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23.5.18

O SEXO NUMA RELAÇÃO DURADOURA



Ter uma relação apaixonada e duradoura, onde haja o toque, o desejo e a conexão dos primeiros tempos é um dos objetivos de vida da maior parte das pessoas. Mas a rotina, os compromissos, o stress, os filhos, o cansaço e, claro, a falta de tempo podem atrapalhar a vida de qualquer casal, condicionando a satisfação sexual. O que é que cada pessoa pode fazer para melhorar a vida sexual? Quais são os hábitos que nos ajudam a manter a chama acesa?


As duas queixas mais frequentes nos homens (a propósito da relação) são: «Há demasiadas discussões» e «Há pouco sexo». Já as mulheres queixam-se de duas coisas diferentes: «Ele não está lá para mim» e «Não há intimidade (emocional) suficiente». Mas será que estas queixas são assim tão diferentes? Na minha prática clínica tenho confirmado aquilo que a ciência nesta área tem mostrado: A satisfação emocional está diretamente relacionada com a satisfação sexual. Homens e mulheres precisam de se sentir ligados e buscam essa conexão. O que acontece é que os homens sentem mais a intimidade emocional quando há proximidade sexual. E as mulheres sentem mais a intimidade sexual quando há conexão emocional.

O QUE É QUE OS CASAIS FELIZES FAZEM PARA SE SENTIREM SATISFEITOS EM RELAÇÃO AO SEXO?


Pode achar-se que é tudo uma questão de experimentar coisas novas – e também é. Mas não é só isso que nos permite sentirmo-nos satisfeitos sexualmente.



Uma das coisas mais interessantes que as investigações na área das relações amorosas nos permitiram conhecer foram os hábitos que nos ajudam a sentirmo-nos genuinamente vivos e entusiasmados numa relação – mesmo ao fim de décadas.

Hoje sabemos que os casais que se sentem sexualmente satisfeitos – em qualquer parte do mundo – costumam:

Dizer aquilo que sentem um pelo outro regularmente.
Beijar-se de forma apaixonada sem “motivo”.
Trocar presentes românticos.
Saber exatamente aquilo que alimenta o desejo do companheiro
(e o que é que o apaga).
Trocar gestos de afeto – mesmo em público.
Divertir-se a dois.
Abraçar-se com frequência.
Fazer do sexo uma prioridade
(em vez de colocar o assunto no fim da lista de “coisas a fazer”). 
Ser amigos um do outro.
Conversar abertamente sobre a sua vida sexual
(aquilo de que cada um gosta, as fantasias).
Sair a dois com regularidade.
Fazer férias a dois
(às vezes são fins-de-semana).
Preocupar-se um com o outro de forma intencional.

O QUE É QUE FAZ COM QUE O SEXO VÁ PIORANDO?




Há casais com filhos pequenos, pais a precisar
de ajuda e empregos exigentes para quem o sexo
vai deixando de ser uma prioridade. E há casais
nas mesmas circunstâncias que continuam a
alimentar a relação – apesar de todo o trabalho
que isso dá - e a sentir satisfação sexual.



Hoje sabemos que os casais que descrevem sentir-se menos satisfeitos do ponto de vista sexual costumam:

Passar pouco tempo juntos durante a semana de trabalho.
Centrar-se excessivamente no trabalho (eles) e nos filhos (elas). 
Conversar sobretudo sobre as “coisas que há para fazer”.
Dar prioridade a tudo menos à relação.
Afastar-se e levar vidas paralelas.
Prestar pouca atenção à importância de se preocuparem um com o outro.

OS CASAIS FELIZES TAMBEM TRAEM


Já o escrevi AQUI. Há uma diferença muito significativa entre não termos discussões acesas com o companheiro e sentirmo-nos vivos e entusiasmados na relação. Qualquer pessoa que esteja casada (ou comprometida) há 10 ou 20 anos sabe que é muito fácil haver companheirismo sem que haja chama. Para que o entusiasmo se mantenha, é fundamental que nos mantenhamos MESMO atentos àquilo que a outra pessoa vai revelando – às suas preocupações (mesmo aquelas que nos parecem ridículas), aos seus sonhos, às suas ambições, àquilo que a entusiasma.



Se nos centrarmos apenas naquilo que nos dá
prazer (dentro e fora da intimidade sexual), sem
curiosidade em relação àquilo de que o outro
gosta, se nos acomodarmos à ideia do que já
conhecemos e se confiarmos na “história” da
relação, desvalorizando a importância da novidade
e o facto de todos nós mudarmos ao longo do tempo,
é muito mais provável que tenhamos sarilhos.



Manter uma relação viva dá trabalho. Implica uma postura de curiosidade constante, implica a vontade de agradar (mesmo que isso implique sair algumas vezes da nossa zona de conforto), implica que nos revelemos sem medo e implica que mantenhamos os olhos abertos.

Algumas pessoas dão por si a querer experimentar coisas novas – dentro e fora da intimidade sexual – mas sentem medo de partilhar estas mudanças com o companheiro. Têm medo de ser julgadas, têm medo de se sentirem rejeitadas, têm medo que isso as afaste. Mas as coisas tendem a acontecer ao contrário. Se insistirmos em tentar calar as mudanças que vão acontecendo dentro de nós e se as escondermos da pessoa em quem teoricamente mais confiamos, tenderemos a sentir-nos cada vez mais afastados dela.

Manter uma relação com a chama acesa também passa por reconhecer que a segurança emocional precisa de andar de mãos dadas com a liberdade de experimentar, inovar. E, isso sim, faz-nos sentir vivos.

21.5.18

OS TELEMÓVEIS ESTÃO A PREJUDICAR AS RELAÇÕES AMOROSAS?


Por um lado, há cada vez mais histórias de amor que começaram com um pedido de amizade no Facebook, um match no Tinder ou uma troca de mensagens no whatsapp. Por outro, há cada vez mais pessoas que se queixam porque a pessoa com quem vivem adormece e acorda agarrada ao telemóvel. E pelo meio ainda ouço diariamente inúmeros casos de infidelidade que começaram ou foram descobertos através do telemóvel. Os smartphones vieram para ficar. Será que estão a prejudicar as relações amorosas?


Quase todos os casais com quem trabalho têm queixas a propósito da utilização do telemóvel. Há quem se queixe porque houve uma infidelidade e o uso do telemóvel passou a ser mais uma fonte de insegurança – independentemente de a traição ter começado nas redes sociais ou não -, há quem se queixe porque se sente só, dada a utilização que o companheiro faz do aparelho. Mas curiosamente, quase todas as pessoas assumem que o telemóvel já serviu para alimentar a própria relação.



É POSSÍVEL ENCONTRAR A PESSOA CERTA NO TINDER OU NO FACEBOOK?


A tecnologia trouxe algo de extraordinário à vida da maior parte dos adultos que conheço: a possibilidade de se ligarem a muitos outros adultos, inclusive do ponto de vista amoroso. Não é fácil conhecer (muitas) pessoas novas quando se deixa de estudar e é ainda mais difícil encontrar alguém com quem haja química. As aplicações como o Tinder ou o Facebook trouxeram um mundo de oportunidades. De repente, passou a ser possível conectarmo-nos a muito mais pessoas.

Claro que, e tal como acontece na vida fora das redes, este mundo de oportunidades também implica um mundo de expectativas. É verdade que a maior parte das pessoas, mais cedo ou mais tarde, desejam viver histórias românticas com significado, desejam ligar-se intensamente a alguém. Mas nem todas as pessoas acedem a estas aplicações apenas com esse propósito. Há muita gente à procura daquilo a que eu chamo de relações “fast food”.

Há quem queira divertir-se e experimentar o máximo que puder, sem intenção de se comprometer, há quem se inscreva com a expectativa de encontrar um companheiro para a vida e há muitos outros perfis pelo meio.

Para além do desafio de não se saber quais são (realmente as expectativas de quem está do outro lado, há um outro desafio associado a estas aplicações: a oferta é tanta que, a páginas tantas, pode ser difícil fazer uma escolha. Será que devo tentar alguma coisa com esta pessoa quando há tanta gente aparentemente tão interessante? O processo pode ser extenuante.

É por isso que, mais cedo ou mais tarde, há que decidir. Há que arriscar. Temos de ser capazes de reconhecer que aquilo que o digital nos oferece é uma pequena montra do mundo de cada pessoa.



É claro que é possível conhecer alguém através destas aplicações que venha a tornar-se “o/a tal”. Ou, pelo menos, uma das pessoas da nossa vida. Para isso importa que haja uma definição muito clara das próprias expectativas, um profundo respeito pelas próprias necessidades e a capacidade de arriscar e tomar decisões.

NOVA DEFINIÇÃO DE SOLIDÃO


Já perdi a conta ao número de pessoas que me disseram frases como «Ele(a) não larga o telemóvel». Normalmente, a esta queixa segue-se uma postura defensiva em jeito de contra-ataque: «Tu também estás sempre agarrado(a) ao telemóvel» ou «Olha quem fala».

A verdade é que todos nós já cometemos erros associados ao uso do telemóvel. São comportamentos que podem prejudicar as nossas relações muito mais do que possamos imaginar.

Quando nos sentimos vulneráveis, quando precisamos de atenção ou pura e simplesmente quando temos vontade de partilhar um momento importante, esperamos que a pessoa de quem gostamos se volte para nós e nos mostre que está “ali” por inteiro. Precisamos que mostre de forma clara que está a prestar muita atenção ao que quer que tenhamos para dizer. Mas quantos de nós já não cedemos à tentação de agarrar no telemóvel a meio de uma destas conversas “só” para espreitar uma mensagem que acabou de cair? Quantas vezes dissemos «Eu estou a ouvir-te» com os olhos colados ao ecrã? 

Há dias uma paciente dizia-me que quando se queixava deste tipo de situações, o marido reproduzia a sua última frase para “provar” que estava atento. Será disto que precisamos? Claro que não!

Ninguém precisa de uma prova de que aquilo que está a ser dito esteja a ser memorizado. Não é assim que se constrói ligações.



Passou a ser possível sentirmo-nos profundamente sós, mesmo que a pessoa de quem gostamos esteja fisicamente ao nosso lado. 

TECNOLOGIA NO QUARTO


Começámos por desculpar-nos com o facto de o telemóvel ter substituído os despertadores convencionais e depois relaxámos e habituámo-nos à ideia de levar os smartphones para o quarto. Há até quem durma com o telemóvel debaixo da almofada. Como é que estas escolhas afetam as nossas relações? Terão uma relação direta com a intimidade sexual?

A resposta é simples: se permitirmos, sim.

Há algo que muda no nosso cérebro quando estamos permanentemente ligados. Deixamos de conseguir focar-nos no momento presente, de apreciar o aqui e agora. É como se estivéssemos ligados à eletricidade.

Como é que vamos parar para namorar, para conversar, para nos ligarmos genuinamente a outra pessoa se estivermos com a mente a mil? Não paramos. Podemos obrigar o nosso corpo a entregar-se ao sabor de um beijo apaixonado mas o mais provável é que não sintamos nada se o nosso pensamento estiver no e-mail que acabou de chegar e a que será preciso responder logo que aquele momento “romântico” termine ou na mensagem de whatsapp que se fez soar e que ainda não sabemos de quem é.

TENTAR MUDAR


Mesmo que (ainda) não existam problemas sérios na relação, podemos fazer alguns testes e avaliar as mudanças que surgem. Aquilo que tenho observado é que, numa semana, é possível observar mais-valias. Quando nos comprometemos – a dois – com gestos simples como desligar os dados do telemóvel nas saídas a dois, deixar os telemóveis na sala antes de ir para o quarto ou falar ao telemóvel e deixarmos que a voz da pessoa de quem gostamos nos conforte em vez de trocar dezenas de mensagens por dia, damo-nos conta de que é possível ligarmo-nos realmente à pessoa de quem gostamos e que isso nos pode fazer sentir muito mais vivos.

16.5.18

INFIDELIDADE: E DEPOIS?


Quem passa pela experiência da infidelidade, dificilmente permanece o mesmo. A traição, que pode assumir diversas formas, é quase sempre um acontecimento marcante, muitas vezes traumatizante. Nos dias de hoje, o que é que pode ser considerado uma traição? E como é que se vive depois disso?


Oitenta por cento das pessoas foram ou serão afetadas de alguma forma pela infidelidade. Entre as pessoas que traem, as pessoas que são traídas, os filhos que sabem da traição do pai ou da mãe, os filhos que resultam de uma relação extraconjugal e os amigos ou familiares que tomam conhecimento da traição antes da pessoa traída, o que é difícil é que a infidelidade não faça parte das nossas vidas.

O QUE É A INFIDELIDADE?


O que é que pode ser considerado uma infidelidade? Conversar com um ex-namorado no Facebook ou no Whatsapp é traição? Ter um perfil no Tinder é traição? Fantasiar com um colega de trabalho é traição?

A definição de infidelidade continua em expansão. Há cada vez mais formas de nos sentirmos traídos e há formas cada vez mais elaboradas de apanhar alguém a trair. A minha experiência mostra-me que esta é uma definição ajustada de infidelidade:


A infidelidade é um conjunto de esforços
feitos em segredo e
sem o conhecimento do companheiro.


Se repararmos, há 3 elementos incluídos em todas as formas de infidelidade:

Esforço. Há sempre algum envolvimento emocional. Há sempre um conjunto de esforços, nem que seja para manter a situação em segredo.

Segredo. A pessoa que trai não fala sobre o seu comportamento e, de uma maneira geral, fá-lo em total secretismo. Por norma, esse secretismo aumenta a intensidade da relação. É aí que reside normalmente uma boa parte do desejo.

Não consensual. Se a relação extraconjugal for consensual, não é infidelidade. Só nos sentimos atraiçoados quando a escolha é feita contra aquilo que estava acordado – mesmo que o acordo de fidelidade nunca tenha sido verbalizado.



Quando o marido mantém abertas as contas no Tinder ou noutras aplicações de encontros sem a mulher saber, pode não estar conscientemente à procura de sarilhos mas… o mais provável é que os arranje. 

A INFIDELIDADE TEM MAIS A VER COM DESEJO
DO QUE COM SEXO


Ao contrário do que se possa pensar, nem todas as pessoas que traem vivem num casamento sem sexo ou sem amor. A distância física e emocional entre os membros do casal abre espaço para o aparecimento de uma terceira pessoa mas essa está longe de ser a realidade de todos os casais que passam pela experiência da infidelidade.

De resto, a sensação de que o chão desabou pode ser ainda maior quando se vive com a certeza de um amor verdadeiro e se é apanhado de surpresa por uma traição.

A minha experiência clínica mostra-me que a maior parte das histórias de infidelidade têm mais a ver com o desejo do que com o sexo.

O que é que isto significa?

A relação extraconjugal está sobretudo relacionada com a necessidade de se ser visto, de receber (muita) atenção, de se sentir desejado, de ser importante para alguém, de ter alguém que se importe, de se sentir vivo. Não me canso de dizer: esta é a frase que mais ouço a propósito de histórias de infidelidade.

A pessoa que trai, e que nem sempre estava à procura de alguma coisa, descreve a sensação de voltar a «sentir-se viva». É essa alquimia, esse desejo que acabam por ser arrebatadores e que podem apanhar a própria pessoa desprevenida.

Tal como acontece quando nos apaixonamos e estamos solteiros, não é preciso sequer que haja contacto físico para que surja a sensação de êxtase.



O QUE MUDA DEPOIS DA INFIDELIDADE


Nem todas as relações acabam depois de uma infidelidade. Há muitos casais que optam por tentar salvar a relação precisamente por admitirem que, apesar do terramoto que ela representa, ainda há amor e vontade de reconstruir a relação.

Por norma, esta crise desencadeia um turbilhão de emoções e acaba por abrir espaço para conversas que nunca aconteceram. É muito frequente ouvir as pessoas que me pedem ajuda dizerem-me que conversaram mais nos dias ou semanas que antecederam a primeira consulta do que em toda a relação.

A verdade é que, apesar de toda a boa-vontade, nem sempre prestamos atenção aos nossos sentimentos, às nossas necessidades afetivas e àquilo de que precisamos para continuarmos a sentirmo-nos vivos. Entre a multiplicidade de papéis e obrigações, entre os mais variados compromissos a que tentamos dar resposta, nem sempre colocamos a relação conjugal no topo das nossas prioridades.

Às vezes parece mais fácil ir “empurrando com a barriga”, à espera que alguma coisa mude. Aquilo que estes casais constatam, e que muitos interiorizam como lição para a vida, é que estamos todos mais protegidos se as coisas forem conversadas abertamente e se cada um fizer o que estiver ao seu alcance para que a relação não caia numa rotina difícil de suportar.

QUEM TRAI É CAPAZ DE MUDAR?


Há muitas formas de traição e há diferentes perfis de pessoas que traem. Pode não ser fácil distinguir o arrependimento genuíno da mera aflição por ter sido apanhado a fazer o que não era esperado. Mas, para quem foi traído, é essencial algum questionamento. Pergunte a si mesmo(a):


O seu companheiro mostra que se preocupa consigo?
Apesar da traição, confiaria nele(a) para outras áreas da vida?
Vê-o(a) como uma pessoa decente, apesar deste caso?
É a primeira vez que isto acontece ou a enésima?
O seu companheiro está de volta porque o(a) ama
ou porque é mais conveniente manter o casamento?


Cada pessoa tem o direito de fazer a sua escolha, independentemente do que os outros pensam. Mas essa escolha torna-se mais pacífica quando é feita em consciência.



A maior parte das pessoas com quem tenho trabalhado estão genuinamente empenhadas em fazer esforços para que a relação volte a dar certo. Não é sempre fácil. Dá trabalho. Dá mesmo muito trabalho. É preciso amparar o companheiro a quem foi arrancado o chão, é preciso um compromisso com a transparência e é preciso lidar com os próprios sentimentos.

Há quem comece um processo de terapia conjugal e ainda tenha sentimentos pela terceira pessoa. É normal. Pode levar algum tempo até que a pessoa se liberte e consiga sentir-se totalmente em paz com a escolha de voltar a investir no seu casamento. Dito assim, pode parecer que é um sacrifício que não compensa mas a verdade é que há quem passe pela experiência – dolorosa – de ter sentimentos por duas pessoas e reconheça que é ao lado do companheiro que quer estar. Isso dá trabalho mas é um caminho entusiasmante.

Quando os membros do casal começam a olhar para os próprios sentimentos e a perceber que há escolhas que podem ser feitas para devolver o desejo, a vivacidade e o entusiasmo à relação, sem descurar a segurança e a estabilidade, sentem-se legitimamente mais felizes e com a sensação de poder pessoal.

14.5.18

4 ERROS QUE DESTROEM UMA RELAÇÃO


Aquilo que as pessoas pensam que está por detrás da maior parte das separações e divórcios nem sempre corresponde à realidade. Se há algo que a ciência nos trouxe é esse conhecimento. Hoje sabemos muito mais do que alguma vez se soube sobre aquilo que está por detrás do afastamento entre duas pessoas que costumavam amar-se.


Será que é a infidelidade que nos separa?
Serão as divergências a respeito da educação dos filhos?
Os problemas relacionados com a intimidade sexual?
A família alargada? Ou o dinheiro? 




FILHOS, SEXO, DINHEIRO


A infidelidade está, sem dúvida, no "top" no que se refere às histórias por detrás de um número muito significativo de separações e divórcios. Mas será que é sempre ajustado olhar para a relação extraconjugal como a causa da separação? Na realidade, tenho trabalhado com muitos casais que assumem que a traição é a ponta do icebergue. Há muitos casos em que a deterioração da relação começou muito antes da infidelidade.

A educação dos filhos, o sexo e o dinheiro são grandes fontes de tensão para muitos casais. Os problemas com a família alargada também. Mas há muitos casais que me pedem ajuda e assumem que não há propriamente um grande problema ou um grande foco de tensão. Alguns discutem por coisas tão pequeninas que se sentem ainda mais baralhados a respeito da forma de dar a volta. É como se se sentissem enredados em círculos viciosos desgastantes sem perceberem como podem rompê-los.



OS 4 CAVALEIROS DO APOCALIPSE


O Professor John Gottman estudou durante muitos anos um número muito significativo de casais e conseguiu identificar aquilo a que passou a ser conhecido na área da Psicologia da Família como os 4 cavaleiros do Apocalipse. São os 4 maiores erros de comportamento numa relação de casal - aqueles que têm o poder de a destruir.

QUAIS SÃO?

HIPERCRÍTICA. Há uma diferença muuuuuito significativa entre dizer «Não te esqueças de baixar a tampa da sanita» e dizer «Vê lá se consegues portar-te como uma pessoa normal e baixar a porcaria da tampa da sanita». No segundo exemplo, o apelo é feito com hipercrítica, atacando a personalidade do companheiro. Eu compreendo que às vezes nos sintamos cansados de repetir os pedidos, que possamos sentir que a pessoa que está ao nosso lado tem desvalorizado as chamadas de atenção feitas de forma doce ou serena e que interiorizemos que as coisas só se resolvam assim. O problema é que qualquer generalização, qualquer ataque vai produzir o efeito contrário àquele que desejamos. 

Há pessoas que cresceram em famílias mais desorganizadas e que interiorizaram este comportamento como forma de se fazerem ouvir. Sem darem conta, criticam o companheiro a todo o momento e não percebem porque é que estão cada vez mais afastados.

POSTURA DEFENSIVA. Se o marido disser «Disseste que ias buscar a roupa à lavandaria e esqueceste-te de o fazer», a mulher pode responder «Tens razão. Queres que vá lá agora?» em vez de se defender com algo do género «E então? Tu também te esqueces imensas vezes de fazer aquilo que eu te peço!». Quando alguém nos chama a atenção para algo que fizemos (ou que não fizemos), é normal que nos sintamos colocados em causa e é tentador defendermo-nos. Mas nem sempre está em causa uma crítica à nossa personalidade. Nem todas as chamadas de atenção são um ataque de que tenhamos de nos defender.

Quando conseguimos olhar para a pessoa de quem gostamos como alguém que também tem o direito de nos criticar e, sobretudo, quando assumimos uma postura de curiosidade, querendo genuinamente perceber o que é que está por detrás do apelo, do que é que a outra pessoa precisa, é mais fácil dizer «Tens razão» ou colocar perguntas que nos aproximem. A postura defensiva potencia o aumento da escalada de agressividade.


AMUOS/ TRATAMENTO DO SILÊNCIO. Há muitas pessoas que se queixam de falar «para o boneco». Porque, enquanto falam, o companheiro sai de cena. Ou sai literalmente, deixando-as a falar sozinhas, ou fica a ouvir em silêncio, olhando para o telemóvel ou para outra coisa qualquer. A atenção não está lá e a pessoa que está a falar sente-se ignorada. 


Numa relação precisamos, sobretudo, de sentir
que a pessoa que está ao nosso lado se
interessa, precisamos da segurança de que
ele/ela se importa - mais do que da sua
concordância.


Quando um dos membros do casal ignora o outro, a segurança e o amparo deixam de estar associados àquela relação.

Há pessoas que vão mais longe e que utilizam o silêncio como forma de abuso emocional: calam-se durante horas ou dias (ou mais...) quando se sentem magoadas, frustradas ou contrariadas. No tratamento do silêncio normalmente o companheiro sente-se castigado e muitas vezes não consegue sequer perceber o que fez "errado". Mesmo que não haja essa consciência, esta é uma forma de violência emocional.

DESPREZO. Já reparou que basta um gesto para reduzir a pessoa que está ao nosso lado a praticamente nada? A maior parte das pessoas não têm essa consciência mas há um comportamento que é porventura o sinal mais claro de alarme numa relação: revirar os olhos. Porquê? Porque traduz desprezo pela pessoa que está ao nosso lado, por aquilo que ela está a dizer.

Há outras formas - às vezes mais difíceis de identificar - de mostrar desprezo pelo companheiro. Sempre que o fazemos, a pessoa que está ao nosso lado sentir-se-á profundamente rejeitada e, a prazo, isso pode ter consequências fatais para a relação.

Todas as pessoas já tiveram alguns destes comportamentos. E mesmo nas relações felizes é possível que eles ocorram. Aquilo que é desejável é que tenhamos maior consciência dos perigos que estão associados a cada um destes venenos e que assumamos a intenção de não os repetir. Cada um de nós tem o direito de errar mas é mais provável que façamos as escolhas que protejam a nossa relação e que, depois de errarmos, mais rapidamente façamos alguma coisa para emendar na medida em que haja conhecimento e vontade de fazer o melhor.


8.5.18

TER UMA RELAÇÃO COM ALGUÉM QUE JÁ TENHA FILHOS


A maior parte das pessoas que conheço não desejariam casar com alguém que já tivesse filhos – mesmo aquelas que adoram crianças. Mas a vida é exímia em trocar-nos as voltas e há muitas pessoas que acabam por envolver-se romanticamente com alguém nestas circunstâncias, acabando por enfrentar uma série de desafios para os quais naturalmente nem sempre se sentem preparadas. O que é que há de tão desafiante nestas famílias? E o que é que pode ser feito para que os desafios sejam ultrapassados com sucesso?


Talvez seja o preconceito, a idealização ou o instinto: a maior parte das pessoas acham que seria mais «complicado» ter uma relação séria com alguém que já tivesse filhos. E têm razão. Uma família reconstituída tem mais ligações para gerir, mais focos de tensão do que o habitual. A boa notícia é que, quando estes nós são desatados, a probabilidade de todos se sentirem mais unidos é muito alta. 

NÃO DÁ PARA COMEÇAR DO ZERO


Quando duas pessoas sem filhos se juntam, têm tempo para tudo: para se conhecer em profundidade, para namorar, para se zangar e para fazer as pazes. Têm tempo para criar raízes antes da turbulência que é a chegada do primeiro filho. Têm oportunidade de sonhar a dois e fazer planos com fronteiras claras em relação às opiniões da família alargada. Têm espaço para começar do zero e definir um rumo.



Quantos de nós faltámos às aulas, ao trabalho ou a outros compromissos “só” para estar com a pessoa por quem nos apaixonámos? O início da paixão também é isso: fazer algumas escolhas mais impulsivas e querer estar sempre ao lado daquela pessoa. Quando há filhos, isso pode implicar dizer mais vezes «Não» e transmitir a mensagem de que a relação não é assim tão importante. Ou, pelo menos, a pessoa que ouve o «Não» pode sentir que não é uma prioridade. E é natural que se entristeça. 

Como em quase tudo na vida, é a conversar que as coisas se resolvem. Quando cada um presta atenção ao que está a sentir e se sente capaz de dar voz aos próprios sentimentos com respeito pelo outro, é mais provável que ambos se sintam amparados.

Claro que muitas vezes a intenção de um é “só” exteriorizar o que sente e o outro sente-se imediatamente atacado. Tenho-me cruzado com muitos casais que se sentem presos a discussões inúteis – autênticos círculos viciosos de que ambos saem desgastados.

Há uma “regra” que nos ajuda quase sempre a dialogar sem culpas, ataques pessoais ou necessidade de nos defendermos: 


Colocarmo-nos (genuinamente) na posição
da outra pessoa. 
Identificar o comportamento ou a situação
que nos desagrada. 
Identificar como é que isso nos faz sentir.
Identificar aquilo de que precisamos
(quanto mais concretamente, melhor).



Por exemplo, se uma pessoa disser «Eu sei que tens muita coisa para gerir ao final do dia, mas nas semanas em que estás com os teus filhos a nossa comunicação diminui e eu sinto-me desamparado(a). Gostava que pudesses mandar uma mensagem de vez em quando a perguntar como me sinto ou que pudéssemos conversar um bocadinho ao telefone antes de dormir», estará a manifestar o seu desagrado de forma clara, honesta, respeitando-se e respeitando o companheiro. Isto é muito diferente de dizer qualquer coisa como «É sempre a mesma coisa. Quando estás com os teus filhos esqueces-te de mim!».

É óbvio que qualquer manifestação de desagrado é uma crítica e nem sempre é fácil gerir as emoções nessa posição. Ser capaz de responder à crítica com genuína empatia e curiosidade, colocando perguntas que traduzam vontade de amparar, é o caminho mais seguro para que a outra pessoa se sinta acolhida – mesmo que, no final, a solução de compromisso seja outra.

UMA QUESTÃO DE RESPEITO


Quando o pai ou a mãe tem um(a) namorado(a) e, sobretudo, quando há a possibilidade de passarem a viver juntos, é normal que as crianças se sintam inseguras – mesmo que tenham uma relação harmoniosa com o adulto. Mas tal como nós adultos, as crianças nem sempre mostram os seus sentimentos de forma arrumadinha. Se isso é dificílimo para nós, imagine-se para elas!



A madrasta ou o padrasto costumam ter ótimas intenções mas é normal que se sintam um bocadinho desmoralizados quando se sentem rejeitados. É preciso respeitar os próprios sentimentos, verbaliza-los (ao outro adulto) e definir de forma clara a intenção de respeitar o ritmo e as emoções de cada criança.

TEMPO PARA NAMORAR


Não há volta a dar. Qualquer relação amorosa depende do nosso investimento, da nossa capacidade para mostrar que queremos estar com aquela pessoa e que ela é a nossa prioridade. Há poucas coisas que protejam tanto uma relação como os rituais, aqueles momentos a dois em que ambos se divertem e relaxam. Quando ambos são capazes de assumir compromissos realistas, que implicam que cada um saiba com o que é que pode contar, tudo se torna mais fácil. 



Namorar não é só ter tempo e disponibilidade para a intimidade sexual mas também é isso. E para que tudo flua melhor neste campo, é preciso que haja tempo para conversar sem interrupções e para descontrair regularmente sem filhos.

DEFINIR UM RUMO


Tal como acontece quando se começa do zero, mais cedo ou mais tarde é preciso tomar decisões práticas que ajudem a concretizar os sonhos de cada um. Quanto mais sinceros forem os membros do casal, revelando-se tal como são, melhor.

É natural que no início haja um que não pense nem fale em casar ou morar na mesma casa mas também é normal que ao fim de algum tempo essa vontade cresça. Tenho conhecido alguns casais que se distanciam mais porque não são capazes de assumir claramente aquilo que sentem do que propriamente por quererem coisas diferentes. É mesmo muito importante fazer o que for possível para evitar ressentimentos.

Conversar, com genuína curiosidade e respeito é sempre o melhor caminho.
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