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25.2.09

ENCALHADA, SOLTEIRONA, VAI FICAR PARA TIA



Eu poderia dizer que as expressões encalhada e solteirona estão a cair em desuso. Afinal, nos dias de hoje é cada vez mais frequente depararmo-nos com novas formas de família - famílias reconstruídas, monoparentais, homossexuais... Além disso, o discurso do tipo "Casar não faz parte dos meus planos" está relativamente banalizado. Quase todos os dias oiço mulheres bonitas, inteligentes, seguras e bem-sucedidas assumirem a sua condição de solteiras com convicção. Mas seria muita ingenuidade da minha parte considerar que o preconceito em relação a esta matéria está ultrapassado.

Temo que por trás de um pseudo-modernismo estejam muitas mentes retrógradas que insistem em considerar que as mulheres devem casar e ter filhos, segundo o modelo tradicional, para que se sintam "completas".

Não deixa de ser curioso que, ao mesmo tempo que se reivindica igualdade de direitos entre géneros, se continue a veicular a ideia de que a partir dos 30 estar solteira é um problema.

Numa altura em que Portugal discute acesamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, continuamos a alimentar preconceitos escudados sob clichés do tipo "A sociedade assim o exige".

Sejamos francos: o amor é, provavelmente, a melhor coisa do mundo e o casamento continua a fazer parte dos sonhos de um grande número de mulheres. Admito, por isso, que em muitos casos a frustração associada à dificuldade em encontrar a "alma gémea" seja imensa. Admito até que haja muitas mulheres encalhadas nessa busca. Mas na minha profissão lido também com homens encalhados na sua solteirice, desesperados com a ideia de encontrar uma companheira. Claro que levam sempre vantagem em termos biológicos, já que, ao contrário das mulheres, poderão ter filhos mesmo depois dos 50 anos. Dessa pressão nenhuma mulher se livra - o desejo de ter um filho não pode ser adiado ad eternum.
Independentemente do sofrimento de quem desespera por viver um grande amor, posso garantir que ninguém vive angústia maior do que quem está encalhado num mau casamento. As pessoas que se sentem presas a uma relação insatisfatória são mais infelizes do que qualquer solteirão.

O momento que atravessamos é particularmente propício a estados depressivos associados à dificuldade em acabar um casamento. Afinal, quando há filhos e despesas altas, é muito mais difícil avançar para uma ruptura. A crise financeira associada às responsabilidades assumidas está na origem de muitos casos de adiamento da felicidade. Infelizmente conheço vários casos de pessoas encalhadas em relações ruinosas.

Também é importante distinguir entre pessoas que escolhem estar solteiras e aquelas que têm aversão ao casamento. Aparentemente o resultado é o mesmo, mas os processos psicológicos são muito diferentes. A misogamia implica a aversão ao compromisso e pode estar associada a dificuldades em manter uma relação emocionalmente íntima, comprometendo o bem-estar. Escolher estar solteiro não tem nada a ver com medo do compromisso.

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