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29.11.12

ISOLAMENTO SOCIAL, DESEMPREGO E DEPRESSÃO


Francisco é um estudante universitário com sintomas de um quadro depressivo que se arrasta há vários meses. Não sabe identificar aquilo que provocou este estado mas atribui um peso significativo ao facto de se sentir “desligado” do seu curso. Na prática, o desinteresse é generalizável a outras áreas da vida – sente-se perdido, desconectado, afastado de tudo e de todos. A única relação emocionalmente significativa que se lhe conhece é a relação com o pai, com quem vive. Sendo um jovem reservado e inseguro, não conseguiu criar laços com os colegas de faculdade. Vê-os como conhecidos com quem se cruza diariamente, gostaria de se sentir mais integrado mas tão pouco sabe exatamente o que fazer para atingir esse objetivo.

Leonor está casada há cerca de 10 anos, tem três filhos e, na sequência da segunda gravidez (de gémeos), optou por deixar de trabalhar. Vive longe da família de origem e daqueles que chama os “amigos de uma vida inteira”. Há muito tempo que não se sente feliz – não tem vontade de sair, mas a ideia de passar os dias em casa entre rotinas domésticas tão pouco lhe agrada; sente-se muitas vezes irritada, sem paciência para a vivacidade das crianças ou para as solicitações do marido. Reconhece que há muito tempo que não convive com outros adultos que não sejam os familiares diretos e sente falta de alguma coisa que não é capaz de identificar. “Estou bem onde não estou” é a frase em que mais se revê atualmente. O médico de família diagnosticou-lhe uma depressão e encaminhou-a para um processo psicoterapêutico.

Luís está desempregado há 6 meses. Refere-se ao último emprego como desgastante, especialmente pela pressão a que estava sujeito e pela relação tensa que mantinha com a chefia direta. Encarou a saída da empresa como positiva, na medida em que o recebimento de uma indemnização permitir-lhe-ia estar algum tempo em casa e, de forma ponderada, escolher o que fazer a seguir. Embora não se sinta pressionado pela ausência de um rendimento mensal equivalente ao que auferia antes, foi desagradavelmente surpreendido por um conjunto de pensamentos destrutivos poucas semanas depois de ter ficado desempregado. Deu por si “a fazer balanços atrás de balanços”, que o levaram a implementar mudanças tão radicais quanto infrutíferas em busca de bem-estar. Tentou colocar um fim ao seu casamento mas entretanto recuou. Sente-se perdido, deprimido.

Numa altura em que tanto se fala de desemprego, crise financeira e, claro, do sofrimento das famílias, importa chamar a atenção para aquilo que surge a par dos constrangimentos financeiros que resultam de uma situação de desemprego:

O impacto destrutivo do isolamento social.

Aquilo com que me tenho confrontado cada vez mais frequentemente em sede de terapia diz respeito a uma outra forma de sofrimento que não aquela que vemos diariamente retratada nos noticiários.

É verdade que é fácil associar as palavras crise e depressão.

É verdade que é fácil perceber que numa casa onde comecem

a escassear os recursos financeiros aumentem os conflitos familiares.

Mas, do mesmo modo que nem todas as pessoas se deprimem na sequência de um diagnóstico de uma doença grave, não é obrigatório que todas as pessoas se deprimam na sequência da diminuição dos recursos financeiros. Há algo associado a muitas situações de desemprego que tem quase sempre um impacto muito negativo na nossa saúde mental – o isolamento social. E, como fiz questão de ilustrar nos exemplos acima, esse isolamento até pode ser “escolhido” pelo próprio. Mas quando alguém escolhe afastar-se das rotinas e do convívio associados a uma colocação profissional nem sempre está consciente da falta que esses hábitos lhe farão.

Nem todas as pessoas que me procuram na sequência de se sentirem deprimidas estão tão isoladas do ponto de vista social como as três a quem me refiro neste texto. Mas uma parte muito significativa está. E ignora o peso desse isolamento. É, muitas vezes, na sequência de esforços que são feitos para contrariar esse isolamento que a luz começa a surgir ao fundo do túnel. Às vezes as mudanças são relativamente céleres – basta implementar alguns hábitos novos, dar início a um projeto de voluntariado ou participar nalguma atividade nova para que o pessimismo comece a desaparecer (mesmo que alguns problemas ainda não tenham solução à vista). Noutros casos é preciso muito mais do que isso, é preciso readquirir competências, sarar feridas, gerir ligações que entretanto se deterioraram ou até identificar rumos novos. 
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