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26.2.25

Relação tóxica ou apenas difícil? Identifique os sinais de perigo

 


A Mariana sempre achou que tinha uma relação amorosa intensa, embora turbulenta. As amigas avisam: “Isso está muito tóxico!”. Ela hesita – afinal, ele nunca a agrediu fisicamente. Então será mesmo uma relação tóxica ou apenas uma fase má? Se você já se fez esta pergunta, saiba que não está sozinha. Entender a diferença entre um relacionamento saudável, um apenas difícil e um genuinamente tóxico pode ser a chave para proteger a sua saúde emocional.

O que é uma relação tóxica?

Uma relação tóxica é aquela em que, sistematicamente, um ou ambos os parceiros têm comportamentos que minam o bem-estar emocional do outro. Não se trata de uma discussão pontual ou de um período de stress; é um padrão repetitivo que a deixa insegura, ansiosa ou com a autoestima em baixo. Numa relação tóxica, em vez de se sentir apoiada e amada, sente-se em constante estado de alerta – como se tivesse de andar “a pisar em ovos” para evitar mais conflitos.

Importante: todas as relações passam por altos e baixos. Os desentendimentos acontecem mesmo nos casais felizes. A diferença é que, num relacionamento saudável, há respeito e responsabilidade mútua. Num relacionamento tóxico, o desrespeito torna-se rotina e um dos dois (ou ambos) acaba sempre por sair magoado.

Sinais de alerta numa relação amorosa tóxica

Como saber se é o seu caso? Cada história é única, mas muitos relacionamentos tóxicos apresentam sinais de alerta parecidos. Aqui estão alguns indicadores de que algo está errado:

  • Críticas e humilhações constantes: O seu parceiro rebaixa-a, faz piadas cruéis sobre si ou aponta muitos defeitos, mesmo em público.
  • Controlo e ciúmes exagerados: Ele quer saber onde você está a toda hora, não gosta que saia com amigas ou família, ou tenta controlar a forma como você se veste e o que faz.
  • Culpa e manipulação: Sempre que há um problema, a culpa magicamente recai sobre si. Você acaba por pedir desculpas só para evitar discussões.
  • Comunicação agressiva ou silêncio punitivo: As discussões rapidamente escalam para gritos, insultos ou até objetos atirados… Ou então ele faz exatamente o oposto: fica dias sem falar consigo como forma de castigo.
  • Você já não se reconhece: Sente que perdeu a confiança, a alegria ou amigos desde que está com essa pessoa. A sua energia vai toda para tentar agradar o outro e evitar conflitos, esquecendo-se de si mesma.
  • Ciclo vicioso de rompimento e reconciliação: Talvez vocês terminem e se reconciliem constantemente. Depois de cada discussão feia, vem um período de “lua-de-mel” em que ele promete mudar... mas pouco tempo depois tudo volta ao mesmo ciclo doloroso.

Se identificou vários destes sinais na sua relação, é provável que haja toxicidade envolvida. Muitas mulheres descrevem a sensação de “montanha-russa emocional”: momentos de afeto seguidos por momentos de tensão extrema, num loop exaustivo.

Nem tudo é narcisismo (mas continua a ser tóxico)

Nos últimos tempos ficou comum rotular qualquer parceiro difícil como “narcisista” ou “abusador”. Às vezes, a pessoa com quem você está pode não ter uma personalidade manipuladora de propósito, mas sim carregar feridas emocionais ou um estilo de vinculação complicado. Por exemplo, alguém muito frio e distante pode não o ser por maldade deliberada, mas porque tem um estilo de vinculação amorosa evitante ou traumas que o levam a erguer muros. Isso não desculpa comportamentos que a magoem – porém, entender a raiz pode ajudar a decidir o que fazer.

Pergunte a si mesma: Ele reconhece o impacto das próprias ações ou está sempre a virar o jogo e a fazer-se de vítima? Quando você expressa a sua dor, ele tenta escutar ou reage atacando? Os momentos bons parecem uma tentativa genuína de conexão ou só servem para mantê-la presa num ciclo de manipulação? As respostas a estas questões ajudam a clarificar se há esperança de mudança ou se está perante um padrão destrutivo.

Como quebrar o ciclo tóxico

Admitir que está numa relação tóxica não é fácil. Muitas vezes há vergonha (“Como é que eu deixei chegar a este ponto?”) e esperança de que “tudo melhore”. Mas ficar sozinha à espera de milagres raramente funciona. Aqui ficam alguns passos importantes a considerar:

  • Priorize a sua segurança emocional (e física): Em casos de abuso verbal ou físico, a prioridade número um é garantir que está segura. Isso pode implicar afastar-se temporariamente para ganhar clareza.
  • Quebre o isolamento: Relações tóxicas tendem a isolar-nos. Fale com alguém de confiança sobre o que está a viver – uma amiga, um familiar ou mesmo um terapeuta. Ouvir a perspetiva de fora ajuda a reforçar que não está louca ou “a exagerar”.
  • Estabeleça limites claros: Defina o que não vai mais aceitar. Pode ser falta de respeito nas discussões, invasão de privacidade, etc. Comunicar os seus limites é essencial, embora numa relação muito tóxica o outro possa ignorá-los – o que é, por si só, um sinal de alerta.
  • Considere procurar ajuda profissional: A terapia pode ser um espaço seguro para ganhar forças e compreender por que ficou presa neste ciclo. Um psicólogo ou a terapia de casal (se houver abertura dos dois) pode ajudar a mudar dinâmicas – mas note que, se o parceiro for mesmo abusivo e não reconhece erros, a terapia de casal pode não ser indicada. Nesses casos, a terapia individual para si pode ser mais útil.
  • Prepare um plano de saída (se necessário): Infelizmente, nem todas as relações tóxicas podem ser salvas. Se percebe que está a perder a sua saúde mental, pode ser altura de considerar terminar. Planeie com cuidado, principalmente se houver dependência financeira ou filhos envolvidos. Lembre-se: terminar não é um fracasso seu, é a libertação de um ciclo que não lhe faz bem.

Merece amor, não sofrimento

Ninguém inicia um relacionamento a pensar que vai acabar assim. Você merece uma relação onde se sinta amada, respeitada e segura. Identificar a toxicidade é o primeiro passo para recuperar o controlo da sua vida e do seu bem-estar. Pode ser que o seu parceiro aceite mudar e vocês consigam juntos transformar a relação. Mas se não, valorize-se o suficiente para escolher outro caminho.

Sair de uma relação tóxica requer coragem e apoio, mas a recompensa vale muito: reencontrar a paz, a autoestima e a possibilidade de um amor saudável. Afinal, amar não deveria nunca destruí-la. Cuide de si, reforce os seus limites e lembre-se de que não está sozinha – é possível reconstruir a vida e encontrar relações mais positivas.

22.9.21

SERÁ QUE ELE(A) MUDA?

Será que ele/a muda?


Quando gostamos de uma pessoa, mas não nos sentimos felizes na relação, agarramo-nos à esperança de que ele(a) mude e possamos voltar a ser felizes. Às vezes damos por nós a repetir os mesmos erros e a ter dúvidas. Será que ele(a) é capaz de mudar?

Quando nos sentimos infelizes numa relação, é provável que, mais cedo ou mais tarde, façamos um ultimato: «Ou tu mudas, ou a relação acaba». De uma maneira geral, estas palavras são fruto do cansaço, do desespero, da solidão e da mágoa, mas podem facilmente ser encaradas como uma manifestação de falta de amor. Afinal, já todos ouvimos dizer que «Amar é aceitar o outro como ele é» e que «Quem ama não tenta mudar o outro». Estes são clichês que são válidos para a maioria das relações, sobretudo quando falamos de alguns defeitos irritantes, mas inofensivos ou de hábitos de que não gostamos, mas que contribuem para a felicidade da pessoa que amamos.

Quando os comportamentos da pessoa que amamos nos magoam e/ou comprometem o nosso bem-estar e a nossa felicidade, é bom que nos queixemos, que demos voz ao nosso mal-estar e que ofereçamos à outra pessoa a oportunidade de fazer escolhas que nos ajudem a ser felizes. Isso é especialmente importante se se tratar de comportamentos abusivos, como a chantagem emocional, as humilhações, as ameaças ou as explosões. Nesse caso, é mesmo imperativo exigir um compromisso sólido com a mudança, sob pena de a nossa saúde emocional e a nossa autoestima ficarem comprometidas.

Quando a outra pessoa se sente aflita com o risco de a relação terminar e promete mudar, enchemo-nos de esperança num futuro melhor, mas a autenticidade demonstrada num momento de aflição pode dar lugar a uma mão cheia de nada e, então, voltamos a sentir-nos sem chão.


Será que as pessoas mudam (mesmo)?


A boa notícia é que as pessoas mudam. A má notícia é que isso dá trabalho.

Todos nos lembramos de colegas de escola que, no final do ano letivo, se mostravam genuinamente aflitos com a perspetiva de reprovar e que suplicavam aos professores para que lhes dessem nota positiva. Em muitos desses casos, a aflição era acompanhada de um conjunto de promessas que se desvaneciam no ano seguinte.



É fácil comprometermo-nos com a mudança, sobretudo quando há algo que valorizamos e que estejamos em risco de perder, mas algumas mudanças simplesmente vão requerer tempo e um grande investimento.



Como é que podemos saber que ele(a) está mesmo disposto(a) a mudar?


Só o tempo nos poderá dar certezas absolutas sobre o grau de compromisso de uma pessoa, mas há alguns sinais a que podemos estar atentos e que podem alimentar a esperança de que ele(a) mude:


Arrependimento genuíno.

Este é o primeiro passo para a mudança. Está longe de ser condição suficiente, mas é uma condição necessária. Se a pessoa de quem gosta estiver genuinamente arrependida, você vai perceber. O rosto dele(a) vai inundar-se de sofrimento e sentimentos de culpa. Esses sentimentos desconfortáveis são a alavanca para a mudança. Se, pelo contrário, a pessoa de quem gosta oscilar entre palavras de arrependimento e outras que, de forma explícita ou implícita, coloquem a responsabilidade do seu lado, é pouco provável que haja compromisso com a mudança. Por exemplo, se a pessoa que ama o(a) traiu e, depois de numa primeira fase se ter mostrado arrependido(a), passar a dizer que você tem de esquecer o assunto e seguir em frente, dificilmente estará genuinamente capaz de empatizar com o seu sofrimento ou de se comprometer com mudanças. Se ele(a) tiver comportamentos abusivos e, perante as suas queixas, for exclamando «Tu és demasiado sensível», é pouco provável que haja mudanças sólidas.


Há espaço para conversar sobre o que o(a) incomoda.

Quando a pessoa está genuinamente empenhada em mudar e fazê-lo(a) feliz, há disponibilidade para conversar sobre os assuntos geradores de mal-estar. Isso não significa que dê pulos de contentamento ou que mostre uma paciência de santo(a). Significa que mostra que quer mesmo saber do que é que você precisa e que está empenhado(a) em investir em ações concretas.


Investe gradualmente de forma diferente.

Não há mudanças sem ação. Se voltarmos à metáfora da escola, você sabe que um aluno não está verdadeiramente comprometido com a mudança se continuar a dizer que estuda «amanhã». Quando queremos mudar, aproveitamos o hoje para fazer o que estiver ao nosso alcance. Se a pessoa que ama tem estado muito ausente, mais centrada no trabalho ou noutras prioridades, mas estiver comprometida com a mudança, é expectável que você observe um esforço genuíno para reservar tempo para a relação e que ele(a) tenha o cuidado de o(a) informar ou de o(a) consultar quando tiver de voltar a ficar a trabalhar até mais tarde. Se não estiver genuinamente comprometido(a), vai provavelmente escudar-se num conjunto de desculpas para repetir as escolhas de sempre.


Há transparência.

Há poucas coisas que nos ofereçam tanta segurança como o facto de alguém fazer aquilo que diz que vai fazer, sem mentiras nem desculpas esfarrapadas. Quando a pessoa que amamos se mostra empenhada em restaurar a nossa confiança e assume uma postura clara e honesta, isso é sempre um bom sinal. Dizer a verdade não é sempre fácil, sobretudo se a confiança tiver sido quebrada – pode dar origem a alguma insegurança ou até a mal-entendidos. Mas, como é fácil de adivinhar, as mentiras provocam danos ainda maiores e são, invariavelmente, um sinal de que o compromisso com a mudança é muito débil.


Há planos a dois e a sua vontade é considerada.

Uma das características de uma relação infeliz é o sentimento de desconsideração. Quando a pessoa que está ao nosso lado está excessivamente centrada em si mesma, acaba invariavelmente por fazer escolhas que nos magoam e que desconsideram a nossa vontade. Não há um verdadeiro compromisso. Pelo contrário, quando a relação é devidamente valorizada e há compromisso com a mudança, observamos que os nossos sentimentos e as nossas necessidades são tidos em conta e passa a ser possível sonhar a dois.


Ele(a) é capaz de pedir ajuda.

Não há dúvida de que um compromisso é muito mais sólido quando é assumido publicamente. Quando uma pessoa decide fazer dieta ou deixar de fumar, sabe que se falar sobre isso com terceiros há uma probabilidade maior de essa mudança lhe ser “cobrada”. Essa pressão é uma alavanca para a mudança. Quando há comportamentos abusivos, uma traição ou outros acontecimentos que abalem a solidez de uma relação, é importante falar abertamente sobre o assunto com alguém que possa ajudar. Se a pessoa que ama está disponível para pedir ajuda profissional, esse é um bom sinal. Claro que, depois, é essencial que se comprometa com essa ajuda. Também é um sinal positivo se ele(a) assumir os próprios erros junto de familiares e amigos. Pelo contrário, querer esconder os problemas pode indicar alguma desvalorização e menor compromisso com a mudança.


Qualquer um de nós é capaz de mudar, mas, de uma maneira geral, precisamos de sentir-nos suficientemente desconfortáveis para implementarmos mudanças significativas. É natural que queiramos manter-nos na nossa zona de conforto indefinidamente. Se estivermos confortáveis e houver a mínima hipótese de a pessoa de quem gostamos nos aceitar exatamente como somos, não vamos fazer nada para mudar. Se ficar claro que ele(a) só vai manter-se na relação se houver mudanças sólidas, temos duas hipóteses: ou valorizamos mesmo a relação e arregaçamos as mangas com medo de a perder, ou mantemo-nos na nossa zona de conforto à espera que ele(a) ceda.

Qualquer um de nós pode manter-se numa relação que não nos satisfaça. Fazemo-lo quase sempre com a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, a outra pessoa se dê conta de que precisa mesmo de mudar. Na prática, somos nós que temos de dar voz àquilo de que precisamos para sermos felizes e isso pode passar por fazer escolhas difíceis, como afastarmo-nos de alguém que amamos, mas que não é capaz de mudar.

7.1.21

O PROBLEMA NÃO SOU EU, ÉS TU

 


O que é a violência emocional? O que é que é abuso? O que é que não é abuso? Será que ele(a) muda? O que é que é preciso para que ele(a) mude? O que fazer quando há abusos? Como responder em circunstâncias específicas? Que escolhas devo fazer para ser tão feliz como mereço? O livro “O Problema não sou eu, és tu” pretende responder a estas e outras questões.

Quando, há uns anos, publiquei no blogue “A Psicóloga” um artigo sobre violência emocional, estava longe de imaginar que viria a receber tantos pedidos de ajuda de pessoas (maioritariamente mulheres) que se reviam naquela caracterização. Na maior parte das vezes, estes pedidos de ajuda estavam associados a sentimentos contraditórios. Por um lado, a tristeza, a ansiedade, os sentimentos de culpa e de vergonha associados à exposição aos abusos e, por outro, o alívio por haver um nome para aquela realidade e a esperança de que o pedido de ajuda pudesse ser o início de uma mudança para melhor.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), durante o período de confinamento associado à pandemia provocada pela COVID-19, o número de casos de violência doméstica na Europa aumentou 60%. Em Portugal, no mesmo período o número de pedidos de ajuda por via telefónica e digital teve um aumento de 180% face ao primeiro trimestre. Não houve um aumento significativo de situações novas, mas houve uma agudização de situações de violência que já existiam.

No entanto, estas queixas reportam, na esmagadora maioria das vezes, situações de violência física, em que as marcas são visíveis e «fáceis» de registar. Os números de violência psicológica são muito mais difíceis de apurar, desde logo porque a vítima sente-se invariavelmente encurralada pela inexistência de provas que confirmem o seu testemunho. Se a isso juntarmos o efeito destruidor que os abusos têm na autoestima, a par do isolamento social e do medo de ninguém acreditar em si, é fácil perceber porque há tantos casos que não chegam ao nosso conhecimento.

Uma das coisas que aprendi com as vítimas de violência emocional foi que quanto mais informados estivermos a propósito do que são comportamentos abusivos, não só do ponto de vista físico, mais óbvios, mas também em termos emocionais, maior é a probabilidade de sermos os primeiros a impedir que alguém – de forma voluntária ou involuntária – nos maltrate. Neste livro, falo sobre as múltiplas formas que a violência emocional pode assumir e explico que nenhuma relação abusiva contém todas essas formas.




Joana perdoou uma traição, mas continuava a ter dúvidas sobre o real compromisso do namorado com a relação. Como resposta, ouvia que estava a «estragar o ambiente». Nélson escreveu um livro e, apesar do aval de uma editora, foi arrasado pela namorada: «Ainda vais ter de os reembolsar pelo investimento». Jorge manipulava Sílvia constantemente com a frase «Se tu gostasses mesmo de mim…». Cristina ouvia do marido que não servia «sequer para ter sexo». Cláudio repetia a Elsa: «Não tens sentido de humor».

Às vezes, a violência emocional assume a forma de chantagem emocional. Outras vezes, assume a forma de explosões e de humilhações. Mas também pode assumir a forma de amuos para impor a própria vontade, pode envolver os filhos como arma de arremesso, pode envolver tentativas de controlo através do dinheiro, pode apresentar-se de forma tão ténue que é a vítima que acaba por sentir-se sistematicamente culpada pelos problemas da relação. Há muitas formas de maltratar a pessoa que está ao nosso lado, e os efeitos são sempre devastadores.

As pessoas não são monstros. Ao longo deste livro, descrevo muitas relações marcadas por abusos. No entanto, aquilo que importa, do meu ponto de vista, não é diabolizar ninguém, mas mostrar, de forma absolutamente inequívoca, quão destrutivos podem ser alguns comportamentos – independentemente de serem praticados de forma consciente ou não. Até porque podemos ser nós os autores da violência emocional, por mais difícil que nos seja reconhecê-lo. Não se precipite a colocar a mão no peito e a dizer «Eu? Jamais!». Talvez se surpreenda. Há muitas expressões que nos habituámos a ouvir e a reproduzir sem que alguma vez tivéssemos parado para as analisar. Quantas vezes disse, mesmo que a «brincar», que o seu companheiro ou companheira não o(a) merecia? Ou, perante uma piada mal aceite por parte do outro, respondeu com um «Não tens sentido de humor»? E o «tratamento do silêncio»? Alguma vez recorreu a ele para provocar alguma reação? Em determinados contextos, todos estes são exemplos de abusos emocionais.

Ao longo deste livro, procuro esclarecer alguns dos mitos associados à violência emocional, procuro mostrar que esta forma de violência também pode estar presente na relação com os nossos pais, com o chefe ou até com amigos. Se tem sido vítima de violência emocional, é possível que muitas vezes se questione sobre a sua saúde mental, é possível que às vezes se sinta a enlouquecer. Não, você não está maluco(a) e este livro pode ajudá-lo(a) a recuperar a autoestima que se deteriorou ao longo da relação abusiva.

Na segunda parte do livro, partilho um conjunto de ferramentas que o(a) ajudarão a avaliar se a pessoa que pratica os abusos está ou não capaz de se comprometer com a mudança e refiro-me a várias formas de recuperar de uma relação abusiva. Sair ou ficar na relação? No final desta leitura, espero que se sinta mais capaz de tomar uma decisão.

Este livro não é um incentivo ao fim das relações. É, ou pode ser, o início da construção de uma vida genuinamente feliz e equilibrada. A informação que escolhi partilhar tem a intenção de o(a) ajudar a dar os passos de que necessita para que da sua vida faça parte uma relação maravilhosamente imperfeita onde a sua voz e os seus sonhos sejam acolhidos e incentivados. Felizmente, tenho assistido a muitas histórias bonitas que me mostram que a vida pode dar muitas voltas e que, quando cuidamos de nós com o amor e a dedicação que oferecemos aos outros, é mais provável que vivamos rodeados de quem nos quer bem.


9.7.20

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

Família disfuncional


Quais são as características de uma família disfuncional? E quais são as respostas que devemos procurar quando damos conta de que crescemos numa família disfuncional?


Ouço muitas vezes no meu trabalho com adultos a frase “Cresci numa família disfuncional”. Na maior parte das vezes, a expressão refere-se aos problemas familiares que deixaram marcas profundas, mas nem sempre se trata de famílias com as características de uma família disfuncional.


Quais são as características de uma família disfuncional?


#1: ABUSOS


Nem todas as famílias disfuncionais são caracterizadas pela existência de abusos físicos ou sexuais, mas este é um sinal indiscutível de disfuncionalidade. Para além de todas as consequências que se prolongam pela vida fora, aquilo que observamos nestas famílias é a “normalização” dos abusos.


Já todos ouvimos frases como «Eu apanhei do meu pai/ da minha mãe e estou aqui», como se a sobrevivência fosse sinal de saúde mental.


As crianças que crescem habituadas à violência física tomam esse exemplo como “normal”.


As pessoas que dão afeto e atenção são as mesmas que agridem, às vezes de forma brutal.


Em muitos destes casos, é só na idade adulta que a pessoa se dá conta de que foi alvo de comportamentos abusivos – às vezes essa perceção no contexto de uma relação amorosa, noutros casos surge em terapia.


#2: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


A violência emocional pode assumir muitas formas. É por isso que às vezes pode ser difícil reconhecer um comportamento como uma forma de abuso emocional. Ser-se emocionalmente violento não é apenas gritar e insultar. De resto, a maior parte dos exemplos de violência emocional a que acedo no meu trabalho com famílias não incluem quaisquer insultos.


São exemplos de violência emocional (e da disfuncionalidade de uma família):

Ignorar as necessidades (físicas ou emocionais dos filhos);

Retirar o afeto à criança quando não vai ao encontro da vontade do adulto;

Hipercrítica (humilhações);

Fazer ameaças;


#3: AMOR CONDICIONAL


Hoje em dia estamos muito familiarizados com o conceito de amor incondicional. A maior parte dos pais e mães que tenho conhecido dão o seu melhor para que os filhos saibam que são merecedores de amor independentemente das suas opções. Mas há muitos adultos que cresceram num ambiente familiar tão exigente que a sensação era a de que estavam sistematicamente “aquém” das expectativas.


Nas famílias disfuncionais é frequente os adultos mostrarem desilusão a propósito das escolhas dos filhos – não porque eles tenham cometido erros, mas porque contrariaram a vontade dos pais.


Quando os filhos não fazem aquilo que os pais gostariam que eles fizessem, o amor é “retirado”. Na prática, continua a haver comunicação, mas é mais “seca” e desprovida de afeto.


Estas crianças transformam-se frequentemente em “people pleasers”, isto é, em adultos preocupados em agradar a toda a gente, negligenciando os próprios sentimentos e as próprias necessidades.


#4: INEXISTÊNCIA DE FRONTEIRAS


Nas famílias disfuncionais a invasão da privacidade dos filhos é uma constante. O espaço físico (quarto) é invadido, mesmo quando os filhos já são adolescentes ou adultos e a correspondência é frequentemente violada. Mais do que isso: os pais podem sentir-se no direito de tomar decisões em nome dos filhos, mesmo quando estes já têm autonomia para tomar as próprias decisões.


A inexistência de fronteiras também faz com que os pais partilhem demasiadas informações com os filhos, transformando-os em confidentes desde muito cedo. Aquilo que acontece é que os filhos são confrontados com assuntos que só deveriam dizer respeito aos pais e sentem-se muitas vezes obrigados a proteger os progenitores (ou um deles), a tomar decisões e a fazer o que estiver ao seu alcance para ajudar a resolver os problemas.


Em Psicologia há um nome para estas crianças: são crianças parentificadas, que assumem desde cedo responsabilidades que deveriam recair sobre os ombros dos adultos.



# 5: INEXISTÊNCIA DE COESÃO E INTIMIDADE


Por estranho que pareça, nas famílias disfuncionais não há muita intimidade. Há normalmente um grande emaranhamento, resultante da inexistência de fronteiras. Toda a gente se mete na vida de toda a gente, o que pode ser confundido com coesão familiar. Claro que também pode haver genuína preocupação, mas, de uma maneira geral, os membros da família sentem-se pouco confortáveis com a ideia de partilharem os seus sentimentos mais íntimos uns com os outros. Na prática, não há a devida valorização dos sentimentos ou das necessidades de cada um, não há o devido respeito e, em função disso, torna-se mais difícil falar abertamente e criar verdadeira intimidade.


#6: TRIANGULAÇÃO


Nas famílias saudáveis os assuntos são resolvidos de-um-para-um. Cada pessoa sente-se confortável para manifestar aquilo que sente, para se queixar e até para discutir. Nas famílias disfuncionais é frequente a existência de triangulações. Na prática, quando uma pessoa se zanga com outro membro da família, opta por falar com um terceiro membro em vez de resolver o assunto diretamente. Por exemplo, se a mãe se zangar com o pai, é capaz de ir falar mal do pai junto do filho e até é capaz de o pressionar no sentido de enviar recados. Este padrão relacional tende a eternizar-se e os filhos rapidamente aprendem a fazer o mesmo.


Quando existem estas alianças perversas, há, pelo menos, duas consequências negativas: por um lado, os problemas dificilmente são resolvidos e, por outro, a confiança nos membros da família é muito diminuta.


#7: COMPORTAMENTOS ADITIVOS


Nas famílias disfuncionais encontramos frequentemente o consumo abusivo de álcool e drogas e o vício do jogo. Estes comportamentos trazem muita instabilidade para toda a família. Os filhos crescem quase sempre com muita incerteza e transformam-se quase sempre em crianças (e mais tarde adultos) hipervigilantes e ansiosos. É como se nunca soubessem com o que podem contar, como se nunca tivessem a certeza de que, ao chegar a casa, encontrarão um ambiente tranquilo ou o caos.


Nestas famílias é comum haver muitos gritos, muita violência.

 

Que respostas existem para as famílias disfuncionais?


A família em que crescemos oferece-nos os primeiros conceitos de normalidade. É junto dos nossos pais e familiares mais próximos que interiorizamos, pelo exemplo, o que é normal e o que não é normal. Mas à medida que crescemos e, sobretudo, à medida que construímos outras relações afetivas, vamo-nos dando conta dos erros que os nossos pais e outros cuidadores cometeram.


As pessoas que cresceram numa família disfuncional muitas vezes só se apercebem dessa disfuncionalidade na idade adulta. Às vezes, essa perceção surge na sequência dos problemas existentes na relação conjugal. Noutros casos, surge na sequência de um pedido de ajuda em resposta a uma perturbação ansiosa ou depressiva.



A terapia é invariavelmente um porto seguro

 através do qual o adulto que cresceu numa família disfuncional

tem oportunidade de identificar e tratar as feridas

emocionais que ficaram desse período.




De uma maneira geral, esse processo implica a recuperação da própria voz.


Estas pessoas habituaram-se a conter (ou anular) os próprios sentimentos e pode levar algum tempo até que aprendam a fazê-lo de forma autêntica e assertiva.


Por outro lado, as marcas que ficam afetam quase sempre o amor-próprio, pelo que há um trabalho a ser feito para que a pessoa interiorize que é merecedora de amor e possa fazer escolhas que permitam construir relações emocionalmente saudáveis.


Claro que este trabalho terapêutico também depende da capacidade de reconhecer que é preciso algum afastamento em relação aos comportamentos tóxicos. Na prática, isto pode ser muito difícil porque se trata de adultos que passaram a vida inteira a desvalorizar as próprias necessidades e a sentir a obrigação de agradar aos outros. Reconhecer que têm o direito de se afastar destes comportamentos não é sempre fácil, mas é essencial.


A recuperação também implica o reconhecimento dos padrões de relacionamento disfuncionais e a capacidade de romper com esses padrões, também para evitar que eles se reproduzam na família que se quer construir. É natural que, pelo meio, haja muitos sentimentos de culpa, que haja medo e incerteza, mas, no final, compensa muito.


Todo este processo depende do reconhecimento de que vamos sempre a tempo de melhorar a nossa vida, MAS só podemos mudar o nosso comportamento. Por muito que custe aceitar, não podemos mudar as pessoas de quem gostamos. Podemos, isso sim, relacionar-nos com elas de formas mais saudáveis e protetoras do nosso bem-estar.


18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


24.1.20

UM ABUSADOR EMOCIONAL CONSEGUE MUDAR?


Um abusador emocional consegue mudar?

Será que uma pessoa que assuma comportamentos abusivos em relação ao(à) companheiro(a) consegue mudar?

Esta é uma das perguntas mais comuns entre as vítimas de violência – física ou emocional: Será que ele(a) muda? De uma maneira geral, a pergunta resulta da ambivalência que a pessoa sente: por um lado, ainda ama o(a) companheiro(a) e, por outro, está profundamente desgastada com a relação. A maior parte das vítimas de violência emocional lutam durante muito tempo para agradar à pessoa que amam, na esperança de que o seu comportamento possa ajudar a eliminar os comportamentos abusivos. Infelizmente, estas tentativas são quase sempre infrutíferas e até arriscadas, já que a pessoa que pratica os abusos vai fazendo cada vez mais exigências, assumindo um controlo cada vez maior sobre a vida da vítima.



Nos relacionamentos emocionalmente abusivos,
uma parte controla sistematicamente a outra,
minando a sua confiança, dignidade, crescimento,
e estabilidade emocional, e provocando medo,
culpa e vergonha.



Uma pessoa que assuma comportamentos abusivos numa relação pode não o fazer noutra relação?


Sim, mas isso não significa que tenha deixado de ser um abusador. Os abusos emocionais são normalmente praticados por pessoas inseguras e manipuladoras, com dificuldade em empatizar com os sentimentos dos outros. No início de uma relação, o abusador pode assumir comportamentos que aparentemente traduzam respeito pelo(a) companheiro(a), mas, à medida que se sinta mais confiante (de que conquistou a outra pessoa), pode tornar-se tão ou mais agressivo.

Um abusador pode, de facto, mudar?


Sim, pode, MAS essa mudança é rara e envolve MUITO tempo e MUITO trabalho. Quando falamos de abusos emocionais falamos quase sempre de um sistema de valores que está doente e falamos algumas vezes da existência de uma perturbação de personalidade, como a perturbação de personalidade borderline, perturbação narcísica da personalidade ou perturbação de personalidade antissocial.

O que é preciso para que um abusador emocional mude?




#1: Reconhecer que os comportamentos são errados.

O abusador deve ser capaz de identificar todos os comportamentos abusivos. Deve ser capaz de os reconhecer como errados.

#2: Assumir a inteira responsabilidade.

A pessoa que pratica os abusos tem de ser capaz de assumir total responsabilidade pelos seus comportamentos, em vez de responsabilizar a vítima. Quando alguém diz «Eu só agi assim porque tu…» ou «Eu peço desculpa, mas tu…» ou «Eu sei que errei, mas tu…», não está verdadeiramente disponível para assumir a sua responsabilidade e, por isso, não está verdadeiramente capaz de se comprometer com a mudança.

#3: Humildade para pedir desculpa.

A pessoa que pratica os abusos deve ser capaz de empatizar com os sentimentos da vítima, de mostrar interesse pelos danos causados e de mostrar remorsos genuínos em relação ao passado.

Qualquer postura que implique tentar “colocar uma pedra sobre o assunto”, impedindo a vítima de falar sobre o que aconteceu e/ou evitando a demonstração de interesse sobre os sentimentos que resultaram dos abusos são sinais de que não há genuíno compromisso com a mudança.



#4: Disciplina.

A mudança só vai acontecer se a pessoa que pratica os abusos estiver disponível para monitorizar o próprio comportamento com frequência – prestando atenção àquilo que diz e permitindo que a vítima se queixe ou chame a atenção para qualquer situação que seja geradora de desrespeito. Frases como «Estás a ser demasiado exigente», «Não aguento este clima de tolerância zero» ou «Tu és demasiado sensível» são indicadoras da inexistência de um compromisso com a mudança.

#5: Motivação.

A pessoa que pratica os abusos deve ser capaz de mostrar de forma clara, inequívoca e consistente que fará tudo o que estiver ao seu alcance para parar com os abusos. De um modo geral, é mais provável que isso aconteça se o abusador se der conta de que, se não o fizer, há o risco sério de a relação terminar. A motivação é demonstrada através da disponibilidade para ler sobre o assunto e aprender a diferenciar comportamentos abusivos, pedir ajuda profissional e comprometer-se com o processo terapêutico (em vez de contar uma história diferente ao terapeuta e dizer «O psicólogo disse que eu não tenho qualquer problema»).

23.9.19

PRIMEIROS SINAIS DE UMA RELAÇÃO TÓXICA



Quais são os comportamentos a que devemos estar atentos por indicarem que estamos, provavelmente, numa relação tóxica? Quando nos apaixonamos, nem sempre é fácil reconhecer os comportamentos abusivos, mas a desvalorização dos primeiros sinais de abuso emocional pode levar a que se torne cada vez mais difícil impor limites e construir uma relação saudável.


Não me canso de dizer que os principais sinais de que estamos perante comportamentos abusivos têm a ver com a forma como nos sentimos. Se alguns comportamentos da pessoa de quem gosta o/a fazem sentir-se desconfortável, é importante dar voz aos seus sentimentos. Se ao desconforto se juntar a sensação de desrespeito, o medo, a culpa e a sensação de obrigação, é provável que esteja a ser alvo de violência emocional.

No início de uma relação, os comportamentos abusivos podem apresentar-se de forma mais subtil e, como estamos encantados com a outra pessoa, é mais provável que desvalorizemos algumas escolhas. Estes são alguns dos primeiros sinais de uma relação tóxica a que deve prestar atenção:



TRATAMENTO DO SILÊNCIO (AMUOS)


Mesmo no início de uma relação, é comum que os membros do casal tenham necessidades e vontades distintas. Há alturas em que o(a) seu(sua) namorado(a) lhe pede para fazer algo e você diz “Não”. E há alturas em que será ele(a) a fazê-lo. Se a pessoa de quem gosta amuar perante a sua contrariedade, essa é uma forma de o(a) tentar pressionar. É uma tentativa de impor a própria vontade e é muito importante que você seja capaz de sinalizar este comportamento. O(a) seu(sua) namorado(a) tem o direito de ficar triste, MAS não tem o direito de amuar, de o(a) castigar, deixando de falar consigo. Na prática, os amuos consistem no “tratamento do silêncio”, isto é, a pessoa deixa de falar como habitualmente, limitando-se a responder de forma seca e monossilábica. Outra versão muito comum dos amuos consiste em continuar a falar de forma APARENTEMENTE normal retirando toda a carga afetiva. Na prática, a pessoa diz que «não se passa nada», mas castiga a outra pessoa.

FALTA DE RESPEITO PELA PRIVACIDADE

Não há nada de errado em partilhar mensagens privadas com a pessoa de quem gosta. Em certos casos, até pode fazer sentido partilhar uma ou outra password, desde que ambos se sintam confortáveis com a situação. Aquilo que não deve acontecer é o acesso não autorizado às suas contas de e-mail, às suas mensagens ou às suas redes sociais. A pessoa de quem gosta não é o(a) seu dono(a) e deve ser capaz de respeitar a sua privacidade. Se ele(a) se sentir inseguro(a) ou enciumado(a), deve ser capaz de o verbalizar de forma clara, dando-lhe a oportunidade de fazer a sua escolha. Não adianta referir-se ao facto de ter passado por situações de traição ou mentiras.

A bagagem emocional de cada um não deve servir de justificação para a ocorrência de comportamentos abusivos.


NÃO ASSUME A RESPONSABILIDADE


Já reparou que há pessoas que aparentemente nunca têm culpa de nada? Queixam-se de forma sistemática do comportamento dos outros e têm muita dificuldade em assumir os próprios erros e a respetiva responsabilidade. Se a pessoa de quem gosta está sempre a apontar o dedo aos outros – ao chefe, às pessoas com quem se relacionou e/ou à família alargada, esse é um sinal de alarme, já que indica um padrão relacional. Nestes casos, é provável que haja muita dificuldade em assumir os erros na relação e que você acabe por ser responsabilizado(a) por todas as dificuldades.

TENTATIVAS DE O(A) AFASTAR DE FAMILIARES E AMIGOS


É natural que a pessoa de quem gosta possa não simpatizar com todas as pessoas da sua família. É legítimo que não se identifique com um ou dois amigos seus. E é desejável que se sinta confortável para lhe dizer, sem que isso implique qualquer tentativa de o(a) afastar de pessoas de quem gosta. Mas se a pessoa que está o seu lado estiver sistematicamente a pôr defeitos nos seus familiares ou amigos, se o(a) pressionar (de forma mais ou menos clara) a afastar-se dessas pessoas, esse é um sinal de alarme. A manipulação pode surgir de forma subtil através de frases como «Tu sabes que eu não gosto da pessoa X», «Se tu gostasses mesmo de mim…».



Lembre-se de que a sua autoestima e a sua
rede de suporte (familiares e amigos) são o
melhor sistema imunitário que você pode ter
contra a possibilidade de ser vítima
de violência emocional.



PRENDAS EXCESSIVAS


Quando gostamos de alguém, sentimos vontade de agradar e isso também pode traduzir-se em termos materiais. Mas há presentes que são tão caros ou tão desajustados que acabam por trazer algum desconforto. Se se sentir desconfortável, o mais provável é que esteja perante um gesto excessivo e é importante tentar perceber a origem deste comportamento. Algumas pessoas oferecem este mundo e o outro à pessoa que está ao seu lado como “prova” do seu amor. Na prática, todos sabemos que não são (só) os presentes que nos fazem sentir amados, mas pode ser mais difícil reconhecer a chantagem emocional quando a outra pessoa diz «Se eu não gostasse de ti, não te teria oferecido X». Se você se queixar de um comportamento específico do(a) seu(sua) namorado(a) e ele(a) se referir a estas provas de amor (em vez de valorizar a sua queixa), esse é claramente um sinal de manipulação.

PEQUENAS TRAIÇÕES


Imagine que o telefone da pessoa de quem gosta toca e você repara no nome. Entretanto, ele(a) atende e você consegue perceber que do outro lado da ligação está uma pessoa que não pode ter aquele nome. Se o(a) seu(sua) namorado(a) se der ao trabalho de trocar os nomes dos registos de telemóvel – para fingir que está a falar com um homem quando, na verdade, está a falar com uma mulher ou vice-versa -, isso é um sinal de alarme. A pessoa de quem gosta tem o direito à privacidade e tem o direito de continuar a cultivar amizades, mas é fundamental que seja claro(a) em relação às suas intenções. As mentiras são sempre um sinal de que esta pessoa está mais centrada em si mesma do que na relação.

POSTURA DE SUPERIORIDADE


Se a pessoa de quem gosta estiver sistematicamente a fazer comparações com outras pessoas e/ou a referir-se e si mesma como se fosse melhor do que os outros – seja em termos profissionais, financeiros, académicos ou sociais, fique atento(a). Este pode ser um sinal de que se trata de alguém que “precisa” de olhar para os outros com algum desprezo para se sentir bem consigo mesmo(a). Mais cedo ou mais tarde, poderá fazê-lo consigo de forma mais clara e abusiva.

QUERER APRESSAR A RELAÇÃO


Há casais que decidem viver juntos pouco tempo depois de se conhecerem. Há mulheres que engravidam pouco tempo depois de iniciarem uma relação. Mas uma coisa é ambos estarem em sintonia e quererem dar esses passos e outra, bem diferente, é essa ser apenas a vontade de um dos membros do casal. Preste atenção às suas próprias necessidades e evite dar qualquer passo para o qual ainda não se sinta suficientemente seguro(a). A pessoa que está ao seu lado tem o dever de o(a) respeitar – sem críticas nem chantagem emocional. 
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