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24.2.14

CUIDADO PARA NÃO MAGOAR AS PESSOAS ERRADAS


“Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – isso não é fácil.”
Aristóteles

Sei esta frase de cor. Repito-a muitas vezes no consultório, quer quando trabalho com alguém individualmente, quer na terapia de casal. Porque resume bem os principais erros que cometemos – quase sempre sem percebermos – quando a raiva toma conta de nós, quando reagimos de forma imediata, impulsiva. Quando permitimos que a inundação emocional sequestre o nosso discernimento. Quando, de cabeça quente, dizemos o que nos apetece, ignorando a importância de refletir antes de agir.

É fácil intuir que num gabinete de psicoterapia se olhe minuciosamente para os erros no comportamento do paciente – não é um olhar julgador. É um olhar terapêutico. Uma ajuda no reconhecimento de responsabilidades e de recursos. Porque cada um de nós pode (deve) tentar aprender com os erros.

E nós erramos quando nos zangamos:

COM A PESSOA ERRADA. Quantas vezes deu por si a calar-se perante alguém que o intimida, acumulando raiva e frustração, e acabou por descarregar na pessoa errada? Quantas vezes respondeu de forma torta ao seu mais-que-tudo só porque não teve a assertividade necessária para enfrentar o seu chefe? Pode dizer a si mesmo as vezes que quiser que o seu chefe é alguém de quem você depende e que, se fosse assertivo, colocaria o seu emprego em risco, blá, blá, blá. Eu consigo ser solidária com o seu medo. Não posso ser solidária com a sua escolha. Sempre que descarregar na pessoa errada, coloca essa relação em risco. E não adianta pedir desculpas – se o erro se repetir indefinidamente, a mágoa e a sensação de desvalorização impedirão que a outra pessoa consiga desculpá-lo.

NA MEDIDA ERRADA. Você não gosta que o mais-que-tudo deixe a toalha molhada em cima da cama. E tem o direito de mostrar o seu desagrado. Mas será preciso perguntar-lhe AOS BERROS se é um ATRASADO MENTAL INCAPAZ DE ACATAR UMA RECOMENDAÇÃO? Não, não é preciso. E, de cabeça fria, você também sabe disso. Mas há dias em que você chega a casa cansado ou está com uma valente dor de cabeça e… age sem pensar. Ou então não. Você também pode ser alguém que acha que tem o direito de manifestar o seu desagrado da forma que entender, sobretudo quando está cansado de se queixar de forma serena. Tenho uma novidade para si: zangar-se de forma desproporcional ao erro que a outra pessoa cometeu não só não resolverá o problema como trar-lhe-á outros. Mágoa. Ressentimento. Afastamento. Divórcio. Fixe estas palavras. Pode ser que elas o travem da próxima vez que se preparar para exagerar.

NA HORA ERRADA. Não me canso de repetir: você tem o direito de se sentir zangado. Tem o direito de manifestar o seu desagrado e fazer exigências. Disso depende a sua satisfação numa relação. Mas você compromete tudo se assumir uma postura de tolerância zero e for insensível ao que a outra pessoa estiver a sentir. Você até pode assumir uma postura zen e falar com o tom de voz mais calmo do mundo. A sua queixa pode ser legítima. Mas se você escolher mostrar o seu desagrado num momento em que o seu cônjuge se sente enervado (porque o Benfica perdeu ou porque acabou de ser despedido, tanto faz), estará a fazer uma escolha pouco inteligente. Pouco protetora dos seus interesses e da sua relação. Não faz sentido.

PELOS MOTIVOS ERRADOS. Nem todas as discussões são aquilo que parecem. E nem sempre é fácil assumirmos – para nós mesmos – aquilo que sentimos. Se você se sentir enciumado porque a sua parceira não se cansa de gabar as qualidades do colega novo e permitir que a insegurança e a raiva tomem conta de si, é possível que se envolva em discussões intensas sobre… guardanapos ou outro detalhe qualquer. E eu duvido que a sua parceira ou qualquer outra pessoa deste planeta consiga empatizar consigo numa picardia como essa. Infelizmente, as discussões intensas a partir de assuntos insignificantes costumam ser o pão nosso de cada dia nas relações em que uma ou as duas pessoas não assumam aquilo que realmente as incomoda. Depois entra-se num ciclo vicioso de que é difícil sair sem ajuda.


DA MANEIRA ERRADA. De que adianta aprender técnicas de respiração, falar num tom de voz sereno e dispor-se a abordar os problemas que realmente o incomodam se, na hora H, o fizer de forma atabalhoada, pouco clara, pouco firme ou excessivamente frontal? Ah pois é! Assumir um comportamento assertivo é bem mais complexo do que seguir um conjunto de mandamentos. Implica ser claro e honesto, sim. Mas também implica que você se coloque na pele da outra pessoa, que empatize com o que ela estiver a sentir, que respeite a sua posição e, no final, seja capaz de reivindicar as suas necessidades sem vacilar. Parece difícil mas, com treino, percebe-se facilmente que é o único caminho que vale a pena.
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