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13.6.12

QUANDO O DIVÓRCIO É A MELHOR OPÇÃO… PARA AS CRIANÇAS



(Na sequência do texto anterior…)

A minha experiência enquanto psicóloga e terapeuta familiar tem-me permitido conhecer muitas famílias em crise. Como já referi, as crianças são particularmente sensíveis ao estado emocional dos adultos e, não raras vezes, apercebem-se do distanciamento entre os progenitores, guardando segredo a respeito de um assunto que percebem que é delicado. Quando um pai ou uma mãe pede a minha ajuda porque, apesar de já não se sentir ligado ao respetivo cônjuge, não está a ser capaz de ir para a frente com o divórcio, preocupo-me imediatamente em questioná-lo(a) sobre os riscos de os filhos estarem a par das dificuldades. Na maioria dos casos sou confrontada com respostas do tipo “Tenho quase a certeza de que as crianças ainda não se aperceberam de nada”, no entanto, com a passagem do tempo são muitas vezes claros os indícios de que as crianças não só conhecem as dificuldades como estarão a sofrer SOZINHAS.

Se inicialmente o progenitor aflito está demasiado centrado em pensamentos automáticos negativos do tipo “Vou destruir a minha família” ou “Os meus filhos vão ficar marcados para sempre”, podem ser precisas algumas sessões terapêuticas para que a desconstrução destas crenças irracionais dê lugar a uma maior atenção sobre o comportamento das crianças. E desta vigilância resultam observações importantes como quando um pai se apercebe de que um dos filhos está aparentemente mais carente, mais dependente, evidenciando até alguns retrocessos, como acontece, por exemplo, quando a criança deixa de conseguir adormecer sozinha. Ou quando uma mãe se apercebe de uma conversa entre o filho e um coleguinha de escola em que a criança deixa escapar uma verbalização do tipo “Se calhar, eu vou mudar de casa…”. Às vezes é preciso juntar algumas “peças” para que o “puzzle” fique completo.

Infelizmente, também existem casos em que só quando a criança evidencia alterações sérias de comportamento é que os progenitores despertam para a dura realidade. A questão é que sempre que os pais adiam uma separação em nome do bem-estar dos filhos correm o risco de permitir que, com a passagem do tempo, a relação se deteriore de forma dramática e, nessas situações, é praticamente impossível que os filhos não se apercebam de nada. Quando os filhos “escolhem” ficar calados, fazem-no para proteger os adultos, o que implica que tenham de gerir SOZINHOS o fantasma da separação dos pais. Se atendermos ao facto de que, para as crianças, o que é realmente dramático não é a separação mas um conjunto de perguntas que, neste caso, ficam sem resposta, estão reunidas as condições para que os filhos atravessem um período marcado por níveis de ansiedade elevadíssimos.

A este propósito recordo-me de uma criança que tive oportunidade de acompanhar e que, em função de um quadro familiar de rutura, desenvolveu alguns comportamentos de natureza obsessiva-compulsiva. Apesar de o pedido de ajuda dos pais ter surgido em resposta a estes comportamentos, eles desapareceram logo depois de os pais anunciarem a separação. Neste caso, como em tantos outros a que tenho acedido, os problemas multiplicam-se quando, em função na incapacidade dos adultos para tomarem decisões, as crianças são empurradas para uma ruminação sem fim a propósito do que lhes vai acontecer depois do divórcio.

As crianças sofrem com a separação dos pais. Nenhuma criança deseja essa rutura. Mas, de um modo geral, os filhos adaptam-se relativamente bem (e depressa) às rotinas pós-divórcio. Aquilo que pode ser verdadeiramente angustiante para eles são os fantasmas que teimam em crescer enquanto os adultos não tomam a iniciativa de conversar abertamente sobre o assunto. E se é verdade que, na maior parte dos casos, o pai e a mãe não têm grandes certezas de como é que a separação se vai processar, importa que os adultos interiorizem que está nas suas mãos confortar as crianças com respostas que contribuam para a sua segurança emocional. Por exemplo, uma das questões que, legitimamente, mais atormenta uma criança diz respeito à possibilidade de deixar de ver um dos progenitores. Ora, mesmo que os adultos ainda não saibam como é que vai ficar definida a regulação das responsabilidades parentais, podem, logo no início do processo de separação, ser claros e assegurar que as crianças continuarão a conviver regularmente com os dois progenitores.

É absolutamente louvável que um casal faça o que está ao seu alcance
para evitar que as crianças sejam expostas ao mundo violento dos adultos.
Mas não é, de todo, saudável, que, na fase de pré rutura se esquivem
a uma (ou mais) conversa(s) que podem ser duras, sim,
mas que trarão a tão desejada tranquilidade.
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