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15.5.19

DISCUTIR À FRENTE DOS FILHOS: SIM OU NÃO?


Discutir à frente dos filhos

A maior parte dos pais e mães esforçam-se para que não haja discussões à frente dos filhos, mas, na azáfama dos dias, nem sempre conseguem evitar que isso aconteça. Que impacto é que as discussões conjugais têm no bem-estar das crianças?


Ao contrário do que se possa pensar, as discussões conjugais podem não ter um impacto negativo na vida das crianças. Claro que nenhum filho gosta de assistir a um momento de tensão, mas a verdade é que os conflitos, o sofrimento e a raiva fazem parte da vida. Quando o pai e a mãe discutem, também estão a mostrar às crianças como é que se deve exteriorizar estes sentimentos. Estão a mostrar-lhes, de forma prática, que aquilo que cada um sente pode e deve ser exteriorizado. Ainda mais importante do que isto, estão a mostrar que se importam com esses sentimentos.

Nem todas as discussões ficam resolvidas no momento. Pelo contrário, às vezes ficamos magoados com aquilo que é dito durante a discussão e/ou arrependemo-nos de algumas das coisas que dissemos. Quando um dos membros do casal toma a iniciativa de pedir desculpa ou faz outra tentativa de aproximação, os ânimos acalmam e a normalidade regressa. Quando as crianças assistem com regularidade a estes ciclos, aprendem a dar voz ao seu próprio sofrimento e à sua raiva com respeito pelo outro e aprendem a fazer o que está ao seu alcance para fazer as pazes.

Discutir (e fazer as pazes) na presença dos filhos pode ajudá-los a regular as próprias emoções e a resolver problemas.


Por outro lado, é importante que nos lembremos de que talvez não seja boa ideia darmos o nosso melhor no sentido de escondermos todos os momentos de tensão, uma vez que as crianças são particularmente sensíveis às nossas flutuações de humor. Qualquer criança de dois ou três anos é capaz de reconhecer quando estamos tristes ou zangados. Se evitarmos expô-las a todos os conflitos, é provável que elas se sintam mais alarmadas, com medo do que possa estar a ser ocultado.



Quando é que as discussões fazem mal às crianças?


Claro que nem todas as discussões são oportunidades de ensinar alguma coisa às crianças. Na verdade, há circunstâncias em que as discussões dos pais representam um perigo para a estabilidade emocional dos filhos. Por exemplo, sempre que um ou os dois membros do casal gritar de forma exacerbada com o outro, se houver insultos ou, pelo contrário, o desprezo for evidenciado sob a forma de amuos ou do “tratamento do silêncio”, as crianças sofrem de forma intensa e desnecessária.

Sempre que o comportamento dos membros do casal traduza desrespeito, as crianças sofrem.


O impacto deste tipo de discussões pode envolver:
Perturbações do sono
Perturbações do comportamento alimentar
Ansiedade
Depressão
Comportamentos desafiantes



Por outro lado, e mesmo que não haja sinais de desrespeito, é importante que os membros do casal prestem atenção à frequência e à intensidade das discussões. Se as crianças se derem conta de que o pai e a mãe estão a discutir de forma frequente e intensa, sentir-se-ão provavelmente muito aflitas.

Esta aflição é ainda maior quando, aos olhos das crianças, o pai e a mãe estão a discutir sobre elas ou por culpa delas. Nós sabemos que as crianças não são responsáveis pelas brigas dos pais, mas é fundamental que tenhamos especial atenção aos conflitos que girem à volta de assuntos relacionados com os filhos. Quando o pai e a mãe discutem sobre o dinheiro que tem de ser gasto com a escola ou com a roupa da criança, podem, involuntariamente, criar a sensação de culpa e promover os níveis de ansiedade.

Quando nos mantemos atentos ao estado emocional das crianças, é mais provável que façamos escolhas conscientes, que nos ajudem a manter a felicidade familiar. Por um lado, isso passa por prestar muita atenção à forma como discutimos e, por outro lado, por manter uma postura de curiosidade genuína em relação aos sentimentos das crianças. Oferecer-lhes a nossa autenticidade e o nosso conforto é um passo importante para que se sintam seguras.

24.4.19

MEDO DE SER FELIZ



Medo de ser feliz


Porque é que, quando tudo corre bem, temos medo que aconteça uma desgraça? O que é que nos impede de viver com alegria as fases da vida em que todas as peças se encaixam?


Numa conversa com o meu marido, falava-lhe sobre o sentimento de gratidão por estarmos ambos envolvidos em projetos que estão a trazer-nos muito prazer e entusiasmo. A resposta dele foi «Não fales já que dá azar». Eu poderia dizer que esta é uma atitude tipicamente portuguesa, mas a verdade é que o medo de ser feliz é algo universal.

Quantas vezes deu por si a olhar à sua volta e a pensar «O trabalho está a correr bem, a minha família tem saúde, os meus amigos são fantásticos, a minha relação está num momento tão bom... Que desgraça estará para acontecer?», estragando automaticamente um momento que poderia ser de felicidade e gratidão?

Boa parte deste processo está relacionado com a neurofisiologia do nosso cérebro. Nós estamos neurologicamente programados para reconhecer potenciais ameaças à nossa sobrevivência e responder em conformidade. É esta capacidade que nos salva quando prestamos atenção aos reais sinais de perigo e reagimos - lutando ou fugindo. Mas…

Aquilo que nos protege das ameaças verdadeiras também pode funcionar como uma armadilha e comprometer a nossa felicidade.


Se há algo que as pessoas mais otimistas têm em comum é o reconhecimento de que a realidade pode ser olhada de múltiplas formas. A história que nós contamos a nós próprios a propósito de um acontecimento que vivemos tem uma influência direta sobre a forma como nos sentimos.



Quando olhamos à nossa volta e nos sentimos
felizes com aquilo que temos, é possível que
o nosso cérebro nos trapaceie inundando-nos
de pensamentos negativos. Se prestarmos
atenção e identificarmos esses pensamentos
como PENSAMENTOS e não como ameaças
reais, é mais provável que consigamos estender
o sentimento de gratidão e que nos sintamos
genuinamente felizes, sem medo.



Uma das práticas que mais me tem ajudado, quer pessoalmente, quer no meu trabalho clínico, é a meditação Mindfulness. Quando paramos de propósito para meditar, estamos a dar ao nosso cérebro a possibilidade de se exercitar, tal como fazemos com o nosso corpo.

Por outro lado, quando nos habituamos a fazer pausas com regularidade "apenas" para prestar atenção às coisas pelas quais nos sentimos genuinamente gratos, sentimo-nos invariavelmente mais felizes. Isto não tem nada a ver com "dourar a pílula", escondermo-nos dos problemas ou resignarmo-nos a uma vida sem ambição. Tem a ver, isso sim, com a possibilidade de nos permitirmos olhar para a realidade de forma objetiva, com atenção plena às coisas e às pessoas que valorizamos e com uma curiosidade gentil em relação aos sonhos que queremos conquistar.

8.4.19

QUANDO A PAIXÃO ACABA


Quando a paixão acaba

O que é que acontece às relações quando a paixão acaba? Porque é que é tão difícil manter uma relação feliz e duradoura? O que é que podemos fazer para manter viva a chama da relação?


A paixão acaba mesmo?


É verdade. A paixão e o conjunto de alterações que a acompanham duram, no máximo, dois anos. Se, por um lado, temos pena de deixarmos de olhar para a pessoa que escolhemos num estado de euforia quase permanente, a verdade é que seria muito difícil viver sempre nesse estado. Tal como tenho referido noutros textos, a paixão é uma espécie de “demência”, já que algumas das alterações que acontecem no nosso cérebro fazem com que atuemos de forma mais impulsiva, menos ponderada. É uma “demência” boa que, na prática, faz com que corramos mais riscos e estejamos muito menos atentos ao resto dos nossos papéis.

O que é que acontece às relações quando a paixão acaba?


Quando a paixão acaba, algumas relações acabam também. Nem todas as pessoas têm maturidade (ou vontade) para construir uma relação de compromisso, pelo que, quando a ativação fisiológica desaparece, é mais fácil terminar a relação e tentar partir para outra. Mas a maior parte de nós reconhece que a vida é muito mais feliz numa relação em que nos sintamos genuinamente seguros, vivos, amparados e felizes. A maior parte das pessoas que conheço (dentro e fora do consultório) ambicionam construir uma relação feliz e duradoura – uma relação que as faça sentir “em casa” e, ao mesmo tempo, traga a alegria e o entusiasmo da novidade.

Precisamos de segurança e estabilidade tanto quanto precisamos de adrenalina e de aventura e buscamos cada vez mais o equilíbrio entre estes dois polos para as nossas relações.


Claro que, à medida que o tempo avança e que as borboletas na barriga dão lugar a um estado muito mais sereno também nos damos conta de que a pessoa que está ao nosso lado, por mais fantástica que seja, também tem defeitos, também erra, também nos irrita e também nos magoa. Reparamos que não é perfeita e que não está sempre, sempre “lá” como idealizámos. Nem nós, para dizer a verdade.

Quando uma relação evolui de forma saudável, deixamos de olhar para a pessoa que amamos como o centro do (nosso) mundo e damo-nos conta de que, ainda que ele(a) continue a ser a nossa prioridade, há outras relações em que queremos continuar a investir, há sonhos individuais que queremos cumprir, há vida para além da relação. E está tudo bem.

Porque é que é tão difícil manter um casamento/ uma relação?


Cada relação é única e especial. Cada história tem os seus desafios. Mas a resposta a esta pergunta é relativamente simples:

Manter uma relação feliz e duradoura dá trabalho.


Aquilo que o nosso cérebro nos “obriga” a fazer quando estamos apaixonados é muito mais difícil de fazer quando a paixão acaba: tratar a pessoa que está ao nosso lado como especial, estar mesmo “lá” para ela quando precisa de nós, incentivá-la a lutar pelos seus sonhos, mesmo quando eles a afastam de nós, prestar-lhe muita atenção e responder com afeto aos seus apelos.

O mundo está cheio de boas intenções, mas a verdade é que a maior parte de nós sente-se como um malabarista, com vários pratos no ar, a dar o seu melhor para que nenhum caia ao chão.

Quando é que o amor se transforma em amizade?


A passagem do tempo e o nascimento dos filhos podem fazer com que, para alguns casais, haja uma espécie de adormecimento do erotismo. Em muitos casos, há ternura, há afeto, mas deixa de haver desejo, pelo menos para um dos membros do casal. Para uma minoria, isto pode ser suficiente. Para a maioria dos casais, não.

Os primeiros dois ou três anos depois do nascimento de uma criança podem ser muito intensos para um casal. Às noites mal dormidas e ao cansaço juntam-se as rotinas, as obrigações e um conjunto de novos programas centrados no bem-estar das crianças. É fundamental que nos lembremos que vai levar algum tempo até que as crianças se autonomizem, pelo que nos compete a nós, adultos, fazermos o que estiver ao nosso alcance para manter, de facto, a chama acesa.

Não me canso de referir que as crianças precisam de estabilidade e que a felicidade dos membros do casal é a maior garantia de que a família está segura.

Quais são os sinais de alarme?

Quando…

… há poucas conversas significativas – daquelas em que cada um se sente livre para falar sobre o que sente (dentro e fora da relação);
… pelo menos um dos membros do casal começa a ter dúvidas (sobre os seus sentimentos ou sobre o futuro da relação);
… um dos membros do casal constrói mentalmente cenários hipotéticos que não incluam o(a) companheiro(a);
… deixa de existir programas românticos/ sem filhos;
… o casal deixa de namorar,

é mais provável que a insatisfação cresça.

O que é que podemos fazer para manter a chama da relação acesa?


A conexão emocional é essencial em qualquer relação, mas é ainda mais importante numa relação amorosa. Sentimo-nos mais felizes quando vivemos com a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado se importa com aquilo que sentimos. Um dos rituais que nos protege são as conversas diárias. No final do dia, no meio dos afazeres, é fundamental encontrar tempo (e paciência) para ouvir a pessoa que está ao nosso lado, mesmo que isso implique ter de prestar atenção a assuntos que não nos interessam. Há uma sensação de pertença impagável que resulta da certeza de que, quando chegarmos a casa, podemos desabafar e falar sobre os nossos sonhos porque há alguém que vai estar lá para nós.

Os rituais de natureza romântica ajudam-nos a continuar a olhar para a pessoa que está ao nosso lado como alguém que é mais do que o nosso parceiro na educação das crianças. As saídas sem filhos (e os serões a dois) são um convite ao namoro, ao erotismo, às conversas de adultos.

Alimentar a individualidade é meio caminho para continuarmos a olhar para nós próprios e para a pessoa que está ao nosso lado com interesse e admiração. Quando nos apaixonamos por alguém, apercebemo-nos de que uma das coisas que nos atrai é o entusiasmo que dedica às suas paixões, a capacidade de lutar pelos próprios objetivos. Numa relação de compromisso é essencial manter o “Eu” vivo. Isso torna-nos pessoas infinitamente mais felizes e interessantes.


2.4.19

7 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO


7 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO


O que é que pode ser considerado assédio sexual no trabalho? Se o chefe convidar a funcionária para jantar, é assédio? E se elogiar a sua roupa? Nem sempre é fácil distinguir um comportamento inapropriado mas, se prestarmos atenção, os sinais estão sempre lá.


Nunca como hoje se discutiu tanto sobre o assédio sobre as mulheres. Graças ao Movimento #MeToo e a tudo o que se seguiu, muitas mulheres conseguiram dar voz a situações abusivas por que passaram e que haviam escondido com medo de serem criticadas. Hoje é mais provável que uma mulher reconheça o assédio sexual no trabalho como tal e que se dê conta de que tem o direito de denunciar e de reivindicar ser tratada com respeito. Claro que deste empoderamento também resultaram algumas dúvidas. Afinal, o que é que pode ser considerado assédio? E o que é que (ainda) pode ser considerado um simples elogio ou galanteio? O que é que é apropriado e o que é que não é? A verdade é que há muitos homens que nunca tiveram comportamentos abusivos e que hoje têm medo de ser mal interpretados.

O assédio sexual só acontece às mulheres?

Não. O assédio sexual em contexto profissional traduz-se por qualquer abuso – físico ou verbal – que envolva a discriminação em função do sexo. Na prática, a pessoa que é assediada é tratada de forma diferente das pessoas do sexo oposto. Há homens que são assediados no trabalho – por outros homens ou por mulheres MAS a esmagadora maioria destas situações acontecem entre abusadores homens e vítimas mulheres.

Um convite para sair constitui assédio?

Depende. Mesmo que o convite parta de alguém hierarquicamente superior, pode não ser assédio, ainda que viole as regras da empresa, por exemplo.

Há assédio quando o convite está associado a qualquer forma de intimidação ou chantagem emocional, mesmo que de forma implícita.


Por exemplo, quando alguém diz «É importante agradar ao chefe» ou «Não fica bem dizer tantos “Nãos” ao chefe», está a assediar, está a desrespeitar a vontade da outra pessoa e a tentar impor a sua através do poder que detém. Por outro lado, mesmo que não haja qualquer ameaça ou chantagem, se houver convites repetidos, também se trata de assédio. Na prática, tratar-se-á de não respeitar a vontade da vítima.

E se já tiver havido envolvimento entre aquelas duas pessoas, continua a ser assédio?

Sim. Se duas pessoas se envolverem romanticamente e houver uma rutura, cada uma continua a ter o direito de dizer “Não”. Se os convites se repetirem, é assédio.

Comentários sobre a roupa constituem uma forma de assédio?

Depende. Quando alguém faz um elogio, seja em que contexto for, podemos sentir-nos confortáveis ou desconfortáveis. Se considerarmos que o comentário é inapropriado e o verbalizarmos, a outra pessoa deve respeitar. Se insistir, é assédio. Além disso, há comentários que constituem assédio, mesmo que não se repitam. Quando alguém faz um comentário que inclua a possibilidade de haver favores sexuais, isso é assédio.

Pedir para agradar aos clientes é uma forma de assédio?

Depende. Em muitos contextos profissionais, há almoços, jantares e até saídas noturnas que se misturam com os negócios sem que ninguém se sinta desrespeitado ou discriminado.

Quando é exigido que alguém faça aquilo que não quer (por se tratar de algo inapropriado) e/ou aquilo que não é exigido aos colegas do sexo oposto, é assédio.


Aceder a pornografia no local de trabalho é assédio?

Depende. Se um trabalhador aceder a imagens com teor sexual no seu gabinete sem que ninguém seja confrontado com esse conteúdo, não é assédio. Quando há alguém na empresa que partilha o mesmo espaço e que se sente desconfortável com esta exposição, tem o direito de se queixar. Se a situação se repetir, é assédio, mesmo que a intenção não seja a de condicionar a outra pessoa.

O contacto físico (abraços, beijos) é assédio?

Depende. Se um chefe abraçar uma funcionária com a intenção de a confortar na sequência de uma perda E ela se sentir confortável, isso não é assédio. Se a funcionária manifestar o seu desconforto e os contactos continuarem – mesmo que alegadamente de forma “involuntária” -, isso é assédio.

Em resumo, constituem formas de assédio todos os comportamentos que traduzam tentativas persistentes de impor a própria vontade depois de ficar claro que a outra pessoa as considera indesejadas e/ou inapropriadas, todos os convites que estejam associados a melhoria das condições de trabalho (chantagem) e todas as abordagens físicas intencionais e desnecessárias.

7.3.19

TAREFAS DOMÉSTICAS: AJUDAR VERSUS PARTILHAR


Tarefas domésticas - ajudar versus partilhar

Falar sobre tarefas domésticas implica invariavelmente falar de braços-de-ferro a propósito da sua distribuição. Para a esmagadora maioria das famílias, o bem-estar é maior quando as tarefas são partilhadas de forma equilibrada. No entanto, a maior parte das mulheres acabam por sentir-se sobrecarregadas com estes afazeres ao mesmo tempo que a maioria dos homens acreditam que fazem tanto como elas. Porque é que, na teoria, aplaudimos a ideia de que é importante partilhar e, na prática, na maioria das vezes os homens continuam apenas a ajudar?


(Quase ninguém) dá pulos de contentamento por ter a "oportunidade" de limpar a casa de banho. E, mesmo para as pessoas que gostam de manter a casa limpa e arrumada, a distribuição das tarefas domésticas é um assunto que dá pano para mangas e que está quase sempre envolto em alguma tensão.

No meu trabalho com casais, deparo-me muitas vezes com queixas relacionadas com este assunto. De uma maneira geral, elas sentem-se injustiçadas por terem de realizar muito mais tarefas do que os homens e estes sentem-se injustiçados porque acreditam que fazem tanto como as mulheres.

Quem tem razão?


Os números não mentem. Há diversos estudos que mostram que as mulheres continuam a ter sobre os seus ombros mais tarefas domésticas do que os homens, independentemente de também trabalharem fora de casa. Por exemplo, segundo os dados do estudo “Homens, papéis masculinos e igualdade de género”, os homens gastam oito horas por semana em tarefas domésticas, enquanto as mulheres gastam 21. No que diga respeito aos cuidados familiares, como o cuidado com os filhos, a divisão de tarefas também não é equilibrada. Eles gastam 9 horas por semana com estes afazeres, enquanto elas gastam 17.

É verdade que hoje os homens participam muito mais ativamente nas tarefas domésticas do que há 20 ou 30 anos. É verdade que quase todas as mulheres reconhecem que podem contar com a ajuda do companheiro. Mesmo no que diga respeito aos cuidados prestados às crianças, houve uma mudança muito significativa nas últimas décadas: quase todos os pais (homens) mudam fraldas, dão banhos, ajudam com os trabalhos de casa, etc. Mas, no final das contas, continua a haver desequilíbrio. Aquilo que é curioso é que a maioria dos homens acreditam que fazem mais tarefas do que, na realidade, concretizam.

As coisas pioram quando a mulher ganha mais do que o marido: nestes casos, quanto mais a mulher ganha, de uma maneira geral, menos o marido participa nas tarefas domésticas.


É uma questão de masculinidade?


Poder-se-ia pensar que esta é uma questão que afeta sobretudo os países latinos, onde a masculinidade ainda é colocada em causa por tudo e por nada mas a verdade é que até na Suécia, onde há muitos pais que estão em casa a tomar conta dos filhos a tempo inteiro (sem que isso belisque a sua masculinidade), as mulheres gastam em média mais 45 minutos por dia em tarefas domésticas do que os homens.

A verdade é que, para muitas mulheres, a ideia de o marido passar a desempenhar mais tarefas é agridoce. Por um lado, desejam-no mas, por outro, temem que as tarefas não sejam bem desempenhadas. Não é tanto uma questão de acharem que eles não vão ser capazes. É, sobretudo, uma questão de acharem que eles não vão fazer bem de propósito.

Uma das queixas mais frequentes no meu consultório tem a ver com a falta de reconhecimento. Muitas mulheres queixam-se porque, na sua ótica, o marido não “vê” a extensão do seu trabalho. Sentem-se desvalorizadas. Na prática, muitas vezes aquilo que acontece é que há efetivamente um grau de exigência diferente em relação à forma como as tarefas são executadas. A maior parte das mulheres acabam por ser mais exigentes do que a maior parte dos homens e estas diferenças podem ser interpretadas como falta de interesse ou desvalorização.

Há tempos, no meu consultório uma mulher queixava-se desta forma: «Aquilo que mais me irrita é ter de andar atrás dele [marido], ter de completar aquilo que ele deixa inacabado. Tenho de limpar a bancada depois de ele lavar a loiça. Tenho de retirar os legumes estragados do frigorífico depois de ele arrumar as compras. Tenho de apanhar os pelos que ficam espalhados pelo lavatório depois de ele desfazer a barba – ainda que ele tenha tido o cuidado de varrer o chão e lhe pareça que o espaço ficou impecável».

Estes conflitos acabam por traduzir algumas diferenças em relação à forma como homens e mulheres são educados. Independentemente da luta pela igualdade de género, a maior parte das mulheres acabam por sentir que é sobre si que recairão as críticas se a casa não estiver suficientemente limpa ou se os filhos não estiverem a receber os devidos cuidados. Isso acaba por refletir-se no comportamento de homens e mulheres: elas são muito mais obsessivas, mais atentas aos detalhes e eles são muito mais relaxados. E também se reflete no volume de preocupações: são quase sempre elas que se preocupam com tudo o que há para fazer e que se organizam no sentido de nada ficar para trás. Ouço muitas vezes a queixa «Era bom que ele fizesse [a tarefa X] sem que eu tivesse de lhe pedir». A maior parte dos homens acabam por limitar-se a escolher algumas tarefas da lista definida pela mulher.



Se cada um for capaz de reconhecer e dar voz às suas necessidades, é mais provável que surjam soluções de compromisso que promovam o bem-estar de toda a família. Mas isso não tem de equivaler a que o homem faça exatamente aquilo que a mulher considera que é justo. Aquilo que quero dizer é que se é verdade que há tarefas que não podem deixar de ser feitas – e que é bom que sejam distribuídas de forma equilibrada -, também é verdade que, neste assunto, menos pode ser mais. Na prática, se os membros do casal concordarem que nenhum dos dois tem tempo para aspirar o carro, pode ser mais saudável aceitar que o carro passe semanas sem ser aspirado em vez de alimentar braços-de-ferro sobre quem-fez-o-quê.

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