A PSICÓLOGA NO FACEBOOK     |     VÍDEOS     |     CONSULTÓRIO     |     PÁGINA INICIAL

12.3.08

MEDIAÇÃO FAMILIAR

Ontem alguém acedeu a este blogue a partir da seguinte pesquisa no Google: “Guia para sobreviver ao divórcio dos pais”. Não sei se se tratou de algum jovem em apuros ou de um adulto em plena investigação sobre as vicissitudes do divórcio. De qualquer modo, a minha experiência com famílias tem demonstrado que, nalguns processos de separação, os filhos têm muitos motivos para se sentirem desorientados. Afinal, a regra básica de que, independentemente do que aconteça à relação conjugal, os progenitores cuidarão sempre dos filhos não é aplicável a todas as situações.

Sim, é verdade que há casais muito responsáveis, que colocam os interesses dos filhos – sobretudo a sua estabilidade emocional – à frente de tudo. Não são super-homens nem super-mulheres; sofrem – porque a separação é sempre sinónimo de algum sofrimento -, perdem parte daquilo que construíram, sentem dúvidas em relação ao futuro, enfrentam a angústia da guarda partilhada. E às vezes também se deixam abater, deprimem-se e precisam de ajuda. Por outras palavras, os casais que procuram defender os seus filhos e protegê-los das agruras do divórcio não são mais fortes do que os outros. São só emocionalmente mais inteligentes.

Os outros, aqueles que erram mais nestas alturas e que enveredam por processos altamente destrutivos – quer para os adultos, quer para as crianças – nem sempre se apercebem da amplitude dos seus gestos.

A Clara tem 11 anos, é a mais velha de três irmãos. Os pais estão em processo de divórcio, que inclui a luta pela guarda dos filhos. É apenas uma menina, mas conversa abertamente sobre as guerras dos adultos. Ainda que só lhe tenha colocado duas ou três perguntas genéricas sobre a sua família, desfia rapidamente o novelo de preocupações e angústias por que tem passado. «O pai zangou-se com os avós maternos porque estes lhe “roubaram” não-sei-quantos mil euros; a mãe não tem para onde ir porque a casa é do pai; os ‘manos’ dormem no quarto da mãe, para que o pai não esteja com eles, porque a mãe não quer; o tio morreu porque os avós maternos não cuidaram dele – foi o pai que disse; a mãe ‘roubou’ algumas peças lá de casa para se salvaguardar; o pai tem outras mulheres, talvez até outra família; a mãe só quer o bem-estar dos filhos, por isso, passa os fins-de-semana com eles na rua – para que o pai não lhes ponha a vista em cima; a polícia já foi lá a casa algumas vezes – às vezes é o pai que chama, outras é a mãe; agora vem aí a audiência com o juiz e vai ficar tudo resolvido, desde que o pai pague o que a mãe pediu, que é o que é justo».

Este não foi um casamento marcado pela serenidade e pela estabilidade. Mas pouca coisa, ao longo dos últimos 13 anos, faria supor que a pequena Clara e os irmãos seriam sujeitos a tantas formas de violência. Aos olhos dos familiares e amigos, os pais destas três crianças constituíam um casal “normal” – sempre foram bons trabalhadores, colocaram os filhos em boas escolas e, aparentemente, não teriam mais problemas do que outros casais da mesma faixa etária. Mas a guerra em que se transformou o seu divórcio trocou-lhes as voltas.

São muitos os casos em que os membros do casal precisam de ajuda para lidar com a separação. Mas se já não é fácil que um casal se entenda quanto à hipótese de recorrer à terapia para tentar a reconciliação, imagine-se o quão difícil pode ser levá-los a sentar-se na mesma sala para resolver questões relacionadas com a sua separação. Nalguns casos, é o próprio tribunal que os encaminha para um processo de mediação familiar, em nome do bem-estar dos filhos, sobretudo. Noutros, é pelo menos um dos ex-cônjuges que reconhece que é preciso recorrer a alguém que esteja emocionalmente distanciado da situação e que possa abordar os problemas com imparcialidade.

A mediação familiar pode ocorrer em qualquer fase do processo de separação – antes ou depois de o casal dar entrada dos “papéis” – e pretende promover a resolução de conflitos de forma a preservar a qualidade das relações familiares. Depende sobretudo da voluntariedade dos adultos envolvidos: se ambos se dispuserem a estar presentes nas sessões e a cooperar, reduz-se drasticamente o litígio.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...