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18.5.20

GASLIGHTING – UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL

Gaslighting

«Ele quer dar comigo em doida! Eu já não sei se aquilo que eu penso que é verdade é, de facto, verdade ou não. Tenho a certeza de que não fiz as coisas de que ele me acusa, mas às tantas já duvido de mim própria. Já não sei se eu é que estou maluca».

Mariana procurou a minha ajuda dominada pelo desespero. Tinha acabado de ter mais uma discussão com o marido e o seu discurso estava acompanhado de choro, agitação e tremores. Ao longo da conversa foi conseguindo explicar que Ricardo a tinha acusado de estar a ter um caso com um colega de trabalho. Mais do que isso: afirmou ter provas da relação extraconjugal e ameaçou revelá-las à família e aos amigos. Mariana não só não traiu o marido, como tinha uma relação superficial com o colega e não percebia a origem das acusações. Inicialmente, pensou que pudesse tratar-se de um equívoco ou de algum boato, mas, à medida que os dias passaram e as acusações se intensificaram, sentiu-se cada vez mais aflita, confusa e ameaçada. De onde viria a “certeza” que o marido mostrava? A que provas poderia ele referir-se? Estaria alguém a passar-se por ela? Teria o seu telemóvel sido pirateado? Quanto mais desesperada se sentia, menos percebia da situação. Mariana perguntou várias vezes ao marido a que provas se referia, mas não obteve resposta. Sentia-se encurralada numa realidade demasiado confusa e começou a duvidar de si mesma, questionando a sua sanidade mental.

Infelizmente, o episódio descrito por Mariana é muito mais comum do que se possa imaginar. Não se trata de qualquer forma de “loucura”, de um conjunto de mal-entendidos ou de um simples desentendimento conjugal. Trata-se de uma forma de manipulação, de violência psicológica, conhecida por gaslighting.

 

Há muitas formas de violência emocional

Já escrevi sobre violência emocional AQUI. Sempre que escrevo ou falo sobre este assunto, procuro explicar que, ao contrário do que tantas vezes se supõe, a violência não assume sempre a mesma forma. Nem todos os abusadores falam alto, insultam ou são fisicamente violentos. Muitas vezes, a violência emocional assume formas tão subtis que a pessoa que é vítima dos abusos tem muita dificuldade em reconhecê-los como tal.

Para agravar a situação, na esmagadora maioria das vezes as pessoas que praticam os abusos assumem uma imagem pública tão diferente dos comportamentos que têm em casa que se torna ainda mais difícil para a vítima conseguir que alguém acredite em si.


Em todas as formas de violência emocional há um propósito comum: fragilizar a vítima, exercer poder sobre ela. Para quê? Para sentir esse poder, para controlar a vida da outra pessoa e, assim, ter todo o poder de decisão da relação. Não raras vezes, de forma mais ou menos subtil, o abusador vai procurando isolar a sua vítima, afastando-a progressivamente de familiares e amigos, o que acaba por criar ainda mais fragilidade e por abrir espaço para os abusos.

 

O que é o Gaslighting?

O gaslighting é uma forma de abuso emocional através da qual uma pessoa procura manipular a outra levando-a a questionar a realidade. É frequente que, à semelhança do que aconteceu com Mariana, a vítima diga coisas como «Parece que estou a enlouquecer» ou «Acho que estou a ficar doida». Visto de fora, pode parecer absurdo. Afinal, se alguém, de repente, nos acusasse de algo que não fizemos, parece óbvio que seria relativamente fácil dar um murro da mesa, sair de cena ou simplesmente ignorar a acusação. Na prática, é tudo muito mais complicado. Em primeiro lugar, porque as manipulações começam invariavelmente de forma muito ténue, quase impercetível. Depois, porque os episódios de manipulação são intercalados por momentos agradáveis, de aparente cumplicidade.

Quando uma pessoa tem comportamentos que mostram de forma clara que gosta de nós e que se preocupa connosco, fica infinitamente mais difícil acreditar que também seja capaz de adulterar a realidade com a intenção de nos fragilizar.


Aos poucos, é fácil acreditar no que ela diz e é possível que comecemos a duvidar de nós mesmos, da nossa saúde mental.

Tal como aconteceu com Mariana, a frieza da pessoa que faz afirmações falsas é de tal ordem que a vítima se convence de que ele(a) está a dizer a verdade. Ou pelo menos, a vítima acredita que a outra pessoa está convencida de que aquelas afirmações são verdadeiras. Mas, tal como Ricardo nunca achou que Mariana estivesse, de facto, a trai-lo, nos episódios de gaslighting o abusador SABE que aquilo que está a dizer é mentira. Fá-lo com o único propósito de confundir a vítima, fragilizando-a. Essa fragilidade abre espaço para mais abusos, mais controlo.

 

Gaslighting: em busca de provas da verdade

Outra faceta perversa desta forma de manipulação tem a ver com o facto de o abusador muitas vezes desmentir a vítima, afirmando que não disse aquilo que, de facto, disse. Confuso? Vejamos um exemplo:

Tomás disse repetidamente a Rita que gostaria de experimentar um restaurante tailandês. Algum tempo depois, Rita surpreendeu o namorado com uma reserva para dois. Nessa altura, Rita ficou admirada com o comentário do namorado: «Eu NUNCA disse que queria ir a um tailandês! Eu gostava de experimentar um restaurante mexicano». Quando Rita partilhou o episódio com uma amiga comum, Tomás acusou a namorada de estar «a perder a memória». A sua frieza e convicção contribuíram ainda mais para o alarme da namorada.

Na maioria das vezes estas mentiras começam com coisas ainda mais simples, como no caso de Susana: o namorado passou a semana toda a dizer-lhe que os pais dele a tinham convidado para jantar no domingo e, no sábado, acusou-a de não ter prestado a devida atenção, já que o jantar era nessa noite. Susana desvalorizou o episódio, deduzindo que o namorado pudesse ter-se enganado por distração, ainda que ele lhe tivesse dito que «era impossível ter dito que o jantar estava marcado para domingo porque o meu pai parte de viagem nesse dia».

É quase sempre assim. No princípio, a vítima começa por questionar a sua própria memória: «Terei feito confusão?», «Se calhar houve outra pessoa a falar-me sobre comida tailandesa…».

Aos poucos, vai ficando claro que há alguma coisa que não bate certo e é possível que a vítima parta em busca de provas que demonstrem que não está a enlouquecer.


Tenho conhecido pessoas que passaram a tirar notas de quase tudo o que o(a) companheiro(a) diz. Outras até gravam conversas. Infelizmente, quando as coisas atingem este ponto, a pessoa que é alvo de abusos já está muito desgastada e a sua autoestima pode estar fragilizada ao ponto de não saber o que fazer.

À medida que o discernimento e a força da vítima se vão deteriorando, o abusador vai-se sentindo cada vez mais à vontade para mentir descaradamente.

 

Sinais de que você é vítima de Gaslighting

 

À semelhança do que acontece com outras formas de violência emocional, um dos sinais que surgem com esta forma de manipulação é a atenção que a vítima dá aos próprios erros/ defeitos/ limitações. A pessoa que é vítima desta forma de abusos duvida de si mesma e passa a estar hipervigilante em relação ao seu comportamento, sobretudo quando está perto do abusador. Paralelamente, podem surgir outros sinais:

A sua autoestima diminui;

Duvida de si mesmo(a);

Sente-se confuso(a);

Tem dificuldade em tomar decisões;

Pede desculpa muitas vezes;

Mente a outras pessoas para evitar o confronto;

Pergunta a si mesmo(a) se é demasiado sensível;

Sente que algo está errado, mas não sabe exatamente o que é;

Parece que não há saída para o problema.

 

Como é que alguém pode libertar-se do Gaslighting (ou de outras formas de abuso emocional)?

Muitas vezes, as mentiras que são dirigidas à vítima dizem respeito a familiares e amigos. Quando isto acontece, a intenção é não só confundir e fragilizar, mas também isolar a vítima e, assim, exercer ainda mais controlo sobre ela. Aos poucos, a pessoa que é exposta a esta forma de violência psicológica pode sentir-se mais e mais fragilizada, como se estivesse num terror sem saída.

A melhor forma de se libertar passa por tomar a iniciativa de falar com alguém de fora, de preferência com um profissional com experiência nesta área. A prática clínica mostra-me que muitos abusadores acabam por recusar-se a participar em qualquer processo terapêutico a dois por anteciparem a possibilidade de serem “desmascarados”. Em vez disso, perante a proposta da vítima de realização de terapia de casal, acabam muitas vezes por “pedir ajuda” individual, utilizando esse passo para rotular a vítima: «Eu fui a um psicólogo/psiquiatra e ele disse que não há nada de errado comigo. Tu é que precisas de tratamento». Na prática, esta é mais uma forma de manipulação. Mas quando a pessoa que é vítima de abusos toma a iniciativa de falar com um profissional experiente – num processo de terapia individual ou conjugal – aumenta, e muito, a possibilidade de voltar a olhar para a realidade como ela é e recuperar a autoestima. Aos poucos, a pessoa vai-se dando conta daquilo que pode fazer para pôr travão aos abusos e voltar a conectar-se com as pessoas que a ajudem a sentir-se amparada.


13.11.18

ESGOTAMENTO EMOCIONAL NA RELAÇÃO CONJUGAL

Esgotamento emocional na relação conjugal

Há relações que são emocionalmente esgotantes. Há pessoas que parecem sugar toda a nossa energia com as suas queixas, exigências e manipulações. Como é que nos podemos defender destes abusos emocionais e recuperar o bem-estar?


Quando amamos uma pessoa e estamos genuinamente comprometidos com ela, fazemos aquilo que está ao nosso alcance para agradar, para ir ao encontro das suas necessidades, para a fazer feliz. Mas, para algumas pessoas, NADA parece ser suficiente. É como se, apesar de todos os esforços, houvesse sempre do que reclamar, houvesse sempre mais alguma coisa que deveria ter sido feita. E, para quem vai sendo alvo destes exercícios de manipulação, é fácil viver com a sensação constante de culpa, de insuficiência e de desvalor.

Porque é que isto acontece?

Nós acreditamos que, quando alguém está numa relação, quer o melhor para a outra pessoa. E, se a pessoa que está ao nosso lado nos disser sistematicamente que nos ama e que quer o melhor para nós, torna-se mais difícil reconhecer as suas verdadeiras intenções. É como se, apesar do sofrimento que alguns comentários provocam, nos sentíssemos sistematicamente em dívida por não estarmos a corresponder às expectativas, por não estarmos a ser capazes de fazer o outro feliz.

Aquilo que acontece nestas relações é que há uma assimetria na valorização das necessidades dos membros do casal.



Do outro lado está alguém demasiado centrado em si mesmo, que quer que a relação seja definida por si, que impõe a própria vontade demasiadas vezes e que, ainda que fale muito de igualdade e da felicidade a dois, na prática, está disposto a fazer muito pouco para ir ao encontro das necessidades da pessoa que está ao seu lado. 

Como é que estas manipulações acontecem?

De uma maneira geral, a pessoa que está habituada a manipular deseja genuinamente manter a relação e vai fazendo esforços para mostrar ao(à) companheiro(a) que é capaz de ceder, de sair da sua zona de conforto e de fazer escolhas em nome da relação. Na verdade, na maior parte das vezes faz as escolhas que traduzam a SUA vontade, ainda que vá dizendo coisas como «Fiz isto por ti». Quando é confrontado(a) com uma vontade diferente da sua, manipula, pressiona, culpa com frases do tipo:


«Se tu gostasses mesmo de mim não me pedias isso»

«Tu devias ser capaz de ceder.
É isso que se faz quando se está numa relação»

«Não me podes obrigar a fazer isso»

ou «Sinto-me pressionado(a)». 



Em terapia, estes comportamentos são facilmente identificáveis por qualquer psicólogo experiente mas, no dia-a-dia, pode ser mesmo difícil reconhecer que a pessoa que está ao nosso lado está muito mais interessada em fazer as coisas à sua maneira, independentemente do nosso bem-estar, do que com vontade de conhecer e valorizar as nossas necessidades.

Como é que eu posso saber se estou numa relação abusiva?


Muito mais do que prestar atenção aos comportamentos da pessoa que está ao nosso lado, é fundamental que sejamos capazes de prestar atenção ao nosso estado emocional. Se nos sentirmos regularmente exaustos, tristes ou nervosos, como se carregássemos toda a culpa pelos problemas da relação, é muito importante que consigamos falar com alguém que nos possa ajudar a perceber o que está a acontecer. A família e os amigos podem ajudar mas, de uma maneira geral, não têm a distância emocional que lhes permita reconhecer os comportamentos abusivos. Além disso, as pessoas mais manipuladoras dão o seu melhor para cultivar uma imagem pública de afabilidade, altruísmo e simpatia, o que pode contribuir para a descredibilização das queixas da pessoa que está a ser alvo de manipulações.

Como acabar com as manipulações?


Autocompaixão.

Há vários exercícios que nos podem ajudar a prestar atenção às nossas emoções, às nossas necessidades afetivas e a qualquer injustiça a que estejamos a ser expostos. Parar diariamente para observar as próprias emoções e registá-las por escrito é sempre muito terapêutico.


Experimente olhar para o que um episódio específico
lhe trouxe em termos emocionais. Se identificar
tristeza, culpa, sensação de obrigação ou vergonha
intensa, experimente visualizar o mesmo episódio com
outros protagonistas. O que é que diria a alguém de
quem gosta muito se essa pessoa estivesse na sua
posição? Escreva a mensagem que gostaria de dirigir
a essa pessoa a leia-a em voz alta para si.



Troca de papéis.

Este é um exercício que qualquer criança de 4 anos é capaz de realizar e que se torna cada vez mais difícil numa relação abusiva. A propósito de um episódio gerador de tensão, experimente colocar-se na posição do(a) seu(sua companheiro(a). O que é que você diria? Que escolhas faria? Veja se é capaz de reconhecer a assimetria, a existência de dois pesos e duas medidas. 

Assertividade.

Não há volta a dar. Para que as manipulações acabem, você vai ter de treinar a capacidade de dizer «Não» e dar voz, com firmeza, clareza e honestidade, àquilo de que precisa. Vai precisar de dizer muitas vezes «Basta. Não estás a respeitar-me!».

Rede social e familiar.

As pessoas que gostam de si e que genuinamente se preocupam consigo são o melhor sistema imunitário para fazer face a qualquer forma de abusos. Elas ajudam-no(a) a manter a sua autoestima e a olhar com mais discernimento para os episódios em que possa estar a ser alvo de manipulações. Alimente todas as relações afetivas que são importantes para si e não apenas a relação amorosa.

Ajuda.

Peça ajuda psicológica sempre que der por si em círculos viciosos que desgastam a sua autoestima. Quanto mais cedo pedir ajuda – individualmente ou para o casal -, mais rapidamente encontrará ferramentas para voltar a sentir-se em paz.

11.9.18

VIOLÊNCIA EMOCIONAL: O PERFIL DO ABUSADOR

violência emocional: o perfil do abusador

Quem são as pessoas que praticam violência emocional nas relações? Qual é o perfil de quem exerce esta forma de abusos sobre o companheiro? São pessoas com alguma perturbação de personalidade? E o que é que pode ser feito em termos da sua recuperação?


«É difícil acreditar que aquela pessoa tão simpática e atenciosa possa fazer mal a uma mosca. Quanto mais exercer violência emocional sobre a mulher… Esse foi mais um dos obstáculos que tive de ultrapassar a propósito das tentativas que fiz para sair desta relação. Eu sabia que seria muito difícil que alguém acreditasse em mim. Eu própria levei muito tempo para conseguir reconhecer os abusos, dar-lhes um nome. E, mesmo depois de tomar consciência de que estava a ser vítima de violência emocional, passei muito tempo a acreditar que o meu marido não sabia o que estava a fazer, que estava deprimido e que eu o poderia ajudar.»
Teresa, 48 anos

É natural que associemos quase todas as formas de violência à falta de saúde mental. Quando pensamos na possibilidade de uma pessoa maltratar outra de quem teoricamente gosta, só a existência de uma perturbação nos parece que possa explicar o fenómeno. Mas a minha experiência clínica e as muitas investigações que existem nesta área mostram que, quando falamos de violência emocional na relação, falamos muito mais vezes de uma crise de valores do que de uma perturbação de personalidade.

É verdade que me tenho cruzado com alguns abusadores com perturbação narcísica da personalidade ou com perturbação de personalidade borderline MAS, na maior parte dos casos, não há qualquer perturbação de personalidade.

Há, isso sim, uma imensa vontade de exercer poder sobre a outra pessoa – de a controlar, intimidar, subjugar, humilhar, punir ou isolar. Estes comportamentos tóxicos são gratificantes na medida em que o abusador vai sentindo que tem ao seu lado alguém que tem de estar permanentemente focado em si.

O QUE É A VIOLÊNCIA EMOCIONAL?

A violência emocional pode assumir a forma de críticas e acusações, exercícios de controlo, exigências exageradas, amuos (o famoso «“tratamento do silêncio»”), distanciamento emocional, desprezo e ameaças mais ou menos subtis.


Pode incluir palavras duras mas também pode mostrar-se através de um simples olhar. Há muitas formas de maltratar a pessoa que está ao nosso lado. Os efeitos são sempre devastadores. Independentemente do tipo de abusos a que são submetidas, as vítimas de violência emocional sentem-se quase sempre esgotadas, deprimidas, confusas, culpadas, com dificuldades de concentração e baixa autoestima. É como se alguém – neste caso, a pessoa que menos esperariam – lhes fizesse uma lavagem cerebral. De forma gradual e, infelizmente, difícil de detetar, os abusos vão roubando a autoconfiança e a imagem que a pessoa tem de si mesma. Vistas de fora, estas pessoas até podem parecer as mesmas de sempre. Não há nódoas negras, não há arranhões. As marcas não são visíveis mas estão lá.

O PERFIL DO ABUSADOR


Ao longo da minha experiência como terapeuta de casais tenho trabalhado com muitas pessoas que exerceram violência emocional na relação e posso afirmar que nem todos correspondem ao perfil que geralmente associamos a qualquer forma de violência. Pelo contrário, muitas destas pessoas investem muita energia na tentativa de construírem uma imagem imaculada. Esses esforços não são mais do que exercícios de manipulação com o propósito de que os outros os vejam como “boas pessoas”.

Muitos abusadores são vistos pelos familiares, amigos e conhecidos como pessoas simpáticas, afáveis, altruístas, sedutoras e carismáticas.


Na verdade, também é assim que as vítimas os veem no princípio da relação. Só à medida que o abusador vai percebendo que o afeto da vítima está garantido é que começa a mostrar-se tal como é.

Um médico de meia-idade com quem trabalhei não era só conhecido pela forma atenciosa como tratava os seus pacientes. Também fazia voluntariado e abdicava muitas vezes do tempo livre para ajudar os outros. Infelizmente, esta é a mesma pessoa que maltratou a mulher durante anos, chegando mesmo a agredi-la fisicamente.

Quando olhamos para a história de vida das pessoas que praticam estes abusos emocionais encontramos muitas vezes elementos em comum. Por exemplo, na maioria dos casos com que tenho trabalhado, os abusadores são homens que cresceram em famílias marcadas por esta e outras formas de violência. Por detrás de um abusador há quase sempre um pai abusador. Por outro lado, e mesmo nos casos em que identificamos traços de personalidade mais narcísicos, é possível identificar graves lacunas em termos de autoestima. São pessoas aparentemente confiantes mas que, na verdade, se sentem inseguras e olham para si mesmas como inferiores. Os abusos são formas de gratificação – quando a pessoa olha de forma distorcida para o poder pessoal, acaba por buscar a gratificação no exercício de poder sobre outra pessoa.

O ABUSADOR CONSEGUE MUDAR?


«Será que ele muda?» e «O que é que EU posso fazer para que ele mude?» são duas das perguntas que ouço mais vezes a propósito das relações abusivas. Quanto mais tempo durar uma relação abusiva, maior é a probabilidade de a pessoa exposta aos abusos chamar a si toda a responsabilidade, como se fosse ela que tivesse de mudar alguma coisa para que os comportamentos abusivos tivessem um fim.

Há casos em que a pessoa que costumava ter comportamentos abusivos escolhe mudar e consegue implementar mudanças significativas MAS em quase vinte anos de trabalho eu nunca conheci uma pessoa que tivesse mudado o companheiro. A mudança ocorre quando a pessoa que pratica os abusos:

- percebe que TEM DE mudar, isto é, quando percebe que a relação está em risco e que não basta “portar-se bem” durante algum tempo.

- reconhece os abusos e é capaz de falar deles EM DETALHE e ouvir a vítima. Não chega dizer coisas como «Eu sei que errei… mas agora é tempo de olhar para o futuro».

- procura ajuda terapêutica para mudar o SEU comportamento, reconhecendo que a responsabilidade da violência emocional é apenas sua. Alguns abusadores procuram justificar os abusos com o eventual diagnóstico de uma perturbação de humor, nomeadamente depressão. A verdade é que a depressão não justifica os abusos emocionais. De resto, muitas vítimas de violência emocional desenvolvem episódios depressivos e não se transformam em pessoas violentas.

Na esmagadora maioria das relações abusivas que conheço, aquilo que está «“doente»” é o sistema de valores do abusador. A terapia só é eficaz se o abusador estiver disponível para identificar os pensamentos desajustados que estão associados aos comportamentos abusivos.

24.5.17

11 FRASES QUE NÃO DEVE DIZER AO SEU COMPANHEIRO (NUNCA!)


1.       A TUA MÃE É…

Complete a frase com um adjetivo negativo. A crítica até pode ser baseada em factos reais – o resultado é o mesmo: magoará a pessoa de quem gosta. E não adianta dizer a si mesmo coisas como «O meu companheiro é o primeiro a criticar a mãe». Não é a mesma coisa. Quando ele diz «A minha mãe é uma chata», aquilo que está realmente a dizer é «Eu gosto muuuuuuito da minha mãe mas hoje ela fez algo que me chateou». Quando VOCÊ diz «A tua mãe é uma chata», aquilo que o seu companheiro ouve é qualquer coisa como «A tua mãe é insuportável. Há poucas pessoas piores do que ela». Isto é, sente-se magoado, atacado, injustiçado e o mais provável é que contra-ataque, dando início a uma discussão perigosa.

2.       TANTO FAZ

Quando alguém diz «Tanto faz» ou, em alternativa, encolhe os ombros, aquilo que está a transmitir é «Não quero saber». A indiferença magoa. Quando o seu companheiro faz uma pergunta, isso significa que está a contar consigo, que é importante para ele ouvir a sua opinião. Pode ser a respeito da cor da gravata a usar numa cerimónia ou acerca de assuntos bem mais importantes. Sempre que você reage com indiferença, a pessoa de quem gosta acumula desamparo.

3.       É SEMPRE A MESMA COISA

Há palavras que têm o poder de destruir uma conversa.



As generalizações são poderosas porque transformam uma queixa legítima, a propósito de uma situação específica, num ataque à personalidade da pessoa de quem se gosta. E quando alguém se sente atacado tende a reagir com agressividade e/ou através de uma postura defensiva. Nestes casos, aquilo que a pessoa ouve é qualquer coisa como «Tu não prestas».

4.       O MEU EX ERA MELHOR DO QUE TU

As comparações são profundamente injustas. Todas as pessoas têm qualidades e defeitos e a pessoa que está ao seu lado não está à espera que você a veja como um símbolo da perfeição. Aquilo que é expectável é que você consiga lidar com a maior parte dos seus defeitos e que seja capaz de valorizar MESMO as suas qualidades. Quando compara o seu companheiro com outra pessoa, está a mostrar desprezo por essas qualidades e aquilo que ele ouve é qualquer coisa como «Tu não és suficientemente bom para mim».

5.       NÃO COMAS ISSO

«Não vistas aquilo». «Não fales dessa maneira».


Quer estar ao lado de alguém com o direito a personalidade própria ou precisa de exercer o seu poder sobre outra pessoa, controlando-a? Nenhuma relação saudável pode ser baseada neste tipo de comportamentos (controladores), sob pena de um dos membros do casal se sentir cada vez mais infeliz.

6.       JÁ OLHASTE BEM PARA TI?

Há muitas formas de mostrar o seu desagrado a propósito das escolhas do seu companheiro. À medida que os anos passam, algumas pessoas assumem uma postura mais descuidada em relação ao seu aspeto físico, fazem escolhas que não traduzam genuíno investimento na relação ou pura e simplesmente crescem de forma diferente da do companheiro. Se existir vontade de continuar na relação, é fundamental que as críticas não sejam confundidas com exercícios de humilhação. A crítica é saudável – mesmo numa relação amorosa. Mas é fundamental que a pessoa que é criticada continue a sentir-se MESMO amada. Olhe para o seu companheiro como um membro da sua equipa e não como um inimigo. Mostre de forma clara o seu afeto, mesmo quando tiver de o criticar.

7.       SE TU GOSTASSES MESMO DE MIM…

Esta frase grita CHANTAGEM EMOCIONAL por todos os lados. Isto é, traduz desrespeito, abuso emocional.

Há muitas alturas em que aquilo que você quer é muito diferente daquilo que o seu companheiro quer. Numa relação saudável, para que ambos ganhem é preciso que ambos estejam dispostos a perder. Às vezes cede um, às vezes cede o outro. Você tem todo o direito de dizer «Isto é MESMO muito importante para mim» ou «Eu gostava MESMO que tu…», mostrando de forma clara as suas necessidades. Mas não tem o direito de manipular o seu companheiro fazendo com que ele se sinta culpado por fazer determinada escolha ou por pensar de determinada maneira. Fazer chantagem emocional é dizer «Aquilo que eu sinto é mais importante do que aquilo que tu sentes».

8.       QUE EXAGERO!

Eu costumo dizer que todas as emoções são válidas. Cada um de nós tem o direito de sentir TUDO. Não temos é o direito de nos comportarmos de qualquer maneira. O seu companheiro tem o direito de sentir tristeza, medo ou raiva a propósito de uma situação que, na sua ótica, seja banal. Aqui é que está o problema: quando alguém considera que a sua ótica é que é a correta, está a desrespeitar o companheiro. Você não tem o direito de definir as emoções da pessoa que está ao lado. Não tem o direito de dizer o que é que é suposto que ele sinta em determinada situação. Tem o direito de dizer «Eu sentir-me-ia de maneira diferente» e tem, sobretudo, a oportunidade de mostrar genuíno interesse e curiosidade em relação aos motivos por que ele(a) se sente de maneira diferente.

9.       NÃO PRECISO DE TI

Às vezes, no auge de uma discussão, dizem-se coisas sem pensar. Mas há limites que não devem mesmo ser ultrapassados. Se o seu companheiro assumiu um comportamento que o(a) magoou, é natural que sinta a necessidade de mostrar a sua tristeza e/ou a sua raiva mas isso não deve implicar que qualquer uma destas emoções tome conta de si empurrando-o(a) para comportamentos impulsivos. Mostrar desprezo e desapego em relação ao seu companheiro desta forma é gerador de uma sensação avassaladora de rejeição, medo e desamparo. E mesmo que algum tempo depois fique aparentemente tudo bem, há marcas que não se apagam.

10.   DESCULPA, MAS…



Quando alguém escolhe assumir os próprios erros – por exemplo, na sequência de uma discussão -, não está a “dar-se como culpado”. Está, isso sim, a dizer «Eu escolho assumir a minha responsabilidade em nome de um bem maior: a nossa relação» ou «Eu preocupo-me genuinamente com a mágoa que te provoquei». Mas se esse pedido de desculpas for apenas uma estratégia para atirar à cara do companheiro todos os seus erros, o resultado será quase de certeza catastrófico.

11.   EU NÃO PRECISO DE DIZER QUE GOSTO DE TI


Se há algo que caracteriza uma relação feliz e duradoura é a vontade genuína de fazer feliz a pessoa que está ao nosso lado. Isso requer descentração, requer interesse (verdadeiro) pelas suas necessidades. Envolve a capacidade de sair da zona de conforto “só” para agradar aquela pessoa. Implica querer dar o melhor e não apenas aquilo que apeteça. A maior parte das pessoas que conheço precisam de se sentir amadas. Precisam regularmente de gestos, palavras, escolhas específicas que gritem «Gosto de ti».

6.2.17

TUDO O QUE O AMOR NÃO É: VIOLÊNCIA EMOCIONAL


«És demasiado sensível. Não tens sentido de humor». Foram tantas as vezes que Anabela ouviu aquelas frases que, a partir de certa altura, passou a acreditar neste e em todos os rótulos que o marido lhe foi atribuindo. Foi preciso muito tempo para perceber que as piadas que João fazia junto de familiares e amigos, inferiorizando-a, também eram uma forma de violência emocional. Apesar de sofrer com os comentários, habituou-se a desvalorizar os seus sentimentos. Afinal, era a pessoa que amava que lhe dizia que ela era “demasiado sensível”.



- Estás chateada com o quê?
- Hã? Eu não estou chateada.
- Podes não reparar, mas sempre que vens do curso novo que estás a fazer pareces outra. Andas mais sisuda, mais rabugenta.
- Mas eu nem disse nada…
- Estás a ver? Já estás a arranjar discussão. Não se pode falar contigo.

Rita não se deu conta de que, enquanto o marido definia os seus sentimentos, dizendo-lhe que estava zangada, estava na verdade a sabotar uma atividade de que ela gostava e que o fazia sentir-se ameaçado. Ninguém está permanentemente atento à própria expressão facial e, quando a pessoa de quem gostamos nos diz que estamos com ar cansado ou zangado, acreditamos. A última coisa em que pensamos é que aquilo possa ser uma forma de abuso.


«Se tu gostasses MESMO de mim, não me obrigavas a ir a esse jantar. A tua mãe está sempre a falar dela mesma e o teu pai não perde uma oportunidade para se queixar disto e daquilo. Numa relação é importante fazer cedências e prestar atenção ao que a pessoa de quem gostamos sente. Tu não te preocupas comigo?». Claro que Rute se preocupa com o marido. E é óbvio que Vasco sabe disso. Por que faz chantagem emocional? Porque é que  não diz qualquer coisa como «Eu sei que era importante para ti que eu fosse mas hoje sinto me cansado, impaciente. Não te importas que eu fique?». Porque para si é mais gratificante exercer poder sobre a mulher, definir os sentimentos dela («se tu gostasses mesmo de mim…»), forçá-la a fazer uma escolha diferente daquela que gostaria, potenciar sentimentos de culpa e colocar-se numa posição de superioridade, capaz de identificar os comportamentos certos e errados de uma boa relação.


«Como é que tu achas que os nossos filhos vão olhar para ti? Vão acusar-te de egoísmo e malvadez. Não se desiste assim de uma família. Não se tira a estabilidade emocional a duas crianças nem se termina um amor de vinte anos só por causa de meia dúzia de discussões. Pergunta a quem quiseres. Até os teus pais vão ficar em choque. Eles sabem que eu te adoro.».

Nuno sabia aquilo que estava a dizer. Sabia que ao definir a personalidade da mulher e ameaça-la com os juízos de valor dos filhos estava a tocar no seu maior medo. Ainda que a mulher e os filhos tenham sido vítimas continuadas das suas explosões, das suas críticas e da sua chantagem emocional, Nuno deu o seu melhor para manter uma imagem de pai de família imaculado. Sabia que toda a gente à sua volta o via como uma pessoa simpática, generosa e altruísta. É assim que muitos abusadores se comportam fora de casa.


Quando Luís entrou na sala de cinema com a mulher, sabia que viriam dias difíceis. Tinha acabado de ser simpático com a funcionária que lhe vendeu as pipocas, sorrindo perante uma brincadeira. Ana, a mulher, não gostou e, à entrada para o cinema disse apenas «És ridículo». Seguiram-se dois dias de “tratamento do silêncio”. Luís estava habituado a esta forma de violência embora não tivesse consciência de que era disso que se tratava. Sabia que se contrariasse as expectativas da mulher poderia estar horas, dias ou semanas sem receber qualquer gesto de carinho. Sofria com isso mas estava longe de perceber que os comportamentos abusivos estavam a destruir a sua autoestima.


«Não vales nada.». É curioso como a frase, repetida até à exaustão, deixou de escandalizar Diana. Era ela que trabalhava fora de casa, era ela que brilhava no mundo corporativo e era ela que sustentava a família. Fernando estava desempregado há muito tempo e Diana habituou-se a atribuir as humilhações à diminuição da autoestima do marido. Durante muito tempo não percebeu que aquela era só mais uma forma de controlo, mais uma forma de o marido se superiorizar e, em função disso, mantê-la sob as suas ordens.



A violência emocional pode assumir muitas formas. Pode ser feita em voz baixa, quase doce, confundindo a vítima. Pode incluir gritos, insultos e explosões. Mas também pedidos de desculpas que parecem uma nova lua-de-mel. Muitas vezes é praticada por alguém que publicamente tem uma imagem imaculada e que, em privado, vai aprimorando técnicas para exercer o seu poder sobre a pessoa que alegadamente ama. Normalmente não há um plano maquiavélico. Aquilo que existe é uma espécie de filme, imaginado por si, e uma vítima que, na sua cabeça, deveria comportar-se sempre de acordo com as suas expectativas. É como se houvesse um guião e a pessoa amada fosse uma personagem. Quando a personagem ganha vida e revela vontades, sentimentos ou interesses próprios, surgem comportamentos abusivos.
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