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19.12.08

MANTER UM CASAMENTO



O jornalista Nelson Marques, do jornal Expresso, enviou-me um pedido de colaboração para um artigo que estaria a desenvolver sobre os mitos do casamento. Da lista que me apresentou, acabei por seleccionar o primeiro:

“All you need is love”
Existirá o amor incondicional? Se sim, porque é que casais que se dizem amar tanto, têm problemas? A ênfase no amor não fará esquecer os exigentes desafios de um matrimónio?


Vivemos numa época em que, felizmente, a generalidade das pessoas casa por amor, e não para corresponder a quaisquer convenções. As investigações na área da satisfação conjugal indicam-nos que a probabilidade de sermos felizes no casamento aumentam quando casamos apaixonados – casar com o grande amor da nossa vida pode não ser uma receita para o sucesso, mas é um passo importante.

Mas um casamento não depende apenas do amor apaixonado. Pelo contrário, para que um casal se mantenha feliz ao longo do tempo é necessário que alguns pilares sejam desenvolvidos e para isso é preciso tempo. Tal como diz o verso da canção, “To know you is to love you”, ou seja, para que o amor cresça é preciso conhecer o outro e aceitá-lo como ele é. Pode parecer uma tarefa fácil, mas este é provavelmente um dos grandes desafios do casamento: conhecer os marcos, as vulnerabilidades, as preocupações ou os interesses do cônjuge. Mantermo-nos actualizados acerca destes itens implica um investimento contínuo, regular. Em suma, implica investir activamente em conversas diárias para que cada um dos membros do casal se mantenha a par do “mundo” do outro.

É possível amar incondicionalmente a pessoa que escolhemos para estar ao nosso lado, mas para isso é preciso reconhecer que, do mesmo modo que não existe nenhuma pessoa perfeita, também não existem casamentos perfeitos. Existem, sim, casamentos em que as pessoas se sentem satisfeitas. Mas mesmo nos casamentos felizes e duradouros há problemas, conflitos e tensão. Aquilo que diferencia estes casais daqueles que enveredam pelo divórcio são os alicerces que vão sendo construídos e que, como já referi, incluem a aceitação das características do outro. Mas ser emocionalmente inteligente no casamento implica também reconhecer que nem todos os problemas são resolúveis. Mais: na maioria dos casos, os problemas acabam por ser apenas geridos. Mas aqueles que envolvem a busca de uma solução requerem a capacidade para fazer cedências. Para que a relação saia a ganhar, é preciso que ambos “percam” um pouco nalguns casos.

Voltando às investigações nesta área, é sabido que as pessoas que são felizes no casamento são aquelas que apresentam os níveis de bem-estar mais elevados. Neste “ranking” o segundo lugar é ocupado pelas pessoas solteiras, seguindo-se os divorciados e os viúvos. O fim da lista é ocupado pelas pessoas infelizes no casamento. Por outras palavras: quando os membros do casal são capazes de reconhecer que é preciso “trabalho” para manter uma relação feliz, tudo corre bem. Mas quando o amor é minado por dificuldades a que os membros do casal não dão resposta, o casamento pode transformar-se num martírio.

Reconhecer que se ama e que se quer continuar a amar não é “esquecer os exigentes desafios de um matrimónio”, mas antes identificá-los e geri-los. É o facto de amarmos muito uma pessoa que nos leva, por exemplo, a travar a escalada em momentos de tensão (quebrar o gelo), ainda que nem sempre tenhamos consciência desses comportamentos, que acabam por ser micro tentativas de reconciliação. E é também o facto de amarmos o nosso cônjuge e de construirmos memórias afectivas positivas que nos impede de alimentar os pensamentos negativos a seu respeito. Nos casamentos felizes e duradouros também pode existir ira, mas esse tipo de emoções é largamente suplantado pelas emoções positivas, pelo que a balança pende sistematicamente para o lado da manutenção da relação.

Finalmente, reconhecer que se ama e que se quer continuar a amar implica alimentar os afectos e manifestar a admiração mútua de forma contínua, ou seja, não dar o outro como garantido. Do mesmo modo que não nos esquecemos de criticar ou de reivindicar as nossas necessidades, importa ser capaz de agradar ao nosso cônjuge e de manifestar os sentimentos positivos.

O aparecimento de dificuldades não é, em si mesmo, um perigo para o casamento. De facto, os casais que se unem perante as adversidades acabam por ver o seu amor fortalecido. Porquê? Porque se viram um para o outro, em vez de se voltarem para fora da relação; e porque, apesar dos problemas, sabem que não devem criticar-se de modo destrutivo.

Assim, em vez de afirmar, como os Beatles, que “All you need is love”, diria que aquilo que é preciso é reconhecer que a pessoa que amamos é a pessoa mais importante da nossa vida.





Como já tinha publicado o vídeo da canção “To know you is to love you”, partilho hoje “To know him is to love him”, na voz de Amy Winehouse.
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