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27.9.06

CARTOON: VASECTOMIA

Sério mas não sisudo. É assim que gostaria que os leitores vissem este blogue. Porque também é assim que eu o vejo. Nesse sentido, dou hoje início a um ciclo de posts com cartoons (elaborados por mim) que ilustram piadas - sobre o casamento, a família e as relações afectivas - recolhidas a propósito de um trabalho que realizei há uns anos. A maioria das piadas está espalhada pela Internet (nas mais diversas línguas), pelo que me limitarei a dar-lhes alguma cor.

26.9.06

PSICOFARMACOLOGIA

EXEMPLO 1: A Joana e o Bruno estavam a meio de um processo de terapia conjugal quando anunciaram que estavam interessados em complementar a intervenção através do recurso a consultas de Psiquiatria. Algumas semanas depois, o Bruno lamentou o facto de a mulher estar a tomar “muitos medicamentos”. Mais: na sua perspectiva, a mulher lera alguns artigos sobre a perturbação bipolar que condicionaram a sua exposição na consulta com o psiquiatra – “Ela disse aquilo que ele precisava de ouvir para fazer o diagnóstico”. Entre os medicamentos prescritos estava um estabilizador de humor, medicamento importante no tratamento da perturbação maníaco-depressiva (ou bipolar).

EXEMPLO 2: Há alguns dias, a propósito da hipótese de o Arquipélago dos Açores ser acometido pelo furacão Gordon, uma das estações de televisão decidiu ouvir alguns habitantes locais. Uma das senhoras entrevistadas relatou as medidas entretanto tomadas a título de prevenção: para além das mais previsíveis, optara por tomar um antidepressivo para dormir descansada.

A exposição destas duas situações permite-me dar sequência ao ciclo de textos sobre a depressão. Hoje optei por identificar algumas crenças erradas acerca dos “medicamentos para os nervos”.

Aquando da recolha de informação acerca do historial da senhora do Exemplo 1, soubemos que tinha tido uma depressão na adolescência, cujo tratamento foi feito através de antidepressivos. Mas dessa recolha não resultou qualquer indício de perturbação bipolar (caracterizada por oscilações de ciclos de depressão e ciclos de euforia). Não pretendo deter-me sobre as capacidades de diagnóstico do médico em causa (até porque este nunca usou o termo “bipolar” na conversa com a paciente). Pretendo, isso sim, chamar a atenção para a ilusão subjacente à busca de comprimidos milagrosos.

A vida é feita de momentos positivos e negativos e o amadurecimento requer que sejamos capazes de aprender a lidar com todo o tipo de emoções. Se, perante um problema, optarmos por nos alhearmos da realidade através do consumo abusivo de ansiolíticos, antidepressivos, estabilizadores de humor e afins, dificilmente desenvolveremos as aptidões necessárias para… viver. Limitar-nos-emos a sobreviver, anestesiados, sem que nos sintamos propriamente felizes.

A ideia (errada) de que este tipo de drogas possui propriedades mais-ou-menos-mágicas pode advir de múltiplas fontes – conversas com familiares ou amigos, interpretação abusiva de artigos médicos, Internet, etc. No entanto, importa conhecer o (real) espectro de dificuldades que podem beneficiar da ajuda destes medicamentos e os efeitos indesejáveis que daí advêm.

E, do mesmo modo que é preciso tempo para elaborar diagnósticos precisos – note-se que os técnicos de saúde mental “dependem” das descrições efectuadas pelos próprios pacientes – também é preciso tempo para que os medicamentos surtam efeito. Por exemplo, a maior parte das pessoas que iniciam um tratamento com antidepressivos só relatam alterações ao fim de algumas semanas.

Assim, torna-se difícil de aceitar que alguém – como no Exemplo 2 – possa recorrer a um destes comprimidos (ainda que se trate de uma dose extra) para anestesiar um problema. Neste caso, até poderia tratar-se de alguma confusão entre antidepressivos e ansiolíticos (calmantes). Ainda assim, o comentário induz em erro.

9.9.06

É IMPOSSÍVEL MUDAR O OUTRO

O Francisco telefonou-nos para marcar uma consulta de terapia conjugal. Explicou, enquanto fornecia os dados, que temia a resistência da mulher, Alice. Afinal, esta não era a primeira vez que pediam ajuda.

Os primeiros minutos da consulta foram marcados por uma grande negatividade da parte da Alice em relação ao marido. Habituados a situações deste género, procurámos mediar a conversa no sentido da descentração do(s) problema(s). No entanto, as tentativas para ouvir os membros do casal sobre a sua história de vida a dois foram brutalmente interrompidas pela Alice.

Esta mulher resistiu a qualquer reformulação do problema: do seu ponto de vista, o marido era um péssimo gestor, alguém que sistematicamente deixava contas por pagar e que, por isso, precisava “de ser tratado”. Recusava, portanto, qualquer participação no processo terapêutico. Estava “ali” porque pretendia esclarecer-nos acerca da “gravidade da situação”.

Convidámo-la a reflectir sobre a importância da sua presença numa terapia deste tipo, explicámos-lhe que, a haver mudanças na gestão financeira DO CASAL, elas ocorreriam mais facilmente se AMBOS identificassem os seus erros e AMBOS assumissem uma atitude de auto-responsabilização.

Resposta: “Eu SÓ preciso que LHE mostrem que está errado e que [ELE] precisa de mudar”. Rejeitou outra visão, nomeadamente qualquer uma que incluísse reflexões sobre a aplicação do dinheiro em falta. Na verdade, pouco importava que grandes quantias fossem usadas para alguns luxos da família. Nem tão pouco se interessou em deter-se sobre o seu papel aquando desses gastos.

Como o nosso formato terapêutico não dava resposta às necessidades “do casal”, não houve segunda consulta.

“É impossível mudar o outro” ou “O cúmulo da sapiência é aceitar o outro como ele é” são duas afirmações que repito sistematicamente em contexto terapêutico. Desconheço a origem da primeira, mas a segunda tem direitos de autor: li-a numa entrevista ao Professor José Gameiro e nunca mais a esqueci.

Para alguns leitores, estas afirmações podem até parecer contraditórias com a própria terapia conjugal. Mas não são. Ninguém deverá encarar um processo terapêutico como uma oportunidade para conseguir que o seu cônjuge mude no sentido da “listinha” de exigências armazenada pelo próprio.

A terapia conjugal é caracterizada por mudanças, mas estas podem ser bastante mais complexas. É suposto que o(s) terapeuta(s) sejam capazes, entre outras coisas, de:

♥ promover a reflexão acerca das dificuldades;
♥ alargar o leque de perspectivas sobre o(s) problema(s);
♥ promover a auto-responsabilização;
♥ promover a manifestação clara e honesta de necessidades, pensamentos e emoções;
♥ promover a operacionalização e a ocorrência das mudanças desejadas pelos membros do casal.

Qualquer mudança deve ocorrer porque os membros do casal aprenderam a olhar para o problema ou para as necessidades do cônjuge de maneira diferente e não porque “o especialista” considera que é útil fazê-lo. No limite, a mudança terapêutica pode limitar-se a alterações na forma como cada cônjuge “olha” para o comportamento do outro. Por isso, um pedido de ajuda nem sempre dá origem a mudanças “estruturais”. Compreender a pessoa amada, perceber os “porquês” do seu comportamento e as suas vulnerabilidades é meio caminho andado para que a aceitemos melhor. O que também não quer dizer que devamos baixar os braços e ser menos exigentes em relação amor!

4.9.06

FIEL OU INFIEL: SINAIS DE INFIDELIDADE EMOCIONAL

Para a generalidade das pessoas, a palavra infidelidade implica um relacionamento com uma forte componente sexual. Contudo, é sabido que quase todas as relações extraconjugais começam por ser uma “amizade especial”. Por isso, os psicólogos e terapeutas de casal são constantemente confrontados com questões acerca dos “sinais” que permitam identificar uma situação de infidelidade em potência. Todas as pessoas, de um modo geral, e aquelas que já foram traídas, em particular, gostariam de encontrar a “fórmula” que lhes garantisse a imunidade a traições.

Tanto quanto sei, os “sinais” normalmente anunciados por detectives “experientes” ou por supostos peritos em infidelidade (leia-se: pessoas traídas uma ou mais vezes) não passam de informações mais ou menos sensacionalistas capazes de arruinar relações.

A base de uma relação é a confiança, pelo que a existência de comportamentos “suspeitos” deve ser resolvida na base do diálogo franco, e não através de crenças irracionais alimentadas por “fantasmas”. Se o cônjuge passa a vida com o telemóvel desligado, é preferível expressar o incómodo ou a dúvida através de frases como “Sinto-me inseguro(a) com o facto de manteres o telemóvel desligado enquanto estamos juntos” ou “Por que desligas o telemóvel quando estamos juntos?”. A ideia é expressar uma necessidade ou sentimento, sem que o cônjuge se sinta “atacado”.

Pelo contrário, se a dúvida se manifestar através da convicção de que ele(a) esconde algo (“Tenho a certeza de que estás a esconder alguma coisa”), é provável que a comunicação evolua para um ciclo vicioso.

Na verdade, este texto não é dirigido aos cônjuges-potencialmente-traídos, mas antes aos cônjuges-potencialmente-traidores. Os estudos nesta área da conjugalidade há muito que identificaram pelo menos três sinais indicadores do princípio da infidelidade emocional:

♥ Maior intimidade emocional com a terceira pessoa do que com o cônjuge – Se o bem-estar que advém do seu casamento é francamente superado pelo bem-estar que sente quando está com a terceira pessoa, é provável que este envolvimento já não seja só uma amizade. Mesmo que ainda não tenha existido qualquer troca de palavras românticas e/ou atrevidas, a relação “oficial” está em risco. As conversas com este(a) amigo(a) especial – que até pode ser um(a) vizinho(a), um(a) colega de trabalho ou o pai (a mãe) de um amiguinho dos seus filhos – são vistas (por si) como um escape às dificuldades do casamento e, progressivamente, o diálogo com o seu cônjuge transforma-se numa reduzida troca de palavras amargas.

♥ Segredo – Consciente ou inconscientemente evita partilhar com o seu cônjuge os momentos passados com a terceira pessoa ou as conversas que mantiveram? Se a sua resposta for “Sim, mas isso só acontece porque não considero que seja relevante”, pare para pensar. Até que ponto não estará a transferir energias para esta relação? Mais: faria exactamente a mesma coisa se tivesse a certeza de que o seu cônjuge acederia a essas conversas? Se a sua resposta for não, esta não é uma relação inócua ao seu casamento.

♥ Atracção física – Se a presença ou o contacto com a terceira pessoa acarreta uma espécie de activação fisiológica (aceleração do batimento cardíaco, nervosismo, euforia) característica da existência de uma “química especial”, desengane-se: isto não é, definitivamente, uma amizade. É provável que não esteja satisfeito com o seu casamento, mesmo que não seja capaz de identificar as lacunas existentes.

A infidelidade não é um comportamento exclusivo das pessoas com pouco carácter, pelo que é importante que cada um possa reflectir honestamente sobre o seu próprio comportamento. O facto de partilhar interesses e/ou brincadeiras quando está sozinho(a) com um(a) amigo(a) não implica que esteja a ser infiel do ponto de vista emocional. Basta um exercício simples para que possa auto-avaliar-se: quando estiver nessas circunstâncias, imagine que está a ser observado pelo seu cônjuge. Faria tudo da mesma maneira?

Terapia Familiar e de Casal em Lisboa