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27.2.25

Ansioso, evitante ou seguro? Como o estilo de vinculação influencia a sua relação

 


Quando a Susana está numa relação, vive com medo que o namorado a deixe – basta um emoji diferente no chat para ela entrar em pânico. Já o Tiago, assim que a namorada começa a falar em viverem juntos, sente um frio na barriga e começa a arranjar desculpas para se distanciar. Duas atitudes opostas, mas ambas comuns em relacionamentos amorosos. A raiz pode estar nos diferentes estilos de vinculação amorosa (ou estilos de apego) de cada um.

A teoria da vinculação, desenvolvida por psicólogos, explica que as nossas primeiras experiências de amor – lá atrás na infância, com os nossos cuidadores – moldam a forma como nos ligamos aos outros em adultos. Simplificando, tendemos a desenvolver um de três estilos principais: ansioso, evitante ou seguro. Nenhum estilo é “defeito” seu, são adaptações que fizemos para sobreviver emocionalmente. Mas podem afetar (e muito) a sua vida de casal hoje.

Vamos descobrir em que perfil você (ou o seu parceiro) se encaixa?

Estilo Ansioso: o medo de não ser amada

Quem tem um apego ansioso anseia por proximidade e tem um medo profundo do abandono. Amor e ansiedade andam lado a lado, o que pode ser extremamente desgastante. Algumas características típicas de uma pessoa com estilo ansioso:

  • Hipersensibilidade a sinais do parceiro: Repara em cada pequena mudança de tom de voz, olhar ou mensagem. Se o outro parece mais calado num dia, já imagina que o amor esfriou.
  • Necessidade constante de reafirmação: “Tu amas-me mesmo?” poderia ser o lema. Precisa de frequentes demonstrações de afeto e segurança de que está tudo bem na relação.
  • Medo de expressar necessidades: Ironicamente, quem tem medo de ser abandonado às vezes evita falar do que o incomoda, com receio de afastar o parceiro. Engole sapos e finge que está tudo bem para manter a paz.
  • Comportamentos de protesto: Quando se sente insegura, pode acabar por fazer “joguinhos” (mesmo sem querer). Por exemplo, demorar de propósito a responder a uma mensagem para ver se o outro se preocupa, ou mostrar ciúmes exagerados para testar o quanto ele se importa.

Por trás do estilo ansioso há, muitas vezes, a crença de não ser suficientemente boa ou de que vai acabar sozinha. Essas pessoas dão tudo de si na relação amorosa, mas às vezes esquecem de dar valor a si próprias. A boa notícia? Com consciência e trabalho interior (muitas vezes em terapia), é possível acalmar essas inseguranças e criar ligações mais seguras. Aliás, ao ganhar confiança em si, deixa de precisar de “joguinhos” para chamar a atenção do parceiro, construindo interações mais honestas.

Estilo Evitante: o medo de perder a liberdade

No outro extremo, o estilo evitante valoriza tanto a independência que a intimidade profunda pode assustar. Pessoas evitantes desejam amor como qualquer outra pessoa, mas o excesso de proximidade aciona um alarme interno de que estão a ser “sufocadas” ou de que vão perder a autonomia.

Características comuns de um perfil evitante:

  • Precisa de espaço (muito espaço): Gosta de estar num relacionamento, mas se o parceiro começa a exigir mais tempo ou compromisso, sente necessidade de se afastar para “respirar”.
  • Dificuldade em expressar vulnerabilidade: Falar sobre sentimentos profundos ou necessidades emocionais não é confortável. Prefere evitar essas conversas ou tratá-las de forma racional, quase como se as emoções fossem um incómodo.
  • Tendência a focar-se nos defeitos do parceiro: Inconscientemente, pode sabotar a intimidade arranjando defeitos no outro quando a relação se aprofunda. Pensamentos do tipo “ela é ótima, mas não é bem perfeita para mim” funcionam como desculpa para manter alguma distância.
  • Autossuficiência extrema: Orgulha-se de ser independente. Em momentos de stress ou conflito, retira-se para dentro de si em vez de buscar apoio. Para o parceiro, parece frio ou indiferente.

Quem é evitante nem sempre percebe o quanto magoa o outro com o vai-e-vem emocional. Provavelmente, lá atrás, aprendeu que depender de alguém acaba em dor – então decidiu “não precisar” de ninguém. O desafio é entender que deixar alguém entrar não significa perder a identidade. Com paciência e possivelmente ajuda profissional, um evitante pode equilibrar independência e intimidade.

Estilo Seguro: o equilíbrio saudável

O estilo seguro é aquele com que todos nascemos potencialmente, e muitos conseguem desenvolver – normalmente fruto de ter recebido cuidados consistentes e afeto na medida certa em criança. Adultos com um estilo de vinculação seguro têm um equilíbrio saudável entre proximidade e autonomia.

Como os podemos reconhecer?

  • Confortáveis com a intimidade: Gostam de estar próximos, mas também não se afligem quando há espaço ou momentos a sós. Conseguem dar e receber amor sem drama excessivo.
  • Comunicação clara e empática: Expressam o que sentem (para o bem e para o mal) de forma respeitosa. Se algo os incomoda, falam diretamente sem acusar; se estão chateados, conseguem ouvir o outro sem explodir ou fugir.
  • Confiança e suporte mútuo: Tendem a confiar no parceiro e a ser confiáveis. Não fazem jogos para testar o amor. Também aceitam bem os “nãos” do outro, sem interpretar isso como rejeição pessoal devastadora.

Estar com alguém seguro é muitas vezes descrito como “fácil” (no bom sentido!). Há menos adivinhações e mais certeza. Mas atenção: ser seguro não significa não precisar de esforço; apenas torna a navegação da vida a dois mais suave.

Podemos mudar nosso estilo de vinculação?

Sim! A melhor notícia de todas é que os estilos de vinculação não são uma sentença perpétua. São padrões aprendidos, e qualquer coisa aprendida pode ser ajustada. Uma pessoa ansiosa pode tornar-se mais segura ao aprender a acalmar os seus medos e a fortalecer a autoestima. Um evitante pode, gradualmente, sentir-se mais confortável em depender de quem merece confiança.

As relações com pessoas seguras ajudam muito porque“reeducam” o nosso coração a confiar. Além disso, a própria terapia de casal ou individual é um espaço onde podemos explorar essas feridas antigas num contexto seguro. Com autoconhecimento e prática, é possível construir relacionamentos mais seguros mesmo que o seu ponto de partida tenha sido ansioso ou evitante.

No fim das contas, conhecer o seu estilo de vinculação é uma ferramenta poderosa. Ajuda a explicar, por exemplo, porque é que entra em pânico se a outra pessoa se afasta um pouco, ou porque sente vontade de fugir quando alguém chega perto demais. Essa consciência é o primeiro passo para mudar o que for preciso e aproximar-se do equilíbrio ideal: nem medo do abandono, nem medo de compromisso – apenas um amor em que a confiança e a autonomia caminham de mãos dadas.

11.2.21

COMO AUMENTAR A RESILIÊNCIA

 

Como aumentar a Resiliência

Todas as pessoas passam por situações difíceis ou até traumáticas, mas, na maioria das vezes, têm a capacidade de seguir em frente. O que é que nos permite levantar e arregaçar as mangas de cada vez que caímos? Porque é que há pessoas mais resilientes do que outras? Como é que podemos desenvolver a resiliência?


O que é a resiliência?


A resiliência é a capacidade de nos adaptarmos às situações mais stressantes e desafiadoras da vida. Ao contrário do que possamos imaginar, a maioria das pessoas são resilientes. Claro que um simples olhar à nossa volta nos mostra que há pessoas mais resilientes do que outras. Todos conhecemos pessoas que fazem um drama à menor contrariedade e outras que mostram uma capacidade incrível de se reerguer mesmo nas maiores adversidades. Quando olhamos para desafios intensos como o diagnóstico de um cancro, a perda de emprego ou um divórcio, é evidente que se trata de marcos muito significativos capazes de abalar a felicidade e a estabilidade da maioria das pessoas. Mas também é claro que a maior parte das pessoas que conhecemos acabam por ultrapassar estes desafios, adaptando-se e reerguendo-se.


Podemos desenvolver a resiliência?


Os estudos sobre a Psicologia positiva evoluíram muito nas últimas décadas e contribuíram para o conhecimento que hoje temos sobre este tema. A resiliência está diretamente relacionada com níveis mais elevados de autoconfiança, bom humor, e uma imagem positiva de nós mesmos e a boa notícia é que podemos desenvolvê-la em qualquer momento da nossa vida.


Dicas para desenvolver a resiliência


1.       Conte com o apoio dos outros.


Perante um problema difícil, pode ser tentador fechar-se na sua concha e contar apenas consigo mesmo. As pessoas que cresceram por sua conta, sem sentirem que pudessem confiar ou contar com os adultos à sua volta, podem sentir maior dificuldade em vulnerabilizar-se, confiar nos outros ou pedir apoio. É importante que tenhamos compaixão pelas nossas vulnerabilidades, pelas nossas feridas emocionais, mas que não permitamos que elas se cristalizem e nos impeçam de explorar novos caminhos.


Se tem dificuldade em pedir apoio ou em confiar

nos outros, é porque em algum momento da sua

vida houve a necessidade de esse mecanismo de

defesa surgir, mas isso não significa que hoje não

haja ninguém que seja merecedor da sua confiança.




Desabafar e contar com o apoio dos outros é um meio importante para nos sentirmos amparados e conseguirmos enfrentar com resiliência as adversidades.

 

2.       Olhe para os problemas com flexibilidade.


Não podemos mudar aquilo que nos aconteceu no passado nem podemos mudar alguns acontecimentos do presente, mas podemos mudar a forma como olhamos e reagimos a todos estes eventos. Quando olhamos para trás e identificamos os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, temos, pelo menos, duas alternativas. Uma é vitimizarmo-nos, olhar para nós mesmos como coitadinhos, olhar para os acontecimentos como catástrofes em relação às quais nada podemos fazer, olhar para os traumas como inultrapassáveis e para as pessoas que causaram esses traumas como monstros. A outra é olhar para os acontecimentos com abertura e curiosidade e olhar para as pessoas à nossa volta com compaixão, reconhecer as suas próprias vulnerabilidades e o sentido de humanidade comum que está associado à certeza de que cada pessoa faz, num dado momento, o melhor que sabe. De uma maneira geral, esta abordagem ajuda-nos a reconhecer também o lado mais positivo de cada evento negativo. Por exemplo, as pessoas que cresceram com um progenitor alcoólico serão mais resilientes na medida em que sejam capazes de perceber que a forma como esse progenitor cresceu e a forma como recebeu (ou não recebeu) o amor dos seus cuidadores condicionou a estruturação da sua personalidade. Esta compaixão abre espaço para que consigam reparar nos gestos daquele progenitor que mostram afeto, apesar de todas as feridas emocionais.


Quando enfrentamos uma adversidade, podemos olhar para ela como um castigo, interrogando-nos sobre o mal que fizemos para merecer tal catástrofe ou podemos olhar para esse acontecimento com abertura e curiosidade, questionando-nos sobre o que está ao nosso alcance e/ou que lições podemos aprender.



3.       Aceite que o sofrimento faz parte da vida.


«Shit happens», já ouviu dizer? Quando nos confrontamos com uma adversidade, é fácil questionar «Porquê eu? Porque é que isto me aconteceu?», mas a verdade é que a pergunta mais razoável é «E porque não eu?». Olhe à sua volta: conhece alguém que nunca tenha passado por dificuldades sérias? Talvez lhe ocorra responder que sim. Afinal, todos conhecemos pessoas a quem a vida parece estar sempre a sorrir. Ou será que são sobretudo pessoas que assumem uma postura otimista em relação à vida?


Não há um único ser humano adulto que nunca tenha enfrentado uma dificuldade séria – um divórcio, um problema de infertilidade, uma traição, a perda de emprego, o alcoolismo de um familiar, uma doença séria, a perda de um ente querido. Uma das coisas que diferencia as pessoas resilientes é a aceitação de que o sofrimento faz parte da vida. É também por isso que elas arregaçam as mangas mais rapidamente, em vez de perderem tempo a vitimizar-se. Elas não precisam de ver o vizinho a sofrer para reconhecerem a humanidade comum que as liga às outras pessoas. Elas não olham para um momento de dor como uma tragédia que as exclui do direito à vida perfeita que as outras pessoas mostram no Instagram.


Aceitar o seu sofrimento não significa alimentar quaisquer sentimentos de pena de si próprio(a). Significa, isso sim, reconhecer que as tragédias acontecem e que a forma como você responde a essas tragédias vai influenciar (muito) o seu bem-estar. Aceitar que o sofrimento faz parte da existência humana ajuda-nos a reconhecer que, nos momentos difíceis, as escolhas que fazemos podem ajudar-nos a afundar ou a nadar até à tona.


4.       Enfrente os problemas de forma ativa e direta, em vez de os evitar.


Enfiar a cabeça na almofada é um direito seu, pelo menos na medida em que essa seja uma escolha transitória e uma forma de permitir a si mesmo(a) sentir a dua dor. Mas esta opção deixa de ser uma alternativa saudável na medida em que se transforme na única resposta aos problemas. Quanto mais evitarmos confrontar-nos com os nossos problemas, maior é a probabilidade de eles se transformarem em bichos papões que pareçam cada vez mais difíceis de ultrapassar. Enfrentar os problemas, dar-lhes um nome e fazer um plano para lidar com eles é a melhor forma de voltar a sentir que tem controlo sobre a sua vida.

 

5.       Liberte a sua ansiedade.


Cada pessoa tem a sua própria forma de lidar com a ansiedade, mas há escolhas que são mais saudáveis do que outras. As pessoas que se disciplinam no sentido de incluir na sua rotina hábitos como a meditação, a prática de exercício físico ou a realização de hobbies que as ajudem a desconectar-se dos problemas e a descontrair, costumam enfrentar as adversidades com maior resiliência.


6.       Identifique o seu propósito.


A vida leva-nos muitas vezes a um piloto automático em que dificilmente paramos para prestar atenção às coisas que mais valorizamos. Quando estamos demasiado acelerados pelo ritmo frenético das nossas vidas, é fácil sentirmo-nos assoberbados, stressados e frustrados. Parar para prestar atenção às coisas (e às pessoas) que mais valorizamos – praticando ativamente a gratidão, por exemplo – pode ajudar-nos a reconhecer com maior clareza o nosso propósito de vida e a definir objetivos que genuinamente nos aproximem de uma vida mais feliz.


7.       Crie tempo para a brincadeira.


Se quisermos ver uma criança feliz, é só criarmos espaço para que ela tenha a oportunidade de brincar, de preferência acompanhada. Brinquedos + companhia = diversão. Às vezes, nem sequer é preciso que haja brinquedos de verdade. Já reparou como duas crianças se podem divertir com caixas velhas enquanto fingem que se trata de carros em competição? Ou como brincam aos médicos mesmo quando não têm qualquer equipamento que se assemelhe a um estetoscópio? A imaginação e a companhia são o suficiente.


Os adultos também precisam – muito – da brincadeira. Somos muito mais felizes e resilientes na medida em que consigamos incluir nas nossas rotinas tempo para descontrair junto das pessoas de quem gostamos.



E este hábito é ainda mais importante e terapêutico nos períodos de maior stress. Lembre-se disso da próxima vez que disser que não tem tido tempo para fazer as coisas de que gosta.


8.       Foque-se naquilo que pode mudar.


Somos muito bons a identificar as ameaças. Na verdade, o nosso cérebro está altamente programado para isso. Este mecanismo de sobrevivência é essencial nas situações em que a nossa sobrevivência está em causa, como quando estamos na presença de um animal feroz. A questão é que a nossa vida não está sistematicamente em risco.


Quando focamos toda a nossa atenção naquilo

que não controlamos, estamos a desperdiçar a nossa

energia e, mais importante do que isso, estamos a

desperdiçar a oportunidade de canalizar a nossa

atenção para aquilo que podemos mudar.


Por exemplo, quando um pai ou uma mãe perde um filho, é evidente que o seu mundo muda para sempre. A morte é irreversível e deixa-nos com um sentimento de impotência brutal. Não é por acaso que diversos estudos mostram que a prevalência do divórcio é altíssima depois de um acontecimento como este. Mas a verdade é que há muitos casais que se mantêm unidos e cuja relação prospera, apesar de terem enfrentado a maior das adversidades. Estes casais conseguem perceber que aquilo que perderam não tem de lhes roubar aquilo que ficou.  Eles conseguem sentir-se gratos por aquilo que ainda têm e conseguem centrar a sua atenção naquilo que podem fazer para manter aquilo que têm. Esta postura – de praticar a gratidão e de centrar a atenção naquilo que podemos mudar – é aplicável a todas as tragédias da vida.


9.       Pergunte a si mesmo(a): «As escolhas que estou a fazer são boas para mim?».


Se tiver acabado de ser deixado(a) e estiver a passar por um divórcio, é natural que queira seguir todos os passos do(a) seu(sua) ex-companheiro(a). Talvez passe horas nas redes sociais na tentativa de saber se ele(a) tem alguém ou simplesmente para saber se está online. Mas será que essas escolhas lhe fazem bem? Será que o(a) ajudam a ficar melhor? Nem sempre conseguimos fazer as escolhas que nos protegem ou que promovem o nosso bem-estar. Às vezes até sabemos exatamente o que é que “deveríamos” estar a fazer, mas não é essa a nossa escolha. Há uma diferença entre sabermos o que nos faz bem e sermos capazes de nos comprometermos com essa escolha. Mas se formos capazes de trazer esta pergunta para o nosso dia-a-dia, aumenta a probabilidade de sermos genuinamente gentis connosco próprios.


Isto é aplicável às mais diversas adversidades e a pergunta pode assumir diferentes formatos:


Será que eu preciso mesmo de comprar isto?

Será que é bom para mim deixar de ir ao ginásio e ficar fechada em casa a sofrer por amor?

Será que me faz bem ir todas as semanas ao cemitério?

Será que me faz bem alimentar pensamentos como «Nunca vais ser capaz de conseguir aquele emprego»?

Será que me faz bem “googlar” sobre doenças?


10.   Reconheça a sua força.


Olhe para trás e repare na forma como respondeu às diferentes adversidades com que já se confrontou. Que características o(a) ajudaram a ultrapassar esses acontecimentos? Que escolhas contribuíram para que não se afundasse?


Quando olhamos para os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, é natural que as recordações estejam maioritariamente relacionadas com os sentimentos desconfortáveis por que passámos, com o sofrimento vivido. Mas a esmagadora maioria destas situações foram ultrapassadas graças à nossa resiliência, às escolhas que fizemos e que também traduzem a nossa força. Por outro lado, estes acontecimentos também acrescentam invariavelmente uma dose considerável de crescimento pessoal. Há competências que nem sequer sabíamos que tínhamos e/ou que foram aprimoradas na resposta às dificuldades. Há aprendizagens que jamais teríamos feito se não tivéssemos passado por certos eventos. Sermos capazes de reconhecer a nossa força, as características que nos ajudam a enfrentar as dificuldades, é fundamental para que reconheçamos a resiliência que há em nós para lidar com o que está por vir.

10.2.21

CONSULTAS DE PSICOLOGIA E TERAPIA DE CASAL ONLINE


Consultas de Psicologia e terapia de casal online

Em tempos de Covid-19 e isolamento, a terapia online é a única forma de receber ajuda especializada no que toca à saúde psicológica. Será que funciona? Como é que se processa? É para todos? Como é que sabemos que podemos confiar?


Há muitos anos que dou consultas através da Internet. Até há um ano, essa era a exceção na minha prática clínica e estava reservada sobretudo para os portugueses que vivem fora do país e para algumas pessoas que, apesar de viverem em Portugal, têm dificuldade em encontrar um psicólogo/ terapeuta conjugal perto da área de residência ou que simplesmente vivem num meio demasiado pequeno, onde todos se conhecem.

Apesar de preferir as consultas presenciais, habituei-me desde cedo a este formato e percebi que a minha ajuda poderia ser muito significativa para quem, por questões logísticas, pudesse sentir-se ainda mais vulnerável. Tenho acompanhado portugueses em países tão longínquos quanto a Arábia Saudita, Angola, Canadá ou os Estados Unidos e muitos espalhados pela Europa. Em comum têm a vontade de receber ajuda na língua em que se expressam melhor. No caso dos portugueses a viver em meios pequenos, é fácil perceber a diferença que poderia fazer consultar um psicólogo local. Não é uma questão de a confidencialidade das consultas estar em causa. Tem a ver com a exposição de entrar numa clínica e só por isso ser motivo de conversas e rumores. Isso é ainda mais difícil quando falamos de terapia conjugal.

Com a chegada do Covid-19 a Portugal, comecei por reconhecer que o contacto presencial com as pessoas que acompanho nos poderia colocar a todos numa situação vulnerável e passei a realizar as consultas através de videoconferência. Dias depois, a Ordem dos Psicólogos emitiu um comunicado em que dizia que todos os profissionais da área deveriam passar a fazer o seu trabalho neste formato. Entretanto, tornou-se óbvio que esta seria mesmo a única forma de nos protegermos.

Para quem nunca fez consultas online, a ideia pode gerar confusão. Afinal, como é que se processa uma consulta de Psicologia clínica ou de Terapia de Casal online? De que forma se pode garantir a confidencialidade e a segurança das consultas? Será que as consultas neste formato funcionam tão bem como as consultas presenciais?

A Terapia online funciona?


Sim. As consultas de Psicologia e terapia familiar são tão eficazes quanto as consultas presenciais. Não é uma questão de opinião. Há diversos estudos que nos mostram essa eficácia.


  •  Há investigações que mostram que a terapia cognitivo-comportamental, que permite estimular a consciência sobre padrões de pensamentos negativos ajudando os pacientes a responder a situações desafiantes, é tão eficaz por videoconferência quanto pela via presencial.
  •   Um estudo mostrou que os adolescentes que realizaram consultas por telefone para a perturbação obsessivo-compulsiva obtiveram tanto sucesso no tratamento quanto os colegas que foram acompanhados presencialmente.
  •   Uma investigação mostrou que os veteranos que sofrem de perturbação pós stress traumático respondem tão bem à terapia por videoconferência quanto ao tratamento recebido no consultório.

No caso da terapia de casal, há claramente uma vantagem nas consultas online: a gestão do tempo. A maior parte dos casais que acompanho são pessoas ocupadas, com dificuldade em conciliar agendas e assegurar que alguém tome conta das crianças durante duas ou três horas. A consulta dura cerca de uma hora e meia, mas, se juntarmos as deslocações, nem sempre é fácil encontrar tempo para que a sessão seja realizada. Quando as consultas são realizadas por videoconferência, contornam-se mais obstáculos e a probabilidade de o casal conseguir comprometer-se de forma consistente com a terapia é muito maior.

Mas há outra vantagem ainda mais significativa: a diminuição do stress. Não há volta a dar: por mais simpático(a) que o(a) terapeuta seja, há quase sempre mais ansiedade quando temos de nos deslocar a uma clínica.

A nossa casa é o nosso porto seguro e pode funcionar como facilitadora do relaxamento e, consequentemente, da capacidade para expormos as nossas emoções de forma mais segura.


Posso confiar no profissional que

está do outro lado do ecrã?


Nos dias de hoje, não faz sentido fazer escolhas clínicas arriscadas. Se não se sente seguro(a) de que o(a) psicólogo(a) que está a pensar contactar seja o(a) mais indicado(a) para si, há alguns passos que pode/deve dar:


  •   A Ordem dos Psicólogos dispõe de uma lista de todos os profissionais registados e autorizados a exercer em Portugal. Certifique-se de que é acompanhado(a) por um(a) psicólogo(a) inscrito na Ordem.
  •  Converse com o seu médico de família e peça uma recomendação. Os médicos de família estão habituados a fazer o encaminhamento para consultas de especialidade e poderão ajudar a encontrar a melhor alternativa.
  •    Se se sentir confortável, peça uma referência a um(a) amigo(a) ou a um familiar. Não há nada como a certeza de que alguém já foi bem-sucedido no acompanhamento psicológico com determinado(a) profissional.
  •   Faça perguntas. Antes de marcar uma consulta, faça uma lista com todas as suas dúvidas. Telefone ou envie um e-mail para o(a) psicólogo(a) que está a pensar consultar. Estas respostas ajudá-lo(a)-ão a fazer a sua escolha. Se não obtiver resposta, isso também o(a) ajudará a fazer a sua escolha 😊.

Com o que é posso contar na terapia online?


As consultas por videoconferência funcionam de forma idêntica às consultas presenciais. Do outro lado do ecrã está um(a) psicólogo(a) isolado(a) no(a) seu gabinete e capaz de assegurar a confidencialidade da consulta. Tal como acontece nas consultas presenciais, a empatia e a ligação são elementos fundamentais para o sucesso da terapia. Se não se sentir confortável com algum aspeto da consulta, procure expor a sua perspetiva.

Na primeira consulta, o(a) psicólogo(a) informa e explica de forma clara como é feita a recolha e registo dos dados clínicos e, no final, partilha uma declaração de consentimento informado que deve ser assinada/ validada pelo(a)(s) paciente(s).



De uma maneira geral, é nesta altura que se elabora
o “contrato terapêutico”, isto é: há um acordo em
relação aos objetivos terapêuticos, periodicidade e
duração das consultas, propostas de exercícios
e formas de pagamento.



Tal como acontece nas consultas presenciais, é legítimo que queiramos obter mudanças rápidas e que nos sintamos desmotivados se elas demorarem a surgir. A minha experiência mostra-me que na maioria das situações há um alívio e um otimismo que resultam logo das primeiras consultas, mas as mudanças mais sólidas envolvem tempo e compromisso.

O início de um processo terapêutico – individual ou familiar – envolve quase sempre muito desgaste e vulnerabilidade. Marcar a primeira consulta é um primeiro grande passo. É uma forma de mostrar a si mesmo(a) que quer cuidar de si, da sua relação ou da sua família. Pode não ser sempre fácil e algumas consultas até podem ser “duras” por tocarem em feridas profundas, mas aquilo que é expectável é que um(a) psicólogo(a) treinado(a) o(a) ajude a aproximar-se gradualmente dos seus objetivos e a sentir-se mais seguro(a), mais feliz e mais capaz.

9.7.20

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

Família disfuncional


Quais são as características de uma família disfuncional? E quais são as respostas que devemos procurar quando damos conta de que crescemos numa família disfuncional?


Ouço muitas vezes no meu trabalho com adultos a frase “Cresci numa família disfuncional”. Na maior parte das vezes, a expressão refere-se aos problemas familiares que deixaram marcas profundas, mas nem sempre se trata de famílias com as características de uma família disfuncional.


Quais são as características de uma família disfuncional?


#1: ABUSOS


Nem todas as famílias disfuncionais são caracterizadas pela existência de abusos físicos ou sexuais, mas este é um sinal indiscutível de disfuncionalidade. Para além de todas as consequências que se prolongam pela vida fora, aquilo que observamos nestas famílias é a “normalização” dos abusos.


Já todos ouvimos frases como «Eu apanhei do meu pai/ da minha mãe e estou aqui», como se a sobrevivência fosse sinal de saúde mental.


As crianças que crescem habituadas à violência física tomam esse exemplo como “normal”.


As pessoas que dão afeto e atenção são as mesmas que agridem, às vezes de forma brutal.


Em muitos destes casos, é só na idade adulta que a pessoa se dá conta de que foi alvo de comportamentos abusivos – às vezes essa perceção no contexto de uma relação amorosa, noutros casos surge em terapia.


#2: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A violência emocional pode assumir muitas formas. É por isso que às vezes pode ser difícil reconhecer um comportamento como uma forma de abuso emocional. Ser-se emocionalmente violento não é apenas gritar e insultar. De resto, a maior parte dos exemplos de violência emocional a que acedo no meu trabalho com famílias não incluem quaisquer insultos.


São exemplos de violência emocional (e da disfuncionalidade de uma família):

Ignorar as necessidades (físicas ou emocionais dos filhos);

Retirar o afeto à criança quando não vai ao encontro da vontade do adulto;

Hipercrítica (humilhações);

Fazer ameaças;


#3: AMOR CONDICIONAL


Hoje em dia estamos muito familiarizados com o conceito de amor incondicional. A maior parte dos pais e mães que tenho conhecido dão o seu melhor para que os filhos saibam que são merecedores de amor independentemente das suas opções. Mas há muitos adultos que cresceram num ambiente familiar tão exigente que a sensação era a de que estavam sistematicamente “aquém” das expectativas.


Nas famílias disfuncionais é frequente os adultos mostrarem desilusão a propósito das escolhas dos filhos – não porque eles tenham cometido erros, mas porque contrariaram a vontade dos pais.


Quando os filhos não fazem aquilo que os pais gostariam que eles fizessem, o amor é “retirado”. Na prática, continua a haver comunicação, mas é mais “seca” e desprovida de afeto.


Estas crianças transformam-se frequentemente em “people pleasers”, isto é, em adultos preocupados em agradar a toda a gente, negligenciando os próprios sentimentos e as próprias necessidades.


#4: INEXISTÊNCIA DE FRONTEIRAS


Nas famílias disfuncionais a invasão da privacidade dos filhos é uma constante. O espaço físico (quarto) é invadido, mesmo quando os filhos já são adolescentes ou adultos e a correspondência é frequentemente violada. Mais do que isso: os pais podem sentir-se no direito de tomar decisões em nome dos filhos, mesmo quando estes já têm autonomia para tomar as próprias decisões.


A inexistência de fronteiras também faz com que os pais partilhem demasiadas informações com os filhos, transformando-os em confidentes desde muito cedo. Aquilo que acontece é que os filhos são confrontados com assuntos que só deveriam dizer respeito aos pais e sentem-se muitas vezes obrigados a proteger os progenitores (ou um deles), a tomar decisões e a fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar a resolver os problemas.


Em Psicologia há um nome para estas crianças: são crianças parentificadas, que assumem desde cedo responsabilidades que deveriam recair sobre os ombros dos adultos.



# 5: INEXISTÊNCIA DE COESÃO E INTIMIDADE


Por estranho que pareça, nas famílias disfuncionais não há muita intimidade. Há normalmente um grande emaranhamento, resultante da inexistência de fronteiras. Toda a gente se mete na vida de toda a gente, o que pode ser confundido com coesão familiar. Claro que também pode haver genuína preocupação, mas, de uma maneira geral, os membros da família sentem-se pouco confortáveis com a ideia de partilharem os seus sentimentos mais íntimos uns com os outros. Na prática, não há a devida valorização dos sentimentos ou das necessidades de cada um, não há o devido respeito e, em função disso, torna-se mais difícil falar abertamente e criar verdadeira intimidade.


#6: TRIANGULAÇÃO


Nas famílias saudáveis os assuntos são resolvidos de-um-para-um. Cada pessoa sente-se confortável para manifestar aquilo que sente, para se queixar e até para discutir. Nas famílias disfuncionais é frequente a existência de triangulações. Na prática, quando uma pessoa se zanga com outro membro da família, opta por falar com um terceiro membro em vez de resolver o assunto diretamente. Por exemplo, se a mãe se zangar com o pai, é capaz de ir falar mal do pai junto do filho e até é capaz de o pressionar no sentido de enviar recados. Este padrão relacional tende a eternizar-se e os filhos rapidamente aprendem a fazer o mesmo.


Quando existem estas alianças perversas, há, pelo menos, duas consequências negativas: por um lado, os problemas dificilmente são resolvidos e, por outro, a confiança nos membros da família é muito diminuta.


#7: COMPORTAMENTOS ADITIVOS


Nas famílias disfuncionais encontramos frequentemente o consumo abusivo de álcool e drogas e o vício do jogo. Estes comportamentos trazem muita instabilidade para toda a família. Os filhos crescem quase sempre com muita incerteza e transformam-se quase sempre em crianças (e mais tarde adultos) hipervigilantes e ansiosos. É como se nunca soubessem com o que podem contar, como se nunca tivessem a certeza de que, ao chegar a casa, encontrarão um ambiente tranquilo ou o caos.


Nestas famílias é comum haver muitos gritos, muita violência.

 

Que respostas existem para as famílias disfuncionais?


A família em que crescemos oferece-nos os primeiros conceitos de normalidade. É junto dos nossos pais e familiares mais próximos que interiorizamos, pelo exemplo, o que é normal e o que não é normal. Mas à medida que crescemos e, sobretudo, à medida que construímos outras relações afetivas, vamo-nos dando conta dos erros que os nossos pais e outros cuidadores cometeram.


As pessoas que cresceram numa família disfuncional muitas vezes só se apercebem dessa disfuncionalidade na idade adulta. Às vezes, essa perceção surge na sequência dos problemas existentes na relação conjugal. Noutros casos, surge na sequência de um pedido de ajuda em resposta a uma perturbação ansiosa ou depressiva.



A terapia é invariavelmente um porto seguro

 através do qual o adulto que cresceu numa família disfuncional

tem oportunidade de identificar e tratar as feridas

emocionais que ficaram desse período.




De uma maneira geral, esse processo implica a recuperação da própria voz.


Estas pessoas habituaram-se a conter (ou anular) os próprios sentimentos e pode levar algum tempo até que aprendam a fazê-lo de forma autêntica e assertiva.


Por outro lado, as marcas que ficam afetam quase sempre o amor-próprio, pelo que há um trabalho a ser feito para que a pessoa interiorize que é merecedora de amor e possa fazer escolhas que permitam construir relações emocionalmente saudáveis.


Claro que este trabalho terapêutico também depende da capacidade de reconhecer que é preciso algum afastamento em relação aos comportamentos tóxicos. Na prática, isto pode ser muito difícil porque se trata de adultos que passaram a vida inteira a desvalorizar as próprias necessidades e a sentir a obrigação de agradar aos outros. Reconhecer que têm o direito de se afastar destes comportamentos não é sempre fácil, mas é essencial.


A recuperação também implica o reconhecimento dos padrões de relacionamento disfuncionais e a capacidade de romper com esses padrões, também para evitar que eles se reproduzam na família que se quer construir. É natural que, pelo meio, haja muitos sentimentos de culpa, que haja medo e incerteza, mas, no final, compensa muito.


Todo este processo depende do reconhecimento de que vamos sempre a tempo de melhorar a nossa vida, MAS só podemos mudar o nosso comportamento. Por muito que custe aceitar, não podemos mudar as pessoas de quem gostamos. Podemos, isso sim, relacionar-nos com elas de formas mais saudáveis e protetoras do nosso bem-estar.


18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


20.4.20

ENCONTRAR O AMOR NA INTERNET


Amor na Internet


É possível encontrar o amor através da Internet? Que diferenças existem entre os encontros online e os encontros na vida real? Que comportamentos devemos ter para evitar perder tempo e energia com quem possa estar apenas à procura de um engate?


A Internet veio facilitar – e muito – a vida dos adultos à procura de um relacionamento. Há uns anos, quando alguém se separava, tinha de lidar com a dificuldade em conhecer pessoas novas. A sensação que muitas pessoas recém-separadas tinham era de que teriam de fazer muitas escolhas que as obrigariam a sair muito da sua zona de conforto para encontrar um(a) novo(a) companheiro(a) romântico.




Quantas pessoas precisamos de conhecer até encontrar “a tal”?

Não é por acaso que ouvimos falar da “química” do amor. A maioria de nós não se apaixona com facilidade. Podemos sentir-nos atraídos por algumas pessoas, podemos considera-las interessantes de muitos pontos de vista e, ainda assim, podemos constatar que simplesmente não há faísca.



O professor John Gottman, provavelmente um dos mais reconhecidos investigadores na área da conjugalidade (ao ponto de a revista Psychology Today o apelidar de “Einstein do Amor”), contou a determinada altura como é que conheceu a sua mulher, a professora Julie Gottman, com quem está casado há mais de trinta anos. Apesar de o seu trabalho estar centrado na investigação sobre os motivos por que algumas relações resultam e outras falham, John Gottman tinha ultrapassado a barreira dos 40 anos, estava divorciado há sete e colecionava relações mal-sucedidas. Antes de recomeçarem as aulas na universidade, aproveitando o tempo livre de que dispunha, decidiu conhecer o maior número de mulheres que conseguisse. Na altura (1986), não havia Internet e Gottman decidiu responder a todos os anúncios pessoais que encontrasse nos jornais. Em seis semanas, conheceu sessenta mulheres. Sessenta! Julie foi a 61ª. Primeiro, trocaram números de telefone e conversaram durante mais de quatro horas seguidas, sentindo uma empatia imediata. Depois, combinaram um encontro num bar. John Gottman chegou cedo e deu por si a observar as mulheres que entravam no bar interrogando-se «Será que esta é que é a Julie?». Algumas mulheres não (lhe) pareciam muito interessantes e Gottman dava por si a pensar «Espero que não seja esta». Quando Julie entrou no bar, Gottman gostou da sua aparência e pensou «Espero que seja esta». Conversaram, ela riu-se das suas piadas e, no segundo encontro, Gottman sabia que ela era “a tal”.


Nos dias de hoje o que não faltam são opções. Entre o Tinder, o Facebook e os mais variados sites de encontros, sabemos que é muito mais fácil conhecer muitas pessoas em pouco tempo através da Internet do que na vida real. Mas isso não significa que a tarefa seja fácil, sobretudo para quem busca mais do que relações ocasionais.

Um dos primeiros desafios que qualquer pessoa terá de enfrentar se estiver na disposição de procurar um novo amor na Internet tem precisamente a ver com este paradoxo da escolha: O facto de haver tanta oferta tende a baralhar-nos. É como se o facto de sabermos que há milhares de pessoas “disponíveis” nos tornasse menos tolerantes a pequenas falhas e menos pacientes para conhecer melhor cada pessoa com quem nos cruzemos.

As relações que começam online tendem a ser mais curtas porque, de uma maneira geral, as expectativas dos utilizadores são maiores.


O facto de haver aparentemente tanta oferta faz com que também seja mais fácil afastar potenciais companheiros românticos - mesmo que os consideremos interessantes - na esperança de que seja possível encontrar alguém (ainda) melhor.

Qual é o perfil de quem procura o amor na Internet?


Na verdade, há muitos perfis. Na Internet, tal como na vida real, a percentagem de pessoas que procuram relações sem grandes compromissos é maior. Já falei sobre isso AQUI a propósito dos estilos de vinculação amorosa. As pessoas com um estilo de vinculação evitante sentem-se pouco confortáveis com níveis elevados de intimidade emocional e, por isso, têm relações mais curtas, voltam muito mais vezes ao “mercado” dos solteiros e fazem-no de forma mais ativa. É por isso que algumas pessoas se queixam porque aparentemente estão sempre a relacionar-se com as pessoas “erradas”.

Saiba qual é o seu estilo de vinculação – e a pessoa certa para si – AQUI.

A Internet é um mundo “à parte” porque, como é fácil de perceber, permite que haja uma série de passos que sejam dados sob anonimato ou com dados falsos que, cá fora, seriam mais rapidamente detetados. Online há um risco maior de começarmos a conversar com alguém cujas intenções pareçam uma coisa e sejam, na realidade outra.

Mas nem tudo é mau! Aquilo que várias pesquisas demonstram é que quem está na Internet à procura do amor são normalmente pessoas que investem muita energia e às vezes até dinheiro nesta busca. Sim, há quem pague para ter acesso a conteúdos exclusivos ou para que um “especialista” encontre a “alma gémea”. Isto também pode mostrar alguma motivação extra para construir uma relação, por oposição àquela ideia feita de que na Internet só se encontra pessoas à procura de engates.

As pessoas mais velhas também recorrem à Internet?


Sim, mas tendem a ser mais seletivas - em particular as mulheres. Depois de uma certa idade, e, sobretudo, depois de uma ou mais relações significativas de longa duração, tendemos a definir de forma mais precisa aquilo que queremos e aquilo que não queremos para nós. Tem havido um crescimento no número de pessoas com 50 e 60 anos que utilizam a Internet para encontrar um novo amor, mas estas pessoas são normalmente mais exigentes.

Quando é uma pessoa está pronta para procurar o amor na Internet?


Há muitas pessoas que criam um perfil em sites e aplicações de encontros pouco tempo depois da separação, sentindo uma mistura de excitação e insegurança. Por um lado, sentem-se genuinamente maravilhadas com as possibilidades que a Internet oferece (e que na muitas vezes não existiam quando começaram a relação anterior), mas, por outro, sentem-se assustadas com este admirável mundo novo.

É muito importante que cada pessoa avalie se se sente realmente pronta para enfrentar os desafios dos encontros digitais. O luto da relação anterior está feito? Como está a sua autoestima? Está preparado(a) para correr riscos e lidar com a rejeição?

Algumas pessoas iniciam esta procura e interrompem-na pouco tempo depois precisamente por perceberem que ainda se sentem demasiado ligadas à anterior relação ou que simplesmente não adquiriram o estofo e a estabilidade que lhes permita saborear esta aventura sem correr o risco de ver a própria autoestima destruída.

Encontrar o amor online: o que é que procura?


É uma pessoa “com um feitio complicado”? Ou a maior parte das pessoas à sua volta tendem a rotulá-lo(a) de “pragmático(a)”? Gosta muito de viajar e dá-se mal com a monotonia? Ou é uma pessoa de gostos simples e qua não lida bem com demasiada aventura? Aquilo que a ciência nos mostra é que tendemos a sentir-nos mais felizes com pessoas com quem sintamos que haja afinidade. Não, isso não quer dizer que tenhamos de encontrar alguém com os mesmos hobbies.

Antes de partir para a análise de qualquer perfil online, pare um pouco para refletir sobre si. Elabore uma “lista de valores” e organize-nos de acordo com a importância. Gaste algum tempo a refletir sobre este assunto tão sério. O que é que é realmente importante para si? Que características é que um(a) parceiro(a) romântico tem mesmo de ter? Depois, reflita sobre a sua própria experiência. A que sinais é que acha que pode estar atento(a)? Que perguntas vai precisar de colocar para perceber se a outra pessoa partilha os mesmos valores?

O que é que devo incluir no perfil? A importância da autenticidade.


Se há algo que a ciência nos oferece é a certeza de que somos muito mais felizes na medida em que tenhamos uma vida autêntica. Online as coisas não são diferentes. Você não controla a honestidade de quem está do outro lado, mas há muitas escolhas que pode fazer com o objetivo de se aproximar das pessoas certas.

No que toca à vontade de encontrar o amor, o medo pode complicar o processo. Quando uma pessoa se sente ansiosa perante a possibilidade de se sentir rejeitada, pode ser tentador mascarar a própria realidade. Por exemplo, algumas pessoas omitem, propositadamente, o facto de terem filhos com medo de serem automaticamente excluídas pela maioria dos potenciais parceiros. Mas será que vale a pena? A minha experiência mostra-me que não.

A procura do amor não é um concurso de popularidade e a sua autoestima não pode estar dependente do número de pessoas que gostam do seu perfil.

É preferível ser claro(a) e honesto(a) em relação a quem é e àquilo que quer para si. Isso aproximá-lo(a)-á das pessoas certas e permitir-lhe-á investir apenas nas pessoas que estejam dispostas a aceitá-lo(a) exatamente como é. Mesmo assim, é possível que do outro lado haja quem não seja totalmente sincero e possa tentar iludi-lo(a).

Lembre-se de que não há qualquer vantagem em criar uma personagem. Foque-se na minoria que lhe interessa.

Seja honesto(a) também nas fotografias. Não vale a pena publicar uma foto de há 10 ou 15 anos. A desilusão será maior.

Quando é que se deve marcar um encontro presencial?


Cada pessoa sabe de si, naturalmente, mas, de uma maneira geral, é desejável que ninguém gaste muito tempo a investir numa relação cuja comunicação seja apenas digital. A nossa comunicação é, sobretudo, não-verbal. Revelamo-nos muito mais cara a cara do que através de qualquer texto.

Lembre-se de que é mais fácil avaliar se outra pessoa é ou não compatível consigo em 10 minutos de conversa cara a cara do que em várias horas de análise ao perfil digital.


Quando partir para esta etapa, lembre-se de garantir a sua segurança:

·         Combine o primeiro encontro num lugar público;
·         Partilhe a sua localização com um familiar ou um(a) amigo(a);
·         Evite partilhar informações que possam ser utilizadas de forma abusiva.
·        Defina bem os seus limites. Seja claro(a) em relação a qualquer comportamento que considere inapropriado.
Ainda em relação a este primeiro encontro, é importante que procure criar condições para que ninguém se sinta (muito) pressionado:
·         Combine uma ATIVIDADE. Fazer qualquer que permita que ambos se mantenham entretidos, ainda que haja espaço para a conversa, é meio caminho para aliviar a pressão.
·         Não leve tudo demasiado a sério. Sim, você está à procura de uma relação amorosa, mas não encare um primeiro encontro como entrevista de emprego. Procure, sobretudo, avaliar se gostaria de voltar a encontrar-se com esta pessoa uma segunda vez (e não tente perceber logo se ele(a) é a pessoa certa para passar o resto da vida ao seu lado).
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