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20.5.09

MEDICINA 2.0: ERROS DE DIAGNÓSTICO A PARTIR DA INTERNET


A informação está hoje à distância de um clique, como se sabe. Para quem tem menos de 20 anos talvez seja até difícil conceber o mundo sem o recurso à Internet e às suas infindáveis pesquisas. No que diz respeito à saúde (física e mental) os últimos anos têm sido profícuos em mudanças comportamentais estruturantes.

Se é verdade que a resistência à ajuda médica é antiga – por motivos financeiros ou outros -, também é verdade que as alternativas têm variado ao longo do tempo. Há 40 ou 50 anos era usual recorrer-se à experiência dos mais velhos, quer na realização do diagnóstico, quer na utilização de mezinhas mais ou menos terapêuticas. Nos anos 80 (do século XX) popularizaram-se os Guias de Saúde, a que muitas famílias portuguesas passaram a recorrer. Nalguns desses livros a informação era apresentada sob a forma de esquemas com perguntas seguidas de bifurcações. Como a identificação de sinais e sintomas é mais complexa do que um mero esquema de setas, os erros de diagnóstico eram frequentes. Já nessa altura era fácil alarmarmo-nos com frases do tipo “Consulte IMEDIATAMENTE um médico”. Ao fim de meia dúzia de perguntas chegava a fatalidade.

A democratização do acesso à informação trouxe, naturalmente, inúmeras vantagens. Há hoje milhares de artigos científicos nas mais diversas áreas da saúde disponíveis na Internet. Mas – e há sempre um mas – desta globalização também resultaram inúmeros perigos. Qualquer sintoma é hoje alvo de pesquisa online antes de qualquer outra medida e há até quem dedique várias horas a tentar perceber o que querem dizer os sinais e sintomas de que padece e, claro, à procura do tratamento ideal. Fazem-se pesquisas em páginas especializadas e noutras menos credíveis, explora-se dezenas de fóruns ou – imagine-se – expõe-se os sintomas em páginas como “Yahoo Answers” e aguarda-se por possíveis diagnósticos. E se há quem seja capaz de esperar por uma resposta online a questões como “Tenho um caroço no peito… O que pode ser?”, também há quem irrompa por consultórios médicos e, antes de descrever o que sente, apresente o diagnóstico formado através de pesquisas cibernéticas. Estes problemas são cada vez mais comuns e generalizáveis à saúde psicológica. Se, por um lado, há pessoas que evitam até ao limite expor as suas dificuldades de natureza emocional e preferem partilhá-las na Internet e também aí obter respostas mais ou menos milagrosas, também há aquelas que respondem à frase “Peço-lhe que se apresente” com “Doutor, eu sofro de ansiedade generalizada” ou “Estou com uma depressão reactiva”.

O impacto de cada uma destas situações é potencialmente catastrófico. Sempre que o (verdadeiro) diagnóstico é adiado em função de meras pesquisas, também a resposta adequada demora a chegar. Tal como acontece na doença física, quanto mais rápida for a intervenção face a transtornos emocionais, mais breve tenderá a ser a recuperação. Por outro lado, sempre que alguém se convence de que tem um problema, atribui a si mesmo um rótulo. Ora, os rótulos são perigosos, estão recheados de preconceitos e são, nalguns casos, incapacitantes. Se eu me vir como “deprimida”, tenderei a comportar-me em função desse rótulo, descurando até a real origem das minhas dificuldades.

A Rosa tem 28 anos e, como muitos portugueses, teve conhecimento há pouco tempo da doença que atingiu o actor António Feio (cancro do pâncreas). Depois de ler nalguma imprensa que o problema do actor começara por manifestar-se através de algumas dores de estômago e que os primeiros exames não teriam detectado nenhuma doença grave, a Rosa foi surpreendida com o adoecimento súbito do pai, que se queixava de dores de estômago, sensação de enfartamento e mal-estar geral. Ainda antes da consulta de especialidade e da realização de qualquer exame, já a Rosa tinha feito algumas buscas na Internet. Motivada por níveis de ansiedade elevados (a preocupação é diferente da ansiedade), a Rosa chegou à conclusão que haveria uma possibilidade muito forte de o pai ser vítima de cancro do estômago. Mais: ao fim de algumas horas, recorreu a um ansiolítico porque todos os seus pensamentos passaram a ser dominados por este mais-do-que-falso diagnóstico. O pai da Rosa tem uma “vesícula preguiçosa” e a Rosa tem, muito provavelmente, um transtorno de ansiedade.

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