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8.7.13

FACEBOOK PODE AGRAVAR A DEPRESSÃO

O Facebook faz cada vez mais parte do dia-a-dia de milhões de internautas e a sua utilização é quase sempre impactante – nuns casos pela positiva, noutros pela negativa. Ainda há pouco tempo escrevi aqui sobre algumas das potenciais vantagens desta rede social – até em termos terapêuticos. Hoje foco-me numa perspetiva diferente, resultante sobretudo da minha experiência clínica.

Que impacto pode ter o Facebook entre as pessoas que estejam deprimidas?

Trará sobretudo vantagens ou desvantagens?

Enquanto plataforma de comunicação, o Facebook tem o incomparável poder de nos colocar em linha direta com pessoas que não víamos há muito tempo - antigos colegas de escola, amigos que mudaram de país ou familiares a quem perdêramos o rasto. A maior rede social virtual do mundo tem contribuído, assim, para que algumas pessoas se sintam muito menos sós, menos desamparadas até. Nessa perspetiva, é, pelo menos teoricamente, um aliado contra o isolamento social e, portanto, contra a depressão. No entanto, essa vantagem pode dissipar-se se a pessoa já estiver deprimida. De resto, uma das queixas que oiço com frequência entre pacientes com depressão diz respeito ao facto de, aos seus olhos, o Facebook colocar a nu o facto de as outras pessoas serem quase sempre muito mais felizes.

Carolina tem 39 anos e tem enfrentado estados depressivos desde o início da vida adulta. Voltou a pedir ajuda há pouco tempo tendo-lhe sido diagnosticada uma depressão moderada. Uma das suas grandes fontes de angústia diz respeito ao facto de ainda não ter conseguido estabelecer uma relação conjugal estável, que lhe permitisse concretizar o sonho de ser mãe. Nos últimos tempos perdeu o interesse pela maior parte das atividades que, antes, lhe davam algum prazer, isolou-se dos amigos e tem tido dificuldade em concentrar-se no trabalho. Passa muito tempo no Facebook, teoricamente porque isso a distrai. Ali encontra partilhas de amigos – reais e virtuais – que dão conta de que ficaram noivos, tiveram filhos ou fizeram viagens de sonho. Carolina queixa-se, angustiada: “Toda a gente está feliz, menos eu!”.

Uma das potenciais consequências da depressão, para além do pessimismo generalizado, é a constante comparação com os outros, baseada quase sempre em visões distorcidas e superficiais da realidade. Para o paciente deprimido é fácil olhar em redor e chegar à conclusão que os outros estão todos muito bem e que ele(a) é a única pessoa deprimida. Isto atrai pensamentos negativos como “O que é que há de errado comigo?” ou “Porque é que estas coisas nunca acontecem comigo?”.

Quando vemos uma família a passear serenamente no parque ou no centro comercial, é impossível conhecer as suas angústias ou preocupações. Aquilo que vemos é a imagem de uma família feliz, o que nem sempre corresponde à realidade. O Facebook acaba por amplificar esta visão distorcida da vida das outras pessoas, já que é muito raro alguém colocar online as suas dificuldades de relacionamento.

Salvo raras exceções,

quando visitamos os perfis dos nossos amigos,

aquilo que encontramos são fragmentos de momentos felizes.

Se é verdade que a maior parte das pessoas acaba por ter a consciência de que a informação que é partilhada no Facebook corresponde apenas a uma pequena e colorida parte da vida de cada um, também é certo que esse discernimento pode estar comprometido quando se está deprimido.

Uma pessoa deprimida que não esteja a ser clinicamente acompanhada pode acumular pensamentos negativos baseados em comparações constantes entre a sua vida e aquilo que é partilhado nas redes sociais, acabando por sentir-se progressivamente (ainda) mais em baixo.

Quer isto dizer que o Facebook é uma ameaça para todas as pessoas com depressão?

Definitivamente, não.


O Facebook tem, insisto, muitas vantagens (mesmo para quem está deprimido). Mas é preciso ter consciência dos potenciais efeitos negativos.
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