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9.12.05

O QUE ACONTECE AOS FILHOS DOS ALCOÓLICOS QUANDO CRESCEM? (ADULT CHILDREN OF ALCOHOLICS)

Tinha um emprego que o satisfazia, amigos, uma mulher que o amava e filhos mais do que desejados. No entanto, os fantasmas do passado não o deixavam usufruir do que construíra a pulso. Os médicos diziam que estava com uma depressão, mas os cocktails de medicamentos não estavam a produzir os efeitos esperados. Quando chegou ao nosso serviço sentia-se muito confuso, com sentimentos de culpa em relação ao rumo que a vida dos progenitores tinha tomado. Era sistematicamente assolado com perguntas do tipo “O que é que eu fiz de errado?” ou “O que é que poderia ter sido feito para evitar esta situação?”.

Estas são algumas das questões que mais martirizam os familiares dos alcoólicos, independentemente da sua idade. Infelizmente, a ausência de respostas pode deixar marcas muito profundas, criar sentimentos de culpa e impedir que estas pessoas vivam de forma saudável.

Em Portugal o álcool é uma substância mais do que aceite socialmente, o que implica que quem não bebe seja por vezes alvo de chacota. Mas isso não quer dizer que sejamos todos alcoólicos.

Contudo, também não ganhamos nada em escamotear a realidade. Somos um país de bebedores excessivos. E com muitos alcoólicos. Estima-se que cerca de 10% dos portugueses sejam consumidores excessivos de álcool. Que implicações sociais e familiares advêm destes números? Quantas famílias convivem diariamente com este inimigo? Quantas crianças? E o que é que lhes acontece ao longo do seu desenvolvimento? Que tipo de adultos estaremos a formar? Receberão o apoio a que têm direito?

Recebo muitos e-mails de filhos de alcoólicos – quase sempre desesperados, sem saber a quem recorrer. Aqueles que chegam aos consultórios de terapia familiar fazem-no normalmente muitos anos depois dos episódios traumáticos por que passaram. Os pedidos de ajuda estão relacionados com sintomas de depressão, isolamento, falta de auto-estima, episódios de pânico e violência. Só depois de alguma exploração chegamos à origem dos problemas.

Estes adultos emocionalmente instáveis foram crianças cuja infância foi literalmente roubada. Habituaram-se a defender-se como podiam das explosões de violência, assistiram a cenas de pancadaria, viajaram de carro aos zigue-zagues e com o coração aos pulos, foram vítimas de violência emocional e humilhações públicas, cresceram sob os olhares reprovadores dos vizinhos e viveram cada festividade como mais uma hipótese de crise. Como é que podemos esperar que sejam cônjuges ou progenitores felizes?

À medida que crescemos, assimilamos as construções sociais que nos envolvem, ou seja, vamos conhecendo verdadeiramente cada conceito, o peso de cada experiência. Assim, as crianças filhas de alcoólicos vivem mergulhadas num mundo de terror, sem ponto de comparação. Quando crescem e comparam a sua vida com aquilo que é socialmente aceite, apercebem-se da dimensão dos episódios e da real gravidade das situações a que foram expostas. A ausência de uma explicação lógica associada à ambivalência de sentimentos em relação ao pai/ à mãe alcoólico(a) pode levar a estados depressivos.

Os “adult children of alcoholics” (não conheço o termo em português) precisam quase sempre de acompanhamento especializado – frequentemente multidisciplinar. Não vale a pena ter vergonha de pedir ajuda. Este acompanhamento é um direito e pode proporcionar um apoio importante para que o futuro seja vivido de forma saudável.
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