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11.9.14

DISCUSSÕES CONJUGAIS: QUANDO PARECE QUE OS EPISÓDIOS SE REPETEM


“Parece que estamos sempre a discutir sobre as mesmas coisas” – esta é uma das frases que mais comummente oiço no meu gabinete. Muitas vezes o que as pessoas querem dizer é que estão cansadas de cair na mesma ratoeira vezes sem conta. Não é tanto uma questão de haver apenas um assunto que as desgaste (às vezes também é isso). Aquilo que as angustia é sobretudo o facto de já terem sido capazes de abordar alguns problemas de múltiplas formas, terem sido capazes de chegar a alguns acordos e, apesar disso, continuarem sistematicamente a cair numa espiral de acusações e amuos.

Eis um exemplo: A Fernanda e o Jorge queixavam-se de estar sempre a discutir por causa de “assuntos pouco importantes”, como as tarefas domésticas. Numa dessas discussões, a Fernanda queixou-se porque o marido “nunca” faz aquilo que ela pede. “Pedi-lhe para endireitar a colcha da nossa cama, que estava torta, o que fazia com que uma das pontas estivesse a arrastar pelo chão”. O marido tentou defender-se dizendo que “a colcha é demasiado grande” para aquela cama e “por isso é que está a arrastar-se”. Depois de mais uma troca de acusações, o Jorge remeteu-se ao silêncio. Frustrada pelo silêncio do marido, a Fernanda voltou a insistir no assunto. Ambos assumem que é “muito difícil estar sempre a discutir”.

Para mim, enquanto terapeuta conjugal, esta discussão tem pouco a ver com a bendita colcha. Tão pouco identifico aqui qualquer luta de poder a propósito da lida da casa. Identifico, isso sim, alguns padrões de comportamento que estão a contribuir para que o casal se distancie. Há, em discussões como esta, um ciclo vicioso – para o qual ambos contribuem – que permite que um e o outro se sintam sós, rejeitados, desamparados.

Todos os casais experimentam esta sensação de vez em quando. O problema é que, se os episódios forem frequentes, este ciclo vicioso transforma-se num monstro papão capaz de destruir uma relação amorosa.
Desfazer este tipo de nós implica em primeiro lugar assumir que em qualquer discussão é provável que haja emoções mais profundas do que aquelas que saltam à vista numa primeira análise. No caso da Fernanda, não se tratava apenas de indignação. Através da terapia ela percebeu que aquilo que verdadeiramente a perturba é a sensação de que o marido não quer saber do que ela sente e parece indiferente aos problemas que a família tem enfrentado (dificuldades financeiras que os colocam em risco de perder a casa onde vivem). A discussão à volta da colcha, tal como outras que o casal tem tido ultimamente, é uma tentativa (nem sempre consciente) de o confrontar com assuntos bem mais importantes e que não estão a ser abordados de forma clara. Por outro lado, o Jorge percebeu que, quando assume uma postura defensiva e se remete ao silêncio, fá-lo para fugir às críticas da mulher. Aos seus olhos, ela está sempre zangada com ele e é como se nada do que ele faça a pudesse agradar. Quando amua, o Jorge tenta evitar a tristeza que as críticas da mulher lhe causam. Ela sente-se desamparada. Ele sente-se rejeitado.


Quando os membros do casal começam a olhar para as suas discussões de outro ponto de vista, aprendendo a reconhecer os caminhos que os levam a sentirem-se desconetados, também se torna mais fácil interromper a escalada. É então que cada um dá o seu melhor no sentido de identificar o que o outro está REALMENTE a sentir e procura cuidar, com carinho e atenção, dessas emoções. E isso é o que permite que ambos voltem a sentir-se seguros e unidos.

10.9.14

PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO NO CASAL: SE ME AMAS, POR QUE ESTÁS SEMPRE A CRITICAR-ME?


Os casais que me pedem ajuda têm (quase todos) uma queixa em comum: problemas de comunicação. Na sequência desta surge muitas vezes uma outra: as críticas constantes. Há pelo menos um dos membros do casal que se sente hipercriticado, como se nada do que fizesse estivesse bem feito. Nada. Aquilo que o outro muitas vezes desconhece é que essas críticas sistemáticas afastam a pessoa amada. Quem critica refugia-se na necessidade de chamar a atenção para aquilo que está mal, como se todas as queixas fossem legítimas por se tratarem de oportunidades para resolver problemas e estreitar os laços. Não são.

Não me canso de dizer que as zangas fazem parte do amor e que são um elemento necessário à construção de uma relação íntima. Mas ninguém aguenta a sensação de desvalor associada a constantes reparos. Nem é preciso que haja gritos ou discursos agressivos. Basta que haja comentários negativos frequentes. Quando isso acontece, a pessoa cujo comportamento é constantemente alvo de análise sente-se desamparada e insegura. É como se o cônjuge (aquele que critica) deixasse de ser visto como alguém em quem se possa confiar.

Em função disso, a pessoa aprende a guardar para si os seus sentimentos – ou a confiá-los a uma terceira pessoa – para se sentir segura.

Mas porque é que alguém insiste em mostrar desapreço pela pessoa amada? Por que surgem tantas críticas?
De um modo geral, esta “neura” é um mecanismo de defesa que esconde sentimentos mais profundos como a tristeza, o medo, a vulnerabilidade ou a vergonha. Só quando a pessoa que habitualmente critica tem a coragem de tentar mudar – normalmente através da terapia – e percebe que por detrás dos seus comentários negativos estão outras emoções, difíceis de gerir, é que o ciclo vicioso é quebrado.

A pessoa é desafiada a olhar para dentro, para aquilo que REALMENTE a perturba, para aquilo que está por detrás da raiva. Às vezes é tristeza – e a pessoa aprende a reconhecer aquilo que a entristece e a manifestar de forma clara e serena as suas necessidades. Às vezes (muitas) é insegurança associada à necessidade de se sentir devidamente acarinhada e desejada.


É preciso paciência e persistência para conhecer, de forma genuína, aquilo que está a ser gerador de insegurança. É preciso tempo para que um e o outro possam exteriorizar de forma calma aquilo de que precisam para se sentirem seguros. Mas é possível romper com o padrão de negatividade e abrir espaço para que a relação se torne mais íntima e muito mais satisfatória para ambos.

9.9.14

SINAIS DE SEPARAÇÃO


O que é que determina que um casamento ou uma relação amorosa esteja a caminho do fim? Há sinais claros? Como é que se distingue os problemas normais por que todos os casais passam das crises mais sérias que podem revelar-se fatais?


Se há coisa que eu aprendi com todos os casais que me pedem ajuda é que, salvo honrosas exceções, de um modo geral, os problemas começaram muito antes deste passo. Muitas vezes a insatisfação dura anos, os sinais de alerta são ignorados e a terapia surge como último recurso já depois de um dos membros do casal ter falado em divórcio. Ouço inúmeras vezes:
A verdade é que quando o mais-que-tudo se queixa, numa tentativa de mostrar aquilo que o entristece (ou aquilo que o enfurece), nem sempre é fácil assumir uma postura de acolhimento do tipo “Tu és a pessoa mais importante da minha vida e mereces toda a minha atenção e disponibilidade. Entre fraldas, contas para pagar, solicitações profissionais, telefonemas da mãe e passeios do cão, nem sempre é fácil “estar lá” para a pessoa amada. O problema é que quando um não está lá, o outro começa a distanciar-se. As queixas vão sendo atiradas para debaixo do tapete até ao dia em que um se farte.

Mas é possível evitar que a distância se torne fatal. Para isso é importante estar atento aos sinais de perigo.
Pelo menos um dos membros do casal…

… queixa-se de “estar sempre a ser criticado”.
… tem dificuldade em contar ao outro aquilo que o incomoda (dentro ou fora da relação). E quando o faz, arrepende-se (geralmente porque não se sente devidamente amparado).
… põe SEMPRE os filhos à frente do casamento. O cônjuge sente que é pouco importante.
… não gosta dos sogros ou da família alargada do cônjuge e passa a fazer programas à parte.
… mostra fraco desejo sexual.
… culpa o cônjuge pelo seu mal-estar.

Qual é a melhor forma de dar a volta? Assumir a responsabilidade e aceitar que, para que a relação continue a dar certo, é fundamental que a pessoa que está ao nosso lado se sinta ouvida, acarinhada e admirada. Se isso não estiver a acontecer, é preferível pedir ajuda. Todos os casais têm problemas (mesmo aqueles que parecem perfeitos) mas isso não deve servir de desculpa para que as dificuldades sejam ignoradas.

4.9.14

ESTÁ RODEADO DE BONS AMIGOS?


Não, a questão que coloco não tem nada a ver com o número de amigos da sua lista telefónica. Muito menos com o número de amigos associados à sua conta de Facebook. Aquilo que pergunto é se se sente amparado. Acha que está rodeado de pessoas a quem possa realmente chamar amigos? E o que é que caracteriza, afinal, uma verdadeira amizade?

Algumas pessoas mostram-se tristes porque não têm amigos. Normalmente chegam a essa conclusão depois de uma desilusão qualquer. Até aí estavam convencidas de que as pessoas com quem habitualmente bebiam uns copos ou a quem davam os parabéns via Facebook eram verdadeiros amigos. Também há quem se exponha, quem tente construir relações mais ou menos íntimas mas que, por um motivo ou por outro, acabam por perder-se. Nalguns casos são zangas sérias, noutros são zangas “invisíveis”, em que uma das partes pura e simplesmente deixa de aparecer, deixa de telefonar ou de responder às mensagens. E depois vem a pergunta: “O que é que eu fiz de errado?”.


REVELE-SE. Na amizade, como em qualquer outra relação afetiva, é preciso que nos conheçamos relativamente bem. É fundamental que conheçamos as nossas necessidades e os nossos limites. Se soubermos aquilo de que precisamos, é mais provável que consigamos assumir uma postura calma e assertiva, expondo àqueles de quem gostamos aquilo de que precisamos. Por exemplo, quase todas as pessoas gostam de ser felicitadas a propósito do seu aniversário. Mas nem todas valorizam essas felicitações na mesma medida. Se você for daqueles que fica triste se um amigo se esquecer de o fazer, o melhor é dizê-lo. Ao mostrar – de forma calma – quão importante esse gesto é (PARA SI), estará a dar oportunidade aos seus amigos de o estimarem da forma certa (aquela de que precisa). Quando você se cala (normalmente com receio de ser mal interpretado ou com medo de magoar os amigos), escolhe anular uma necessidade sua. E isso gera mágoa, ressentimento e raiva. É possível que, mais cedo ou mais tarde, você escolha castigar o tal amigo que se esqueceu de lhe ligar no dia do seu aniversário. “Eu sei que ele acabou de sair do hospital e provavelmente está à espera que eu lhe ligue… mas não o vou fazer!”. Reconhece-se neste padrão de comportamento? Então mude. Os seus amigos são humanos e é natural que falhem (pontualmente) consigo. Mas a probabilidade de você sentir que há um conjunto de pessoas que estão-lá-para-o-que-der e vier é muito maior se você der o seu melhor para que os seus amigos conheçam as suas necessidades.

INVISTA. Não há volta a dar. As relações afetivas não se alimentam do ar. É verdade que há pessoas que não se veem durante anos e que, quando se reencontram, sentem uma empatia tal que é como se tivessem estado juntas no dia anterior. Normalmente isso está relacionado com o facto de terem estado presentes em momentos importantes na vida de um e do outro. Mas a segurança de saber que há pessoas com quem você pode contar depende do investimento que for capaz de fazer. É fundamental que você mostre ativa e frequentemente quão importantes são os seus amigos. Telefone. Apareça. Pergunte se está tudo bem. Receba-os em sua casa. Acarinhe.
NÃO AJA DE CABEÇA QUENTE. É fundamental que você conheça os limites da sua paciência, que aprenda a identificar as suas emoções e decida, por exemplo, não dizer nada quando está de cabeça quente. Os amigos também se zangam. Também dizem coisas feias. Falham. Mas é possível evitar explosões e ressentimentos. Como? Reconhecendo, por exemplo, os sinais que o seu corpo emite e tentando acalmar-se antes de agir. Quando, de forma ponderada, dizemos exatamente aquilo que esperamos de um amigo, tudo se torna mais fácil.


Claro que todos temos momentos de grande tensão, de frustração ou de raiva. E também é normal que PONTUALMENTE sejamos explosivos e até injustos. Isso é o que acontece quando algumas emoções tomam conta de nós. Na amizade verdadeira é fundamental saber pedir desculpa. Mas não é só: é preciso aceitar as “birras” do outro, tentar ver além da explosão e saber perdoar. Lembre-se que todos precisamos de amparo, de saber que há pessoas que insistem, que “estão lá” e que valorizam os nossos esforços.

2.9.14

PROCRASTINAÇÃO: COMO FAZER HOJE AQUILO QUE VOCÊ TEIMA EM DEIXAR PARA AMANHÃ


Quantas vezes deu por si a adiar uma tarefa importante, como o envio de um email, a entrega do IRS ou a conclusão de um relatório profissional? Quantas vezes substituiu a tal tarefa importante por outras não-tão-importantes como arrumar o quarto, preparar um lanche ou consultar o seu mural de Facebook? Quantas vezes se esqueceu da tarefa importante e acabou por sentir-se culpado ou envergonhado por não ter cumprido o prazo? Isso tem um nome.

A procrastinação é muitas vezes confundida com preguiça e com a dificuldade em gerir o tempo. Mas a verdade é que a generalidade dos procrastinadores até gostam de trabalhar e, sob determinadas condições (que pouco ou nada têm a ver com a gestão do tempo), conseguem ser extremamente produtivos.

Então com o que é que a procrastinação tem a ver? Com as emoções. Em primeiro lugar, com o medo. Muitas vezes é o medo de falhar, o medo de não estar à altura, que está subjacente ao adiamento de tarefas importantes.

Mas há mais. Este padrão de comportamento também está associado a um pensamento irracional: a maior parte destas pessoas adiam tarefas importantes porque acreditam que NAQUELE MOMENTO não estão com a disposição certa para as concretizar.

- SAIBA SE É UM PROCRASTINADOR -

Veja se reconhece estes pensamentos:

- Antes de enviar este email vou dar uma vista de olhos à minha página de Facebook para ver o que há de novo. Despacho já isso e depois concentro-me melhor.

- É melhor preparar um segundo lanche antes de começar a trabalhar. Afinal, ninguém consegue concentrar-se de estômago vazio.

- Antes de terminar o relatório que tenho em mãos vou arrumar as tralhas que estão em cima da secretária. Assim, fico com o ambiente de trabalho limpo e organizado e ganho motivação.

O problema é que... Uma tarefa chata vai continuar a ser uma tarefa chata. Mesmo que você a enfrente de estômago cheio ou num ambiente impecavelmente limpo. E você sabe disso. Ficar à espera que a sua disposição (em relação às tarefas chatas) mude é o equivalente a ficar à espera de um milagre. De um modo geral acaba por ser a pressão dos prazos que o leva a colocar mãos à obra. Isso se você não deixar passar o prazo.

Mas não tem de ser assim.


Há algumas DICAS que o podem ajudar a fazer hoje aquilo que você teima em deixar para amanhã:

- Sonhe acordado. Foque-se na sua meta. O que é que você espera sentir quando terminar a tarefa? O que é que tem a ganhar? Você precisa de experimentar esse prazer.

- Comece agora. Neste instante. Já. Sempre que você diz a si mesmo "começo a dieta amanhã", "trabalho depois do jantar" ou "respondo ao e-mail na segunda feira", está a contribuir para que o ciclo vicioso se mantenha. O jantar pode começar daqui a 10 minutos. Isso significa que você tem 10 minutos para avançar com a tarefa chata. "Mas depois tenho de a interromper" - Não há problema! Pelo menos, você vai avançar mais um pouco (em vez de ficar à espera do tal milagre).



- Trabalhe sob pressão. Toda a gente sabe como criar um lembrete no telemóvel ou no computador de maneira a ter consciência dos prazos. O problema é que se você criar um lembrete - com alarme e tudo - para ter a certeza de que acaba o trabalho a tempo, você vai fazer aquilo que tem feito: ignorar o alerta. No fundo, você acha que tem tempo, sente-se com confiança e abusa da sorte. Depois vem o esquecimento e, com ele, a vergonha e os sentimentos de culpa. Então, o melhor é reconhecer que você precisa de alguma pressão para trabalhar. Se o relatório tem de ser entregue na segunda feira ao meio dia, programe o alarme para domingo à tarde. Ou para segunda de manhã. Estique a corda. Nem vale a pena criar um lembrete para sexta-feira! Fuja do ciclo vicioso que tão bem conhece.

25.8.14

COMO EDUCAR OS FILHOS PARA O SUCESSO



Educar uma criança é, provavelmente, um dos maiores desafios que alguém pode ter de enfrentar. A vontade de se ser bom pai ou boa mãe anda quase sempre de mãos dadas com um conjunto de medos e de interrogações – “Estarei a fazer as escolhas certas?”, “Será que passo tempo suficiente com os meus filhos?”, “Estarei a ser demasiado exigente?”, “Estarei a ser demasiado permissivo(a)?”. Ninguém tem todas as respostas. De um modo geral, os pais (e mães) têm um desejo comum: querem que os seus filhos sejam felizes. Querem que sejam crianças felizes e querem que se transformem em adultos capazes de lutar pela sua felicidade. Depois há desejos mais específicos. Há quem ambicione que os filhos sejam alunos brilhantes e mais tarde profissionais de sucesso (e, já agora, muito bem remunerados). Há quem queira vê-los casados e com filhos. Há quem lute para que se transformem em adultos responsáveis e com valores.

Mas como é que tudo isto se consegue? E o que é que depende, de facto, dos pais? Afinal, toda a gente sabe que os pais não controlam tudo, que há muitos outros agentes que contribuem para a formação de uma criança. Pelo sim, pelo não, há quem se previna começando por inscrever as crianças em infantários-topo-de-gama. E há quem se mate a trabalhar para garantir que os filhos possam frequentar as melhores escolas e, mais tarde, as melhores universidades. Mas se é verdade que as crianças podem beneficiar (e muito) de um ensino que as estimule e que lhes permita desenvolver competências e concretizar sonhos, é fundamental que assumamos a realidade como ela é: o sucesso dos nossos filhos depende muito menos destes recursos e muito mais do vínculo que formos capazes de construir com eles. É verdade! A felicidade das nossas crianças e até o seu rendimento escolar (e mais tarde profissional) depende maioritariamente de algo que é grátis: a conexão com os pais. Não é a creche XPTO, as 123 atividades extracurriculares nem a poupança no banco que hão de garantir que os nossos filhos sejam adultos felizes e bem-sucedidos. É o tempo que formos capazes de lhes dedicar. É a capacidade de resposta às suas necessidades – físicas e emocionais. É a segurança emocional que resulta de se sentirem amados. É o toque – os gestos de afeto, os mimos, os beijos e os abraços. São os “Nãos” devidamente explicados.

Qualquer pai ou mãe gostaria que os seus filhos se transformassem em adultos seguros, capazes de lutar pelos seus sonhos, de reagir às adversidades, de defender os seus interesses com escrúpulos e com autoconfiança, certo? Ora, isso depende sobretudo do investimento afetivo que for feito.


O toque é fundamental para o desenvolvimento físico e emocional das crianças. As crianças que não são tocadas e que raramente brincam têm um cérebro entre 20 e 30% mais pequeno do que o normal para a sua idade.


Cada criança tem competências inatas. Se ao pais oferecerem alguns estímulos, essas competências vão desenvolver-se. Mas os “talentos” do seu filho podem não ser aqueles que você espera ou os que você mais valoriza. 

24.7.14

PORQUE É QUE OS CASAIS DISCUTEM? (SEGUNDA PARTE)


Ao meu consultório chegam todos os dias pessoas que, por um motivo ou por outro, perderam pelo menos uma parte da fé na sua relação. Cada história de vida é única mas há problemas que se repetem. Há queixas que se repetem. De tal forma que, como expliquei antes, é possível identificar as queixas mais comuns. Esta é a segunda parte da lista:

“ELE(A) NÃO FALA COMIGO”

O que é que acontece quando alguém tem a perceção de que está a dar tudo o que tem e, como recompensa, só leva “pancada”? O que é que acontece quando é precisamente a pessoa em quem apostámos todas as fichas que – de forma aparentemente descontraída – despreza os nossos apelos? Fechamo-nos. Desistimos. Calamo-nos. É verdade que o amuo não é propriamente um sinal de inteligência emocional. Mas não sendo um caminho frutífero, é o produto da sensação de insegurança, do desamparo, da acumulação de experiências negativas. O problema é que aos olhos do mais-que-tudo os comportamentos que mostram desprezo podem não ser assim tão claros. É muito frequente deparar-me com remorsos e sentimentos de culpa de quem não fazia ideia de que estava a falhar. O pedido de ajuda é muitas vezes o primeiro e importante passo para que quem “não fala” possa finalmente expor aquilo que sente e o casal volte a conectar-se.

 “EU QUERO TER MAIS UM FILHO MAS ELE(A) NÃO”

Aparentemente este é um impasse impossível de gerir. Não há negociação possível, certo? E um não pode (ou pelo menos não deve) obrigar o outro a ceder numa matéria como esta. Mas é preciso olhar para o problema de outro ângulo. É preciso conhecer o percurso daquele casal – os sonhos com que partiram para esta relação, aquilo que foram capazes de construir e, sobretudo, os laços que existem. A experiência mostra-me que quase todas as queixas estão relacionadas com a fragilidade dos laços afetivos. E se não houver uma relação coesa, marcada pela vontade genuína de fazer a pessoa que está ao nosso lado feliz e pela segurança de que essa pessoa também faz tudo em nome da nossa própria felicidade, instala-se o medo, a incerteza, a insegurança. Daí às cobranças, aos ultimatos, aos braços-de-ferro, pode ser só um pequeno passo. Porque há um que se sente inseguro e que, em função dessa insegurança, assume comportamentos mais ou menos desesperados e, de forma involuntária, afasta ainda mais o outro.

Quando se olha para trás e, sobretudo, quando ambos aprendem a comunicar de forma clara as suas necessidades afetivas, tudo se torna mais fácil. E os sonhos a dois voltam a fazer sentido.

“PARECEMOS DOIS IRMÃOS”

Ou dois amiguinhos. Esta queixa é muito mais frequentemente verbalizada pelos homens e está quase sempre associada à diminuição da satisfação sexual. Muitas vezes estamos perante pessoas que deixaram de ter relações sexuais. São casais novos, que não compreendem como é que chegaram até aqui. São quase sempre casais com filhos em idade escolar que permitiram que o tempo passasse sem que a relação continuasse a ser devidamente alimentada. E mesmo quando param para conversar sobre o problema e decidem que é tempo de voltar a namorar, esbarram numa multiplicidade de barreiras. Parece que nada funciona, parecem dois estranhos na cama. Não há chama, não há romance. Mas gostam um do outro! De um modo geral, esta é uma questão que gera aflição e que em muitos casos está na origem de conversas sobre o divórcio. Mas quando o pedido de ajuda é feito e os membros do casal têm oportunidade de olhar para a sua relação como um todo, percebem que a insatisfação sexual não é mais do que uma manifestação da fragilidade da sua ligação. Como não são robôs e a sexualidade está integrada na intimidade emocional, é preciso voltar a fortalecer outros laços para que ambos voltem a sentir-se seguros e apaixonados. Às vezes parece muito difícil e complicado mas é sobretudo uma questão de foco e perseverança.

“ELE(A) NÃO SAI DO FACEBOOK.”

Algumas pessoas optam facilmente por fugir às dificuldades voltando-se para fora, encontrando escapes que lhes permitam ignorar os problemas. Alguns saem de casa em direção ao café assim que a mulher (ou o marido) começa a resmungar, outros refugiam-se no trabalho ou vão às compras. E depois há aqueles que descobrem as maravilhas da gratificação imediata associada ao Facebook. A falta de vontade de encarar as dificuldades ou até a sensação de incapacidade de as resolver podem levar o comum dos mortais a escolher ignorar os apelos do cônjuge. Como o Facebook pode funcionar como uma boa massagem ao ego – um simples “Gosto” pode ser o suficiente para mascarar o estado emocional de uma pessoa -, percebe-se facilmente por que há tanta a gente a alienar-se do próprio casamento. Às vezes de forma gradual, às vezes de forma abrupta, o deslumbramento passa a ocupar demasiado tempo e espaço e sobra pouca disponibilidade para enfrentar as queixas da pessoa amada. Como nenhuma relação vive do ar, é só uma questão de tempo até que as queixas se transformem em ultimatos ou, pior, em anúncios de divórcio.


Nem todos os casais que apresentem queixas relacionadas com o tempo de utilização do Facebook estão à beira da rutura. Aquilo que quero dizer é que qualquer queixa é um apelo, é uma chamada de atenção. E quando nada muda, tudo pode mudar de repente.