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31.7.19

COMO RECUPERAR A CONFIANÇA DEPOIS DE UMA TRAIÇÃO


Recuperar a confiança depois de uma traição

Como é que se reconstrói a confiança depois de uma traição? O que é que a pessoa que traiu pode fazer para ajudar a pessoa traída a voltar a confiar? E o que é que não deve (mesmo) ser feito?


A infidelidade continua a ser um dos motivos pelos quais muitos casais recorrem à ajuda da terapia conjugal. Não é por acaso: por um lado, este é um dos maiores terramotos por que uma relação pode passar e, por outro, mesmo quando ainda há amor e vontade de reconstruir a ligação, nem sempre é fácil identificar aquilo que cada um pode fazer.

Oiço muitas vezes as pessoas que traíram referirem-se à sensação de impotência depois da infidelidade. Sentem genuína vontade de ajudar o(a) companheiro(a), mas os seus esforços nem sempre dão os frutos desejados. Hoje partilho algumas sugestões que podem ajudar a restabelecer a confiança.



#1:
TEMPO

Há boas e más notícias referentes à reconstrução da relação depois de uma traição. A boa notícia é que é possível recuperar a confiança e (voltar a) ter uma relação geradora de satisfação, alegria e cumplicidade. A má notícia é que isso dá trabalho e leva tempo.

É compreensível que duas pessoas que se amam queiram ultrapassar uma crise rapidamente, mas, como em quase tudo o que envolva perdas, é preciso tempo para que as emoções sejam geridas e o luto seja feito.

Quando há uma infidelidade – seja um caso de uma noite ou uma relação de alguns meses -, há uma ferida por sarar. Para a esmagadora maioria das pessoas, isso envolve algum tempo. É fundamental que a pessoa que traiu possa ser paciente e respeitar esse tempo.


#2:
FALAR ABERTAMENTE

Há quem tenha vontade de “colocar uma pedra sobre o assunto”, sobretudo com a intenção de evitar que o sofrimento se prolongue, mas não é assim que a confiança é recuperada. De um modo geral, para que voltemos a confiar e a sentir-nos seguros, precisamos da certeza de que a pessoa que está ao nosso lado se importa com o nosso sofrimento. Se ele(a) não quiser ouvir-nos, se não quiser responder a todas as nossas dúvidas, o mais provável é que nos sintamos desamparados.

A pessoa que traiu pode tentar assumir uma postura de genuína compaixão, procurando responder a todas as perguntas com clareza e honestidade. Quanto mais abertamente conseguir falar sobre o que aconteceu e sobre os próprios sentimentos, mais provavelmente a relação poderá ser recuperada.

Nesse processo, é crucial que se defina alguns limites. Uma coisa é responder com clareza e honestidade a questões que permitam que o(a) companheiro(a) se sinta mais seguro(a) e outra, bem diferente, é partilhar detalhes mais ou menos sórdidos que só acrescentam sofrimento desnecessário. Um dos exercícios que costumo propor é que a pessoa que foi traída possa elaborar uma lista de todas as dúvidas que (ainda) tem acerca do que aconteceu para que possamos, em terapia, avaliar até que ponto é que algumas destas questões devem ou não ser colocadas.

#3:
COMPROMISSO COM A TRANSPARÊNCIA

Um dos passos que a pessoa que traiu pode dar para o restabelecimento da confiança passa por fazer o que estiver ao seu alcance para evitar equívocos que alimentem a insegurança do(a) companheiro(a). Trata-se de telefonar sempre que disser que vai telefonar, chegar a casa à hora a que disse que chegaria e responder às dúvidas que possam existir.

Para a pessoa que foi traída, quase tudo pode passar a ser um sinal de alarme e de intranquilidade, pelo que é muito importante que haja um compromisso sério com a transparência.

Não se trata de nenhuma condenação. A infidelidade não pode funcionar como uma justificação para quaisquer tentativas de controlo, faltas de respeito ou comportamentos abusivos.

Por outro lado, é fundamental que a aflição e a vontade de manter a relação não permita que a pessoa que traiu faça promessas que vão contra a sua própria dignidade ou que traduzam falta de respeito por si mesma.

#4:
DAR ESPAÇO PARA A EXTERIORIZAÇÃO DOS SENTIMENTOS

Raiva, medo, tristeza. De uma maneira geral, a infidelidade é geradora de sentimentos intensos. Se esses sentimentos não forem exteriorizados, a pessoa que foi traída acabará por sentir-se sufocada, ansiosa e incapaz de voltar a confiar.

Oiço muitas vezes a queixa de que a pessoa que traiu não quer voltar a ouvir falar sobre o assunto, mas a verdade é que dizer «Isso é passado, vamos olhar para o futuro» é a última coisa de que uma relação nestas circunstâncias precisa.

A pessoa que traiu pode assumir uma postura genuinamente paciente, escutar atentamente e repetir «Eu estou aqui. É contigo que eu quero ficar».


Por outro lado, é importante aceitar que, neste processo, é natural que haja avanços e recuos. Em momentos de desespero, a pessoa que foi traída terá vontade de mandar a outra embora (e é possível que o faça). De um modo geral, tudo o que precisa é de um abraço e de algumas palavras que lhe devolvam a segurança.

#5:
ASSUMIR A RESPONSABILIDADE

Cada um é responsável pelos próprios comportamentos. Mesmo que haja problemas no casamento anteriores à infidelidade, a pessoa que traiu não deve culpar o(a) companheiro(a) pela sua escolha.

É importante dar um passo de cada vez. Quando somos capazes de assumir inteiramente a nossa responsabilidade, é mais provável que, mais cedo ou mais tarde, haja disponibilidade para olhar para trás e reconhecer aquilo que cada um (não) fez pela relação.

Algumas pessoas sentem-se legitimamente sós e abandonadas na relação. Não andam à procura de uma terceira pessoa, mas sentem-se carentes e negligenciadas. Até certo ponto, sentem-se traídas. Esses sentimentos podem e dever reconhecidos, mas não devem servir de justificação para a infidelidade.

A terapia de casal é, para muitos, a oportunidade de falar abertamente sobre este turbilhão de sentimentos de forma segura e estruturada.

24.7.19

AS FÉRIAS DOS FILHOS DE PAIS SEPARADOS


As férias dos pais separados

No caso dos filhos de pais separados, é preferível que as férias com cada progenitor sejam curtas ou prolongadas? O que é que cada adulto pode fazer para evitar que haja conflitos e para que os dois lados saiam a ganhar? Esta é uma boa altura para introduzir um(a) novo(a) namorado(a)? E se os filhos se recusarem a ir de férias com um dos progenitores?


As tão desejadas férias de verão podem implicar algum stress para as famílias, especialmente depois de um divórcio ou de uma separação. Às dificuldades habituais relacionadas com a escassez de recursos para manter as crianças ocupadas e protegidas enquanto os pais trabalham junta-se a necessidade de conjugar expectativas e de comunicar de forma eficaz. Hoje partilho algumas dicas que podem ajudar a viver esta época sem stress.


Férias curtas ou prolongadas?


A maior parte de nós ambiciona poder parar pelo menos duas ou três semanas e, assim, repor energias para mais uma jornada profissional. Além disso, depois do divórcio, e independentemente do formato da guarda escolhido, todos os pais e mães têm de conviver com a inevitabilidade de não terem os seus filhos sempre por perto. A ideia de umas férias prolongadas permite sonhar com a possibilidade de estar mais tempo com os filhos e, assim, recarregar o mealheiro de afetos. Mas, como em tudo o que diga respeito às decisões após o divórcio, o mais importante é que cada adulto consiga focar-se naquilo que é o melhor para os filhos. De uma maneira geral, um longo período de férias com os filhos implica que eles estejam demasiado tempo sem poder estar com o outro progenitor e isso pode trazer a sensação de desamparo ou abandono, especialmente se se tratar de crianças pequenas.

Aos pais e mães compete colocar a questão «O que é melhor para os meus filhos?» com abertura e curiosidade.


Gerir as expectativas


Todos criamos expectativas em relação às férias. É natural, é humano. Independentemente do nosso contexto, sonhamos com a possibilidade de descansar e, ao mesmo tempo, concretizar todos os planos que, de um modo geral, vamos adiando por falta de tempo no resto do ano. Além disso, idealizamos um período de paz e harmonia, sem stress ou discussões. Mas as férias também são uma porta para tudo o que ficou “desarrumado” e acumulado ao longo do ano. Talvez seja por isso que há tantas separações depois das férias. É que naquelas semanas não estamos mergulhados em trabalho, não temos como não prestar atenção à nossa realidade.

No ramerrame do resto do ano nem sempre há tempo para reparar nas necessidades que ficam por preencher, especialmente nos filhos de pais separados. A paragem das férias pode obrigar a um confronto difícil mas necessário. Se os planos para as férias incluírem a genuína intenção de aproveitar para conhecer ainda melhor as necessidades dos filhos, é mais provável que possam ser refeitos de maneira a contribuir para o bem-estar de todos.

Negociar com o outro progenitor


Independentemente da forma como a relação acaba, é natural que haja a necessidade de gerir a própria vida sem dar satisfações à pessoa com quem deixou de viver. Mas, quando há filhos, essa pode não ser uma boa ideia. Se um dos progenitores decidir marcar férias para um determinado período sem avisar o outro, pode estragar-lhe os planos e trazer stress desnecessário. É possível que ambos estejam habituados a tirar férias na mesma altura e é humano que mantenham o desejo de dar continuidade a essa tradição. No meio de tantas perdas, este pode ser um aspeto difícil de abdicar. Mas, de novo, o mais importante tem de ser o bem-estar dos filhos. E aquilo de que os filhos precisam é de ver os dois progenitores felizes.


Se os pais optarem por sentar-se para conversar
e negociar com antecedência, é mais provável
que alcancem consensos importantes. Por exemplo,
se ambos gostam da ideia de ter férias num
determinado período, talvez possam concordar
em alternar anualmente. Assim, todos ganham,
ainda que ambos tenham de ceder.



Outra questão importante a ter em conta está relacionada com a proximidade dos dois períodos de férias. Talvez não seja boa ideia marcar férias “em cima” do período escolhido pelo outro progenitor. Assim, se houver atrasos ou imprevistos, há tempo e disponibilidade para gerir os acontecimentos sem atrapalhar os planos do outro lado da família.

Presença de novos companheiros


As férias também são muitas vezes aproveitadas para introduzir, de forma mais oficial, um(a) novo(a) companheiro(a) na vida dos filhos. A ideia de muitos pais e mães é aproveitar este período de menos stress e de maior convívio para criar laços. Mas isso pode implicar obrigar os filhos a passar demasiado tempo com alguém com quem ainda não construíram um laço afetivo. De uma maneira geral, as crianças e adolescentes precisam de tempo para se habituarem à ideia de o pai ou a mãe ter um(a) novo(a) namorado(a), pelo que é preferível deixar as férias românticas para o período em que os filhos estiverem com o outro progenitor. Além disso, os filhos ambicionam passar tempo de qualidade com os pais, ambicionam receber a sua atenção exclusiva e tenderão a sentir-se frustrados se tiverem de partilhar este período com outra pessoa a quem o pai/a mãe terá de prestar muita atenção.

E se os filhos não quiserem ir?


Alguns pais e mães são confrontados com o facto de os filhos recusarem ir de férias com o outro progenitor e interrogam-se sobre a melhor alternativa. Devem obriga-los a ir? Ou será preferível ceder? Não há uma resposta que sirva para todos os casos. De novo, aquilo que importa é olhar para a questão com abertura e curiosidade. Se aquilo que está em causa é, sobretudo, uma questão de disparidade em relação às condições que cada um dos progenitores tem para oferecer, é melhor incentivar a criança a ir e, assim, fazer o que estiver ao seu alcance para promover o vínculo com o outro progenitor. Na prática, nenhum pai ou mãe cede a todas as vontades dos filhos. Sabemos que as crianças têm de comer frutas e vegetais porque é o melhor para elas, mas não estamos à espera de que gostem.

Se houver a suspeita de que a criança não se sente segura quando está com o outro progenitor, é importante que o pai e a mãe possam tentar conversar para identificar os medos e as alternativas que melhor se adequem à realidade.

Às vezes é preferível abdicar de um período de férias convencional e apostar em períodos mais pequenos que permitam que a criança se sinta respeitada e segura.


Oportunidade para fazer o que quer


A ideia de passar (ainda mais) tempo sem os filhos pode ser muito angustiante. As saudades são inevitáveis, mas podem ser geridas de forma emocionalmente inteligente. Em primeiro lugar, esta é a oportunidade de reconhecer quão bom/boa pai/ mãe está a ser. Ao facilitar, sem levantar ondas, o contacto dos seus filhos com o outro progenitor, está a tomar uma decisão que garanta o bem-estar dos filhos e, daqui a vinte anos, orgulhar-se-á de o ter feito. Por outro lado, esta também é a oportunidade de colocar em marcha todas as atividades e projetos que foi adiando por falta de tempo para si. Faça aquele workshop com que anda a sonhar, passe um dia inteiro a ver as suas séries preferidas sem culpas ou aproveite para sair à noite. Quanto mais investir na sua lista de desejos, mais revigorado(a) se vai sentir quando voltar a ter os seus filhos consigo.

16.7.19

BURNOUT DAS MÃES



O que é o burnout parental? E porque é que afeta mais mulheres do que homens? No post de hoje partilho algumas dicas que espero que possam ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta situação.

São indiscutivelmente mais mulheres do que homens que me pedem ajuda na sequência de um estado de exaustão relacionado com o exercício da parentalidade. Por um lado, isso está relacionado com o facto de acumularem mais responsabilidades relacionadas com a casa e com os filhos sem deixarem de investir nas respetivas carreiras. Por outro lado, está relacionado com a exigência que colocamos sobre nós mesmas e sobre as mulheres à nossa volta. Somos invariavelmente mais exigentes com as mulheres do que com os homens.

O que é o burnout parental?

O burnout (parental) pode ser caracterizado por um conjunto de sintomas que traduzem um estado de exaustão e que vão desde o cansaço extremo, à irritabilidade constante, perturbações do sono, depressão, ansiedade e impossibilidade de sentir prazer associado ao exercício da parentalidade.

Nem todas as mães mostram os mesmos sintomas e, em função da pressão de que falei antes, é comum que as mulheres guardem para si os próprios sentimentos e que, pelo menos durante algum tempo, tudo pareça “normal”. Mas o burnout é um assunto sério, que merece ser tratado de maneira a que as famílias possam continuar a crescer em genuína harmonia.

O que é que pode ser feito em relação ao burnout das mães?

Se houver um quadro depressivo/ ansioso, o melhor é pedir ajuda especializada. Ninguém merece passar por isto sem ajuda. Paralelamente, há um conjunto de dicas que podem ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta realidade:




#1: TEMPO PARA DESCANSAR


É muuuuito mais fácil falar do que fazer. A verdade é que muitas famílias não dispõem de uma rede de suporte que lhes permita usufruir de uma ou outra noite sem filhos e muito menos de tempo para sair e descomprimir. A cada família compete olhar para a realidade e identificar os recursos que existem. Às vezes, aquilo que é possível fazer é redistribuir as responsabilidades domésticas e familiares. Não me refiro apenas a delegar no marido mais tarefas domésticas.

Muitas vezes a exaustão advém sobretudo da sobrecarga mental associada ao facto de ser a mulher a “ter de” pensar e resolver um vasto conjunto de pequenas questões - a marcação de consultas, o planeamento das refeições, as finanças, as visitas à família alargada, os aniversários dos amigos, etc.


Conversar, com abertura e curiosidade, sobre a melhor forma de fazer esta redistribuição pode trazer muito amparo.

Por outro lado, é importante aprender a deixar cair algumas expectativas e aceitar que, para que haja saúde mental e harmonia familiar, é preferível deixar algumas coisas por fazer. Quase todas as mães idealizam um ambiente familiar perfeito, que inclui crianças sempre limpas, cheirosas e bem vestidas e a casa impecavelmente limpa. A realidade pode ser dura de aceitar, mas é infinitamente mais provável que consigamos sentir-nos felizes e gratos por aquilo que temos se aprendermos a dosear expectativas e a fazer escolhas que nos permitam descansar o mínimo indispensável.

#2: TRAVAR SENTIMENTOS DE CULPA

Muitas mulheres alimentam sentimentos de culpa a propósito de não estarem a conseguir ser as mães que esperavam ser e /ou as mães que acham que os outros esperavam que elas fossem. Como referi antes, gerir as expectativas é essencial. Todos sabemos que não há famílias perfeitas nem mães perfeitas, mas, quando olhamos para o lado, sobretudo para as revistas e para as redes sociais, somos inundados de imagens que nos mostram que, afinal, a perfeição talvez exista.

A verdade é que os exercícios de comparação são sempre inúteis e danosos. Quando nos comparamos com outras mães, esquecemo-nos de que, quer se trate de uma figura pública ou da nossa vizinha, a realidade dos outros é sempre diferente da nossa. Os recursos podem ser diferentes, as crianças são diferentes e cada pessoa tem o direito aos próprios sentimentos e às próprias necessidades. A experiência mostra-me que, além de tudo isto, aquilo que observamos de fora é sempre uma pequenina parte da realidade de cada família. Só as pessoas que convivem diariamente dentro da mesma casa sabem o que lá se passa. Por muito que pensemos o contrário, estamos longe de conhecer os desafios e as dificuldades dos outros. Quando nos comparamos com outras realidades estamos a exercer pressão desnecessária sobre os nossos ombros e a alimentar sentimentos de culpa que nos impedirão de sermos as melhores mães que podemos ser.

#3: ACEITAR E PEDIR AJUDA

Não é fácil pedir ajuda, especialmente no que se refira aos nossos filhos. É natural que queiramos ser nós a fazer praticamente tudo e que nos sintamos frustradas por não conseguirmos.

Pedir ajuda a familiares e amigos – para tomar conta dos nossos filhos, para nos substituírem na realização de algumas tarefas ou para nos ajudarem na concretização de outras não deve ser motivo de vergonha.


Pelo contrário, pedir ou aceitar essa ajuda é um sinal de respeito por nós e um sinal de inteligência emocional. Nenhuma mulher é pior mãe por aceitar que a sogra faça algumas refeições que possam ser congeladas, especialmente se isso permitir que a mãe esteja emocionalmente mais disponível para os seus filhos do que estaria noutras circunstâncias. O mesmo acontece em relação à possibilidade de um familiar ou amigo ficar com as crianças para que a mãe possa sair um par de horas e recarregar baterias.

#4: PRESTAR ATENÇÃO AOS SENTIMENTOS

A exaustão pode estar “lá”, mas nem todas as mulheres escolhem prestar a devida atenção aos próprios sentimentos. A verdade é que deste reconhecimento tem de surgir a inevitabilidade de se efetuar mudanças. Se a mãe estiver exausta, alguma coisa tem mesmo de mudar. E isso pode implicar que a família tenha de sair da sua zona de conforto. Não vale a pena adiar o confronto com a realidade e dizer incessantemente – a si e aos outros – que “está tudo bem”. Quanto mais depressa encarar a realidade como ela é, mais rapidamente recuperará o seu bem-estar.

#5: DEIXAR AS CRIANÇAS SEREM CRIANÇAS

Voltamos às expectativas: num mundo ideal as crianças não fariam birras, muito menos em lugares públicos, mas quase todos os pais e mães sabem que essa não é a realidade. As crianças choram – umas mais do que outras –, fazem birras e, em algumas alturas, isso pode ser extenuante. Mas não vale a pena lutar com a realidade ou alimentar sentimentos de pena em relação a si mesma. Quanto maior for a sua (auto)compaixão, quanto maior for a sua compreensão em relação a uma parte da parentalidade que é geradora de tensão, maior será a probabilidade de você conseguir reagir com serenidade a estes momentos difíceis.

Deixar as crianças serem crianças também passa por aceitar que a sua casa não é um museu nem tem de estar sempre imaculada, pronta para ser fotografada para uma revista. A sua família não é a tropa e quanto mais você conseguir relaxar e aceitar que esta é uma fase (que vai passar), mais provavelmente vai conseguir aproveitar a infância dos seus filhos sem stress desnecessário.

3.7.19

COMO MELHORAR A RELAÇÃO (EM 7 PASSOS)


Como melhorar a relação


Há escolhas que podem fazer toda a diferença numa relação. Se permitirmos, a rotina e alguns (maus) hábitos podem roubar a vivacidade e o romantismo com que sempre sonhámos. Mas, se prestarmos atenção a alguns detalhes, se nos disciplinarmos e fizermos escolhas emocionalmente inteligentes, é mais provável que nos sintamos felizes e gratos pela pessoa que temos ao nosso lado.


Quais são os aspetos que os casais mais felizes têm em comum? Que escolhas é que eles fazem e que os ajudam a retirar mais satisfação da relação amorosa, mesmo depois de vinte ou trinta anos de vida em comum?




#1: GRATIDÃO


Ao fim de algum tempo, descobrimos que a pessoa por quem nos apaixonámos não é perfeita. Tem um conjunto de defeitos irritantes que não vão desaparecer, tem alguns hábitos que mexem connosco (e não é pela positiva). É tentador fazer uma caça ao erro e estar sistematicamente a apontar o dedo. Às vezes são coisas pequeninas e que achamos que vale a pena referir para desencadear a mudança. Mas, no final do dia, é fácil perdermo-nos nas críticas e não prestarmos muita atenção às coisas boas.

Os casais mais felizes cultivam o hábito de reparar nos gestos mais positivos e escolhem não dar relevo às tais pequenas coisas mais irritantes. É mesmo uma questão de escolha. Quando procuramos prestar atenção e verbalizar o nosso apreço por cada gesto que traduza o apoio de que precisamos, a gargalhada que nos ajuda a enfrentar os dias mais difíceis ou o afeto que dá cor à nossa vida, somos mais felizes.

Não é fácil dizer “obrigado” por cada vez que a pessoa de quem gostamos lava a loiça na nossa vez ou toma a iniciativa de nos ir buscar ao trabalho.


É mais fácil olhar para estes gestos como “obrigações”, sobretudo se estivermos habituados a dar de nós. Quando cultivamos a gratidão, não nos limitamos a elogiar a pessoa que está ao nosso lado. Cultivamos o nosso apreço, sentimos genuinamente mais ligados e olhamos para a realidade de forma mais serena e objetiva.


#2: CURIOSIDADE GENUÍNA


Toda a gente acha que conhece bem a pessoa que está ao seu lado. Pelo menos, ao fim de alguns anos. Mas as nossas certezas podem funcionar como filtros que nos impedem de olhar para a pessoa que amamos de forma realista. Cada um de nós vai mudando ao longo do tempo. Todos os dias há acontecimentos novos, todos os dias sentimos coisas diferentes e todos os dias precisamos de sentir que há alguém que se interessa, que quer saber, que está “lá”.

Quando adotamos – de forma intencional – uma postura de curiosidade genuína -, escolhemos colocar mais perguntas. Colocamo-las com a verdadeira vontade de saber como é que o outro está, o que é que mexe com ele(a). Por exemplo, no final do dia, quando perguntamos «Como foi o teu dia?» e prestamos MESMO atenção à resposta, mostramos que nos importamos. Quando a pessoa de quem gostamos nos conta um episódio em que alguma coisa correu mal e, em vez de nos apressarmos a fazer juízos de valor («Já sabia», «É sempre a mesma coisa») e a apontar o dedo, ele(a) sente-se só, desconectado(a). Mas quando colocamos perguntas que nos ajudem a colocar na posição da outra pessoa, a entender aquilo por que está a passar, é mais provável que nos sintamos ligados.

Não é uma questão de nos anularmos nem de passarmos a mão pela cabeça do outro sempre que ele(a) erra. É uma questão de ”querer saber” em vez de “querer julgar”.


#3: LEVEZA


Para alguns casais, sobretudo quando há filhos, o dia-a-dia pode tornar-se demasiado pesado. A páginas tantas, podemos sentir que a única coisa que temos em comum é a gestão das responsabilidades domésticas. Uma relação é tão mais feliz e coesa na medida em que escolhamos encontrar tempo para a diversão, para o namoro. As saídas a dois em que possamos relaxar, rir, dançar ou simplesmente ter conversas de adultos que não envolvam a resolução de problemas são essenciais para que continuemos a sentir-nos vivos no relacionamento.

Mas mesmo quando as saídas a dois escasseiam, sobretudo pela falta de uma rede de suporte, é possível criar momentos de descontração.


Há rituais que nos ajudam a sentir mais ligados
e relaxados: ver uma série de televisão a dois,
jantar sem os filhos, planear as férias, desconectarmo-nos
do trabalho e das redes sociais e fazer programas
em família que não estejam apenas focados no
interesse dos filhos são alguns exemplos.




#4: HONESTIDADE


A mentira é um veneno para qualquer relação. Faz-nos sentir inseguros, faz com que não consigamos dar o melhor de nós. Mas quando me refiro à honestidade, refiro-me a algo mais profundo do que não mentir de forma grosseira ou desleal. Refiro-me à possibilidade de escolhermos revelar-nos por inteiro. Quando damos a conhecer aquilo que mexe connosco, sem medos, e percebemos que a pessoa que está ao nosso lado continua a amar-nos, sentimo-nos invariavelmente mais fortes e mais ligados.

Revelar os nossos sonhos e aquilo que nos entusiasma pode parecer fácil, mas, na prática, nem sempre o é. Sobretudo se alguns desses sonhos colidirem com os sonhos da outra pessoa ou implicarem que a família saia da sua zona de conforto. Mas a verdade é que se nós não nos revelarmos exatamente como nós somos vamos acabar por acumular frustração e ressentimento.

Por outro lado, é fundamental que consigamos falar abertamente sobre aquilo que nos desagrada, sem ocultar nada, sem mascarar sentimentos. Só assim podemos dar oportunidade à outra pessoa de mudar o que for possível mudar e de mostrar que se importa connosco. Só assim poderemos sentir-nos genuinamente felizes.


#5: ABERTURA


Ao fim de vinte ou trinta anos, ninguém é exatamente a mesma pessoa. Nós vamos mudando, vamos evoluindo. Os nossos gostos mudam, os nossos hábitos mudam e às vezes alguns dos nossos valores também. Nem sempre é fácil aceitar as mudanças da pessoa que está ao nosso lado. Às vezes, essas mudanças podem obrigar-nos a sair da nossa zona de conforto. Mas essa é a única forma de continuarmos felizes ao lado daquela pessoa.

Há quem diga que, no futuro, cada um de nós terá de certeza dois ou três casamentos. Alguns de nós teremos o privilégio de viver dois ou três casamentos com a mesma pessoa. Se escolhermos manter-nos presos ao passado, às características que nos atraíram no início e não houver abertura para a novidade, para a mudança, a relação pode estar condenada.


#6: AFETO



Podemos viver (algum tempo) sem sexo. Podemos viver algum tempo mergulhados nos problemas e desafios sem muita disponibilidade para conversas profundas e demoradas. Mas precisamos de ser tocados, precisamos de sentir que a pessoa que está ao nosso lado é capaz de mostrar o seu amor desta forma.

E, mesmo nas alturas de maior stress, é possível cultivar hábitos saudáveis. Por exemplo, se, em vez dos beijinhos apressados de manhã e à noite trocarmos um beijo de seis segundos, sentir-nos-emos mais felizes, mais ligados e, na prática, só gastámos seis segundos de cada vez.


#7: RESPEITO


Há quem fuja a sete pés das discussões, mas as discussões são normais e saudáveis. Ou, pelo menos, podem ser. Quando discutimos, mostramos aquilo que nos desagrada, revelamo-nos e temos a oportunidade de mostrar que nos importamos com o que o outro sente. Mas se o fizermos “à bruta”, corremos mais riscos. Pelo contrário, quando assumimos a intenção de respeitar sempre a pessoa que amamos, mesmo quando discutimos, é mais provável que façamos escolhas que nos protejam, que nos mantenham ligados. Isso pode passar por reconhecer que estamos demasiado enervados e precisamos de fazer um “time out” para não dizermos disparates, estamos a proteger a relação.

Por outro lado, esta intenção pode levar-nos a olhar com mais atenção para os apelos da pessoa que está ao nosso lado. Nem sempre teremos a disponibilidade emocional para ouvir todas as conversas ou para dizer “sim” ao que nos é pedido. Mas se escolhermos tratar a outra pessoa com todo o nosso respeito, não vamos revirar os olhos quando ele(a) se referir a assuntos que não nos interessam nem vamos mostrar desprezo de forma alguma. Vamos saber dizer “não” centrando-nos nas nossas emoções e tratando a outra pessoa com a bondade que merece.

18.6.19

AUTOCOMPAIXÃO


Autocompaixão

O que é a autocompaixão? Para que serve? Hoje escrevo sobre a ferramenta que tem revolucionado a intervenção em Psicoterapia e cujos resultados ultrapassam aqueles alcançados por programas promotores de autoestima.


Se pensarmos na forma como reagimos às adversidades das pessoas que amamos, deparamo-nos quase sempre com um elemento comum: quando percebemos que alguém de quem gostamos está a sofrer, respondemos com bondade e compreensão. Mesmo que saibamos que as dificuldades por que aquela pessoa está a passar foram, de alguma forma, provocadas por escolhas suas, escolhemos quase sempre dar colo antes de criticar. Porque é que nem sempre conseguimos fazer o mesmo quando somos nós que estamos a sofrer? Porque é que somos quase sempre muito mais autocríticos?





O nosso cérebro está programado para responder
às adversidades com hipervigilância. Essa é
uma das características que tem garantido a
sobrevivência da nossa espécie. Quando há
problemas, a nossa mente fica alerta, obrigando-nos
a reagir. Mas aquilo que, em muitos contextos,
funciona como um mecanismo de defesa,
também pode transformar-se num inimigo.



Na maior parte das vezes em que nos sentimos “mal”, precisamos sobretudo de alguém que nos diga que nos compreende e que nos conforte. Não precisamos de alguém que nos puxe (ainda mais) para baixo.


Quando nos damos conta de que um amigo está em sofrimento – porque perdeu o emprego, porque está em processo de divórcio ou porque acabou de sofrer um enfarte do miocárdio depois de anos de sedentarismo e maus hábitos alimentares -, apressamo-nos a responder com afeto. Não passamos a mão pela cabeça das pessoas de quem mais gostamos, nem mostramos a nossa pena. Mostramos que ele/ela tem o direito de se sentir “assim”, dizemos que estamos “lá” e que pode contar connosco. Na maioria das vezes, damos um abraço bem forte “só” para mostrar que estamos realmente solidários. Isto é COMPAIXÃO.

A AUTOCOMPAIXÃO consiste em tratarmo-nos exatamente com a mesma bondade e com a mesma compreensão com que trataríamos um bom amigo ou alguém de quem gostamos muito. Mas, para que sejamos bem-sucedidos e nos consigamos autoacalmar nas alturas desafiantes, precisamos de praticar.

PRATICAR A AUTOCOMPAIXÃO


As práticas de autocompaixão incluem três elementos:

1. O mindfulness;
2. a humanidade comum;
3. e a bondade.

 1. Mindfulness

Mindfulness tem sido traduzido para português como atenção plena ou consciência plena e consiste num conjunto de ferramentas que nos permitem treinar o nosso cérebro no sentido de conseguir estar genuinamente atento ao momento presente. A meditação mindfulness é extraordinariamente simples, mas requer que nos disciplinemos e pratiquemos diariamente para que colhamos frutos.

Quando começamos a praticar mindfulness, passamos a conseguir reconhecer mais claramente os nossos reais sentimentos e a dissocia-los da imensidão de pensamentos que quase sempre povoam a nossa mente. Precisamos desta clareza para conseguirmos responder com eficácia ao nosso sofrimento.

2. Humanidade Comum

Muitas vezes, a propósito de alguns acontecimentos, dizemos a nós mesmos algumas coisas que nos deixam ainda mais deprimidos. Se, na sequência de uma separação, de um mau desempenho profissional ou da ansiedade antes de um exame inundarmos a nossa mente com pensamentos do tipo «Porque é que isto ME está a acontecer?», «Sou um(a) falhado» ou «O que é que as outras pessoas vão pensar de MIM?», o mais provável é que acrescentemos sofrimento desnecessário ao sofrimento original. Estas são frases que dificilmente dirigiríamos a alguém que amamos.

Pelo contrário, quando conseguimos reconhecer que o sofrimento faz parte da vida de TODOS os seres humanos, que TODAS as pessoas enfrentam dificuldades e inquietações, é mais provável que consigamos olhar para a realidade de forma objetiva e que sejamos capazes de arregaçar as mangas. Alguns acontecimentos são mesmo muito duros do ponto de vista emocional.



Quando mergulhamos no nosso sofrimento e
fazemos comparações com pessoas que estão à nossa
volta e que nos parecem muito mais felizes e em paz,
ignoramos o facto de também elas serem humanas e de,
em função disso, em determinada altura também
serem confrontadas com outras formas de sofrimento.



3. Bondade

Sempre que der por si a passar por uma experiência geradora de sentimentos de culpa, vergonha, tristeza ou medo, experimente fechar os olhos e imaginar como seria se alguém de quem gosta muito (imagine uma pessoa específica) estivesse no seu lugar. O que é que lhe diria? Que palavras utilizaria? Que tom de voz usaria? Experimente dirigir essas palavras na sua própria direção – com bondade e empatia. Se puder, coloque a mão no peito, perto do coração. Sinta o calor da sua mão e canalize o seu genuíno afeto na sua direção.

A prática de autocompaixão pode parecer-lhe “estranha” e, pelo menos numa fase incial, é natural que se sinta desconfortável com a ideia de dizer “coisas bonitas” a si mesmo(a). É natural. Muitos de nós não estamos habituados a tratar-nos com a bondade e a compreensão com que tratamos as outras pessoas. Não desista. Continue a praticar, inspire-se nalguns vídeos (recomendo os da investigadora Kristin Neff) e usufrua desta poderosa ferramenta.

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