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18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.

27.4.20

SEPARAÇÃO DURANTE O ISOLAMENTO – QUANDO SE DEVE CONTAR AOS FILHOS?


Separação ou divórcio durante o isolamento - quando se deve contar aos filhos?

Os casais que foram “apanhados” pela pandemia do Covid-19 em pleno processo de separação debatem-se com dificuldades acrescidas. Uma está relacionada com o momento de comunicar a decisão às crianças. Devem ter esta conversa agora? Ou será mais prudente esperar pelo fim do confinamento?


Continuo a acompanhar pessoas em processo de separação (nas consultas online). Algumas foram “apanhadas” pelo confinamento antes de contarem aos filhos, antes de um dos dois sair de casa, antes de todas as respostas estarem definidas. No princípio, a ideia de estarem de quarentena durante 15 dias parecia compatível com o adiamento de todas as decisões, mas, à medida que o tempo foi passando, a perspetiva de esta pandemia se prolongar por tempo indefinido veio trazer ainda mais ansiedade a pessoas que já estavam a atravessar o período mais difícil das suas vidas.





Comunicar a separação aos filhos:

A conversa que ninguém quer ter


Não é fácil comunicar aos filhos que o pai e a mãe se vão separar. Como explico no livro “Continuar a Ser Família Depois do Divórcio”, esta é a conversa que ninguém quer ter. Há muitas emoções envolvidas – o medo da reação dos filhos e de não ter todas as respostas para as perguntas que possam surgir, a tristeza pelo fim do projeto familiar, a mágoa de quem é deixado, a insegurança em relação ao futuro. Compreensivelmente, há quem vá adiando esta conversa até ao limite.

Com a chegada da pandemia e da obrigatoriedade de confinamento muitos pais e mães adiaram a comunicação da separação aos filhos, questionando se valeria a pena avançar com essa partilha numa altura em que é mais difícil concretizar todos os passos inerentes a um divórcio ou a uma separação. Afinal, o mais certo é que tenham de continuar a conviver na mesma casa durante mais algum tempo.
Mas a verdade é que o segredo é tremendamente tóxico e a minha experiência mostra-me que, apesar de todos os esforços, os filhos sabem quase sempre mais do que os adultos acham que eles sabem.
Às vezes tomam conhecimento da decisão a partir de conversas telefónicas entre um dos progenitores e outros familiares ou amigos, outras vezes ouvem conversas entre o pai e a mãe.

O confinamento veio obrigar as famílias a passar 24 horas por dia em casa, o que, para os casais em processo de separação, pode implicar muitos silêncios, inexistência de gestos de afeto, tristeza, ansiedade, tensão, irritabilidade e amargura. As crianças e os adolescentes são muito sensíveis à linguagem não verbal dos pais e são quase sempre muito perspicazes no que toca ao reconhecimento deste tipo de problemas. Quando os pais optam por continuar em silêncio, isso pode querer dizer que os filhos tenham de lidar com o assunto sem o colo dos adultos.

É por isso que, de uma maneira geral, é preferível que esta conversa aconteça tão cedo quanto possível – mesmo em tempos de confinamento. Assim, os filhos têm a oportunidade de colocar as suas dúvidas, têm oportunidade de pedir ajuda para organizar as suas emoções. Por outro lado, os adultos deixam de ter de fingir e passam a viver uma vida mais autêntica.

Um divórcio ou uma separação é invariavelmente uma perda gigantesca para todos os membros da família, mas, tal como acontece com outras perdas, é preciso dar espaço para que todas as emoções sejam exteriorizadas com verdade, permitindo que os laços se estreitem. Não há nada como a certeza de que há quem genuinamente se importe connosco, com o nosso sofrimento. Quando isso acontece, sentimo-nos invariavelmente mais ligados.

20.4.20

ENCONTRAR O AMOR NA INTERNET


Amor na Internet


É possível encontrar o amor através da Internet? Que diferenças existem entre os encontros online e os encontros na vida real? Que comportamentos devemos ter para evitar perder tempo e energia com quem possa estar apenas à procura de um engate?


A Internet veio facilitar – e muito – a vida dos adultos à procura de um relacionamento. Há uns anos, quando alguém se separava, tinha de lidar com a dificuldade em conhecer pessoas novas. A sensação que muitas pessoas recém-separadas tinham era de que teriam de fazer muitas escolhas que as obrigariam a sair muito da sua zona de conforto para encontrar um(a) novo(a) companheiro(a) romântico.




Quantas pessoas precisamos de conhecer até encontrar “a tal”?

Não é por acaso que ouvimos falar da “química” do amor. A maioria de nós não se apaixona com facilidade. Podemos sentir-nos atraídos por algumas pessoas, podemos considera-las interessantes de muitos pontos de vista e, ainda assim, podemos constatar que simplesmente não há faísca.



O professor John Gottman, provavelmente um dos mais reconhecidos investigadores na área da conjugalidade (ao ponto de a revista Psychology Today o apelidar de “Einstein do Amor”), contou a determinada altura como é que conheceu a sua mulher, a professora Julie Gottman, com quem está casado há mais de trinta anos. Apesar de o seu trabalho estar centrado na investigação sobre os motivos por que algumas relações resultam e outras falham, John Gottman tinha ultrapassado a barreira dos 40 anos, estava divorciado há sete e colecionava relações mal-sucedidas. Antes de recomeçarem as aulas na universidade, aproveitando o tempo livre de que dispunha, decidiu conhecer o maior número de mulheres que conseguisse. Na altura (1986), não havia Internet e Gottman decidiu responder a todos os anúncios pessoais que encontrasse nos jornais. Em seis semanas, conheceu sessenta mulheres. Sessenta! Julie foi a 61ª. Primeiro, trocaram números de telefone e conversaram durante mais de quatro horas seguidas, sentindo uma empatia imediata. Depois, combinaram um encontro num bar. John Gottman chegou cedo e deu por si a observar as mulheres que entravam no bar interrogando-se «Será que esta é que é a Julie?». Algumas mulheres não (lhe) pareciam muito interessantes e Gottman dava por si a pensar «Espero que não seja esta». Quando Julie entrou no bar, Gottman gostou da sua aparência e pensou «Espero que seja esta». Conversaram, ela riu-se das suas piadas e, no segundo encontro, Gottman sabia que ela era “a tal”.


Nos dias de hoje o que não faltam são opções. Entre o Tinder, o Facebook e os mais variados sites de encontros, sabemos que é muito mais fácil conhecer muitas pessoas em pouco tempo através da Internet do que na vida real. Mas isso não significa que a tarefa seja fácil, sobretudo para quem busca mais do que relações ocasionais.

Um dos primeiros desafios que qualquer pessoa terá de enfrentar se estiver na disposição de procurar um novo amor na Internet tem precisamente a ver com este paradoxo da escolha: O facto de haver tanta oferta tende a baralhar-nos. É como se o facto de sabermos que há milhares de pessoas “disponíveis” nos tornasse menos tolerantes a pequenas falhas e menos pacientes para conhecer melhor cada pessoa com quem nos cruzemos.

As relações que começam online tendem a ser mais curtas porque, de uma maneira geral, as expectativas dos utilizadores são maiores.


O facto de haver aparentemente tanta oferta faz com que também seja mais fácil afastar potenciais companheiros românticos - mesmo que os consideremos interessantes - na esperança de que seja possível encontrar alguém (ainda) melhor.

Qual é o perfil de quem procura o amor na Internet?


Na verdade, há muitos perfis. Na Internet, tal como na vida real, a percentagem de pessoas que procuram relações sem grandes compromissos é maior. Já falei sobre isso AQUI a propósito dos estilos de vinculação amorosa. As pessoas com um estilo de vinculação evitante sentem-se pouco confortáveis com níveis elevados de intimidade emocional e, por isso, têm relações mais curtas, voltam muito mais vezes ao “mercado” dos solteiros e fazem-no de forma mais ativa. É por isso que algumas pessoas se queixam porque aparentemente estão sempre a relacionar-se com as pessoas “erradas”.

Saiba qual é o seu estilo de vinculação – e a pessoa certa para si – AQUI.

A Internet é um mundo “à parte” porque, como é fácil de perceber, permite que haja uma série de passos que sejam dados sob anonimato ou com dados falsos que, cá fora, seriam mais rapidamente detetados. Online há um risco maior de começarmos a conversar com alguém cujas intenções pareçam uma coisa e sejam, na realidade outra.

Mas nem tudo é mau! Aquilo que várias pesquisas demonstram é que quem está na Internet à procura do amor são normalmente pessoas que investem muita energia e às vezes até dinheiro nesta busca. Sim, há quem pague para ter acesso a conteúdos exclusivos ou para que um “especialista” encontre a “alma gémea”. Isto também pode mostrar alguma motivação extra para construir uma relação, por oposição àquela ideia feita de que na Internet só se encontra pessoas à procura de engates.

As pessoas mais velhas também recorrem à Internet?


Sim, mas tendem a ser mais seletivas - em particular as mulheres. Depois de uma certa idade, e, sobretudo, depois de uma ou mais relações significativas de longa duração, tendemos a definir de forma mais precisa aquilo que queremos e aquilo que não queremos para nós. Tem havido um crescimento no número de pessoas com 50 e 60 anos que utilizam a Internet para encontrar um novo amor, mas estas pessoas são normalmente mais exigentes.

Quando é uma pessoa está pronta para procurar o amor na Internet?


Há muitas pessoas que criam um perfil em sites e aplicações de encontros pouco tempo depois da separação, sentindo uma mistura de excitação e insegurança. Por um lado, sentem-se genuinamente maravilhadas com as possibilidades que a Internet oferece (e que na muitas vezes não existiam quando começaram a relação anterior), mas, por outro, sentem-se assustadas com este admirável mundo novo.

É muito importante que cada pessoa avalie se se sente realmente pronta para enfrentar os desafios dos encontros digitais. O luto da relação anterior está feito? Como está a sua autoestima? Está preparado(a) para correr riscos e lidar com a rejeição?

Algumas pessoas iniciam esta procura e interrompem-na pouco tempo depois precisamente por perceberem que ainda se sentem demasiado ligadas à anterior relação ou que simplesmente não adquiriram o estofo e a estabilidade que lhes permita saborear esta aventura sem correr o risco de ver a própria autoestima destruída.

Encontrar o amor online: o que é que procura?


É uma pessoa “com um feitio complicado”? Ou a maior parte das pessoas à sua volta tendem a rotulá-lo(a) de “pragmático(a)”? Gosta muito de viajar e dá-se mal com a monotonia? Ou é uma pessoa de gostos simples e qua não lida bem com demasiada aventura? Aquilo que a ciência nos mostra é que tendemos a sentir-nos mais felizes com pessoas com quem sintamos que haja afinidade. Não, isso não quer dizer que tenhamos de encontrar alguém com os mesmos hobbies.

Antes de partir para a análise de qualquer perfil online, pare um pouco para refletir sobre si. Elabore uma “lista de valores” e organize-nos de acordo com a importância. Gaste algum tempo a refletir sobre este assunto tão sério. O que é que é realmente importante para si? Que características é que um(a) parceiro(a) romântico tem mesmo de ter? Depois, reflita sobre a sua própria experiência. A que sinais é que acha que pode estar atento(a)? Que perguntas vai precisar de colocar para perceber se a outra pessoa partilha os mesmos valores?

O que é que devo incluir no perfil? A importância da autenticidade.


Se há algo que a ciência nos oferece é a certeza de que somos muito mais felizes na medida em que tenhamos uma vida autêntica. Online as coisas não são diferentes. Você não controla a honestidade de quem está do outro lado, mas há muitas escolhas que pode fazer com o objetivo de se aproximar das pessoas certas.

No que toca à vontade de encontrar o amor, o medo pode complicar o processo. Quando uma pessoa se sente ansiosa perante a possibilidade de se sentir rejeitada, pode ser tentador mascarar a própria realidade. Por exemplo, algumas pessoas omitem, propositadamente, o facto de terem filhos com medo de serem automaticamente excluídas pela maioria dos potenciais parceiros. Mas será que vale a pena? A minha experiência mostra-me que não.

A procura do amor não é um concurso de popularidade e a sua autoestima não pode estar dependente do número de pessoas que gostam do seu perfil.

É preferível ser claro(a) e honesto(a) em relação a quem é e àquilo que quer para si. Isso aproximá-lo(a)-á das pessoas certas e permitir-lhe-á investir apenas nas pessoas que estejam dispostas a aceitá-lo(a) exatamente como é. Mesmo assim, é possível que do outro lado haja quem não seja totalmente sincero e possa tentar iludi-lo(a).

Lembre-se de que não há qualquer vantagem em criar uma personagem. Foque-se na minoria que lhe interessa.

Seja honesto(a) também nas fotografias. Não vale a pena publicar uma foto de há 10 ou 15 anos. A desilusão será maior.

Quando é que se deve marcar um encontro presencial?


Cada pessoa sabe de si, naturalmente, mas, de uma maneira geral, é desejável que ninguém gaste muito tempo a investir numa relação cuja comunicação seja apenas digital. A nossa comunicação é, sobretudo, não-verbal. Revelamo-nos muito mais cara a cara do que através de qualquer texto.

Lembre-se de que é mais fácil avaliar se outra pessoa é ou não compatível consigo em 10 minutos de conversa cara a cara do que em várias horas de análise ao perfil digital.


Quando partir para esta etapa, lembre-se de garantir a sua segurança:

·         Combine o primeiro encontro num lugar público;
·         Partilhe a sua localização com um familiar ou um(a) amigo(a);
·         Evite partilhar informações que possam ser utilizadas de forma abusiva.
·        Defina bem os seus limites. Seja claro(a) em relação a qualquer comportamento que considere inapropriado.
Ainda em relação a este primeiro encontro, é importante que procure criar condições para que ninguém se sinta (muito) pressionado:
·         Combine uma ATIVIDADE. Fazer qualquer que permita que ambos se mantenham entretidos, ainda que haja espaço para a conversa, é meio caminho para aliviar a pressão.
·         Não leve tudo demasiado a sério. Sim, você está à procura de uma relação amorosa, mas não encare um primeiro encontro como entrevista de emprego. Procure, sobretudo, avaliar se gostaria de voltar a encontrar-se com esta pessoa uma segunda vez (e não tente perceber logo se ele(a) é a pessoa certa para passar o resto da vida ao seu lado).

15.4.20

COMO EVITAR O DIVÓRCIO EM TEMPO DE ISOLAMENTO E COVID-19

Como evitar o divórcio em tempo de pandemia

Como se pode evitar o divórcio em tempo de confinamento e Covid-19? Quais são as queixas e os medos dos casais nesta altura? E quais são os segredos para uma relação saudável e duradoura, quer em tempos normais, quer neste contexto de isolamento social? 


- Entrevista à revista LIFE, do Diário de Notícias -

Como se evita o divórcio nesta fase estranha e complicada por que estamos a passar? Há a perceção de que as alturas em que os casais passam mais tempo juntos são, de facto, propícias a que aconteça... Porque é que isto sucede, em primeiro lugar?


Os períodos em que os casais passam mais tempo juntos, como as férias ou o Natal, são quase sempre recheados de muitas expectativas porque representam a oportunidade de finalmente parar para relaxar em família. Aquilo que muitas vezes acontece é precisamente o oposto, o que ajuda a explicar por que há tantas separações e pedidos de ajuda terapêutica nos períodos subsequentes. Enquanto estamos ocupados com o trabalho, as tarefas domésticas, a escola e as atividades dos filhos acabamos por prestar menos atenção aos nossos sentimentos e necessidades ou aos sentimentos e às necessidades da pessoa que está ao nosso lado. As pausas em família põem a nu todos os vazios, todas as lacunas da relação. Às vezes, é nessas alturas que se descobre uma relação extraconjugal.



Quando as emoções tomam conta dos membros do casal (em vez de serem as pessoas a tomar conta das emoções), é mais provável que haja muitos momentos de tensão, discussões mais acesas e que quase tudo dê azo a um círculo vicioso em que ambos reclamam e ambos se sentem injustiçados. Nas férias há menos escapes, menos distrações, menos “balões de oxigénio” e é mais provável que ambos tenham muito tempo para remoer à volta do que cada um disse ou fez.

É fácil intuir que o isolamento provocado pelo COVID-19 reúne um conjunto de variáveis que tornam a convivência familiar potencialmente mais difícil do que quaisquer férias, desde logo pela dificuldade em sair para espairecer, conversar com outras pessoas, pensar noutros assuntos. Mas também pela ansiedade e pelo medo que estão associados a esta nova realidade. As pessoas não lidam todas da mesma maneira com a incerteza e isso pode ser em si mesmo gerador de algumas discussões.

Alguns casais confrontar-se-ão com problemas antigos, que acabarão por tornar-se incontornáveis com o isolamento forçado e isso pode trazer naturalmente angústia e discussões. Outros sentir-se-ão “atropelados” por uma imensidão de problemas, já que às dificuldades anteriores juntar-se-ão desafios de natureza financeira, incerteza em relação à manutenção do trabalho e preocupações com a saúde de familiares.

Mas haverá certamente quem consiga sair desta crise com a relação fortalecida. De resto, há inúmeros testemunhos de casais que se sentiram mais unidos na sequência de acontecimentos tremendamente difíceis.

Uma das ferramentas para evitar a escalada da tensão (e assim proteger a relação) consiste em reconhecer e verbalizar as emoções de forma clara, assertiva e compassiva.


Isto é evidentemente mais fácil de dizer do que fazer, mas é possível. Em primeiro lugar, é essencial que cada pessoa reconheça que – em tempos de Covid-19 ou outros quaisquer – tem o direito de sentir TUDO, mas não tem o direito de fazer TUDO. É natural que haja alturas em que nos sintamos furiosos, mas é desejável que não despejemos a nossa fúria na pessoa que está ao nosso lado. De uma maneira geral, a raiva é apenas a camada superficial. É a emoção que nos permite levar tudo à frente, mas é também aquela que mascara outras, que nos deixam mais expostos, mais vulneráveis, como a tristeza, o medo ou a solidão. Então, antes de darmos um par de berros ou de fazermos quaisquer acusações, é importante respirar fundo e permitirmo-nos parar. Se formos capazes de questionar «O que é que eu estou a sentir (para lá da raiva)?» e «Do que é que eu preciso», é mais provável que consigamos expressar os nossos sentimentos sem assumirmos uma postura agressiva. Aquilo que se pretende – e funciona – é que sejamos capazes de conseguir dizer «Preciso de ti» em vez de «Tu não fazes nada de jeito».

Por outro lado, é fundamental que nos permitamos parar para nos lembrarmos das qualidades da pessoa que está ao nosso lado, dos atributos que fizeram com que o(a) escolhêssemos. De uma maneira geral, a pessoa que está ao nosso lado é alguém que se preocupa genuinamente connosco, que deseja o melhor para nós e que é capaz de gestos altruístas. Por isso é que o(a) escolhemos, não é? Mas não é um robot, nem é perfeito(a). É alguém que também está certamente a dar o seu melhor nesta fase, ao mesmo tempo que se sente stressado(a), aflito(a), inseguro(a).

Uma postura compassiva implica que tentemos genuinamente colocar-nos na posição da pessoa que está ao nosso lado, que tentemos conhecer as suas preocupações, aquilo que o(a) inquieta e aquilo que lhe faz falta. Se formos capazes de ver verdadeiramente a pessoa que está ao nosso lado, de reconhecer e valorizar as suas emoções, é muito mais provável que ele(a) se sinta motivado(a) para responder com atenção e afeto aos nossos apelos – mesmo em tempos de isolamento.

Precisamente porque não somos perfeitos, é importante que a compaixão se estenda a nós próprios e nos permita aceitar que é natural que cometamos erros. Estamos a dar o nosso melhor, mas há demasiadas coisas para gerir. Quando erramos com a pessoa que está ao nosso lado, temos ao nosso alcance uma ferramenta valiosa e que, de uma maneira geral, distingue os casais felizes dos casais em crise: a capacidade para pedir desculpa. Não me refiro aos pedidos de desculpa feitos à pressa e que tenham apenas como objetivo aliviar a própria pressão. Refiro-me à genuína vontade de empatizar com a outra pessoa e de dar o primeiro passo, de forma altruísta, para voltar a ficar tudo bem. Trata-se de nos lembrarmos que é preferível tomar esta iniciativa e proteger a relação em vez de fazer um braço-de-ferro para provar que temos razão.

Não é um paradoxo os casais afastarem-se mais justamente quando estão juntos durante mais tempo? O que é que isto diz das nossas relações e dos tempos que vivemos?

Pode parecer um paradoxo, mas é na verdade perfeitamente compreensível. Somos seres sociais, estamos programados para construir laços afetivos, mas isso não significa que precisemos apenas de uma pessoa para sermos felizes. De resto, quase todos os casamentos em que isso acontece – isto é, quando uma pessoa alimenta a expectativa de que a outra seja responsável pela sua felicidade -, correm sérios riscos. Na prática, precisamos de uma “aldeia” inteira, quer para nos sentirmos felizes, quer para protegermos a nossa relação conjugal. Quando saímos com amigos, quando temos um grupo de pessoas com quem nos sentimos à vontade para conversar ou para praticar um deporto ou fazer qualquer outra coisa de que gostamos, estamos a alimentar a nossa individualidade e a retirar pressão dos ombros da pessoa que amamos.

Quando sabemos que há outras pessoas a quem podemos ligar num momento de aflição, sentimo-nos mais amparados e cobramos menos à pessoa que está ao nosso lado.


Pelo contrário, quando o cônjuge tem de ser o amante, o melhor amigo, o psicólogo, o confidente e o companheiro de todas as aventuras, há demasiada pressão.

A maior parte das relações precisam de uma certa “distância de segurança”, que permita que cada um se sinta com espaço para explorar os seus interesses e a sua individualidade ao mesmo tempo que acrescenta a novidade, a sedução, o mistério e a consciência de que a pessoa que está ao nosso lado nos escolheu, mas não é verdadeiramente nossa nem está garantida.

É também por isso que o isolamento forçado pela pandemia é uma fonte de desgaste, mesmo para os casais mais felizes e saudáveis.

Como se mantém um casamento saudável? Quais são os segredos para uma relação saudável e duradoura, quer em tempos normais, quer neste contexto de maior confinamento e isolamento social?


Como expliquei antes, é essencial que cada um tome conta das próprias emoções e aprenda a exterioriza-las de forma clara, sem ataques pessoais. Referi-me à escalada de tensão, mas aqueles que mais me preocupam são sempre os casais que não discutem. Tenho seguido alguns que simplesmente deixaram de deitar cá para fora aquilo que os incomodava, baixaram os braços e um dia perceberam que já não havia ligação.

Mesmo numa altura em que a maior parte das famílias estão fechadas em casa, é relativamente fácil que cada um passe muito tempo num canto e que a comunicação seja praticamente inexistente. Na verdade, muitas famílias já estavam habituadas a não confraternizar, nem sequer às refeições, preferindo o refúgio e a gratificação imediata das redes sociais.

Por isso, uma das coisas que proponho é que as famílias aproveitem este período para criar ou reforçar rituais que fomentem o relaxamento e a conexão. As refeições podem ser um ponto de partida para que a família se reúna para comer e partilhar os sentimentos. Nesta altura até pode parecer que não há nada para partilhar e que as novidades são praticamente inexistentes, mas aquilo de que cada um de nós precisa é de sentir que há quem se importe com aquilo que sentimos – seja a propósito do que for. Quando nos sentamos à mesa e dizemos «Não imaginas o que acabei de ler no Facebook», não precisamos de ouvir uma crítica ou de ver a pessoa que amamos a revirar os olhos num sinal de desprezo e desinteresse. Precisamos que ele(a) preste atenção, que se interesse.

As nossas ligações constroem-se na medida em que sejamos capazes de fazer escolhas altruístas, que impliquem que respondamos com atenção e afeto aos pequenos gestos ou pedidos de atenção.

Este período também pode ser ideal para criar novos hábitos de lazer, como os jogos de tabuleiro ou outros que nos permitam relaxar e dar algumas gargalhadas em família.

Por outro lado, é mesmo importante que não nos esqueçamos daquilo que caracteriza as relações de casal, distinguindo-as de todas as outras: a intimidade física. É evidente que o desejo sexual também pode ser afetado pela ansiedade provocada por esta pandemia, mas não há nada que nos impeça de manter os gestos de afeto e de mostrar à pessoa que amamos de forma clara e recorrente que a amamos.

Não há nada mais terapêutico do que o toque. Quando nos sentimos tocados com carinho, sentimo-nos mais seguros, mais otimistas.


Ainda do ponto de vista da intimidade sexual, é fundamental que cada um fale abertamente sobre aquilo que sente e aquilo de que precisa – para evitar equívocos e sentimentos de rejeição. Mas não basta assumir que a ansiedade está por detrás da diminuição do desejo. É preciso comprometermo-nos de maneira a que o sexo não desapareça das nossas vidas. É preciso criar momentos só para o casal, mesmo que seja depois de as crianças se deitarem. É preciso contrariar a vontade de andar de pijama o dia todo e investir no autocuidado. É preciso que cada um tenha algum tempo só para si e que haja espaço para a fantasia e para a imaginação.

Quais são as queixas, os pedidos, os medos, os desabafos que mais tem ouvido em consulta nos últimos tempos? O que é que pode ser pior do que o próprio coronavírus para os casais?

A maior parte das famílias estão a adaptar-se a um conjunto de novas rotinas. Do mesmo modo que este vírus veio expor as fragilidades dos diferentes sistemas de saúde, mas também já trouxe um investimento significativo em recursos que vão ficar cá para além desta crise, o mesmo pode acontecer com as famílias. Numa primeira fase, é natural que venham à tona as dificuldades e os vazios, mas o investimento de cada pessoa pode revelar-se valioso para o estreitamento dos laços.

Por enquanto vou ouvindo muitos desabafos relacionados com a incerteza em relação à situação profissional, queixas relacionadas com problemas de comunicação e falta de conexão e lamentos que têm a ver com o malabarismo que é tentar ser pai ou mãe, profissional, professor(a) e educador(a) de infância. Não é fácil gerir as exigências profissionais com a carga de trabalhos escolares e não é mesmo nada fácil combinar a privacidade que algumas reuniões por videoconferência exigem com as birras e solicitações das crianças pequenas.

Nas minhas consultas chamo muitas vezes a atenção para os efeitos terapêuticos de uma ferramenta que é a autocompaixão. Quando conseguimos dar-nos conta de que estamos a ser excessivamente duros connosco e substituímos esses pensamentos por um discurso genuinamente compassivo, sentimo-nos muito melhor.

Temos a obrigação de dar o nosso melhor para que o(a) nosso(a) companheiro(a) e os nossos filhos continuem a receber a nossa atenção plena e o nosso afeto, mas a vida não pode ser uma competição e nenhum de nós vai receber o título de “o(a) mais perfeito(a)”. Ouço alguns lamentos relacionados com aquilo que as famílias observam à sua volta através das redes sociais. Às vezes é tentador compararmo-nos com aquilo que vemos na montra do Facebook ou do Instagram e esquecermo-nos de que as fotografias que ali vão parar são um pequenino excerto da vida de cada um. Quase ninguém publica fotografias da casa virada do avesso ou das birras dos filhos, mas essa é, atualmente, a realidade da maior parte das famílias.

Não estamos todos nas mesmas circunstâncias e é evidente que há famílias que enfrentam mais dificuldades do que outras, mas se há algo que esta pandemia trouxe foi o lembrete da humanidade comum. O que quer que estejamos hoje a viver, está a ser partilhado, no mesmo instante, por milhões de pessoas. Sejamos genuinamente bondosos connosco e com a pessoa que escolhemos e este desafio será mais facilmente ultrapassado.

31.3.20

CONSULTAS DE PSICOLOGIA E TERAPIA DE CASAL ONLINE


Consultas de Psicologia e terapia de casal online

Em tempos de Covid-19 e isolamento, a terapia online é a única forma de receber ajuda especializada no que toca à saúde psicológica. Será que funciona? Como é que se processa? É para todos? Como é que sabemos que podemos confiar?


Há muitos anos que dou consultas através da Internet. Até há poucas semanas, essa era a exceção na minha prática clínica e estava reservada sobretudo para os portugueses que vivem fora do país e para algumas pessoas que, apesar de viverem em Portugal, têm dificuldade em encontrar um psicólogo/ terapeuta conjugal perto da área de residência ou que simplesmente vivem num meio demasiado pequeno, onde todos se conhecem.

Apesar de preferir as consultas presenciais, habituei-me desde cedo a este formato e percebi que a minha ajuda poderia ser muito significativa para quem, por questões logísticas, pudesse sentir-se ainda mais vulnerável. Tenho acompanhado portugueses em países tão longínquos quanto a Arábia Saudita, Angola, Canadá ou os Estados Unidos e muitos espalhados pela Europa. Em comum têm a vontade de receber ajuda na língua em que se expressam melhor. No caso dos portugueses a viver em meios pequenos, é fácil perceber a diferença que poderia fazer consultar um psicólogo local. Não é uma questão de a confidencialidade das consultas estar em causa. Tem a ver com a exposição de entrar numa clínica e só por isso ser motivo de conversas e rumores. Isso é ainda mais difícil quando falamos de terapia conjugal.

Com a chegada do Covid-19 a Portugal, comecei por reconhecer que o contacto presencial com as pessoas que acompanho nos poderia colocar a todos numa situação vulnerável e passei a realizar as consultas através de videoconferência. Dias depois, a Ordem dos Psicólogos emitiu um comunicado em que dizia que todos os profissionais da área deveriam passar a fazer o seu trabalho neste formato. Entretanto, tornou-se óbvio que esta seria mesmo a única forma de nos protegermos.

Para quem nunca fez consultas online, a ideia pode gerar confusão. Afinal, como é que se processa uma consulta de Psicologia clínica ou de Terapia de Casal online? De que forma se pode garantir a confidencialidade e a segurança das consultas? Será que as consultas neste formato funcionam tão bem como as consultas presenciais?

A Terapia online funciona?


Sim. As consultas de Psicologia e terapia familiar são tão eficazes quanto as consultas presenciais. Não é uma questão de opinião. Há diversos estudos que nos mostram essa eficácia.


  •  Há investigações que mostram que a terapia cognitivo-comportamental, que permite estimular a consciência sobre padrões de pensamentos negativos ajudando os pacientes a responder a situações desafiantes, é tão eficaz por videoconferência quanto pela via presencial.
  •   Um estudo mostrou que os adolescentes que realizaram consultas por telefone para a perturbação obsessivo-compulsiva obtiveram tanto sucesso no tratamento quanto os colegas que foram acompanhados presencialmente.
  •   Uma investigação mostrou que os veteranos que sofrem de perturbação pós stress traumático respondem tão bem à terapia por videoconferência quanto ao tratamento recebido no consultório.

No caso da terapia de casal, há claramente uma vantagem nas consultas online: a gestão do tempo. A maior parte dos casais que acompanho são pessoas ocupadas, com dificuldade em conciliar agendas e assegurar que alguém tome conta das crianças durante duas ou três horas. A consulta dura cerca de uma hora e meia, mas, se juntarmos as deslocações, nem sempre é fácil encontrar tempo para que a sessão seja realizada. Quando as consultas são realizadas por videoconferência, contornam-se mais obstáculos e a probabilidade de o casal conseguir comprometer-se de forma consistente com a terapia é muito maior.

Mas há outra vantagem ainda mais significativa: a diminuição do stress. Não há volta a dar: por mais simpático(a) que o(a) terapeuta seja, há quase sempre mais ansiedade quando temos de nos deslocar a uma clínica.

A nossa casa é o nosso porto seguro e pode funcionar como facilitadora do relaxamento e, consequentemente, da capacidade para expormos as nossas emoções de forma mais segura.


Posso confiar no profissional que

está do outro lado do ecrã?


Nos dias de hoje, não faz sentido fazer escolhas clínicas arriscadas. Se não se sente seguro(a) de que o(a) psicólogo(a) que está a pensar contactar seja o(a) mais indicado(a) para si, há alguns passos que pode/deve dar:


  •   A Ordem dos Psicólogos dispõe de uma lista de todos os profissionais registados e autorizados a exercer em Portugal. Certifique-se de que é acompanhado(a) por um(a) psicólogo(a) inscrito na Ordem.
  •  Converse com o seu médico de família e peça uma recomendação. Os médicos de família estão habituados a fazer o encaminhamento para consultas de especialidade e poderão ajudar a encontrar a melhor alternativa.
  •    Se se sentir confortável, peça uma referência a um(a) amigo(a) ou a um familiar. Não há nada como a certeza de que alguém já foi bem-sucedido no acompanhamento psicológico com determinado(a) profissional.
  •   Faça perguntas. Antes de marcar uma consulta, faça uma lista com todas as suas dúvidas. Telefone ou envie um e-mail para o(a) psicólogo(a) que está a pensar consultar. Estas respostas ajudá-lo(a)-ão a fazer a sua escolha. Se não obtiver resposta, isso também o(a) ajudará a fazer a sua escolha 😊.

Com o que é posso contar na terapia online?


As consultas por videoconferência funcionam de forma idêntica às consultas presenciais. Do outro lado do ecrã está um(a) psicólogo(a) isolado(a) no(a) seu gabinete e capaz de assegurar a confidencialidade da consulta. Tal como acontece nas consultas presenciais, a empatia e a ligação são elementos fundamentais para o sucesso da terapia. Se não se sentir confortável com algum aspeto da consulta, procure expor a sua perspetiva.

Na primeira consulta, o(a) psicólogo(a) informa e explica de forma clara como é feita a recolha e registo dos dados clínicos e, no final, partilha uma declaração de consentimento informado que deve ser assinada/ validada pelo(a)(s) paciente(s).



De uma maneira geral, é nesta altura que se elabora
o “contrato terapêutico”, isto é: há um acordo em
relação aos objetivos terapêuticos, periodicidade e
duração das consultas, propostas de exercícios
e formas de pagamento.



Tal como acontece nas consultas presenciais, é legítimo que queiramos obter mudanças rápidas e que nos sintamos desmotivados se elas demorarem a surgir. A minha experiência mostra-me que na maioria das situações há um alívio e um otimismo que resultam logo das primeiras consultas, mas as mudanças mais sólidas envolvem tempo e compromisso.

O início de um processo terapêutico – individual ou familiar – envolve quase sempre muito desgaste e vulnerabilidade. Marcar a primeira consulta é um primeiro grande passo. É uma forma de mostrar a si mesmo(a) que quer cuidar de si, da sua relação ou da sua família. Pode não ser sempre fácil e algumas consultas até podem ser “duras” por tocarem em feridas profundas, mas aquilo que é expectável é que um(a) psicólogo(a) treinado(a) o(a) ajude a aproximar-se gradualmente dos seus objetivos e a sentir-se mais seguro(a), mais feliz e mais capaz.
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