A PSICÓLOGA NO FACEBOOK     |     VÍDEOS     |     CONSULTÓRIO     |     PÁGINA INICIAL

4.9.12

INSEGURANÇA


Partilho hoje a entrevista que concedi ao portal 
MSN Saúde & Bem-Estar relativamente ao tema da  INSEGURANÇA.

O que é a insegurança? Como é que este sentimento se manifesta e o que o gera? 


A insegurança é um estado emocional que surge na sequência de uma situação que é percecionada como alarmante ou ameaçadora. Se a pessoa que é confrontada com esse estímulo considerar que os seus recursos ou as suas competências não são suficientes para gerir e/ou ultrapassar a situação, é expectável que se sinta insegura. Esta emoção pode manifestar-se sob a forma de níveis de ansiedade mais elevados, agitação psicomotora, permitindo que a pessoa se sinta enervada mas, ainda assim, suficientemente capaz de mobilizar recursos extra que lhe permitam ser bem-sucedida. Nesses casos, a insegurança tem um efeito protetor, na medida em que nos impede de cometer erros ou de correr riscos desnecessários. Por exemplo, quando um dos membros do casal sente que a sua relação não está segura, pode implementar algumas estratégias que, aos seus olhos, impliquem a solidificação do relacionamento, como a promoção do diálogo, saídas românticas ou até o recurso ao acompanhamento psicoterapêutico. Do mesmo modo, quando um trabalhador perceciona o seu lugar como estando em risco de despedimento, passará a buscar alternativas que lhe permitam evitar a situação de desemprego. Mas tanto num contexto como no outro a insegurança pode assumir um nível de intensidade superior, deixando de ter o tal efeito protetor. Quando a ansiedade sobe para níveis perigosos, a pessoa deixa de se sentir capaz de mobilizar recursos. Pelo contrário, o medo toma conta de si, sabotando o raciocínio. Nestes casos é provável que o pensamento seja dominado por crenças irracionais, que crescem em espiral e produzem um efeito bloqueador. A pessoa passa a viver em função daquilo que a deixa insegura sem que, no entanto, consiga encontrar soluções ajustadas. No primeiro exemplo este estado de ansiedade poderia traduzir-se num conjunto de comportamentos que têm tanto de desespero quanto de disparate, como começar a vasculhar o telemóvel do parceiro em busca de sinais de uma potencial relação extraconjugal, comentários agressivos e/ou controladores, etc. No exemplo seguinte poderia acontecer que a pessoa ficasse de tal forma deprimida que deixaria de investir quer no emprego atual quer na busca de nova colocação, permitindo que a insegurança tivesse o efeito bloqueador. 
  

Que indícios ou sinais são evidenciados por alguém que é inseguro? Como o podemos identificar? 

As pessoas mais inseguras vivem dominadas pelo medo e, em função disso, é-lhes normalmente mais difícil assumirem uma postura assertiva, isto é, têm seríssimas dificuldades em expressar de forma clara e honesta aquilo que pensam e aquilo que sentem. No seio de um grupo tanto podem esforçar-se por passar despercebidas como podem fazer esforços para agradar a toda a gente. Na prática sentem um medo intenso de falhar, de não corresponder às expetativas, de não estar à altura. Há pessoas muito seguras em termos profissionais e que se revelam mais inseguras em termos relacionais/ afetivos. Do mesmo modo, há pessoas que se sentem seguras e confortáveis no desempenho dos papeis ligados às relações afetivas mas que revelam inseguranças sérias noutras áreas da vida. Pode não ser fácil reconhecer as pessoas mais inseguras, sobretudo se a análise for superficial. De resto, as pessoas tímidas e inseguras são muitas vezes vistas como antipáticas e arrogantes – esse é o preço a pagar por não serem capazes de ultrapassar o medo da rejeição, por exemplo. Às vezes é mais fácil para uma pessoa insegura reconhecer outra que partilhe das mesmas inseguranças, na medida em que está mais sensibilizada e mais atenta a determinados pormenores que passarão ao lado da maioria. 

  
Será que nascemos inseguros ou é algo que surge enquanto crescemos? 

A nossa personalidade é em larga medida condicionada pelas nossas experiências logo desde a infância. Na medida em que uma criança for capaz de construir laços afetivos seguros com os adultos que a rodeiam, a probabilidade de se transformar num adulto autoconfiante aumenta. Mas, ainda assim, alguns acontecimentos traumáticos ou algumas relações afetivas adultas podem ser suficientemente impactantes de modo a abalar essa autoconfiança. Por exemplo, uma pessoa pode conseguir ser assertiva e emocionalmente inteligente durante o seu desenvolvimento e, chegada à idade adulta, viver uma ou duas experiências em que seja traída (pelo parceiro amoroso ou por amigos chegados) e ver a sua segurança fortemente abalada a partir daí. Claro que quanto mais forte for a nossa bagagem emocional, maior será a probabilidade de assumirmos uma postura resiliente nestas circunstâncias. Por outras palavras, há uma espécie de “poupanças”, que mais não são do que todos os laços afetivos que contribuíram para a estruturação da nossa personalidade, que podem ajudar-nos a ultrapassar mais rapidamente uma situação potencialmente traumática, permitindo que mais facilmente arregacemos as mangas e evitando que alimentemos sentimentos de insegurança. De resto, as pessoas com laços afetivos sólidos tendem a ser pessoas mais seguras. 

  
De que forma é que este sentimento pode prejudicar-nos? Como é que a insegurança afeta ou limita a nossa vida? 

Como referi antes, na medida em que a insegurança e a ansiedade tomarem conta da nossa vida podem tornar-se incapacitantes. Quando esta emoção toma conta de nós, passamos a sentir-nos incapazes e a viver em função de pensamentos negativos que pouco ou nada têm de razoável. 


Existem vantagens no sentimento de insegurança? Se sim, quais? 

Como referi antes, em determinadas “doses” a insegurança pode ser protetora, funcionando como um mecanismo de defesa que faz com que o nosso alarme interno soe e nos obrigue a atuar. A partir do momento em que se torna avassaladora, a insegurança não tem qualquer vantagem. 

  
Como podemos lidar e ultrapassar a insegurança? A que estratégias podemos recorrer? 

Antes de mais, importa que assumamos que dependemos dos laços sociais e afetivos, quer porque estes fomentam a nossa autoestima e a sensação de amparo, quer porque as interações sociais são a única via para que os nossos pensamentos mais irracionais possam ser interrompidos. À medida que o medo e a insegurança crescem, é expectável que também floresçam as ruminações, os pensamentos negativos que facilmente se transformam, aos nossos olhos, em fantasmas intransponíveis. A integração sólida numa rede social de suporte (real) é meio caminho para que alguns destes fantasmas sejam desconstruídos e possamos ver uma luz ao fundo do túnel, mesmo nos cenários mais catastróficos. 

Mas a nossa rede de suporte – os familiares, os colegas e os amigos – podem não ser suficientes para nos ajudar em momentos de crise profunda e/ou quando a nossa insegurança atinge um caráter de cronicidade. Na medida em que sentirmos que a nossa vida não evolui porque a insegurança não o permite é tempo de recorrer à ajuda psicoterapêutica no sentido de identificar a origem das vulnerabilidades e adquirir competências que permitam interromper os ciclos viciosos. 


Existe algum tipo de terapia ou tratamento que possa ser feito? Se sim, qual e no que consiste? Que aspectos são trabalhados? 

Em sede de terapia cada caso é único e especial. Não posso rotular uma pessoa de insegura e, a partir daí, aplicar um plano terapêutico estereotipado. Há, isso sim, alguns procedimentos em comum nestes casos e que passam quase sempre pela análise da história de vida de cada pessoa e respetiva identificação daquilo a que chamo os ciclos de vulnerabilidade, isto é, os padrões relacionais que fazem com que ciclicamente surjam os comportamentos desajustados. Depois é preciso investir no desenvolvimento de competências sociais, que inclui o treino de assertividade, isto é, são partilhadas ferramentas específicas, que a pessoa vai aplicando com tentativas e erros, experimentando comportamentos alternativos àqueles com que está familiarizada e, claro, obtendo também retorno diferente que alimente a vontade de continuar a mudar. 

  


Qual a solução para os seguintes cenários de insegurança: não consegue pedir o que quer, nem defender os seus desejos e necessidades; custa-lhe falar em público; as críticas paralisam-no; não se sente bem com o seu corpo; não sabe aceitar/lidar com elogios; a sua autoestima está em má forma; não sabe como exprimir a sua discordância; tem dificuldade em conhecer e socializar com pessoas novas; insegurança nas relações amorosas; após o nascimento do primeiro filho, alguns homens queixam-se de que as mulheres já não lhes dão atenção e só se preocupam com o bebé?


A maior parte destas situações têm um elemento em comum: a falta de assertividade, isto é, a tal capacidade para assumir de forma clara e honesta uma posição. Mas essa é, ou pode ser, apenas a ponta do icebergue. Sendo possível implementar um treino de assertividade que ajude a que a pessoa seja mais firme, assumindo aquilo que sente ou que pensa, é fundamental realizar uma análise mais profunda e identificar a origem de cada vulnerabilidade. Há feridas antigas que podem precisar de ser saradas e isso requer um caminho terapêutico específico para cada pessoa. 


Para além destas situações, quais são as inseguranças mais comuns e como podemos ultrapassá-las? (exemplos concretos) 

Os medos mais comuns estão relacionados com aquilo que são as nossas maiores necessidades. Precisamos de nos sentir seguros em termos afetivos, precisamos que gostem de nós, precisamos que nos valorizem (quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista profissional). Na medida em que alguma destas necessidades tardar em ser satisfeita, aumenta a probabilidade de alimentarmos ideias pouco razoáveis a respeito do que somos capazes, do que valemos ou do que os outros pensam a nosso respeito e passamos a comportar-nos dominados pelo medo. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...