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27.2.25

Ansioso, evitante ou seguro? Como o estilo de vinculação influencia a sua relação

 


Quando a Susana está numa relação, vive com medo que o namorado a deixe – basta um emoji diferente no chat para ela entrar em pânico. Já o Tiago, assim que a namorada começa a falar em viverem juntos, sente um frio na barriga e começa a arranjar desculpas para se distanciar. Duas atitudes opostas, mas ambas comuns em relacionamentos amorosos. A raiz pode estar nos diferentes estilos de vinculação amorosa (ou estilos de apego) de cada um.

A teoria da vinculação, desenvolvida por psicólogos, explica que as nossas primeiras experiências de amor – lá atrás na infância, com os nossos cuidadores – moldam a forma como nos ligamos aos outros em adultos. Simplificando, tendemos a desenvolver um de três estilos principais: ansioso, evitante ou seguro. Nenhum estilo é “defeito” seu, são adaptações que fizemos para sobreviver emocionalmente. Mas podem afetar (e muito) a sua vida de casal hoje.

Vamos descobrir em que perfil você (ou o seu parceiro) se encaixa?

Estilo Ansioso: o medo de não ser amada

Quem tem um apego ansioso anseia por proximidade e tem um medo profundo do abandono. Amor e ansiedade andam lado a lado, o que pode ser extremamente desgastante. Algumas características típicas de uma pessoa com estilo ansioso:

  • Hipersensibilidade a sinais do parceiro: Repara em cada pequena mudança de tom de voz, olhar ou mensagem. Se o outro parece mais calado num dia, já imagina que o amor esfriou.
  • Necessidade constante de reafirmação: “Tu amas-me mesmo?” poderia ser o lema. Precisa de frequentes demonstrações de afeto e segurança de que está tudo bem na relação.
  • Medo de expressar necessidades: Ironicamente, quem tem medo de ser abandonado às vezes evita falar do que o incomoda, com receio de afastar o parceiro. Engole sapos e finge que está tudo bem para manter a paz.
  • Comportamentos de protesto: Quando se sente insegura, pode acabar por fazer “joguinhos” (mesmo sem querer). Por exemplo, demorar de propósito a responder a uma mensagem para ver se o outro se preocupa, ou mostrar ciúmes exagerados para testar o quanto ele se importa.

Por trás do estilo ansioso há, muitas vezes, a crença de não ser suficientemente boa ou de que vai acabar sozinha. Essas pessoas dão tudo de si na relação amorosa, mas às vezes esquecem de dar valor a si próprias. A boa notícia? Com consciência e trabalho interior (muitas vezes em terapia), é possível acalmar essas inseguranças e criar ligações mais seguras. Aliás, ao ganhar confiança em si, deixa de precisar de “joguinhos” para chamar a atenção do parceiro, construindo interações mais honestas.

Estilo Evitante: o medo de perder a liberdade

No outro extremo, o estilo evitante valoriza tanto a independência que a intimidade profunda pode assustar. Pessoas evitantes desejam amor como qualquer outra pessoa, mas o excesso de proximidade aciona um alarme interno de que estão a ser “sufocadas” ou de que vão perder a autonomia.

Características comuns de um perfil evitante:

  • Precisa de espaço (muito espaço): Gosta de estar num relacionamento, mas se o parceiro começa a exigir mais tempo ou compromisso, sente necessidade de se afastar para “respirar”.
  • Dificuldade em expressar vulnerabilidade: Falar sobre sentimentos profundos ou necessidades emocionais não é confortável. Prefere evitar essas conversas ou tratá-las de forma racional, quase como se as emoções fossem um incómodo.
  • Tendência a focar-se nos defeitos do parceiro: Inconscientemente, pode sabotar a intimidade arranjando defeitos no outro quando a relação se aprofunda. Pensamentos do tipo “ela é ótima, mas não é bem perfeita para mim” funcionam como desculpa para manter alguma distância.
  • Autossuficiência extrema: Orgulha-se de ser independente. Em momentos de stress ou conflito, retira-se para dentro de si em vez de buscar apoio. Para o parceiro, parece frio ou indiferente.

Quem é evitante nem sempre percebe o quanto magoa o outro com o vai-e-vem emocional. Provavelmente, lá atrás, aprendeu que depender de alguém acaba em dor – então decidiu “não precisar” de ninguém. O desafio é entender que deixar alguém entrar não significa perder a identidade. Com paciência e possivelmente ajuda profissional, um evitante pode equilibrar independência e intimidade.

Estilo Seguro: o equilíbrio saudável

O estilo seguro é aquele com que todos nascemos potencialmente, e muitos conseguem desenvolver – normalmente fruto de ter recebido cuidados consistentes e afeto na medida certa em criança. Adultos com um estilo de vinculação seguro têm um equilíbrio saudável entre proximidade e autonomia.

Como os podemos reconhecer?

  • Confortáveis com a intimidade: Gostam de estar próximos, mas também não se afligem quando há espaço ou momentos a sós. Conseguem dar e receber amor sem drama excessivo.
  • Comunicação clara e empática: Expressam o que sentem (para o bem e para o mal) de forma respeitosa. Se algo os incomoda, falam diretamente sem acusar; se estão chateados, conseguem ouvir o outro sem explodir ou fugir.
  • Confiança e suporte mútuo: Tendem a confiar no parceiro e a ser confiáveis. Não fazem jogos para testar o amor. Também aceitam bem os “nãos” do outro, sem interpretar isso como rejeição pessoal devastadora.

Estar com alguém seguro é muitas vezes descrito como “fácil” (no bom sentido!). Há menos adivinhações e mais certeza. Mas atenção: ser seguro não significa não precisar de esforço; apenas torna a navegação da vida a dois mais suave.

Podemos mudar nosso estilo de vinculação?

Sim! A melhor notícia de todas é que os estilos de vinculação não são uma sentença perpétua. São padrões aprendidos, e qualquer coisa aprendida pode ser ajustada. Uma pessoa ansiosa pode tornar-se mais segura ao aprender a acalmar os seus medos e a fortalecer a autoestima. Um evitante pode, gradualmente, sentir-se mais confortável em depender de quem merece confiança.

As relações com pessoas seguras ajudam muito porque“reeducam” o nosso coração a confiar. Além disso, a própria terapia de casal ou individual é um espaço onde podemos explorar essas feridas antigas num contexto seguro. Com autoconhecimento e prática, é possível construir relacionamentos mais seguros mesmo que o seu ponto de partida tenha sido ansioso ou evitante.

No fim das contas, conhecer o seu estilo de vinculação é uma ferramenta poderosa. Ajuda a explicar, por exemplo, porque é que entra em pânico se a outra pessoa se afasta um pouco, ou porque sente vontade de fugir quando alguém chega perto demais. Essa consciência é o primeiro passo para mudar o que for preciso e aproximar-se do equilíbrio ideal: nem medo do abandono, nem medo de compromisso – apenas um amor em que a confiança e a autonomia caminham de mãos dadas.

11.2.21

COMO AUMENTAR A RESILIÊNCIA

 

Como aumentar a Resiliência

Todas as pessoas passam por situações difíceis ou até traumáticas, mas, na maioria das vezes, têm a capacidade de seguir em frente. O que é que nos permite levantar e arregaçar as mangas de cada vez que caímos? Porque é que há pessoas mais resilientes do que outras? Como é que podemos desenvolver a resiliência?


O que é a resiliência?


A resiliência é a capacidade de nos adaptarmos às situações mais stressantes e desafiadoras da vida. Ao contrário do que possamos imaginar, a maioria das pessoas são resilientes. Claro que um simples olhar à nossa volta nos mostra que há pessoas mais resilientes do que outras. Todos conhecemos pessoas que fazem um drama à menor contrariedade e outras que mostram uma capacidade incrível de se reerguer mesmo nas maiores adversidades. Quando olhamos para desafios intensos como o diagnóstico de um cancro, a perda de emprego ou um divórcio, é evidente que se trata de marcos muito significativos capazes de abalar a felicidade e a estabilidade da maioria das pessoas. Mas também é claro que a maior parte das pessoas que conhecemos acabam por ultrapassar estes desafios, adaptando-se e reerguendo-se.


Podemos desenvolver a resiliência?


Os estudos sobre a Psicologia positiva evoluíram muito nas últimas décadas e contribuíram para o conhecimento que hoje temos sobre este tema. A resiliência está diretamente relacionada com níveis mais elevados de autoconfiança, bom humor, e uma imagem positiva de nós mesmos e a boa notícia é que podemos desenvolvê-la em qualquer momento da nossa vida.


Dicas para desenvolver a resiliência


1.       Conte com o apoio dos outros.


Perante um problema difícil, pode ser tentador fechar-se na sua concha e contar apenas consigo mesmo. As pessoas que cresceram por sua conta, sem sentirem que pudessem confiar ou contar com os adultos à sua volta, podem sentir maior dificuldade em vulnerabilizar-se, confiar nos outros ou pedir apoio. É importante que tenhamos compaixão pelas nossas vulnerabilidades, pelas nossas feridas emocionais, mas que não permitamos que elas se cristalizem e nos impeçam de explorar novos caminhos.


Se tem dificuldade em pedir apoio ou em confiar

nos outros, é porque em algum momento da sua

vida houve a necessidade de esse mecanismo de

defesa surgir, mas isso não significa que hoje não

haja ninguém que seja merecedor da sua confiança.




Desabafar e contar com o apoio dos outros é um meio importante para nos sentirmos amparados e conseguirmos enfrentar com resiliência as adversidades.

 

2.       Olhe para os problemas com flexibilidade.


Não podemos mudar aquilo que nos aconteceu no passado nem podemos mudar alguns acontecimentos do presente, mas podemos mudar a forma como olhamos e reagimos a todos estes eventos. Quando olhamos para trás e identificamos os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, temos, pelo menos, duas alternativas. Uma é vitimizarmo-nos, olhar para nós mesmos como coitadinhos, olhar para os acontecimentos como catástrofes em relação às quais nada podemos fazer, olhar para os traumas como inultrapassáveis e para as pessoas que causaram esses traumas como monstros. A outra é olhar para os acontecimentos com abertura e curiosidade e olhar para as pessoas à nossa volta com compaixão, reconhecer as suas próprias vulnerabilidades e o sentido de humanidade comum que está associado à certeza de que cada pessoa faz, num dado momento, o melhor que sabe. De uma maneira geral, esta abordagem ajuda-nos a reconhecer também o lado mais positivo de cada evento negativo. Por exemplo, as pessoas que cresceram com um progenitor alcoólico serão mais resilientes na medida em que sejam capazes de perceber que a forma como esse progenitor cresceu e a forma como recebeu (ou não recebeu) o amor dos seus cuidadores condicionou a estruturação da sua personalidade. Esta compaixão abre espaço para que consigam reparar nos gestos daquele progenitor que mostram afeto, apesar de todas as feridas emocionais.


Quando enfrentamos uma adversidade, podemos olhar para ela como um castigo, interrogando-nos sobre o mal que fizemos para merecer tal catástrofe ou podemos olhar para esse acontecimento com abertura e curiosidade, questionando-nos sobre o que está ao nosso alcance e/ou que lições podemos aprender.



3.       Aceite que o sofrimento faz parte da vida.


«Shit happens», já ouviu dizer? Quando nos confrontamos com uma adversidade, é fácil questionar «Porquê eu? Porque é que isto me aconteceu?», mas a verdade é que a pergunta mais razoável é «E porque não eu?». Olhe à sua volta: conhece alguém que nunca tenha passado por dificuldades sérias? Talvez lhe ocorra responder que sim. Afinal, todos conhecemos pessoas a quem a vida parece estar sempre a sorrir. Ou será que são sobretudo pessoas que assumem uma postura otimista em relação à vida?


Não há um único ser humano adulto que nunca tenha enfrentado uma dificuldade séria – um divórcio, um problema de infertilidade, uma traição, a perda de emprego, o alcoolismo de um familiar, uma doença séria, a perda de um ente querido. Uma das coisas que diferencia as pessoas resilientes é a aceitação de que o sofrimento faz parte da vida. É também por isso que elas arregaçam as mangas mais rapidamente, em vez de perderem tempo a vitimizar-se. Elas não precisam de ver o vizinho a sofrer para reconhecerem a humanidade comum que as liga às outras pessoas. Elas não olham para um momento de dor como uma tragédia que as exclui do direito à vida perfeita que as outras pessoas mostram no Instagram.


Aceitar o seu sofrimento não significa alimentar quaisquer sentimentos de pena de si próprio(a). Significa, isso sim, reconhecer que as tragédias acontecem e que a forma como você responde a essas tragédias vai influenciar (muito) o seu bem-estar. Aceitar que o sofrimento faz parte da existência humana ajuda-nos a reconhecer que, nos momentos difíceis, as escolhas que fazemos podem ajudar-nos a afundar ou a nadar até à tona.


4.       Enfrente os problemas de forma ativa e direta, em vez de os evitar.


Enfiar a cabeça na almofada é um direito seu, pelo menos na medida em que essa seja uma escolha transitória e uma forma de permitir a si mesmo(a) sentir a dua dor. Mas esta opção deixa de ser uma alternativa saudável na medida em que se transforme na única resposta aos problemas. Quanto mais evitarmos confrontar-nos com os nossos problemas, maior é a probabilidade de eles se transformarem em bichos papões que pareçam cada vez mais difíceis de ultrapassar. Enfrentar os problemas, dar-lhes um nome e fazer um plano para lidar com eles é a melhor forma de voltar a sentir que tem controlo sobre a sua vida.

 

5.       Liberte a sua ansiedade.


Cada pessoa tem a sua própria forma de lidar com a ansiedade, mas há escolhas que são mais saudáveis do que outras. As pessoas que se disciplinam no sentido de incluir na sua rotina hábitos como a meditação, a prática de exercício físico ou a realização de hobbies que as ajudem a desconectar-se dos problemas e a descontrair, costumam enfrentar as adversidades com maior resiliência.


6.       Identifique o seu propósito.


A vida leva-nos muitas vezes a um piloto automático em que dificilmente paramos para prestar atenção às coisas que mais valorizamos. Quando estamos demasiado acelerados pelo ritmo frenético das nossas vidas, é fácil sentirmo-nos assoberbados, stressados e frustrados. Parar para prestar atenção às coisas (e às pessoas) que mais valorizamos – praticando ativamente a gratidão, por exemplo – pode ajudar-nos a reconhecer com maior clareza o nosso propósito de vida e a definir objetivos que genuinamente nos aproximem de uma vida mais feliz.


7.       Crie tempo para a brincadeira.


Se quisermos ver uma criança feliz, é só criarmos espaço para que ela tenha a oportunidade de brincar, de preferência acompanhada. Brinquedos + companhia = diversão. Às vezes, nem sequer é preciso que haja brinquedos de verdade. Já reparou como duas crianças se podem divertir com caixas velhas enquanto fingem que se trata de carros em competição? Ou como brincam aos médicos mesmo quando não têm qualquer equipamento que se assemelhe a um estetoscópio? A imaginação e a companhia são o suficiente.


Os adultos também precisam – muito – da brincadeira. Somos muito mais felizes e resilientes na medida em que consigamos incluir nas nossas rotinas tempo para descontrair junto das pessoas de quem gostamos.



E este hábito é ainda mais importante e terapêutico nos períodos de maior stress. Lembre-se disso da próxima vez que disser que não tem tido tempo para fazer as coisas de que gosta.


8.       Foque-se naquilo que pode mudar.


Somos muito bons a identificar as ameaças. Na verdade, o nosso cérebro está altamente programado para isso. Este mecanismo de sobrevivência é essencial nas situações em que a nossa sobrevivência está em causa, como quando estamos na presença de um animal feroz. A questão é que a nossa vida não está sistematicamente em risco.


Quando focamos toda a nossa atenção naquilo

que não controlamos, estamos a desperdiçar a nossa

energia e, mais importante do que isso, estamos a

desperdiçar a oportunidade de canalizar a nossa

atenção para aquilo que podemos mudar.


Por exemplo, quando um pai ou uma mãe perde um filho, é evidente que o seu mundo muda para sempre. A morte é irreversível e deixa-nos com um sentimento de impotência brutal. Não é por acaso que diversos estudos mostram que a prevalência do divórcio é altíssima depois de um acontecimento como este. Mas a verdade é que há muitos casais que se mantêm unidos e cuja relação prospera, apesar de terem enfrentado a maior das adversidades. Estes casais conseguem perceber que aquilo que perderam não tem de lhes roubar aquilo que ficou.  Eles conseguem sentir-se gratos por aquilo que ainda têm e conseguem centrar a sua atenção naquilo que podem fazer para manter aquilo que têm. Esta postura – de praticar a gratidão e de centrar a atenção naquilo que podemos mudar – é aplicável a todas as tragédias da vida.


9.       Pergunte a si mesmo(a): «As escolhas que estou a fazer são boas para mim?».


Se tiver acabado de ser deixado(a) e estiver a passar por um divórcio, é natural que queira seguir todos os passos do(a) seu(sua) ex-companheiro(a). Talvez passe horas nas redes sociais na tentativa de saber se ele(a) tem alguém ou simplesmente para saber se está online. Mas será que essas escolhas lhe fazem bem? Será que o(a) ajudam a ficar melhor? Nem sempre conseguimos fazer as escolhas que nos protegem ou que promovem o nosso bem-estar. Às vezes até sabemos exatamente o que é que “deveríamos” estar a fazer, mas não é essa a nossa escolha. Há uma diferença entre sabermos o que nos faz bem e sermos capazes de nos comprometermos com essa escolha. Mas se formos capazes de trazer esta pergunta para o nosso dia-a-dia, aumenta a probabilidade de sermos genuinamente gentis connosco próprios.


Isto é aplicável às mais diversas adversidades e a pergunta pode assumir diferentes formatos:


Será que eu preciso mesmo de comprar isto?

Será que é bom para mim deixar de ir ao ginásio e ficar fechada em casa a sofrer por amor?

Será que me faz bem ir todas as semanas ao cemitério?

Será que me faz bem alimentar pensamentos como «Nunca vais ser capaz de conseguir aquele emprego»?

Será que me faz bem “googlar” sobre doenças?


10.   Reconheça a sua força.


Olhe para trás e repare na forma como respondeu às diferentes adversidades com que já se confrontou. Que características o(a) ajudaram a ultrapassar esses acontecimentos? Que escolhas contribuíram para que não se afundasse?


Quando olhamos para os acontecimentos mais difíceis da nossa vida, é natural que as recordações estejam maioritariamente relacionadas com os sentimentos desconfortáveis por que passámos, com o sofrimento vivido. Mas a esmagadora maioria destas situações foram ultrapassadas graças à nossa resiliência, às escolhas que fizemos e que também traduzem a nossa força. Por outro lado, estes acontecimentos também acrescentam invariavelmente uma dose considerável de crescimento pessoal. Há competências que nem sequer sabíamos que tínhamos e/ou que foram aprimoradas na resposta às dificuldades. Há aprendizagens que jamais teríamos feito se não tivéssemos passado por certos eventos. Sermos capazes de reconhecer a nossa força, as características que nos ajudam a enfrentar as dificuldades, é fundamental para que reconheçamos a resiliência que há em nós para lidar com o que está por vir.

9.7.20

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

Família disfuncional


Quais são as características de uma família disfuncional? E quais são as respostas que devemos procurar quando damos conta de que crescemos numa família disfuncional?


Ouço muitas vezes no meu trabalho com adultos a frase “Cresci numa família disfuncional”. Na maior parte das vezes, a expressão refere-se aos problemas familiares que deixaram marcas profundas, mas nem sempre se trata de famílias com as características de uma família disfuncional.


Quais são as características de uma família disfuncional?


#1: ABUSOS


Nem todas as famílias disfuncionais são caracterizadas pela existência de abusos físicos ou sexuais, mas este é um sinal indiscutível de disfuncionalidade. Para além de todas as consequências que se prolongam pela vida fora, aquilo que observamos nestas famílias é a “normalização” dos abusos.


Já todos ouvimos frases como «Eu apanhei do meu pai/ da minha mãe e estou aqui», como se a sobrevivência fosse sinal de saúde mental.


As crianças que crescem habituadas à violência física tomam esse exemplo como “normal”.


As pessoas que dão afeto e atenção são as mesmas que agridem, às vezes de forma brutal.


Em muitos destes casos, é só na idade adulta que a pessoa se dá conta de que foi alvo de comportamentos abusivos – às vezes essa perceção no contexto de uma relação amorosa, noutros casos surge em terapia.


#2: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A violência emocional pode assumir muitas formas. É por isso que às vezes pode ser difícil reconhecer um comportamento como uma forma de abuso emocional. Ser-se emocionalmente violento não é apenas gritar e insultar. De resto, a maior parte dos exemplos de violência emocional a que acedo no meu trabalho com famílias não incluem quaisquer insultos.


São exemplos de violência emocional (e da disfuncionalidade de uma família):

Ignorar as necessidades (físicas ou emocionais dos filhos);

Retirar o afeto à criança quando não vai ao encontro da vontade do adulto;

Hipercrítica (humilhações);

Fazer ameaças;


#3: AMOR CONDICIONAL


Hoje em dia estamos muito familiarizados com o conceito de amor incondicional. A maior parte dos pais e mães que tenho conhecido dão o seu melhor para que os filhos saibam que são merecedores de amor independentemente das suas opções. Mas há muitos adultos que cresceram num ambiente familiar tão exigente que a sensação era a de que estavam sistematicamente “aquém” das expectativas.


Nas famílias disfuncionais é frequente os adultos mostrarem desilusão a propósito das escolhas dos filhos – não porque eles tenham cometido erros, mas porque contrariaram a vontade dos pais.


Quando os filhos não fazem aquilo que os pais gostariam que eles fizessem, o amor é “retirado”. Na prática, continua a haver comunicação, mas é mais “seca” e desprovida de afeto.


Estas crianças transformam-se frequentemente em “people pleasers”, isto é, em adultos preocupados em agradar a toda a gente, negligenciando os próprios sentimentos e as próprias necessidades.


#4: INEXISTÊNCIA DE FRONTEIRAS


Nas famílias disfuncionais a invasão da privacidade dos filhos é uma constante. O espaço físico (quarto) é invadido, mesmo quando os filhos já são adolescentes ou adultos e a correspondência é frequentemente violada. Mais do que isso: os pais podem sentir-se no direito de tomar decisões em nome dos filhos, mesmo quando estes já têm autonomia para tomar as próprias decisões.


A inexistência de fronteiras também faz com que os pais partilhem demasiadas informações com os filhos, transformando-os em confidentes desde muito cedo. Aquilo que acontece é que os filhos são confrontados com assuntos que só deveriam dizer respeito aos pais e sentem-se muitas vezes obrigados a proteger os progenitores (ou um deles), a tomar decisões e a fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar a resolver os problemas.


Em Psicologia há um nome para estas crianças: são crianças parentificadas, que assumem desde cedo responsabilidades que deveriam recair sobre os ombros dos adultos.



# 5: INEXISTÊNCIA DE COESÃO E INTIMIDADE


Por estranho que pareça, nas famílias disfuncionais não há muita intimidade. Há normalmente um grande emaranhamento, resultante da inexistência de fronteiras. Toda a gente se mete na vida de toda a gente, o que pode ser confundido com coesão familiar. Claro que também pode haver genuína preocupação, mas, de uma maneira geral, os membros da família sentem-se pouco confortáveis com a ideia de partilharem os seus sentimentos mais íntimos uns com os outros. Na prática, não há a devida valorização dos sentimentos ou das necessidades de cada um, não há o devido respeito e, em função disso, torna-se mais difícil falar abertamente e criar verdadeira intimidade.


#6: TRIANGULAÇÃO


Nas famílias saudáveis os assuntos são resolvidos de-um-para-um. Cada pessoa sente-se confortável para manifestar aquilo que sente, para se queixar e até para discutir. Nas famílias disfuncionais é frequente a existência de triangulações. Na prática, quando uma pessoa se zanga com outro membro da família, opta por falar com um terceiro membro em vez de resolver o assunto diretamente. Por exemplo, se a mãe se zangar com o pai, é capaz de ir falar mal do pai junto do filho e até é capaz de o pressionar no sentido de enviar recados. Este padrão relacional tende a eternizar-se e os filhos rapidamente aprendem a fazer o mesmo.


Quando existem estas alianças perversas, há, pelo menos, duas consequências negativas: por um lado, os problemas dificilmente são resolvidos e, por outro, a confiança nos membros da família é muito diminuta.


#7: COMPORTAMENTOS ADITIVOS


Nas famílias disfuncionais encontramos frequentemente o consumo abusivo de álcool e drogas e o vício do jogo. Estes comportamentos trazem muita instabilidade para toda a família. Os filhos crescem quase sempre com muita incerteza e transformam-se quase sempre em crianças (e mais tarde adultos) hipervigilantes e ansiosos. É como se nunca soubessem com o que podem contar, como se nunca tivessem a certeza de que, ao chegar a casa, encontrarão um ambiente tranquilo ou o caos.


Nestas famílias é comum haver muitos gritos, muita violência.

 

Que respostas existem para as famílias disfuncionais?


A família em que crescemos oferece-nos os primeiros conceitos de normalidade. É junto dos nossos pais e familiares mais próximos que interiorizamos, pelo exemplo, o que é normal e o que não é normal. Mas à medida que crescemos e, sobretudo, à medida que construímos outras relações afetivas, vamo-nos dando conta dos erros que os nossos pais e outros cuidadores cometeram.


As pessoas que cresceram numa família disfuncional muitas vezes só se apercebem dessa disfuncionalidade na idade adulta. Às vezes, essa perceção surge na sequência dos problemas existentes na relação conjugal. Noutros casos, surge na sequência de um pedido de ajuda em resposta a uma perturbação ansiosa ou depressiva.



A terapia é invariavelmente um porto seguro

 através do qual o adulto que cresceu numa família disfuncional

tem oportunidade de identificar e tratar as feridas

emocionais que ficaram desse período.




De uma maneira geral, esse processo implica a recuperação da própria voz.


Estas pessoas habituaram-se a conter (ou anular) os próprios sentimentos e pode levar algum tempo até que aprendam a fazê-lo de forma autêntica e assertiva.


Por outro lado, as marcas que ficam afetam quase sempre o amor-próprio, pelo que há um trabalho a ser feito para que a pessoa interiorize que é merecedora de amor e possa fazer escolhas que permitam construir relações emocionalmente saudáveis.


Claro que este trabalho terapêutico também depende da capacidade de reconhecer que é preciso algum afastamento em relação aos comportamentos tóxicos. Na prática, isto pode ser muito difícil porque se trata de adultos que passaram a vida inteira a desvalorizar as próprias necessidades e a sentir a obrigação de agradar aos outros. Reconhecer que têm o direito de se afastar destes comportamentos não é sempre fácil, mas é essencial.


A recuperação também implica o reconhecimento dos padrões de relacionamento disfuncionais e a capacidade de romper com esses padrões, também para evitar que eles se reproduzam na família que se quer construir. É natural que, pelo meio, haja muitos sentimentos de culpa, que haja medo e incerteza, mas, no final, compensa muito.


Todo este processo depende do reconhecimento de que vamos sempre a tempo de melhorar a nossa vida, MAS só podemos mudar o nosso comportamento. Por muito que custe aceitar, não podemos mudar as pessoas de quem gostamos. Podemos, isso sim, relacionar-nos com elas de formas mais saudáveis e protetoras do nosso bem-estar.


6.7.20

CONVERSAS DE CASAL PARA REDUZIR O STRESS

Conversas de casal para reduzir o stress

Sabia que as conversas a dois podem ser autênticos ansiolíticos para lidar com o stress? É verdade. Os casais felizes cultivam o hábito de conversar diariamente sobre aquilo que mexe com cada um e utilizam algumas estratégias para lidar (a dois) com o stress. Por outro lado, há quem chegue a casa diariamente e receba tudo menos o apoio de que precisa. Afinal, o que é que é preciso para que estas conversas diárias nos ajudem a reduzir o stress?


Não sei se já lhe aconteceu, mas quase todos os dias ouço alguém dizer-me que se sente incompreendido(a) pelo(a) companheiro(a). Na maioria das vezes são pessoas que se sentem desamparadas na relação conjugal – ou porque a pessoa que está ao seu lado não presta atenção, ou porque não valoriza os seus sentimentos ou, pior, porque critica em vez de apoiar. Não vale a pena precipitarmo-nos a julgar. A verdade é que, em algum momento, já todos falhámos nesta matéria. Nem sempre é fácil estarmos exatamente no mesmo comprimento de onda que o(a) nosso(a) companheiro(a) e, na azáfama dos dias, há alturas em que estamos tão absorvidos pelas nossas próprias inquietações (ou prazeres) que acabamos por não conseguir estar tão disponíveis para a pessoa que amamos.


Claro que uma coisa é “falhar” a título excecional e outra, bem diferente, é estarmos sistematicamente indisponíveis.


O momento certo para conversar a dois


Quando chega a casa, o que é que prefere? Parar, sozinho(a), durante alguns minutos para “desligar” do stress do trabalho e só depois conversar com a pessoa de quem gosta? Ou é daquelas pessoas que entra em casa pronto(a) para “descarregar” tudo aquilo que lhe aconteceu?


Pessoas diferentes têm necessidades diferentes. E está tudo bem. Pelo menos, na medida em que essas diferenças não se transformem em braços-de-ferro. Se os membros do casal respeitarem as diferenças, é mais provável que encontrem uma solução de compromisso a propósito do momento mais ajustado para que estas conversas aconteçam.


Às vezes, estas conversas a dois acontecem ao longo do jantar, com o “ruído de fundo” das crianças, da televisão e de outras distrações. Noutras, acontecem ao serão, na cama. O importante é que nos disciplinemos para que aconteçam e que aceitemos as limitações e imperfeições da vida no dia-a-dia.


Ao contrário do que possamos idealizar, a maior parte dos casais não têm tempo para conversar diariamente acompanhados de um copo de vinho num ambiente sossegado sem interrupções.



Para que servem estas conversas de casal?


Para descomprimir a dois. Para criar uma sensação de união e pertença. Para que nos sintamos amparados.


As conversas a dois que acontecem habitualmente no final de cada dia são um dos “segredos” dos casais mais felizes. Acontecem praticamente todos os dias e permitem que cada um se sinta visto, compreendido e amado. São autênticos “calmantes” naturais que nos ajudam a perceber que é ao lado da pessoa que escolhemos que nos sentimos mais relaxados. Num dia normal são precisos 20 a 30 minutos para estas conversas.


Mas é preciso ter atenção ao propósito destas conversas e a tudo aquilo que elas Não são! Estas conversas diárias a dois NÃO servem para falar sobre os problemas da relação.


Na verdade, em 99% das vezes estas conversas não são sobre a relação. São conversas sobre todas as pequenas e grandes coisas que mexem com cada um dos membros do casal ao longo do dia. São uma espécie de atualização diária a respeito daquilo que vai acontecendo quando os membros do casal não estão juntos. Claro que a ideia não é apenas a de cada um fazer um relatório do seu dia. A intenção é a de partilhar, acolher, demonstrar interesse, apoiar e incentivar.


Se pensarmos naquilo de que precisamos quando escolhemos desabafar com alguém, é fácil perceber o papel de quem está do outro lado. De uma maneira geral, quando falamos sobre aquilo que mexe connosco, seja pela positiva ou pela negativa, gostamos de:


Perceber que a outra pessoa presta atenção;

Sentir o seu interesse / a sua curiosidade genuína;

Receber o seu apoio / colo;

Perceber o seu entusiasmo em relação ao que nos faz felizes.


No entanto, é quase sempre mais desafiante oferecermos tudo isto à pessoa que amamos. Pelo menos, de forma consistente. Quando ele/ ela comete algum erro ou passa por alguma dificuldade, nem sempre temos o discernimento para dar colo antes de dar um sermão. Quando os sonhos dele/dela colidem com as nossas necessidades nem sempre conseguimos mostrar entusiasmo, quanto mais incentivá-lo(a) a lutar pelos seus objetivos.


É por isso que é tão importante prestar atenção à forma como estamos a comunicar com a pessoa que amamos. É que se deixarmos que o piloto automático tome conta de nós, é muito fácil fazer escolhas que façam com que a pessoa de quem gostamos sinta que está a desabafar com o inimigo!


Como devem ser estas conversas de casal?


Se acha que é daqueles/daquelas que facilmente se enche de boas intenções, mas rapidamente se esquece daquilo que deve fazer, o melhor é apontar ou imprimir as seguintes “regras” e guardá-las num sítio onde seja provável que as releia (na porta do frigorífico?):


#1: ALTERNEM OS PAPÉIS.

Cada membro do casal deve ter (mais ou menos) o mesmo tempo para falar.

#2: NÃO DÊ CONSELHOS QUE NÃO LHE FORAM SOLICITADOS.

Se der rapidamente uma sugestão para o dilema do(a) seu(sua) companheiro(a), ele(a) poderá achar que você está a minimizar a situação. Na prática, você está a dizer «Isso não é assim tão complicado. Porque é que tu não…?».

 

Tente compreender a situação antes de oferecer sugestões.
 

É preciso que a pessoa que ama sinta que você compreende e empatiza com o dilema antes de sugerir uma solução. Por vezes, aquilo de que a outra pessoa precisa nem é de uma solução – basta-lhe que você seja um bom ouvinte, ou que ofereça o seu ombro. Existe uma significativa diferença de género nesta regra. Quando a mulher partilha os seus problemas com o marido, normalmente reage de um modo muito negativo quando ele lhe dá conselhos imediatamente. Em vez disso, ela quer ouvir que ele compreende a situação. Os homens são muito mais tolerantes perante as tentativas imediatas para resolver o problema. Ainda assim, se um homem partilhar com a mulher os seus problemas no trabalho, provavelmente preferirá que ela lhe demonstre empatia em vez de uma solução.

 

#3: MOSTRE INTERESSE GENUÍNO.

Não deixe que a sua mente divague. Centre-se naquilo que o(a) seu(sua) companheiro(a) está a dizer. Coloque questões. Olhe nos olhos.

#4: MOSTRE A SUA EMPATIA.

Deixe que a pessoa que ama saiba que compreende o que ela está a sentir: «Que frustração! Eu também ficaria em stress. Percebo porque é que te sentes assim».

#5: FIQUE DO LADO DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Isto implica dar apoio, mesmo que considere que a perspetiva dele(a) não é razoável. Não fique do lado oposto. Se o patrão da sua mulher implicou com ela porque chegou 5 minutos atrasada, não diga «Bem, não te deverias ter atrasado». Em vez disso, diga «Que chatice!». A ideia não é ser desonesto(a). A questão é que o timing é determinante. Quando o(a) seu(sua) companheiro(a) vem ter consigo à procura de apoio emocional (e não de conselhos), a sua função não é a de fazer juízos de valor ou a de lhe dizer o que fazer. A sua função é a de dizer «Estou aqui para ti».

#6: EXPRESSE O SEU AFETO.

Abrace o(a) seu(sua) companheiro(a), diga-lhe que o(a) ama.

#7: VALIDE AS EMOÇÕES DO(A) SEU(SUA) COMPANHEIRO(A).

Diga-lhe que aquelas emoções fazem sentido, que ele(a) tem o direito de se sentir “assim”: «Sim, isso é muito triste. Eu também ficaria preocupado(a)».



18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


15.4.20

COMO EVITAR O DIVÓRCIO EM TEMPO DE ISOLAMENTO E COVID-19

Como evitar o divórcio em tempo de pandemia

Como se pode evitar o divórcio em tempo de confinamento e Covid-19? Quais são as queixas e os medos dos casais nesta altura? E quais são os segredos para uma relação saudável e duradoura, quer em tempos normais, quer neste contexto de isolamento social? 


- Entrevista à revista LIFE, do Diário de Notícias -

Como se evita o divórcio nesta fase estranha e complicada por que estamos a passar? Há a perceção de que as alturas em que os casais passam mais tempo juntos são, de facto, propícias a que aconteça... Porque é que isto sucede, em primeiro lugar?


Os períodos em que os casais passam mais tempo juntos, como as férias ou o Natal, são quase sempre recheados de muitas expectativas porque representam a oportunidade de finalmente parar para relaxar em família. Aquilo que muitas vezes acontece é precisamente o oposto, o que ajuda a explicar por que há tantas separações e pedidos de ajuda terapêutica nos períodos subsequentes. Enquanto estamos ocupados com o trabalho, as tarefas domésticas, a escola e as atividades dos filhos acabamos por prestar menos atenção aos nossos sentimentos e necessidades ou aos sentimentos e às necessidades da pessoa que está ao nosso lado. As pausas em família põem a nu todos os vazios, todas as lacunas da relação. Às vezes, é nessas alturas que se descobre uma relação extraconjugal.



Quando as emoções tomam conta dos membros do casal (em vez de serem as pessoas a tomar conta das emoções), é mais provável que haja muitos momentos de tensão, discussões mais acesas e que quase tudo dê azo a um círculo vicioso em que ambos reclamam e ambos se sentem injustiçados. Nas férias há menos escapes, menos distrações, menos “balões de oxigénio” e é mais provável que ambos tenham muito tempo para remoer à volta do que cada um disse ou fez.

É fácil intuir que o isolamento provocado pelo COVID-19 reúne um conjunto de variáveis que tornam a convivência familiar potencialmente mais difícil do que quaisquer férias, desde logo pela dificuldade em sair para espairecer, conversar com outras pessoas, pensar noutros assuntos. Mas também pela ansiedade e pelo medo que estão associados a esta nova realidade. As pessoas não lidam todas da mesma maneira com a incerteza e isso pode ser em si mesmo gerador de algumas discussões.

Alguns casais confrontar-se-ão com problemas antigos, que acabarão por tornar-se incontornáveis com o isolamento forçado e isso pode trazer naturalmente angústia e discussões. Outros sentir-se-ão “atropelados” por uma imensidão de problemas, já que às dificuldades anteriores juntar-se-ão desafios de natureza financeira, incerteza em relação à manutenção do trabalho e preocupações com a saúde de familiares.

Mas haverá certamente quem consiga sair desta crise com a relação fortalecida. De resto, há inúmeros testemunhos de casais que se sentiram mais unidos na sequência de acontecimentos tremendamente difíceis.

Uma das ferramentas para evitar a escalada da tensão (e assim proteger a relação) consiste em reconhecer e verbalizar as emoções de forma clara, assertiva e compassiva.


Isto é evidentemente mais fácil de dizer do que fazer, mas é possível. Em primeiro lugar, é essencial que cada pessoa reconheça que – em tempos de Covid-19 ou outros quaisquer – tem o direito de sentir TUDO, mas não tem o direito de fazer TUDO. É natural que haja alturas em que nos sintamos furiosos, mas é desejável que não despejemos a nossa fúria na pessoa que está ao nosso lado. De uma maneira geral, a raiva é apenas a camada superficial. É a emoção que nos permite levar tudo à frente, mas é também aquela que mascara outras, que nos deixam mais expostos, mais vulneráveis, como a tristeza, o medo ou a solidão. Então, antes de darmos um par de berros ou de fazermos quaisquer acusações, é importante respirar fundo e permitirmo-nos parar. Se formos capazes de questionar «O que é que eu estou a sentir (para lá da raiva)?» e «Do que é que eu preciso», é mais provável que consigamos expressar os nossos sentimentos sem assumirmos uma postura agressiva. Aquilo que se pretende – e funciona – é que sejamos capazes de conseguir dizer «Preciso de ti» em vez de «Tu não fazes nada de jeito».

Por outro lado, é fundamental que nos permitamos parar para nos lembrarmos das qualidades da pessoa que está ao nosso lado, dos atributos que fizeram com que o(a) escolhêssemos. De uma maneira geral, a pessoa que está ao nosso lado é alguém que se preocupa genuinamente connosco, que deseja o melhor para nós e que é capaz de gestos altruístas. Por isso é que o(a) escolhemos, não é? Mas não é um robot, nem é perfeito(a). É alguém que também está certamente a dar o seu melhor nesta fase, ao mesmo tempo que se sente stressado(a), aflito(a), inseguro(a).

Uma postura compassiva implica que tentemos genuinamente colocar-nos na posição da pessoa que está ao nosso lado, que tentemos conhecer as suas preocupações, aquilo que o(a) inquieta e aquilo que lhe faz falta. Se formos capazes de ver verdadeiramente a pessoa que está ao nosso lado, de reconhecer e valorizar as suas emoções, é muito mais provável que ele(a) se sinta motivado(a) para responder com atenção e afeto aos nossos apelos – mesmo em tempos de isolamento.

Precisamente porque não somos perfeitos, é importante que a compaixão se estenda a nós próprios e nos permita aceitar que é natural que cometamos erros. Estamos a dar o nosso melhor, mas há demasiadas coisas para gerir. Quando erramos com a pessoa que está ao nosso lado, temos ao nosso alcance uma ferramenta valiosa e que, de uma maneira geral, distingue os casais felizes dos casais em crise: a capacidade para pedir desculpa. Não me refiro aos pedidos de desculpa feitos à pressa e que tenham apenas como objetivo aliviar a própria pressão. Refiro-me à genuína vontade de empatizar com a outra pessoa e de dar o primeiro passo, de forma altruísta, para voltar a ficar tudo bem. Trata-se de nos lembrarmos que é preferível tomar esta iniciativa e proteger a relação em vez de fazer um braço-de-ferro para provar que temos razão.

Não é um paradoxo os casais afastarem-se mais justamente quando estão juntos durante mais tempo? O que é que isto diz das nossas relações e dos tempos que vivemos?

Pode parecer um paradoxo, mas é na verdade perfeitamente compreensível. Somos seres sociais, estamos programados para construir laços afetivos, mas isso não significa que precisemos apenas de uma pessoa para sermos felizes. De resto, quase todos os casamentos em que isso acontece – isto é, quando uma pessoa alimenta a expectativa de que a outra seja responsável pela sua felicidade -, correm sérios riscos. Na prática, precisamos de uma “aldeia” inteira, quer para nos sentirmos felizes, quer para protegermos a nossa relação conjugal. Quando saímos com amigos, quando temos um grupo de pessoas com quem nos sentimos à vontade para conversar ou para praticar um deporto ou fazer qualquer outra coisa de que gostamos, estamos a alimentar a nossa individualidade e a retirar pressão dos ombros da pessoa que amamos.

Quando sabemos que há outras pessoas a quem podemos ligar num momento de aflição, sentimo-nos mais amparados e cobramos menos à pessoa que está ao nosso lado.


Pelo contrário, quando o cônjuge tem de ser o amante, o melhor amigo, o psicólogo, o confidente e o companheiro de todas as aventuras, há demasiada pressão.

A maior parte das relações precisam de uma certa “distância de segurança”, que permita que cada um se sinta com espaço para explorar os seus interesses e a sua individualidade ao mesmo tempo que acrescenta a novidade, a sedução, o mistério e a consciência de que a pessoa que está ao nosso lado nos escolheu, mas não é verdadeiramente nossa nem está garantida.

É também por isso que o isolamento forçado pela pandemia é uma fonte de desgaste, mesmo para os casais mais felizes e saudáveis.

Como se mantém um casamento saudável? Quais são os segredos para uma relação saudável e duradoura, quer em tempos normais, quer neste contexto de maior confinamento e isolamento social?


Como expliquei antes, é essencial que cada um tome conta das próprias emoções e aprenda a exterioriza-las de forma clara, sem ataques pessoais. Referi-me à escalada de tensão, mas aqueles que mais me preocupam são sempre os casais que não discutem. Tenho seguido alguns que simplesmente deixaram de deitar cá para fora aquilo que os incomodava, baixaram os braços e um dia perceberam que já não havia ligação.

Mesmo numa altura em que a maior parte das famílias estão fechadas em casa, é relativamente fácil que cada um passe muito tempo num canto e que a comunicação seja praticamente inexistente. Na verdade, muitas famílias já estavam habituadas a não confraternizar, nem sequer às refeições, preferindo o refúgio e a gratificação imediata das redes sociais.

Por isso, uma das coisas que proponho é que as famílias aproveitem este período para criar ou reforçar rituais que fomentem o relaxamento e a conexão. As refeições podem ser um ponto de partida para que a família se reúna para comer e partilhar os sentimentos. Nesta altura até pode parecer que não há nada para partilhar e que as novidades são praticamente inexistentes, mas aquilo de que cada um de nós precisa é de sentir que há quem se importe com aquilo que sentimos – seja a propósito do que for. Quando nos sentamos à mesa e dizemos «Não imaginas o que acabei de ler no Facebook», não precisamos de ouvir uma crítica ou de ver a pessoa que amamos a revirar os olhos num sinal de desprezo e desinteresse. Precisamos que ele(a) preste atenção, que se interesse.

As nossas ligações constroem-se na medida em que sejamos capazes de fazer escolhas altruístas, que impliquem que respondamos com atenção e afeto aos pequenos gestos ou pedidos de atenção.

Este período também pode ser ideal para criar novos hábitos de lazer, como os jogos de tabuleiro ou outros que nos permitam relaxar e dar algumas gargalhadas em família.

Por outro lado, é mesmo importante que não nos esqueçamos daquilo que caracteriza as relações de casal, distinguindo-as de todas as outras: a intimidade física. É evidente que o desejo sexual também pode ser afetado pela ansiedade provocada por esta pandemia, mas não há nada que nos impeça de manter os gestos de afeto e de mostrar à pessoa que amamos de forma clara e recorrente que a amamos.

Não há nada mais terapêutico do que o toque. Quando nos sentimos tocados com carinho, sentimo-nos mais seguros, mais otimistas.


Ainda do ponto de vista da intimidade sexual, é fundamental que cada um fale abertamente sobre aquilo que sente e aquilo de que precisa – para evitar equívocos e sentimentos de rejeição. Mas não basta assumir que a ansiedade está por detrás da diminuição do desejo. É preciso comprometermo-nos de maneira a que o sexo não desapareça das nossas vidas. É preciso criar momentos só para o casal, mesmo que seja depois de as crianças se deitarem. É preciso contrariar a vontade de andar de pijama o dia todo e investir no autocuidado. É preciso que cada um tenha algum tempo só para si e que haja espaço para a fantasia e para a imaginação.

Quais são as queixas, os pedidos, os medos, os desabafos que mais tem ouvido em consulta nos últimos tempos? O que é que pode ser pior do que o próprio coronavírus para os casais?

A maior parte das famílias estão a adaptar-se a um conjunto de novas rotinas. Do mesmo modo que este vírus veio expor as fragilidades dos diferentes sistemas de saúde, mas também já trouxe um investimento significativo em recursos que vão ficar cá para além desta crise, o mesmo pode acontecer com as famílias. Numa primeira fase, é natural que venham à tona as dificuldades e os vazios, mas o investimento de cada pessoa pode revelar-se valioso para o estreitamento dos laços.

Por enquanto vou ouvindo muitos desabafos relacionados com a incerteza em relação à situação profissional, queixas relacionadas com problemas de comunicação e falta de conexão e lamentos que têm a ver com o malabarismo que é tentar ser pai ou mãe, profissional, professor(a) e educador(a) de infância. Não é fácil gerir as exigências profissionais com a carga de trabalhos escolares e não é mesmo nada fácil combinar a privacidade que algumas reuniões por videoconferência exigem com as birras e solicitações das crianças pequenas.

Nas minhas consultas chamo muitas vezes a atenção para os efeitos terapêuticos de uma ferramenta que é a autocompaixão. Quando conseguimos dar-nos conta de que estamos a ser excessivamente duros connosco e substituímos esses pensamentos por um discurso genuinamente compassivo, sentimo-nos muito melhor.

Temos a obrigação de dar o nosso melhor para que o(a) nosso(a) companheiro(a) e os nossos filhos continuem a receber a nossa atenção plena e o nosso afeto, mas a vida não pode ser uma competição e nenhum de nós vai receber o título de “o(a) mais perfeito(a)”. Ouço alguns lamentos relacionados com aquilo que as famílias observam à sua volta através das redes sociais. Às vezes é tentador compararmo-nos com aquilo que vemos na montra do Facebook ou do Instagram e esquecermo-nos de que as fotografias que ali vão parar são um pequenino excerto da vida de cada um. Quase ninguém publica fotografias da casa virada do avesso ou das birras dos filhos, mas essa é, atualmente, a realidade da maior parte das famílias.

Não estamos todos nas mesmas circunstâncias e é evidente que há famílias que enfrentam mais dificuldades do que outras, mas se há algo que esta pandemia trouxe foi o lembrete da humanidade comum. O que quer que estejamos hoje a viver, está a ser partilhado, no mesmo instante, por milhões de pessoas. Sejamos genuinamente bondosos connosco e com a pessoa que escolhemos e este desafio será mais facilmente ultrapassado.
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