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23.4.14

NÃO SE ENTREGUE TANTO


Há quem diga que alguns médicos são frios. Lidam com situações clínicas graves sem mostrar um pingo de emoção. Não é que sejam brutos ou agressivos. São “secos”. Não se ligam, não mostram – pelo menos de forma clara – qualquer preocupação ou compaixão. Mas o que seria de um médico que tomasse para si as dores de todos os seus pacientes? O que seria de um oncologista, por exemplo, se se conectasse a todas as pessoas a quem tenha de dar más notícias? Será que resistiria a um só dia de trabalho? O mais provável é que não aguentasse e sucumbisse a tanta emoção negativa.

Há um limite de dor e tristeza para cada um de nós e, por mais voltas que se dê ao assunto, é fundamental que cada pessoa se conheça a si mesma ao ponto de ser capaz de se defender. Porque quando a própria pessoa desconhece os seus limites e assume uma postura de entrega total arrisca-se a sucumbir às dores dos outros, a sentir-se esgotada e incapaz de ajudar quem quer que seja – incluindo a si mesma.

São muitas as vezes em que me deparo com quem quer continuar a ajudar um membro da família, um namorado ou um amigo e não consegue reconhecer que não está capaz. Ou que já não está capaz. A pessoa convence-se de que tem a obrigação de ajudar. Acredita que é esse o seu papel – enquanto pai, filho ou melhor amigo – e ignora aquilo que para mim é óbvio: só se pode ajudar se se tiver condições para tal. Se o problema da outra pessoa for de tal modo esgotante que permita que quem ajuda se sinta a afundar, o mais provável é que, em vez de uma, mais cedo ou mais tarde haja duas pessoas a precisar de ajuda.


Não há nada de egoísta em dizer não nestas circunstâncias. “Não consigo”. “Não estou capaz”. Não é “Não quero”. Ignorar as suas próprias necessidades, as suas próprias emoções, os seus limites não é uma escolha inteligente nem protetora das suas relações afetivas. Entregar-se aos problemas das pessoas de quem gosta ao ponto de fazer mal a si mesmo não dignifica ninguém. 
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