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23.10.18

DAR ESPAÇO NUMA RELAÇÃO

Dar espaço numa relação

Quando a pessoa que amamos diz que precisa de espaço, o que é que isso significa? Será que quer dizer que a relação está à beira do fim? Ou será uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes, mais vivos e também mais ligados?





Para a maior parte das pessoas, uma relação de compromisso feliz é uma conjugação de segurança e de aventura. De previsibilidade e de novidade. De proteção e de liberdade. Mas para alguns de nós a necessidade de segurança e de previsibilidade é maior do que qualquer vontade de que haja mistério ou tempo a sós. Quanto maior for o caos em que crescemos, maior é a probabilidade de precisarmos de relações estáveis, em que nos sintamos permanentemente amparados, seguros. Mas quanto mais segura for a nossa relação com a família de origem, quanto maior for a liberdade com que crescemos, maior é a probabilidade de, em adultos, precisarmos de algum mistério nas nossas relações amorosas.

Quando uma pessoa mais ansiosa se compromete com alguém seguro e com a tal necessidade de inovação, liberdade e tempo a sós, a ansiedade cresce. E às vezes cresce tanto que a pessoa que precisa de espaço chega a sentir-se asfixiada.



Tanto que, para algumas pessoas, o desejo começa a diminuir em função desta proximidade “excessiva”.

O QUE FAZER QUANDO A PESSOA QUE AMAMOS DIZ QUE PRECISA DE ESPAÇO?


Independentemente das características de personalidade de cada um, é fundamental que aprendamos a reconhecer e a dar valor aos nossos sentimentos e às nossas necessidades afetivas. Isso não significa que valha tudo ou que seja razoável que um dos membros do casal imponha as suas escolhas ao outro. Aquilo que importa é que as necessidades sejam reconhecidas e que, a dois, haja a negociação que permita que ambos se sintam felizes. Às vezes fixamo-nos em determinados desejos e esquecemo-nos de que há outras formas de preenchermos a mesma necessidade afetiva.

Para que a nossa relação continue a ser uma fonte de satisfação, de alegria e de vivacidade, tanto quanto de segurança e amparo, é fundamental:

Ter os próprios amigos.

Não há nada de errado nas saídas a dois com amigos. É saudável que haja pessoas de quem gostamos e com quem possamos sair enquanto casal. Mas é igualmente importante que cada um tenha a oportunidade de sair sozinho, com outras pessoas. Isso não significa que a ligação esteja a perder-se. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para que ambos se sintam mais felizes e, em função disso, mais ligados também.

Cultivar os próprios interesses.

À medida que a relação se vai consolidando, vamo-nos dando conta de que a pessoa que está ao nosso lado não é exatamente a nossa alma gémea. Não gosta de tudo aquilo de que nós gostamos, não se interessa por todas as conversas a que achamos graça. E está tudo bem. Pelo menos, se cada um continuar a cultivar os seus interesses.

Ouvir o companheiro como uma pessoa independente.

Nós achamos muitas vezes que conhecemos muito bem a pessoa que está ao nosso lado. E isso pode ser verdade. Mas não deve impedir-nos de cultivar uma postura de curiosidade genuína, de querer saber. Quando damos a outra pessoa como adquirida e deixamos de prestar atenção, deixamos de fazer perguntas, deixamos de reparar naquilo que vai mudando (e que nem sempre nos agrada), abrimos espaço para que ele/ ela se sinta menos feliz. 

Continuar a surpreender.

É demasiado fácil sermos engolidos pelas rotinas e pela monotonia. É estupidamente fácil deixarmos de associar a nossa relação à alegria e ao entusiasmo que a caracterizava no início. Mas a segurança e a solidez que uma relação nos traz não tem de ser impeditiva de que continuemos a sentir-nos vivos. Prestar atenção aos detalhes e darmos o nosso melhor para surpreender de vez em quando a pessoa que amamos é meio caminho para que a relação continue viva.

22.10.18

PALMADA PEDAGÓGICA: SERÁ QUE RESULTA?

Palmada educativa: será que resulta?

Há quem defenda que uma palmada na hora certa pode ser a melhor forma de educar uma criança. Será que é assim? Ou será a palmada uma escolha que traduz a “lei do menor esforço”?


Há uns dias assisti a um episódio na sala de espera de uma unidade de Pediatria que bem poderia servir de ilustração a qualquer aula sobre Parentalidade. Naquele caso, os adultos à volta da criança fizeram várias escolhas que dificilmente poderiam figurar como exemplos de atenção, inteligência emocional ou respeito mútuo.

O menino de 3 ou 4 anos chegou acompanhado pelo pai e pelos avós. Depois de uma breve passagem pelos brinquedos que estavam na sala, dirigiu-se, sozinho, ao ecrã tátil que servia para que cada utente retirasse a sua senha. Rapidamente percebeu o “esquema” e foi brincando com o aparelho enquanto colecionava senhas. Quando o pai reparou no que estava a acontecer, chamou a atenção do menino dizendo-lhe «Sai daí», «Para com isso» ou «Isso não é para ti». Em nenhum momento o pai ou os avós tomaram a iniciativa de se levantar e afastar a criança do aparelho. Eles não estavam realmente a “ver” aquela criança – não repararam no seu divertimento nem prestaram genuinamente atenção às consequências que o seu comportamento poderia ter. Até que uma funcionária se aproximou do menino e lhe disse «Não podes mexer aqui», baixando-se para ficar da sua altura e utilizando um tom de voz calmo. Depois disso, a criança voltou a retirar uma senha e, a partir daí, vieram os castigos. Primeiro, a palmada, dada pela avó, na presença de todos os adultos e crianças presentes. Depois, como o menino começou a chorar, veio a chamada de atenção do pai: «És um bebé. És mesmo um bebé. Que vergonha».

Acredito que quer os avós quer o pai estivessem convencidos de que aquela seria a melhor forma de atuar. Estou genuinamente convencida de que, aos seus olhos, aquelas escolhas eram as mais indicadas. Talvez até as únicas capazes de “ensinar” a criança a “portar-se bem”. Mas será que é assim?

AS PALMADAS PODEM EDUCAR?


Um dos argumentos utilizados por quem aplica a palmada na educação dos filhos tem a ver com a existência de situações-limite em que mais nada funciona. No episódio que descrevi, de facto, o pai já tinha chamado a atenção do menino. Mas será que isso significa que estava realmente a prestar-lhe atenção? Ou que deu o seu melhor para explicar a uma criança que não teria mais do que 4 anos porque é que não poderia mexer naquele aparelho, apesar de este lhe parecer tão apelativo? Creio que não.

Há muitas alturas em que a nossa atenção aos comportamentos dos nossos filhos está longe de ser plena. Estamos “com um olho no burro e outro no cigano”, a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo e vivemos com a sensação de que estamos a ser absolutamente claros.


Aquele pai estava à conversa com os avós, provavelmente sobre questões que os estariam a preocupar. Na prática, não conseguiu levantar-se, agarrar na criança e explicar-lhe (baixinho) para que é que aquele ecrã tátil servia. Não teve disponibilidade para prestar genuinamente atenção ao divertimento que a criança estava a sentir ao explorar o “brinquedo” novo e muito menos teve criatividade para lhe propor fazerem um jogo a dois com um dos brinquedos disponíveis na sala.

Não vale a pena recriminarmo-nos. Há alturas em que a nossa atenção é limitada e em que não conseguimos dar o melhor de nós. Há alturas em que nos zangamos, em que nos salta a tampa. Mas aquilo que importa é que, depois de a poeira baixar, sejamos capazes de reparar no que fizemos, sejamos capazes de olhar com curiosidade para as nossas escolhas e, se for caso disso, sejamos capazes de pedir desculpa.

Na prática, aquele menino dificilmente aprendeu alguma coisa com aquele episódio. Pelo menos, alguma coisa sobre o respeito pelos outros. Pelo contrário, as mensagens dos adultos que lhe querem bem foram contraditórias. Numa primeira fase, estava “tudo bem”. Afinal, a criança teve liberdade para explorar o aparelho sozinha. De repente, e muito provavelmente em função da vergonha que os adultos sentiram depois da chamada de atenção da funcionária, surgiram os castigos. Os adultos não foram capazes de lidar com as suas próprias emoções e limitaram-se a “explodir”. Pior do que isso: a palmada e os comentários que se seguiram aconteceram à frente de vários estranhos, funcionando como uma oportunidade para que a criança se sentisse humilhada. Punida fisicamente e humilhada.

AS PALMADAS NÃO EDUCAM.
EDUCAR DÁ TRABALHO.


Dir-me-ão que há alturas em que a palmada “funciona”. Mas eu discordo. É evidente que, naquele caso, os adultos estarão de acordo quanto ao resultado: o menino não voltou a carregar no ecrã. Mas qual é a nossa verdadeira intenção na educação das nossas crianças?



Queremos mostrar-lhes que há alturas em que
devem simplesmente obedecer-nos, sem perceberem
o que se está a passar? Ou queremos que compreendem 
que há escolhas que não devem ser feitas, ainda que
sejam muito apetecíveis, porque isso interfere com a
liberdade dos outros?


Qualquer criança de 3 ou 4 anos seria capaz de compreender que não poderia fazer aquela escolha SE os adultos lhe explicassem, com paciência e tempo, porquê. As crianças adoram cooperar e ajudar os adultos. Claro que isso não significa que sejam SEMPRE capazes de compreender uma regra à primeira explicação ou que percam IMEDIATAMENTE o desejo de fazer aquilo que estavam a fazer. É por isso que somos nós, adultos, que temos de ter a criatividade para as ajudar a encontrar alternativas. Isso dá muito trabalho. Envolve a nossa atenção plena, envolve a capacidade de nos desviarmos dos nossos próprios brinquedos (telemóveis, tablets e outros), envolve a escolha consciente de interrompermos uma conversa que nos está a interessar “só” para prestarmos a devida atenção ao momento presente e, assim, conseguirmos educar as nossas crianças de forma a que elas aprendam a respeitar quem está à sua volta.

18.10.18

CASADOS À PRIMEIRA VISTA: O QUE DIZ A PSICOLOGIA?

CASADOS À PRIMEIRA VISTA: O QUE DIZ A PSICOLOGIA?

O novo programa da SIC promete acabar com a solidão dos concorrentes através de casamentos “reais” com desconhecidos. Até que ponto pode a Psicologia ajudar a escolher o parceiro ideal? É possível fazer uma avaliação psicológica de cada concorrente e garantir que se encontra o par ideal?


A poucos dias do início de mais um controverso reality show, fui contactada por uma jornalista do Observador para responder a algumas perguntas sobre o programa. Segundo informações veiculadas pela produção internacional do programa “Casados à primeira vista”, todos os concorrentes são submetidos a longas horas de avaliação com o objetivo de serem encontrados os pares mais compatíveis. Basta uma breve pesquisa pela Internet – eu confesso que nunca vi nenhum episódio das versões estrangeiras do programa – para perceber que há casais que escolheram ficar juntos depois de o programa terminar e que há outros que escolheram terminar imediatamente a relação.

CASADOS À PRIMEIRA VISTA:
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA 


Se há algo que uma avaliação psicológica permite identificar são traços de personalidade narcísicos ou a tendência para assumir comportamentos mais explosivos e, ainda segundo as informações veiculadas pela imprensa, esses são critérios de exclusão dos candidatos. Por outro lado, a produção procura descartar todos os candidatos que estejam apenas à procura da gratificação imediata da fama. Até aqui, creio que é fácil de compreender que o trabalho dos psicólogos que façam parte da equipa ajude a cumprir o propósito.

As dúvidas surgem quanto à possibilidade de, dessa avaliação psicológica, saírem resultados fiáveis que permitam assegurar que haja elevada probabilidade de uma relação dar certo.


Relembro que se trata da observação individual dos candidatos e não da observação da forma como se relacionam entre si.

É POSSÍVEL PREVER SE UMA RELAÇÃO

VAI DAR CERTO? 


Ao contrário do que possa parecer, há investigações rigorosas na área da Psicologia da Família que permitem prever com elevado grau de precisão, se uma relação vai dar certo. O professor John Gottman liderou um longo estudo em que acompanhou centenas de casais durante décadas até conseguir identificar os sinais que mostram que uma relação está em risco. Estas conclusões dizem respeito à observação dos comportamentos e dos sinais fisiológicos dos membros do casal durante os momentos de conflito e NÃO ao cruzamento dos dados referentes à avaliação psicológica de cada um.

CASADOS À PRIMEIRA VISTA:
CONSELHOS


Uma das questões que a jornalista Ana Cristina Marques me colocou dizia respeito às sugestões que eu daria aos participantes do programa. A minha resposta é simples: eu sugiro que não participem no programa. Porquê? Porque a participação no programa implica saltar etapas essenciais a qualquer relação. Qualquer um de nós já experimentou a sensação de reconhecer noutra pessoa um vasto conjunto de atributos sem que isso se traduzisse em qualquer atração.

Muitas vezes, a única coisa que falta é a “química”.


E a química é exatamente aquilo de que nós precisamos para nos sentirmos vivos, para sentirmos desejo por outra pessoa. Quem está disposto a desperdiçar essa oportunidade e saltar imediatamente para uma relação de compromisso?

Por outro lado, ao longo do namoro, temos a oportunidade de nos revelarmos e de conhecermos a pessoa que escolhemos. Ninguém parte para uma relação a exigir a lista completa de defeitos e imperfeições do outro. Sabemos que eles existem mas a exploração é feita de forma gradual, permitindo que nos liguemos do ponto de vista afetivo e que, mais cedo ou mais tarde, nos sintamos seguros de que aquilo que sentimos é suficientemente forte para nos permitir adaptar-nos ao tal “pacote” de defeitos. Pelo meio, há tempo para as discussões, para nos acalmarmos enquanto cada um vai para sua casa – sem pressas, nem pressões. É difícil haver tanta pressão quanto aquela que está associada ao casamento com um desconhecido que, inevitavelmente, tem um conjunto de defeitos aos quais não estamos habituados.

Para algumas pessoas, esta pode ser efetivamente uma oportunidade para encontrar o amor. Afinal, já aconteceu noutros países. Mas valerá a pena arriscar tanto e desperdiçar a oportunidade de fazer uma escolha consciente, namorar sem pressões e explorar o outro com todo o tempo que quisermos?

10.10.18

REAÇÃO DOS FILHOS AOS NOVOS RELACIONAMENTOS DOS PAIS

Reação dos filhos aos novos relacionamentos dos pais


Depois de uma separação, é legítimo que os adultos ambicionem voltar a amar. Quando o pai tem uma namorada nova ou quando a mãe tem um namorado novo, a reação dos filhos nem sempre é positiva. Quando é que é o momento certo para apresentar o novo companheiro? O que é que os pais podem fazer para facilitar a adaptação dos filhos à nova relação? E que é que não devem fazer? 





O melhor presente que os pais e mães podem dar a um filho é uma relação conjugal sólida e feliz.
John Gottman

Quando as coisas não correm bem e o divórcio acontece, há muitos sentimentos de culpa, sensação de fracasso e a genuína vontade de fazer o que for possível para minimizar o sofrimento das crianças. Hoje sabemos que o bem-estar e a felicidade dos filhos depende sobretudo do bem-estar e da felicidade dos pais. Depois da separação, nem todos os adultos estão capazes de pensar numa nova relação mas, à medida que o tempo passa e as feridas saram, é natural que isso aconteça. Quando o pai ou a mãe tem um(a) novo(a) namorado(a), a expectativa é grande:


Reação dos filhos aos novos relacionamentos dos pais

Como é que os filhos vão reagir ao novo companheiro?
Quando é que é o momento certo para apresentar
o(a) novo(a) namorado(a)?
O que fazer quando a criança não reage bem
ao novo companheiro do pai ou da mãe?
O que é que os pais e mãe não devem mesmo fazer?

Reação dos filhos aos novos relacionamentos do pais


OS MEDOS DAS CRIANÇAS


De uma maneira geral, o aparecimento de um novo companheiro é sentido como uma ameaça. Aos olhos da criança, é inevitável que esta mudança na vida do pai ou da mãe implique mudanças para a sua própria vida e isso pode ser assustador. Quais são os medos da criança a propósito do novo namorado da mãe ou da nova namorada do pai?

O FIM DO SONHO DA RECONCILIAÇÃO


A maior parte das crianças alimentam o sonho de uma reconciliação entre o pai e a mãe. Quando há uma relação cordial ou até de amizade, isso é ainda mais provável.

Quando surge uma terceira pessoa, a criança pode encará-la como uma ameaça real à concretização desse sonho. O(a) novo(a) namorado(a) é visto como um rival.


MENOS ATENÇÃO


Todas as relações que valem a pena requerem a nossa atenção. Se é verdade que depois da separação a atenção dos pais e mães está muito voltada para o bem-estar dos filhos, é legítimo que estes temam que com a chegada de uma nova pessoa essa atenção diminua. É muito importante que os pais continuem a reservar tempo para escutar os filhos com atenção e que façam o que estiver ao seu alcance para que estes não se sintam desvalorizados. 

MENOS AFETO


Depois do divórcio, e sem que os pais e mães deem conta, é através da relação com os filhos que as suas próprias necessidades afetivas são preenchidas. Nós precisamos do toque, dos beijos e mimos para nos sentirmos felizes. Quando nos apaixonamos, é através da relação conjugal que boa parte das nossas necessidades afetivas são preenchidas e os filhos podem sentir-se ameaçados. Além disso, para algumas crianças, a demonstração clara de afeto entre o pai ou a mãe e o novo companheiro é geradora de desconforto e aversão. Isto é particularmente verdade para as crianças com mais de 6 anos e para os adolescentes.

MENOS TEMPO


Qual é a paixão que não rouba tempo? Quando nos ligamos a alguém, queremos passar todo o nosso tempo ao lado dessa pessoa. Mas as crianças estão habituadas a ter os adultos em exclusivo e é natural que se ressintam desse tempo de exclusividade.

Os pais e mães podem tentar que os encontros mais longos – como os fins-de-semana de namoro – aconteçam nos períodos em que os filhos estejam com o outro progenitor, sobretudo numa fase inicial.


NOVAS ROTINAS


As crianças gostam de consistência e de estabilidade. O surgimento de novas rotinas (e novas regras) é quase sempre percecionado como uma ameaça. É importante que não se tente mudar tudo em pouco tempo e que os hábitos que contribuem para o bem-estar das crianças se mantenham.

QUANDO É QUE É O MOMENTO CERTO PARA APRESENTAR O(A) NOVO(A) NAMORADO(A) AOS FILHOS?


Em teoria, não é positivo que esta revelação aconteça pouco tempo depois da separação. É importante lembrar que o divórcio é uma perda muito significativa para a criança – muitas vezes traumática – e que todas as perdas requerem um luto. Os adultos podem tentar respeitar o luto da criança e apresentar a nova pessoa numa altura em que a criança esteja mais preparada. Cada pai ou mãe conhece os seus filhos e, se prestar atenção, vai conseguir escolher o momento.

Por outro lado, é muito importante que nos lembremos de que as crianças não gostam de mentiras. Às vezes, o amor acontece muito antes daquilo que os adultos tinham previsto e pode ser difícil camuflar a realidade. É fundamental que os pais e mães façam o que estiver ao seu alcance para que os seus filhos não se sintam atraiçoados. Na prática, isso pode implicar a necessidade de uma revelação mais cedo do que estava planeado.

No meio destas variáveis, há um outro fator que importa ter em conta: quão sólida é a relação? A verdade é que quando a relação corre bem, esta é mais uma potencial fonte de afeto ara criança. Mas quando a relação não dá certo, é mais uma perda. E os adultos podem e devem fazer o que estiver ao seu alcance para evitar que as crianças sejam expostas a perdas sucessivas.


É normal que os pais e mães precisem de viver
vários amores até voltarem a encontrar o(a) tal.
Mas é essencial que as crianças não sejam
expostas a perdas sucessivas e à respetiva
instabilidade emocional.



O QUE É QUE OS PAIS E MÃES PODEM FAZER? 


PREPARAÇÃO

Antes de qualquer encontro, é essencial que haja uma conversa com os filhos para os preparar. Os pais e mães podem aproveitar o momento para expor os seus sentimentos e a sua vontade, mas também para ouvir os filhos em relação às suas emoções e às dúvidas que possam surgir.

PRIMEIRO ENCONTRO: DEVE SER CURTO

As crianças vão precisar de tempo para se ligarem a este novo adulto e a adaptação é mais fácil se não houver a imposição de ter de passar logo um fim-de-semana inteiro ao lado daquela pessoa.

O PAI E A MÃE NÃO VÃO SER SUBSTITUÍDOS

Os adultos sabem que o novo companheiro não vem substituir o outro progenitor. Mas as crianças podem sentir conflitos de lealdade, pelo que é muito importante que se converse com elas para assegurar que o novo namorado da mãe não vai tentar substituir o pai, mesmo que este esteja ausente, nem a namorada do pai vai tentar desempenhar o papel da mãe.

EXPECTATIVAS REALISTAS

Quando nos apaixonamos, temos a expectativa e a vontade de que as pessoas mais importantes da nossa vida se liguem de forma instantânea também. É como se as qualidades que reconhecemos e admiramos nesta pessoa tão especial fossem, aos nossos olhos, irresistíveis. Mas isso pode não acontecer e é, naturalmente, gerador de tristeza e desapontamento.

É preciso explorar os sentimentos e as dúvidas dos filhos e dar tempo para que eles se liguem ao novo companheiro.


De resto, a pessoa por quem nos apaixonamos também pode precisar de tempo para se ligar genuinamente às crianças. 

CONSISTÊNCIA DAS REGRAS

Algumas vezes, a vontade de contribuir para o bem-estar de todos e de melhorar algumas coisas faz com que o novo casal decida que é altura para implementar algumas mudanças que, inevitavelmente, mexerão com as rotinas e até as regras a que as crianças estão habituadas. Isso é exatamente aquilo que não deve ser feito – pelo menos, numa fase inicial. O aparecimento de um novo companheiro romântico já é uma mudança muito significativa e geradora de instabilidade.

CONVIDAR A CRIANÇA A PARTICIPAR NO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Às vezes assumimos de tal maneira o papel de decisores e protetores do bem-estar das crianças que nos esquecemos de que elas também têm voz e gostam de ser ouvidas. Os pais e mães podem convidar a criança a dar a sua opinião, a partilhar os seus sentimentos e a dar sugestões sobre o que pode ser feito para melhorar o bem-estar de todos. Não se trata de atribuir à criança todo o poder de decisão e muito menos o de desvalorizar os sentimentos dos adultos. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que os sentimentos e as necessidades de cada um têm o mesmo valor.

8.10.18

INFIDELIDADE EMOCIONAL: QUAIS SÃO OS SINAIS?

Infidelidade Emocional: Quais são os sinais?


Entre as conversas inofensivas com alguém que consideramos atraente e a infidelidade emocional, a fronteira nem sempre é clara. Há quem diga que só há traição quando há interação física. Mas será que é mesmo assim? E se houver mentiras? E se houver esforços para manter algumas escolhas em segredo? Quais são os sinais de infidelidade emocional? 



Na Era das redes sociais e das aplicações de encontros, pode parecer que a infidelidade tem crescido de forma exponencial. A verdade é que há infidelidade desde que há casamentos e nem todas as pessoas precisam da Internet para ultrapassar limites que prejudiquem a relação. Mas a quem compete definir esses limites? De uma maneira geral, são os membros do casal que definem – de forma mais ou menos explícita – os contornos de cada compromisso. Por exemplo, para alguns pode não fazer sentido manter o contacto com ex-namorados. Mas para outros aquilo que não faz sentido é impedir que haja essa comunicação, sobretudo quando os sentimentos estão claros.

Aquilo que acontece é que algumas vezes uma pessoa compromete-se com um conjunto de “regras” e, de um dia para o outro, é confrontada com a vontade de fazer escolhas diferentes. Quando isto acontece EM SEGREDO, é muito mais provável que haja infidelidade emocional – mesmo que a própria pessoa não tenha consciência disso.

#1: MANTER CONVERSAS COM OUTRAS PESSOAS EM SEGREDO


Não há nada de errado em manter conversas com ex-namorados ou com outras pessoas quaisquer, desde que isso aconteça às claras. Quando os membros do casal estão de acordo e conseguem falar abertamente sobre estas relações, isso é um sinal da solidez da relação. O problema acontece quando há ESFORÇOS que são feitos para manter as conversas EM SEGREDO.

Podem ser encontros aparentemente inofensivos para tomar café ou trocas de mensagens via Facebook.

Se houver segredo e, sobretudo, se houver um esforço consciente para manter o segredo, é porque a própria pessoa não está confortável com os sentimentos que estão associados àquela situação.


Quando isto acontece, é mais provável que a pessoa não esteja a prestar atenção às suas emoções e às suas necessidades afetivas e que venha a fazer escolhas de que se arrependa.

#2 MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS NA APARÊNCIA


Há alturas em que nos sentimos mais motivados para cuidar de nós – porque apanhámos um susto, porque queremos ter uma vida mais saudável ou simplesmente porque estamos mais empenhados em tratar da nossa autoestima. Mas estas mudanças também acontecem com frequência depois de nos cruzarmos com alguém que nos atraia e a quem queiramos mostrar-nos no nosso melhor.

Algumas pessoas mudam a aparência de forma radical sem darem conta de que já têm sentimentos românticos por outra. Refiro-me a mudanças muito significativas e que ocorrem em pouco tempo. De repente, a pessoa passa a praticar muito mais exercício físico, perde peso e renova todo o seu guarda-roupa.

Ser capaz de parar para prestar atenção ao que está a acontecer e falar abertamente sobre isso com o companheiro é a única forma de evitar que haja escolhas impulsivas de que venha a arrepender-se. 

Às vezes há pessoas com quem nos cruzamos que nos fazem sentir coisas que não sentíamos há muito tempo. Prestar atenção a essas emoções não implica qualquer forma de traição. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para revitalizar a relação.

#3: MARCAR ENCONTROS SEM O COMPANHEIRO


Qualquer pessoa tem o direito de cultivar amizades para além da relação. E tem a possibilidade de falar abertamente sobre isso com o companheiro. Ninguém tem a obrigação de contar tudo à pessoa com quem vive – todos os segredos, todos os detalhes. Mas uma coisa é manter alguma privacidade e outra, bem diferente, é fazer ESFORÇOS CONCRETOS para que os encontros com uma pessoa se mantenham EM SEGREDO.

Às vezes a pessoa engana-se a si mesma dizendo que são «só amigos» ou que o segredo está relacionado com uma tentativa de «evitar que haja chatices». A questão é que é mesmo muito mais provável que haja chatices se não prestarmos atenção aos sentimentos que nos levam a desviar-nos daquilo que combinámos – mesmo que de forma implícita – com o nosso companheiro.

#4: APAGAR MENSAGENS


Para quê que alguém escolhe apagar determinadas mensagens? Se há e-mails, mensagens de telemóvel ou Facebook que sejam apagadas de propósito «para evitar problemas», o mais provável é que já haja problemas.

#5 ESTAR SEMPRE A FALAR DAQUELA PESSOA


Quando há alguém que admiramos, que nos entusiasma, que nos faz sentir vivos, é natural que pensemos muitas vezes nessa pessoa e que conversemos sobre ela. Quando esses sentimentos são intensos, o interesse e o entusiasmo podem chamar primeiro a atenção de quem está à nossa volta. Às vezes, é o companheiro que repara no “entusiasmo excessivo” e não a própria pessoa.

É melhor parar para prestar atenção aos próprios sentimentos do que fingir que não está a acontecer nada.


#6: IMPACIÊNCIA


Há alturas em que os problemas no trabalho, as dificuldades de relacionamento com a família alargada ou o próprio cansaço nos roubam a paciência para as pessoas que mais gostam de nós. É normal e não tem rigorosamente nada a ver com qualquer forma de infidelidade. Mas quando a impaciência e a irritabilidade têm sobretudo um alvo – o companheiro – e não são justificáveis por nenhum problema em concreto, isso pode ser um sinal de alarme. 

Quando surgem sentimentos românticos por outra pessoa, a disponibilidade para o companheiro pode diminuir drasticamente, ainda que a própria pessoa não dê conta de que esteja a apaixonar-se.

#7: TRATAMENTO ESPECIAL


Nós gostamos de ser tratados de forma especial, sobretudo pela pessoa que amamos, mas nem sempre nos lembramos de que ele(a) precisa dessas demonstrações. No meio da correria, dos afazeres e do cansaço pode ser mais fácil cuidarmos de tudo menos da nossa relação. Às vezes somos mais simpáticos, mais cuidadosos e mais atenciosos com os nossos chefes e clientes do que com a nossa família. Não é desejável, mas acontece.

Quando alguém trata de forma especial uma única pessoa – e não é o companheiro – esse também pode ser um sinal de alarme. Porque a verdade é que é exatamente assim que começam as relações amorosas – pela vontade de agradar, mimar, tratar de forma especial.

Quando os sinais de alarme aparecem, o mais importante NÃO é fazer braços-de-ferro para determinar quem é que tem razão. Aquilo que importa é ter a coragem de olhar para os sentimentos que estão a surgir e procurar fazer as escolhas conscientes que nos ajudem a fazer o caminho que queremos fazer.
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