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20.4.20

ENCONTRAR O AMOR NA INTERNET


Amor na Internet


É possível encontrar o amor através da Internet? Que diferenças existem entre os encontros online e os encontros na vida real? Que comportamentos devemos ter para evitar perder tempo e energia com quem possa estar apenas à procura de um engate?


A Internet veio facilitar – e muito – a vida dos adultos à procura de um relacionamento. Há uns anos, quando alguém se separava, tinha de lidar com a dificuldade em conhecer pessoas novas. A sensação que muitas pessoas recém-separadas tinham era de que teriam de fazer muitas escolhas que as obrigariam a sair muito da sua zona de conforto para encontrar um(a) novo(a) companheiro(a) romântico.




Quantas pessoas precisamos de conhecer até encontrar “a tal”?

Não é por acaso que ouvimos falar da “química” do amor. A maioria de nós não se apaixona com facilidade. Podemos sentir-nos atraídos por algumas pessoas, podemos considera-las interessantes de muitos pontos de vista e, ainda assim, podemos constatar que simplesmente não há faísca.



O professor John Gottman, provavelmente um dos mais reconhecidos investigadores na área da conjugalidade (ao ponto de a revista Psychology Today o apelidar de “Einstein do Amor”), contou a determinada altura como é que conheceu a sua mulher, a professora Julie Gottman, com quem está casado há mais de trinta anos. Apesar de o seu trabalho estar centrado na investigação sobre os motivos por que algumas relações resultam e outras falham, John Gottman tinha ultrapassado a barreira dos 40 anos, estava divorciado há sete e colecionava relações mal-sucedidas. Antes de recomeçarem as aulas na universidade, aproveitando o tempo livre de que dispunha, decidiu conhecer o maior número de mulheres que conseguisse. Na altura (1986), não havia Internet e Gottman decidiu responder a todos os anúncios pessoais que encontrasse nos jornais. Em seis semanas, conheceu sessenta mulheres. Sessenta! Julie foi a 61ª. Primeiro, trocaram números de telefone e conversaram durante mais de quatro horas seguidas, sentindo uma empatia imediata. Depois, combinaram um encontro num bar. John Gottman chegou cedo e deu por si a observar as mulheres que entravam no bar interrogando-se «Será que esta é que é a Julie?». Algumas mulheres não (lhe) pareciam muito interessantes e Gottman dava por si a pensar «Espero que não seja esta». Quando Julie entrou no bar, Gottman gostou da sua aparência e pensou «Espero que seja esta». Conversaram, ela riu-se das suas piadas e, no segundo encontro, Gottman sabia que ela era “a tal”.


Nos dias de hoje o que não faltam são opções. Entre o Tinder, o Facebook e os mais variados sites de encontros, sabemos que é muito mais fácil conhecer muitas pessoas em pouco tempo através da Internet do que na vida real. Mas isso não significa que a tarefa seja fácil, sobretudo para quem busca mais do que relações ocasionais.

Um dos primeiros desafios que qualquer pessoa terá de enfrentar se estiver na disposição de procurar um novo amor na Internet tem precisamente a ver com este paradoxo da escolha: O facto de haver tanta oferta tende a baralhar-nos. É como se o facto de sabermos que há milhares de pessoas “disponíveis” nos tornasse menos tolerantes a pequenas falhas e menos pacientes para conhecer melhor cada pessoa com quem nos cruzemos.

As relações que começam online tendem a ser mais curtas porque, de uma maneira geral, as expectativas dos utilizadores são maiores.


O facto de haver aparentemente tanta oferta faz com que também seja mais fácil afastar potenciais companheiros românticos - mesmo que os consideremos interessantes - na esperança de que seja possível encontrar alguém (ainda) melhor.

Qual é o perfil de quem procura o amor na Internet?


Na verdade, há muitos perfis. Na Internet, tal como na vida real, a percentagem de pessoas que procuram relações sem grandes compromissos é maior. Já falei sobre isso AQUI a propósito dos estilos de vinculação amorosa. As pessoas com um estilo de vinculação evitante sentem-se pouco confortáveis com níveis elevados de intimidade emocional e, por isso, têm relações mais curtas, voltam muito mais vezes ao “mercado” dos solteiros e fazem-no de forma mais ativa. É por isso que algumas pessoas se queixam porque aparentemente estão sempre a relacionar-se com as pessoas “erradas”.

Saiba qual é o seu estilo de vinculação – e a pessoa certa para si – AQUI.

A Internet é um mundo “à parte” porque, como é fácil de perceber, permite que haja uma série de passos que sejam dados sob anonimato ou com dados falsos que, cá fora, seriam mais rapidamente detetados. Online há um risco maior de começarmos a conversar com alguém cujas intenções pareçam uma coisa e sejam, na realidade outra.

Mas nem tudo é mau! Aquilo que várias pesquisas demonstram é que quem está na Internet à procura do amor são normalmente pessoas que investem muita energia e às vezes até dinheiro nesta busca. Sim, há quem pague para ter acesso a conteúdos exclusivos ou para que um “especialista” encontre a “alma gémea”. Isto também pode mostrar alguma motivação extra para construir uma relação, por oposição àquela ideia feita de que na Internet só se encontra pessoas à procura de engates.

As pessoas mais velhas também recorrem à Internet?


Sim, mas tendem a ser mais seletivas - em particular as mulheres. Depois de uma certa idade, e, sobretudo, depois de uma ou mais relações significativas de longa duração, tendemos a definir de forma mais precisa aquilo que queremos e aquilo que não queremos para nós. Tem havido um crescimento no número de pessoas com 50 e 60 anos que utilizam a Internet para encontrar um novo amor, mas estas pessoas são normalmente mais exigentes.

Quando é uma pessoa está pronta para procurar o amor na Internet?


Há muitas pessoas que criam um perfil em sites e aplicações de encontros pouco tempo depois da separação, sentindo uma mistura de excitação e insegurança. Por um lado, sentem-se genuinamente maravilhadas com as possibilidades que a Internet oferece (e que na muitas vezes não existiam quando começaram a relação anterior), mas, por outro, sentem-se assustadas com este admirável mundo novo.

É muito importante que cada pessoa avalie se se sente realmente pronta para enfrentar os desafios dos encontros digitais. O luto da relação anterior está feito? Como está a sua autoestima? Está preparado(a) para correr riscos e lidar com a rejeição?

Algumas pessoas iniciam esta procura e interrompem-na pouco tempo depois precisamente por perceberem que ainda se sentem demasiado ligadas à anterior relação ou que simplesmente não adquiriram o estofo e a estabilidade que lhes permita saborear esta aventura sem correr o risco de ver a própria autoestima destruída.

Encontrar o amor online: o que é que procura?


É uma pessoa “com um feitio complicado”? Ou a maior parte das pessoas à sua volta tendem a rotulá-lo(a) de “pragmático(a)”? Gosta muito de viajar e dá-se mal com a monotonia? Ou é uma pessoa de gostos simples e qua não lida bem com demasiada aventura? Aquilo que a ciência nos mostra é que tendemos a sentir-nos mais felizes com pessoas com quem sintamos que haja afinidade. Não, isso não quer dizer que tenhamos de encontrar alguém com os mesmos hobbies.

Antes de partir para a análise de qualquer perfil online, pare um pouco para refletir sobre si. Elabore uma “lista de valores” e organize-nos de acordo com a importância. Gaste algum tempo a refletir sobre este assunto tão sério. O que é que é realmente importante para si? Que características é que um(a) parceiro(a) romântico tem mesmo de ter? Depois, reflita sobre a sua própria experiência. A que sinais é que acha que pode estar atento(a)? Que perguntas vai precisar de colocar para perceber se a outra pessoa partilha os mesmos valores?

O que é que devo incluir no perfil? A importância da autenticidade.


Se há algo que a ciência nos oferece é a certeza de que somos muito mais felizes na medida em que tenhamos uma vida autêntica. Online as coisas não são diferentes. Você não controla a honestidade de quem está do outro lado, mas há muitas escolhas que pode fazer com o objetivo de se aproximar das pessoas certas.

No que toca à vontade de encontrar o amor, o medo pode complicar o processo. Quando uma pessoa se sente ansiosa perante a possibilidade de se sentir rejeitada, pode ser tentador mascarar a própria realidade. Por exemplo, algumas pessoas omitem, propositadamente, o facto de terem filhos com medo de serem automaticamente excluídas pela maioria dos potenciais parceiros. Mas será que vale a pena? A minha experiência mostra-me que não.

A procura do amor não é um concurso de popularidade e a sua autoestima não pode estar dependente do número de pessoas que gostam do seu perfil.

É preferível ser claro(a) e honesto(a) em relação a quem é e àquilo que quer para si. Isso aproximá-lo(a)-á das pessoas certas e permitir-lhe-á investir apenas nas pessoas que estejam dispostas a aceitá-lo(a) exatamente como é. Mesmo assim, é possível que do outro lado haja quem não seja totalmente sincero e possa tentar iludi-lo(a).

Lembre-se de que não há qualquer vantagem em criar uma personagem. Foque-se na minoria que lhe interessa.

Seja honesto(a) também nas fotografias. Não vale a pena publicar uma foto de há 10 ou 15 anos. A desilusão será maior.

Quando é que se deve marcar um encontro presencial?


Cada pessoa sabe de si, naturalmente, mas, de uma maneira geral, é desejável que ninguém gaste muito tempo a investir numa relação cuja comunicação seja apenas digital. A nossa comunicação é, sobretudo, não-verbal. Revelamo-nos muito mais cara a cara do que através de qualquer texto.

Lembre-se de que é mais fácil avaliar se outra pessoa é ou não compatível consigo em 10 minutos de conversa cara a cara do que em várias horas de análise ao perfil digital.


Quando partir para esta etapa, lembre-se de garantir a sua segurança:

·         Combine o primeiro encontro num lugar público;
·         Partilhe a sua localização com um familiar ou um(a) amigo(a);
·         Evite partilhar informações que possam ser utilizadas de forma abusiva.
·        Defina bem os seus limites. Seja claro(a) em relação a qualquer comportamento que considere inapropriado.
Ainda em relação a este primeiro encontro, é importante que procure criar condições para que ninguém se sinta (muito) pressionado:
·         Combine uma ATIVIDADE. Fazer qualquer que permita que ambos se mantenham entretidos, ainda que haja espaço para a conversa, é meio caminho para aliviar a pressão.
·         Não leve tudo demasiado a sério. Sim, você está à procura de uma relação amorosa, mas não encare um primeiro encontro como entrevista de emprego. Procure, sobretudo, avaliar se gostaria de voltar a encontrar-se com esta pessoa uma segunda vez (e não tente perceber logo se ele(a) é a pessoa certa para passar o resto da vida ao seu lado).

23.9.19

O FACEBOOK E AS RELAÇÕES AMOROSAS


O Facebook e as relações amorosas

Que impacto é que o Facebook tem nas relações amorosas? Que escolhas podemos fazer para proteger a nossa relação? E o que é que não devemos mesmo fazer?


«Porque é que ele fez um ‘like’ naquela foto?», «Não estava à espera daquele comentário.», «Será que ela continua a trocar mensagens com ele?». Estas são algumas das inquietações dos utilizadores do Facebook. Entre ‘likes’ e comentários, é fácil criar instabilidade a uma relação, sobretudo quando as regras não estão bem definidas e a comunicação entre os membros do casal não é clara.

Hoje partilho algumas regras que podem ajudar a proteger a sua relação:


NÃO PARTILHAR FOTOGRAFIAS SEM PERMISSÃO


O mais importante é que as regras que um casal segue cá fora também estejam presentes nas redes sociais – no Facebook, no Instagram ou em qualquer outra. E quem define as regras? O próprio casal. Na Internet é mais fácil cometer alguns erros. Um dos mais comuns é a publicação de fotografias.

Há pessoas que não têm qualquer problema em mostrá-las, mas há quem seja mais reservado, e isso tem de ser respeitado. Ou seja, o que é importante é conhecer a pessoa que está ao seu lado, saber o que o(a) deixa desconfortável ou inseguro(a). Algumas pessoas sentem-se tranquilas com a possibilidade de o companheiro mostrar as fotografias das últimas férias de família aos colegas de trabalho, outras não. O mesmo acontece em relação às redes sociais. Se a pessoa de quem gosta não se sente confortável com a possibilidade de você publicar fotos dela no Facebook, não o faça.


NÃO LAVAR A ‘ROUPA SUJA’ EM PÚBLICO


É compreensível, mas não é aceitável. Eu consigo perceber a aflição de quem faz publicações em tom de desabafo depois de um momento de tensão conjugal, mas não consigo validar esse comportamento. Em primeiro lugar, porque ele é danoso para a própria pessoa e, depois, porque é muito provável que isso traga ainda mais problemas para a relação.

É importante que tenhamos a consciência de que quem está do outro lado do ecrã não tem sempre as melhores intenções a nosso respeito, que há pessoas que pela frente nos apoiam, mas por trás até são capazes de nos criticar. Mesmo que do outro lado estejam pessoas que procuram animar, isso não vai ajudar à resolução das dificuldades.

Claro que no meio de uma crise é difícil perceber isso: a pessoa está tão desamparada, tão aflita, que busca por algumas palavras de apoio. Quando desabafamos com um familiar ou amigo, isso pode ser terapêutico porque há alguém que está ali para nós, que quer realmente saber. Mas no Facebook, de uma maneira geral, não há essa disponibilidade.



Mesmo quando alguém pergunta, nos comentários,
«O que é que se passa?», pode não ter genuíno
interesse. A verdade é que se estivermos
genuinamente preocupados com alguém de quem
gostamos telefonamos, combinamos uma visita
– não nos limitamos a fazer um
comentário no Facebook.



E depois há todo o prejuízo para a relação. É muito fácil que o(a) companheiro(a) da pessoa que fez o desabafo no Facebook se sinta traído(a), humilhado(a) e desrespeitado(a). É muito saudável que os casais discutam, mas deve haver limites. Os casais felizes, mesmo quando discutem, respeitam alguns limites: vão até certo ponto, mas não passam daí, porque há um bem maior a proteger: A relação. Ir para o Facebook dizer mal do outro é ultrapassar esses limites.


NÃO SEGUIR O EX


Para a maior parte dos casais, não é saudável seguir o(a) Ex no Facebook.


Em primeiro lugar, há a preocupação com os sentimentos do outro. Mesmo que não se mantenha qualquer ligação romântica com a outra pessoa, não significa que a pessoa ao nosso lado se sinta tranquila e há que respeitar isso.

Se discutiu recentemente com o(a) seu(sua) companheiro(a) sobre isso, pergunte a si mesmo(a) «Porque é tão importante manter a relação com aquela pessoa no Facebook?». Claro que se existir uma genuína amizade fora do Facebook, é natural que a mantenha online. Mas se não, o que é que aquilo acrescenta à sua vida?

Sem querer, algumas pessoas acabam por fazer comparações negativas. Mesmo que já não haja sentimentos românticos pelo(a) Ex, podemos ficar focados no que aquela relação teve de positivo, comparando-a com a relação atual, sobretudo em momentos de tensão. Estes exercícios de comparação fomentam a insegurança da pessoa que está ao nosso lado e impedem-nos de a valorizar na medida certa.


NÃO ‘FLIRTAR’ 


Relembro que as regras devem ser definidas por cada casal. O nosso comportamento online está ligado ao nosso comportamento cá fora: há pessoas mais físicas, mais afetuosas, que se expressam de forma carinhosa e sem maldade. Será natural que ajam da mesma maneira no Facebook, distribuindo beijinhos e abraços. Mas se esses comportamentos forem diferentes do que são cá fora, ou se passarem por cima daquilo que a pessoa que está ao nosso lado sente, isso pode trazer problemas.

Se um dos membros do casal se sentir inseguro, é importante falar sobre os seus sentimentos – sem acusações, sem ataques.


NÃO ENVIAR MENSAGENS ROMÂNTICAS A OUTRA PESSOA


Estas são as situações que mais aparecem no meu consultório, e já têm a ver geralmente com quebra de confiança e algum tipo de traição. De um modo geral, quando há fumo há fogo. Cada um tem o direito à sua privacidade. Mas a partir do momento em que uma pessoa se dá conta de que o companheiro(a) está inseguro(a) em relação àquilo que possa estar a fazer no Facebook, tem de o(a) tranquilizar.

Se uma pessoa se sentir insegura, se suspeitar de que o(a) companheiro(a) tem trocado mensagens românticas com outras pessoas, deve confrontá-lo(a) diretamente, e de forma tão assertiva quanto possível. O que é que não se deve fazer? Vasculhar o Facebook do outro. Mais uma vez, percebo, mas não posso aconselhar. Porque isso não vai trazer nada de bom e só vai deteriorar a autoestima. Então, e se houver suspeitas fortes e a pessoa que está ao nosso lado não admitir? Se não for capaz de confiar na pessoa que está ao seu lado, tem sempre a possibilidade de se afastar. Isso não é fácil, claro, mas pode ser a única forma de se sentir genuinamente em paz.

6.4.18

DAR AS NOSSAS PASSWORDS AO COMPANHEIRO: SIM OU NÃO?

Há muitas pessoas que me perguntam se é saudável dar a password do Facebook ou do e-mail ao companheiro. Será este passo essencial para demonstrar que temos uma relação de confiança? E se um dos membros do casal não o quiser fazer? Quererá isso dizer que está a esconder alguma coisa de significativo?


Neste vídeo procuro responder a todas estas questões:

Devemos dar as passwords ao nosso companheiro?Partilhar as passwords é uma prova de confiança?Qual é a intenção de quem partilha as passwords? É dar uma prova de confiança? É pressionar o outro para fazer o mesmo?Como lidar com o facto de o companheiro não querer partilhar as suas passwords?O que fazer com as passwords?



24.1.18

O AMOR E AS REDES SOCIAIS

Que impacto é que as redes sociais têm nos relacionamentos amorosos?
O Facebook pode ter um efeito destruidor sobre as relações?
Há mais traições graças ao Facebook e a outras redes sociais?

Faz sentido invadir a privacidade do companheiro para verificar se está a ser infiel?
E quando uma relação acaba - é saudável espiar o perfil do "ex"?
O amor nos dias de hoje tem de ser maior para resistir aos desafios que as redes sociais trouxeram ao amor e às relações amorosas?

Hoje estive à conversa com Ana Rita Clara no programa FAZ SENTIDO, na SIC mulher, sobre
O AMOR E AS REDES SOCIAIS.


21.6.17

COMO MANTER UMA RELAÇÃO À PROVA DO FACEBOOK


O Facebook está a prejudicar as relações amorosas? Há mais traições por causa desta rede social? Que regras devem ser adotadas para manter uma relação na era do Facebook? O que é que não devemos fazer (se quisermos manter a nossa relação)?

Quase todas as pessoas que conheço – pessoal ou profissionalmente – têm conta de Facebook. A rede social criada por Mark Zuckerberg passou a fazer parte das nossas conversas, dos nossos momentos de lazer e, em muitos casos, também passou a ser motivo de tensão. Mas será assim tão demoníaca? Trouxe, de facto, mais perigos para as relações amorosas? Ou trouxe, sobretudo, maior exposição sobre aquilo que já existia?

O FACEBOOK É BOM OU MAU PARA AS RELAÇÕES?

DEPENDE.

O Facebook não é mais do que um prolongamento da nossa vida social. Há pessoas que saem de casa todos os dias com genuína vontade de trabalhar e de socializar sem desrespeitar ou prejudicar a pessoa de quem gostam. E também há quem tire a aliança do dedo mal se despeça do companheiro com o intuito de flirtar com outras pessoas. Foi sempre assim – muito antes de haver Facebook.
Há quem esteja diariamente no Facebook consciente de que há escolhas que poderiam prejudicar a pessoa amada e há quem nunca tenha gasto um minuto a pensar nisso. De uma maneira geral, quando prestamos (mesmo) atenção àquilo que a pessoa de quem gostamos sente, quando nos preocupamos com ela, acabamos por fazer escolhas que protegem a relação.

HÁ MAIS TRAIÇÕES POR CAUSA DESTA REDE SOCIAL?

SIM.

Da mesma maneira que há maior probabilidade de alguém ser infiel quando trabalha fora de casa e conhece outras pessoas. Se há algo que o Facebook trouxe foi a possibilidade de estarmos emocionalmente mais próximos de uma série de pessoas – ex-colegas, ex-vizinhos, ex-paixonetas, amigos de infância, amigos-dos-amigos ou meros desconhecidos. Este acesso fácil a tanta gente também tem favorecido os encontros românticos e as traições.



QUE REGRAS DEVEM SER ADOTADAS PARA MANTER UMA RELAÇÃO NA ERA DO FACEBOOK?

DEPENDE.

As regras devem ser construídas a dois. Há casais que só saem à noite juntos. Há casais que saem regularmente só com amigos. Há casais que nunca saem à noite. Aquilo que funciona para um casal, pode não ser ajustado para outro. Para que duas pessoas sejam felizes juntas é preciso que se exponham, que conversem serena e francamente sobre aquilo de que cada uma precisa. E é exatamente isso que deveria acontecer a propósito do Facebook.

É SAUDÁVEL CONTINUAR A SER AMIGO DO EX NO FACEBOOK?

DEPENDE.

Se houver uma relação fora do Facebook, parece-me que fará todo o sentido que a amizade se estenda a esta rede social. Se não houver qualquer ligação, talvez valha a pena questionar-se: Por que continuo a seguir aquela pessoa? Com que propósito? Que impacto é que isso tem na minha relação atual? Como é que o meu companheiro se sente em relação a esta escolha? Como em quase tudo o que diga respeito ao amor, o que importa é conversar abertamente e ser capaz de valorizar (mesmo) aquilo que a pessoa de quem gosta sente.

É SAUDÁVEL DESABAFAR SOBRE A RELAÇÃO NO FACEBOOK?

NÃO.

Consigo empatizar com a aflição que alguém sente quando as coisas correm mal na relação conjugal. Pode ser desesperante e é legítimo que haja muita vontade de desabafar e receber colo. Mas é preferível fazê-lo em privado e com alguém que genuinamente esteja disponível para ouvir e amparar. Os gostos e os comentários de “apoio” podem dar origem a algum conforto no imediato mas não compensam os prejuízos a que esta exposição está associada.



É, sobretudo, uma questão de (des)respeito. Há limites que não devem mesmo ser ultrapassados – para não humilhar, para não magoar de forma definitiva a pessoa que está ao nosso lado.

É SAUDÁVEL FAZER DECLARAÇÕES DE AMOR NO FACEBOOK?

DEPENDE.

Não há gesto mais romântico do que ir ao encontro da vontade da pessoa de quem se gosta. Que sentido fará oferecer um ramo de rosas vermelhas a alguém que não goste que as flores sejam arrancadas das respetivas raízes? Mostrar publicamente o seu afeto só fará sentido se a pessoa de quem gosta se sentir confortável com essa exposição. Por outro lado, é fundamental que uma declaração de amor seja, acima de tudo, genuína. A bajulação e a tentativa de mostrar aos outros que tem uma relação perfeita são formas de desviar a atenção do que é verdadeiramente importante.

É SAUDÁVEL REVELAR A PASSWORD AO COMPANHEIRO?

DEPENDE.

Há casais que só têm uma conta bancária. E há casais que não têm uma conta conjunta nem os códigos de acesso à conta do cônjuge. É possível ser feliz de muitas maneiras. Cada pessoa tem o direito à sua privacidade, à sua individualidade e, à partida, a password do Facebook não acrescenta nada à felicidade conjugal. MAS há situações que podem ser geradoras de dúvida, ansiedade, insegurança. Nesses casos, aquilo que deveria sobressair é a GENUÍNA preocupação com os sentimentos do cônjuge.



Isso pode passar por escancarar a conta de Facebook com o propósito de recuperar a confiança.

É SAUDÁVEL FLIRTAR NO FACEBOOK?

NÃO.

Quanto maior for a nossa consciência a propósito dos nossos sentimentos, dos sentimentos da pessoa de quem gostamos e dos riscos associados a cada comportamento, maior é a probabilidade de fazermos as escolhas que protejam a nossa relação. Sempre que alguém opte por galantear outras pessoas (no Facebook ou cá fora) com o objetivo de obter a gratificação imediata dos jogos de sedução ou com vontade de materializar uma relação extraconjugal, é de uma quebra de confiança que estamos a falar. Conversar às escondidas com outras pessoas pode parecer uma escolha inofensiva mas é quase sempre uma forma de infidelidade emocional.

É SAUDÁVEL PASSAR O SERÃO A OLHAR PARA O FACEBOOK?

DEPENDE.


A maioria das pessoas que conheço precisam de “limpar a cabeça” de um dia de trabalho através de atividades que distraiam e reduzam o stress. Para muitos, a televisão cumpre esse propósito. Para outros, é o Facebook. Não há nada de errado em passar algum tempo ligado a esta rede social, mesmo que o seu companheiro esteja ao seu lado. Aquilo que não é saudável é que isso aconteça SEMPRE e que não haja aquilo a que chamo de rituais românticos. É fundamental que diariamente haja tempo e disponibilidade para conversar, para saber sobre o dia da pessoa de quem gostamos e para FAZER ATIVIDADES A DOIS. 

18.1.16

O QUE É QUE NÃO DEVEMOS EXPOR NO FACEBOOK (SOBRE A NOSSA RELAÇÃO)?


Há limites para tudo. Se não nos passa pela cabeça entrar no café do nosso bairro e expor a nossa intimidade conjugal, por que o faremos no Facebook? É verdade que por detrás de um ecrã é muito mais fácil ignorar as consequências (negativas) de algumas partilhas mas o preço a pagar pela impulsividade de um momento pode ser demasiado caro.

O que é que NÃO devemos partilhar no Facebook?

POSTS CUTXI-CUTXI

Guarde as grandes declarações de amor para si e para o mais-que-tudo. No máximo, faz algum sentido que mostre todo o seu orgulho junto dos amigos e familiares mais próximos.


Pior do que isso: há uma probabilidade elevada de algumas destas pessoas considerarem que a sua partilha é mais “fogo de vista” do que outra coisa. E não se iluda: o número de “gostos” numa publicação nem sempre são reveladores de genuína empatia.

FOTOGRAFIAS QUE NÃO FAVOREÇAM O MAIS-QUE-TUDO OU SEM A SUA PERMISSÃO

Já experimentou a sensação de ser identificado/a numa fotografia e ficar escandalizado/a com a sua própria imagem? É o horror! É o descalabro! Como é que alguém pode colocar uma fotografia sua com uma imagem claramente desfavorecida sem a sua autorização? Talvez não haja leis que impeçam este tipo de acontecimentos mas este tipo de escolhas são, no mínimo, questionáveis. Pense MUITO bem antes de publicar qualquer fotografia da pessoa de quem gosta. Você pode ter a melhor intenção do mundo. Pode até achar que ele/a está fantástico/a naquela foto. MAS… nada substitui a autorização clara. Ter a certeza de que a outra pessoa está confortável com a ideia é meio caminho para evitar conflitos desnecessários. É uma questão de respeito.

INDIRETAS

(Quase) toda a gente já deu de caras com posts mais ou menos enigmáticos em que, apesar de não haver uma reclamação formal, fica patente o descontentamento de uma pessoa em relação ao mais-que-tudo. E não é agradável. Você não “precisa” de saber que a sua colega de trabalho teve um arrufo com o marido. É possível que não se importe de aceder a este tipo de mexericos mas de certeza que a pessoa visada ODEIA este tipo de exposição.


CRISES DE CIÚMES

Está a ver o que aconteceu recentemente com Ivete Sangalo? Você não quer que as pessoas à sua volta tenham pena de si ou sintam vergonha alheia. E o seu mais-que-tudo vai detestar a ideia de ser o bobo da corte do momento. É possível que você se sinta insatisfeito/a com um ou outro comportamento da pessoa que ama. Sentir ciúmes é normal e manifestá-los (em privado) é saudável. Mas… NADA justifica uma chamada de atenção em público. Este puxão de orelhas é só uma forma de você dizer ao mundo que você não foi capaz de se controlar.

FRAGMENTOS DE DISCUSSÕES

O que ele/a disse. Os disparates que fez. A sua raiva. Tudo isto deve MESMO ser vivido em privado. Depois de um momento de tensão, é natural que você se sinta vulnerável/ magoado/a/ indignado/a. E também é normal que precise de algum apoio. Apesar disso, NÃO busque a solidariedade através de uma plataforma tão pública como o Facebook.



29.1.15

INFIDELIDADE NAS REDES SOCIAIS

Hoje estive no programa SOCIEDADE CIVIL, na RTP 2,
para falar sobre O AMOR E O FACEBOOK, infidelidade e as redes sociais. 


25.9.14

O QUE NÃO DEVE PUBLICAR NO FACEBOOK


No Facebook cada um publica o que quer. Salvo uma outra censura dos responsáveis da rede social (é proibido publicar pornografia ou incentivos á violência, por exemplo), cada um é livre de ali expor conquistas, partilhar desgostos, divulgar negócios ou pura e simplesmente debitar todos os passos dados. Mas será que devemos publicar tudo o que nos apeteça? Ou será mais inteligente assumirmos uma postura prudente? Que filtros devemos ter?

Independentemente das definições de privacidade associadas às nossas publicações, é fundamental que tenhamos noção de que aquilo que "postamos" para um número restrito de pessoas pode facilmente cair no domínio público (nem que seja porque uma das pessoas da nossa “lista restrita” resolva partilhar uma dos nossos posts). Nesse sentido, há informações que deve evitar partilhar no Facebook:

MENSAGENS DE ÓDIO/ RESSENTIMENTO. Você pode aproveitar o seu mural para desabafar sobre tudo aquilo que vai mal no seu casamento, dizer o quanto odeia o seu chefe ou desancar na vizinha que passa o tempo a aspirar. A verdade é que você não quer que os visados conheçam o seu ódio, certo? Então, o melhor é não publicar nada que possa ser usado contra si. Mas esta não é só uma questão de poder ser apanhado a falar mal pelas costas. É sobretudo uma questão de poder ser banido pelos seus amigos. É verdade! A maior parte das pessoas vai ao Facebook em busca de entretenimento e está pouco inclinada para ler desabafos que traduzam uma boa dose de raiva. De forma mais ou menos silenciosa, as pessoas da sua lista podem optar por deixar de seguir as suas publicações, rotulando-o de… chato.

PROVAS DE INFIDELIDADE. A ideia de criar listas de amigos e partilhar o que lhe convém apenas com algumas pessoas é fantástica… mas não é 100% segura. Se anda a fazer o que não deve, o melhor é não publicar nada que denuncie os seus passos porque, mais cedo ou mais tarde, tudo se sabe. São muitos os casos de infidelidade que chegam ao meu consultório depois de um dos membros do casal ter acedido às pontas soltas deixadas pelo outro.

INFORMAÇÃO DELICADA. Publique o que for passível de ser celebrado – um casamento, um nascimento, um emprego novo, a adoção de um animal de estimação ou até aquela receita nova que você executou na perfeição. Mas evite expor momentos sensíveis como aqueles que estão associados à doença e à morte. É natural que você se sinta muito sensível a propósito da recente hospitalização da sua avó – mas os seus amigos não precisam de aceder às fotografias que comprovem o internamento. Neste caso, é também a dignidade alheia que está em causa.

PEDIDOS DE “LIKES”. Quantas vezes já se confrontou com publicações do tipo “quem gosta de azul, faz “like”; quem gosta de amarelo, partilha”? Como é que se sentiu? Estes posts são aborrecidos e também podem levá-lo a ser banido. Ou desamigado.

INFORMAÇÃO PRIVADA DE TERCEIROS. Ninguém controla a totalidade da informação que é divulgada a seu respeito na Internet. Você até pode ser um maníaco do controlo mas, garanto-lhe, é muito provável que uma série de pessoas que você nem conhece já tenham publicado fotos suas no Facebook. Como? Basta que você esteja na praia e seja apanhado por alguém que esteja a tirar uma selfie, por exemplo. No entanto, esta constatação não lhe dá o direito de publicar o que quiser sobre quem você quiser. Respeite o direito à privacidade e, sempre que for viável, peça autorização às pessoas envolvidas antes de publicar o que quer que seja sobre elas. Felicitar uma amiga pela gravidez recente pode não ser um gesto simpático se a sua amiga não estiver preparada para anunciar a novidade na rede social. Divulgar uma fotografia do seu filho ao lado do melhor amigo pode ir contra os princípios dos pais da outra criança. Mantenha-se atento.

INFORMAÇÃO QUE O LEVE A SER DESPEDIDO. OU QUE O IMPEÇA DE CONSEGUIR UM EMPREGO. É verdade que qualquer utilizador tem hoje um conjunto de ferramentas que permitem garantir alguma privacidade. Mas eu posso garantir-lhe que muitas entidades empregadoras estão muito atentas ao comportamento dos seus empregados (ou candidatos) nas redes sociais. É moralmente aceitável que alguém seja despedido ou deixe de ser contratado porque aparece em fotografias de Facebook de copo na mão e rosto indicador de um estado alcoolizado? Não. Mas a verdade é que isto acontece diariamente. E mesmo que a maior parte das suas fotografias sejam “privadas”, qualquer uma das pessoas que as veja pode partilhá-las com as pessoas erradas.


DISPARATES QUE O ENVERGONHEM. OU QUE ENVERGONHEM A SUA FAMÍLIA. Há muita coisa que você só faz se tiver a certeza de que os seus pais não estão a ver. Ou a sua avó. E há coisas que você não se importaria de partilhar com a família mais próxima mas que jamais exporia à maior parte dos seus amigos. Nesse sentido, o melhor é ter cuidado com o que publica no Facebook. Não vale a pena achar que tem tudo controlado. Não tem.

21.1.14

O AMOR E AS REDES SOCIAIS


(Entrevista concedida à revista Lux Woman para a edição de fevereiro)

O Facebook é já citado na maioria dos processos de divórcio. Acredita que tenha contribuído para o aumento da infidelidade, ou ela sempre existiu e as redes sociais simplesmente ajudaram a expô-la?

Quando comecei a trabalhar em terapia de casal, há mais de doze anos, chegavam até ao meu consultório várias histórias de infidelidade associadas à Internet. Naquele tempo, eram sobretudo as salas de chat que vinham associadas aos relatos de traições (IRC). Já naquela altura era frequente confrontar-me com pessoas que olhavam para a Internet como uma coisa “do demo”, como se a Internet em geral e as salas de conversação e os programas de Messenger em particular pudessem ser culpados de alguma coisa. Mais tarde chegou o Hi5 e a conversa era basicamente a mesma. Com o Facebook, o discurso não mudou. Pelo contrário, tornou-se mais frequente. Aquilo com que me deparo em contexto clínico não é o aumento dos casos de traições, mas sim o aumento de situações em que a traição foi descoberta através do Facebook. Há muitos casos de traições que começaram com uma aproximação ao Facebook mas noutros casos as pessoas até já se conheciam de outras andanças e o Facebook acabou por funcionar “apenas” como mais um facilitador. Porque é isso que esta rede social é: um facilitador. As pessoas já não têm de se esforçar muito para estarem próximas de ex-colegas, ex-namorados, ex-vizinhos, etc. E, na rede, é muito mais fácil arriscar uma frase mais atrevida ou até mesmo um convite para um copo sem ter medo da rejeição. Por outro lado, as pessoas também se expõem mais facilmente, escrevem algumas coisas que não diriam cara a cara… Tudo isso faz com que muitas vezes se sintam afetivamente mais próximas de pessoas com quem não convivem presencialmente. Daí até que haja alguma ligação emocional ou até alguma atração pode ser um pequeno passo. Resumidamente, eu diria que a infidelidade sempre existiu, sim. Mas hoje é ainda mais fácil fazê-lo graças ao Facebook.

Não acha que o Facebook, Twitter, Google +, etc, nos transformou a todos em detetives privados? Este enorme “big Brother” não torna as relações mais conflituosas?

Nem todos somos potenciais detetives privados. Tenho conhecido muitas pessoas que não ligam nenhuma àquilo que o cônjuge faz no Facebook. É verdade que também conheço muitas que, não sendo assumidamente ciumentas, passaram a adotar este tipo de comportamentos (“à detetive”) depois de se sentirem com a pulga atrás da orelha. De qualquer modo, e independentemente dos conflitos que possam resultar da má utilização do Facebook, a bisbilhotice acarreta outros problemas sérios. Para começar, é a própria pessoa que pode enveredar por um conjunto de comportamentos que em nada a dignificam e que são potencialmente destruidores da autoestima. Por outro lado, a própria relação entra em espiral quando se dá início a este tipo de “caça”. Porque a páginas tantas perde-se a noção do direito à privacidade e da importância da comunicação clara e assertiva e transforma-se a confiança na caça às provas. Ora, nenhuma relação saudável é sustentada num conjunto de provas.

Pode levar a comportamentos psicótico/obsessivos?

Os comportamentos obsessivos (psicóticos é outra coisa) podem surgir, sim. É relativamente fácil para algumas pessoas perderem a noção do que é justo quando se sentem alarmadas com a possibilidade de o parceiro estar a “prevaricar” no Facebook. Como temem que o confronto direto tenha como resposta a negação, preferem investigar por conta própria. E, como referi antes, é fácil perder o controlo. Tenho conhecido vários casos assim. A pessoa parte de uma desconfiança qualquer e depois não é capaz de parar. Vive num estado de alerta constante, com o coração aos pulos, e só sossega quando invade a conta do outro e “verifica” que está tudo bem. O mais ridículo disto tudo é que, precisamente porque não há uma comunicação saudável, não raras vezes a pessoa que está insegura lança alguns comentários em tom irónico, acabando por denunciar as suas pesquisas. Nalguns casos, a pessoa vive “consolada” com aquilo que vai encontrando e desconhece, por exemplo, que o parceiro tem uma segunda conta de Facebook, através da qual, de facto, trai.

Também após a separação/divórcio, não será mais difícil “desligar” se continuamos a saber todos os passos do nosso ex? Mesmo que o tenhamos excluído de “amigo” há os amigos comuns que publicam fotografias com ele em eventos, com outras mulheres, etc. Na sua prática clínica põem-lhe este problema? O que aconselha que se faça?

Na sequência de uma separação nem sempre é possível que as pessoas se desliguem totalmente. É o que acontece quando há filhos, por exemplo. Claro que manter o contacto em nome das responsabilidades parentais é muito diferente de dar de caras com uma fotografia do ex numa discoteca ou noutro evento qualquer. Às vezes é duro, em particular quando uma das pessoas ainda se sente ligada e é confrontada com informações que indiciem que o outro está a seguir a sua vida. Cada caso é único e nalgumas situações pode fazer sentido que a pessoa se afaste por uns tempos do Facebook mas não posso transformar essa sugestão numa regra universal. O que de certeza não é um hábito saudável é que a pessoa procure ativamente saber como é que a vida do ex está a evoluir – porque essa escolha pode dificultar o processo de desvinculação.

Mas existem também certamente pontos positivos. O Facebook, por exemplo, serve também para namorar, postando músicas um ao outro, conversando no chat, criando um elo empático entre os dois ao exporem a sua relação perante o mundo. Sendo assim, o que aconselha a um casal? Ter ou não ter contas em redes sociais? É possível os membros de um casal terem conta numa rede social sem surgirem conflitos? Sugere alguma estratégia?


É perfeitamente possível que duas pessoas tenham conta no Facebook sem que daí resultem conflitos para a sua relação. Basta que a comunicação seja fluída e que haja regras muito bem definidas a respeito do que se espera que o outro faça. Tem de haver limites mas esses limites são definidos a dois. Dou um exemplo: nem todas as pessoas casadas usam aliança. Há quem não use e não se sinta propriamente inseguro pelo facto de o parceiro sair diariamente sem aliança. Mas as coisas mudam de figura se uma pessoa der conta que o marido tira a aliança do dedo quando sai à noite, por exemplo. Ora, com o Facebook é a mesma coisa: nem todas as pessoas assumem que estão numa relação mas há quem prefira fazê-lo. Se uma pessoa alterar as configurações de privacidade à revelia do cônjuge só para ocultar a alguns amigos na rede social o seu estado civil, está provavelmente a querer meter-se em sarilhos. Pelo menos, na medida em que o cônjuge se aperceba disso. É preciso que as pessoas saibam com o que é que podem contar. E a confiança constrói-se com comunicação clara e um vínculo seguro, mais do que com a vigilância apertada.

7.10.13

NOMOFOBIA


Há fotografias publicadas no Facebook que me levam quase de imediato a questionar: porque é que aquela pessoa preferiu fotografar um momento tão especial em vez de o viver em pleno? Dir-me-ão que é perfeitamente possível viver um momento agradável em família ou entre amigos ao mesmo tempo que se agarra no telemóvel para o registar. E eu sou capaz de concordar. Mas só até certo ponto. Porque a verdade é que, como em quase tudo na vida, há limites. E na medida em que TUDO o que é significativo nas nossas vidas tenha de ser fotografado e publicado no Facebook, estamos quase de certeza perante um problema.

Porque há momentos de cumplicidade que se perdem.
Porque há ambientes românticos que são quebrados.
Porque há conversas que são interrompidas.

Tudo em nome da vontade de registar e publicar.

A dinâmica instalou-se de tal forma nas nossas vidas que, sem darmos conta, os smartphones passaram a ter um lugar à mesa de refeição – em casa ou no restaurante. Mais: há muito boa gente que se sente verdadeiramente inquieta (para não dizer profundamente ansiosa) na medida em que se esqueça do telemóvel. Mesmo que estejamos apenas a falar de um par de horas sem acesso ao dispositivo.

“É como se me sentisse despida”, dizia-me uma senhora no consultório, mais centrada na ansiedade gerada por ter guardado o smartphone na carteira, longe do seu olhar, do que nas queixas do marido, que desenvolveu uma imensa aversão ao iPhone da mulher. Para ela, o telemóvel é uma ferramenta de trabalho, essencial à monitorização das tarefas realizadas pela sua equipa. Para ele, este é o aparelho que veio arruinar todos os momentos a dois – “É o amante. E é impossível competir com ele”, queixa-se.

Para alguns, é a necessidade de estar permanentemente contactável que sobressai. Porque há trabalho que fica pendente se não houver resposta imediata a um email. Porque há pessoas da família que “podem estar a precisar de alguma coisa”. Porque a resposta a um SMS “só rouba 2 minutos”. Para outros é a necessidade de partilha. São as fotografias que se publica no Facebook, no Instagram ou no Twitter. São as notificações que se recebe – cada “gosto” e cada comentário funcionam como um aplauso de que algumas pessoas já não prescindem. É o check-in que se faz e que permite marcar a localização exata do utilizador – ir ao cinema, à praia ou a um festival deixa de ter o mesmo prazer se a informação não for partilhada em tempo real.

Na prática há muita coisa que escapa a todos os que desenvolvam uma relação de dependência com o seu telemóvel (ou com qualquer outra ferramenta tecnológica):

Um momento de relaxamento pleno.
Uma conversa cúmplice.
Uma celebração.
Um abraço.
A vida.

Nomofobia não é um termo científico. Resulta do Inglês No-mo (No-mobile) e refere-se à angústia e à ansiedade vividas por quem desenvolva uma relação de dependência em relação ao telemóvel. 
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