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16.7.19

BURNOUT DAS MÃES



O que é o burnout parental? E porque é que afeta mais mulheres do que homens? No post de hoje partilho algumas dicas que espero que possam ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta situação.

São indiscutivelmente mais mulheres do que homens que me pedem ajuda na sequência de um estado de exaustão relacionado com o exercício da parentalidade. Por um lado, isso está relacionado com o facto de acumularem mais responsabilidades relacionadas com a casa e com os filhos sem deixarem de investir nas respetivas carreiras. Por outro lado, está relacionado com a exigência que colocamos sobre nós mesmas e sobre as mulheres à nossa volta. Somos invariavelmente mais exigentes com as mulheres do que com os homens.

O que é o burnout parental?

O burnout (parental) pode ser caracterizado por um conjunto de sintomas que traduzem um estado de exaustão e que vão desde o cansaço extremo, à irritabilidade constante, perturbações do sono, depressão, ansiedade e impossibilidade de sentir prazer associado ao exercício da parentalidade.

Nem todas as mães mostram os mesmos sintomas e, em função da pressão de que falei antes, é comum que as mulheres guardem para si os próprios sentimentos e que, pelo menos durante algum tempo, tudo pareça “normal”. Mas o burnout é um assunto sério, que merece ser tratado de maneira a que as famílias possam continuar a crescer em genuína harmonia.

O que é que pode ser feito em relação ao burnout das mães?

Se houver um quadro depressivo/ ansioso, o melhor é pedir ajuda especializada. Ninguém merece passar por isto sem ajuda. Paralelamente, há um conjunto de dicas que podem ajudar a prevenir e/ou a lidar com esta realidade:




#1: TEMPO PARA DESCANSAR


É muuuuito mais fácil falar do que fazer. A verdade é que muitas famílias não dispõem de uma rede de suporte que lhes permita usufruir de uma ou outra noite sem filhos e muito menos de tempo para sair e descomprimir. A cada família compete olhar para a realidade e identificar os recursos que existem. Às vezes, aquilo que é possível fazer é redistribuir as responsabilidades domésticas e familiares. Não me refiro apenas a delegar no marido mais tarefas domésticas.

Muitas vezes a exaustão advém sobretudo da sobrecarga mental associada ao facto de ser a mulher a “ter de” pensar e resolver um vasto conjunto de pequenas questões - a marcação de consultas, o planeamento das refeições, as finanças, as visitas à família alargada, os aniversários dos amigos, etc.


Conversar, com abertura e curiosidade, sobre a melhor forma de fazer esta redistribuição pode trazer muito amparo.

Por outro lado, é importante aprender a deixar cair algumas expectativas e aceitar que, para que haja saúde mental e harmonia familiar, é preferível deixar algumas coisas por fazer. Quase todas as mães idealizam um ambiente familiar perfeito, que inclui crianças sempre limpas, cheirosas e bem vestidas e a casa impecavelmente limpa. A realidade pode ser dura de aceitar, mas é infinitamente mais provável que consigamos sentir-nos felizes e gratos por aquilo que temos se aprendermos a dosear expectativas e a fazer escolhas que nos permitam descansar o mínimo indispensável.

#2: TRAVAR SENTIMENTOS DE CULPA

Muitas mulheres alimentam sentimentos de culpa a propósito de não estarem a conseguir ser as mães que esperavam ser e /ou as mães que acham que os outros esperavam que elas fossem. Como referi antes, gerir as expectativas é essencial. Todos sabemos que não há famílias perfeitas nem mães perfeitas, mas, quando olhamos para o lado, sobretudo para as revistas e para as redes sociais, somos inundados de imagens que nos mostram que, afinal, a perfeição talvez exista.

A verdade é que os exercícios de comparação são sempre inúteis e danosos. Quando nos comparamos com outras mães, esquecemo-nos de que, quer se trate de uma figura pública ou da nossa vizinha, a realidade dos outros é sempre diferente da nossa. Os recursos podem ser diferentes, as crianças são diferentes e cada pessoa tem o direito aos próprios sentimentos e às próprias necessidades. A experiência mostra-me que, além de tudo isto, aquilo que observamos de fora é sempre uma pequenina parte da realidade de cada família. Só as pessoas que convivem diariamente dentro da mesma casa sabem o que lá se passa. Por muito que pensemos o contrário, estamos longe de conhecer os desafios e as dificuldades dos outros. Quando nos comparamos com outras realidades estamos a exercer pressão desnecessária sobre os nossos ombros e a alimentar sentimentos de culpa que nos impedirão de sermos as melhores mães que podemos ser.

#3: ACEITAR E PEDIR AJUDA

Não é fácil pedir ajuda, especialmente no que se refira aos nossos filhos. É natural que queiramos ser nós a fazer praticamente tudo e que nos sintamos frustradas por não conseguirmos.

Pedir ajuda a familiares e amigos – para tomar conta dos nossos filhos, para nos substituírem na realização de algumas tarefas ou para nos ajudarem na concretização de outras não deve ser motivo de vergonha.


Pelo contrário, pedir ou aceitar essa ajuda é um sinal de respeito por nós e um sinal de inteligência emocional. Nenhuma mulher é pior mãe por aceitar que a sogra faça algumas refeições que possam ser congeladas, especialmente se isso permitir que a mãe esteja emocionalmente mais disponível para os seus filhos do que estaria noutras circunstâncias. O mesmo acontece em relação à possibilidade de um familiar ou amigo ficar com as crianças para que a mãe possa sair um par de horas e recarregar baterias.

#4: PRESTAR ATENÇÃO AOS SENTIMENTOS

A exaustão pode estar “lá”, mas nem todas as mulheres escolhem prestar a devida atenção aos próprios sentimentos. A verdade é que deste reconhecimento tem de surgir a inevitabilidade de se efetuar mudanças. Se a mãe estiver exausta, alguma coisa tem mesmo de mudar. E isso pode implicar que a família tenha de sair da sua zona de conforto. Não vale a pena adiar o confronto com a realidade e dizer incessantemente – a si e aos outros – que “está tudo bem”. Quanto mais depressa encarar a realidade como ela é, mais rapidamente recuperará o seu bem-estar.

#5: DEIXAR AS CRIANÇAS SEREM CRIANÇAS

Voltamos às expectativas: num mundo ideal as crianças não fariam birras, muito menos em lugares públicos, mas quase todos os pais e mães sabem que essa não é a realidade. As crianças choram – umas mais do que outras –, fazem birras e, em algumas alturas, isso pode ser extenuante. Mas não vale a pena lutar com a realidade ou alimentar sentimentos de pena em relação a si mesma. Quanto maior for a sua (auto)compaixão, quanto maior for a sua compreensão em relação a uma parte da parentalidade que é geradora de tensão, maior será a probabilidade de você conseguir reagir com serenidade a estes momentos difíceis.

Deixar as crianças serem crianças também passa por aceitar que a sua casa não é um museu nem tem de estar sempre imaculada, pronta para ser fotografada para uma revista. A sua família não é a tropa e quanto mais você conseguir relaxar e aceitar que esta é uma fase (que vai passar), mais provavelmente vai conseguir aproveitar a infância dos seus filhos sem stress desnecessário.

3.7.19

COMO MELHORAR A RELAÇÃO (EM 7 PASSOS)


Como melhorar a relação


Há escolhas que podem fazer toda a diferença numa relação. Se permitirmos, a rotina e alguns (maus) hábitos podem roubar a vivacidade e o romantismo com que sempre sonhámos. Mas, se prestarmos atenção a alguns detalhes, se nos disciplinarmos e fizermos escolhas emocionalmente inteligentes, é mais provável que nos sintamos felizes e gratos pela pessoa que temos ao nosso lado.


Quais são os aspetos que os casais mais felizes têm em comum? Que escolhas é que eles fazem e que os ajudam a retirar mais satisfação da relação amorosa, mesmo depois de vinte ou trinta anos de vida em comum?




#1: GRATIDÃO


Ao fim de algum tempo, descobrimos que a pessoa por quem nos apaixonámos não é perfeita. Tem um conjunto de defeitos irritantes que não vão desaparecer, tem alguns hábitos que mexem connosco (e não é pela positiva). É tentador fazer uma caça ao erro e estar sistematicamente a apontar o dedo. Às vezes são coisas pequeninas e que achamos que vale a pena referir para desencadear a mudança. Mas, no final do dia, é fácil perdermo-nos nas críticas e não prestarmos muita atenção às coisas boas.

Os casais mais felizes cultivam o hábito de reparar nos gestos mais positivos e escolhem não dar relevo às tais pequenas coisas mais irritantes. É mesmo uma questão de escolha. Quando procuramos prestar atenção e verbalizar o nosso apreço por cada gesto que traduza o apoio de que precisamos, a gargalhada que nos ajuda a enfrentar os dias mais difíceis ou o afeto que dá cor à nossa vida, somos mais felizes.

Não é fácil dizer “obrigado” por cada vez que a pessoa de quem gostamos lava a loiça na nossa vez ou toma a iniciativa de nos ir buscar ao trabalho.


É mais fácil olhar para estes gestos como “obrigações”, sobretudo se estivermos habituados a dar de nós. Quando cultivamos a gratidão, não nos limitamos a elogiar a pessoa que está ao nosso lado. Cultivamos o nosso apreço, sentimos genuinamente mais ligados e olhamos para a realidade de forma mais serena e objetiva.


#2: CURIOSIDADE GENUÍNA


Toda a gente acha que conhece bem a pessoa que está ao seu lado. Pelo menos, ao fim de alguns anos. Mas as nossas certezas podem funcionar como filtros que nos impedem de olhar para a pessoa que amamos de forma realista. Cada um de nós vai mudando ao longo do tempo. Todos os dias há acontecimentos novos, todos os dias sentimos coisas diferentes e todos os dias precisamos de sentir que há alguém que se interessa, que quer saber, que está “lá”.

Quando adotamos – de forma intencional – uma postura de curiosidade genuína -, escolhemos colocar mais perguntas. Colocamo-las com a verdadeira vontade de saber como é que o outro está, o que é que mexe com ele(a). Por exemplo, no final do dia, quando perguntamos «Como foi o teu dia?» e prestamos MESMO atenção à resposta, mostramos que nos importamos. Quando a pessoa de quem gostamos nos conta um episódio em que alguma coisa correu mal e, em vez de nos apressarmos a fazer juízos de valor («Já sabia», «É sempre a mesma coisa») e a apontar o dedo, ele(a) sente-se só, desconectado(a). Mas quando colocamos perguntas que nos ajudem a colocar na posição da outra pessoa, a entender aquilo por que está a passar, é mais provável que nos sintamos ligados.

Não é uma questão de nos anularmos nem de passarmos a mão pela cabeça do outro sempre que ele(a) erra. É uma questão de ”querer saber” em vez de “querer julgar”.


#3: LEVEZA


Para alguns casais, sobretudo quando há filhos, o dia-a-dia pode tornar-se demasiado pesado. A páginas tantas, podemos sentir que a única coisa que temos em comum é a gestão das responsabilidades domésticas. Uma relação é tão mais feliz e coesa na medida em que escolhamos encontrar tempo para a diversão, para o namoro. As saídas a dois em que possamos relaxar, rir, dançar ou simplesmente ter conversas de adultos que não envolvam a resolução de problemas são essenciais para que continuemos a sentir-nos vivos no relacionamento.

Mas mesmo quando as saídas a dois escasseiam, sobretudo pela falta de uma rede de suporte, é possível criar momentos de descontração.


Há rituais que nos ajudam a sentir mais ligados
e relaxados: ver uma série de televisão a dois,
jantar sem os filhos, planear as férias, desconectarmo-nos
do trabalho e das redes sociais e fazer programas
em família que não estejam apenas focados no
interesse dos filhos são alguns exemplos.




#4: HONESTIDADE


A mentira é um veneno para qualquer relação. Faz-nos sentir inseguros, faz com que não consigamos dar o melhor de nós. Mas quando me refiro à honestidade, refiro-me a algo mais profundo do que não mentir de forma grosseira ou desleal. Refiro-me à possibilidade de escolhermos revelar-nos por inteiro. Quando damos a conhecer aquilo que mexe connosco, sem medos, e percebemos que a pessoa que está ao nosso lado continua a amar-nos, sentimo-nos invariavelmente mais fortes e mais ligados.

Revelar os nossos sonhos e aquilo que nos entusiasma pode parecer fácil, mas, na prática, nem sempre o é. Sobretudo se alguns desses sonhos colidirem com os sonhos da outra pessoa ou implicarem que a família saia da sua zona de conforto. Mas a verdade é que se nós não nos revelarmos exatamente como nós somos vamos acabar por acumular frustração e ressentimento.

Por outro lado, é fundamental que consigamos falar abertamente sobre aquilo que nos desagrada, sem ocultar nada, sem mascarar sentimentos. Só assim podemos dar oportunidade à outra pessoa de mudar o que for possível mudar e de mostrar que se importa connosco. Só assim poderemos sentir-nos genuinamente felizes.


#5: ABERTURA


Ao fim de vinte ou trinta anos, ninguém é exatamente a mesma pessoa. Nós vamos mudando, vamos evoluindo. Os nossos gostos mudam, os nossos hábitos mudam e às vezes alguns dos nossos valores também. Nem sempre é fácil aceitar as mudanças da pessoa que está ao nosso lado. Às vezes, essas mudanças podem obrigar-nos a sair da nossa zona de conforto. Mas essa é a única forma de continuarmos felizes ao lado daquela pessoa.

Há quem diga que, no futuro, cada um de nós terá de certeza dois ou três casamentos. Alguns de nós teremos o privilégio de viver dois ou três casamentos com a mesma pessoa. Se escolhermos manter-nos presos ao passado, às características que nos atraíram no início e não houver abertura para a novidade, para a mudança, a relação pode estar condenada.


#6: AFETO



Podemos viver (algum tempo) sem sexo. Podemos viver algum tempo mergulhados nos problemas e desafios sem muita disponibilidade para conversas profundas e demoradas. Mas precisamos de ser tocados, precisamos de sentir que a pessoa que está ao nosso lado é capaz de mostrar o seu amor desta forma.

E, mesmo nas alturas de maior stress, é possível cultivar hábitos saudáveis. Por exemplo, se, em vez dos beijinhos apressados de manhã e à noite trocarmos um beijo de seis segundos, sentir-nos-emos mais felizes, mais ligados e, na prática, só gastámos seis segundos de cada vez.


#7: RESPEITO


Há quem fuja a sete pés das discussões, mas as discussões são normais e saudáveis. Ou, pelo menos, podem ser. Quando discutimos, mostramos aquilo que nos desagrada, revelamo-nos e temos a oportunidade de mostrar que nos importamos com o que o outro sente. Mas se o fizermos “à bruta”, corremos mais riscos. Pelo contrário, quando assumimos a intenção de respeitar sempre a pessoa que amamos, mesmo quando discutimos, é mais provável que façamos escolhas que nos protejam, que nos mantenham ligados. Isso pode passar por reconhecer que estamos demasiado enervados e precisamos de fazer um “time out” para não dizermos disparates, estamos a proteger a relação.

Por outro lado, esta intenção pode levar-nos a olhar com mais atenção para os apelos da pessoa que está ao nosso lado. Nem sempre teremos a disponibilidade emocional para ouvir todas as conversas ou para dizer “sim” ao que nos é pedido. Mas se escolhermos tratar a outra pessoa com todo o nosso respeito, não vamos revirar os olhos quando ele(a) se referir a assuntos que não nos interessam nem vamos mostrar desprezo de forma alguma. Vamos saber dizer “não” centrando-nos nas nossas emoções e tratando a outra pessoa com a bondade que merece.

18.6.19

AUTOCOMPAIXÃO


Autocompaixão

O que é a autocompaixão? Para que serve? Hoje escrevo sobre a ferramenta que tem revolucionado a intervenção em Psicoterapia e cujos resultados ultrapassam aqueles alcançados por programas promotores de autoestima.


Se pensarmos na forma como reagimos às adversidades das pessoas que amamos, deparamo-nos quase sempre com um elemento comum: quando percebemos que alguém de quem gostamos está a sofrer, respondemos com bondade e compreensão. Mesmo que saibamos que as dificuldades por que aquela pessoa está a passar foram, de alguma forma, provocadas por escolhas suas, escolhemos quase sempre dar colo antes de criticar. Porque é que nem sempre conseguimos fazer o mesmo quando somos nós que estamos a sofrer? Porque é que somos quase sempre muito mais autocríticos?





O nosso cérebro está programado para responder
às adversidades com hipervigilância. Essa é
uma das características que tem garantido a
sobrevivência da nossa espécie. Quando há
problemas, a nossa mente fica alerta, obrigando-nos
a reagir. Mas aquilo que, em muitos contextos,
funciona como um mecanismo de defesa,
também pode transformar-se num inimigo.



Na maior parte das vezes em que nos sentimos “mal”, precisamos sobretudo de alguém que nos diga que nos compreende e que nos conforte. Não precisamos de alguém que nos puxe (ainda mais) para baixo.


Quando nos damos conta de que um amigo está em sofrimento – porque perdeu o emprego, porque está em processo de divórcio ou porque acabou de sofrer um enfarte do miocárdio depois de anos de sedentarismo e maus hábitos alimentares -, apressamo-nos a responder com afeto. Não passamos a mão pela cabeça das pessoas de quem mais gostamos, nem mostramos a nossa pena. Mostramos que ele/ela tem o direito de se sentir “assim”, dizemos que estamos “lá” e que pode contar connosco. Na maioria das vezes, damos um abraço bem forte “só” para mostrar que estamos realmente solidários. Isto é COMPAIXÃO.

A AUTOCOMPAIXÃO consiste em tratarmo-nos exatamente com a mesma bondade e com a mesma compreensão com que trataríamos um bom amigo ou alguém de quem gostamos muito. Mas, para que sejamos bem-sucedidos e nos consigamos autoacalmar nas alturas desafiantes, precisamos de praticar.

PRATICAR A AUTOCOMPAIXÃO


As práticas de autocompaixão incluem três elementos:

1. O mindfulness;
2. a humanidade comum;
3. e a bondade.

 1. Mindfulness

Mindfulness tem sido traduzido para português como atenção plena ou consciência plena e consiste num conjunto de ferramentas que nos permitem treinar o nosso cérebro no sentido de conseguir estar genuinamente atento ao momento presente. A meditação mindfulness é extraordinariamente simples, mas requer que nos disciplinemos e pratiquemos diariamente para que colhamos frutos.

Quando começamos a praticar mindfulness, passamos a conseguir reconhecer mais claramente os nossos reais sentimentos e a dissocia-los da imensidão de pensamentos que quase sempre povoam a nossa mente. Precisamos desta clareza para conseguirmos responder com eficácia ao nosso sofrimento.

2. Humanidade Comum

Muitas vezes, a propósito de alguns acontecimentos, dizemos a nós mesmos algumas coisas que nos deixam ainda mais deprimidos. Se, na sequência de uma separação, de um mau desempenho profissional ou da ansiedade antes de um exame inundarmos a nossa mente com pensamentos do tipo «Porque é que isto ME está a acontecer?», «Sou um(a) falhado» ou «O que é que as outras pessoas vão pensar de MIM?», o mais provável é que acrescentemos sofrimento desnecessário ao sofrimento original. Estas são frases que dificilmente dirigiríamos a alguém que amamos.

Pelo contrário, quando conseguimos reconhecer que o sofrimento faz parte da vida de TODOS os seres humanos, que TODAS as pessoas enfrentam dificuldades e inquietações, é mais provável que consigamos olhar para a realidade de forma objetiva e que sejamos capazes de arregaçar as mangas. Alguns acontecimentos são mesmo muito duros do ponto de vista emocional.



Quando mergulhamos no nosso sofrimento e
fazemos comparações com pessoas que estão à nossa
volta e que nos parecem muito mais felizes e em paz,
ignoramos o facto de também elas serem humanas e de,
em função disso, em determinada altura também
serem confrontadas com outras formas de sofrimento.



3. Bondade

Sempre que der por si a passar por uma experiência geradora de sentimentos de culpa, vergonha, tristeza ou medo, experimente fechar os olhos e imaginar como seria se alguém de quem gosta muito (imagine uma pessoa específica) estivesse no seu lugar. O que é que lhe diria? Que palavras utilizaria? Que tom de voz usaria? Experimente dirigir essas palavras na sua própria direção – com bondade e empatia. Se puder, coloque a mão no peito, perto do coração. Sinta o calor da sua mão e canalize o seu genuíno afeto na sua direção.

A prática de autocompaixão pode parecer-lhe “estranha” e, pelo menos numa fase incial, é natural que se sinta desconfortável com a ideia de dizer “coisas bonitas” a si mesmo(a). É natural. Muitos de nós não estamos habituados a tratar-nos com a bondade e a compreensão com que tratamos as outras pessoas. Não desista. Continue a praticar, inspire-se nalguns vídeos (recomendo os da investigadora Kristin Neff) e usufrua desta poderosa ferramenta.

6.6.19

DIREITOS DAS CRIANÇAS AO LONGO DO DIVÓRCIO


Direitos das crianças ao longo do divórcio

O divórcio é uma perda gigantesca para todos os membros da família. Os adultos têm de lidar com sentimentos intensos de tristeza, medo, culpa, raiva e vergonha. Como se isso não fosse bastante, esta é precisamente a altura em que o mundo espera que sejam os melhores pais e mães que possam ser. Quais são as escolhas que podem ajudar a concretizar um divórcio emocionalmente inteligente para os filhos?


Passo mais tempo a “salvar” casamentos do que a ajudar alguém a divorciar-se, mas há cada vez mais pessoas que me pedem ajuda na sequência de um processo de divórcio. Quase todos os pais e mães que me procuram trazem a intenção de garantir que as suas escolhas garantam que os interesses dos filhos sejam salvaguardados. É praticamente impossível passar por um divórcio sem alguma dose de sofrimento, MAS há escolhas que podem fazer com que passados vinte ou trinta anos os pais e mães se sintam orgulhosos do caminho que fizeram. Na prática, se o pai e a mãe se comprometerem e reconhecerem os direitos dos filhos, eles podem continuar a desenvolver-se do ponto de vista emocional de forma tão saudável quanto aconteceria numa família tradicional.



AO LONGO DO DIVÓRCIO OS FILHOS TÊM O DIREITO DE…


#1: SABER QUE NÃO TÊM CULPA


Pode parecer óbvio, sobretudo se os pais estiverem empenhados em proteger os interesses dos filhos, mas a verdade é que as crianças facilmente fantasiam a propósito da sua responsabilidade quando há uma separação. Se os pais já tiveram discussões – normais – a respeito da educação ou dos gastos com os filhos, há alguma probabilidade de as crianças imaginarem que possam ter contribuído para a separação. Os adolescentes tendem muitas vezes a sentir-se culpados por não conseguirem amparar os pais na medida certa e/ou por não conseguirem evitar que eles se zangassem.

Por tudo isto e muito mais, é fundamental que os pais procurem transmitir de forma clara, inequívoca, que os filhos não têm NENHUMA responsabilidade sobre o processo de separação. E é fundamental que esta informação seja repetida várias vezes – antes, durante e depois do divórcio.

#2: SABER O QUE VAI ACONTECER


Os filhos precisam de saber com o que é que podem contar.

O divórcio representa um conjunto de perdas, que por sua vez trazem instabilidade e insegurança. Os filhos sentem-se mais amparados e seguros se souberem onde vão viver, com quem, quando é que vão poder estar com cada um dos progenitores, em que escola vão estudar e que outras mudanças terão de enfrentar. Isto NÃO significa que os pais tenham de ter todas as respostas no momento em que comunicam que se vão separar. Precisam, isso sim, de assumir que serão capazes de resolver cada questão a dois, tendo a intenção de proteger os interesses dos filhos, e de transmitir cada decisão à medida que elas sejam tomadas.

#3: SEREM ESCUTADOS E CONFORTADOS


Não há volta a dar: os filhos sofrem com a separação dos pais e, em muitos casos, choram. Para os pais, pode ser tentador oferecer-lhes oportunidades de se divertirem e distraírem desta tristeza ou ainda esforçarem-se para reconhecer o lado positivo da mudança. Por exemplo, é comum ouvi-los dizer coisas como «Agora vais ter dois quartos» ou «Vais ter brinquedos a duplicar». Mas, tal como acontece com os adultos, a tristeza das crianças precisa de ser vivida e exteriorizada. Os filhos até podem perceber o desconforto dos pais em relação à sua tristeza e fazer esforços para a conter. Isso não significa que não a sintam. Significa apenas que estão a fazer o que podem para proteger os pais. Não é isso que a maior parte dos pais e mães desejam.

Dar oportunidade aos filhos para falarem sobre os seus sentimentos, dar colo e estar “lá” sem tentar disfarçar a tristeza é essencial para garantir que se sintam amparados. Muitas vezes este papel acaba por ser desempenhado por outros adultos, com quem as crianças se sintam livres para expressar tudo o que sentem.

#4: SEREM POUPADOS AOS CONFLITOS


É natural que uma separação esteja envolvida em níveis elevados de tensão. Nem sempre é fácil impedir que os filhos assistam a discussões acesas entre o pai e a mãe. Mas os pais podem fazer o que estiver ao seu alcance para não envolver os filhos nas suas discussões. A última coisa que deve acontecer é que algum dos adultos procure que os filhos lhe atribua razão e/ou se coloque contra o outro progenitor.

Os filhos precisam de sentir que há uma diferenciação clara entre o papel conjugal e o papel parental e que o pai e a mãe continuam a fazer o que é possível para que os problemas dos adultos sejam geridos pelos adultos.

#5: NÃO CONHECER OS DETALHES DA SEPARAÇÃO


Na medida em que haja feridas profundas, associadas a uma traição ou à sensação de abandono, pode ser tentador dizer “a verdade” aos filhos e, assim, conseguir a sua solidariedade, mas esta pode ser uma forma de violência. Independentemente do que aconteça à relação conjugal, o pai e a mãe continuarão a ser figuras de referência para os filhos e os detalhes da separação só acrescentam mágoa.



#6: NÃO SEREM OBRIGADOS A ESCOLHER UM PROGENITOR


Na maior parte das vezes, os pais e as mães estão genuinamente bem-intencionados. Mesmo quando defendem que as crianças fiquem sob a sua guarda total, fazem-no porque acreditam que essa seria a melhor opção. Às vezes, os pais procuram conhecer a opinião dos filhos com a genuína vontade de perceber o que é melhor para eles. Mas uma coisa é pedir a opinião a um(a) filho(a) adolescente sobre a casa onde gostaria de viver e lembrar que a decisão tem de ser tomada pelos adultos. Outra, bem diferente, é pressionar a criança (ou o adolescente) para que escolha um progenitor em detrimento do outro.

#7: NÃO SERVIR DE CORREIO


Quando há tensão, é natural que a vontade de encarar o outro progenitor seja praticamente inexistente, mas quando há filhos há sempre assuntos para tratar. Pode parecer mais simples enviar alguns recados através dos filhos, sobretudo se se tratar de assuntos relacionados com eles, mas, de uma maneira geral, os filhos sentem-se desconfortáveis neste papel. Felizmente, na maioria das vezes acabam por ser muito claros respondendo a estes pedidos com frases como «Trata tu disso». Os pais podem encarar estas respostas como uma forma de rebeldia, mas a verdade é que compete aos adultos encontrar formas de comunicar sem envolver as crianças. O e-mail e as SMS são uma boa alternativa.

#8: MANTER CONVERSAS PRIVADAS COM CADA PROGENITOR


Alguns pais e mães sentem muita curiosidade em relação ao tempo que as crianças passam com o outro progenitor. Nalguns casos, há medo do que ele(a) possa dizer, noutros há sobretudo um braço-de-ferro que ainda não terminou. Independentemente daquilo que esteja por detrás dessa curiosidade, é fundamental que os filhos sejam tratados com respeito e isso também deve implicar o direito a não falar sobre aquilo que é conversado com o outro progenitor – seja quando estão noutra casa, seja quando falam ao telefone. A última coisa de que os filhos precisam é de serem interrogados e forçados a partilhar informações que os façam sentir desconfortáveis.

#9: NÃO SEREM FORÇADOS A MENTIR


À medida que a tensão sobe, é cada vez mais difícil olhar para a realidade com objetividade e serenidade. Quando a mágoa cresce, é possível que cada um dos progenitores olhe para o outro com ressentimento e com a crença de que ele(a) não merece ter a guarda dos filhos. Pior do que isso, nalguns casos a mágoa é tão grande que a intenção é castigar o outro progenitor. Infelizmente, algumas crianças são forçadas a mentir com este propósito. Esta é uma forma de violência que pode deixar marcas irreparáveis.

É importante relembrar que os filhos são mais saudáveis quando têm a oportunidade de continuar a desenvolver um vínculo estável e saudável com os dois progenitores.

#10: CONTINUAR A RELACIONAR-SE COM A FAMÍLIA ALARGADA


Independentemente do que aconteça ao casal, aos olhos das crianças, os avós vão continuar a ser avós, os tios vão continuar a ser tios, os primos vão continuar a ser primos. E cada uma destas pessoas é uma fonte de afeto e segurança para as crianças. Retirar-lhes a possibilidade de se relacionarem com alguns membros da SUA família também é uma forma de violência. O divórcio implica um conjunto de perdas inevitáveis. Não faz sentido que haja ainda mais.

#11: SABER DA EXISTÊNCIA DE NOVOS PARCEIROS


O segredo é sempre tóxico. Quando as crianças suspeitam que há alguma coisa que lhes esteja a ser ocultada, sentem-se mais inseguras. A confiança na relação com o pai e com a mãe também vai depender da capacidade de manter uma postura de genuína honestidade. É compreensível que os adultos não queiram precipitar-se, apresentando à criança um(a) novo(a) namorado(a) e arriscando que a relação termine e a criança seja exposta a mais uma perda, MAS é ainda menos desejável que um(a) filho(a) tenha de lidar sozinho(a) com todos os medos que invariavelmente surgem com esta suspeita.

28.5.19

COMO MANTER UMA RELAÇÃO FELIZ E DURADOURA



Os opostos atraem-se. Marido e mulher não devem ser amigos. As discussões fazem mal à relação. Estas são algumas das frases que ouvimos a propósito do amor romântico. Será que são verdadeiras? Como é que se constrói relações felizes e duradouras?


Mito #1: Os opostos atraem-se.


Nem todas as relações felizes são feitas de pessoas com interesses idênticos ou características de personalidade semelhantes. Às vezes, a pessoa por quem nos apaixonamos é muito diferente daquilo que tínhamos idealizado e tem poucos atributos que, teoricamente, consideramos atrativos. Por outro lado, há pessoas que física e emocionalmente parecem reunir todas as características da nossa checklist e por quem pura e simplesmente não sentimos paixão.

Aquilo que está por detrás da paixão também é uma questão de química que nem sempre conseguimos explicar. No limite, é possível que nos apaixonemos por alguém muito diferente de nós e que assumamos, de forma autêntica, que os opostos podem mesmo atrair-se.

Mas isso está longe de querer dizer que as relações mais felizes sejam aquelas em que duas pessoas tenham pouco em comum. Mais importante do que isso, este cliché NÃO deve servir para escamotear problemas sérios numa relação. Na medida em que alguém dê por si a sentir-se permanentemente insatisfeito(a) ou, pior do que isso, a sentir-se desrespeitado(a), é essencial que olhe para a realidade como ela é, em vez de tentar enganar-se com esta desculpa.

Quanto mais cedo formos capazes de terminar uma relação que não funciona e/ou em que nos sintamos desrespeitados, mais rapidamente abrimos espaço para viver uma história de amor à nossa medida.


Mito #2: Marido e mulher não podem ser melhores amigos


Há quem tema que a amizade entre marido e mulher possa estragar a relação, transformando-a em algo mais fraternal. Se é verdade que para algumas pessoas o amor romântico acaba por dar efetivamente lugar a algo monótono e desprovido de desejo, na prática, aquilo que as investigações sobre a conjugalidade nos mostram é que a amizade é a base de qualquer relação amorosa.

Sentimo-nos mais felizes e ligados quando temos a certeza de que a pessoa que está ao nosso lado é alguém em quem podemos confiar, alguém a quem podemos revelar-nos e alguém que empatiza com aquilo que sentimos.

Por exemplo, quando falamos de sexo, há um dado curioso que resulta da observação de casais felizes: a forma como reagimos aos «Nãos» é determinante para a satisfação conjugal e sexual. Quando um dos membros do casal diz que não tem vontade de fazer amor, rejeitando a tomada de iniciativa do outro, é fácil reagir de forma explosiva. Mas a verdade é que quando a pessoa que é rejeitada procura compreender os motivos por detrás do «Não» e mostra genuína empatia, os membros do casal acabam invariavelmente por sentir-se mais conectados e isso reflete-se em mais e melhor sexo.


Mito #3: As discussões fazem mal à relação.


Algumas pessoas, sobretudo mais velhas, procuram transmitir a ideia de que é preferível “engolir sapos" e evitar a todo custo que haja discussões. Ninguém gosta de discutir com a pessoa que ama, mas será que as discussões são sempre prejudiciais à relação?

A verdade é que a ciência nos mostra exatamente o oposto. As discussões são essenciais para que possamos construir uma relação verdadeiramente íntima. Quando fazemos alguma coisa que fere a pessoa de quem gostamos e ela se queixa, mesmo que de forma acesa, isso permite-nos conhecê-la exatamente como é, permite-nos saber o que mexe com ela e, claro, permite que façamos alguma tentativa de reparação.




Todas as pessoas erram num relacionamento.
Todas as pessoas fazem porcaria.
Os casais mais felizes estão muito longe de ser perfeitos.
Aquilo que os diferencia é a capacidade de darem voz
aos seus sentimentos e a capacidade de mostrar que se
preocupam genuinamente com os sentimentos do outro.



De resto, quando fazemos as pazes depois de uma discussão, sentimo-nos mais vivos. Há qualquer coisa que muda quando discutimos. A sensação de perda e os esforços que fazemos para mimar, galantear e reconquistar a pessoa que amamos acabam por promover o desejo e mostrar que ninguém está garantido.

Mito #4: Não devemos contar tudo à pessoa que está ao nosso lado.


Há quem diga que a melhor forma de manter a chama da relação acesa é manter algum mistério. A verdade é que os casais que alimentam a sua individualidade e que cultivam interesses para lá do projeto conjugal e familiar são, genericamente, mais felizes, MAS isso está longe de querer dizer que devamos ocultar propositadamente o que quer que seja.

Quando nos revelamos exatamente como nós somos, quando nos vulnerabilizamos e quando percebemos que a outra pessoa está “lá" e se importa, a intimidade emocional aumenta e isso potencia a probabilidade de corrermos riscos que promovam o desejo.


Mito #5: Não devemos mostrar demasiado afeto


A ideia por detrás deste mito está relacionada com os jogos de sedução e com o objetivo de mostrar à outra pessoa que nada está garantido. Algumas pessoas pura e simplesmente não mostram com clareza e regularidade o seu afeto, mas a verdade é que uma relação viva e coesa depende em larga medida dos gestos que mostrem de forma inequívoca os nossos sentimentos.

Na verdade, um dos factos que a ciência nos mostrou foi que as relações mais felizes são construídas por pessoas capazes de mostrar, de forma verbal e não verbal, o amor, a gratidão e a admiração que sentem.

Quando nos habituamos a dizer obrigado pelas pequenas coisas que a pessoa que amamos faz por nós, ou pela relação, por oposição a dizer que não fez mais do que a sua obrigação, sentimo-nos mais próximos e mais felizes. Quando nos habituamos a reconhecer, sem medo, os atributos que valorizamos no outro, ele ou ela sente-se mais feliz e valorizado(a). Quando nos habituamos a mostrar fisicamente aquilo que sentimos – através do toque – sentimo-nos mais amparados.

Há dois factos que ilustram bem a importância das manifestações de afeto:

  • · Quando olhamos para a forma como os casais felizes comunicam, verificamos que por cada interação negativa (momento de tensão ou desconexão), há, pelo menos, cinco interações positivas (demonstrações de carinho ou admiração). Quando este rácio baixa, a relação passa a estar em perigo.
  • · Só 7 por cento dos casais que nunca dormem aconchegados assumem que se sentem satisfeitos do ponto de vista sexual.


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