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19.4.18

O PERFIL DE QUEM TRAI


Será que é possível traçar o perfil de quem trai? Haverá características de personalidade que nos tornem mais propensos para a infidelidade? Fará sentido acreditar em quem jura que jamais seria capaz de cometer uma traição?


Enquanto terapeuta conjugal, trabalho todos os dias com a infidelidade. E, mesmo quando alguém me procura para terapia individual não são raras as vezes em que as dificuldades por detrás do pedido de ajuda estão relacionadas com as marcas da traição e com o medo de que volte a acontecer. Perguntam-me muitas vezes se é possível “prever” a infidelidade, se há sinais que estejam sempre “lá” e se as pessoas que traem têm características comuns.

VÁRIOS “TIPOS” DE INFIDELIDADE


Já escrevi aqui algumas vezes sobre o facto de existirem várias formas de infidelidade. Não me refiro apenas à infidelidade física e à infidelidade emocional. Refiro-me, sobretudo, ao que está por detrás do comportamento, àquilo que pode aumentar a probabilidade de alguém ser ou não infiel. A minha experiência clínica tem mostrado que as traições não são todas iguais. Há pessoas que traem sobretudo em busca de novos parceiros sexuais – sem que isso implique qualquer tipo de adição sexual. Há quem traia para acabar uma relação – por não saber lidar com as dificuldades e muito menos com a tristeza do companheiro. Há quem traia porque sempre viveu em função dos outros e, a determinada altura, decide pensar nas suas próprias emoções. Há quem traia para fugir aos conflitos. Há quem traia vezes sem conta, há quem seja infiel com a mesma pessoa durante anos, há quem seja infiel apenas numa noite e há quem seja surpreendido pela própria traição (por não a ter desejado nem planeado).

Em função de todas estas variáveis, é fácil calcular que o caráter, os valores e o sofrimento de quem trai não sejam sempre os mesmos. É verdade que tenho conhecido algumas pessoas que revelaram ter pouco ou nenhum caráter. São pessoas demasiado centradas em si mesmas, incapazes de sentir e mostrar genuína empatia pelo sofrimento da pessoa traída e que, por razões óbvias, uma maneira geral, vão voltar a trair. Mas são a minoria.



NÃO APONTE JÁ O DEDO.
VOCÊ PODE SER O PRÓXIMO A TRAIR


Sim, a infidelidade é uma escolha e, não me canso de dizer, é uma escolha que não dignifica ninguém. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso consegue compreender que uma traição é a violação de um compromisso – do compromisso que, para a maioria das pessoas, é o mais importante na vida – e que acarreta quase sempre marcas brutais. De uma maneira geral, não é fácil ultrapassar a quebra de confiança que resulta de uma traição. Não é só a dificuldade de voltar a confiar naquela pessoa.


Em muitos casos, esta surpresa envenenada
abala a autoestima, traz vulnerabilidades
que não existiam e implica o medo de voltar
a confiar. Seja em quem for.



A maior parte das pessoas que traíram e que me pediram ajuda em terapia conjugal sentem-se genuinamente arrependidas e envergonhadas. Em muitos casos, falamos de pessoas que juravam que não seriam capazes de trair e que acreditavam naquilo que estavam a dizer. Mais: algumas destas pessoas assumem que apontaram o dedo a outros “traidores”, sem saber que um dia estariam naquela posição.

O que as levou a desviarem-se dos seus valores? O que é que as impediu de viverem de acordo com os princípios que sempre defenderam?

Não quero de maneira nenhuma passar a ideia de que a traição é fruto do acaso ou uma espécie de “cegueira” que desresponsabiliza quem a pratique. Repito: a infidelidade é uma escolha. Vamos sempre a tempo de travar aquilo que possa transformar-se numa ameaça à nossa relação e, sobretudo, numa ameaça aos nossos próprios valores. Mas não é sempre fácil.



A maior parte das pessoas que tenho conhecido não têm a intenção de trair mas também não estão muito conscientes das suas necessidades afetivas. Aparentemente estão felizes na relação que mantêm mas vivem em piloto automático, pouco atentas àquilo que as faz sentirem-se vivas. Tenho a certeza de que também já o escrevi aqui: as pessoas que traem referem-se muitas vezes ao facto de a terceira pessoa as ter feito sentirem-se “vivas”.

É como se a relação extraconjugal funcionasse como uma gigantesca chamada de atenção para o adormecimento em que se encontravam. Como acontece quase sempre quando nos apaixonamos, o cérebro entra numa espécie de “demência temporária”, que é responsável pelos nossos comportamentos mais impulsivos, menos ponderados. É também por isso que estas pessoas se desviam dos valores em que sempre acreditaram. De repente, veem-se muito mais envolvidas do que alguma vez julgaram poder estar – pelo menos, desde que assumiram um compromisso.

AMAR DE OLHOS ABERTOS


Viver de forma mais consciente requer disciplina. Estamos muito habituados à correria, às rotinas e ao piloto automático e nem sempre estamos dispostos a parar “só” para prestar atenção aos nossos sentimentos, àquilo que nos faz sentir genuinamente felizes, àquilo que pode fazer com que nos sintamos mais vivos.

Ninguém precisa de parar uma vez por semana para uma conversa profunda em jeito de avaliação conjugal. Mas qualquer pessoa pode “ir parando” o piloto automático para perguntar «Como é que eu me sinto?», «O que é que me incomoda?», «Que sonhos tenho?», «Que novidades gostaria de experimentar?». De uma maneira geral, quando somos capazes de partilhar aquilo que mexe connosco com o nosso companheiro – quer as nossas vulnerabilidades, quer aquilo que nos entusiasma – e quando somos capazes de dar MESMO importância ao que mexe com a pessoa de quem gostamos, a relação torna-se mais coesa e entusiasmante.
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