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8.5.12

DIFERENÇAS ENTRE HOMENS E MULHERES



Creio que já o afirmei por aqui um par de vezes: muitas das diferenças entre homens e mulheres de que se ouve falar não passam de estereotipagens propagandeadas por livros de autoajuda e reportagens com títulos “bombásticos” que procuram vender jornais e revistas, mais do que informar de modo rigoroso. Não fosse o facto de tantas vezes ser efetivamente mais fácil rotular algumas dificuldades de comunicação com recurso às famosas diferenças de género e muito provavelmente estas teorias já teriam deixado de vender o que quer que seja. O problema está no impacto que daí resulta para as nossas relações afetivas. Afinal, sempre que um marido se esquiva a uma conversa séria sobre as dificuldades da relação e a mulher releva o acontecimento com pensamentos do tipo “Os homens não sabem/ não gostam de falar sobre sentimentos”, há uma lacuna que começa a crescer e que, a prazo, pode revelar-se muito perigosa.

Aquando da minha participação na Feira do Livro tive oportunidade de conversar com alguns leitores e uma das questões que surgiu tinha a ver, precisamente, com a ideia preconcebida de que são as mulheres que, em larga maioria, recorrem à ajuda da Psicoterapia e que são elas que estão mais predispostas a falar sobre as suas emoções. Compreendo por que existem tantas ideias feitas a respeito desta matéria e não atribuo aos meios de comunicação a inteira responsabilidade sobre esta distorção da realidade. O que acontece é que, dentro de cada casa, não raras vezes se instalam padrões de comunicação que obedecem aos tais estereótipos, pelo menos numa análise superficial. O que quero dizer é que QUANDO HÁ DISCUSSÕES ACESAS é mais frequentemente o homem a retirar-se da discussão – calando-se ou saindo, de facto, daquele lugar. Isso acontece principalmente porque os homens sofrem de níveis de ativação fisiológica mais elevados nestes momentos e, a partir de determinada altura, é mesmo fisicamente insuportável manter a discussão. Depois, porque ainda há uma percentagem significativa de homens que não foi educada no sentido de expressar abertamente as suas emoções. Ora, o que é que acontece a alguém que não esteja habituado a estruturar pensamentos a respeito dos afetos? Tenderá a exterioriza-los de forma muito mais atabalhoada, o que, em momentos de tensão, é gerador de equívocos. É nestes ciclos perigosos que alguns homens acabam por sentir-se mais seguros ficando calados. Afinal, as tentativas falhadas deixam marcas.

Como tive oportunidade de explicar na Feira do Livro, estas diferenças não são transpostas para a sala de terapia na maior parte dos casos. Pelo contrário, boa parte dos processos de terapia de casal são marcados, logo a partir da primeira consulta, pelo rompimento de padrões de comunicação disfuncionais. E não são raras as vezes em que a mulher se surpreende com o tanto que o marido, afinal, tem para dizer sobre aquilo que sente. Por que o faz apenas em sede de terapia? Porque se sente seguro, porque ali há um profissional que funciona, acima de tudo, como um facilitador a quem compete, dentre outras funções, impedir que a escalada cresça, que os cônjuges se interrompam mutuamente ou ainda que as críticas se sobreponham à exposição das necessidades de cada um.

Há muitos homens a pedir ajuda psicoterapêutica – quer a nível individual, quer para salvar o seu casamento – mas isso não significa que eles o façam tantas vezes quanto elas. Ainda não. E sobretudo não significa que o façam tão cedo quanto elas o fazem. Mas estas diferenças não podem ser atribuídas à genética. A verdade é que continuamos, enquanto sociedade, a criar expetativas diferentes em relação a meninos e meninas, continuamos a comportar-nos de maneira diferente em relação ao mesmo comportamento em função do género do protagonista. E depois convencemo-nos de que algumas dificuldades de comunicação nas relações entre homens e mulheres se devem ao facto de termos necessidades diferentes.

Isso é um MITO!

Como é que as nossas expetativas alimentam esse mito?

Continuamos a esperar que os homens sejam uns heróis, sem medos. Aos homens “compete” resolver problemas, fazer reparações, arranjar o que tiver de ser arranjado. E depois espera-se que eles exponham as suas vulnerabilidades, reconheçam que há problemas na relação e que sejam ELES a pedir ajuda?

Esperamos que os homens sejam capazes de fazer reclamações e de impor o respeito nem que, para isso, tenham de ser agressivos e dar um par de berros. Às mulheres compete serem calmas e doces, pelo que qualquer manifestação de raiva é sinónimo de descontrolo.

Qualquer mulher pode chorar em público, sem que daí advenha qualquer juízo de valor. Pelo contrário, são frequentes os incentivos do tipo “Chora. Faz-te bem. Deita cá para fora”. Mas a maior parte dos homens seria rotulado de fraco (ou pior) se o fizesse.

As mulheres são incentivadas a mostrar o afeto através dos gestos – cumprimentam-se com abraços e beijinhos, mesmo no local de trabalho. O que é que aconteceria se dois colegas homens se abraçassem? Seriam quase de certeza rotulados de efeminados ou gays.

Em que é que homens e mulheres são idênticos?

Ambos são condicionados pelas expetativas sociais.

Sempre que o homem cai na tentação de mostrar que é o “chefe de família”, a principal fonte de rendimento da sua família e a mulher tenta ir ao encontro da ideia de que ela é a principal cuidadora, ambos arriscam voltar costas aos seus sonhos e ambições.

Ambos buscam a autenticidade – poderem mostrar de forma livre aquilo que sentem e aquilo de que precisam.
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