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24.10.13

QUANDO UM DOS MEMBROS DO CASAL QUER QUE O OUTRO MUDE


Se excluirmos aquilo que se sente no início de qualquer namoro, creio que é ajustado dizer que praticamente todas as pessoas gostariam que o parceiro mudasse alguma coisa. Algumas pessoas gostariam que o cônjuge emagrecesse, outras preferiam que a pessoa que têm ao seu lado fosse mais ambiciosa e voltasse a estudar, outras adorariam que o companheiro fosse mais romântico e por aí fora. Sabendo de antemão que É IMPOSSÍVEL MUDAR O OUTRO, o que é que é legítimo reivindicar? Isto é, o que é que uma pessoa pode ou deve pedir que a outra mude? E até onde devemos mudar para agradar ao cônjuge? Quais são as fronteiras que separam o saudável do exagerado?
                           
A maior parte das pessoas gostariam de estar numa relação em que pudessem sentir-se aceites TAL COMO SÃO. Isso implica encontrar alguém que conheça os seus defeitos e que escolha conviver com eles como uma “parte do pacote”. Mas também implica que a própria pessoa esteja disposta a fazer o mesmo, o que, pelo menos numa fase inicial, é sentido como justo.

Claro que à medida que o tempo passa e a efusividade do início da relação se desvanece, há defeitos que sobressaem mais do que outros e os níveis de tolerância podem começar a diminuir. E então, mesmo que inicialmente uma pessoa tenha achado graça à desarrumação do outro (“Oh! Que querido, preferiu deixar a loiça por lavar só para que ficássemos mais um bocado a namorar, agarradinhos.”), com a passagem do tempo chegam quase sempre as queixas, as acusações e o desejo de mudança (“Pensas que sou tua escrava?!”). Na maior parte dos casos, os membros do casal acabam por reconhecer que uma relação conjugal é muito mais satisfatória precisamente na medida em que seja dinâmica e desafiante, pelo que, com mais ou menos berros, com mais ou menos braços-de-ferro, a generalidade das pessoas acaba por mudar, fazendo cedências em nome de um bem maior (o projeto familiar que abraçaram).

Às vezes as mudanças resultam da pressão do cônjuge mas acabam por ser, a médio e longo prazo, vantajosas para o próprio. E nessas situações a pessoa acaba por sentir-se grata (“Se não fosse o meu marido, eu jamais teria tirado um curso superior”; “Foi graças à insistência da minha mulher que perdi 20 kg”). Nestes casos, a união sai fortalecida e os membros do casal sentem-se evidentemente mais satisfeitos. Mas não nos iludamos: mesmo quando as mudanças que desejamos observar no comportamento do cônjuge implicam vantagens para ele/a, é a pensar em nós que expressamos essa vontade. Há algo de egoísta em desejar que o outro seja mais magro, mais saudável, mais arrumado ou mais ambicioso. Mas isso não é necessariamente mau.

Quando uma pessoa assume que gostaria que o companheiro implementasse algumas mudanças está a dar-lhe a oportunidade de aumentar os níveis de satisfação conjugal. Claro que isso só é possível se a outra pessoa estiver de acordo e for capaz de mudar, sem que isso implique que se sinta intimidada.

Em terapia (individual e de casal) confronto-me muitas vezes com o lado mais negro deste assunto, isto é, com as situações em que uma das pessoas está a tentar mudar a essência da outra, ignorando (e muitas vezes desrespeitando) a sua vontade. É lógico que não há nada de saudável em ser-se obeso e é legítimo que uma pessoa se preocupe com a saúde do cônjuge nessas circunstâncias. Mas se você tiver casado com uma pessoa cheiinha, pode ser pouco inteligente querer impor-lhe hábitos de vida que a transformem num(a) top model. Do mesmo modo, é consensual que o investimento nos estudos constitui uma ferramenta muito importante para quem queira construir um percurso profissional ambicioso. Mas a pessoa que está ao nosso lado tem o direito de fazer opções que não passem, sequer, por atribuir um grande peso à carreira ou aos rendimentos que daí resultem. E, na medida em que tenha sido sempre honesta, tão pouco faz sentido que seja criticada por isso.

Quando alguém se dá conta de que possa estar a tentar mudar o respetivo companheiro à medida dos seus desejos, deve ser capaz de parar para reavaliar os seus próprios sentimentos. Será que gosta o suficiente daquela pessoa? Gosta ao ponto de a aceitar tal como ela é? Ou acha que a relação pode acabar se não houver mudanças?

Por outro lado, se uma pessoa se sentir pressionada a mudar, deve ser capaz de avaliar os benefícios da mudança, bem como os custos associados. Aquilo que está a ser pedido é viável/ razoável? Implica ir contra a sua própria natureza?


Aquilo que NÃO faz sentido é que a insatisfação de um dê azo a um clima de pressão ao ponto de o cônjuge atuar dominado pelo medo. 
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