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23.6.09

RESILIÊNCIA


Para algumas pessoas, o mundo divide-se entre os mais afortunados – leia-se, aqueles a quem tudo corre bem – e os outros – ou seja, aqueles que são “perseguidos” pelos azares da vida. De acordo com esta teoria “de bolso” o sucesso é quase inteiramente dependente da sorte e as vitórias individuais têm sobretudo a ver com a ausência de obstáculos. No entanto, vivemos todos rodeados de histórias de vida que contrariam esta ideia preconcebida. Se é verdade que existem pessoas a quem todos os azares da vida parecem acontecer e que fazem questão de se queixar deles com regularidade e veemência, pontualmente somos confrontados com pessoas aparentemente mais “corajosas”, que enfrentam as adversidades com garra, com optimismo e até com um sorriso.

Perante um obstáculo – que tanto pode ser a perda de emprego, uma doença súbita ou até a perda de alguém de quem se gosta – é possível reagir de maneiras muito diferentes. Já reparou que existem pessoas que respondem às dificuldades sobretudo através do queixume e da vitimização, enquanto outras se centram no futuro e no que há a fazer? Aquilo que as diferencia é uma competência psicológica chamada resiliência e que consiste na capacidade de adaptação ao stress, à adversidade, ao trauma e à tragédia. As pessoas menos resilientes tendem a sentir-se sufocadas pelos problemas, independentemente da sua natureza, sendo muito mais propensas a mecanismos patológicos de reacção à adversidade, como o abuso de substâncias. São também mais vulneráveis ao aparecimento de transtornos depressivos e ansiosos.

As pessoas mais resilientes são capazes de olhar para a própria vida de uma perspectiva mais abrangente, encontrando motivos para sorrir no meio dos seus problemas. De um modo geral, lidam melhor com o stress e com as dificuldades que enfrentam. Sim, porque as pessoas mais resilientes também têm problemas sérios! Mas mantêm-se mais estáveis perante o caos desencadeado pelas dificuldades.

Ser resiliente não significa ser à prova de tudo, pelo que alguém que possua esta competência psicológica não está imune a quebras. Por exemplo, uma pessoa resiliente que seja afectada por uma doença séria pode até passar por um período marcado por distúrbios do sono, mas tenderá a cumprir as suas responsabilidades com rigor, indo trabalhar diariamente como é hábito e mantendo o seu optimismo em relação à vida em geral e à sua recuperação em particular.

Não se pense, por isso, que as pessoas mais resilientes são mais fortes, mais frias ou que sofrem menos perante a morte. A intensidade da dor não se mede pelo grau de lamentos. Uma pessoa resiliente está atenta às suas emoções e é capaz de reconhecer que precisa de ajuda e de a procurar – seja através da sua rede social, seja através de técnicos profissionais. É por isso que estas pessoas estão, genericamente, mais protegidas em relação a perturbações como a depressão, a ansiedade ou o pânico.

Seja perante uma situação de assédio moral no trabalho ou uma doença oncológica, a reacção das pessoas mais resilientes contém um elemento comum: em vez de se “afundarem” com o problema, fechando-se sobre si mesmas, estas pessoas centram-se nos seus recursos e optam por aprender alguma coisa com a adversidade.

Ser resiliente é:
• Ser capaz de encarar a mudança como um desafio, e não como um drama;
• Tomar as rédeas da própria vida, assumindo as decisões que dela fazem parte;
• Ser optimista, apesar das adversidades;
• Ser capaz de desenvolver relações afectivas próximas e estáveis;
• Ser capaz de brincar com situações stressantes;
• Ter auto-confiança;
• Acreditar que é possível aprender com todas as situações da vida;
• Ser capaz de reconhecer que se precisa de ajuda;
• Ser capaz de identificar a quem se deve pedir ajuda;
• Gostar de desafios.

Embora existam diferenças de personalidade que façam com que alguns de nós sejamos mais optimistas e resilientes do que outros, é possível promover esta competência ao longo da vida. Como já disse antes, um dos pilares da resiliência é a existência de relações afectivas próximas, pelo que é fundamental que abramos espaço para as pessoas de quem gostamos. Investir nas nossas relações familiares e sociais é a melhor via para que nos sintamos ouvidos e apoiados quando precisamos. Dar passos no sentido de sair da concha pode implicar maior envolvimento com a vida comunitária, o que para algumas pessoas é aterrador. Mas essa rede é imprescindível para ultrapassar os períodos mais difíceis.

Ter “poder de encaixe” para aceitar que se faça piadas com situações mais ou menos catastróficas é outro factor importante. Quando ouvimos um doente com cancro brincar com a própria doença, podemos, à primeira vista, achar que está em negação. Mas os estudos mostram que o humor pode ajudar-nos a lidar com a dor.

No meio da tempestade pode ser muito difícil reconhecer alguma lição de vida, mas quando temos oportunidade (ou quando nos damos ao trabalho) de olhar para trás e reflectir sobre os obstáculos que já ultrapassámos, identificamos quase sempre aprendizagens importantes. As maiores tragédias da vida também nos trazem ensinamentos importantes, pelo que é importante olhar para o obstáculo do momento como mais uma oportunidade.

Alimentar uma visão optimista acerca da vida pode passar por exercícios tão simples como enumerar diariamente duas ou três situações com que nos tenhamos sentido satisfeitos – essas excepções, essas coisas boas, podem funcionar como sinais de esperança.

Continuar a mimar-nos física e emocionalmente é outro factor de estabilidade. A existência de dificuldades não deve constranger a participação em actividades de que gostamos e que nos mantêm entusiasmados, como a prática de exercício físico, uma boa alimentação, encontros com os amigos, etc.

Claro que não há resiliência sem proactividade e isso implica ser flexível o suficiente para aceitar a mudança, ser capaz de definir objectivos realistas e identificar aquilo que deve ser feito para se ser bem-sucedido, em vez de adoptar uma atitude expectante, miserabilista ou pura e simplesmente esperar que os problemas desapareçam.

É importante que sejamos suficientemente inteligentes para perceber que, independentemente do “tamanho” da conta bancária, do carro que se conduza ou do sucesso que se tenha, todas as pessoas carregam as suas “cruzes”, todas as vidas são pontuadas por tristezas e desilusões. A vida é mesmo assim. Podemos “apenas” contar com uma atitude mais ou menos optimista/ perseverante em relação a esses reveses.
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