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4.6.15

É POSSÍVEL DISCUTIR DE FORMA ‘SAUDÁVEL’?


As discussões são a parte mais difícil de uma relação. Algumas discussões doem tanto que há quem me peça ajuda “só” para parar de discutir ou, pelo menos, diminuir a intensidade das discussões. Muitos perguntam:


E as minhas respostas são sempre as mesmas. Os casais felizes discutem. E às vezes discutem de forma muito intensa. Dói sempre. Mas faz parte.

Discutir – mesmo que de forma intensa – é saudável. É o que mostra a minha experiência clínica e é o que mostram as investigações nesta área. Para dizer a verdade, são os casais que nunca discutem que mais me preocupam. Porquê? Porque, de um modo geral, isso é indicador de que pelo menos uma das pessoas está a ter demasiado cuidado, como se não se sentisse suficientemente segura para se expor.

Mas se é verdade que os casais felizes discutem, toda a gente sabe (ou calcula) que não o façam da mesma maneira que os casais que acabam por divorciar-se. É por isso que tantas vezes me deparo com a pergunta:


Há, pelo menos, 3 ‘regras’ para discutir de forma saudável. O problema é que NENHUMA DELAS FUNCIONA:

1. MANTENHA A CALMA. Quantas vezes já leu/ ouviu esta recomendação? Quantas vezes funcionou? Pedir-lhe (a si ou ao seu parceiro) para manter a calma durante uma discussão é mais ou menos como pedir a alguém que salte de paraquedas ao mesmo tempo que lê o manual de instruções – não vai resultar! É demasiado tarde. Se há discussão, é porque as pessoas já estão demasiado enervadas.

2. CENTRE-SE NUM ÚNICO ASSUNTO E PROCURE SER RAZOÁVEL. Se uma pessoa estiver stressada ao ponto de estar a discutir com o amor da sua vida, isso significa que já não há disponibilidade mental para ser razoável. A pessoa está demasiado acelerada, alarmada. Mais: muitas vezes o assunto que está a ser discutido não é o verdadeiro problema. Quantas vezes deu por si envolvido(a) numa discussão e só mais tarde conseguiu perceber o motivo? A minha experiência mostra-me que um casal pode ter uma discussão intensa sobre o facto de uma das pessoas não ter aspirado a casa quando, na realidade, o que a outra pessoa precisa é de saber se pode depender emocionalmente do parceiro.

3. FAÇA UMA PAUSA. Quem é que lida bem com a retirada do parceiro quando está a reclamar/ discutir? Há alguém que não se sinta ignorado quando o mais-que-tudo opta (com a melhor das intenções) por sair de cena? O cenário mais que provável é um dos ‘clássicos’ que chegam ao meu gabinete: há um que procura ‘acalmar’ a situação tentando sair de cena e há outro que procura ‘acalmar’ a sensação de abandono correndo atrás e (aparentemente) querendo manter a discussão.


Não transformar a discussão numa guerra. Discutir dói mas faz parte. Você e o seu parceiro até podem dizer (várias) coisas da boca para fora. É natural que se sintam magoados. Mas isso não tem de implicar que você ESCOLHA fazer mal ao seu parceiro.

Não querer “ganhar” a discussão”. Pergunte a si mesmo: “Eu quero ter razão ou quero ter uma relação?”. Prestar atenção ao que o seu parceiro sente pode não ser viável durante a discussão. Mas fazê-lo a posteriori ajudá-los-á a reencontrar a harmonia.

Não insultar. Não ameaçar. O grande problema das pessoas que se habituam a ultrapassar estas barreiras é que elas estão convencidas de que quando o fazem, isso não tem qualquer impacto no parceiro. Não poderiam estar mais longe da verdade. Quando uma pessoa chama nomes ao mais-que-tudo ou ameaça terminar a relação, provoca IMENSA dor. Mais: depois disto a outra pessoa já não é capaz de escutar os seus apelos e muito menos dar resposta às suas necessidades.

Tentativas de reparação. São o “ingrediente secreto” dos casais felizes. Mais do que o comportamento DURANTE as discussões, é o comportamento DEPOIS das discussões que verdadeiramente distingue os casais felizes daqueles que acabam por divorciar-se.

1. Encha-se de coragem e tente fazer as pazes.
2. Se o seu parceiro der o primeiro passo, coloque o “orgulho de lado” e mostre a sua vontade de fazer as pazes.
3. Aproveite o momento para falar sobre os seus sentimentos e NÃO sobre o comportamento do seu parceiro.
4. Procure “dar razão” ao seu parceiro acolhendo os seus sentimentos. A ideia NÃO é concordar com o que ele(a) fez e sim tentar compreender o que ele(a) sente.
5. Olhe para o seu comportamento durante a discussão. O que é que você fez/ disse que possa ter assustado o seu parceiro? O que é que pode fazer para o ajudar a voltar a sentir-se seguro? Ele(a) também errou mas não há nada que o impeça de dar o primeiro passo no reconhecimento dos erros.
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