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7.1.19

COMO CONTINUAR A SER FAMÍLIA DEPOIS DO DIVÓRCIO

Como continuar a ser família depois do divórcio


Quando um casal se separa, é usual dizer-se que é uma família que se desfaz. O pai vai para um lado e a mãe vai para o outro. Para as crianças as questões logísticas são apenas uma parte do assunto. Para os filhos, a família mantém-se – o pai é o pai e a mãe é a mãe. O que é que os adultos podem fazer para que, apesar das perdas, a família possa continuar a ser uma fonte de paz e segurança?


O divórcio é o segundo acontecimento mais stressante da vida familiar – apenas ultrapassado pela morte do companheiro ou de um filho. Por mais que ouçamos falar de divórcios e de separações de forma mais ou menos banal, por muito que as estatísticas nos mostrem que há cada vez mais famílias a passar por isso – em Portugal já há 7 divórcios por cada 10 casamentos que ocorram -, vale a pena lembrar que este é, de uma maneira geral, um processo doloroso para todos. Talvez se encurtem caminhos na medida em que nos lembremos disso e sintamos compaixão pelo sofrimento de cada pessoa envolvida antes de darmos por nós a fazer juízos de valor precipitados.

Ninguém deseja o divórcio e, mesmo quando um dos adultos toma essa iniciativa, fá-lo quase sempre com muita tristeza e apreensão à mistura.


Quanto maior for a capacidade de cada adulto para gerir as suas emoções, maior a probabilidade de o bem-estar das crianças ser assegurado.

Contar às crianças que os pais se vão separar:

A importância de dizer a verdade.


Quando há filhos, o momento de ter “a” conversa e anunciar o divórcio pode ser particularmente stressante. A maior parte dos pais e mães que conheço desejam genuinamente o melhor para os seus filhos em todas as circunstâncias. Quando o divórcio é o caminho que os adultos sabem que têm de percorrer para voltarem a ser felizes, pode ser muito difícil lidar com a tristeza que as crianças invariavelmente sentirão. Pelo meio, há conflitos, há emoções contraditórias e há quase sempre um adulto que está mais ligado do que o outro e que pode ter dificuldade em manter-se sereno. É normal.

Não é fácil manter o foco, prestar muita atenção à forma como os filhos estão a acompanhar o processo de separação emocional e acompanhá-los antes da decisão oficial. Tenho-me cruzado com muitos pais que achavam que as crianças não sabiam de nada e que foram surpreendidos aquando do anúncio oficial. Não nos apressemos a julga-los. Estão quase sempre a viver o pior momento das suas vidas.

Aquilo que procuro transmitir a todos os pais e mães é que se esforcem por serem verdadeiros com as crianças, adaptando naturalmente a linguagem à idade de cada filho.


Quando a decisão estiver tomada, o ideal é que as crianças possam receber a notícia através de uma conversa serena em que estejam presentes os dois progenitores. Para quê? Para que, sem culpas nem acusações, possam mostrar às crianças que eles – os adultos – são os responsáveis por esta decisão e que continuarão a garantir que elas – as crianças – continuarão a sentir-se amadas pelos dois.

O que é isso de dizer a verdade?


Quando me refiro à importância de dizer a verdade, refiro-me sobretudo a não correr o risco de deixar as crianças desamparadas. Não permitir que haja a possibilidade de os filhos terem de lidar com toda a carga deste acontecimento sem sentirem que há espaço para conversar com os pais. A minha experiência como terapeuta familiar permite-me garantir-vos que há mesmo muitas crianças que mostram solidariedade pelo sofrimento dos adultos e que acabam por sofrer caladas. Por isso, é importante que os adultos não se resignem ao silêncio das crianças e que assumam a verdade de forma proativa.

Mas isto é muito diferente de escolher partilhar com elas os detalhes da separação. O que é que uma criança tem a ganhar com a revelação de uma traição? O que é que acrescenta ao bem-estar de um filho saber os pormenores que conduziram à rutura? Eu direi que é importante que os adultos tenham especial cuidado para não transformarem as crianças nos seus aliados em qualquer missão contra o ex-companheiro.

É normal que uma pessoa se sinta vítima do ex-companheiro. É normal que se sinta injustiçada, magoada. Mas é desejável que consiga gerir essas emoções recorrendo ao apoio de outros adultos e dando o seu melhor para que os filhos continuem a sentir-se amparados tanto pelo pai como pela mãe.

Quando, pelo contrário, uma criança se sente na obrigação de defender um dos progenitores por se tratar do elo mais fraco, isso coloca-a numa posição em que nenhuma criança deveria ter de ficar.

Depois do divórcio:

O que é que vai acontecer?


Ao longo do processo de afastamento emocional, e ainda antes de a decisão se consolidar, é normal que as dúvidas assaltem o pensamento dos adultos. E agora? Como é que vai ser? Será que o dinheiro vai chegar? Para onde vou viver? Quanto tempo vou passar com os meus filhos? Como é que as pessoas à minha volta vão reagir? Será que a tristeza vai passar?

Eu gostava de dizer que a maior parte dos pais e mães têm respostas para estas e outras perguntas no momento da separação mas isso não seria real.

Na prática, pode levar tempo até que os adultos se entendam ou até que as questões práticas se definam. É normal. Há muitas emoções para gerir, lembra-se?


Quando os adultos sentem compaixão por si mesmos e aceitam que as dúvidas façam parte da sua realidade, é mais provável que se sintam em paz, apesar de todas as interrogações. E é exatamente isso que pode ser transmitido às crianças.

É natural que as crianças tenham muitas dúvidas, muitos medos. Algumas crianças fazem muitas perguntas. Outras só querem saber se vão ter de sair da casa onde vivem. Outras não perguntam nada e até podem fazer com que os adultos se convençam de que não têm curiosidade. É a conversar que as podemos confortar. Sempre. Mas isso não significa que os pais tenham de ter as respostas para todas as perguntas.

Os pais podem antecipar algumas perguntas e preparar-se para a(s) conversa(s) mas é importante que deixem espaço para o aparecimento de perguntas para as quais não estejam preparados. Não há qualquer problema em responder «Não sei» ou «Ainda não pensámos nisso». Aquilo de que as crianças mais precisam é da certeza de que os adultos se vão conseguir entender e negociar para que as decisões práticas sejam definidas. 

Vai ficar tudo bem


Quando a decisão é anunciada, é pouco provável que esteja tudo bem. Por norma, pelo menos um dos adultos está devastado e ambos podem ter dificuldade em conter as emoções. Tenho trabalhado com muitos pais e mães que me dizem que fizeram um esforço hercúleo para não chorar à frente dos filhos. Para quê? – pergunto. As crianças não gostam de ver o pai ou a mãe a chorar mas isso não significa que seja preferível tentar ocultar as emoções. Quando o pai ou a mãe chora à frente dos filhos (sem se vitimizar nem acusar o ex-companheiro), está a mostrar as suas emoções e a abrir espaço para que as crianças façam o mesmo. Depois é importante tranquiliza-las e explicar que NESTE MOMENTO não está tudo bem mas vai ficar tudo bem.

Dizer, com clareza e honestidade, que os adultos vão precisar de tempo para gerir tanto as questões práticas como as suas emoções é dar às crianças a mesmíssima possibilidade. Elas também devem ter a oportunidade de viver a tristeza, o medo ou a raiva com o tempo de que precisarem. E podem sempre ser confortadas com a certeza de que VAI MESMO ficar tudo bem.

No meio das incertezas, aquilo que importa assegurar é que os adultos se esforçarão por continuar a focar-se no bem-estar dos filhos e isso também passa por darem o seu melhor no sentido de AMBOS continuarem a estar presentes de forma regular na vida das crianças. A guarda e as responsabilidades parentais podem não estar (ainda) definidas mas as crianças sentir-se-ão infinitamente mais tranquilas se ouvirem os adultos explicar-lhes que serão capazes de conversar e negociar para que ambos continuem a estar presentes nos acontecimentos que fazem parte do dia-a-dia dos filhos – na escola, nas festas, no médico, nas férias, na ronha dos fins-de-semana, nos trabalhos-de-casa, nas conversas sobre as zangas com os amiguinhos.

O divórcio representa um conjunto de perdas para os filhos – não há como negar. Não é sequer desejável que os adultos procurem criar um conjunto de compensações que impeçam os filhos de prestar atenção à própria tristeza. Cada passo tem o seu tempo. Mas o divórcio pode ser muito menos stressante se os adultos derem o seu melhor para garantir que as crianças se sintam respeitadas e livres para continuarem a sentir-se ligadas a todos os adultos de quem gostam – e isso inclui a liberdade de construírem ligações de afeto e proximidade ao pai, à mãe, aos avós, aos tios, aos primos e a todas as pessoas que já faziam parte da sua rede de afetos.

27.12.18

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

Resoluções de Ano Novo


Que importância têm as resoluções de Ano Novo? Será que vale a pena parar para definir intenções e assumir compromissos? E com o que é que deveríamos mesmo comprometer-nos?


"Encontrar o amor", "poupar", "perder peso", "comer de forma (mais) saudável" - estas são as resoluções de Ano Novo mais comuns. Para muitas pessoas, a passagem de ano significa a oportunidade de parar para refletir, para fazer balanços e fazer novas escolhas. É como se, com o início de um novo ano reconhecêssemos que é altura de deixar para trás o que não nos faz bem e aproveitássemos a frescura de um ano que começa para nos comprometermos com mudanças que nem sempre são fáceis mas que sabemos que são importantes.

SERÁ QUE VALE A PENA FAZER RESOLUÇÕES DE ANO NOVO?


Há quem ache ridículo aproveitar a data para assumir compromissos que poderiam ser adotados noutra altura qualquer. Há quem revire os olhos só de ouvir falar no assunto, lembrando-se de todas as promessas feitas em anos anteriores e que se desvaneceram logo nos primeiros meses. Mas a verdade é que, para muitas pessoas, a passagem de ano é um marco, uma oportunidade de virar a página e implementar mudanças importantes. Para outras pessoas, esta reflexão acontece nalguns aniversários ou em momentos marcantes. O importante é que reconheçamos o valor da reflexão e o poder associado à definição clara e honesta das nossas intenções.

Parar para refletir, com seriedade, sobre as nossas intenções para o ano que está prestes a começar pode mesmo ser o início de um caminho para uma vida mais plena.


Quando paramos para prestar atenção às nossas emoções, às nossas reais necessidades, àquilo de que precisamos para nos sentirmos em paz, é mais provável que se torne mais claro que escolhas precisamos de fazer. Se anotarmos os nossos pensamentos e, sobretudo, se formos capazes de simplificar e definir alguns pequenos passos, é mais provável que nos comprometamos connosco e que cumpramos.

Na prática, sermos capazes de definir as nossas intenções, aquilo que queremos para a nossa vida, é um exercício que nos beneficia sempre e que podemos realizar em qualquer altura da vida.

QUE RESOLUÇÕES DE ANO NOVO DEVEMOS FAZER? 


Algumas pessoas teimam em definir resoluções que dificilmente colocarão em prática. Fazem-no ano após ano, como se a esperança se renovasse e se desfizesse continuamente. Em muitos destes casos, não há verdadeiramente uma reflexão, não há a definição de intenções. Há o reconhecimento de alguns desejos. É legítimo que sonhemos com mudanças que nos dariam satisfação e alegria. É humano sonhar com alterações que sabemos que são difíceis, que dão trabalho, e que jamais acontecerão por milagre. Mas é genuinamente mais inteligente permitir que a reflexão nos ajude a ir além da gratificação imediata e nos permita avançar, mesmo que seja devagarinho, em relação ao que é, de facto, essencial.

Quando paramos para prestar atenção ao que é realmente importante para nós, e quando nos questionamos sobre aquilo que podemos fazer para sermos mais felizes, abrimos espaço para a reflexão que realmente importa.

Por exemplo, ainda que "Encontrar o amor" encabece quase todas as estatísticas sobre resoluções de Ano Novo, a verdade é que raramente encontramos alguém que assuma como resolução "Cuidar melhor da minha relação" ou "Prestar mais atenção às necessidades da minha família". Passamos muito tempo a reparar naquilo que não temos, naquilo que legitimamente desejamos, e esquecemo-nos muitas vezes de parar para reparar naquilo que é preciso fazer para mantermos vivas as relações mais significativas. 

Ainda faltam alguns dias até ao Ano Novo e, por isso, vamos a tempo de parar para refletir sobre a forma como queremos viver a nossa vida no próximo ano. Se quiser fazer a sua própria lista de resoluções de Ano Novo, talvez seja útil responder às seguintes perguntas:

O que é que é mais importante para mim?

Quem são as pessoas mais importantes para mim?
A que áreas da minha vida quero prestar mais atenção?
Quais são as mudanças que me ajudarão a estar mais presente e focado(a) no que é mais importante?
Quais são os (pequenos) passos que posso dar?

20.12.18

COMO CONCILIAR OS HÁBITOS E AS TRADIÇÕES DOS DOIS LADOS DA FAMÍLIA

Como conciliar os hábitos e as tradições familiares


Que importância têm as tradições familiares? Como é que um casal pode conciliar os rituais, hábitos e tradições dos dois lados da família sem conflitos? Como é que uma família se pode adaptar a mudanças tão impactantes como um divórcio ou uma situação de doença crónica e continuar a valorizar as tradições?


HÁBITOS DE FAMÍLIA: É preciso “negociar”


É natural que nos tenhamos habituado aos almoços de família ao Domingo e que tenhamos o desejo e a expectativa de manter o hábito que tão bem nos faz, mesmo depois de casarmos. Mas será que a pessoa com quem nos comprometemos estará disponível para nos acompanhar? E se ele/ ela também tiver o hábito de reunir a família ao fim-de-semana? Vai cada um para o seu lado? E depois de termos filhos? Continuamos a ir almoçar a casa dos pais em separado? Ou negociamos, abdicamos de algumas expectativas e aceitamos que, para que a família que estamos a construir ganhe coesão, ambos terão de ceder?

Quando duas pessoas se juntam com o propósito de formar a sua própria família, é importante que se lembrem de que, para que a nova família ganhe raízes, o mais provável é que algumas das raízes antigas tenham de ser cortadas.


“Importamos” alguns hábitos da nossa família de origem, adaptamo-nos a outros da família que nos adota e criamos, de raiz, mais uns quantos.

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA: A “cola” que nos une


Quando chegamos de para-quedas à família da pessoa que amamos, confrontamo-nos com um rol de histórias – algumas são autênticos mitos – que tendem a repetir-se de cada vez que aquelas pessoas se reúnem. Algumas dão repetidamente origem a gargalhadas, outras estão envolvidas em mistério. A disponibilidade para as ouvirmos – tantas vezes quanto nos reunirmos – e para as “colarmos” a nós aumenta a sensação de pertença, de união. Quando estas histórias passam de uma geração para as outras, a identidade da família consolida-se. Há um “nós”.

TRADIÇÕES DE FAMÍLIA: O que é ser “normal”?


As famílias são mais felizes quando cada um dos membros do casal respeita as tradições a que o outro está habituado e está disponível para as adotar.

Aquilo que conhecemos e que nos dá segurança é o nosso “normal”. Telefonar a alguém à meia-noite pode ser considerado inapropriado para alguns, mesmo que seja para dar os parabéns. Para outros, é uma tradição incontornável, com tanta importância como soprar as velas. Reconhecer que há tradições que aquecem o coração das pessoas de quem gostamos (e das pessoas que estão à volta dessas pessoas), aproxima-nos da possibilidade de fazermos escolhas que saiam daquilo que consideramos “normal”. Quando nos perguntamos «O que é que o/a faz feliz?» com genuína curiosidade, é mais provável que façamos escolhas emocionalmente inteligentes que protejam as nossas relações familiares.


Por exemplo, no Natal, a esmagadora maioria
das famílias portuguesas come bacalhau. Isso é o nosso
“normal”. Mas numa relação em que uma das pessoas
seja de uma nacionalidade diferente, seja vegetariana
ou tenha simplesmente uma história de vida em que as
memórias associadas ao bacalhau remetam para emoções
difíceis, o que importa é que as tradições possam ser
adaptadas de maneira a que cada um se sinta
ouvido e respeitado. 



Ainda a propósito desta quadra:

Quando duas pessoas com famílias de religiões diferentes se unem, têm a legítima expectativa de passar as tradições associadas às respetivas confissões aos filhos, como os seus pais fizeram consigo. Há muitas famílias que conseguem, com cumplicidade, transmitir essa dupla herança, sem impor que haja uma escolha.

COMPARAÇÕES: O veneno que nos distrai


Quanto menos nos compararmos com os outros, mais valorizaremos a nossa família.

Quanto mais olhamos para fora, para aquilo que os outros são, têm ou aparentam, mais nos “intoxicamos” com pensamentos negativos e nos desviamos do sentimento de gratidão que nos aproxima de níveis elevados de bem-estar.


Cada família é única e especial e cada família gere os próprios desafios, os próprios problemas. Quando nos centramos naquilo que não temos – e que porventura jamais teremos -, mais facilmente desvalorizamos tudo aquilo que temos e que tanto acrescenta à nossa vida. Numa altura em que é tão fácil enfeitar a montra da nossa vida nas redes sociais, é essencial que olhemos para dentro e que prestemos atenção ao que realmente importa. 

MUDANÇA: Aceitemo-la com curiosidade


Somos mais felizes quando encaramos a mudança com curiosidade.  
Nem todos os nossos planos se concretizarão, nem tudo na vida correrá como ambicionámos. A vida é exímia em pregar-nos partidas e nós temos a capacidade de nos adaptarmos à mudança, especialmente se não escolhermos fazer braços-de-ferro com aquilo que não controlamos. Olhar para as mudanças com alguma pena e medo é normal. Mas também é saudável que escolhamos olhar para aquilo que muda com curiosidade, com abertura, e que nos deixemos surpreender por aquilo que não planeámos. Esta disponibilidade abre espaço para que possamos, afinal, descobrir que a felicidade pode assumir mesmo muitas formas.

Por exemplo, quando um casal se separa, é natural que algumas tradições deixem de poder ser concretizadas. Pelo menos, da mesma forma. Mas isso não significa que o que vem a seguir seja mau. Será diferente, sem dúvida. Mas a curiosidade em relação ao que podemos fazer para estarmos em paz e promovermos a paz de quem está à nossa volta ajudar-nos-á a encontrar o caminho.

Noutra situação, quando mudamos de emprego e deixamos de poder cumprir algumas rotinas, como parar diariamente para almoçar com a pessoa que amamos, isso deixa-nos tristes. Mas se nos focarmos naquilo que o novo trabalho nos trará, e naquilo que queremos para a nossa relação, é mais provável que encontremos, com criatividade, respostas que nos permitam ir ao encontro das nossas necessidades.

Numa situação de doença crónica ou de incapacitação, as famílias têm direito a um período de luto. Têm o direito de “chorar” os sonhos que ficarão por concretizar. E, depois, têm a oportunidade de se adaptar, de redefinir sonhos.

19.12.18

O NATAL DEPOIS DA SEPARAÇÃO

O Natal depois da separação


A “época mais bonita do ano” pode ser muito dura para quem passa, pela primeira vez, o Natal longe dos filhos. Se o Natal é a festa da família, recheada de tradições que apelam à união, como é que se gere os sentimentos a propósito da desagregação da família? E o que é que os adultos podem fazer para continuar a colecionar memórias felizes?


Ninguém deseja uma separação. Mesmo quando os sentimentos mudam e a certeza do ‘para sempre' dá lugar à certeza de que já não dá, não é fácil avançar para o divórcio. Quando há filhos, o processo é infinitamente maia doloroso: nenhum pai ou mãe quer imaginar como é deixar de estar presente numa parte das rotinas dos filhos. Quando se trata do Natal, tudo parece desesperante. “Como é que eu vou conseguir viver o Natal sem os meus filhos?”, “Como é que eu vou conseguir incentivá-los a viver esta época com alegria se o meu coração estiver inundado de saudades?”, “E se os meus filhos me culparem por ter estragado as suas memórias à volta do Natal?”.


AS CRIANÇAS ESTÃO BEM QUANDO OS PAIS ESTÃO BEM 


Há uma coisa que não me canso de afirmar no meu trabalho com famílias: as crianças precisam, acima de tudo, da certeza de que o pai e a mãe estão felizes. Não há nada que lhes dê maior segurança emocional. É claro que os pais também se entristecem, também vão abaixo, também têm vulnerabilidades. E é bom que as mostrem. As crianças não são seres de vidro, de quem precisemos esconder todas as dores. Pelo contrário, quando lhes mostramos o nosso sofrimento em doses saudáveis, e, sobretudo, quando lhes explicamos que o sofrimento está associado a um acontecimento específico e que VAI PASSAR, ajudamo-las a gerir as suas próprias emoções , sem perfecionismos nem outros exageros.

É deste ponto que todos os pais e mães podem partir: eles têm o direito de estar tristes por não poderem viver o Natal como sempre o viveram, têm o direito de mostrar essa tristeza e têm o dever de arregaçar as mangas e fazer o que estiver ao seu alcance para se adaptarem a esta nova fase da vida. E as crianças também.

FOQUE-SE NO QUE REALMENTE IMPORTA


Não há volta a dar: se o Natal é a festa da família, a grande responsabilidade dos pais e mães é fazerem o que estiver ao seu alcance para garantir que as necessidades afetivas dos filhos sejam preenchidas.

No Natal, tal como no resto do ano, as crianças precisam de paz.


De que adianta perder tempo com braços-de-ferro, guerras sem fim, se isso contribuir essencialmente para que os filhos se sintam tristes ou inseguros? Imediatamente depois de uma separação as emoções ainda estão à flor da pele e o mais provável é que quase tudo seja um ponto de partida para discussões que nunca mais acabam. Se a isso juntarmos a vulnerabilidade de quem vai passar pela primeira vez pelo menos uma parte do Natal sem os filhos, é fácil adivinhar a tensão.

Mas nenhum atraso, nenhuma alteração de última hora justifica que os adultos se envolvam em conflitos intermináveis capazes de minar a felicidade a que as crianças têm direito (também) nesta época do ano.

MANTENHA AS TRADIÇÕES


Nalguns casos, as crianças passam o Natal com cada um dos lados da família em anos alternados. Noutros, a divisão não é tão drástica e cada progenitor tem direito a um dos dias da quadra (24 ou 25). Tanto numa situação como na outra, os adultos podem focar-se nas tradições que é possível manter. O mais importante é que todos se mantenham empenhados em garantir que os rituais que já faziam parte do imaginário das crianças possam continuar a existir, ainda que com a periodicidade adaptada à nova realidade ou com os devidos ajustes. Se há um membro da família que se costumava vestir de Pai Natal na noite de 24 e as crianças só vão estar presentes no dia 25, talvez se possa repetir a dose nesse dia. As crianças vão gostar da ideia e os adultos vão sentir-se mais felizes por poderem continuar a manter algumas tradições e colecionar memórias felizes.

VIVA A FESTA DA FAMÍLIA EM FAMÍLIA


Se vai estar sem os seus filhos durante, pelo menos, uma parte da quadra natalícia, é natural que se sinta incapaz de se abstrair disso. Quando nos fixamos naquilo que nos desagrada e que não controlamos, esquecemo-nos muitas vezes de prestar atenção a tudo o resto. Há certamente várias pessoas que o/a têm ajudado a sentir-se mais amparado(a) nesta fase da sua vida. São pessoas importantes para si, pelas quais provavelmente se sente grato(a). Cultivar este sentimento de gratidão ajudá-lo(a)-á a adaptar-se à sua nova realidade sem dramas.

O amor está (mesmo) em todo o lado e compete-nos vivê-lo nas suas mais variadas formas. Planeie com antecedência com quem vai querer passar uma parte do seu Natal, escolha com carinho e atenção a melhor forma de mostrar os seus sentimentos por essas pessoas e saboreie a oportunidade de o fazer. Não precisa de escolher os presentes mais caros. Talvez possa até oferecer alguns feitos por si. O melhor da vida é podermos dedicar-nos às pessoas de quem gostamos e que sabemos que gostam de nós.

11.12.18

4 FORMAS DE TERMINAR UMA RELAÇÃO

4 formas de terminar uma relação

Já ouviu falar em Ghosting? E Benching? Há cada vez mais pessoas que ficam “penduradas” em relações em que não há um verdadeiro compromisso... nem deixa de haver. Na prática, a pessoa é confrontada com mensagens ambivalentes e sente-se confusa. Mas também há quem (ainda) opte por terminar a relação de forma convencional.


Tenho encontrado muitas pessoas na minha prática clínica que se sentem confusas, magoadas e, muitas vezes, culpadas pelo rumo da sua relação. De alguma maneira, foram abandonadas, rejeitadas mas, ao mesmo tempo, recebem demonstrações de carinho e de desejo. Ficam muitas vezes em “stand-by”, à espera de uma definição que tarda em acontecer. Noutros casos, o luto demora a ser feito porque a pessoa com quem se relacionavam desapareceu sem dar explicações.


#1: GHOSTING


Imagine que tem uma relação, sente-se cada vez mais envolvido/a e, de repente, sem que nada o fizesse prever, a outra pessoa deixa de atender o telefone, deixa de responder às suas mensagens, deixa de aparecer. Confuso/a? O mais provável é que, numa fase inicial, se sinta perdido/a, preocupado/a com a possibilidade de ter havido algum problema. Depois repara que a pessoa que ontem dizia que o/a adorava, afinal, está online - no Facebook, no Instagram ou no Whatsapp - e escolhe não responder às SUAS mensagens. O mais certo é que se questione sobre a sua responsabilidade: «O que é que EU fiz?».

A maior parte das pessoas que são expostas a estas situações sentem-se muito confusas, têm muitas dúvidas. Mais tarde vem o ressentimento.

Porque é que isto acontece?

O ghosting é a escolha de quem sabe que a relação não está funcionar (para si) mas não tem coragem para enfrentar o sofrimento da outra pessoa.


Na prática, a pessoa opta por virar a página e esconder-se, fingindo que não está acontecer nada. É, evidentemente, uma escolha que traduz a centração em si mesmo/a e o desrespeito pela outra pessoa. 

#2: ICING - BENCHING - ESFRIAMENTO


Neste caso, aquilo que acontece é que um dos membros do casal vai inventando desculpas para cancelar os encontros: «Hoje não vai dar porque estou com muito trabalho», «Quando der, eu ligo». Quando estão juntos, tudo parece perfeito porque há afeto e a aparente vontade de voltarem a encontrar-se mas depois, por telefone, surgem mensagens contrárias.

Porquê?

A pessoa que faz esta escolha sente uma grande necessidade de manter em seu redor alguém que a deseje. Sabe que aquela não é “A” relação que a satisfaz mas mantém a pessoa na “prateleira” para o caso de se arrepender. Entretanto, vai tentando a sua sorte com outras pessoas.

De uma maneira geral, este é o caminho mais rápido para o ressentimento. A pessoa sabe que está a ser rejeitada e sente-se, obviamente, muito magoada.

#3: BANHO-MARIA


Este comportamento é muito semelhante ao anterior mas, neste caso, aquilo que acontece é que a pessoa vai reduzindo os encontros. Isto é, quando estão juntos, está tudo ótimo mas, no final, a pessoa é capaz de dizer «vemo-nos daqui a 15 dias». Também pode acontecer que cancele os planos à última hora sem grande preocupação com os sentimentos da outra pessoa.

Porquê?

A pessoa quer claramente explorar outras opções. Reconhece que a relação não está a funcionar mas gosta da ideia de ter alguma segurança.


Para quem fica pendurado/a, a sensação é a de que algo está muito mal e de que o fim está próximo mas, ao mesmo tempo, a pessoa sente-se confusa e tem dificuldade em desprender-se porque os encontros vão alimentando a esperança.

#4: RUTURA CLARA


A relação acaba de forma clara quando a pessoa consegue dizer «Para mim, já não dá». Idealmente, isto acontece de forma presencial, olhos nos olhos e, ainda que a conversa seja dura, a pessoa faz a sua escolha de forma inequívoca.

Porquê?

Isto só é possível quando a pessoa se conhece suficientemente bem, sabe que aquela relação não vai dar certo e tem confiança em si mesma em relação ao futuro. Isto é, a pessoa toma esta decisão convicta de que, mais cedo ou mais tarde, vai encontrar alguém com quem possa sentir-se mais feliz.

Neste caso, há uma resolução imediata. A situação fica esclarecida, sem qualquer ambiguidade. Claro que há mágoa e pode levar algum tempo até que as duas pessoas queiram voltar a ver-se e/ou serem amigas. Mas o luto é muito mais rápido e a autoestima não é desgastada. Qualquer rutura dói mas tudo se resolve mais rapidamente quando há clareza, honestidade e respeito.
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