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19.12.18

O NATAL DEPOIS DA SEPARAÇÃO

O Natal depois da separação


A “época mais bonita do ano” pode ser muito dura para quem passa, pela primeira vez, o Natal longe dos filhos. Se o Natal é a festa da família, recheada de tradições que apelam à união, como é que se gere os sentimentos a propósito da desagregação da família? E o que é que os adultos podem fazer para continuar a colecionar memórias felizes?


Ninguém deseja uma separação. Mesmo quando os sentimentos mudam e a certeza do ‘para sempre' dá lugar à certeza de que já não dá, não é fácil avançar para o divórcio. Quando há filhos, o processo é infinitamente maia doloroso: nenhum pai ou mãe quer imaginar como é deixar de estar presente numa parte das rotinas dos filhos. Quando se trata do Natal, tudo parece desesperante. “Como é que eu vou conseguir viver o Natal sem os meus filhos?”, “Como é que eu vou conseguir incentivá-los a viver esta época com alegria se o meu coração estiver inundado de saudades?”, “E se os meus filhos me culparem por ter estragado as suas memórias à volta do Natal?”.


AS CRIANÇAS ESTÃO BEM QUANDO OS PAIS ESTÃO BEM 


Há uma coisa que não me canso de afirmar no meu trabalho com famílias: as crianças precisam, acima de tudo, da certeza de que o pai e a mãe estão felizes. Não há nada que lhes dê maior segurança emocional. É claro que os pais também se entristecem, também vão abaixo, também têm vulnerabilidades. E é bom que as mostrem. As crianças não são seres de vidro, de quem precisemos esconder todas as dores. Pelo contrário, quando lhes mostramos o nosso sofrimento em doses saudáveis, e, sobretudo, quando lhes explicamos que o sofrimento está associado a um acontecimento específico e que VAI PASSAR, ajudamo-las a gerir as suas próprias emoções , sem perfecionismos nem outros exageros.

É deste ponto que todos os pais e mães podem partir: eles têm o direito de estar tristes por não poderem viver o Natal como sempre o viveram, têm o direito de mostrar essa tristeza e têm o dever de arregaçar as mangas e fazer o que estiver ao seu alcance para se adaptarem a esta nova fase da vida. E as crianças também.

FOQUE-SE NO QUE REALMENTE IMPORTA


Não há volta a dar: se o Natal é a festa da família, a grande responsabilidade dos pais e mães é fazerem o que estiver ao seu alcance para garantir que as necessidades afetivas dos filhos sejam preenchidas.

No Natal, tal como no resto do ano, as crianças precisam de paz.


De que adianta perder tempo com braços-de-ferro, guerras sem fim, se isso contribuir essencialmente para que os filhos se sintam tristes ou inseguros? Imediatamente depois de uma separação as emoções ainda estão à flor da pele e o mais provável é que quase tudo seja um ponto de partida para discussões que nunca mais acabam. Se a isso juntarmos a vulnerabilidade de quem vai passar pela primeira vez pelo menos uma parte do Natal sem os filhos, é fácil adivinhar a tensão.

Mas nenhum atraso, nenhuma alteração de última hora justifica que os adultos se envolvam em conflitos intermináveis capazes de minar a felicidade a que as crianças têm direito (também) nesta época do ano.

MANTENHA AS TRADIÇÕES


Nalguns casos, as crianças passam o Natal com cada um dos lados da família em anos alternados. Noutros, a divisão não é tão drástica e cada progenitor tem direito a um dos dias da quadra (24 ou 25). Tanto numa situação como na outra, os adultos podem focar-se nas tradições que é possível manter. O mais importante é que todos se mantenham empenhados em garantir que os rituais que já faziam parte do imaginário das crianças possam continuar a existir, ainda que com a periodicidade adaptada à nova realidade ou com os devidos ajustes. Se há um membro da família que se costumava vestir de Pai Natal na noite de 24 e as crianças só vão estar presentes no dia 25, talvez se possa repetir a dose nesse dia. As crianças vão gostar da ideia e os adultos vão sentir-se mais felizes por poderem continuar a manter algumas tradições e colecionar memórias felizes.

VIVA A FESTA DA FAMÍLIA EM FAMÍLIA


Se vai estar sem os seus filhos durante, pelo menos, uma parte da quadra natalícia, é natural que se sinta incapaz de se abstrair disso. Quando nos fixamos naquilo que nos desagrada e que não controlamos, esquecemo-nos muitas vezes de prestar atenção a tudo o resto. Há certamente várias pessoas que o/a têm ajudado a sentir-se mais amparado(a) nesta fase da sua vida. São pessoas importantes para si, pelas quais provavelmente se sente grato(a). Cultivar este sentimento de gratidão ajudá-lo(a)-á a adaptar-se à sua nova realidade sem dramas.

O amor está (mesmo) em todo o lado e compete-nos vivê-lo nas suas mais variadas formas. Planeie com antecedência com quem vai querer passar uma parte do seu Natal, escolha com carinho e atenção a melhor forma de mostrar os seus sentimentos por essas pessoas e saboreie a oportunidade de o fazer. Não precisa de escolher os presentes mais caros. Talvez possa até oferecer alguns feitos por si. O melhor da vida é podermos dedicar-nos às pessoas de quem gostamos e que sabemos que gostam de nós.

11.12.18

4 FORMAS DE TERMINAR UMA RELAÇÃO

4 formas de terminar uma relação

Já ouviu falar em Ghosting? E Benching? Há cada vez mais pessoas que ficam “penduradas” em relações em que não há um verdadeiro compromisso... nem deixa de haver. Na prática, a pessoa é confrontada com mensagens ambivalentes e sente-se confusa. Mas também há quem (ainda) opte por terminar a relação de forma convencional.


Tenho encontrado muitas pessoas na minha prática clínica que se sentem confusas, magoadas e, muitas vezes, culpadas pelo rumo da sua relação. De alguma maneira, foram abandonadas, rejeitadas mas, ao mesmo tempo, recebem demonstrações de carinho e de desejo. Ficam muitas vezes em “stand-by”, à espera de uma definição que tarda em acontecer. Noutros casos, o luto demora a ser feito porque a pessoa com quem se relacionavam desapareceu sem dar explicações.


#1: GHOSTING


Imagine que tem uma relação, sente-se cada vez mais envolvido/a e, de repente, sem que nada o fizesse prever, a outra pessoa deixa de atender o telefone, deixa de responder às suas mensagens, deixa de aparecer. Confuso/a? O mais provável é que, numa fase inicial, se sinta perdido/a, preocupado/a com a possibilidade de ter havido algum problema. Depois repara que a pessoa que ontem dizia que o/a adorava, afinal, está online - no Facebook, no Instagram ou no Whatsapp - e escolhe não responder às SUAS mensagens. O mais certo é que se questione sobre a sua responsabilidade: «O que é que EU fiz?».

A maior parte das pessoas que são expostas a estas situações sentem-se muito confusas, têm muitas dúvidas. Mais tarde vem o ressentimento.

Porque é que isto acontece?

O ghosting é a escolha de quem sabe que a relação não está funcionar (para si) mas não tem coragem para enfrentar o sofrimento da outra pessoa.


Na prática, a pessoa opta por virar a página e esconder-se, fingindo que não está acontecer nada. É, evidentemente, uma escolha que traduz a centração em si mesmo/a e o desrespeito pela outra pessoa. 

#2: ICING - BENCHING - ESFRIAMENTO


Neste caso, aquilo que acontece é que um dos membros do casal vai inventando desculpas para cancelar os encontros: «Hoje não vai dar porque estou com muito trabalho», «Quando der, eu ligo». Quando estão juntos, tudo parece perfeito porque há afeto e a aparente vontade de voltarem a encontrar-se mas depois, por telefone, surgem mensagens contrárias.

Porquê?

A pessoa que faz esta escolha sente uma grande necessidade de manter em seu redor alguém que a deseje. Sabe que aquela não é “A” relação que a satisfaz mas mantém a pessoa na “prateleira” para o caso de se arrepender. Entretanto, vai tentando a sua sorte com outras pessoas.

De uma maneira geral, este é o caminho mais rápido para o ressentimento. A pessoa sabe que está a ser rejeitada e sente-se, obviamente, muito magoada.

#3: BANHO-MARIA


Este comportamento é muito semelhante ao anterior mas, neste caso, aquilo que acontece é que a pessoa vai reduzindo os encontros. Isto é, quando estão juntos, está tudo ótimo mas, no final, a pessoa é capaz de dizer «vemo-nos daqui a 15 dias». Também pode acontecer que cancele os planos à última hora sem grande preocupação com os sentimentos da outra pessoa.

Porquê?

A pessoa quer claramente explorar outras opções. Reconhece que a relação não está a funcionar mas gosta da ideia de ter alguma segurança.


Para quem fica pendurado/a, a sensação é a de que algo está muito mal e de que o fim está próximo mas, ao mesmo tempo, a pessoa sente-se confusa e tem dificuldade em desprender-se porque os encontros vão alimentando a esperança.

#4: RUTURA CLARA


A relação acaba de forma clara quando a pessoa consegue dizer «Para mim, já não dá». Idealmente, isto acontece de forma presencial, olhos nos olhos e, ainda que a conversa seja dura, a pessoa faz a sua escolha de forma inequívoca.

Porquê?

Isto só é possível quando a pessoa se conhece suficientemente bem, sabe que aquela relação não vai dar certo e tem confiança em si mesma em relação ao futuro. Isto é, a pessoa toma esta decisão convicta de que, mais cedo ou mais tarde, vai encontrar alguém com quem possa sentir-se mais feliz.

Neste caso, há uma resolução imediata. A situação fica esclarecida, sem qualquer ambiguidade. Claro que há mágoa e pode levar algum tempo até que as duas pessoas queiram voltar a ver-se e/ou serem amigas. Mas o luto é muito mais rápido e a autoestima não é desgastada. Qualquer rutura dói mas tudo se resolve mais rapidamente quando há clareza, honestidade e respeito.

6.12.18

SER A OUTRA

Ser a outra


Quem são as mulheres que “escolhem” ser a outra? Serão elas as culpadas pela destruição dos casamentos? Quais são as vantagens e desvantagens de ser a outra? E porque é que é tantas vezes difícil terminar a relação?


Os homens traem e as mulheres também. Há homens que são “o outro” mas é muito mais raro que essas relações se eternizem. Pelo meu consultório passam muito mais mulheres que estão há anos – às vezes há décadas – numa relação sem futuro. É raríssimo que estes pedidos de ajuda surjam da parte de um homem.


QUEM SÃO ESTAS MULHERES E POR QUE ESCOLHEM SER A OUTRA?


A resposta poderia ser simples: são mulheres como as outras, que amam e querem sentir-se amadas. Nalguns casos, são mulheres que se apaixonaram muito antes de saber que aquela pessoa era casada e que, pelo menos numa fase inicial, também foram enganadas. Claro que também tenho conhecido mulheres que se sentem mais confortáveis neste tipo de relações, com menos amarras, com menos obrigações, MAS essa é claramente uma minoria.

A maior parte das mulheres que se envolvem com um homem casado querem uma relação de compromisso e sofrem por não a terem.


Muitas vezes alimentam a esperança de que o homem por quem se apaixonaram as escolha e saia de casa. Muitas são manipuladas durante anos e vão acreditando que esse dia chegará.

Na maior parte dos casos, trata-se de mulheres com baixa autoestima, com muitos pensamentos distorcidos acerca de si mesmas. Em muitos casos, há um elemento comum: uma infância marcada pela distância emocional na relação com o pai.

E OS HOMENS: POR QUE ESCOLHEM MANTER ESTA VIDA DUPLA?


Se há algo que qualquer psicólogo ou terapeuta conjugal que trabalhe com situações de infidelidade reconhecerá é que há vários “tipos” de infidelidade. Há quem vá à procura de sexo, de novidade e da aventura que se perdeu no casamento. Mas também há quem busque sobretudo a conexão emocional. Há quem tenha vários(as) amantes ao mesmo tempo e há quem mantenha uma verdadeira vida dupla ao longo de décadas.

De uma maneira geral, a infidelidade tem mais a ver com aquilo que a pessoa que trai precisa para se sentir viva, desejada, especial do que com qualquer problema no casamento. E é também por isso que, para algumas pessoas, não faz sentido terminar a relação. Na verdade, as pessoas que são aparentemente felizes no casamento também traem.

QUAIS SÃO AS VANTAGENS E AS DESVANTAGENS DE SER A OUTRA?


É fácil reconhecer que estas são relações onde não há monotonia e onde a novidade está muito presente MAS é difícil olhar para este facto como apenas uma vantagem. Na prática, a ausência de rotinas também é uma desvantagem e, no fim das contas, acaba por ser precisamente uma das queixas mais comuns nestas mulheres.

De um modo geral, nós precisamos de saber com o que é que podemos contar, precisamos de segurança emocional, precisamos que haja rituais que possam ser concretizados a dois e que alimentem a relação. E nada disto existe numa relação extraconjugal.

Não há a possibilidade de sair para namorar em público. Não há a possibilidade de conhecer os amigos e a família alargada da pessoa de quem se gosta. Não há a certeza de um abraço nos momentos mais difíceis.


Além de tudo isto, há quase sempre muitos sonhos que ficam por concretizar. Perdi a conta ao número de mulheres que foram adiando o sonho da maternidade à espera que o homem que amavam decidisse finalmente sair de casa e que, em função disso, deixaram de o poder concretizar.

PORQUE É QUE É TÃO DIFÍCIL TERMINAR ESTAS RELAÇÕES?


Tal como acontece a propósito de qualquer outra relação, quando alguém ama e investe num compromisso é difícil lidar com a sensação de vazio a propósito da rutura. Mas neste casos a aflição pode ser maior por haver uma deterioração da autoestima ao longo da relação. Muitas vezes, a mulher convence-se de que mais ninguém a vai querer e/ou de que não voltará a amar ninguém «daquela maneira».

Dizer «Basta» não é fácil mas é a única forma de dar início a um caminho que traduza maior respeito por si mesma.

Para isso, é importante fazer algumas escolhas que ajudem a fortalecer a autoestima e a seguir em frente: dar os passos possíveis para a concretização de todos os objetivos para lá de uma relação amorosa, cumprir com disciplina as atividades que promovam o bem-estar e recuperar as ligações com familiares e amigos que possam ter ficado para segundo plano pelo caminho.

4.12.18

INFIDELIDADE E DIVÓRCIO

Infidelidade e divórcio

A infidelidade tem de levar ao divórcio? Porque é que há pessoas que escolhem ficar na relação depois da traição? Serão tontas? Masoquistas? E, afinal, a infidelidade é mesmo a maior forma de traição?

Quando comecei a trabalhar em terapia familiar, a maior parte das pessoas traídas sentiam-se muito pressionadas para manter o casamento. Há quase vinte anos, era mais comum que os familiares e amigos tentassem tudo para que o casal se mantivesse unido, sobretudo em nome da estabilidade emocional dos filhos. Às vezes essa pressão tinha um preço muito alto: para algumas pessoas, a dor que sentiam e a vontade de terminar a relação não eram compreendidas nem bem vistas.

Nos últimos anos a forma como olhamos para o amor, para as relações e até para o divórcio mudou muito. Conhecemos cada vez mais pessoas separadas, percebemos que, na maior parte dos casos, estas pessoas voltam a amar e convivemos de forma mais pacífica com o divórcio.

E EM RELAÇÃO À INFIDELIDADE?O QUE É QUE MUDOU?


Todos os dias trabalho com casais que passaram pela experiência da infidelidade. Na maior parte dos casos, os pedidos de ajuda chegam pouco tempo depois da revelação da traição e o sofrimento é claro. Continuamos a investir muito nas relações amorosas e a última coisa que nos passa pela cabeça é que possamos fazer parte das estatísticas da infidelidade.

Mudou muita coisa a propósito da infidelidade. Passámos a falar cada vez mais de infidelidade emocional, das muitas formas de traição e dos limites que cada casal pode definir, de acordo com os seus sentimentos e as suas necessidades. Mas em nenhum momento passámos a olhar para a infidelidade como algo menos doloroso.

A infidelidade dói e só quem já foi traído(a) conhece a tristeza, a insegurança e até a raiva que estão associadas a um acontecimento como este.


“TENS DE TE DIVORCIAR”


Quase todas as pessoas traídas pensam em separar-se. No momento em que a verdade é conhecida, é comum que os sentimentos sejam tão intensos que essa pareça a única alternativa viável. Mas a maior parte das pessoas acabam por reconsiderar, acabam por ter dúvidas e acabam sobretudo por perceber que, apesar do sofrimento provocado pela infidelidade, o amor não desapareceu de forma instantânea.

Ao contrário do que acontecia há alguns anos, muitas pessoas traídas sentem vergonha em assumir que estão a dar uma oportunidade à sua relação. Sentem-se pressionadas a avançar para uma separação, como se essa fosse efetivamente a alternativa que melhor se ajusta à nova realidade. E é aqui que convém lembrar: só nós sabemos aquilo que sentimos, aquilo de que precisamos. Cada um de nós.

Cada pessoa deveria ser livre para prestar atenção aos próprios sentimentos e necessidades e fazer uma escolha livre, consciente, sem qualquer pressão.


DEPOIS DA INFIDELIDADE:É POSSÍVEL MUDAR PARA MELHOR


Eu sei que sou suspeita porque trabalho com casais que lutam para manter a sua relação, mas a verdade é que há muitas pessoas para quem esse é efetivamente o caminho que vale a pena fazer. E não me refiro a qualquer tipo de resignação ou condenação. Refiro-me, isso sim, a quem escolhe, de forma consciente, tentar uma reconciliação e ser mais feliz naquela relação.

Uma das coisas que oiço com frequência da parte dos casais que estão a passar pelo terramoto de uma traição é que nas semanas que sucederam à descoberta da infidelidade conversaram mais do que nos anos anteriores. Pode parecer estranho, mas é mesmo muito fácil entrar no modo “piloto-automático” e permitir que as rotinas, as obrigações tomem conta de tudo.

Há muitas pessoas que se mantêm casadas sem se questionar se estão GENUINAMENTE felizes.


Vão andando. Muitas vezes, sem que a comunicação seja propriamente muito profunda, sem que haja verdadeira conexão física e emocional.

Quando surge a notícia de uma infidelidade, fala-se sobre TUDO. Tudo vem à tona, muitas vezes de forma bruta, desorganizada. Mas, para muitos casais, este terramoto tem, pelo menos, essa mais-valia: a de, finalmente, conseguirem deitar cá para fora tudo o que sentem.

E é a partir daqui que muitas vezes se dão conta de que ainda há amor e que a vontade de trabalhar para que a relação dê certo é maior do que a vontade de colocar um ponto final.

AS PESSOAS TRAÍDAS QUE ESCOLHEM FICAR NA RELAÇÃO SÃO MASOQUISTAS?


Quando falamos de infidelidade, não falamos apenas de traição física. Aliás, para muitas pessoas essa nem é a parte mais significativa do problema. E quando falamos da relação afetada pela traição, não falamos apenas de sexualidade. É evidente que a traição dói sobretudo porque a pessoa que trai é muito mais do que o amante, o companheiro sexual. De uma maneira geral, a pessoa que trai é efetivamente o companheiro de uma vida, a pessoa em quem mais confiamos, aquela de quem menos esperávamos qualquer quebra de confiança.

Mas também é por isso que pode não fazer sentido colocar um ponto final à relação. Para muitas pessoas, continua a fazer sentido olhar para o(a) companheiro(a) e ver a pessoa para lá do erro que foi cometido.



Aquela é, muitas vezes, a pessoa que esteve “lá”
durante as crises, nos momentos de luto, nas alturas
em que nos sentimos mais desamparados. É a pessoa
que ama os filhos e que se dedica à família com
inúmeras demonstrações de genuíno altruísmo. É a
pessoa que esteve presente nos períodos de doença
e de vulnerabilidade. Como é que se deixa, com
facilidade, uma relação com alguém assim?



Quem escolhe ficar, de uma maneira geral, não é tonto nem masoquista. Fá-lo por respeito aos seus próprios sentimentos, por reconhecer a importância que a pessoa que traiu tem e pode continuar a ter na sua vida.

A INFIDELIDADE É A MAIOR FORMA DE DESRESPEITO OU TRAIÇÃO?


Para a esmagadora maioria das pessoas que passam pela experiência da infidelidade, esta é efetivamente a maior perda por que já passaram. É a maior quebra de confiança, o exemplo de maior desrespeito. A maior traição. Mas isso não significa – nunca – que este seja o acontecimento mais traumático na vida de um casal. Não significa, sequer, que a dor que lhe está associada tenha sido provocada de forma totalmente consciente e muito menos propositada.

A infidelidade é uma escolha, sim. E é uma escolha que viola o compromisso que existia, que magoa, que debilita. Mas há muitas outras formas de desrespeito e de traição. Algumas mais traumáticas, algumas intencionalmente traumáticas.

Há pessoas que se mantêm casadas e que nunca foram genuinamente companheiras. Há casais que estão juntos e que se sentem profundamente desamparados, desrespeitados e até deprimidos – ao longo de toda a vida.

A infidelidade é e vai continuar a ser um dos acontecimentos mais difíceis na vida de uma família. Há quem traia e não se arrependa de o ter feito. Há quem traia e se arrependa. Há quem se sinta devastado e escolha, de forma consciente, que a rutura é o melhor caminho. Há quem se sinta perdido e, ainda assim, faça a escolha de ficar e tentar ser feliz naquela relação. Cada um deve procurar olhar para dentro – de si mesmo, da própria relação – e fazer as escolhas que traduzam as próprias necessidades, sem qualquer pressão.

3.12.18

AMO O MEU MARIDO MAS PRECISO QUE ELE MUDE

Amo o meu marido mas preciso que ele mude


Quase todos os pedidos em terapia de casal se assemelham a este “grito” de ajuda. Mas será que é este o caminho para uma relação mais feliz? Será que tudo passa pela capacidade de mudança de um dos membros do casal?


A maior parte dos casais que me pedem ajuda entraram, sem querer, no círculo vicioso da “caça ao culpado”. Quando a relação não está bem, quando pelo menos um dos membros do casal reconhece que não está feliz, é fácil cair em discussões perigosas nas quais as queixas se transformam em críticas e ataques pessoais que por sua vez têm como resposta uma postura defensiva e/ou de contra-ataque. De repente, já ninguém está capaz de empatizar com os sentimentos do outro e muito menos de assumir qualquer responsabilidade.

Refiro-me muitas vezes à importância de nos queixarmos, de darmos voz àquilo que sentimos e às nossas necessidades e insisto na mais-valia que está associada à escolha de nos vulnerabilizarmos perante a pessoa que amamos. Mas também digo muitas vezes que isso não é fácil. Porque sempre que nos queixamos, a pessoa que está ao nosso lado também se sente vulnerável, insegura. E, quando permitimos que as emoções tomem conta de nós (em vez de sermos nós a tomar conta delas), é fácil criar equívocos e transmitir a ideia de que está tudo errado.

QUANDO A RELAÇÃO NÃO ESTÁ BEM:
CADA UM PODE ASSUMIR RESPONSABILIDADES


Passa mais tempo a imaginar o que é que o seu companheiro vai dizer, como é que ele(a) vai reagir aos seus apelos do que a analisar o seu próprio comportamento? Acredite, esse não é o caminho para uma relação feliz. As suas queixas são válidas e é importante que as verbalize para construir uma relação verdadeiramente íntima MAS é fundamental que evite atribuir todas as culpas dos problemas da relação às características de personalidade da pessoa que ama.

É preciso que nos afastemos do paradigma «Como é que eu posso “consertar” o meu companheiro?» e que olhemos para as dificuldades de forma mais ampla e justa.


Todas as pessoas têm defeitos, hábitos irritantes. E, quando algumas das nossas necessidades afetivas ficam por preencher, é mesmo muito fácil olhar para as falhas da pessoa que está ao nosso lado com uma espécie de lupa, exacerbando-as, e dificultando o reconhecimento de todas as outras características e hábitos que nos levaram a apaixonar-nos por ela.

No filme Enough Said (Basta de Conversa), esta questão está muito bem ilustrada. A protagonista conhece um homem por quem se apaixona e, pouco tempo depois, conhece a sua ex-mulher. Sem revelar o seu recente relacionamento, começa a ouvir as inúmeras queixas da nova “amiga” a propósito do ex-marido e, sem dar por isso, começa a olhar para o namorado de forma cada vez mais negativa. Aos poucos, o seu comportamento muda: torna-se cada vez mais “implicativa” com hábitos que, até aí, não lhe faziam impressão.

Na vida real isto também acontece:

Quanto mais nos fixamos, às vezes de forma obsessiva, nas falhas da pessoa por quem nos apaixonámos, mais facilmente perdemos a capacidade de apreciar as suas qualidades, de a valorizar de forma justa.


Mas há mais: quando isto acontece, o nosso próprio comportamento muda e aquilo que passamos a dar à relação também. Diminuem os gestos de afeto, diminuem as palavras carinhosas, diminui a capacidade de fazer com que a pessoa que está ao nosso lado sinta que nos importamos com ela. E é a partir daqui que se instalam os círculos viciosos mais destrutivos para qualquer relação: cada um sente-se cada vez mais desconectado e vai investindo cada vez menos.

QUANDO A RELAÇÃO NÃO ESTÁ BEM:
O QUE É QUE CADA UM PODE FAZER?


Se a sua relação tem dado sinais de alarme, se se sente menos feliz, há boas notícias. A ciência nesta área é muito clara em relação àquilo que podemos fazer para reverter os círculos viciosos e voltarmos a sentir que há conexão física e emocional com a pessoa por quem nos apaixonámos:

#1: INVISTA NOS GESTOS DE AFETO E NAS DEMONSTRAÇÕES DE ADMIRAÇÃO.

Obrigue-se a prestar atenção às qualidades do seu companheiro – mesmo nas alturas em que se sente inundado(a) de raiva pelas suas falhas – e manifeste em voz alta esses sentimentos positivos várias vezes ao dia. A ideia não é bajular a pessoa que está ao seu lado mas sim olhar para a relação de forma real, justa e equilibrada.

#2: DEIXE-SE INFLUENCIAR PELO SEU COMPANHEIRO 

Preste MUITA atenção aos comentários do seu companheiro e dê o seu melhor no sentido de encontrar pontos de acordo. Evite tentar provar que você é que tem razão.

#3: ULTRAPASSE OS IMPASSES

É muito, muito fácil mantermo-nos em braços-de-ferro intermináveis quando insistimos em padrões de relacionamento que só nos prejudicam, como é o caso da “caça ao culpado” em que um dos membros do casal insiste em tentar mudar o outro e este resiste, defendendo-se.

#4: VALORIZE O PROJETO A DOIS

Preste atenção aos valores que partilha com o seu companheiro, aos hábitos que construíram a dois e que tornam a sua vida mais feliz. Reflita sobre os sonhos partilhados, sobre o projeto que idealizaram juntos e que muito provavelmente continua a fazer sentido para si.

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