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16.4.08

AJUDAR O CÔNJUGE COM DEPRESSÃO

Quando alguma das pessoas que amamos adoece, procuramos saber o que é que é possível fazer para contribuir para a sua recuperação – fazemo-lo em relação aos pais, cônjuge, filhos e até amigos. E se em relação às mazelas físicas há sempre múltiplas opiniões e sugestões, na área da saúde mental é preciso ter cuidados redobrados com aquilo que se diz ou faz, já que cada gesto ou comportamento pode condicionar o estado emocional do paciente. Como tenho tido oportunidade de referir aqui, a desinformação acerca destas matérias ainda é elevada, pelo que importa desconstruir mitos e crenças irracionais.

A depressão é, dentre as perturbações do foro mental, a mais discutida nos meios de comunicação. Fala-se das taxas de incidência, das consequências potencialmente devastadoras, de tratamentos mais ou menos eficazes… Mas raramente nos confrontamos com artigos abrangentes, que abordem o impacto da doença na família nuclear e no subsistema conjugal em particular. Não é fácil lidar com um cônjuge deprimido e as dificuldades aumentam quando não existe uma causa “visível” para o aparecimento da doença.


Matilde tem 28 anos e é casada. Aparentemente, tem tudo para ser feliz: um casamento estável, bom relacionamento com a família de origem, um emprego que a satisfaz, casa, carro (novo), amigos, cães (que adora)… Mas a depressão, diagnosticada há pouco tempo, tem-na impedido de usufruir de tudo isto. Ultimamente tem dito muitas vezes que não se sente feliz e que, apesar de saber que pode contar com o apoio da família e dos amigos, se sente sozinha. O marido sente dificuldade em compreender a situação. O facto de a mulher lhe dizer frequentemente que não se sente feliz deixou-o inseguro – teme que a tristeza seja uma manifestação de insatisfação conjugal, ainda que Matilde lhe diga o contrário.


Tratando-se de uma perturbação complexa e geradora de angústia, é expectável que a depressão produza danos nos familiares mais próximos, e não apenas na pessoa que é atingida pela doença. Por isso, é perfeitamente normal que o cônjuge da pessoa deprimida se sinta, em certos momentos, confuso, irritado, revoltado e até culpado pela situação. Antes de mais, importa que a própria pessoa interiorize a ideia de que jamais poderá sentir-se responsável pelo aparecimento da doença, nem tão pouco considerar que está nas suas mãos fazer com que o cônjuge melhore. O tratamento existe, mas essa é uma competência de técnicos especializados.


Claro que isso não significa que não há nada que o cônjuge de uma pessoa deprimida possa fazer. O primeiro passo para esta ajuda é tratar da própria saúde. É fundamental que o companheiro da pessoa que está deprimida se sinta emocionalmente estável, sob pena de não ser capaz de ajudar. Por isso, há que dar importância às próprias necessidades e emoções. Depois, é crucial “convencer” o cônjuge a procurar ajuda especializada. De facto, o apoio incondicional do cônjuge não substitui a intervenção médica ou psicológica. A resistência a este pedido de ajuda formal é prejudicial a ambos.


Tal como acontece em relação a outras doenças, é importante que o cônjuge da pessoa deprimida possa manter-se tão informado quanto for possível. Pesquisar sobre o tema, aceder a publicações específicas e até falar com o médico de família são passos importantes para perceber a depressão e evitar equívocos. Por exemplo, é fundamental que o cônjuge perceba que a pessoa deprimida não está assim porque quer ou porque é “fraca”. Conhecer a sintomatologia da doença potencia a compreensão de determinados comportamentos e aumenta a tolerância e a empatia.


Apoiar incondicionalmente o cônjuge deprimido implica dar-lhe todo o amor possível, ser tolerante e aceitar que alguns momentos de irritabilidade possam surgir. Às vezes, a pessoa deprimida é agressiva e diz coisas que deixam o outro magoado – mas não o faz por mal. Essas manifestações de irritabilidade são absolutamente normais nestes casos, ainda que possa ser difícil lidar com elas.


Mais do que dar conselhos, é importante demonstrar que a pessoa deprimida não está sozinha e dar-lhe oportunidade para falar sobre aquilo que sente. Mesmo que essas emoções possam acarretar alguma confusão, é importante dedicar-lhes tempo, mas sem pressão. A disponibilidade para ouvir é uma ajuda imprescindível para minimizar o isolamento. Perguntar “O que é que eu posso fazer para te ajudar?” é mais útil do que impor alguma coisa. E ouvir a pessoa sem juízos de valor é, em si mesmo, terapêutico.


Como o tratamento da depressão pode ser longo (cada situação é única), podem surgir problemas adicionais ao nível da intimidade do casal. A depressão afecta o humor do paciente e, muitas vezes, o desinteresse é generalizável à relação conjugal. Por isso, é natural que o cônjuge possa sentir-se rejeitado. Daí que, em muitos casos, para além da intervenção individual, seja importante recorrer à terapia conjugal.

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