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11.9.14

DISCUSSÕES CONJUGAIS: QUANDO PARECE QUE OS EPISÓDIOS SE REPETEM


“Parece que estamos sempre a discutir sobre as mesmas coisas” – esta é uma das frases que mais comummente oiço no meu gabinete. Muitas vezes o que as pessoas querem dizer é que estão cansadas de cair na mesma ratoeira vezes sem conta. Não é tanto uma questão de haver apenas um assunto que as desgaste (às vezes também é isso). Aquilo que as angustia é sobretudo o facto de já terem sido capazes de abordar alguns problemas de múltiplas formas, terem sido capazes de chegar a alguns acordos e, apesar disso, continuarem sistematicamente a cair numa espiral de acusações e amuos.

Eis um exemplo: A Fernanda e o Jorge queixavam-se de estar sempre a discutir por causa de “assuntos pouco importantes”, como as tarefas domésticas. Numa dessas discussões, a Fernanda queixou-se porque o marido “nunca” faz aquilo que ela pede. “Pedi-lhe para endireitar a colcha da nossa cama, que estava torta, o que fazia com que uma das pontas estivesse a arrastar pelo chão”. O marido tentou defender-se dizendo que “a colcha é demasiado grande” para aquela cama e “por isso é que está a arrastar-se”. Depois de mais uma troca de acusações, o Jorge remeteu-se ao silêncio. Frustrada pelo silêncio do marido, a Fernanda voltou a insistir no assunto. Ambos assumem que é “muito difícil estar sempre a discutir”.

Para mim, enquanto terapeuta conjugal, esta discussão tem pouco a ver com a bendita colcha. Tão pouco identifico aqui qualquer luta de poder a propósito da lida da casa. Identifico, isso sim, alguns padrões de comportamento que estão a contribuir para que o casal se distancie. Há, em discussões como esta, um ciclo vicioso – para o qual ambos contribuem – que permite que um e o outro se sintam sós, rejeitados, desamparados.

Todos os casais experimentam esta sensação de vez em quando. O problema é que, se os episódios forem frequentes, este ciclo vicioso transforma-se num monstro papão capaz de destruir uma relação amorosa.
Desfazer este tipo de nós implica em primeiro lugar assumir que em qualquer discussão é provável que haja emoções mais profundas do que aquelas que saltam à vista numa primeira análise. No caso da Fernanda, não se tratava apenas de indignação. Através da terapia ela percebeu que aquilo que verdadeiramente a perturba é a sensação de que o marido não quer saber do que ela sente e parece indiferente aos problemas que a família tem enfrentado (dificuldades financeiras que os colocam em risco de perder a casa onde vivem). A discussão à volta da colcha, tal como outras que o casal tem tido ultimamente, é uma tentativa (nem sempre consciente) de o confrontar com assuntos bem mais importantes e que não estão a ser abordados de forma clara. Por outro lado, o Jorge percebeu que, quando assume uma postura defensiva e se remete ao silêncio, fá-lo para fugir às críticas da mulher. Aos seus olhos, ela está sempre zangada com ele e é como se nada do que ele faça a pudesse agradar. Quando amua, o Jorge tenta evitar a tristeza que as críticas da mulher lhe causam. Ela sente-se desamparada. Ele sente-se rejeitado.


Quando os membros do casal começam a olhar para as suas discussões de outro ponto de vista, aprendendo a reconhecer os caminhos que os levam a sentirem-se desconetados, também se torna mais fácil interromper a escalada. É então que cada um dá o seu melhor no sentido de identificar o que o outro está REALMENTE a sentir e procura cuidar, com carinho e atenção, dessas emoções. E isso é o que permite que ambos voltem a sentir-se seguros e unidos.
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