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17.1.18

AS PALAVRAS PROIBIDAS NUMA DISCUSSÃO DE CASAL


Entrevista concedida à Revista Sábado a propósito das palavras proibidas numa discussão conjugal.

- Existem palavras proibidas nas discussões?

As palavras “proibidas” são todas as que traduzam desrespeito, desinteresse ou desprezo pelos apelos e necessidades do companheiro. As discussões são normais e podem ser saudáveis, na medida em que permitam que cada um se exponha e revele o que pensa, o que sente e aquilo de que precisa. Mas podem constituir formas de afastamento na medida em que pelo um dos membros do casal sinta que o outro não se preocupa, não valoriza os seus sentimentos ou, pior, os despreza. Incluo obviamente os insultos, os ataques à personalidade naquilo a que chamo de desrespeito.

- O que pode piorar uma discussão?

Há expressões que, não sendo proibitivas, podem agravar a tensão conjugal: sempre e nunca, por exemplo. Na prática, quando centramos a nossa crítica em generalizações e não num comportamento específico, é mais fácil que a outra pessoa se sinta injustiçada e atacada e isso dificulta o rumo da discussão.

- É possível travar uma discussão com apenas uma frase?

Há muitas frases que podem travar a escalada de uma discussão. Chamo-lhes tentativas de reparação e quase todos os casais as proferem. Dizer coisas como “Estamos demasiado enervados, talvez seja melhor conversarmos noutra altura” ou “Talvez tenhas razão mas preciso de me acalmar porque neste momento não consigo ver as coisas dessa maneira” são tentativas legítimas de aliviar o conflito. Infelizmente, nem sempre são bem-sucedidas porque a aflição pode impedir-nos de as reconhecer como tentativas de reparação e podem ser interpretadas como fugas.

Na prática, o que importa é mostrar que nos importamos, que valorizamos o apelo da outra pessoa e pedir, com afeto, que haja a possibilidade de cada um esfriar a cabeça para que se possa voltar a conversar.

- Se tivesse de eleger aquelas palavras recorrentes que só pioram as discussões dos casais, quais seriam?

Como referi antes, o Sempre e o Nunca são bons exemplos. Mas quero chamar a atenção para algo que não é uma palavra e que é um verdadeiro detonador de uma discussão:



Há outros comportamentos não-verbais que podem agravar as coisas: o amuo ou uma postura demasiado defensiva, em que uma das partes se recusa a assumir qualquer responsabilidade.

- Como se deve gerir estes conflitos?

Começando por aceitar que as discussões fazem parte de uma relação íntima e aceitando que, nessas alturas, haja sentimentos de rejeição e tristeza. Olhar com normalidade para estes momentos facilita a reaproximação.



Isso traduz-se em pedidos de desculpa em que assumem a responsabilidade pelos erros que cometeram ao longo da discussão e abre espaço para que o companheiro faça o mesmo. Mesmo debaixo de tensão é possível mostrar à pessoa de quem gostamos que nos preocupamos com o que ela sente, que valorizamos as suas necessidades. O afeto pode estar presente até nas discussões.

- Existem palavras que nunca se dizem no início da relação, quando estão no auge da paixão?

No início da paixão estamos numa estado de hipervigilância que nos impede quase sempre de sermos absolutamente claros e honestos em relação aos nossos sentimentos, sobretudo quando há desagrado. Temos medo de perder e isso pode impedir-nos de verbalizar o que sentimos. Mas o cuidado que existe – para não magoar de forma gratuita a pessoa que amamos – pode generalizar-se ao resto do tempo.

- Concorda que quando se usa a palavra divórcio – durante uma discussão acalorada – será difícil para o casal recompor-se depois disso?

Há vários estudos que mostram que o uso da palavra divórcio é um dos indicadores de que um casal possa estar próximo da rutura. Na prática, há um que pode estar tão saturado que fala nisso em tom de desespero e há outro que a ouve e que se sente cada vez mais rejeitado, aflito e desamparado. Nessa medida, quem ouve a palavra divórcio tem cada vez menos energia, motivação e criatividade para responder com afeto aos apelos do companheiro. É como se já não valesse a pena.

- E aquelas expressões – “não és a minha mãe”- só pioram?

Pioram porque são generalizações, são ataques pessoais e que não se centram nem no comportamento específico nem nos sentimentos.

- E o recurso muitas vezes à expressão: “desculpa, mas tu”, também causa problemas?



Um pedido de desculpas deve traduzir aquilo a que chamo de curiosidade gentil em relação ao mal-estar que causámos ao outro. Deve traduzir genuína preocupação e interesse.

- Qual é o melhor conselho que tem para os casais resolverem os conflitos?

Tentar a reaproximação tão cedo quanto possível e aceitar essas tentativas de reaproximação, sem rancor. Quanto mais depressa os membros do casal permitirem que as manifestações de afeto regressem e os acalmem, maior será a probabilidade de serem capazes de ultrapassar o que quer que tenha dado origem à discussão com afeto e criatividade.
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