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7.9.11

SOLIDÃO NO CASAMENTO

O título do texto até pode ser paradoxal mas estou certa de que a maior parte dos leitores sabe a que me refiro. A reflexão que hoje proponho é fruto de um denominador comum a muitos pedidos de ajuda em terapia de casal e é, sobretudo, um dos motivos por detrás de tantas separações.

Quando escolhemos alguém para partilhar a vida connosco ambicionamos reconhecer naquela pessoa a vontade de construir um projecto sólido, que dê ainda maior sentido à vida e que permita que haja um sentimento de pertença. De resto, nas relações felizes e duradouras os membros do casal tendem a revelar níveis mais elevados de bem-estar físico (e não apenas emocional), como se o casamento ou a união funcionasse como uma injecção que melhora o sistema imunitário. A Biologia anda de mãos dadas com a Psicologia na explicação das nossas escolhas afectivas, em particular na explicação do que está por detrás do amor romântico.

Claro que a formação de um casal também está fortemente associada à necessidade de constituir família, ter filhos. Mas a verdade é que precisamos do tal sentimento de pertença para que o casamento ou a união se prolongue no tempo. Como se sabe, o número de divórcios é cada vez maior, apesar dos esforços que a maior parte dos progenitores fazem para evitar que os filhos sejam expostos à separação dos pais.

Vivemos cada vez mais e, também por isso, faz cada vez menos sentido a ideia de nos mantermos ao lado de alguém que não promova o "nós" ou que, apesar dos esforços, não está capaz de fazer com que nos sintamos efectivamente acompanhados.

Como referi antes, muitos dos pedidos de ajuda que recebo no consultório estão relacionados com níveis de mal-estar tão elevados que permitem que as pessoas se sintam sós, ainda que se mantenham casadas. Na maior parte destes casos as queixas até foram expostas ao longo do tempo - às vezes de forma assertiva, noutras de forma menos clara - mas, como os membros do casal não foram capazes de dar resposta a estas dificuldades, o distanciamento instalou-se e os conflitos deram lugar à desistência. Como a acomodação ao mal-estar não é sinónimo de adaptação e muito menos de satisfação, normalmente é só uma questão de tempo até que a "bomba" rebente. De um modo geral, são as mulheres que mais se queixam e também são elas que mais frequentemente "desistem" de continuar a tentar. Costumo dizer - meio a brincar - que o marido não deve ter medo de perder a mulher quando ela parece estar sempre a queixar-se; o problema torna-se muito mais perigoso, e às vezes irreversível, quando ela deixa de se queixar. Mas a verdade é que os homens também estão cada vez mais capazes de expressar as suas queixas, de chamar a atenção para as suas necessidades afectivas.

Quando um dos membros do casal desiste de se queixar e assume que se sente só, a crise é finalmente assumida de forma clara e alguma coisa tem mesmo de ser feita para evitar a ruptura.

Mas do que falamos quando falamos de queixas e necessidades por satisfazer? Não falamos com certeza de caprichos, exigências arrogantes ou tentativas de mudar a personalidade do cônjuge, moldando-o à nossa medida. O problema é que nem sempre estamos capazes de discernir sobre as necessidades legítimas e as exigências descabidas. Alguns casamentos terminam porque um dos membros do casal não foi capaz de resistir à frustração de ver algumas necessidades por preencher, isto é, porque uma das partes reivindicou do outro mudanças inexequíveis, acabando por sentir-se só. Outras relações acabam porque um dos membros do casal não foi capaz de se descentrar das suas próprias convicções e passou o tempo a rotular as necessidades do outro de caprichos sem importância.

Aparentemente manter uma relação duradoura pode parecer muito complicado. Afinal, estamos a falar da necessidade de adaptação e da ocorrência de cedências entre duas pessoas que são quase sempre diferentes e que se assumem muitas vezes como pessoas com "personalidade forte" :). Na prática, as uniões duradouras são feitas por pessoas que colocam o seu amor, o seu projecto familiar, no topo das suas prioridades e que o demonstram com regularidade. Estas pessoas não são santinhas nem estão sempre em sintonia. Mas reconhecem os sinais de alarme e fazem o que podem para garantir que o outro se sinta quase sempre amparado.
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