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11.2.21

COMO AUMENTAR A RESILIÊNCIA

 

Como aumentar a Resiliência

Todas as pessoas passam por situações difíceis ou até traumáticas, mas, na maioria das vezes, têm a capacidade de seguir em frente. O que é que nos permite levantar e arregaçar as mangas de cada vez que caímos? Porque é que há pessoas mais resilientes do que outras? Como é que podemos desenvolver a resiliência?


O que é a resiliência?


A resiliência é a capacidade de nos adaptarmos às situações mais stressantes e desafiadoras da vida. Ao contrário do que possamos imaginar, a maioria das pessoas são resilientes. Claro que um simples olhar à nossa volta nos mostra que há pessoas mais resilientes do que outras. Todos conhecemos pessoas que fazem um drama à menor contrariedade e outras que mostram uma capacidade incrível de se reerguer mesmo nas maiores adversidades. Quando olhamos para desafios intensos como o diagnóstico de um cancro, a perda de emprego ou um divórcio, é evidente que se trata de marcos muito significativos capazes de abalar a felicidade e a estabilidade da maioria das pessoas. Mas também é claro que a maior parte das pessoas que conhecemos acabam por ultrapassar estes desafios, adaptando-se e reerguendo-se.


Podemos desenvolver a resiliência?


Os estudos sobre a Psicologia positiva evoluíram muito nas últimas décadas e contribuíram para o conhecimento que hoje temos sobre este tema. A resiliência está diretamente relacionada com níveis mais elevados de autoconfiança, bom humor, e uma imagem positiva de nós mesmos e a boa notícia é que podemos desenvolvê-la em qualquer momento da nossa vida.


Dicas para desenvolver a resiliência


1.       Conte com o apoio dos outros.


Perante um problema difícil, pode ser tentador fechar-se na sua concha e contar apenas consigo mesmo. As pessoas que cresceram por sua conta, sem sentirem que pudessem confiar ou contar com os adultos à sua volta, podem sentir maior dificuldade em vulnerabilizar-se, confiar nos outros ou pedir apoio. É importante que tenhamos compaixão pelas nossas vulnerabilidades, pelas nossas feridas emocionais, mas que não permitamos que elas se cristalizem e nos impeçam de explorar novos caminhos.


Se tem dificuldade em pedir apoio ou em confiar

nos outros, é porque em algum momento da sua

vida houve a necessidade de esse mecanismo de

defesa surgir, mas isso não significa que hoje não

haja ninguém que seja merecedor da sua confiança.




Desabafar e contar com o apoio dos outros é um meio importante para nos sentirmos amparados e conseguirmos enfrentar com resiliência as adversidades.

 

2.       Olhe para os problemas com flexibilidade.


Não podemos mudar aquilo que nos aconteceu no passado nem podemos mudar alguns acontecimentos do presente, mas podemos mudar a forma como olhamos e reagimos a todos estes eventos. Quando olhamos para trás e identificamos os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, temos, pelo menos, duas alternativas. Uma é vitimizarmo-nos, olhar para nós mesmos como coitadinhos, olhar para os acontecimentos como catástrofes em relação às quais nada podemos fazer, olhar para os traumas como inultrapassáveis e para as pessoas que causaram esses traumas como monstros. A outra é olhar para os acontecimentos com abertura e curiosidade e olhar para as pessoas à nossa volta com compaixão, reconhecer as suas próprias vulnerabilidades e o sentido de humanidade comum que está associado à certeza de que cada pessoa faz, num dado momento, o melhor que sabe. De uma maneira geral, esta abordagem ajuda-nos a reconhecer também o lado mais positivo de cada evento negativo. Por exemplo, as pessoas que cresceram com um progenitor alcoólico serão mais resilientes na medida em que sejam capazes de perceber que a forma como esse progenitor cresceu e a forma como recebeu (ou não recebeu) o amor dos seus cuidadores condicionou a estruturação da sua personalidade. Esta compaixão abre espaço para que consigam reparar nos gestos daquele progenitor que mostram afeto, apesar de todas as feridas emocionais.


Quando enfrentamos uma adversidade, podemos olhar para ela como um castigo, interrogando-nos sobre o mal que fizemos para merecer tal catástrofe ou podemos olhar para esse acontecimento com abertura e curiosidade, questionando-nos sobre o que está ao nosso alcance e/ou que lições podemos aprender.



3.       Aceite que o sofrimento faz parte da vida.


«Shit happens», já ouviu dizer? Quando nos confrontamos com uma adversidade, é fácil questionar «Porquê eu? Porque é que isto me aconteceu?», mas a verdade é que a pergunta mais razoável é «E porque não eu?». Olhe à sua volta: conhece alguém que nunca tenha passado por dificuldades sérias? Talvez lhe ocorra responder que sim. Afinal, todos conhecemos pessoas a quem a vida parece estar sempre a sorrir. Ou será que são sobretudo pessoas que assumem uma postura otimista em relação à vida?


Não há um único ser humano adulto que nunca tenha enfrentado uma dificuldade séria – um divórcio, um problema de infertilidade, uma traição, a perda de emprego, o alcoolismo de um familiar, uma doença séria, a perda de um ente querido. Uma das coisas que diferencia as pessoas resilientes é a aceitação de que o sofrimento faz parte da vida. É também por isso que elas arregaçam as mangas mais rapidamente, em vez de perderem tempo a vitimizar-se. Elas não precisam de ver o vizinho a sofrer para reconhecerem a humanidade comum que as liga às outras pessoas. Elas não olham para um momento de dor como uma tragédia que as exclui do direito à vida perfeita que as outras pessoas mostram no Instagram.


Aceitar o seu sofrimento não significa alimentar quaisquer sentimentos de pena de si próprio(a). Significa, isso sim, reconhecer que as tragédias acontecem e que a forma como você responde a essas tragédias vai influenciar (muito) o seu bem-estar. Aceitar que o sofrimento faz parte da existência humana ajuda-nos a reconhecer que, nos momentos difíceis, as escolhas que fazemos podem ajudar-nos a afundar ou a nadar até à tona.


4.       Enfrente os problemas de forma ativa e direta, em vez de os evitar.


Enfiar a cabeça na almofada é um direito seu, pelo menos na medida em que essa seja uma escolha transitória e uma forma de permitir a si mesmo(a) sentir a dua dor. Mas esta opção deixa de ser uma alternativa saudável na medida em que se transforme na única resposta aos problemas. Quanto mais evitarmos confrontar-nos com os nossos problemas, maior é a probabilidade de eles se transformarem em bichos papões que pareçam cada vez mais difíceis de ultrapassar. Enfrentar os problemas, dar-lhes um nome e fazer um plano para lidar com eles é a melhor forma de voltar a sentir que tem controlo sobre a sua vida.

 

5.       Liberte a sua ansiedade.


Cada pessoa tem a sua própria forma de lidar com a ansiedade, mas há escolhas que são mais saudáveis do que outras. As pessoas que se disciplinam no sentido de incluir na sua rotina hábitos como a meditação, a prática de exercício físico ou a realização de hobbies que as ajudem a desconectar-se dos problemas e a descontrair, costumam enfrentar as adversidades com maior resiliência.


6.       Identifique o seu propósito.


A vida leva-nos muitas vezes a um piloto automático em que dificilmente paramos para prestar atenção às coisas que mais valorizamos. Quando estamos demasiado acelerados pelo ritmo frenético das nossas vidas, é fácil sentirmo-nos assoberbados, stressados e frustrados. Parar para prestar atenção às coisas (e às pessoas) que mais valorizamos – praticando ativamente a gratidão, por exemplo – pode ajudar-nos a reconhecer com maior clareza o nosso propósito de vida e a definir objetivos que genuinamente nos aproximem de uma vida mais feliz.


7.       Crie tempo para a brincadeira.


Se quisermos ver uma criança feliz, é só criarmos espaço para que ela tenha a oportunidade de brincar, de preferência acompanhada. Brinquedos + companhia = diversão. Às vezes, nem sequer é preciso que haja brinquedos de verdade. Já reparou como duas crianças se podem divertir com caixas velhas enquanto fingem que se trata de carros em competição? Ou como brincam aos médicos mesmo quando não têm qualquer equipamento que se assemelhe a um estetoscópio? A imaginação e a companhia são o suficiente.


Os adultos também precisam – muito – da brincadeira. Somos muito mais felizes e resilientes na medida em que consigamos incluir nas nossas rotinas tempo para descontrair junto das pessoas de quem gostamos.



E este hábito é ainda mais importante e terapêutico nos períodos de maior stress. Lembre-se disso da próxima vez que disser que não tem tido tempo para fazer as coisas de que gosta.


8.       Foque-se naquilo que pode mudar.


Somos muito bons a identificar as ameaças. Na verdade, o nosso cérebro está altamente programado para isso. Este mecanismo de sobrevivência é essencial nas situações em que a nossa sobrevivência está em causa, como quando estamos na presença de um animal feroz. A questão é que a nossa vida não está sistematicamente em risco.


Quando focamos toda a nossa atenção naquilo

que não controlamos, estamos a desperdiçar a nossa

energia e, mais importante do que isso, estamos a

desperdiçar a oportunidade de canalizar a nossa

atenção para aquilo que podemos mudar.


Por exemplo, quando um pai ou uma mãe perde um filho, é evidente que o seu mundo muda para sempre. A morte é irreversível e deixa-nos com um sentimento de impotência brutal. Não é por acaso que diversos estudos mostram que a prevalência do divórcio é altíssima depois de um acontecimento como este. Mas a verdade é que há muitos casais que se mantêm unidos e cuja relação prospera, apesar de terem enfrentado a maior das adversidades. Estes casais conseguem perceber que aquilo que perderam não tem de lhes roubar aquilo que ficou.  Eles conseguem sentir-se gratos por aquilo que ainda têm e conseguem centrar a sua atenção naquilo que podem fazer para manter aquilo que têm. Esta postura – de praticar a gratidão e de centrar a atenção naquilo que podemos mudar – é aplicável a todas as tragédias da vida.


9.       Pergunte a si mesmo(a): «As escolhas que estou a fazer são boas para mim?».


Se tiver acabado de ser deixado(a) e estiver a passar por um divórcio, é natural que queira seguir todos os passos do(a) seu(sua) ex-companheiro(a). Talvez passe horas nas redes sociais na tentativa de saber se ele(a) tem alguém ou simplesmente para saber se está online. Mas será que essas escolhas lhe fazem bem? Será que o(a) ajudam a ficar melhor? Nem sempre conseguimos fazer as escolhas que nos protegem ou que promovem o nosso bem-estar. Às vezes até sabemos exatamente o que é que “deveríamos” estar a fazer, mas não é essa a nossa escolha. Há uma diferença entre sabermos o que nos faz bem e sermos capazes de nos comprometermos com essa escolha. Mas se formos capazes de trazer esta pergunta para o nosso dia-a-dia, aumenta a probabilidade de sermos genuinamente gentis connosco próprios.


Isto é aplicável às mais diversas adversidades e a pergunta pode assumir diferentes formatos:


Será que eu preciso mesmo de comprar isto?

Será que é bom para mim deixar de ir ao ginásio e ficar fechada em casa a sofrer por amor?

Será que me faz bem ir todas as semanas ao cemitério?

Será que me faz bem alimentar pensamentos como «Nunca vais ser capaz de conseguir aquele emprego»?

Será que me faz bem “googlar” sobre doenças?


10.   Reconheça a sua força.


Olhe para trás e repare na forma como respondeu às diferentes adversidades com que já se confrontou. Que características o(a) ajudaram a ultrapassar esses acontecimentos? Que escolhas contribuíram para que não se afundasse?


Quando olhamos para os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, é natural que as recordações estejam maioritariamente relacionadas com os sentimentos desconfortáveis por que passámos, com o sofrimento vivido. Mas a esmagadora maioria destas situações foram ultrapassadas graças à nossa resiliência, às escolhas que fizemos e que também traduzem a nossa força. Por outro lado, estes acontecimentos também acrescentam invariavelmente uma dose considerável de crescimento pessoal. Há competências que nem sequer sabíamos que tínhamos e/ou que foram aprimoradas na resposta às dificuldades. Há aprendizagens que jamais teríamos feito se não tivéssemos passado por certos eventos. Sermos capazes de reconhecer a nossa força, as características que nos ajudam a enfrentar as dificuldades, é fundamental para que reconheçamos a resiliência que há em nós para lidar com o que está por vir.

10.2.21

CONSULTAS DE PSICOLOGIA E TERAPIA DE CASAL ONLINE


Consultas de Psicologia e terapia de casal online

Em tempos de Covid-19 e isolamento, a terapia online é a única forma de receber ajuda especializada no que toca à saúde psicológica. Será que funciona? Como é que se processa? É para todos? Como é que sabemos que podemos confiar?


Há muitos anos que dou consultas através da Internet. Até há um ano, essa era a exceção na minha prática clínica e estava reservada sobretudo para os portugueses que vivem fora do país e para algumas pessoas que, apesar de viverem em Portugal, têm dificuldade em encontrar um psicólogo/ terapeuta conjugal perto da área de residência ou que simplesmente vivem num meio demasiado pequeno, onde todos se conhecem.

Apesar de preferir as consultas presenciais, habituei-me desde cedo a este formato e percebi que a minha ajuda poderia ser muito significativa para quem, por questões logísticas, pudesse sentir-se ainda mais vulnerável. Tenho acompanhado portugueses em países tão longínquos quanto a Arábia Saudita, Angola, Canadá ou os Estados Unidos e muitos espalhados pela Europa. Em comum têm a vontade de receber ajuda na língua em que se expressam melhor. No caso dos portugueses a viver em meios pequenos, é fácil perceber a diferença que poderia fazer consultar um psicólogo local. Não é uma questão de a confidencialidade das consultas estar em causa. Tem a ver com a exposição de entrar numa clínica e só por isso ser motivo de conversas e rumores. Isso é ainda mais difícil quando falamos de terapia conjugal.

Com a chegada do Covid-19 a Portugal, comecei por reconhecer que o contacto presencial com as pessoas que acompanho nos poderia colocar a todos numa situação vulnerável e passei a realizar as consultas através de videoconferência. Dias depois, a Ordem dos Psicólogos emitiu um comunicado em que dizia que todos os profissionais da área deveriam passar a fazer o seu trabalho neste formato. Entretanto, tornou-se óbvio que esta seria mesmo a única forma de nos protegermos.

Para quem nunca fez consultas online, a ideia pode gerar confusão. Afinal, como é que se processa uma consulta de Psicologia clínica ou de Terapia de Casal online? De que forma se pode garantir a confidencialidade e a segurança das consultas? Será que as consultas neste formato funcionam tão bem como as consultas presenciais?

A Terapia online funciona?


Sim. As consultas de Psicologia e terapia familiar são tão eficazes quanto as consultas presenciais. Não é uma questão de opinião. Há diversos estudos que nos mostram essa eficácia.


  •  Há investigações que mostram que a terapia cognitivo-comportamental, que permite estimular a consciência sobre padrões de pensamentos negativos ajudando os pacientes a responder a situações desafiantes, é tão eficaz por videoconferência quanto pela via presencial.
  •   Um estudo mostrou que os adolescentes que realizaram consultas por telefone para a perturbação obsessivo-compulsiva obtiveram tanto sucesso no tratamento quanto os colegas que foram acompanhados presencialmente.
  •   Uma investigação mostrou que os veteranos que sofrem de perturbação pós stress traumático respondem tão bem à terapia por videoconferência quanto ao tratamento recebido no consultório.

No caso da terapia de casal, há claramente uma vantagem nas consultas online: a gestão do tempo. A maior parte dos casais que acompanho são pessoas ocupadas, com dificuldade em conciliar agendas e assegurar que alguém tome conta das crianças durante duas ou três horas. A consulta dura cerca de uma hora e meia, mas, se juntarmos as deslocações, nem sempre é fácil encontrar tempo para que a sessão seja realizada. Quando as consultas são realizadas por videoconferência, contornam-se mais obstáculos e a probabilidade de o casal conseguir comprometer-se de forma consistente com a terapia é muito maior.

Mas há outra vantagem ainda mais significativa: a diminuição do stress. Não há volta a dar: por mais simpático(a) que o(a) terapeuta seja, há quase sempre mais ansiedade quando temos de nos deslocar a uma clínica.

A nossa casa é o nosso porto seguro e pode funcionar como facilitadora do relaxamento e, consequentemente, da capacidade para expormos as nossas emoções de forma mais segura.


Posso confiar no profissional que

está do outro lado do ecrã?


Nos dias de hoje, não faz sentido fazer escolhas clínicas arriscadas. Se não se sente seguro(a) de que o(a) psicólogo(a) que está a pensar contactar seja o(a) mais indicado(a) para si, há alguns passos que pode/deve dar:


  •   A Ordem dos Psicólogos dispõe de uma lista de todos os profissionais registados e autorizados a exercer em Portugal. Certifique-se de que é acompanhado(a) por um(a) psicólogo(a) inscrito na Ordem.
  •  Converse com o seu médico de família e peça uma recomendação. Os médicos de família estão habituados a fazer o encaminhamento para consultas de especialidade e poderão ajudar a encontrar a melhor alternativa.
  •    Se se sentir confortável, peça uma referência a um(a) amigo(a) ou a um familiar. Não há nada como a certeza de que alguém já foi bem-sucedido no acompanhamento psicológico com determinado(a) profissional.
  •   Faça perguntas. Antes de marcar uma consulta, faça uma lista com todas as suas dúvidas. Telefone ou envie um e-mail para o(a) psicólogo(a) que está a pensar consultar. Estas respostas ajudá-lo(a)-ão a fazer a sua escolha. Se não obtiver resposta, isso também o(a) ajudará a fazer a sua escolha 😊.

Com o que é posso contar na terapia online?


As consultas por videoconferência funcionam de forma idêntica às consultas presenciais. Do outro lado do ecrã está um(a) psicólogo(a) isolado(a) no(a) seu gabinete e capaz de assegurar a confidencialidade da consulta. Tal como acontece nas consultas presenciais, a empatia e a ligação são elementos fundamentais para o sucesso da terapia. Se não se sentir confortável com algum aspeto da consulta, procure expor a sua perspetiva.

Na primeira consulta, o(a) psicólogo(a) informa e explica de forma clara como é feita a recolha e registo dos dados clínicos e, no final, partilha uma declaração de consentimento informado que deve ser assinada/ validada pelo(a)(s) paciente(s).



De uma maneira geral, é nesta altura que se elabora
o “contrato terapêutico”, isto é: há um acordo em
relação aos objetivos terapêuticos, periodicidade e
duração das consultas, propostas de exercícios
e formas de pagamento.



Tal como acontece nas consultas presenciais, é legítimo que queiramos obter mudanças rápidas e que nos sintamos desmotivados se elas demorarem a surgir. A minha experiência mostra-me que na maioria das situações há um alívio e um otimismo que resultam logo das primeiras consultas, mas as mudanças mais sólidas envolvem tempo e compromisso.

O início de um processo terapêutico – individual ou familiar – envolve quase sempre muito desgaste e vulnerabilidade. Marcar a primeira consulta é um primeiro grande passo. É uma forma de mostrar a si mesmo(a) que quer cuidar de si, da sua relação ou da sua família. Pode não ser sempre fácil e algumas consultas até podem ser “duras” por tocarem em feridas profundas, mas aquilo que é expectável é que um(a) psicólogo(a) treinado(a) o(a) ajude a aproximar-se gradualmente dos seus objetivos e a sentir-se mais seguro(a), mais feliz e mais capaz.

RELACIONAMENTOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Relacionamentos em tempos de pandemia

 

Em tempos de confinamento, manter um relacionamento harmonioso é cada vez mais desafiante, sobretudo quando temos de conjugar o trabalho, a ocupação de crianças pequenas, o acompanhamento escolar e todas as tarefas que uma casa exige. Hoje partilho algumas sugestões que podem ajudar-nos a manter a ligação com a pessoa que amamos.


Em duas palavras, é mais provável que nos mantenhamos conectados se houver altruísmo e (boa) comunicação. Aqui estão algumas dicas:

 

#1: Oferecer “bolsas de tempo”

A inexistência de limites físicos entre a vida profissional e familiar é uma das grandes fontes de stress. Quando os membros do casal conseguem comprometer-se a “segurar as pontas” para oferecer ao outro algumas bolsas de tempo – para relaxar, fazer desporto ou outra coisa qualquer, reduzem o stress, sentem-se mais unidos e com maior sensação de controlo sobre a própria vida.

 

#2: Aceitar as tentativas de fazer as pazes

Quanto mais tempo se passa em confinamento, maior é a irritabilidade e a impaciência. Os conflitos são praticamente inevitáveis e é muito importante tentar fazer as pazes. Quando o membro do casal que tenta uma reaproximação se confronta com um “chega para lá”, surgem sentimentos de rejeição difíceis de ultrapassar. Pelo contrário, quando aceita o pedido de desculpas ou a tentativa de fazer as pazes, a escalada diminui e aumenta a probabilidade de voltar a haver trocas de carinho e o sentimento de amparo.

 

#3: Assumir a própria responsabilidade

É preferível assumir a sua quota parte de responsabilidade em vez de tentar provar que tem razão. Depois de um momento de tensão, este pode ser um passo importante para que o outro também o faça e o conflito seja mais facilmente ultrapassado. Claro que é muito mais fácil dizer do que fazer. Quando assumimos, com humildade, que também errámos ou que não devíamos ter dito algumas coisas, abrimos espaço para o diálogo e para a reaproximação. Mostramos à outra pessoa que a vemos e que nos importamos com o que ela sente.

 

#4: Mostrar desagrado focando-se em situações específicas

Há uma diferença significativa entre fazer uma queixa e fazer uma crítica. Uma queixa é situacional, refere-se a um comportamento e ao impacto que esse comportamento provocou. Uma crítica implica quase sempre uma generalização que acaba por ser sentida como um ataque à personalidade do(a) companheiro(a).


Uma das ferramentas que proponho frequentemente no consultório e que permite que qualquer pessoa manifeste o seu desagrado de forma emocionalmente inteligente é a seguinte:

 

ABC

A – «Quando…» (descrição clara e objetiva da situação/

 comportamento/ episódio)

B - «… eu senti-me» (identificação dos sentimentos)

C - «Preferia que…/ Preciso que…»

(reconhecimento das próprias necessidades).



 

#5: Importância da empatia / esperar o melhor do outro /aceitar a não-intencionalidade de magoar

Antes de fazer qualquer desabafo, é importante tentar colocar-se na posição do outro, reconhecer os desafios que ele(a) enfrenta. O mais provável é que ambos se sintam assoberbados com a multiplicidade de tarefas, especialmente quando há filhos, e que ninguém esteja no seu melhor. O facto de haver erros, equívocos de comunicação ou esquecimentos está longe de querer dizer que a pessoa que está ao seu lado não se importa. Quando começamos por dizer “Eu sei que não fizeste por mal…” ou “Eu sei que estás com muito trabalho…”, mostramos empatia e reconhecimento.

 

#6: A importância dos pequenos gestos de bondade

Diariamente, há pequenas oportunidades para mostrarmos à pessoa que amamos que nos importamos com ela, que a queremos fazer feliz. Quando o(a) deixamos dormir até mais tarde e asseguramos os cuidados às crianças porque sabemos que ele(a) esteve a trabalhar até tarde, quando trazemos do supermercado os miminhos de que ele(a) gosta, quando preparamos uma refeição especial, quando celebramos as suas pequenas conquistas profissionais ou quando o(a) ajudamos na elaboração de um relatório ou na tradução de um trabalho, estamos a encher o mealheiro de afetos.

 

#7: Manter as conversas diárias

O facto de ambos estarem a trabalhar a partir de casa não significa que haja maior disponibilidade para prestar atenção e conhecer as pequenas coisas que mexem com cada um. É importante manter rituais de conversação em que cada um possa desabafar um pouco e os membros do casal possam acalmar-se mutuamente.


As conversas a dois que acontecem habitualmente no final de cada dia são um dos “segredos” dos casais mais felizes. Permitem que cada um se sinta visto, compreendido e amado. São autênticos “calmantes” naturais que nos ajudam a perceber que é ao lado da pessoa que escolhemos que nos sentimos mais relaxados.


Mas é preciso ter atenção ao propósito destas conversas e a tudo aquilo que elas Não são! Estas conversas diárias a dois NÃO servem para falar sobre os problemas da relação.

 

São conversas sobre todas as pequenas e grandes coisas que mexem com cada um dos membros do casal ao longo do dia. São uma espécie de atualização diária a respeito daquilo que vai acontecendo quando, apesar de estarem na mesma casa, não estão a prestar atenção ao outro. A intenção é a de partilhar, acolher, demonstrar interesse, apoiar e incentivar.


26.1.21

QUAL É O MOMENTO CERTO PARA CASAR?

 

Qual é o momento certo para casar?

Em qualquer relação séria, há uma altura em que é preciso conversar sobre assuntos sérios. Qual é o momento certo para começar a falar sobre casamento? E como é que se inicia uma conversa como essa?

 

Hoje em dia a maior parte das pessoas começam por viver juntas sem oficializar a relação. Para algumas, essa é uma oportunidade de “testar” a relação, de crescer a dois e, assim, partir com mais certezas para o casamento. Para outras, o casamento é uma ideia longínqua para a qual ainda não se sentem preparadas. Algumas chegam a verbalizar que gostariam de casar «um dia», mas emocionalmente há alguma aversão a dar esse passo. Às vezes essa aversão está relacionada com o que viram no casamento dos próprios pais ou com algumas ideias feitas que resultam da observação de casais amigos. Na prática, a aversão ao casamento está muitas vezes relacionada com o medo de repetir um padrão disfuncional e/ou com o medo que a pessoa tem de se sentir sufocada. Esta sensação de sufoco é típica das pessoas com estilo de vinculação amorosa evitante.


Para a maioria das pessoas com um estilo de vinculação seguro ou ansioso, o desejo de casar acaba por surgir mais cedo ou mais tarde. Para muitas dessas pessoas, o casamento é a base da criação de uma família. Algumas têm a coragem de falar abertamente sobre isso, outras não. O receio de trazer o assunto está quase sempre relacionado com o medo de que o(a) companheiro(a) se assuste, se sinta preso(a) ou queira terminar a relação.


Tal como acontece em relação a outros assuntos sérios,

é importante que estejamos em sintonia com a pessoa

que amamos em relação ao casamento. Se isso não

acontecer, é mais provável que haja um que se sinta

magoado, ressentido e desesperançado em relação ao

futuro a dois e que, mais cedo ou mais tarde, o assunto

se transforme numa fonte inesgotável de conflitos.



Tenho conhecido vários casais que entraram, sem querer, num círculo vicioso em que um, com um perfil mais ansioso, desespera por sinais claros de compromisso (e exerce muita pressão) e o outro, que se sente pressionado, foge de qualquer compromisso sério. Como estas conversas acontecem quase sempre ao fim de meses ou anos de relação, isto é, quando ambos estão emocionalmente envolvidos, não é fácil terminar a relação.

 

Quando é que se deve começar a conversar sobre casamento?


Antes de qualquer outra coisa, é importante que você faça a sua autoauscultação. Como é que você se sente em relação ao casamento? Não é em relação ao casamento com ESTA pessoa. Quão importante é o casamento para si? É um sonho de vida? É um passo importante de que não gostaria de abdicar? É indiferente? É algo que não quer para si? Faz questão de se manter descomprometido(a)? Procure conhecer claramente os seus pensamentos e sentimentos em relação a este assunto.


Depois, converse com o(a) seu(sua) companheiro(a) sobre isso – sobre o que pensa e a forma como se sente em relação ao casamento em geral – e procure conhecer a posição dele(a). Esta conversa deve acontecer no início do relacionamento.


Ninguém quer comprometer-se com um casamento nas primeiras saídas, MAS é importante que ambos aproveitem os primeiros encontros para se revelarem com abertura e honestidade e, assim, oferecerem mutuamente a oportunidade de fazer escolhas conscientes.


Os primeiros encontros devem ser leves e divertidos, mas é importante que nenhum dos membros do casal se envolva “demasiado” com alguém que, mais cedo ou mais tarde, possa mostrar que simplesmente não é a pessoa certa. Há poucas coisas que nos derrubem tanto como chegar a um ponto da relação em que percebamos que a pessoa que amamos não deseja o mesmo grau de compromisso que nós. Quando isso acontece, sentimo-nos desolados.


Um dos cenários comuns é este: uma pessoa que deseja casar, ter filhos e assumir todos os compromissos “tradicionais” conhece alguém, por quem se apaixona, e que revela, com clareza e honestidade, que NÃO quer casar. A pessoa está tão apaixonada que:


1.       Diz a si mesma «Não faz mal. O importante é o amor que sentimos».

2.       Diz a si mesma «Não faz mal. Com o tempo, ele(a) vai acabar por ceder».


Quando aquilo que cada um diz que quer é fruto da tal autoauscultação cuidada, o mais provável é que, a prazo, este se transforme num problema sério. Mais cedo ou mais tarde, as necessidades de ambos vão colidir e alguém – provavelmente os dois – vai sentir-se injustiçado.

 

Numa segunda fase, que pode variar muito de pessoa para pessoa, é importante que você se questione: «Como é que me sinto em relação a casar COM ESTA PESSOA?» e, claro, que queira saber como é que o(a) seu(sua) companheiro(a) se sente em relação a esse passo. Mais importante do que determinar a data em que esta conversa deve acontecer, é imprescindível que você olhe para o estado da sua relação:


Quão comprometidos estão com as respetivas famílias de origem? Como é a sua relação com a família do(a) seu(sua) companheiro(a)? Dão-se bem? Têm uma relação próxima? Há desentendimentos sérios? Lembre-se de que quando nos casamos com uma pessoa, assumimos a responsabilidade de criar laços com as pessoas que são importantes para ela. Isso inclui fazer cedências, abdicar de tempo para estar com essas pessoas e estar presente em momentos especiais.


Em princípio, você vai passar muitos anos ao lado do(a) seu(sua) companheiro(a) e é muito importante que reflita sobre a sua vontade/ capacidade de se conectar com as pessoas que são importantes para ele(a) e de participar nos rituais familiares, como os aniversários, férias ou Natal.


Sentem-se emocionalmente ligados? A conexão emocional determinará a qualidade e a durabilidade da sua relação. Como é que você sabe se há conexão emocional? Preste atenção à vossa comunicação. Conhece a bagagem emocional do(a) seu(sua) companheiro(a)? Conhece as suas feridas emocionais? Os seus sonhos e ambições? Sabe o que mexe com ele(a)? O que o(a) faz feliz? Como é que ele(a) reage aos seus desabafos? Mostra-se feliz pelas suas conquistas e realizações? Preocupa-se quando você se sente triste, preocupado(a) ou inseguro(a)? Há poucas coisas que nos unam mais a uma pessoa do que a certeza de que ela se importa genuinamente com os nossos sentimentos. Você sentir-se-á mais seguro(a) se viver com a profunda convicção de que a pessoa que está ao seu lado é alguém que se importa e que o(a) valoriza. Lembre-se de que é fundamental que se interrogue: «Quão valorizado(a) se sente o(a) meu(minha) companheiro(a)?». Ele(a) sentir-se-á mais entusiasmado(a) em relação à ideia de casar consigo na medida em que se sinta considerado(a), valorizado(a).


Como está a confiança mútua? Uma relação de compromisso é tão mais feliz, segura e duradoura na medida em que haja confiança. Antes de falar sobre casamento, é importante que faça uma auscultação à confiança mútua. Se tem dúvidas em relação à lealdade do(a) seu(sua) companheiro(a), é melhor resolver essas questões antes de falarem em casamento. Esta é também a altura de trazer para cima da mesa todos os assuntos sensíveis do seu passado. Partilhar com a pessoa de quem gosta os seus erros ou os assuntos mais difíceis, ajudá-lo(a)-á a sentir-se seguro(a). Pelo contrário, a ocultação de acontecimentos importantes, como uma traição, uma dívida ou um problema por resolver implicará que ele(a) se sinta atraiçoado(a) e que, mais cedo ou mais tarde, a desconfiança se transforme em desconexão e ressentimento.

 

Como ter a conversa sobre casamento?


Arrisque. Não há volta a dar. Se o casamento é um passo importante para si e se reconhece a vontade de dar esse passo, mais cedo ou mais tarde você terá de se encher de coragem e arriscar iniciar a conversa. Se ama a pessoa que está ao seu lado e a ideia do casamento começa a fazer sentido para si, é melhor falar abertamente sobre os seus sentimentos. Não brinque com o assunto, não minimize a sua importância. Também não é preciso fazer ultimatos ou passar a ideia de que quer casar “amanhã”. Mas seja claro(a) e honesto em relação à importância do assunto e aos prazos. Se a ideia de casar daqui a cinco anos lhe parece longínqua e excessiva, assuma-o com total transparência. A última coisa de que precisa é de trazer o assunto de forma vaga e alimentar mágoa e ressentimento porque a pessoa que ama não valorizou o seu apelo.


Explique que NÃO está a fazer um pedido de casamento. Está a convidar o(a) seu(sua) companheiro(a) a conhecer os seus sentimentos e a partilhar os dele(a).


Conversem sobre os vossos valores. Nem todas as pessoas têm a consciência dos valores que norteiam a sua vida, mas esses valores variam muito de pessoa para pessoa. Por exemplo, algumas pessoas são ultra organizadas e responsáveis. Outras, privilegiam a liberdade. Algumas dão muita importância aos laços com a família de origem enquanto outras se sentem confortáveis com meia dúzia de reuniões familiares por ano. Algumas pessoas cultivam a sua espiritualidade, enquanto outras nem sabem o que isso é. Algumas são poupadas, outras são gastadoras. Algumas são empreendedoras e gostam de arriscar, enquanto outras privilegiam a segurança e a previsibilidade. Algumas sabem que só serão inteiramente felizes se tiverem filhos, enquanto outras sabem que não quer ter. Algumas colocam a vida familiar acima de todas as prioridades, outras valorizam sobretudo a progressão na carreira.


Conversem sobre o que cada um valoriza numa relação. Pode parecer estranho, mas algumas pessoas estão juntas há anos e mal se conhecem. Pouco ou nada sabem sobre aquilo que o outro valoriza na relação ou sobre aquilo que cada um pensa sobre o que é preciso para fazer com que uma relação dê certo. Nem todas as pessoas se interessam sobre Psicologia ou sobre a ciência dos relacionamentos, mas há inúmeros livros e artigos disponíveis na Internet que os podem ajudar a conversar sobre estes “ingredientes”. Estas conversas ajudá-los-ão a refletir sobre a capacidade de cada um para assumir um compromisso tão sério (e tão gratificante) como o casamento).

 

Quanto mais claro(a) e honesto(a) conseguir ser em relação às suas necessidades e expectativas, mais fácil será para o(a) seu(sua) companheiro(a) avaliar se é capaz de se comprometer consigo. Por outro lado, é essencial que você queira GENUINAMENTE conhecer a pessoa que está ao seu lado e perceber se é capaz de fazer as cedências que permitam ter uma relação de compromisso em que ele(a) se sinta feliz. NÃO chega sonhar acordado(a) com um casamento feliz em que o(a) seu(sua) companheiro(a) é um mero personagem sem vontade própria. Tem a certeza de que ama o(a) seu(sua) companheiro(a) exatamente como ele(a) é e não apenas a imagem idealizada que construiu? Então, é altura de partilhar a sua vontade de avançar para este passo.

 

7.1.21

O PROBLEMA NÃO SOU EU, ÉS TU

 


O que é a violência emocional? O que é que é abuso? O que é que não é abuso? Será que ele(a) muda? O que é que é preciso para que ele(a) mude? O que fazer quando há abusos? Como responder em circunstâncias específicas? Que escolhas devo fazer para ser tão feliz como mereço? O livro “O Problema não sou eu, és tu” pretende responder a estas e outras questões.

Quando, há uns anos, publiquei no blogue “A Psicóloga” um artigo sobre violência emocional, estava longe de imaginar que viria a receber tantos pedidos de ajuda de pessoas (maioritariamente mulheres) que se reviam naquela caracterização. Na maior parte das vezes, estes pedidos de ajuda estavam associados a sentimentos contraditórios. Por um lado, a tristeza, a ansiedade, os sentimentos de culpa e de vergonha associados à exposição aos abusos e, por outro, o alívio por haver um nome para aquela realidade e a esperança de que o pedido de ajuda pudesse ser o início de uma mudança para melhor.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), durante o período de confinamento associado à pandemia provocada pela COVID-19, o número de casos de violência doméstica na Europa aumentou 60%. Em Portugal, no mesmo período o número de pedidos de ajuda por via telefónica e digital teve um aumento de 180% face ao primeiro trimestre. Não houve um aumento significativo de situações novas, mas houve uma agudização de situações de violência que já existiam.

No entanto, estas queixas reportam, na esmagadora maioria das vezes, situações de violência física, em que as marcas são visíveis e «fáceis» de registar. Os números de violência psicológica são muito mais difíceis de apurar, desde logo porque a vítima sente-se invariavelmente encurralada pela inexistência de provas que confirmem o seu testemunho. Se a isso juntarmos o efeito destruidor que os abusos têm na autoestima, a par do isolamento social e do medo de ninguém acreditar em si, é fácil perceber porque há tantos casos que não chegam ao nosso conhecimento.

Uma das coisas que aprendi com as vítimas de violência emocional foi que quanto mais informados estivermos a propósito do que são comportamentos abusivos, não só do ponto de vista físico, mais óbvios, mas também em termos emocionais, maior é a probabilidade de sermos os primeiros a impedir que alguém – de forma voluntária ou involuntária – nos maltrate. Neste livro, falo sobre as múltiplas formas que a violência emocional pode assumir e explico que nenhuma relação abusiva contém todas essas formas.




Joana perdoou uma traição, mas continuava a ter dúvidas sobre o real compromisso do namorado com a relação. Como resposta, ouvia que estava a «estragar o ambiente». Nélson escreveu um livro e, apesar do aval de uma editora, foi arrasado pela namorada: «Ainda vais ter de os reembolsar pelo investimento». Jorge manipulava Sílvia constantemente com a frase «Se tu gostasses mesmo de mim…». Cristina ouvia do marido que não servia «sequer para ter sexo». Cláudio repetia a Elsa: «Não tens sentido de humor».

Às vezes, a violência emocional assume a forma de chantagem emocional. Outras vezes, assume a forma de explosões e de humilhações. Mas também pode assumir a forma de amuos para impor a própria vontade, pode envolver os filhos como arma de arremesso, pode envolver tentativas de controlo através do dinheiro, pode apresentar-se de forma tão ténue que é a vítima que acaba por sentir-se sistematicamente culpada pelos problemas da relação. Há muitas formas de maltratar a pessoa que está ao nosso lado, e os efeitos são sempre devastadores.

As pessoas não são monstros. Ao longo deste livro, descrevo muitas relações marcadas por abusos. No entanto, aquilo que importa, do meu ponto de vista, não é diabolizar ninguém, mas mostrar, de forma absolutamente inequívoca, quão destrutivos podem ser alguns comportamentos – independentemente de serem praticados de forma consciente ou não. Até porque podemos ser nós os autores da violência emocional, por mais difícil que nos seja reconhecê-lo. Não se precipite a colocar a mão no peito e a dizer «Eu? Jamais!». Talvez se surpreenda. Há muitas expressões que nos habituámos a ouvir e a reproduzir sem que alguma vez tivéssemos parado para as analisar. Quantas vezes disse, mesmo que a «brincar», que o seu companheiro ou companheira não o(a) merecia? Ou, perante uma piada mal aceite por parte do outro, respondeu com um «Não tens sentido de humor»? E o «tratamento do silêncio»? Alguma vez recorreu a ele para provocar alguma reação? Em determinados contextos, todos estes são exemplos de abusos emocionais.

Ao longo deste livro, procuro esclarecer alguns dos mitos associados à violência emocional, procuro mostrar que esta forma de violência também pode estar presente na relação com os nossos pais, com o chefe ou até com amigos. Se tem sido vítima de violência emocional, é possível que muitas vezes se questione sobre a sua saúde mental, é possível que às vezes se sinta a enlouquecer. Não, você não está maluco(a) e este livro pode ajudá-lo(a) a recuperar a autoestima que se deteriorou ao longo da relação abusiva.

Na segunda parte do livro, partilho um conjunto de ferramentas que o(a) ajudarão a avaliar se a pessoa que pratica os abusos está ou não capaz de se comprometer com a mudança e refiro-me a várias formas de recuperar de uma relação abusiva. Sair ou ficar na relação? No final desta leitura, espero que se sinta mais capaz de tomar uma decisão.

Este livro não é um incentivo ao fim das relações. É, ou pode ser, o início da construção de uma vida genuinamente feliz e equilibrada. A informação que escolhi partilhar tem a intenção de o(a) ajudar a dar os passos de que necessita para que da sua vida faça parte uma relação maravilhosamente imperfeita onde a sua voz e os seus sonhos sejam acolhidos e incentivados. Felizmente, tenho assistido a muitas histórias bonitas que me mostram que a vida pode dar muitas voltas e que, quando cuidamos de nós com o amor e a dedicação que oferecemos aos outros, é mais provável que vivamos rodeados de quem nos quer bem.


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