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9.10.13

PERFECIONISMO

Telefonou-me para marcar consulta depois de (mais) uma crise de ansiedade. Tem pouco mais de 30 anos e, segundo me conta, há mais de uma década que luta contra episódios depressivos e ansiosos. Paradoxalmente, quase ninguém à sua volta lhe apontaria qualquer vulnerabilidade. À exceção dos pais e da namorada, todos o veem como um homem confiante e bem-sucedido. À primeira vista é um homem perfeito: tem um percurso académico notável, está no topo da carreira, é admirado pelo grupo de pares, está integrado em vários grupos onde é visto como sociável, pratica (muito) desporto e tem, em função disso, um físico invejável. Busca a excelência em tudo o que faz. E o problema está exatamente aí.

Quantas vezes ouvimos dizer que não há pessoas perfeitas? Quantas vezes nos adaptamos às falhas daqueles de quem gostamos precisamente por aceitarmos que a perfeição não existe? E quantas vezes desistimos de lutar por nos contentarmos com o que é satisfatório em vez de corrermos em busca da excelência?

Há pessoas que vivem profundamente angustiadas porque gerem a sua vida sistematicamente em esforço, dando literalmente o melhor de si no sentido de atingirem a perfeição. Ignoram os clichés que dizem que errar é humano e fazem tudo o que estiver ao seu alcance para serem as melhores. A melhor mãe. O melhor pai. O melhor profissional. O melhor desportista. O melhor amigo.

Não descansam.
Não se permitem falhar.

NUNCA.

Não dizem não àqueles de quem gostam. Não faltam. Não toleram outra nota académica que não seja o 20/20.

Mesmo que deem um passo no sentido de “arranjar tempo para descomprimir”, acabam enredadas em padrões de comportamento rígidos que geram ansiedade. Se um perfecionista decidir praticar natação, é capaz de treinar várias horas por dia todos os dias, dando o seu melhor no sentido de fazer “tempos” cada vez mais curtos, mesmo que isso comprometa as suas horas de sono. É por isso que estas pessoas se sentem permanentemente stressadas.

Uma análise mais superficial levar-nos-á ao engano: é fácil vê-las como pessoas seguras, habituadas ao sucesso. Na verdade, os elogios e os aplausos não são sentidos como reais gratificações. São, antes, o mínimo que esperam receber, sob pena de se sentirem profundamente frustradas. De resto, a antecipação de uma crítica menos favorável pode levá-las a desistir de assumirem uma determinada função.

De um modo geral, falamos de pessoas que são muito mais inseguras do que mostram. Temem que os outros possam fazer uma avaliação negativa a seu respeito, seja em que área da vida for. E sofrem tremendamente com isso.

Não há nada de errado em buscarmos a excelência. É na medida em que diariamente tentarmos fazer melhor, que o nosso desempenho e a nossa produtividade crescem. E isso é muito saudável. No entanto, a partir do momento em que uma pessoa se convença de que deve ser SEMPRE excelente, é provável que o seu bem-estar e a sua autoestima fiquem seriamente comprometidos. Então, ainda que aos olhos dos outros seja perfeita, é quase certo que aquela pessoa se sentirá infeliz. Ao meu gabinete estes casos chegam muitas vezes sob a forma de perturbações do comportamento alimentar, crises de pânico, medo de conduzir, e outros transtornos depressivos e ansiosos.


Há um efeito profundamente libertador na aceitação das nossas imperfeições. Quando um perfecionista pede ajuda psicológica, está a dar início ao desafio de aprender a lidar com as próprias falhas. Isso implica conhecê-las, expô-las, aceitá-las e dar oportunidade aos que o rodeiam para as aceitarem também. É como se uma mochila muito pesada saísse dos seus ombros abrindo espaço à construção de laços afetivos mais profundos e, consequentemente, à elevação do bem-estar e da autoestima. 
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