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17.4.17

CRISE NO CASAMENTO: COMO ULTRAPASSAR


Ninguém está à espera de passar por uma crise conjugal. Quando se ama, é perfeitamente natural (e saudável) desejar que seja para sempre. No entanto, nem sempre estamos atentos às necessidades da pessoa de quem gostamos, nem sempre reparamos no seu mal-estar, nem valorizamos (na medida certa) as suas queixas. Seja porque há filhos pequenos para cuidar, mil e um afazeres domésticos ou porque o trabalho é super exigente, a verdade é que muito fácil ignorar as chamadas de atenção da pessoa de quem se gosta. Assumimos o compromisso de estar “lá” para ela, gritamos aos quatro ventos que uma relação tem de ser alimentada diariamente e acreditamos que, entre uma ou outra discussão mais acesa, estamos a fazer um bom trabalho. E se, de repente, formos surpreendidos por uma crise no casamento? E se a pessoa de quem gostamos nos disser que já não sente a mesma coisa? E se houver uma terceira pessoa?

Ao contrário do que se possa pensar, nem todas as crises conjugais estão associadas à infidelidade. É claro que se um dos membros do casal se interessar por uma terceira pessoa é mais provável que levante a hipótese de terminar a relação. Mas há muitas pessoas que se sentem insuportavelmente infelizes no casamento e que reconhecem que só fará sentido continuar se houver mudanças drásticas. Mas quais?


Como é que se recupera a ligação quando pelo menos um dos membros do casal assume que não está feliz?

1.       DÊ IMPORTÂNCIA

Nem sempre é fácil valorizar as queixas da pessoa de quem se gosta. Temos quase sempre demasiadas coisas em que pensar, demasiados problemas para resolver e nem sempre conseguimos dar a devida importância aos sentimentos da pessoa que está ao nosso lado. Se a pessoa que ama deu a entender que não está feliz na relação, DÊ IMPORTÂNCIA. Pare para conversar, assuma uma postura de curiosidade gentil em relação às suas queixas. As tarefas domésticas podem ficar para depois, alguns compromissos profissionais também. Quando estamos doentes encontramos tempo para ir ao médico, para fazer exames e tratamentos, certo? Se a relação estiver a dar sinais de que já foi mais saudável, é fundamental mostrar de forma inequívoca que está interessado(a) em dar o seu melhor para ultrapassar esta crise.

2.       NÃO SE SINTA ATACADO(A)

Num mundo ideal cada um de nós conseguiria estruturar as suas queixas da forma mais serena e assertiva do mundo – sem magoar, sem atacar. Na prática, não é assim que as coisas funcionam. Quanto mais infelizes e aflitos nos sentirmos, maior é a probabilidade de nos queixarmos de forma atabalhoada e de sermos injustos com a pessoa que está ao nosso lado. Talvez digamos frases como “Tu NUNCA…” ou “É SEMPRE a mesma coisa”. Se a pessoa de quem gosta lhe disser “Tu NUNCA me perguntas como é que eu me sinto”, não leve à letra. Mesmo que se lembre de ter feito essa pergunta há dois dias e tenha a certeza absoluta de que ele(a) o(a) ignorou, procure assumir a tal postura de genuína curiosidade. Colocar perguntas, querer saber mais sobre o que a pessoa de quem gosta sente e sobre aquilo que lhe está a fazer falta aproximá-los-á. Nem sempre é fácil manter a cabeça fria e ignorar a injustiça associada a algumas queixas mas quanto maior for a vontade de questionar e “calçar os sapatos” do outro, melhor.

3.       ESCOLHA O MOMENTO CERTO PARA EXPOR AS SUAS QUEIXAS

Se a pessoa de quem gosta o(a) confrontar com um conjunto de reclamações, é natural que se sinta com legitimidade para “contra-atacar” com as suas próprias queixas. Afinal, se as coisas andam mornas (ou mesmo frias), de certeza que a responsabilidade não é só sua, certo? É verdade MAS há um momento certo para expor as suas queixas e NÂO É na sequência das queixas da pessoa de quem gosta. Se o fizer, estará apenas a passar a mensagem de que não está disposto a assumir toda a responsabilidade pela crise atual. Ora, é fundamental conseguir passar a mensagem de que está na disposição de assumir TODA a responsabilidade pelos SENTIMENTOS da pessoa de quem gosta. Aquilo que importa é transmitir-lhe “Tu és importante para mim. Aquilo que tu sentes é importante para mim”.

4.       CONVERSAR, CONVERSAR, CONVERSAR

Se há um hábito que importa recuperar é este: é preciso encontrar tempo TODOS OS DIAS para conversar sobre o que cada um sente, sobre o que cada um viveu ao longo do dia, sobre as coisas positivas e negativas. É muito fácil sentirmo-nos desligados de alguém quando vivemos permanentemente com a sensação de que aquilo que dizemos e sentimos não é importante. Quantas vezes damos por nós a olhar para o relógio enquanto a pessoa de quem gostamos está a contar uma episódio que viveu durante o dia de trabalho?



Encontrar tempo TODOS OS DIAS para conversar não significa que tenha de arranjar tempo para falar sobre a relação. Significa, isso sim, que deve disciplinar-se no sentido de garantir que tenha disponibilidade para prestar atenção àquilo que a pessoa de quem gosta tem para contar. Prestar atenção é mais do que desligar os dados do smartphone: é assumir uma postura curiosa, colocando perguntas, mostrando genuíno interesse e dando todo o seu apoio.

5.       CRIE COMPROMISSOS (VIÁVEIS)

Talvez não seja fácil dar resposta a todas as queixas da pessoa de quem gosta. Se as coisas esfriaram muito – ao ponto de ele(a) não saber se deve continuar a relação – é natural que haja uma pilha de reclamações e que você se se sinta demasiado aflito(a) para saber por onde começar. Peça-lhe para estruturar os seus apelos através de um “Top 3”: se cada um dos membros do casal tivesse de propor apenas 3 coisas que gostaria de fazer mais vezes com o outro, o que é que escolheria? Cada um deve ser livre para escolher o que quiser. Podem ser compromissos tão díspares como “Irmos mais vezes a casa da minha mãe”, “Fazermos as tarefas domésticas a dois” ou “Passar um fim-de-semana fora de vez em quando”. Depois é importante definir de forma objetiva cada um destes itens: o que é que quer dizer com “de vez em quando”? Ou com “mais vezes”? Quais são as tarefas que gostaria que ficassem permanentemente a cargo da pessoa de quem gosta? Na prática, faz sempre falta a postura de curiosidade gentil, que se traduza em perguntas que lhes permitam conhecer genuinamente as necessidades do outro. Comecem por escolher (cada um) uma atividade da lista de necessidades da pessoa amada. Assumir um compromisso pode parecer pouco, em particular quando a relação está em crise, mas é o caminho mais seguro para que a pessoa de quem gosta perceba que você está empenhado(a) em fazer com que a relação dê certo. Claro que essa confiança depende da sua genuína vontade de se descentrar e ir ao encontro do que a pessoa de quem gosta precisa. Por exemplo, de nada adiantará “fazer o frete” de ir todas as semanas a casa da sogra só para cumprir calendário. Se essa for a sua escolha, procure fazê-lo de coração – com genuína vontade de tornar a vida da pessoa que está ao seu lado mais feliz.

6.       PEÇA AJUDA


Nunca é demasiado cedo para pedir ajuda especializada mas às vezes pode ser demasiado tarde. Se acha que a sua relação está em risco, procure trata-la como a matéria mais importante da sua vida. Reúna todos os recursos de que dispuser. A ajuda da terapia de casal é, sobretudo, a oportunidade de olhar para as dificuldades num ambiente seguro com o objetivo de identificar as soluções que permitam que ambos olhem para relação como uma fonte de alegria e bem-estar.

23.3.17

DAR ESPAÇO NUMA RELAÇÃO


Madalena tinha iniciado uma relação há menos de um mês e sentia-se insegura a respeito do interesse de Ricardo numa relação de compromisso. Embora não rotulassem o relacionamento de namoro, ambos assumiram que o objetivo era conhecerem-se melhor e manterem uma relação de fidelidade. Ricardo apresentou Madalena aos amigos e revelou a vontade de construir uma relação estável. Em três semanas tinham conseguido estar juntos quatro vezes e Madalena mostrou a sua insatisfação. Compreendia que ambos tivessem compromissos e laços afetivos para além da relação amorosa mas sentia algum desinteresse da parte de Ricardo. «Disse-lhe que gostava de perceber que ele sentia a minha falta e que não lhe era indiferente se só pudéssemos estar juntos uma vez por semana e ele disse-me que o que era importante para ele era dar-me espaço para que eu pudesse fazer as minhas coisas. Senti-me confusa…».

Numa relação amorosa é fundamental que cada um tenha espaço para estar com familiares ou amigos individualmente, para investir em hobbies ou para fazer qualquer atividade desportiva ou de lazer.


MAS isso não significa que o tempo a dois passe para segundo plano. De uma maneira geral, precisamos de sentir que somos importantes para a pessoa de quem gostamos. Precisamos de sentir que há interesse, que há vontade de estar junto e que a relação é uma prioridade.

Algumas pessoas gostam da ideia de uma relação estável mas não se sentem preparadas para fazer dela a sua prioridade. E não há nada de errado nisso – desde que a outra pessoa se sinta igualmente confortável com essa condição. Neste caso, Madalena sentia-se claramente insatisfeita. Ricardo desvalorizou o apelo, reforçando que PARA SI era importante dar espaço. É curioso que não tenha sido capaz de dizer que ELE PRECISAVA DE ESPAÇO. Ao colocar as coisas nestes termos, estava claramente a desresponsabilizar-se. Era como se, em teoria, as suas necessidades não fossem importantes e a sua preocupação fosse cuidar dos interesses da namorada. Mas desde quando é que estamos a zelar pelo bem-estar da pessoa amada quando ignoramos os seus apelos e INVENTAMOS necessidades? Na prática, Ricardo estava a procurar definir as necessidades da namorada e, assim, impor um relacionamento à medida dos seus interesses.

Imaginemos que Ricardo teria sido capaz de dizer «EU PRECISO DE ESPAÇO NA RELAÇÃO». Faria sentido que Madalena se sujeitasse a estar com a pessoa de quem gostava apenas uma ou duas vezes por semana? DEPENDE. Ninguém tem o direito de impor nada a ninguém mas cada um de nós tem o dever de prestar atenção às próprias necessidades afetivas. É absolutamente legítimo que um homem ou uma mulher sinta a necessidade de estar mais tempo com a pessoa de quem gosta – especialmente no início de uma relação – e é desejável que consiga falar abertamente sobre isso. É absolutamente legítimo que haja a necessidade de sentir que a relação é importante e que ambos fazem esforços para conseguirem estar juntos. Se o tempo a dois equivaler apenas às sobras de outros afazeres, isso pode traduzir-se em insatisfação.



A partir daí, a mensagem que passa é «Eu não sou importante. As minhas necessidades não são importantes» e isso é meio caminho para uma relação desequilibrada.


Prestar atenção às próprias necessidades, valorizá-las na medida certa, é meio caminho para que a pessoa de quem se gosta também as valorize. E, se isso não acontecer, abrir-se-á espaço para outras escolhas. Abre-se mão de uma relação geradora de insatisfação. Fica o amor-próprio e a possibilidade de, mais cedo ou mais tarde, encontrar alguém que valha a pena.

7.3.17

DEPRESSÃO PÓS-PARTO


«Vou simplesmente dizê-lo: tenho depressão pós-parto. Uma das melhores coisas das redes sociais é a possibilidade de interagir com os amigos e os fãs de maneira franca e foi tão estranho saber aquilo por que eu estava a passar mas achar que não era o lugar certo para falar sobre isso. Sempre me senti genuinamente perto de todos vocês e estou muito aliviada por agora saberem de algo que tem sido uma enorme parte de mim há tanto tempo.».

As palavras são da manequim ChrissyTeigen, mulher do cantor John Legend, e que foi mãe de Luna há 10 meses. Num artigo publicado na revista Glamour, a celebridade descreve de forma detalhada como se sentiu ao longo dos últimos meses. A irritabilidade, a dificuldade em sair de casa, a falta de energia, os dias in-tei-ri-nhos passados no sofá sem ânimo para fazer o que quer que fosse (Chrissy chegou a dormir na sala noites seguidas por não se sentir com forças para subir ao andar de cima da sua casa), as dores no corpo e, claro, os sentimentos de culpa. Com um marido que procurou estar sempre lá para si, uma carreira bem-sucedida e uma filha saudável, achava que «devia estar feliz» e sentia-se ainda pior por não estar. Em Dezembro, numa consulta com o seu médico, foi confrontada com uma lista de sintomas a que foi respondendo com sucessivos “sins”. Diagnóstico: depressão pós-parto. À carga negativa deste rótulo juntou-se a possibilidade de finalmente receber a ajuda de que precisava. Com a recente divulgação abre-se também a possibilidade de mais mulheres perceberem que não há por que sentir vergonha de um estado emocional que não controlam.

Para quem não saiba, o nascimento de uma criança não está sempre envolvido apenas em emoções positivas. Muitas mulheres passam por níveis elevados de ansiedade, medo e muuuuitas dúvidas nos primeiros dias depois do parto. É o chamado baby blues e pode durar várias semanas. Para cerca de 25 por cento destas mulheres os sintomas evoluem para uma depressão pós-parto, que pode manifestar-se com ou sem sinais de ansiedade.



Apesar de todos os alertas, muitas mulheres não conhecem os sintomas e/ou têm medo ou vergonha de pedir ajuda, o que acaba por prolongar – desnecessariamente – o sofrimento de todos os membros da família. Mas mesmo quando falam abertamente sobre os seus sentimentos, muitas vezes são confrontadas com comentários – bem intencionados – do tipo «Isso vai passar», «Foca-te no que realmente interessa» ou «Tens o melhor do mundo aí ao teu lado», que acabam por reforçar os sentimentos de culpa e a sensação de fracasso.

«Eu devia sentir-me bem». Estas são as palavras que a maior parte das mulheres com depressão pós-parto dizem a si mesmas, comprometendo a possibilidade de receberem a ajuda de que precisam.

Aquilo que Chrissy Teigen e outras mulheres têm tentado fazer é mostrar através do seu testemunho que esta é uma condição que pode afetar qualquer mulher, independentemente da sua posição social.

SÃO SINAIS DE ALARME:

  • Sentir-se só e procurar isolar-se;
  • Sentir-se inútil e/ou incapaz de cuidar do bebé;
  • Apatia e falta de interesse ou de prazer em relação às atividades que antigamente geravam interesse;
  • Dormir muito mais do que o habitual (ou não conseguir dormir);
  • Irritabilidade excessiva, estar zangada a maior parte do tempo;
  • Sensação de vazio ou não conseguir nada.


O QUE HÁ A FAZER?

Curiosamente, várias investigações têm salientado a importância dos laços conjugais. Conversar abertamente com o companheiro sobre os sentimentos pode ser o suficiente para que os sintomas de baby blues desapareçam ao fim de algumas semanas e é quase sempre fundamental para que a mulher com depressão pós-parto aceite receber ajuda especializada.



Não fazendo parte dos planos, essa insatisfação é normal mas pode ser ultrapassada se ambos assumirem uma ativa vontade de continuar a falar de forma franca sobre o que cada um sente e se houver tempo e disponibilidade para continuar a dar importância a esses sentimentos. Quando o mau-humor deixa de ser só mau-humor e/ou quando os conflitos vêm acompanhados de outros sinais de alarme, é preferível consultar um médico ou um psicólogo experiente.

A par desta ajuda, são pilares importantes na recuperação de uma depressão pós-parto:

  • Exercício físico;
  • Caminhadas fora de casa;
  • Alimentação cuidada;
  • Gestos de afeto e massagens (Uma massagem diária de 15 minutos feita pelo companheiro está comprovadamente associada ao alívio dos sintomas de depressão pós-parto).


22.2.17

RESPONDA A ESTAS 3 PERGUNTAS ANTES DE AVANÇAR PARA O DIVÓRCIO


Portugal é o campeão europeu em matéria de divórcio: por cada 100 casamentos há 70 divórcios. Curiosamente, o número de pessoas que se casam pela segunda e pela terceira vez tem aumentado. Continuamos a ter esperança de encontrar a pessoa certa e de viver com ela «para sempre» mas esse parece ser um desafio cada vez maior.

Se uma pessoa se sentir insatisfeita com a sua relação, é legítimo que pense em separar-se mas valerá a pena parar para refletir sobre algumas questões.

1.       A RELAÇÃO TEM UM PROBLEMA INULTRAPASSÁVEL?

Em momentos de fúria, a ideia de um divórcio pode parecer a escapatória para ser mais feliz. Muitos casais felizes identificam momentos de desconexão em que surgiram pensamentos como «O que é que eu estou a fazer nesta relação?» ou «Talvez estivesse melhor sozinho(a)». É normal. Depois a raiva passa e dão conta de que aquilo que os une é mais forte do que aquilo que os separa.



À medida que a sensação de desamparo se instala, é provável que pelo menos uma das partes equacione esta alternativa.

Antes de avançar, procure refletir sobre os motivos por detrás desta escolha. Se estiver numa relação onde haja qualquer forma de maus-tratos ou se a pessoa de quem gosta tiver um problema de alcoolismo ou outra forma de dependência não tratada, o divórcio é, provavelmente, a escolha que lhe permitirá cuidar de si, do seu amor-próprio e, assim, abrir espaço para que, mais cedo ou mais tarde, possa construir uma relação emocionalmente estável com outra pessoa. Mas se der por si a dizer (ou pensar) coisas como «Já não há paixão» ou «Nós estamos muito distantes», não se precipite. Estes são sinais de desconexão comuns à maior parte das pessoas que recorrem à ajuda da terapia conjugal.

Mesmo quando há amor, é relativamente fácil acumular desilusões em relação à pessoa de quem gostamos. Na azáfama dos dias, entre a vontade de continuar a alimentar a relação e ser um super pai ou uma super mãe, dar o melhor em contexto profissional, conseguir estar “lá” para a família alargada e para os amigos, é fácil descurar as necessidades de quem mais gostamos. À medida que isso acontece, é expectável que pelo menos um dos membros do casal se sinta ignorado, desprezado, rejeitado, desamparado. E à medida que as dificuldades de comunicação se instalam e o desespero toma conta de si, é fácil atirar a toalha ao chão e desistir do projeto mais importante da sua vida.

Parar para olhar para as verdadeiras dificuldades, para as circunstâncias em que se sente desvalorizado, ignorado, tomado como garantido ou até desprezado pode implicar que cada um tenha oportunidade de implementar mudanças que façam renascer a esperança.

2.       O DIVÓRCIO EMOCIONAL JÁ ACONTECEU?

Algumas pessoas divorciam-se muito antes de terem consciência disso. Às vezes estão tão absorvidas pelos múltiplos afazeres que nem reparam na própria tristeza. Ou reparam mas não conseguem fazer nada. Continuam casadas mas, se olharmos de perto, reparamos que raramente estão juntas, raramente param para namorar, raramente se divertem a dois. Funcionam como uma equipa – ele leva os miúdos ao colégio, ela vai busca-los; ele vai ao ginásio ao serão enquanto ela trata do jantar; ela vê a série de televisão no quarto enquanto ele trata da cozinha – mas não alimentam o amor romântico. Os anos passam – às vezes passam-se décadas! – e as pessoas habituam-se. Estão lá mas não estão. E há uma altura em que o divórcio até parece fácil. Afinal, é “só” passar para o papel aquilo que tem sido a sua realidade. Na prática, importa parar para prestar atenção ao essencial: o que é que cada um (ainda) sente? Ainda há afeto? Apesar de todo o distanciamento, o que é que ainda os une? Por que é que ainda não se divorciaram?

Em muitos casos não houve divórcio emocional. Houve distanciamento e até mágoas acumuladas. Mas as pessoas foram ficando porque ainda havia amor, porque ainda havia esperança. Se for esse o caso, vale sempre a pena parar para refletir sobre as escolhas que têm prejudicado a relação e dar tempo para que novos hábitos possam dar frutos.

3.       DO QUE É QUE EU PRECISO?

Quase todas as pessoas são capazes de fazer uma lista interminável com as suas necessidades afetivas. Mais do que isso, a maior parte das pessoas são capazes de fazer uma lista com tudo aquilo que acham que merecem. «Eu mereço alguém que queira partilhar todas as tarefas domésticas comigo», «Eu mereço alguém que ganhe tanto como eu», «Eu mereço alguém que saiba do que é que eu gosto quando vai às compras».

Na prática – não me canso de dizer:



E ainda bem. De outro modo, nenhum de nós estaria à altura dos requisitos da pessoa de quem gostamos.

Quanto mais nos agarramos à imagem ideal de um parceiro romântico, mais reparamos nas imperfeições da pessoa (real) que está ao nosso lado. E isso distrai-nos de todas as suas qualidades, as mesmas que nos atraíram no início da relação.


Tentar responder de forma honesta à pergunta «Do que é que eu preciso (mesmo) para ser feliz numa relação?» é essencial para evitar precipitações. Afinal, talvez não seja por acaso que a taxa de divórcios para segundos casamentos é assustadoramente alta.

16.2.17

É POSSÍVEL REATAR UMA RELAÇÃO COM UM EX-NAMORADO E SER FELIZ?


Reatar uma relação com um ex-namorado é o caminho para uma relação mais feliz ou vai tudo voltar a correr mal? Foi com muito gosto que cedi uma entrevista ao Diário de Notícias a propósito deste tema.

1 - Um casal que se reencontra depois de uma primeira relação falhada pode reconstruir uma relação feliz?

Sim, sobretudo se o afastamento der lugar à reflexão sobre o que correu mal da primeira vez e/ou ao amadurecimento individual. Da mesma maneira que crescemos quando estamos numa relação, é provável que amadureçamos na sequência de uma rutura. A distância emocional em relação aos momentos de conflito pode ajudar-nos a olhar para os erros cometidos com sentido de responsabilidade.

2 - E para isso têm que esquecer o que correu mal numa primeira relação? Esse deve ser um assunto esclarecido logo à partida?

Ninguém esquece aquilo por que passou, especialmente se tiver causado mágoa. Não é desejável que se tente apagar o passado, em particular se um dos membros do casal tiver cometido erros graves. Aquilo que deve acontecer é uma tentativa de esclarecer aquilo que porventura tenha ficado por esclarecer.



3 - Como fazer resultar uma relação que já não correu bem uma vez?

Na medida em que se consiga falar abertamente sobre o que correu mal e, sobretudo, na medida em que cada um seja capaz de assumir genuíno arrependimento em relação aos erros cometidos, é mais provável que surjam compromissos importantes. Se tiver havido marcos que tenham abalado a confiança, é fundamental que se esclareça as expectativas e as necessidades de cada um. A inexistência deste tipo de diálogo poderia implicar que, nas mesmas circunstâncias, se repetissem os erros ou que um desenvolvesse expectativas irrealistas em relação ao outro. Por exemplo, em certos casos em que houve uma traição, a pessoa que foi traída pode ter a expectativa de que o companheiro esteja disponível para abdicar do direito à privacidade com o objetivo de restaurar a confiança. A pessoa que traiu pode ter a expectativa de que o cônjuge tenha “esquecido” o assunto e/ou esteja capaz de assumir o compromisso de não voltar a falar nisso.

4 - No caso de pessoas mais velhas que encontram um amor antigo, depois de enviuvar ou de se divorciarem. Como se regressa a uma relação que já passou há décadas? Há alguma coisa ainda da primeira ligação?

Haverá provavelmente memórias de momentos positivos vividos a dois e a sensação de pertença, de proximidade afetiva. Claro que as décadas de afastamento correspondem quase sempre a mudanças muito significativas e nem sempre é fácil o confronto entre as expectativas e a realidade. Por um lado, há a sensação de se estar “em casa”, a sensação de familiaridade, a ideia de que se conhece aquela pessoa de toda a vida mas, por outro, há o confronto com uma bagagem que é desconhecida e que pode trazer surpresas.

5 - Como podem neste caso os elementos do casal afirmar o seu direito a ter uma nova relação e feliz quando muitas vezes os filhos, já adultos, não aceitam?

Os filhos não são donos dos pais e, ainda que uma mudança desta natureza nem sempre seja fácil de aceitar, é fundamental que haja respeito pelas escolhas de cada um. Tal como acontece a propósito do divórcio dos filhos, em que os pais têm o direito à tristeza e ao luto mas não têm o direito de condicionar decisões, nestes casos os filhos adultos têm o direito de se sentirem desconfortáveis ou tristes com a nova relação mas não têm o direito de impor a sua vontade. Infelizmente, na prática há alguns casos em que a rutura acontece – às vezes entre os membros do casal, outras entre pais e filhos.

6 - É mais fácil reconstruir uma história com alguém com quem já se foi feliz? Quais os desafios de uma relação nestes termos?


Nalguns casos pode ser mais fácil, em função da sensação de familiaridade que referi antes. Quando há demasiada tensão na bagagem da relação e/ou demasiados assuntos por resolver pode tornar-se mais difícil. Outro desafio diz respeito aos acontecimentos que ocorreram no intervalo da relação – é preciso falar sobre eles, às vezes intensamente, para que haja a sensação de que se conhece verdadeiramente aquela pessoa. Dez ou quinze anos depois, já não se ouve as mesmas músicas, os interesses mudam e, seguramente, os acontecimentos emocionalmente mais significativos implicaram mudanças na forma como cada um olha para a vida.
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