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24.3.09

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA, NA SAÚDE E NA DOENÇA



O início de qualquer relação amorosa é marcado por tentativas – às vezes desesperadas – de agradar à pessoa amada. As suas vontades são sempre urgentes, os seus pedidos são “ordens”. Acarinhamos o nosso cônjuge e mantemos uma atitude de hiper-vigilância em relação às suas necessidades. Um simples franzir de testa leva-nos a perguntar-lhe se está preocupado(a) com alguma coisa; um suspiro mais intenso acelera o nosso batimento cardíaco e imediatamente nos voltamos para a pessoa que amamos. Quando ele(a) ri, nós rimos, como se as palavras que saem da sua boca fossem as mais engraçadas do mundo; quando nos pergunta alguma coisa, sentimo-nos agraciados pela demonstração de interesse e respondemos com agrado, ainda que tenhamos que interromper uma tarefa importante. Em suma: estar apaixonado é (também) estar atento aos apelos da pessoa amada – surjam estes sob a forma de palavras ou de qualquer outro sinal.

Sonhar com um casamento feliz e duradouro é ambicionar manter este entrosamento, alargar a intimidade emocional e fomentar o romantismo. Mas, como a generalidade dos casais “de longa duração” reconhecerá, 90% das conversas entre marido e mulher não giram à volta do amor, das relações e da intimidade emocional. A maior parte das conversas centram-se em assuntos aparentemente irrelevantes, triviais, às vezes mesquinhos – qualquer casal falará mais vezes sobre a lista de compras do supermercado do que sobre as suas vulnerabilidades emocionais ao longo de toda a sua vida.

Por isso, as investigações na área da conjugalidade centram-se, em larga medida, nas interacções “banais” de cada casal. Surpreendentemente, não é a profundidade da intimidade das conversas que determina o grau de união de um casal, mas sim a atenção que um presta ao outro ao longo dessas conversas.

Quando o nosso cônjuge nos diz algo – através de um gesto ou de uma frase – está a fazer-nos um apelo, uma tentativa de conexão. Ora, existem três formas de responder a esse apelo:
• Voltarmo-nos para dentro da relação, o que implica demonstrar interesse por aquilo que o outro expressou.
• Ignorar aquilo que o nosso companheiro expressou.
• Sermos agressivos.

A auto-análise superficial dir-nos-á que raramente ignoramos aquilo que o nosso cônjuge expressa (a menos que estejamos distraídos) e que NUNCA somos agressivos. Claro que uma análise cuidada determinará que todas as pessoas cometem erros e que esses erros passam muitas vezes despercebidos – ao próprio, não ao cônjuge. Vejamos dois exemplos:
Exemplo 1
A Sara e o Joaquim estão na sala da sua casa – enquanto ela lê o jornal, ele assiste a um jogo na televisão. De repente, a Sara mostra ao marido uma tira cómica de uma das páginas do jornal:
- Esta está o máximo! (Ri à gargalhada) Olha para isto (enquanto passa o jornal ao marido).
• Se o Joaquim “decidisse” voltar-se para dentro da relação, desviaria provavelmente o olhar da televisão, agarraria no jornal e sorriria com a piada da tira. Poderia ainda dobrar o jornal, dar uma “palmada” à mulher e dizer-lhe, a sorrir:
- Vá, agora deixa-me ver o jogo.
• Ignorar o apelo da mulher pode não ser propriamente uma facada no casamento, mas implica fazer com que ela se sinta, de facto, ignorada. A repetição deste padrão comportamental tem custos elevados para a relação.
• Com a passagem do tempo, este tipo de solicitações parecem perder importância e é fácil ser-se agressivo. Neste caso, o Joaquim poderia dizer:
- Bolas! Está calada. Não percebes que eu estou a ver o jogo? Mostras-me isso depois.

Exemplo 2
A Joana pediu ao Frederico para temperar a salada, enquanto ela acabava de pôr a mesa. Ao jantar, a Joana percebe que a salada está salgada e diz:
- Puseste demasiado sal na salada.
• Como os apelos e as solicitações do nosso cônjuge também podem surgir sob a forma de queixas, é importante aprender a “voltarmo-nos para dentro da relação” também nestas situações. Neste caso, o Frederico poderia responder:
- Oh! Desculpa. Mas acho que a salada é que era demasiado pequena, não fui eu que errei na dose (enquanto pisca o olho à mulher).
• Ignorar a chamada de atenção, neste caso, poderia implicar simplesmente escolher o silêncio como resposta.
• Ser agressivo poderia passar por responder:
- Então, porque é que não a temperaste tu?
Ou ainda:
- A salada já estava uma porcaria antes de ser temperada…

Estarmos atentos aos apelos do nosso cônjuge não implica que estejamos SEMPRE disponíveis, nem tão-pouco que sejamos capazes de adivinhar os seus pensamentos. Seria irrealista acreditar que compete ao nosso cônjuge perceber quando entramos em casa cansados ou frustrados e exigir-lhe que se comporte à altura desse estado emocional sem que seja necessário pronunciar uma palavra. Quantas vezes pensámos, revoltados, “Cheguei a casa estourado(a) e ele(a) não foi capaz de me perguntar se precisava de alguma coisa”? A verdade é que TODOS nós já falhámos no reconhecimento das necessidades do nosso cônjuge.

Promover o entrosamento na relação conjugal não implica uma postura de hiper-vigilância, como acontece nos primeiros tempos do namoro. Ser-se emocionalmente inteligente, neste caso, implica que reconheçamos a importância destes apelos e que nos esforcemos por garantir que o nosso comportamento traduz a vontade de nos voltarmos “para dentro” e não para fora da relação.

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