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6.10.11

DIVÓRCIO “AMIGÁVEL”

Não há quase nada de amigável num processo de divórcio. Mesmo as separações que não são marcadas por braços-de-ferro violentos envolvem perda, raiva e dor, pelo que esta é uma das maiores crises por que alguém pode passar. Mais: mesmo que os agora ex-cônjuges tenham a intenção de se manter amigos, é preciso algum tempo até que isso seja uma realidade. Ainda assim, e fazendo uso das aspas, é possível falar-se de divórcios “amigáveis” ou, como prefiro chamar-lhes, divórcios construtivos (por oposição aos divórcios destrutivos, essencialmente marcados por batalhas duras e quase sempre intermináveis).

Há diversos factores que podem influenciar a forma como a separação é gerida: a deterioração da relação conjugal, os motivos subjacentes ao divórcio, a existência de filhos e a possível resistência de um dos membros do casal à separação. Independentemente destas variáveis, o divórcio envolve quase sempre medo e raiva – pelo menos, para um dos membros do casal. É normal que o impacto desta decisão provoque emoções muito intensas e que estas se misturem com alguns pensamentos irracionais. Em função disso, muitas pessoas mostram-se surpreendidas com comportamentos menos dignos vindos do ainda cônjuge. Assumiram que o divórcio poderia decorrer sem golpes baixos, esperando que o cônjuge mostrasse o carácter e a dignidade de sempre. Mas isto nem sempre acontece. Até as pessoas que nos habituámos a rotular de sensíveis e bondosas podem desiludir e adoptar comportamentos mesquinhos desde que se sintam dominadas pela perda profunda e pela raiva que daí decorre.

Nenhum pai ou mãe deveria colocar a sua desilusão e as suas neuras à frente do interesse das crianças e, também por isso, muitas pessoas são capazes de colocar as mãos no fogo pelo cônjuge antes de formularem o pedido de divórcio. E depois são apanhadas desprevenidas. Não há nada de errado em querer que o processo de divórcio decorra de forma justa, sem guerras nem tumultos. Pelo contrário, seria desejável que assim fosse sempre. Mas as pessoas que passam por uma separação (às vezes ao fim de décadas de casamento) são “só” humanas, pelo que podem ceder aos seus impulsos mais primitivos, podem cometer erros sérios dominadas pela raiva, pelo ciúme, pela angústia, pela impotência, pelo medo e pela frustração. E destes erros podem surgir conflitos muito sérios. Porque pode faltar honestidade, porque alguns factos podem ser ocultados, porque os bens podem não ser justamente divididos, porque os filhos podem ser manipulados, porque os advogados podem deitar achas à fogueira.

A mediação familiar pode ser uma ajuda fundamental para os casais que não conseguem desfazer-se dos braços-de-ferro, em particular para aqueles que têm filhos e juram a pés juntos que querem o melhor para as suas crianças. Mas é também porque esta é a altura em que as crianças mais precisam de olhar para os pais e reconhecerem neles adultos estáveis, carinhosos e capazes de os amparar que faz todo o sentido que ambos possam socorrer-se de todos os recursos para resgatar a sua própria estabilidade. Esta segurança pode advir da Psicoterapia e é ainda mais pertinente para aquelas pessoas que nunca conseguiram fazer-se ouvir ao longo do casamento, isto é, aquelas que não conseguiram ser assertivas. Mas a segurança também depende do apoio da família alargada e dos amigos. Nenhum pai ou mãe pode estar “lá” para os seus filhos nesta altura se não se sentir suficientemente amparado. E a verdade é que muitos pais e mães negligenciam as necessidades afectivas das suas crianças ao longo do processo de divórcio. Porque estão mais ocupados em trocar acusações, defender-se dos ataques de que são alvo, lutar contra os próprios medos, etc.

Sendo um processo doloroso, o divórcio envolve quase sempre algum tempo e esse tempo deve ser utilizado para que cada uma das partes possa estruturar as suas emoções. Muitas vezes há um que já completou o divórcio emocional e que pretende acelerar a ruptura enquanto o outro, que ainda ama (ou “sente que ama”), deseja eternizar a relação, ainda que isso passe por eternizar o braço-de-ferro. Em qualquer uma das situações é possível recorrer à ajuda profissional, aprender a gerir a montanha russa de sentimentos e, finalmente, seguir em frente. As lutas, a agressividade, a interferência na vida do ex-cônjuge e as acusações continuadas são sinais de alarme a que ninguém deve ficar indiferente, em particular quando há filhos. Como qualquer terapeuta familiar, estou habituada a receber em consulta adultos que foram vítimas do divórcio destrutivo dos pais e que ainda carregam feridas dessa altura.
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