a acompanham duram, no máximo, dois anos. Se, por um lado, temos pena de deixarmos de olhar para a pessoa que escolhemos num estado de euforia quase permanente, a verdade é que seria muito difícil viver sempre nesse estado. Tal como tenho referido noutros textos, a paixão é uma espécie de “demência”, já que algumas das alterações que acontecem no nosso cérebro fazem com que atuemos de forma mais impulsiva, menos ponderada. É uma “demência” boa que, na prática, faz com que corramos mais riscos e estejamos muito menos atentos ao resto dos nossos papéis.

O que é que acontece às relações quando a paixão acaba?


Quando a paixão acaba, algumas relações acabam também. Nem todas as pessoas têm maturidade (ou vontade) para construir uma relação de compromisso, pelo que, quando a ativação fisiológica desaparece, é mais fácil terminar a relação e tentar partir para outra. Mas a maior parte de nós reconhece que a vida é muito mais feliz numa relação em que nos sintamos genuinamente seguros, vivos, amparados e felizes. A maior parte das pessoas que conheço (dentro e fora do consultório) ambicionam construir uma relação feliz e duradoura – uma relação que as faça sentir “em casa” e, ao mesmo tempo, traga a alegria e o entusiasmo da novidade.

Precisamos de segurança e estabilidade tanto quanto precisamos de adrenalina e de aventura e buscamos cada vez mais o equilíbrio entre estes dois polos para as nossas relações.


Claro que, à medida que o tempo avança e que as borboletas na barriga dão lugar a um estado muito mais sereno também nos damos conta de que a pessoa que está ao nosso lado, por mais fantástica que seja, também tem defeitos, também erra, também nos irrita e também nos magoa. Reparamos que não é perfeita e que não está sempre, sempre “lá” como idealizámos. Nem nós, para dizer a verdade.

Quando uma relação evolui de forma saudável, deixamos de olhar para a pessoa que amamos como o centro do (nosso) mundo e damo-nos conta de que, ainda que ele(a) continue a ser a nossa prioridade, há outras relações em que queremos continuar a investir, há sonhos individuais que queremos cumprir, há vida para além da relação. E está tudo bem.

Porque é que é tão difícil manter um casamento/ uma relação?


Cada relação é única e especial. Cada história tem os seus desafios. Mas a resposta a esta pergunta é relativamente simples:

Manter uma relação feliz e duradoura dá trabalho.


Aquilo que o nosso cérebro nos “obriga” a fazer quando estamos apaixonados é muito mais difícil de fazer quando a paixão acaba: tratar a pessoa que está ao nosso lado como especial, estar mesmo “lá” para ela quando precisa de nós, incentivá-la a lutar pelos seus sonhos, mesmo quando eles a afastam de nós, prestar-lhe muita atenção e responder com afeto aos seus apelos.

O mundo está cheio de boas intenções, mas a verdade é que a maior parte de nós sente-se como um malabarista, com vários pratos no ar, a dar o seu melhor para que nenhum caia ao chão.

Quando é que o amor se transforma em amizade?


A passagem do tempo e o nascimento dos filhos podem fazer com que, para alguns casais, haja uma espécie de adormecimento do erotismo. Em muitos casos, há ternura, há afeto, mas deixa de haver desejo, pelo menos para um dos membros do casal. Para uma minoria, isto pode ser suficiente. Para a maioria dos casais, não.

Os primeiros dois ou três anos depois do nascimento de uma criança podem ser muito intensos para um casal. Às noites mal dormidas e ao cansaço juntam-se as rotinas, as obrigações e um conjunto de novos programas centrados no bem-estar das crianças. É fundamental que nos lembremos que vai levar algum tempo até que as crianças se autonomizem, pelo que nos compete a nós, adultos, fazermos o que estiver ao nosso alcance para manter, de facto, a chama acesa.

Não me canso de referir que as crianças precisam de estabilidade e que a felicidade dos membros do casal é a maior garantia de que a família está segura.

Quais são os sinais de alarme?

Quando…

… há poucas conversas significativas – daquelas em que cada um se sente livre para falar sobre o que sente (dentro e fora da relação);
… pelo menos um dos membros do casal começa a ter dúvidas (sobre os seus sentimentos ou sobre o futuro da relação);
… um dos membros do casal constrói mentalmente cenários hipotéticos que não incluam o(a) companheiro(a);
… deixa de existir programas românticos/ sem filhos;
… o casal deixa de namorar,

é mais provável que a insatisfação cresça.

O que é que podemos fazer para manter a chama da relação acesa?


A conexão emocional é essencial em qualquer relação, mas é ainda mais importante numa relação amorosa. Sentimo-nos mais felizes quando vivemos com a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado se importa com aquilo que sentimos. Um dos rituais que nos protege são as conversas diárias. No final do dia, no meio dos afazeres, é fundamental encontrar tempo (e paciência) para ouvir a pessoa que está ao nosso lado, mesmo que isso implique ter de prestar atenção a assuntos que não nos interessam. Há uma sensação de pertença impagável que resulta da certeza de que, quando chegarmos a casa, podemos desabafar e falar sobre os nossos sonhos porque há alguém que vai estar lá para nós.

Os rituais de natureza romântica ajudam-nos a continuar a olhar para a pessoa que está ao nosso lado como alguém que é mais do que o nosso parceiro na educação das crianças. As saídas sem filhos (e os serões a dois) são um convite ao namoro, ao erotismo, às conversas de adultos.

Alimentar a individualidade é meio caminho para continuarmos a olhar para nós próprios e para a pessoa que está ao nosso lado com interesse e admiração. Quando nos apaixonamos por alguém, apercebemo-nos de que uma das coisas que nos atrai é o entusiasmo que dedica às suas paixões, a capacidade de lutar pelos próprios objetivos. Numa relação de compromisso é essencial manter o “Eu” vivo. Isso torna-nos pessoas infinitamente mais felizes e interessantes.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Terapia Familiar e de Casal em Lisboa