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22.7.08

QUANDO OS MEMBROS DO CASAL TÊM INTERESSES DIFERENTES

Apesar de ser cada vez mais frequente ouvirmos falar de divórcios e separações, poucas vezes são mencionados os motivos subjacentes à ruptura. Excepção feita às situações de infidelidade, as justificações são quase sempre evasivas, o que acaba por ser congruente com o desconforto e a sensação de “projecto fracassado” resultantes do fim de um casamento. Por outro lado, nem todos os casais que se separam são capazes de identificar “a” causa do seu afastamento. É por isso que me surpreendem aqueles que indicam como causa do rompimento o facto de os membros do casal terem interesses diferentes. “Descobri que, afinal, somos diferentes” ou “Não tínhamos muito em comum” são afirmações que fazem sentido no caso de relações curtas. O namoro serve, entre outras coisas, para que as pessoas se conheçam e avaliem até que ponto vale a pena estarem juntas e, nesse processo, podem surgir “divergências irreconciliáveis”.

Numa relação duradoura as mesmas afirmações parecem desprovidas de sentido. De facto, ninguém descobre ao fim de vários anos que casou com a pessoa errada porque, afinal, não partilham os mesmos interesses. Mais: a minha experiência clínica e as investigações nesta área mostram que os casamentos felizes e duradouros não têm como pilar essencial a partilha de interesses. Claro que a união é reforçada quando os membros do casal partilham determinados valores e respeitam os princípios de vida de cada um. Mas isso não deve ser confundido com a “necessidade” de gostarem das mesmas coisas. Se o Sr. X gosta de aeromodelismo, é provável que se sinta feliz pelo facto de a sua mulher aceitar que algumas horas do fim-de-semana possam ser dedicadas a esta actividade. Mas faria pouco sentido que as negociações do casal relativas aos tempos livres se baseassem na possibilidade de a Sr.ª X acompanhar o marido todos os fins-de-semana. E, mesmo que a Sr.ª X preferisse que o marido estivesse mais disponível ao fim-de-semana, seria ilógico atribuir, de repente, tanta importância a esta característica do marido.


A generalidade das nossas características está presente logo no início da relação conjugal e a passagem do tempo funciona como um aliado, já que nos permite aprender a lidar com as características de que menos gostamos no nosso cônjuge. Algumas pessoas alimentam a esperança, infundada, de que o cônjuge mude de forma significativa, ou seja, que passe a agir à sua imagem e semelhança. Mas quem gostaria de mudar à imagem dos interesses do companheiro?


As competências presentes nos casamentos bem-sucedidos prendem-se mais com o conhecimento mútuo profundo e com a capacidade de aceitar o outro como ele é do que com o grau de semelhança entre os cônjuges. Daí que a única actividade a dois que os membros do casal não devem descurar é o diálogo. É uma evidência comprovada cientificamente: as conversas aparentemente triviais do final do dia, em que cada um dos membros do casal tem oportunidade de manter o outro actualizado a respeito da sua vida “extraconjugal” são essenciais à manutenção de um projecto a dois.

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