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27.9.11

RELAÇÃO SEM SEXO

Numa relação amorosa entre adultos espera-se que haja intimidade sexual e, independentemente das flutuações em termos de frequência da actividade sexual ou da própria satisfação sexual, são raras as relações que perdurem sem que haja intimidade sexual. Em contexto terapêutico surgem vários casos de pessoas que, estando juntas num compromisso sério (às vezes casamentos de décadas), vivem silenciosamente sem sexo. Não se trata de opções que traduzam um modo de vida mas antes de situações mais ou menos complexas em que pelo menos um dos membros do casal precisa de intervenção médica/ psicológica.

Uma das causas mais frequentes para os pedidos de ajuda clínica é o vaginismo, que é uma perturbação com origem emocional que leva a que a mulher não tolere a penetração vaginal. As dores são reais e, embora resultem da contracção involuntária dos músculos da vagina, têm origem em problemas emocionais, já que o próprio diagnóstico depende da realização prévia de exames ginecológicos para despiste de qualquer problema físico. Como já tive oportunidade de referir aqui, o vaginismo atinge muitos casais, que sofrem em silêncio, apesar de se tratar de uma condição tratável num período relativamente curto.

Outra das queixas frequentes está relacionada com a diminuição progressiva do desejo sexual - na maior parte das vezes o pedido de ajuda surge quando o casal já atingiu a inexistência de qualquer intimidade sexual há algum tempo. Embora sejam muito mais frequentes os pedidos de ajuda que apontam para o desejo sexual hipoactivo feminino, há alguns casos em que é o marido que assume que não sente vontade de ter relações sexuais com a mulher, ainda que continue a considerá-la fisicamente atraente.

Como tenho escrito em tantos outros posts, a satisfação sexual tem uma fortíssima influência da conexão emocional, pelo que, quando há dificuldades sérias no relacionamento, que quase sempre se traduzem em mágoas mas que nem sempre implicam discussões abertas sobre o problema, estas podem generalizar-se à sexualidade. Quando às mágoas, inseguranças e ressentimentos se juntam dificuldades de comunicação, é possível que o problema se arraste ao longo de décadas.

Ao meu consultório já chegaram pedidos de ajuda de casais que, estando juntos há vários anos, nunca se sentiram satisfeitos do ponto de vista sexual. Por que se mantiveram juntos? Na maior parte das vezes porque escolheram olhar para as outras fatias do "bolo", centrando-se na cumplicidade e no companheirismo e permitindo que o lado romântico da relação se desvanecesse. Noutros casos, não foi propriamente o companheirismo que os manteve juntos, mas a vontade de manter a família unida em nome dos filhos. Claro que, nestas situações, a saída de casa do filho mais novo pode trazer à tona dificuldades antigas que não podem continuar a ser ignoradas.

E há ainda os casos de pessoas que, estando unidas num compromisso sério nunca foram capazes de conversar abertamente sobre as necessidades afectivas de cada uma e que permitiram que a passagem do tempo alimentasse a distância entre duas pessoas que, de repente, se sentem como se fossem dois estranhos.

Para além das dificuldades de base fisiológica, e a que muitas pessoas não dão resposta porque se sentem envergonhadas de expor um problema íntimo ao seu médico, existem muitas situações com origem emocional que podem e devem ser resolvidas em sede de terapia. Porque ninguém merece sofrer sozinho. Porque ninguém deve acomodar-se à insatisfação sexual, mesmo que nunca tenha sentido prazer.
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