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17.7.18

QUAL É O PROBLEMA DE UMA AMIZADE COLORIDA?


Começa quase sempre com muito entusiasmo: duas pessoas sentem-se sexualmente atraídas e, pelo menos para uma delas, não há vontade de assumir todas as obrigações de um relacionamento sério. Uma amizade colorida parece o formato perfeito: não há chatices, não há cobranças, as pessoas estão juntas quando querem e com prazer. Quando é que uma amizade colorida deixa de servir? E porque é que não serve para toda a gente? 


Ana terminou um casamento de mais de dez anos e, quando achava que iria passar alguns anos sem que pudesse interessar-se por outro homem, conheceu David, um homem atraente, divorciado, por quem sentiu uma «química à primeira vista». Envolveram-se sexualmente e, logo no primeiro encontro, David procurou ser claro e honesto com Ana: não estava interessado num namoro e a única forma de continuarem a estar juntos seria assim, sem compromissos, sem obrigações. Ana gostou da sinceridade e acedeu. Não se sentiu pressionada nem desrespeitada. Pelo contrário, estava a adorar a adrenalina destes encontros. «Tenho o melhor sexo da minha vida e, para já, acho que este formato é perfeito para nós. Não tenho vontade de apresentar um namorado aos meus pais ou ao meu filho.», disse-me um dia. Chamei a sua atenção para aquelas palavras. Aquele «Para já» pareceu-me sincero mas eu conheço demasiadas histórias de mulheres que, mais cedo ou mais tarde, saíram feridas de uma amizade colorida. Propus-lhe que assumisse o compromisso de continuar a respeitar os seus sentimentos, verbalizando-os a David e procurando fazer as escolhas que permitissem que as suas necessidades afetivas continuassem a ser reconhecidas.

Infelizmente, não me enganei. Passou muito pouco tempo até que Ana assumisse: «Acho que estou apaixonada» e, ainda que não tivesse a coragem para o dizer a David, o mais provável é que o seu comportamento não-verbal a tivesse denunciado. «O David está constantemente a lembrar-me que não quer namorar comigo. Às vezes até lhe digo, na brincadeira, que eu também não quero namorar com ele e que esta conversa é um bocado cansativa mas ele insiste porque, diz, não quer que eu me magoe».

Na prática, aquela relação assumiu muitos hábitos de um namoro: Ana e David trocavam mensagens quase todos os dias, falavam sobre os problemas e as vitórias de cada um, estavam juntos todas as semanas e chegaram a fazer alguns programas que incluíam o filho de Ana.

É quase sempre assim – pelo menos entre as situações que chegam até ao meu consultório:



Ana ouviu David dizer inúmeras vezes que não estava apaixonado por ela mas também o ouviu dizer que ainda estava muito abalado pelo fim do seu casamento e alimentou a esperança de que, com o tempo, a ferida sarasse «e ele se entregasse».

Prometeram que, se se interessassem por outras pessoas, deixariam de se encontrar e ficariam amigos MAS a verdade é que, quando Ana menos esperava, David anunciou que tinha namorada. «Como assim, uma namorada? Quando é que isso aconteceu? Quando é que ele a conheceu? Quantas vezes saíram juntos antes de oficializarem a relação? Então e os sentimentos que existiam em relação ao casamento? Ficou tudo resolvido, de repente?».

Ana sentiu-se traída e “cobrou” explicações. David assumiu que não conseguiu ser totalmente sincero e que tinha chegado a sair com as duas mulheres durante algum tempo mas reforçou que se esforçou sempre por esclarecer que não estava envolvido do ponto de vista emocional e que tinha pedido a Ana para ser sincera e para que não se magoasse.

O QUE É UMA AMIZADE COLORIDA?


Antes de mais, importa esclarecer que aquilo que caracteriza uma relação, incluindo as “regras” que fazem parte dela, é da responsabilidade dos intervenientes, isto é, das pessoas envolvidas. É fácil olhar para um namoro ou para um casamento e assumir que as relações são todas iguais mas a verdade é que muitas vezes aquilo que funciona para um casal não funciona para os outros. 

Talvez seja mais fácil dizer que uma amizade colorida NÃO É um namoro. Essa é a distinção que, na maioria das vezes, pelo menos uma das pessoas procura fazer de forma clara.



Na prática algumas vezes há encontros regulares, há monogamia e até algumas cobranças mas a pessoa que propôs este formato facilmente se resguarda de qualquer exigência que venha do outro lado com a lembrança de que aquela relação NÃO É um namoro. 

Como há envolvimento físico e, na maioria das vezes, não há conhecimento de que existam outras pessoas envolvidas, é muito comum que uma das pessoas – normalmente a mulher – se envolva também do ponto de vista emocional e que vá alimentando a expectativa de que a relação “evolua” para um compromisso mais sério.

QUAL A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE AMIZADE TRADICIONAL E AMIZADE COLORIDA?


Numa amizade “tradicional” não há envolvimento romântico, não há sexo e os limites estão definidos de forma clara. De uma maneira geral, na amizade é possível saber com o que é que podemos contar. Sabemos exatamente o que a outra pessoa tem para nos oferecer e, ainda que tenhamos sentimentos românticos por um amigo, o comportamento do outro lado é coerente esclarecedor. Numa amizade colorida é mais fácil que ocorram equívocos e, também por isso, é tão frequente que, apesar de todos os esforços para que a relação seja pautada pela honestidade, haja frustração e confusão.

HÁ BENEFÍCIOS NUMA AMIZADE COLORIDA?


Nem todas as pessoas se sentem confortáveis numa relação de compromisso que, como o nome indica, implica um conjunto de obrigações. A amizade colorida tem a grande vantagem de, em teoria, cada um ser livre para fazer as escolhas que entender sem que haja lugar para cobranças. Na prática, isto só funciona para uma pequena minoria e a título transitório.

E MALEFÍCIOS?


Há dois tipos de situações que chegam até ao meu consultório. Um está relacionado com situações de desonestidade, em que uma das pessoas impõe o formato da amizade colorida sobretudo para que ela própria não tenha quaisquer obrigações mas, à medida que se vai confrontando com o envolvimento emocional da outra pessoa e com a iminência de uma rutura, vai alimentando de forma indireta as expectativas de que a relação possa evoluir para algo mais sério. Normalmente nestes casos a pessoa não é assertiva e usa desculpas como «Magoei-me muito noutras relações» ou «Ainda não me sinto preparado(a) para outra relação», consciente de que está a manipular a realidade com o objetivo de continuar a usufruir dos benefícios que aquela relação lhe oferece.

O outro tipo de queixas está relacionado com uma postura mais clara e honesta, pelo menos do ponto de vista verbal mas em que a pessoa não é capaz de fazer a escolha de se afastar de uma relação que está a fazer-lhe mal. Isto é, uma das partes assume de forma clara que não está interessada num compromisso mas continua disponível para os encontros e, desta intimidade física, resulta o crescente envolvimento emocional da outra parte.



O círculo vicioso tende a agudizar-se já que, à medida que o tempo vai passando, a pessoa que está a sofrer alimenta pensamentos negativos associados ao facto de estar a sujeitar-se a menos do que merece.

EXISTEM REGRAS DENTRO DE UMA AMIZADE COLORIDA?


Como referi antes, as regras são definidas pelas pessoas envolvidas. Infelizmente, muitas vezes só uma das pessoas é capaz de dar voz aos próprios sentimentos e necessidades afetivas e a outra acaba por anular-se. Daí que, na prática, haja tantas situações em que as regras da amizade colorida satisfaçam apenas uma das pessoas e sejam geradoras de sofrimento e diminuição da autoestima da outra pessoa.

Claro que as situações que chegam até ao meu consultório são os casos que correram mal (senão as pessoas não precisariam da minha ajuda) e há obviamente amizades coloridas com maior ou menor envolvimento emocional em que ninguém sai magoado. É possível que duas pessoas se envolvam durante algum tempo conscientes de que aquela relação não é um namoro e capazes de dar voz àquilo de que precisam. Contudo, pelo meu gabinete já passaram muitas como a de Ana. Quanto maior for a nossa capacidade para prestarmos atenção aos nossos sentimentos e àquilo de que precisamos para sermos felizes, e quanto mais nos comprometermos em dar voz a estas necessidades, maior a probabilidade de fazermos escolhas que nos permitam viver aquilo que merecemos (em vez de nos contentarmos com menos).

13.7.18

COMO EVITAR UMA TRAIÇÃO


Habituámo-nos à ideia de que as traições só acontecem nas relações mais desgastadas até ao dia em que nos demos conta de que, afinal, as pessoas que estão felizes com a sua relação também podem ser infiéis. É legítimo que nos perguntemos: o que é que nos protege de uma infidelidade?


Cerca de oitenta por cento de nós já foram atingidos pela infidelidade - de forma direta ou indireta. Alguns traíram, outros foram traídos, há quem seja filho de uma relação extraconjugal, o familiar que procura estar "lá" depois da traição ou o amigo que descobriu a relação ainda antes da pessoa traída.

Sabemos, por isso, que a infidelidade não acontece só aos outros e que pode atingir, literalmente, qualquer relação. Ainda para mais, há cada vez mais formas de traição e nem tudo funciona da mesma maneira para todos os casais.



O que é que nós podemos fazer para que as regras que foram acordadas a dois não sejam quebradas? O que é que está ao nosso alcance para que a pessoa que está ao nosso lado continue a sentir-se feliz e preenchida? Que escolhas nos garantem que a pessoa que amamos não se sentirá tentada a buscar outras emoções fora da relação?

Para compreender a infidelidade é importante reconhecer algo que praticamente todas as pessoas que traíram verbalizam: "Esta relação [extraconjugal] fez-me sentir vivo(a)". Perguntar-me-ão "Mas não estava feliz com o que tinha?", "Porque é que não se queixou?". E eu respondo: às vezes - muitas vezes, na verdade - a pessoa que trai não se sente propriamente insatisfeita com a relação. Há é um conjunto de emoções que deixou de sentir e de que já nem se lembrava. Quando a terceira pessoa surge e o/a faz sentir-se tão especial, tão desejado(a), tudo muda.

Há muitas pessoas que são apanhadas desprevenidas pela intensidade destes sentimentos e que se sentem genuinamente culpadas por não saberem como os hão de gerir.

Aquilo que a relação extraconjugal traz é quase sempre o mesmo - e tem pouco a ver com o sexo: a pessoa sente-se vista (como há muito tempo não sentia), sente-se importante, sente-se valorizada, sente-se desejada, sente-se especial. E muitas vezes nem é preciso que haja qualquer contacto físico para que a relação oficial seja posta em causa. Porque o entusiasmo que a pessoa sente só a propósito do beijo que deseja trocar com outra pessoa fá-la sentir-se viva e questionar tudo.

Daí que cada um de nós tenha mesmo de refletir sobre o investimento que estamos (ou não) a fazer nas nossas relações. Estaremos a levar para casa, no final do dia, o entusiasmo, a alegria, a paciência ou até o glamour que levamos para o trabalho? Estaremos a dar o nosso melhor, a prestar genuína atenção ao que o outro diz e a fazer o que estiver ao nosso alcance para que se sinta reconhecido, valorizado, desejado?

É tão fácil relaxar e dar a relação como garantida! A verdade é que quando saímos de casa de manhã fazemo-lo quase sempre empenhados em sermos profissionais de excelência, atentos às necessidades e às exigências dos chefes ou dos clientes. Arranjamo-nos e queremos manter uma imagem cuidada aos olhos daqueles com quem trabalhamos. No regresso a casa estamos cansados e, para quem tem filhos, começa aí o segundo turno. Há banhos e jantares para dar e é uma sorte se conseguirmos manter os olhos abertos para ler ou assistir a qualquer coisa na televisão. A relação conjugal pode facilmente passar para segundo plano, ao contrário do que acontecia nos primeiros tempos.



Isso dá trabalho, claro. Mas faz-nos sentir vivos e otimistas em relação à possibilidade de ser “para a vida toda”. Na prática, como é que isto se faz?

Valorizar as conversas de final de dia.


Até pode não haver tempo para parar e conversar calmamente enroscados no sofá – especialmente se houver banhos e jantares para dar às crianças – MAS é fundamental que nos lembremos de que todos os dias há acontecimentos que mexem connosco e que gostamos (precisamos) de partilhar. Escutar com genuína atenção, colocar perguntas que demonstrem genuíno interesse e ir acompanhando as situações que mexem com a pessoa de quem gostamos é meio caminho para que ela sinta que é importante para nós. Há muitas pessoas que me pedem ajuda em terapia e que me dizem “Eu sentia-me invisível”.

Valorizar os sonhos da pessoa que está ao nosso lado.


Se há algo que nos faz sentir vivos são os nossos sonhos. Sonhar é grátis e, quando projetamos aquilo que desejamos fazer, sentimo-nos mais vivos do que nunca. No meio de todas as rotinas e compromissos nem sempre é fácil lembrarmo-nos de prestar atenção ao que o outro diz, sobretudo se estiver a falar de assuntos que não nos digam nada ou que se refiram a objetivos difíceis de alcançar. Achamos muitas vezes que estamos a prestar atenção na medida certa, que estamos “lá” para a outra pessoa mas isso nem sempre é verdade. Conhece a lista de coisas que o seu companheiro gostaria de fazer ao longo da vida? Sabe quais são os objetivos que ele/a gostaria de pôr em prática ao longo do próximo ano?

Valorizar os gestos de afeto e o sexo.


Quantos casais conhece e com quem convive que mal se tocam? Os gestos de afeto são a linguagem do amor, são a forma mais clara de dizer “Gosto de ti”. Quando mostramos aquilo que sentimos através do toque, investindo nos beijos e nas carícias, a pessoa que está ao nosso lado sente-se desejada, sente-se especial. Pelo contrário, se ele/a estiver sistematicamente a sentir-se rejeitado(a) ou ignorado(a), mesmo que haja relações sexuais todas as semanas, o mais provável é que a relação esfrie.



Falar sobre aquilo de que cada um gosta, sobre o que cada um espera desta área da vida a dois e sobre o que pode apimentar uma relação de longa duração é continuar a prestar muita atenção ao que nos pode fazer sentir vivos.

Valorizar a individualidade.


Como é que se pode desejar aquilo que já se tem? Como é que se pode sentir a sede de conquistar a pessoa que está sempre “ali”? Se não houver mistério, é mais fácil que se perca o entusiasmo, ainda que haja uma ligação profundamente segura. Cada pessoa pode investir noutras relações de amizade, pode passar tempo sem o companheiro, pode ter interesses diferentes dos dele(a). De uma maneira geral, essa distância é enriquecedora, sobretudo, na medida em que fomente a admiração mútua e a sensação de que nada está garantido.

Manter uma relação que nos faça sentir vivos é extraordinariamente desafiante. Requer uma comunicação aberta, que nos revelemos exatamente como somos e, ao mesmo tempo, que deixemos alguma parte para a imaginação. Envolve rotinas que nos façam sentir suficientemente seguros e novidades que façam valer a pena correr alguns riscos. Implica que haja um projeto a dois verdadeiramente sólido, um rumo, mas também a abertura para refazer planos e sonhos mais do que uma vez na vida.

12.7.18

COMO LIDAR COM UMA SEPARAÇÃO


Quando uma relação acaba, há um conjunto de emoções que podem surgir e que nem sempre são fáceis de reconhecer, quanto mais de gerir. O mundo à nossa volta oscila entre a solidariedade e a "pressa" de que tudo volte à normalidade. Quando é que a dor desaparece? Até quando é razoável ter vontade de chorar? E a raiva? Como é que se lida com a raiva? Hoje escrevo sobre o turbilhão emocional que pode estar associado a um processo de separação.


"Tenho muita vontade de chorar. Não acho normal. Já passaram 3 meses. Além disso, dou por mim a sentir raiva do meu marido - ex-marido, quero dizer - e não quero sentir isto. Quero seguir com a minha vida. Quero esquecê-lo e ser feliz."

O desabafo de Maria é comum no meu consultório. A ânsia de voltar à normalidade e fazer desaparecer a montanha russa de emoções que estão associadas à separação é natural, faz parte. Ninguém gosta de estar triste, ninguém gosta de ter acessos de raiva. Precisamos de paz, desejamos sentir-nos em paz. Mas... e se essa paz estiver "dependente" da vivência destas emoções mais "negativas"? E se for mesmo preciso deixar que a tristeza nos invada para abrir espaço para a nova normalidade?

AS RELAÇÕES NÃO ACABAM SEMPRE DA MESMA MANEIRA


É óbvio que uma relação pode terminar de muitas maneiras. Há quem termine por mútuo acordo. Há quem acabe a relação com discussões violentíssimas. Há quem sinta um murro no estômago quando é surpreendido com frases como "Já não te amo" ou "Os meus sentimentos mudaram". Há quem sinta que o tapete foi arrancado dos pés com a revelação de uma traição. Há quem já estivesse à espera do ponto final há anos (ou até o desejasse).

As circunstâncias de uma separação podem ter um grande impacto na forma como nos sentimos, na capacidade para reagir com resiliência ou otimismo em relação ao futuro. Cada história é única e cada pessoa é que sabe aquilo que investiu, aquilo que ganhou e perdeu com a relação e aquilo que sente aquando da rutura.

Não é porque alguém nos diz que o fim até "foi o melhor" para nós que a dor desaparece. Pelo contrário, isso até pode fazer com que nos sintamos culpados. Mas de nada nos vale dizermos a nós próprios “Eu deveria sentir-me assim” ou “Eu não deveria estar a sentir isto”. É o que é.



É verdade que ninguém gosta de estar triste mas a tristeza faz parte da vida e, se não nos sentirmos invadidos por ela quando uma relação termina, quando é que a vamos sentir? Deixar que a realidade aconteça exatamente como ela é implica que não tenhamos de lutar contra ela e que nos permitamos viver aquilo que precisamos de viver.

TRISTEZA NÃO É DEPRESSÃO


Estar triste é normal. Estar muito triste durante muito tempo depois de uma separação também é normal. Há um luto que precisa de ser feito e que não equivale a uma perturbação depressiva.

Eu compreendo que haja quem tenha medo de se “afundar” numa depressão e que, em função disso, faça o que puder para não alimentar a tristeza. E há, de facto, algumas escolhas que nos podem ajudar a viver este período de forma mais saudável mas nenhuma delas passa por ocultar sentimentos:

Reconhecer a tristeza, a raiva o medo ou outra emoção qualquer e falar sobre isso.


Os amigos e a família nem sempre entendem, nem sempre estão disponíveis para voltar a ouvir-nos MAS, de uma maneira geral, querem o melhor para nós. Têm boas intenções e dar-nos-ão o seu apoio se conseguirmos ser claros em relação àquilo de que precisamos. E às vezes “só” precisamos que nos oiçam.

Identificar os pensamentos catastróficos e “deixá-los ir”.


Quando nos sentimos mais tristes, surgem mais pensamentos negativos e, se lhes dermos corda, é provável que demos por nós enredados num pessimismo generalizado. Anotar os pensamentos mais negativos é um passo importante para que os possamos “descatastrofizar” mas, mesmo que não nos sintamos capazes de o fazer, podemos pelo menos interromper o círculo vicioso. A meditação é uma ferramenta poderosíssima que nos ajuda a olhar para a realidade como ela é em vez de cairmos nas armadilhas que a nossa mente nos prega.

Evitar o isolamento.


Há uma diferença muito significativa entre aquilo que nos apetece e aquilo que nos faz bem. Se nos fecharmos em casa, evitando o convívio com as pessoas de quem gostamos, não estamos a respeitar os nossos sentimentos. Estamos apenas a ceder à tentação de nos fecharmos na nossa concha para alimentar os tais pensamentos catastróficos. O mais provável é que durante algum tempo (para alguns é muito tempo) as saídas com amigos não tenham o mesmo sabor, as reuniões de família sejam mais “pesadas” ou que até uma ida ao café do bairro seja penosa. Mas de cada vez que interagimos com outras pessoas temos a oportunidade de nos descentrarmos, de repararmos noutras realidades e de alimentarmos outras ligações. À medida que o tempo for passando, vamo-nos dando conta de quão terapêutico é desviarmos o olhar para prestar (mesmo) atenção aos que nos rodeiam.

A RAIVA E O MEDO TAMBÉM SÃO NORMAIS


Mesmo quando a relação acaba por mútuo acordo, é possível sentir raiva. Ouço muitas pessoas referirem-se à revolta que sentem por terem sido rejeitadas pelo companheiro ou à raiva que as invade quando pensam no tempo que desperdiçaram ao lado daquela pessoa.



E depois? O que é que podemos fazer?

A raiva, ao contrário da tristeza, é mobilizadora, dá-nos energia. É por isso que facilmente nos podemos sentir tentados a agir de forma mais ou menos impulsiva – telefonando, enviando mensagens, tirando satisfações ou pura e simplesmente mostrando a nossa indignação. A pergunta que podemos sempre colocar é “Qual é a minha intenção?”. Se a intenção for procurar a paz, aceitando o fim da relação, será que estas escolhas nos aproximam ou nos afastam? E se a intenção for tentar uma reaproximação? Será que estas escolhas nos aproximam ou nos afastam dela?

Esta reflexão não significa que tenhamos de conter toda a raiva. Ela pode ser exteriorizada. O desafio está em conseguir fazê-lo sem nos desrespeitarmos e sem desrespeitarmos a outra pessoa. Às vezes é preferível parar o carro no meio do nada e gritar à vontade ou agarrar numa almofada e descarregar nela toda a nossa fúria. É claro que vamos precisar de falar mas é mais provável que consigamos estruturar os nossos pensamentos se o fizermos, primeiro, com alguém da nossa confiança.

Nalgumas alturas pode parecer que não há ninguém que nos compreenda e isso até pode ser verdade em relação a algumas pessoas que nos são mais próximas mas vale a pena lembrar que nem sempre precisamos de compreender para abraçar. Mostrarmos a nossa vulnerabilidade e dizermos claramente do que precisamos é essencial para que quem está à nossa volta nos responda com o afeto que merecemos.

Muitos dos nossos medos começam a dissipar-se precisamente à medida que reconhecemos a força de algumas ligações. Quando reparamos no afeto que nos rodeia, quando percebemos que não estamos realmente sós, sentimo-nos mais capazes de enfrentar a realidade, mesmo que ela seja – por agora- muito dura.

5.7.18

OS PAIS E AS MÃES TAMBÉM FAZEM BIRRA


Muito se diz e se escreve sobre as birras das crianças: como gerir, o que fazer, o que não fazer, porque é que as birras acontecem… Felizmente, há cada vez mais informação disponível, os pais e mães estão cada vez mais curiosos em relação àquilo que possa ajudar a criar crianças mais felizes e equilibradas. E os adultos? Também têm o direito de fazer birra? E que impacto é que as birras dos adultos têm no comportamento e (sobretudo) no bem-estar das crianças?

Há uma frase que digo muitas vezes em terapia: «Nós temos o direito de sentir TUDO mas não temos o direito de fazer tudo o que nos apetece com esses sentimentos». Faço-o com a intenção de chamar a atenção para a necessidade de assumirmos uma postura de aceitação, curiosidade e não-julgamento em relação aos sentimentos (nossos ou das pessoas à nossa volta) mas também com a intenção de chamar a atenção para a importância de nos relacionarmos uns com os outros com base no respeito.

Se uma pessoa receber uma notícia horrível de uma injustiça que envolva um familiar, tem o direito de se sentir profundamente enraivecida MAS não tem o direito de, a propósito dessa raiva, tentar resolver o assunto com violência. Da mesma maneira, se uma pessoa se sentir insegura a propósito da relação que o companheiro mantém com as colegas de trabalho, tem o direito de verbalizar essa insegurança mas NÃO tem o direito de fazer chantagem emocional ou de obrigar o companheiro a cortar relações com essas pessoas.

As crianças – precisamente por ainda serem crianças – não têm esta capacidade de diferenciar os sentimentos dos comportamentos. Nem sempre conseguem dar-se conta de que há diferentes caminhos para as mesmas emoções. É natural que se sintam dominadas pela raiva ou pela frustração e que exteriorizem estas emoções com gritos e birras. Da mesma maneira que nem sempre conseguem gerir o cansaço ou o sono e… fazem birra.

É aos adultos que compete ajudá-las a identificar os sentimentos, em primeiro lugar, e, depois, ajudá-las a perceber que há escolhas (comportamentos) que podem ajudá-las a exteriorizar esses sentimentos com respeito pelo outro. Claro que esta resposta requer que o pai ou a mãe tenha a paciência e a disponibilidade emocional para parar, observar e questionar com genuína curiosidade e vontade de responder com afeto aos apelos e às necessidades afetivas que estão por detrás das birras.

O RESPEITO PELOS SENTIMENTOS DA CRIANÇA COMEÇA EM NÓS 


Em teoria, é muito fácil entender que as crianças têm o direito de ter dias maus, têm o direito de exteriorizar as emoções à medida dos seus recursos, têm o direito de fazer birra. Na prática, é ainda mais fácil sentirmo-nos dominados pelo cansaço, pela frustração de não estarmos a conseguir fazer com que a birra passe ou pela raiva. É normal que estas emoções surjam e, até certo ponto, é saudável que, de vez em quando, tomem conta de nós. Não, não é desejável que um pai ou uma mãe esteja sistematicamente impaciente, que reaja a todas as birras com gritos e explosões MAS…



Quanto maior for a nossa intenção de prestarmos atenção aos nossos sentimentos, maior é a probabilidade de gerirmos as nossas emoções sem que nos sintamos inundados por nenhuma delas. Mas há dias que são mais difíceis do que outros e há alturas em que em vez de sermos nós a tomar conta das emoções são elas que tomam conta de nós. O que é que podemos fazer quando, apesar das nossas melhores intenções, respondemos aos desafios dos nossos filhos com gritos, ameaças («Olha que ficas de castigo!») ou chantagem emocional? Podemos começar por reparar nisso, no facto de nos termos desviado das nossas intenções, e assumir o erro. Quando dizemos «Desculpa, não queria ter gritado contigo», estamos a voltar a tomar conta das nossas emoções respeitando os sentimentos dos nossos filhos. Este pode ser o primeiro passo para que, com abertura e curiosidade, nos questionemos sobre aquilo que estamos a sentir (cansaço? Frustração?) bem como sobre aquilo que a criança está a sentir.

Se o adulto se der conta de que errou e tiver a capacidade de pedir desculpa à criança, está sobretudo a dizer-lhe que ela pode fazer o mesmo.


Se dermos a nós próprios a possibilidade de errar,
estaremos a dizer aos nossos filhos que eles também
têm esse direito. Ninguém tem de carregar a
obrigação de tentar ser uma pessoa perfeita.



Depois é tempo de tentar gerir as próprias emoções. Se o adulto se der conta de que se sente sobretudo muito cansado, talvez possa pedir ao companheiro para lidar com aquela situação durante alguns minutos para que ele/a possa descansar um bocadinho. E mais tarde talvez valha a pena perguntar «O que é que eu posso fazer para que não chegue a esta hora do dia tão cansado/a? Que mudanças posso implementar?». As respostas podem não surgir tão imediatamente como gostaríamos mas o simples ato de colocarmos a pergunta com genuína curiosidade já é muito empoderador.

Na prática, só se o adulto respeitar os próprios sentimentos, valorizando-os, é que conseguirá valorizar os sentimentos da criança na medida certa.



Há alturas em que mais vale dizer «O papá/ a mamã está muito cansado/a. Preciso da tua ajuda». A criança nem sempre conseguirá responder como nós gostaríamos mas, neste caso, já estamos a fazer alguma coisa que traduza o respeito pelos nossos sentimentos. Se, em vez disso, perguntarmos, irritados, «Porque é que tu não te portas bem?», podemos estar apenas a exigir que a criança se “porte bem” sem estarmos disponíveis para a escutar e para compreender os seus sentimentos (ou os nossos).

BIRRAS GERAM BIRRAS


Se é verdade que os adultos também têm o direito de fazer birras de vez em quando, é fundamental que paremos para reparar nas nossas escolhas, sobretudo quando os nossos filhos atravessam períodos em que mostram comportamentos mais desafiantes. Estaremos a dar-lhes a atenção de que precisam? Estaremos a ser capazes de lhes mostrar o nosso amor INCONDICIONAL de forma clara? Estaremos a criar crianças seguras?

Não é o facto de passarmos algum tempo diariamente com os nossos filhos que nos garante que estejamos a conseguir ligar-nos a eles.



Por outro lado, é importante que reparemos na forma como lidamos com a frustração associada às escolhas que a criança faz e que nos desagradam, à forma como lidamos com o nosso companheiro e à forma como nos relacionamos com a maior parte das pessoas à nossa volta. Se for usual lidar com as suas emoções com gritos, explosões, amuos ou outras formas de desrespeito, é natural que a criança assimile estes padrões. Se a criança se sentir frequentemente insegura em relação ao amor dos pais, seja porque fazem chantagem emocional, porque associam o afeto ao desempenho escolar ou porque não prestam atenção, é mais provável que faça birras que, para os adultos, se confundem com malvadez ou má educação.

Nunca conheci uma criança “malcomportada” que se sentisse segura e respeitada em contexto familiar. Todas as crianças têm o direito de fazer birra e esses instantes não fazem delas crianças “más”. Quanto mais formos capazes de parar para reparar nos seus sentimentos e as ajudarmos a geri-los, mais respeitadas se sentirão e maior será a probabilidade de se transformarem em adultos capazes de desenvolver laços baseados no respeito mútuo.

3.7.18

VALE A PENA CASAR?


Portugal é recordista europeu de divórcios – por cada 100 casamentos, há 70 divórcios – mas o número de casamentos tem vindo a aumentar nos últimos 3 anos. Para muitas pessoas, o casamento continua a ser um objetivo de vida e, para a maioria, o desejo é que dure «para sempre» mas nos dias de hoje o máximo que podemos ambicionar é que dure «até que o amor acabe». Será que vale a pena casar?


Há trinta ou quarenta anos a questão nem se colocava – praticamente toda a gente casava. Antigamente as pessoas casavam para poder viver um grande amor (sem a supervisão dos pais). Agora o casamento acaba muitas vezes quando surge um amor maior ou diferente. As pessoas casavam para ter filhos. Agora quase metade dos bebés nasce fora do casamento. Casavam para poder ter sexo. Agora é muitas vezes a falta de sexo no casamento que faz com que ele acabe. As pessoas também casavam para poder ter companhia. Agora uma das principais queixas que ouço enquanto terapeuta conjugal é a solidão no casamento.

O QUE É QUE MUDOU?


Nas últimas décadas mudou quase tudo – passámos a olhar para o casamento como uma forma de sermos mais felizes (e não apenas como uma obrigação inevitável), homens e mulheres passaram a trabalhar dentro e fora de casa, tornámo-nos mais ambiciosos tanto pessoal como profissionalmente, tornámo-nos mais atentos e exigentes enquanto pais, afastámo-nos fisicamente da comunidade, convivemos muito menos com os nossos amigos e passámos a estar sistematicamente ligados ao mundo virtual.

Antigamente a pessoa com quem casávamos era uma das pessoas com quem podíamos contar. Para além dela, havia a família alargada (que vivia quase sempre perto), o padre (a Igreja tinha um peso muito maior), os vizinhos (que eram também amigos) e os (outros) amigos com quem conversávamos presencialmente. Agora é muito mais barato conversar ao telefone, passou a ser possível trocar mensagens de forma instantânea e a pessoa com quem casamos é muitas vezes o único adulto com quem conversamos cara a cara depois de um dia de trabalho.

Temos as maiores expectativas em relação ao nosso cônjuge: 


Esperamos que o nosso companheiro seja o melhor
amigo capaz de nos ouvir ininterruptamente,
o/a amante de topo capaz de inovar e de nos surpreender,
o melhor pai ou a melhor mãe do mundo,
o/a profissional de sucesso e bem remunerado/a
que nos ajude a conquistar todos os sonhos,
aquele/a que está sempre “lá” para nós
e que nunca falha.



CASAR PARA QUÊ?


Deparo-me muitas vezes com publicações nas redes sociais que mostram frases motivacionais muito pouco ajustadas ao dia-a-dia dos casamentos reais. Coisas como «Tu mereces alguém que te faça feliz. Quem ama não magoa» ou «Alguém que complique a tua vida não merece o teu amor», que, se forem levadas à letra, podem colocar muita pressão em qualquer relação.

Quase todas as pessoas que conheço – dentro e fora do meu consultório – casam com a expectativa de serem ainda mais felizes e com a intenção de serem felizes ao lado da pessoa que escolheram na maior parte do tempo. De resto, digo-o muitas vezes: a única coisa que mantém uma família unida nos dias de hoje é a felicidade do casal. Se pelo menos um dos membros do casal deixar de se sentir feliz no casamento, a família separa-se. Mas isso não quer dizer que haja relações em que esteja sistematicamente tudo bem.



Não o fará de forma intencional. Mas vai falhar, vai errar e, mesmo que não esteja a fazer nada de “errado” vai desejar algumas coisas incompatíveis com os nossos próprios sonhos, vai ter necessidades que colidam com as nossas e, nesse sentido, não vai conseguir estar sempre “lá”. Ninguém vai.

Por outro lado, o casamento não é feito de novidades constantes. Há muitas alturas de “seca”, de rotina, de pasmaceira. Há períodos de muito cansaço, de algum afastamento físico e emocional. É por isso que é dificílimo manter o entusiasmo, a vivacidade. É por isso que é fácil olhar para o lado e darmo-nos conta de que há sempre pessoas novas por conhecer.

Mas quererá isso dizer que a felicidade passa por acabar a relação e partir para outra ao mínimo sinal de tédio ou de conflito?

Para algumas pessoas, esse é o caminho a seguir. Para outras, não. E depois há quem case duas ou três vezes e um dia pare para refletir sobre aquilo de que realmente precisa para ser feliz. 

Costumo dizer que nem todas as pessoas foram “feitas” para estar casadas. Aquilo que quero dizer é que o casamento não tem de ser a fórmula da felicidade para toda a gente e aquilo que verdadeiramente importa é que sejamos capazes de ir parando para nos conhecermos, para conhecermos as nossas necessidades e, assim, fazermos escolhas mais conscientes.

VALE A PENA CONTINUAR CASADO/A?


Há pessoas que casam profundamente apaixonadas e conseguem ser felizes durante 10 ou 20 anos mas para quem um dia aquele casamento deixa de fazer sentido.



Como é que a pessoa que escolhemos pode continuar a ser a “tal”, no meio de todas estas mudanças? Como é que nós próprios podemos ser a fonte de segurança e de inovação para o outro?

O casamento é, sobretudo, um passo que nos permite dizer publicamente que aquela pessoa é suficientemente importante para nós para querermos arriscar o desafio de nos comprometermos «para sempre». É a intensidade dos sentimentos e a elevação das expectativas que nos faz querer casar. Queremos celebrar o amor e assumir um compromisso que nos ajude a olhar para a relação como um trabalho de equipa.

A minha experiência mostra-me que é muito mais provável que esta equipa continue a desejar estar junta – apesar dos problemas, da monotonia ou da concorrência – quando:

- ❥- Os membros do casal vão redefinindo as suas expectativas, conversando abertamente sobre as necessidades afetivas de cada um, aquilo que é ou não realista, aquilo que um pode esperar do outro em cada etapa.

- ❥- Os membros do casal alimentam outros laços afetivos – quer individualmente, quer como casal. Os amigos e a família ajudam-nos a sentir-nos mais amparados e otimistas. A existência de outras pessoas que nos queiram bem e com quem possamos conversar, divertir-nos e relaxar é sempre uma mais-valia.

- ❥- Os membros do casal são capazes de inovar. Isso nem sempre passa por testar todas as posições do kamasutra. Passa sobretudo por viver experiências novas a dois, arriscar, manter uma certa curiosidade e descobrir coisas novas. Pode ser uma viagem, uma aula de dança ou outra coisa qualquer que os ajude a continuar a incluir vivacidade na relação.
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