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10.9.08

COMO AS CRIANÇAS ENGANAM OS ADULTOS


A mentira entra desde cedo nas nossas vidas. Aprendemos a distorcer os factos em função dos nossos medos e desejos ainda na infância. Sim, as crianças também mentem – às vezes de forma convincente, noutras nem tanto. Se, de um modo geral, estas mentiras são praticamente inconsequentes, existem circunstâncias em que o impacto pode ser devastador. Quando a dúvida acerca das afirmações de uma criança remete, por exemplo, para uma situação de possível abuso sexual, o apuramento da verdade toma proporções muito significativas.

Determinar a validade daquilo que as crianças dizem nem sempre é tarefa fácil. Os adultos são principalmente enganáveis em circunstâncias em que as crianças negam a ocorrência de determinado acontecimento. São muito mais hábeis a detectar mentiras quando as crianças inventam informações acerca de eventos que nunca ocorreram. Num contexto forense estas conclusões são impactantes: o facto de os adultos serem capazes de identificar falsos testemunhos protege os inocentes de acusações falsas; mas quando se falha no reconhecimento de uma mentira (se a criança nega algo que, na realidade, sucedeu), aquilo que pode estar a falhar é a protecção da própria criança.

A negação de um real abuso sexual pode parecer absurda para alguns, mas a verdade é que existem diversas circunstâncias que podem levar a que uma criança negue o acontecimento: dependência financeira ou emocional do abusador, ameaças feitas à criança ou à sua família, o facto de a família não acreditar na criança, auto-culpabilização, o facto de o abusador ser uma pessoa próxima e/ou socialmente respeitada, ou ainda o facto de a criança se recusar a falar sobre o abuso para evitar reviver o trauma.

A entrevista psicológica, nestes casos, requer cuidados especiais:
- O técnico que faz a entrevista deve adaptar-se à linguagem e ao desenvolvimento cognitivo da criança, utilizando frases curtas, palavras curtas e explicando o significado de algumas expressões.
- É importante explorar os detalhes e, se possível, ouvir a criança diversas vezes, no sentido de enriquecer o relato.
- Deve evitar-se a presença de múltiplos entrevistadores, bem como entrevistas muito prolongadas.
- O ambiente da entrevista requer privacidade e ausência de interrupções e distracções.

Como cada criança é única, não existe uma forma estandardizada para recolha de informação. A entrevista vai sendo dirigida com improviso e flexibilidade, no sentido de atender às necessidades da criança. A validação das suas descrições depende, dentre vários factores, da descrição detalhada dos acontecimentos na linguagem da própria criança, da sua espontaneidade, do grau de ansiedade associado e da consistência dos relatos ao longo do tempo.
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