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13.3.20

IMPACTO PSICOLÓGICO DO COVID-19



A chegada em força do COVID-19 a Portugal impactou a maior parte dos portugueses. Da preocupação moderada com um vírus que veio de longe, passámos para a implementação de medidas que há algumas semanas pareciam impossíveis e há cada vez mais relatos de quem dorme mal e/ou vive com medo de ser infetado(a). Paralelamente, muitos portugueses já estão de quarentena e é preciso que reflitamos sobre o impacto provocado por este isolamento. Que escolhas podemos fazer para garantir a nossa estabilidade emocional em tempos de COVID-19?


Se há algumas semanas a maior parte das pessoas brincavam com o novo Coronavírus, numa mistura de despreocupação e descrença de que pudesse afetar-nos, de um dia para o outro – numa combinação do aumento exponencial de casos e do anúncio de pandemia -, muitos portugueses viram os seus níveis de ansiedade subirem de forma vertiginosa.

Que impacto tem o COVID-19 na nossa saúde mental?


A tomada de consciência da facilidade de propagação deste vírus e o reconhecimento da possibilidade de escassez de recursos (médicos, sobretudo) deixou muitos portugueses sem dormir nas últimas noites. Sim, o medo intenso passou a fazer parte da nossa vida. Mas isso está longe de significar que estejamos todos vulneráveis ao desenvolvimento de perturbações ansiosas ou depressivas. Pelo contrário, o medo também pode ser nosso aliado, pelo menos na medida em que nos impeça de correr riscos desnecessários e nos leve a tomar medidas que nos permitam enfrentar esta crise com a seriedade que ela exige.

Claro que há pessoas que, independentemente da chegada do COVID-19, já apresentavam sinais de instabilidade e/ou já tinham um quadro depressivo ou ansioso diagnosticado e para quem pode ser mais desafiante lidar com todos os pensamentos intrusivos que possam surgir. Nestes casos, e sempre que uma pessoa reconheça que os seus níveis de ansiedade o(a) impedem de realizar as suas atividades do dia-a-dia, é importante pedir (ou manter) ajuda especializada. Para quem já é acompanhado, é importante partilhar eventuais alterações com os profissionais que já conhece. Para quem nunca pediu este tipo de ajuda, é importante lembrar que muitas consultas podem ser realizadas por telefone ou por videoconferência. O importante é que todos saibamos que ninguém tem de gerir o medo sozinho.

O que é que podemos fazer para lidar com as emoções provocadas pelo COVID-19?


#1 - FALAR ABERTAMENTE SOBRE AS EMOÇÕES

Independentemente do desenvolvimento de qualquer psicopatologia, é expectável que nos sintamos mais tristes, mais irritados, mais confusos e mais ansiosos. Aceitar que estas emoções surjam é um passo importante para que as possamos gerir, em vez de sermos engolidos por elas. De resto, quando falamos abertamente sobre os nossos medos, damos origem a uma organização mental que nos ajuda a serenar. Pelo contrário, quando fingimos ser mais fortes do que realmente somos, quando tememos ser vistos como inferiores, acabamos por sucumbir mais rapidamente aos elevados níveis de ansiedade.

#2 – ACEDER A INFORMAÇÃO FIDEDIGNA

Vivemos na Era da informação e temos o privilégio de poder aceder a informação rigorosa, baseada no conhecimento científico. Infelizmente, também somos bombardeados com demasiadas fake news, que, neste caso, nos confundem e contribuem para a elevação dos níveis de ansiedade. Por exemplo, há dois dias, circulou a informação de que teria ocorrido a primeira morte por COVID-19 em Portugal. O boato foi propagado pelas redes sociais e por alguns meios de comunicação social. É importante que nos lembremos de que as redes sociais SOMOS NÓS. Se não temos a certeza de que uma notícia é verdadeira, devemos escolher não a divulgar – nem sequer por SMS ou Whatsapp. Mas há mais: também podemos limitar a nossa exposição às redes sociais que, neste momento, estão recheadas de informação falsa. Entre notícias não confirmadas por fontes oficiais, aos vendedores de soluções milagrosas, há muita coisa que pode contribuir para que nos sintamos (ainda) mais agitados e inseguros.

Mas mesmo em relação às notícias divulgadas pela Direção Geral de Saúde e/ou por jornais de referência, é importante que sejamos capazes de dosear o acesso à informação. É tentador passar a maior parte do tempo a atualizar páginas de Internet que nos oferecem informação “ao minuto”, mas, se observarmos com atenção, verificamos que este comportamento não só não acrescenta qualquer segurança real, como pode contribuir para que nos sintamos mais ansiosos.

Sim, é importante que nos mantenhamos informados, mas é igualmente importante que nos distraiamos do assunto várias vezes por dia.


#3 – RESPEITAR AS DIRETRIZES PARTILHADAS PELAS AUTORIDADES

É difícil confiar em alguém de fora quando o problema se assemelha a um daqueles monstros que só aparecem nos filmes de ficção científica e que anunciam crises apocalípticas. Todos nos comovemos e assustámos com a situação vivida em Itália, mas isso não é motivo para que deixemos de confiar nas nossas autoridades. 

Se experimentarmos olhar para os exemplos em que o problema tem sido controlado – como Macau ou a própria China, que apresenta uma clara desaceleração da propagação do vírus -, constatamos que o cumprimento das normas e a confiança nas diretrizes partilhadas pelas autoridades foi essencial.

Se nos mantivermos atentos e escolhermos cooperar, fazendo a nossa parte, não só nos sentiremos mais seguros de que estamos a fazer alguma coisa para lidar com o problema, como observaremos mudanças positivas reais à nossa volta.

#4 – RECONHECER QUE ESTA CRISE VAI PASSAR

Estamos a lidar com uma realidade que é nova para todos, mas que vai passar. É verdade que, independentemente do tempo que leve até que surja uma vacina ou um medicamento capaz de curar a doença provocada por este vírus, vamos continuar a receber notícias de mais pessoas infetadas. Mas podemos e devemos olhar para o que está a acontecer na China, o país onde tudo começou, e constatar que, apesar de também lá continuar a haver casos novos de infeção, o problema está claramente contido.

Podemos e devemos procurar viver um dia de cada vez, reconhecendo que é difícil viver na incerteza, mas lembrando-nos de que tudo isto vai efetivamente passar.

#5 – CUMPRIR A QUARENTENA, SE HOUVER ALGUMA SUSPEITA E/OU FOR IMPOSTA

No momento em que escrevo este texto, a maior parte dos portugueses não estão de quarentena, mas há alguns milhares de pessoas nessa situação. É compreensível que algumas pessoas se sintam mais agitadas e inseguras com esta medida. Por um lado, é sempre difícil lidar com a incerteza associada a uma situação de saúde. Por outro lado, há consequências sociais, familiares, profissionais e financeiras associadas a este isolamento. Nesse sentido, algumas pessoas têm optado por desrespeitar a quarentena, mantendo-se em contacto com outras pessoas e até frequentando lugares públicos. Algumas buscarão o conforto e a distração que só o contacto social oferece. Outras simplesmente desvalorizam o problema.

É fundamental que nos lembremos de que, independentemente da forma como a doença nos possa afetar, o simples facto de sermos portadores do vírus – mesmo que sem sintomas – nos coloca na posição de potenciais contaminadores. E, se contaminarmos outras pessoas, sejam elas quem forem, aumentamos (e muito!) a probabilidade de haver pessoas mais vulneráveis e de quem gostamos que possam ser afetadas. Um jovem de 20 anos a quem seja imposta a quarentena pode escolher ir ao café, ao centro comercial ou à praia e jurar a pés juntos que se preocupa com a avó que tem 80 anos, mas que sabe que está sossegada em casa. Ou com a prima, que tem cancro, e que tem levado uma vida ainda mais resguardada. Mas esquece-se de que as pessoas com quem se cruza nos locais públicos são cidadãos como nós, que trabalham e que circulam por todo o tipo de meios. Elas também vão ao supermercado e à farmácia. Compram pão, abastecem o carro e cuidam de outras pessoas. As cadeias de transmissão são infindáveis e o problema pode chegar rapidamente à avó ou à prima.

Desrespeitar a quarentena pode ser um sinal de medo exacerbado, desinformação ou negligência. Mas é, acima de tudo, uma falha de caráter que pode colocar-nos a todos numa posição muito difícil.

Quem escolhe cumprir à risca aquilo que é proposto pelas autoridades está a cuidar de si e dos outros. Está, por exemplo, a garantir uma probabilidade muito mais elevada de receber os cuidados mais apropriados em caso de doença. É que se todos ficarmos doentes ao mesmo tempo, a probabilidade de não haver recursos para todos é enorme. Mas se cada um fizer a sua parte, mais rapidamente sairemos desta crise (com vida).


É evidentemente difícil lidar com o facto de não sabermos quando é que esta crise acabará. Há muitos planos que simplesmente deixamos de poder fazer, há muitas decisões que não podem ser tomadas. Há férias marcadas que não sabemos se se vão realizar. Há férias por marcar. Há casamentos e batizados que não sabemos se vão acontecer. Há pessoas de quem gostamos que não saberemos quando poderemos visitar. Há escolas que fecham e pais e mães que não sabem como vão responder à possibilidade de terem as crianças em casa. Há muitas pessoas que não sabem se vão conseguir manter o emprego.

Algumas situações são mais aflitivas do que outras e a sugestão de viver um dia de cada vez não implica a desvalorização de problemas sérios. Implica, isso sim, a hierarquização das dificuldades e das necessidades. Não há saúde mental se não houver vida. Mais do que querermos resolver todos os problemas ao mesmo tempo, é importante que enfrentemos uma questão de cada vez. E em primeiro lugar tem de vir a nossa sobrevivência física. Cumprirmos as diretrizes das autoridades de saúde – mesmo que isso implique que percamos muito dinheiro ou o emprego – é a única forma de cuidarmos da nossa vida. Se o fizermos com rigor, mais rapidamente nos livraremos desta epidemia e poderemos enfrentar todas as outras dificuldades.

#7 – MANTER AS ROTINAS (POSSÍVEIS)

Mesmo que tenhamos de trabalhar a partir de casa ou, no limite, o país tenha de estar todo em quarentena, há escolhas que podemos fazer para manter algumas rotinas e, assim, promovermos a nossa saúde mental. Fazermos a nossa higiene, vestirmo-nos como habitualmente (em vez de ficarmos de pijama), cumprir o horário das refeições e deitarmo-nos à hora de sempre são escolhas que nos ajudam a manter a sensação de normalidade – e a oferecer também essa sensação aos nossos filhos.

#8 – PUXAR PELA CRIATIVIDADE E MANTER A ATIVIDADE

Se tivermos de passar muito tempo em casa, e sobretudo se esse tempo estiver associado à suspeição de infeção, é legítimo que nos sintamos mais instáveis. Mas compete-nos fazer aquilo que estiver ao nosso alcance para ocupar a mente e colocar o corpo em movimento. Há muita coisa para fazer dentro de casa. Arrumar gavetas e armários pode ser mais do que uma necessidade – pode ser terapêutico para a cabeça. Descarregar exercícios da Internet que as crianças possam fazer em horas específicas do dia ajudá-lo(a)-á a manter-se ocupado(a) e útil. Concretizar atividades de bricolage pode não ser a sua praia, mas pode revelar-se profundamente calmante. Puxe pela sua criatividade e permita que a resiliência substitua a apatia.

Por outro lado, contrarie qualquer vontade de se enrolar sobre si mesmo(a) no sofá ou na cama durante o tempo que tiver de ficar em casa. Mexa-se – pela sua saúde física e mental. Se não pode ir ao ginásio, mas for viável ir até ao jardim (e não estiver de quarentena), exercite-se lá fora. Se tiver mesmo de estar em casa, descarregue alguns exercícios da Internet. Faça Yoga, Dança ou Fitness. Aproveite para experimentar aquelas aulas para iniciantes que estão disponíveis em plataformas como o Youtube.

#9 – MANTER O CONTACTO COM A FAMÍLIA E COM OS AMIGOS

Pode parecer um contrassenso, mas é precisamente nos momentos em que somos forçados a alguma forma de isolamento que é essencial que façamos aquilo que estiver ao nosso alcance para socializar. Se tiver de ficar em quarentena, utilize o seu telemóvel para fazer aquilo que ele faz melhor: coloca-lo(a) em contacto com as pessoas de quem gosta. Faça videochamadas, desabafe, fale sobre outros assuntos, ria, descontraia.

Lembre-se também de fazer a sua parte em relação às pessoas que estiverem numa situação de isolamento forçado. Se um familiar ou um amigo estiver de quarentena, é provável que, além de tudo o resto, se sinta triste, vulnerável e discriminado(a). Há uma sensação de vergonha associada ao facto de ser posto(a) de lado, mesmo que por circunstâncias como esta. Procure telefonar a esta pessoa, animando-a e incentivando-a a manter alguma normalidade.

Faça o mesmo com os idosos que, nesta fase, estão ainda mais isolados.

Escolher telefonar diariamente a alguém que sabe que pode estar assustado(a) por fazer parte de um grupo de risco e que, por isso mesmo, não pode/ não deve receber a visita das pessoas de quem gosta, pode fazer toda a diferença.


Fazermos algo pelos outros também nos ajuda a lidar com o stress.

#10 – AJUDAR AS CRIANÇAS

A ansiedade dos adultos não só condiciona a estabilidade emocional dos filhos, como é condicionada pelo medo de não conseguir oferecer todas as respostas de que as crianças precisam. Enquanto pais e mães podemos escolher ser claros e honestos com os nossos filhos, adaptando naturalmente a linguagem à idade de cada um. Não adianta mentir e dizer que este não é um problema sério. As crianças são mais sensíveis à linguagem não-verbal do que às palavras que saem da nossa boca. Apercebem-se da nossa tensão e sentir-se-ão mais seguras na medida em que o nosso discurso seja congruente com o estado emocional que lhes transmitimos. Por outro lado, é essencial que limitemos o acesso às notícias. Não há qualquer vantagem em expor as crianças às atualizações “ao minuto” ou à análise minuciosa dos números. Esses são assuntos difíceis de gerir pelos adultos, imagine-se para as crianças.

A alteração das rotinas pode condicionar o humor das crianças, tal como acontece com os adultos. O nosso stress e o stress dos nossos filhos diminui na medida em que aceitemos as suas emoções. Sim, as crianças podem fazer mais birras em consequência da ansiedade que sintam em relação a este assunto, mas também em função da alteração das rotinas. A função dos pais não é permitir tudo, mas a dinâmica familiar melhorará na medida em que os adultos aceitem que pode levar algum tempo até que as crianças se adaptem a esta nova realidade.

Manter uma postura otimista, centrada nas soluções, ajudará a devolver a confiança aos filhos. É importante reconhecer que é duro para todos estar longe dos amigos, dos colegas e dos lugares de diversão, sobretudo porque se trata de um período com duração indeterminada, mas o esforço de cada um pode revelar-se muito compensador.

10.9.18

SUICÍDIO: COMO FICA A FAMÍLIA?

Suicídio: Como fica a família?


O tabu que existe à volta do suicídio pode ser mais um entrave à ajuda terapêutica. Os sobreviventes, aqueles que já tentaram o suicídio, são muitas vezes estigmatizados e os familiares (e amigos) sentem-se muitas vezes culpados, confusos e impotentes.


Falar de um tema como o suicídio ainda é falar de um assunto ao qual está associada vergonha e muito estigma. Quando sabemos da notícia de algum caso, interrogamo-nos em silêncio sobre os motivos, sobre a possibilidade de haver alguma fatalidade súbita que pudesse ter estado na origem do desespero e, quando nos damos conta de que a depressão é quase sempre “o” motivo, perguntamo-nos sobre o que poderíamos ter feito – para identificar o problema e, sobretudo, para ajudar. E os familiares mais próximos? E os amigos? Eles também são muitas vezes apanhados de surpresa. Para eles, é ainda mais difícil gerir os sentimentos associados à perda.

A PERGUNTA QUE FICA: PORQUÊ?


Os remorsos – associados a tudo aquilo que foi dito sem pensar, às coisas que ficaram por dizer e, sobretudo, à ajuda que não se conseguiu dar – são apenas uma parte do turbilhão emocional que é preciso gerir. A verdade é que é normal que as pessoas mais próximas sintam raiva da pessoa que “escolheu” partir, mesmo que reconheçam todo o seu sofrimento; é normal que se sintam culpadas, ainda que boa parte dessa culpa não tenha qualquer fundamento; é normal que se sintam em choque; é normal que se sintam confusas e que tenham dificuldade em aceitar que a morte tenha ocorrido por suicídio.

Gerir todas as emoções começa precisamente por reconhecer que é normal sentir tudo isto e por aceitar, devagarinho, que há perguntas que poderão ficar sem resposta.

É dificílimo lidar com a morte de alguém de quem gostamos muito mas é ainda mais penoso quando há tantas dúvidas, tantas interrogações, tantos «E se…?».


Mesmo quando sabemos que a pessoa sofria de depressão e quando a perda surge ao fim de vários anos de doença, pode ser difícil conviver com as dúvidas que ficam. Tenho trabalhado com pais e irmãos que cometeram suicídio e, para muitos, as perguntas que ficam sem resposta são uma grande fonte de sofrimento.

A terapia não pode, obviamente, trazer todas as respostas. Mas ajuda (muito) a lidar com a ausência delas. É preciso dar espaço para que a pessoa exteriorize todos os pensamentos negativos que a levem a alimentar sentimentos de culpa. É preciso ajudá-la a olhar para a realidade de forma mais clara e racional. É preciso colocar em prática algumas ferramentas que a ajudem a conviver com aquilo que não pode controlar.

LUTO DEPOIS DO SUICÍDIO:
CADA PESSOA PRECISA DO SEU TEMPO


O tempo não cura tudo mas é um aliado muito poderoso. Felizmente, a maioria das pessoas reconhece que, à medida que o tempo passa, e, sobretudo, na medida em que se sintam amparadas, o sofrimento diminui, a perda vai deixando de ser o único assunto que ocupa os seus pensamentos e é possível encontrar novos objetivos na vida.

Para alguém que tenha acabado de viver esta dor, pode ser difícil acreditar na possibilidade de voltar a ser feliz. É preciso ir devagarinho e aceitar que há sugestões que podem facilitar o caminho:

#1: ACEITAR OS PRÓPRIOS SENTIMENTOS.


Parece óbvio. Se uma pessoa está de luto, é natural e legítimo que se sinta triste. Se a perda ocorreu por suicídio, é natural que haja raiva, confusão, culpa. Mas, na prática, pode parecer mais simples limpar as lágrimas e avançar com a própria vida como se não tivesse acontecido nada. Para algumas pessoas, não faz sentido que alguns meses depois da perda ainda esteja tudo muito fresco e que os sentimentos continuem à flor da pele. Por outro lado, as pessoas à sua volta podem insistir na necessidade de “voltar ao normal” e estas tentativas de ajudar podem fazer com que se sinta ainda mais pressionada, ainda mais culpada.

Cada pessoa tem o seu ritmo e a tristeza e todos os outros sentimentos são normais e podem demorar a desvanecer-se. Não vale a pena querer acelerar o processo.


#2: FALAR SOBRE OS SENTIMENTOS.


As pessoas não são todas iguais e nem todas se sentem à vontade para falar sobre emoções tão intensas como aquelas que surgem na sequência de uma perda. Parar de fazer comparações com as outras pessoas é sempre uma boa opção MAS é importante reconhecer que há uma sensação de amparo associada à possibilidade de falarmos sobre o que estamos a sentir e verificarmos que há alguém que se importa. Há pessoas que perguntam «Para quê?», como se falar sobre os sentimentos só valesse a pena se a pessoa que nos ouve tivesse o poder de nos devolver a pessoa que partiu. Na prática, a pessoa que está “lá”, que escuta com atenção e que tenta dar esperança num futuro mais risonho até pode estar a léguas deste tipo de sofrimento MAS está disponível para lidar com o turbilhão emocional e pode, devagarinho, ser um pilar fundamental. 

#3: AJUDAR OUTROS MEMBROS DA FAMÍLIA.


A vida é sempre mais bonita e tem mais significado quando percebemos que podemos ajudar os outros. Quando toda a família está em sofrimento, pode surgir a sensação de que não há ninguém para nos ajudar. Mas quando cada um procura escutar, amparar e dar esperança, a união pode mesmo dar força. Ao longo do processo de luto, há dias melhores do que outros, há alturas em que uma pessoa está mais capaz de ajudar e há outras em que está mais necessitada de ajuda.

#4: ACEITAR AS DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO.


Os amigos e os familiares podem querer ajudar mas nem sabem como fazê-lo. É natural que algumas pessoas à sua volta tenham medo de falar na palavra suicídio ou evitem determinados assuntos. Fale sobre aquilo de que precisa e aceite que haja pessoas que simplesmente não vão conseguir dar-lhe o apoio de que precisa. Pode ser necessário conversar com um psicólogo para deitar tudo cá para fora.

#5: APRENDER A LIDAR COM O FUTURO.


As primeiras vezes depois da perda podem ser muito duras. Os aniversários, o Natal e todas as datas a que associamos a palavra “família” passarão a ser vividas de forma diferente. Isso não significa que não voltará a celebrá-las. Mas cada coisa tem o seu tempo e é preciso deixar que os sentimentos mais intensos se instalem nestas primeiras vezes. Procure rodear-se das pessoas com quem se sinta suficientemente à vontade para desabafar se sentir necessidade. Se puder, converse com pessoas que tenham enfrentado processos de luto há mais tempo e que possam ajudar a desconstruir os pensamentos mais catastrofistas e a olhar para o futuro com otimismo realista.

31.3.15

AGORA NÓS - DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Hoje voltei ao programa AGORA NÓS, na RTP1, para falar sobre um caso de DOAÇÃO DE ÓRGÃOS.


Um casal perdeu a filha, de 3 anos, em Maio de 2014, num acidente de viação. Decidiram doar os órgãos da filha e, com isso, foram salvas 4 vidas. Pouco tempo depois conheceram a recetora do rim da filha, Maria, que tem 11 anos e com quem têm mantido contacto.

Aqui está o vídeo com os meus comentários:


11.11.14

TRISTEZA OU DEPRESSÃO?


Como é que alguém sabe se a tristeza que sente é só tristeza ou se equivale a um estado depressivo? É uma questão de intensidade? Ou de duração? É preciso que haja outros sintomas associados para se considerar que uma pessoa não está apenas triste? Estará alguém capaz de fazer um diagnóstico a si próprio? Estas são perguntas que a maior parte das pessoas já colocou a si mesma, sobretudo perante a tristeza de alguém de quem se gosta. Se o marido, um irmão ou um amigo estiver triste, é normal que nos perguntemos: estará deprimido? Precisará de ajuda?

Fala-se tanto de depressão que há quem não possa ver alguém a chorar dois dias seguidos para colocar o rótulo: está deprimido. É preciso fazer alguma coisa! Procurar um psicólogo, tomar antidepressivos, sair para espairecer, fazer desporto. Vale tudo para fugir de uma emoção que é, afinal, tão normal. Sim, é normal que nos sintamos tristes em resposta a alguns acontecimentos. A morte de alguém de quem gostamos, o fim de uma relação, uma doença ou até uma situação de desemprego podem deixar-nos tristes. E muitas vezes essa tristeza não desaparece ao fim de dois dias. Cada pessoa tem o seu ritmo e se algumas não precisam de mais de um par de horas para chorar e, assim, seguir em frente, há outras que precisam de falar ininterruptamente sobre a sua angústia. Há quem sinta vontade de se isolar para gerir as mágoas e há quem faça de tudo para estar com outras pessoas e, assim, não sofrer tanto. Mas a tristeza é normal e adaptativa, o que significa que é saudável que a sintamos e que a exteriorizemos quando a vida nos rouba a vontade de sorrir.

Claro que também é normal que nos sintamos aflitos quando alguém à nossa volta parece afundar-se num estado de tristeza profunda. É natural que nos sintamos invadidos pela sensação de impotência e que assumamos a vontade de fazer alguma coisa.


Para poder seguir em frente, para poder completar o luto ou arregaçar as mangas. E quando nos concentramos em fazer o que estiver ao nosso alcance para que a outra pessoa saia rapidamente daquele estado emocional arriscamo-nos a desvalorizar as suas necessidades. Não é fácil dar autorização para que alguém se sinta triste. Porque isso também mexe com as nossas emoções. Mas é preciso fazê-lo.

Depois há alturas em que nos damos conta de que aquela tristeza não é normal nem adaptativa. Porquê? Porque a pessoa já está triste há meses e não dá qualquer sinal de que a intensidade da sua dor comece a diminuir. Ou porque percebemos que a pessoa não está apenas triste – deixou de comer, ou de dormir, ou de conseguir trabalhar. Há uma limitação do desempenho das tarefas banais. Não há sonhos, nem prazer. Não há vontade de lutar pelo que quer que seja. Ou então a pessoa até continua a trabalhar e a fazer aquilo que se espera que ela faça mas deixou de sorrir e anda permanentemente mal-humorada sem que se consiga vislumbrar a hipótese de mudança. E então, sim, é preciso fazer alguma coisa. Mas o quê?



Mostramo-nos disponíveis. Para ouvir, para ajudar, para estar “lá”, para procurar ajuda especializada, para ir com ela à consulta, para a ouvir de novo. E dizemos, com afeto, que “é normal” e que “vai passar”.

18.6.13

QUANDO O LUTO SE TRANSFORMA EM DOENÇA

A perda de alguém próximo é um dos acontecimentos mais difíceis de ultrapassar. A dor é a maior de sempre, a sensação de impotência e de desamparo também. Na fase de crise, que normalmente surge imediatamente após a perda, a pessoa enlutada pode sentir-se desesperada, desesperançada num futuro minimamente feliz.

O tempo,
a família
e os amigos
tendem a devolver essa esperança e
a ajudar a completar o ciclo do luto.

O que acontece é que, de forma gradual, a pessoa vai ganhando forças para se restruturar e, muitas vezes com avanços e recuos, mais cedo ou mais tarde atinge uma fase de adaptação, marcada não pelo esquecimento mas pela capacidade de voltar a sentir prazer com a própria vida e pela vontade de voltar a sonhar.

Para algumas pessoas o tempo passa
mas a dor parece manter-se igual ao primeiro dia.

Podem até experimentar pequenos períodos de aparente tranquilidade mas não chegam a atingir a fase de adaptação. É como se andassem em círculos. A angústia profunda pode dar lugar a episódios de raiva e/ou sentimentos de culpa a que sucedem novamente períodos de angústia que podem ser caracterizados por manifestações de choro e lamentos constantes. De um modo geral, a pessoa acha que ninguém compreende verdadeiramente a sua dor e, em função disso, pode considerar que ninguém a pode ajudar. De resto, é possível que os familiares, colegas e amigos da pessoa enlutada já tenham desistido de o fazer.

Para a pessoa incapaz de completar o ciclo do luto acontece algo curioso: a tristeza profunda em que está mergulhada faz com que deixe de ser capaz de se recordar de alguns acontecimentos vividos. É como se os apagasse da memória. O processo é semelhante àquele que acomete as vítimas da perturbação pós stress traumático ou de depressão profunda, em que há um apagamento de memórias significativas, como se a intensidade dos sentimentos lhes toldasse o olhar. Mas no luto crónico há uma exceção: na maior parte das vezes, a pessoa mantém a capacidade de se recordar de todos os acontecimentos que incluam o familiar que perdeu. Paralelamente, a pessoa deixa de ser capaz de se projetar no futuro sem aquele ente querido mas é perfeitamente capaz de descrever – às vezes com detalhe – tudo aquilo que gostaria de fazer com aquela pessoa.

Quando falamos desta forma de lidar com a morte falamos evidentemente da necessidade de intervenção clínica – quase sempre nas áreas de Psicologia e de Psiquiatria. No que diz respeito à intervenção psicológica, a ajuda também passa por identificar novas metas, bem como estratégias para que essas metas sejam alcançadas.

Definir objetivos e trabalhar nesse sentido
pode parecer impossível sem a intervenção especializada
mas é uma realidade para quem tem a coragem de pedir ajuda.

24.7.12

INFIDELIDADE E DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS



Enquanto terapeuta de casal, deparo-me quase todos os dias com casos de infidelidade e, nesses processos terapêuticos, uma das questões que surge – até a propósito da mágoa e da reconstrução da relação – diz respeito às dúvidas que o cônjuge traído levanta a propósito da prática de relações sexuais não protegidas. Nalguns casos o pedido de ajuda psicoterapêutica surge algum tempo depois de a relação extraconjugal ter sido descoberta e já depois de esta questão ter sido “resolvida” através do recurso a análises laboratoriais. Noutros casos, a questão é posta em sede de terapia. Para além de todos os constrangimentos associados ao facto de, na sala de terapia, os membros do casal terem de expor a sua intimidade a uma terceira pessoa, há ainda esta incerteza que, aquando da inexistência de uma prova concreta, pode revelar-se fatal para a reconstrução da relação. E se é fácil adivinhar o embaraço de quem, depois de ser apanhado a trair, tem de recorrer ao médico de família para requisitar estas análises (e ainda corre o risco de ser confrontado com questões a respeito do motivo para a sua realização), também não é difícil adivinhar a angústia de quem teme que o affair possa implicar consequências para a sua saúde física.

Infelizmente, a experiência mostra-me que
MUITAS RELAÇÕES EXTRACONJUGAIS RESULTAM
EM ATOS SEXUAIS NÃO PROTEGIDOS,
às vezes continuados, e que estes comportamentos
de risco acontecem em simultâneo com
a atividade sexual “normal” do casal.

Em resumo, há muitas pessoas que veem a sua saúde física em risco em função dos comportamentos do cônjuge.

Uma pesquisa realizada há pouco tempo vem reforçar esta constatação mostrando que:

- De entre as 1647 pessoas envolvidas na investigação, 801 admitiram ter mantido relações sexuais extraconjugais;

- 493 afirmaram que estes relacionamentos fariam parte de “relações abertas” enquanto 308 admitiram que foram infiéis;

- O uso do preservativo nas relações vaginais era 27 por cento mais baixo entre as pessoas que foram infiéis (e nas relações anais era 35 por cento mais baixo).

Para algumas pessoas a monogamia é uma forma de se sentirem felizes, satisfeitas e seguras. Mas importa que o conceito de monogamia seja interiorizado. Quando alguém mantém uma relação supostamente monogâmica e, ao mesmo tempo, adota comportamentos de risco em relações extraconjugais, não está “apenas” a comprometer a viabilidade da sua relação conjugal “oficial”. Pode estar também a colocar em causa a saúde física da pessoa que afirma amar.

15.3.12

SER DIAGNOSTICADO COM PERTURBAÇÃO BIPOLAR



Tenho-me referido algumas vezes ao estigma associado às perturbações do foro mental e às consequências que daí resultam mas hoje escolhi focar a atenção numa perturbação que é cada vez mais referida nos meios de comunicação –até em função do número cada vez maior de figuras públicas a quem é atribuído o diagnóstico – mas que está longe de ser compreendida. Antes de mais, importa referir que esta é uma perturbação que origina marcadas oscilações de humor e que implica que o paciente vivencie dois tipos de picos – DEPRESSÃO E MANIA.

Nas fases de DEPRESSÃO o paciente pode sentir:

Tristeza, desespero, ideação suicida, culpa, problemas do sono, problemas de apetite, fatiga, desinteresse pelas atividades do dia-a-dia, dificuldades de concentração, irritabilidade, dor sem causa definida.

As fases de MANIA são caracterizadas por:

Euforia, otimismo extremo e irrealista, discurso acelerado, pensamentos em catadupa, comportamento agressivo, agitação, atividade física extrema, comportamentos de risco, gastos excessivos, aumento do desejo sexual, diminuição da necessidade de sono, incapacidade de manter a concentração, consumo de drogas ou álcool.

Quer nas fases de depressão, quer nas fases de mania, a presença destes sintomas é responsável pelo empobrecimento do desempenho escolar ou profissional. Em paralelo, há quase sempre deterioração das relações afetivas, mesmo no que diz respeito aos familiares mais próximos.

Mas se é verdade que é muito difícil lidar com esta sintomatologia sem haver um diagnóstico definido, não é menos verdade que a maior parte destes pacientes enfrenta uma dificuldade acrescida no momento em que o seu problema passa a ter um nome. Não é fácil lidar com um rótulo como este e para muitos doentes a primeira reação é a negação.

“Bipolar, eu? Nem pensar! Eu não sou maluco(a)”.

Quando somos confrontados com situações que gerem muito sofrimento, é usual desenvolvermos mecanismos de defesa que baixem a nossa ansiedade e a negação é um desses mecanismos. O problema é que da negação resulta invariavelmente a recusa da toma de medicamentos que são cruciais para que o paciente possa manter-se estável, bem como a rejeição da ajuda psicoterapêutica.

Para quem está de fora, pode parecer fácil. Afinal, é óbvio o sofrimento por que estes pacientes passam, assim como são óbvios os benefícios que resultam de uma resposta ajustada ao problema. Para quem nunca foi confrontado com este rótulo é fácil pensar “Mais vale saber que é bipolar porque, pelo menos, assim já pode receber o tratamento adequado”. Mas ninguém deseja ser confrontado com um rótulo que continua envolto em tanto estigma. E ainda que esta não seja uma doença contagiosa, há e continuará a haver quem olhe de lado para pessoas diagnosticadas com perturbação bipolar.

Trabalhar com o paciente no sentido de mostrar que o diagnóstico não é uma condenação é o caminho para uma vida mais estável. Sim, é verdade que a perturbação bipolar tem um carácter mais crónico do que a maior parte dos casos de depressão. Mas também é verdade que os riscos associados à recusa de tratamento são muitos e fazem com que a negação não compense.

Felizmente, depois do choque inicial,
a maior parte dos pacientes acaba por sentir-se aliviado.

Afinal, boa parte dos comportamentos que até aí pareciam ilógicos e geravam um imenso transtorno em termos sociais e familiares têm agora não apenas uma causa definida como uma resposta ajustada. Há algo que pode ser feito para controlar os sintomas e isso gera alívio.

É também importante trabalhar com as famílias destes pacientes, “ajudando-as a ajudar” quem recebe o diagnóstico. É fundamental que os familiares e os amigos estejam lá para apoiar em vez de julgar, para reafirmar tantas vezes quanto for necessário:

“Tu és a mesma pessoa de sempre
mas agora nós sabemos com que
problema estamos a lidar
e gostamos de ti”.

17.11.11

HOMENS COM ANOREXIA NERVOSA

Anorécticas. Foi assim que nos habituámos a rotular as vítimas de anorexia nervosa. Reportagens, notícias, palestras e estudos de caso têm-nos dado conta de inúmeras histórias, quase sempre dramáticas, de (jovens) mulheres que lutam, lutaram ou morreram por causa desta perturbação do comportamento alimentar. Para a população em geral, tal como para a maior parte dos clínicos, não faz muito sentido falar em homens anorécticos. Habituámo-nos à raridade de casos concretos e partimos vezes de mais do princípio de que um potencial doente mascara outra dificuldade qualquer. Lembro-me, por exemplo, de um caso que acompanhei logo no início da minha actividade e cujo pedido de ajuda era claro: "O meu filho sofre de anorexia nervosa". Na altura trabalhava em co-terapia e lembro-me de ter ficado tão expectante quanto o meu co-terapeuta em relação à primeira consulta com esta família. Não foram precisas mais do que duas consultas para que o pedido de ajuda fosse reestruturado e, de um acompanhamento à criança passássemos a um processo terapêutico individual com... a mãe. Estávamos perante uma criança com algumas dificuldades de alimentação, sim, mas nada que configurasse uma perturbação do comportamento alimentar. Esta foi apenas a porta de acesso a um pedido de ajuda que há muito urgia e que se prendia com dificuldades de natureza conjugal. Esta mulher precisava de ajuda mas projectara as suas dificuldades para o filho.

De lá para cá tive oportunidade de me cruzar com vários colegas que confirmam a raridade da prevalência de pedidos de ajuda no masculino no que às perturbações do comportamento alimentar diz respeito. Paralelamente, tenho acompanhado os estudos científicos estrangeiros que dão conta da maior incidência da anorexia nervosa nas mulheres, mas que também revelam que a prevalência entre os homens é significativamente superior àquilo com que nos confrontamos nos gabinetes de Psicoterapia.

Estudos recentes dão conta de que 25 por cento das vítimas de anorexia são homens (e 40 por cento das vítimas de voracidade alimentar também são homens).

Então, por que é tão difícil identificar estes casos?

As razões são de diversa ordem:

- A doença tem sido comummente associada às mulheres, pelo que mesmo quando nos apercebemos de que um homem está com peso a menos atribuímos a circunstância a outros factores, como o stress.

- Se é verdade que boa parte dos doentes com perturbações do comportamento alimentar exageram na prática de exercício físico, é muito raro ouvirmos alguém sugerir que um homem passa demasiado tempo no ginásio. Nos tempos que correm isso é sobretudo sinal de saúde, de vaidade e de cuidado com o corpo. Mais facilmente pensamos que um homem que passa muito tempo no ginásio pretende ganhar músculos do que perder peso.

- Como a doença está mediaticamente associada às mulheres, os homens que dela padecem dificilmente reconhecem o problema, ainda que sofram com os constrangimentos que esta perturbação vai criando.

- Quando os doentes atingem um grau de debilidade física que obrigue ao internamento e/ou à baixa médica o diagnóstico aponta muitas vezes para o "burnout" ou esgotamento, o que implica que a pessoa passe a receber medicação antidepressiva, que produz alguns resultados em termos do alívio dos sintomas mas que pode mascarar o real problema.

Tal como acontece em relação a tantas outras perturbações do foro emocional, existem muitos doentes de anorexia nervosa subdiagnosticados e que levam anos até que se confrontem com um diagnóstico rigoroso e com o respectivo plano terapêutico.

2.11.11

CRIANÇAS COM ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO

A ansiedade de separação pode ser definida como o nervosismo excessivo que a criança evidencia quando antecipa que terá de se afastar temporariamente de um familiar (por norma, a mãe). Este medo exacerbado pode traduzir-se na recusa em ir à escola, na manifestação de preocupação com a possibilidade de um dos progenitores morrer e/ou no medo de dormir sozinha. E como é que se manifesta? Com crises de choro, queixas psicossomáticas (como dores de barriga), pesadelos, etc.

À medida que as crises se prolongam no tempo e os pais desesperam porque não conseguem ajudar os seus filhos, podem surgir alguns episódios de impaciência e intolerância. Sim, os pais também perdem a paciência. Afinal, os adultos também se cansam e não é com certeza fácil gerir estes medos aparentemente inexplicáveis, em particular quando incluem muitas noites mal dormidas, birras diárias antes de sair de casa e outros eventos stressantes. Cada pai e mãe dá o seu melhor para ajudar as suas crianças mas quando o medo se confunde com uma tentativa gratuita de chamar a atenção a disponibilidade pode dar lugar à irritabilidade e à incompreensão.

Mas por que é que as crianças se mostram tão assustadas? Os agentes stressantes vão desde situações novas (como a mudança de escola ou a mudança de casa), adoecimento de um dos membros da família ou mudanças repentinas na rotina da criança. O que acontece é que a criança se sente alarmada e reage instintivamente em busca de ajuda. De resto, muitas destas crises de ansiedade assemelham-se às crises de pânico que nós, adultos, tantas vezes experimentamos – a criança pode sentir fraqueza, falta de ar e uma espécie de nó na garganta.

De que é que a criança precisa? Que os adultos em quem confia se mostrem disponíveis, capazes de empatizar com os seus apelos. Precisa que lhe transmitam segurança, uma base sólida para que se sinta capaz de explorar o desconhecido. À medida que a criança desenvolve laços seguros com os adultos mais próximos, sentir-se-á mais apta a confiar noutras pessoas e em si mesma.

Quando a ansiedade se intensifica e/ou se prolonga por mais de 4 semanas tornando-se incapacitante e/ou prejudicial ao normal desempenho das actividades, podemos estar perante uma perturbação de ansiedade de separação, que requer uma avaliação clínica e respectivo acompanhamento psicológico, sob pena de aquela criança vir a sofrer de um transtorno ansioso ao longo da vida adulta. A psicoterapia é a resposta adequada aos casos em que a ansiedade de separação compromete o normal desenvolvimento da criança, na medida em que permite restituir-lhe a segurança emocional.

19.10.11

SATISFAÇÃO SEXUAL DEPOIS DO CANCRO DA PRÓSTATA

O diagnóstico de uma doença séria, como o cancro, está cada vez mais associado à busca de informação através da Internet. Muitas vezes ainda só há a suspeita de doença e já o doente e/ou os seus familiares estão a tentar obter informações online sobre os caminhos a seguir. Claro que os riscos inerentes a estes comportamentos são imensos, já que a Internet coloca à nossa disposição informação rigorosa e fidedigna mas também dados cientificamente imprecisos, ultrapassados e, nalguns casos, absolutamente distorcidos.

Quando um homem recebe o diagnóstico de cancro da próstata, é natural que se confronte com a possibilidade de, mesmo que o tratamento seja bem-sucedido, vir a sofrer de disfunção eréctil. E é aqui que tantas vezes começa o dramatismo, a confusão, o retraimento e a desinformação. Como continuam a vigorar muitos tabus no que diz respeito à sexualidade, muitos destes doentes sofrem em silêncio com as informações dispersas que vão encontrando, deprimindo-se com as consequências do cancro. A maior parte destes sobreviventes tem medo de não voltar a sentir desejo ou prazer sexual mas nem todos conseguem falar abertamente sobre isso com a companheira ou com os clínicos que os acompanham. Por pudor, embaraço e medo, são muitas as pessoas que desistem de obter satisfação sexual, acomodando-se a uma vida de casal sem intimidade física. Para agravar a situação, do outro lado pode estar uma mulher que iniciou o penoso estádio da menopausa e que, em função dos sintomas associados, também se retrai.

As investigações recentemente realizadas com sobreviventes do cancro da próstata e seus cônjuges mostram que é possível melhorar significativamente a satisfação sexual em cerca de um ano.

A terapia conjugal mostra-se assim eficaz no aumento do desejo sexual feminino, no tratamento da disfunção eréctil e, principalmente, no aumento do prazer destes casais. Além disso, estes estudos mostram a pertinência da intervenção terapêutica online - através de ferramentas de comunicação como o Skype - e não apenas da terapia presencial. Para algumas destas pessoas é mais confortável aceder à terapia sexual por videoconferência, na medida em que conseguem desprender-se mais facilmente da vergonha associada a esta exposição. Surpreendentemente, as melhorias são claras e sólidas quer quando há terapia de casal convencional, quer quando há terapia através da Internet. Ao fim de aproximadamente um ano os membros do casal relatam maior satisfação sexual, intimidade emocional e bem-estar geral.

31.3.11

CANCRO: IMPACTO NA SAÚDE DOS CÔNJUGES

Apesar dos progressos na investigação e da tendência para a cronicidade, o diagnóstico de cancro continua a assustar os doentes e as suas famílias. Independentemente de a descoberta da doença ocorrer numa fase inicial ou numa fase terminal, os cuidados inerentes são por norma intensivos e os tratamentos são agressivos, pelo que é expectável que os familiares mais próximos, e em particular os cônjuges, se sintam muito ansiosos.

Uma enfermeira oncológica sueca estudou o impacto do cancro na saúde física e psicológica dos cônjuges e verificou que no primeiro ano depois do diagnóstico estas pessoas adoecem mais 25 por cento do que o resto da população. Da investigação fizeram parte cônjuges de doentes com cancro colo-rectal, cancro do pulmão, cancro da mama e cancro da próstata.

Não é novidade para ninguém que ter um familiar com cancro acarreta muita preocupação, níveis elevados de ansiedade e a sobrecarga de trabalho – todas estas alterações acabam por exercer pressão sobre a saúde destes cônjuges, sendo a depressão a doença que mais os atinge. No entanto, também a saúde física pode ser afectada, já que neste estudo houve, dentre os cônjuges de doentes oncológicos, um aumento significativo das doenças cardiovasculares, doenças músculo-esqueléticas e doenças abdominais. O aumento mais significativo foi na doença cardiovascular entre cônjuges de pessoas com cancro de pulmão, que aumentou quase 50 por cento.

O estudo também mostrou que, em função do adoecimento, os cônjuges de pessoas com cancro faltaram mais vezes ao trabalho. Dentre os cônjuges de doentes com cancro de pulmão o aumento foi de 70 por cento.

11.11.10

CANCRO, ANSIEDADE E DEPRESSÃO

A palavra assusta. Tememo-la, tememos proferi-la, quase como se a verbalização pudesse atrair os piores cenários. Mas o cancro anda nas bocas do mundo. Mesmo para aqueles que nunca conviveram de perto com a oncologia, é fácil identificar um familiar ou conhecido que esteja ou tenha estado a lutar contra uma das formas da doença. Felizmente, o cancro já não é sinónimo de morte e as intervenções clínicas alimentam cada vez mais a esperança dos doentes e suas famílias. Mas continua a ser uma doença que amedronta, que abate, que deprime. Como já tenho referido aqui, e ao contrário do que algumas pessoas suporão, nem todos os pacientes oncológicos encaram a doença com abatimento e prostração. Nem todos se deprimem com o diagnóstico. Alguns mostram até uma força invulgar. Outros são surpreendentemente optimistas.

Há algum tempo que nos habituámos a ouvir que
a atitude do doente é um factor importante no sucesso do tratamento e que, pelo contrário, a depressão agudiza o sofrimento e potencia a força do "bicho". Mas nem todas as pessoas se referem a estas questões de modo fundamentado. Falam em optimismo como se este fosse meio caminho para a cura, o que também implica riscos, nomeadamente ao nível da comunicação e da capacidade para empatizar com o sofrimento dos doentes.
Sendo uma doença que está quase sempre associada à dor física e a tratamentos agressivos
(70 por cento dos doentes que morrem de cancro experimentam dores que não passam com medicação), é natural que muitos se tornem vulneráveis a transtornos depressivos e ansiosos. E é aqui que a intervenção psicológica se torna imprescindível. É que a depressão e a ansiedade comprometem o sucesso do tratamento.

Cerca de 25 por cento dos doentes oncológicos desenvolvem um transtorno ansioso, sendo que 3 por cento sofre de perturbação pós stress traumático. Muitos pacientes desenvolvem fobias (como a fobia às agulhas), ataques de pânico e ansiedade antecipatória e estas situações clínicas podem escalar muito rapidamente, comprometendo o próprio tratamento, já que alguns destes doentes são incapazes de sair de casa (em função dos elevados níveis de ansiedade).

Também a depressão condiciona negativamente a capacidade de resposta destes doentes e influencia o rumo do tratamento. Uma investigação recente com doentes com cancro nos intestinos mostrou que a depressão diminui as hipóteses de sobrevivência destes pacientes. As pessoas que não desenvolvem transtornos depressivos estão mais aptas a procurar informação sobre o diagnóstico oncológico, ouvem segundas opiniões, analisam diferentes planos terapêuticos e cuidam-se melhor do que os doentes deprimidos. Em suma, a depressão contribui para que o paciente oncológico sinta que não tem qualquer controlo sobre a doença. Curiosamente, este estudo também mostrou que não existe qualquer correlação entre o pensamento optimista e a taxa de sobrevivência, isto é, acreditar simplesmente que tudo vai dar certo não tem influência no sucesso do tratamento.

Por tudo isto, parece evidente que os profissionais de saúde que acompanham estes doentes devem atentar à avaliação rigorosa do seu estado emocional, realizando o encaminhando devido para consultas de saúde mental. O tratamento ajustado dos transtornos depressivos e ansiosos potenciará o sucesso na batalha contra o cancro.
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