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27.3.07

BULLYING

O Pedro tem 30 anos. Quando tinha 10, a ida para a escola representava um tormento que só era suplantado pelo regresso a casa. Menino frágil aos olhos de uns, bobo da corte aos olhos de outros, era frequente levar algumas tareias dos colegas da mesma idade. Nesta luta do um-contra-tantos saía invariavelmente a perder. A brutalidade dos seus pares não representava, no entanto, a violência maior. Essa advinha do lado menos expectável. À chegada a casa as lágrimas e as nódoas negras não eram recebidas com consolo, mimo ou protecção. Para a mãe do Pedro estas marcas representavam, sobretudo, fraquezas inadmissíveis num “homem”. Por isso, o Pedro era obrigado a regressar à rua e responder na mesma medida. Não havia lugar para lágrimas nem queixumes. Não havia lugar para a vivência de emoções deste tipo.

O Vasco tem 13 anos. A mudança de escola não foi um processo pacífico. Deixou o ambiente protegido da ruralidade e foi atirado às “feras” da sua idade num ambiente que tem tanto de urbano quanto de rude. No princípio era gozado por causa da pronúncia marcada que denunciava o facto de vir de longe. O ar franzino não deve ter ajudado a passar despercebido e, pouco tempo depois de as aulas terem começado, já o Vasco era o saco-de-pancada de um grande grupo de colegas de escola. Quando chega a casa, partilha com a mãe, entre soluços, as agruras de um dia de aulas. Juntos definem estratégias para lidar com as provocações e os “carolos”.

O Daniel tem 6 anos. A mãe está muito esperançosa em relação à entrada para o primeiro ciclo. Na verdade, agarra-se a um optimismo mais ou menos irrealista que a faz acreditar que, fora daquele estabelecimento de ensino pré-escolar não estarão tantos meninos “brutos”. É que aqueles putos “brutos”, filhos de famílias muito disfuncionais têm, aos seus olhos, transformado o seu menino numa criança rude, violenta. O Daniel envolve-se frequentemente em brigas, parece revoltado e só “amolece” quando está aninhado na cama da mãe enquanto conversam sobre o pai, que se transformou numa estrelinha e foi para o céu.

Quando conheci o Pedro a sua agressividade saltava à vista. Era um homem tenso, muito imaturo e com sérios problemas resultantes do alcoolismo. Pouco ou nada habituado a lidar (eficazmente) com as suas próprias emoções, desenvolveu uma série de relações de amor-ódio. Exercia nalgumas relações afectivas níveis de violência psicológica semelhantes àqueles de que foi vítima.

Quando começou a ser vítima de violência física e, sobretudo, psicológica, pouco ou nada se saberia sobre bullying. Mas, nem nesses tempos, nem hoje se esperaria aquela resposta de uma mãe. As consequências de tal brutalidade estão ainda por identificar. Afinal, aquilo que para a generalidade das crianças é um dado adquirido – o colo de um lar -, não fez parte da estruturação da personalidade do Pedro.

O exercício da minha profissão ajudou-me a perceber que cada um actua de acordo com o melhor que sabe. Parte do processo de recuperação do Pedro passará por tentar perceber as vicissitudes que impediram que a sua mãe desenvolvesse determinadas competências.

O Vasco ainda não sabe como enfrentar os líderes que insistem em infernizar os seus dias. Mas sabe que pode contar com a mãe e, eventualmente, com outros adultos que, enquanto figuras de autoridade, podem e devem intervir.

Há um longo caminho a percorrer na reconstrução da sua auto-estima. É preciso que as suas vulnerabilidades não constituam um isco para aqueles que o agridem. Para que não seja espancado, humilhado ou roubado.

O Daniel não é “apenas” uma vítima ou um alvo de bullying. É já um autor, mesmo sem saber. O que estará por trás da violência que exerce sobre os colegas? Que peso devemos atribuir ao luto que está a fazer? Ser-lhe-á permitido expor abertamente as suas emoções? E, se não, que adulto será amanhã?

Bullying é uma palavra inglesa que significa usar o poder ou força para intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, gozar, e perseguir os outros. Actualmente há cada vez mais vítimas e agressores neste “jogo”. Diariamente várias crianças e jovens são explícita ou discretamente sujeitas a este tipo de violência exercida pelos seus pares. Nalguns casos a violência advém do aproveitamento das vulnerabilidades alheias. Ser “diferente” pode ser fatal. Por isso, o bullying também está associado ao racismo, homofobia e outros preconceitos.

Tanto quanto se sabe, quem está do “outro lado”, ou seja, os agressores – leia-se: grupos de jovens numa relação de poder desigual – podem também ter sido vítimas de algum tipo de violência.

Então, neste “jogo” em que todos são vítimas e em que o temor impera, o papel dos adultos é cada vez mais importante. Como confidentes, figuras de autoridade e garantes da estabilidade emocional de crianças e jovens.
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