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1.2.06

TEMPO DE QUALIDADE


A expressão “tempo de qualidade” sempre me causou alguma confusão, em particular quando aparecia como alternativa à escassez de tempo para os afectos. As diferentes obrigações a que estamos sujeitos reduzem de forma significativa a duração dos períodos de lazer. Consequentemente, falta-nos tempo para estarmos com aqueles de quem gostamos. Mas até que ponto é que o conceito associado aos “momentos de qualidade” serve como alívio de consciências?

As relações afectivas dependem do investimento sistemático e contínuo. Nesse sentido, tenho alguma dificuldade em acreditar em relações de qualidade marcadas por encontros breves. Mesmo que estes sejam momentos de qualidade. Mais: questiono a viabilidade destas relações.

Numa relação de proximidade – amorosa ou não - há necessidades diárias que precisam de ser preenchidas. A partilha de experiências (as nossas vitórias e as nossas angústias) não é compatível com uma programação rígida, característica das relações “de fim-de-semana”. O mesmo acontece com a vontade de tocar, abraçar, ou ser afagado. Ser pai, mãe, marido, mulher ou irmão implica “estar lá” quando é preciso – sempre que é preciso – e não apenas quando é possível.

Os filhos que não usufruem do investimento diário dos pais sofrem tanto quanto os cônjuges que vêem a sua vida amorosa circunscrita a momentos de rara intensidade. No entanto, algumas pessoas parecem acreditar que o amor pode ser doseado como comprimidos. A realidade é bem diferente – os momentos bons, se forem escassos, não compensam ausências constantes, sejam estas físicas ou emocionais.

Por isso, é com alguma tristeza que ouço pais referirem que desconhecem os problemas dos filhos porque “não têm tempo”. Ou casais que se distanciam pelo mesmo motivo. Desafio-os a questionar a gestão do seu tempo. A prática clínica permite-me ver que nem todas as horas dedicadas ao trabalho seriam, de facto, gastas se houvesse um esforço maior para corresponder às necessidades dos que nos rodeiam. E que o tempo que sobra nem sempre é tempo de qualidade. Aliás, a maior parte não o é.

Por muito que custe admitir, muitas pessoas gastam muito tempo a alienar-se da realidade. Os afectos também acarretam confrontos, pelo que, às vezes, é mais fácil fugir deles. Assim, o tempo que lhes é dedicado quase parece melhor.

Afinal, a resposta à pergunta “Que esforços fez, nos últimos tempos, para estar mais tempo com as pessoas de quem gosta?” é mais complexa do que a divagação sobre o tempo dedicado aos interesses pessoais.

A ilusão de que não damos mais porque não podemos pode implicar uma factura muito alta: se os membros de um casal mal têm tempo para estar juntos, não podem dizer com segurança que se conhecem mutuamente ou que preenchem as respectivas necessidades afectivas. Do mesmo modo, se os pais não estiverem disponíveis para os filhos, estes crescerão num vazio emocional. A inteligência emocional aplicada a estas relações implica o esforço diário para evitar que duas pessoas que gostam uma da outra comecem a fazer caminhos paralelos.
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