A PSICÓLOGA NO FACEBOOK     |     VÍDEOS     |     CONSULTÓRIO     |     PÁGINA INICIAL

10.10.11

MÁ RELAÇÃO COM OS SOGROS

Há três grandes factores que, de um modo geral, estão por detrás do desgaste continuado numa relação conjugal e que podem levar ao recurso à terapia conjugal: o dinheiro, o sexo, e a família de origem. Hoje escrevo sobre o impacto que a relação com a família de origem tem sobre a satisfação conjugal, reconhecendo no entanto que as dificuldades nesta área da vida a dois facilmente se generalizam às outras áreas quando o casal não é capaz de dar uma resposta eficaz aos problemas.

Não é por acaso que nos habituámos a ouvir histórias mais ou menos tenebrosas a respeito de dificuldades de relacionamento entre um dos membros do casal e a sogra. De um modo geral, estas pessoas queixam-se porque a sogra é metediça ou porque, aos seus olhos, tem uma influência excessiva sobre o cônjuge, limitando a liberdade conjugal. Mas de que falamos quando falamos de sogras metediças? De quem será a responsabilidade sobre esta forma de emaranhamento? E a quem compete repor a nitidez das fronteiras?

Antes de mais, importa clarificar que entre o jovem casal e as respectivas famílias de origem podem existir três tipos de fronteiras:

- Fronteiras nítidas - há abertura suficiente para que as duas partes se sintam apoiadas mas cada família é responsável pela aplicação de regras próprias. Os limites são claros e ninguém se sente excessivamente condicionado ou dependente. Há laços afectivos que são alimentados de várias formas.

- Fronteiras difusas - neste caso há sérias dificuldades em perceber onde começa e acaba o papel de cada um. É frequente que pelo menos um dos cônjuges sinta que a sua privacidade é constantemente invadida pela presença física ou pela influência dos sogros em tomadas de decisão que, aos seus olhos, deveriam competir apenas ao casal.

- Fronteiras rígidas - a existência de episódios emocionalmente negativos pode estar na origem desta situação, que leva a que existam laços formais entre o casal e as respectivas famílias de origem mas não exista proximidade suficiente para que as pessoas se sintam amparadas. Há uma aparente necessidade de centração na própria família nuclear (cônjuge e filhos) e uma tentativa de manter os sogros e o resto da família alargada longe de qualquer intimidade.

Sempre que duas pessoas se juntam para formar uma família enfrentam, entre outros desafios, a necessária adaptação à herança que cada uma traz em termos de hábitos familiares. Daqui resulta a necessidade de diálogo, negociação, tolerância e, claro, definição clara das regras e hábitos que nortearão aquele casal (e que não devem corresponder à "importação" dos hábitos e regras de um dos lados). Os primeiros anos de relacionamento podem incluir alguns braços-de-ferro ou lutas de poder que, mais cedo ou mais tarde, dão lugar a cedências e à interiorização de que, para que a nova família evolua, é preciso que ambos abram mão de algumas convicções.

Muitas vezes quando duas pessoas se apaixonam e desejam construir um projecto familiar sólido enfrentam diferenças abismais na forma como se relacionam com as famílias de origem. Porque há um que telefona todos os dias aos pais e/ou interrompe rituais a dois para atender telefonemas aparentemente sem importância que teimam em prolongar-se enquanto o outro acha mais normal e saudável que se telefone uma vez por semana para matar saudades e mandar beijinhos. Porque há um que considera aceitável que os seus pais os ajudem financeiramente ainda que isso implique que se sintam no direito de opinar sobre o que (não) deve ser comprado lá para casa enquanto o outro se sente ultrajado com a ideia de dar satisfações aos sogros sobre a gestão financeira da família. Porque para um faz sentido que os pais possam ter a chave de casa e "visitá-los" sempre que quiserem, sobretudo porque isso implica uma ajuda importante com as tarefas domésticas e os cuidados com as crianças enquanto o outro se sente sufocado dentro da própria casa.

Se é verdade que as regras de uma família devem ser co-construídas pelos membros do casal, também é certo que, quando as coisas não funcionam e as discussões sobre o tema tomam conta do quotidiano familiar é tempo de recorrer à ajuda da terapia familiar para repor a harmonia (e, claro, as fronteiras). E a reposição dos limites começa no comportamento dos filhos – não é à nora ou ao genro que compete impor novas regras aos respectivos sogros, agudizando as dificuldades na relação. É aos filhos que compete traçar fronteiras claras de modo a garantir a sobrevivência da sua própria família.

Nem sempre é fácil reconhecer os sinais de emaranhamento e muito menos ser solidário para com as queixas do cônjuge. Mas só se os problemas forem identificados e as necessidades de cada um forem consideradas é possível avançar para as mudanças que promovam o bem-estar de toda a família. Muitas vezes um dos membros do casal vive com medo de magoar os próprios pais e, por isso, protela decisões importantes. Mas o preço a pagar pode ser o fracasso do próprio projecto familiar.

Sendo muitas vezes difícil repor os limites saudáveis, não é impossível. Sobretudo porque não é de distanciamento afectivo que falamos, mas do estabelecimento de regras que facilitem a exteriorização dos afectos. Porque a união familiar não equivale ao emaranhamento dos papéis. Porque quem ama respeita o espaço do outro. E porque os pais têm de viver as suas vidas em vez de tentarem viver através das vidas dos filhos.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...