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19.8.10

HOMENS COM COMPLEXO DE PETER PAN

Não sendo eu acérrima defensora da estereotipagem de género, é óbvio que reconheço algumas diferenças entre homens e mulheres. Estas diferenças são parcialmente explicadas pela forma como rapazes e raparigas são educados e podem generalizar-se ao compromisso numa relação conjugal. Embora assistamos a mudanças significativas de geração para geração, os rapazes continuam a ser educados no sentido da autonomia e da liberdade e as raparigas continuam a ser educadas no sentido do compromisso. A título de exemplo, é frequente ouvir-se perguntar a um menino “Quantas namoradas tens?”, mas o mesmo não acontece tão regularmente em relação às meninas. E ainda que o casamento viva hoje sob o primado do amor romântico, confronto-me muitas vezes com casais que me pedem ajuda em função da dificuldade de comprometimento do marido.

Alguns homens (e mulheres) assumem compromissos na idade adulta que pura e simplesmente não são capazes de manter. Casam, têm filhos e a determinada altura colocam em prática comportamentos mais condizentes com a fase em que eram solteiros e descomprometidos. Não me refiro naturalmente às saídas com amigos ou à diversão sem o cônjuge, que são absolutamente compatíveis com a vida familiar, desde que os membros do casal se organizem no sentido de ambos terem direito a esta fatia da sua individualidade. Refiro-me, isso sim, à generalização destes comportamentos, colocando nos ombros do cônjuge o fardo das responsabilidades.

Infelizmente, algumas mulheres deixam-se levar por um discurso manipulador em que elas são rotuladas de “chatas”, “conservadoras” ou até “incapazes de se divertir”. As suas queixas esbarram em palavras confusas como “Se não podemos ir os dois, porque o nosso filho está doente, porque havemos de ficar ambos em casa? Isso é egoísmo.” O problema está, obviamente, no desequilíbrio. É que a páginas tantas criam-se hábitos que são pouco ou nada saudáveis para a relação conjugal.

Viver a dois (ou com filhos) não deve ser visto como uma forma de aprisionamento, mas não faz sentido olhar para os processos de tomada de decisão como se se tratassem de operações aritméticas. Quando um filho adoece e o casal é convidado para uma festa, pode parecer egoísmo se a mulher quiser que o marido fique em casa. Mas será justo que o marido saia e que os cuidados fiquem a cargo da mulher? E aos olhos da criança – que mensagem passamos enquanto pais?

Alguns casais levam o ciclo vicioso do complexo de Peter Pan ao limite – ela trabalha fora de casa e assume as responsabilidades associadas às tarefas domésticas e aos cuidados das crianças, enquanto ele tem “tempo” para actividades lúdicas, desportivas e saídas com amigos. Estas mulheres queixam-se frequentemente do desamparo a que estão sujeitas e temem quase sempre que um ultimato as conduza à ruptura (“Se eu exigir maior equilíbrio, ele acaba tudo”). Como boa parte da sua energia é canalizada para os cuidados prestados às crianças, é relativamente fácil entrarem num poço sem fundo em que, independentemente da sobrecarga e do afastamento emocional em relação ao cônjuge, não admitem a possibilidade de separação porque isso implicaria dividir a guarda das crianças.

Estes adultos ignoram que a forma como vivemos em família é o principal modelo de afectos que transmitimos às crianças. Se queremos que os nossos filhos sejam adultos responsáveis, capazes de dar de si em termos afectivos, que sentido têm estas escolhas? Estaremos a dar o melhor de nós às nossas crianças quando as educamos desta forma? 
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