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13.10.11

O AMOR E O FACEBOOK NO JORNAL DE LEIRIA


Esta semana o JORNAL DE LEIRIA publica uma entrevista sobre O AMOR E O FACEBOOK.

Cláudia Morais: As mulheres são exímias em tapar buracos da infidelidade
A autora do livro O Amor e o Facebook, lançado recentemente, diz que o facebook criou mais oportunidades conjugais. No que toca à infidelidade, avança que só muito ligeiramente os homens traem mais. O que acontece é que as mulheres estão mais atentas a pormenores. Mas também diz que os laços afectivos são o que levamos deste mundo
Divórcio e infidelidade querem dizer que se fizeram escolhas erradas, precipitadas ou sobre a pressão da paixão?
Isso tem a ver com a desconexão. Quando começo a desligar-me da pessoa a quem estou unida, deixar de lhe dar atenção e de me sentir especial, deve conversar-se sobre o que está a acontecer. Porque quando a comunicação falha, a distância começa a ser progressivamente maior. As pessoas têm de estar familiarizadas com a necessidade de ceder para que ambos ganhem, para que a relação ganhe. Em certa medida alguém tem de perder e ora perco eu, ora perdes tu. Se não existirem estas competências, então a probabilidade de surgirem problemas é muito maior. Mas aqui voltamos aos comportamentos mais ou menos dignos. Ou seja, a relação até pode deteriorar-se mas eu vou escolher não ser infiel. A infidelidade, ainda que possa acontecer a qualquer pessoa, é uma escolha que não dignifica ninguém. Normalmente a pessoa que é infiel sente vergonha e embaraço.

Quando se fala em infidelidade pensa-se logo em sexo. Não há outras formas de ser-se infiel?
A parte mais difícil e mais cruel da infidelidade é a mentira, ainda que mais para as mulheres que para os homens. Os homens continuam, de facto, a atribuir maior importância à parte física da infidelidade. Alguns homens agarram-se, até, à hipótese da mulher não ter ido até à componente física, como se isso os deixasse mais tranquilos. Entramos aqui em questões de honra. Mas, a maior parte das vezes, é a mentira que deixa mais marcas porque está associada à dificuldade em voltar a confiar. E a confiança é uma das bases de uma relação segura. É o que procuramos num casamento, numa relação. Os laços afectivos são o que levamos desta vida. E precisamos, cada vez mais, de sentir que há alguém que está lá para nós. Agora com a crise, andamos todos à procura de estabilidade. Ainda que tenhamos que nos ajustar à mudança, a mudança não tem de ser má. A crise pode equivaler a uma oportunidade. É legítimo que queiramos sentir-nos seguros mas há muitas formas de isso acontecer. É só preciso explorá-las.

Por que diz que os casais que se conhecem nas redes sociais têm maior probabilidades de êxito?

Através das rede sociais, tendemos a revelarmos-nos mais facilmente. Como se nos despíssemos de máscaras e pudores, sem os filtros normais das relações presenciais. É óbvio que há relações que começam por via virtual e que não chegam sequer a transformar-se numa relação física e presencial. Mas na relação convencional, infelizmente, sou confrontada com casais juntos há vários anos e que, pura e simplesmente, não se conhecem. E sobre coisas tão simples como que tipo de música é que o outro gosta de ouvir, até às mais profundas como sejam os marcos na vida de cada um. Ora se eu não conheço as feridas emocionais da pessoa de quem gosto, a probabilidade das coisas darem certo é infinitamente menor.  Nas redes sociais, na internet, as pessoas adoptam aquela postura do “não tenho nada a perder. Não conheço a pessoa fisicamente e por isso vou contar. Se houver juízos de valor, fecho a janela e não volto a falar com ela e ponto final”.

Onde entram a química, o olhar e a tal empatia?
A química é obviamente importante. Há pessoas que criam uma empatia muito grande através da internet, sentem-se sintonizadas, em conexão, apaixonadas até, muito antes do encontro presencial. E, aquando desse encontro, verificam que não havia a tal química. Não por se tratar de alguém fisicamente desinteressante mas porque um encontro presencial é muito mais rico que uma conversa pelo computador. Grande parte da comunicação é não verbal. Daí se falar na tal química.

Há um estigma social associado aos relacionamentos encetados na net?

Acredito que a tendência seja para mudar, sobretudo entre as gerações mais novas. Conheço, em sede de terapia, vários casais que se conheceram através da internet com dificuldades, eles próprios, em assumirem essa circunstância, até perante familiares e amigos. Ou seja o estigma parte do próprio casal.

O Facebook pode tornar as pessoas mais felizes? 

O facebook, enquanto plataforma de comunicação, tal como o telemóvel, é um facilitador. Por isso tenho de olhar para esta rede social como positiva, até em termos da conjugalidade. Do mesmo modo que posso utilizar o telemóvel para enviar uma mensagem carinhosa à pessoa de quem gosto, também posso fazê-lo através do facebook e não preciso sequer abrir a janela de conversação. Mas expor-me individualmente pode magoar a pessoa de quem gosto. É por isso que tento chamar a atenção no livro O amor e o facebook para conversar abertamente sobre as regras de cada  casal. Porque o que deixa um casal confortável pode não deixar o outro, como pôr fotos da sua vida privada.

Diz que não foi a infidelidade mas a oportunidade que cresceu com o Facebook. Antes era mais difícil ser-se infiel?

A infidelidade sempre existiu. O que creio é que as redes sociais, e o facebook em particular, trouxeram o escancarar de algumas relações extra-conjugais. Quando comecei a trabalhar com casais, há dez anos, as relações extra-conjugais eram normalmente reveladas quando saltavam para o telemóvel. O alarme interno das pessoas soava quando havia mudanças de comportamento do outro, tipo desligar ou virar o telemóvel ao contrário num sítio público. Hoje, muitas vezes, a  infidelidade é revelada quando ainda e “só” está no plano emocional. Esse alarme interno soa mais rapidamente quando, por exemplo, o outro se mostra desconectado em relação a nós, passa demasiado tempo ao computador e adiciona uma série de pessoas que nós não conhecemos. Diria que o facebook não trouxe mais infidelidade. Criou sim mais oportunidades.

O ser humano tem uma predisposição natural para a poligamia?
Sinceramente, acho que a maioria continua a buscar uma relação não apenas monogamica mas para a vida toda. A ambição da maior parte das pessoas é encontrar aquilo a que, genericamente, se chama a alma gémea. Mas claro que ligado a este conceito há toda uma idealização excessiva associada aos tais mitos propagandeados pela Igreja, pelos contos de fadas e por aí fora. Mas também há quem, definitivamente, não tenha sido feito para estar casado ou numa relação de compromisso. Quanto à infidelidade, é mais ou menos ela por ela. Só muito ligeiramente os homens são mais infiéis. E não sei se não foi sempre assim. O que acontece é que, geralmente, as mulheres estão mais atentas a pormenores, têm uma espécie de sismógrafo. São exímias em tapar todos os buracos, as pistas que possam levar à revelação da infidelidade. Os homens são muito mais distraídos, daí que a infidelidade masculina venha mais rapidamente à superfície.

Quais os casos mais frequentes que lhe chegam ao consultório?

Há casais que na primeira consulta, quando lhes peço que resumam as suas dificuldades, apontam a comunicação como problema: seja por discussões frequentes, seja porque já nem sequer discutem, ou seja já não se passa nada. Mas diria que o que faz soar o alarme é o distanciamento, a sensação de serem dois estranhos na mesma casa e na mesma cama. Para outros, é quando as dificuldades atingem a intimidade sexual que faz sentido recorrer à ajuda especializada. Outras, felizmente, pedem ajuda muito antes.  Quando falamos de uma crise aguda, a recuperação daquele casal é muito mais fácil, porque as poupanças de afecto estão lá e servem como estímulo para a mudança. Quando as mágoas se prolongam no tempo e a crise já é crónica, é muito mais difícil. Normalmente, são as mulheres que primeiro e mais frequentemente se queixam. E quando as suas queixas caem em saco roto, quando do outro lado está alguém que não se vira para dentro da relação, o que acontece é que a mulher deixa de queixar-se, chega a um ponto em que baixa os braços e aí, de um modo geral, já não há nada a fazer. Infelizmente.

A paixão pode durar até dois anosHá quem defenda que ninguém devia casar-se apaixonado. Partilha desta opinião? 
A paixão, aquele de estado de activação fisiológica intensa, pode durar, no máximo dois anos. É evidente que não vou dizer a ninguém que não case antes dos dois anos, até porque em alguns casos essa activação fisiológica baixa ao fim de seis meses. O que me faz maior confusão não é o estado apaixonado ou a cegueira associada a esse estado. O pior é a ausência de conhecimento do outro. Mesmo sob a influência das emoções mais positivas associadas à paixão, podemos tentar conhecer o outro, aceder àquilo que marcou o outro e que, de alguma forma, caracteriza a sua personalidade e o seu carácter. Quando nos esquivamos, debaixo do tal guarda-chuva da paixão, a este conhecimento rico a respeito do outro, a probabilidade de termos comportamentos compulsivos, ou seja casar de um dia para o outro e frustrarmos-nos é, evidentemente, muito maior.

É possível estar-se apaixonado toda a vida pela mesma pessoa?
É possível sentirmos-nos apaixonados pela outra pessoa durante toda a vida, mas sem a tal activação fisiológica que caracteriza os primeiros tempos. Há casais que estão juntos há décadas e que, de vez em quando, continuam a sentir o tal friozinho na barriga. Mas o que marca verdadeiramente essas relações felizes e duradouras é a conexão. É o facto de se sentir que se está de tal forma ligado ao outro que não faz sentido equacionar-se outra hipótese. Elas não dizem apenas que precisam uma da outra, é muito mais que isso. A ansiedade da paixão dá lugar à serenidade. Ou seja estar com aquela pessoa já não é uma necessidade, é uma escolha. Porque quero, porque a admiro, porque gosto dela, porque não há mais ninguém que me conheça como ela, nem ninguém com quem me sinta tão segura.

É bom para o cérebro e para a saúde estar sempre sob os efeitos de uma paixão? 
É verdade que algumas pessoas não conseguem viver numa relação de compromisso e estão sobretudo dependentes da adrenalina da paixão. Mas para a maioria das pessoas, se o estado apaixonado se mantivesse seria incompatível com as outras realizações. Quando o cérebro está dominado pela tal activação fisiológica, só pensa naquilo, não se consegue trabalhar, estudar ou estar com os amigos. Na maior parte dos casos, depois da felicidade da paixão vem a tranquilidade que nos permite realizarmo-nos também noutras áreas da vida. Existem relações que, mesmo não estando já dominadas pelo tal estado da paixão, são de dependência. Aí está a diferença entre precisar ou escolher estar com alguém. Uma relação deve ser uma fonte de segurança e não uma fonte de ansiedade. De todo. Se estou sistematicamente ansiosa, preocupada com o que aquela pessoa está a fazer, se me sinto mal quando não estou com ela, a relação não está a ser positiva para mim, não está a cumprir a função que é suposto cumprir.

Os homens têm o sexo na cabeça e as mulheres no coração?
Não gosto muito das diferenças de género mas existem  algumas na forma como olhamos para a intimidade. A maioria das mulheres precisa de se sentir segura, do ponto de vista emocional, a tal conexão, para que consiga entregar-se e libertar-se na intimidade sexual. Com os homens acontece um processo semelhante mas no sentido inverso. A maior parte dos homens depende da intimidade  e satisfação sexual para sentir-se seguro naquela relação, ao ponto de confiar na mulher do ponto de vista emocional. Posto isto, é fácil perceber que quando as coisas correm bem a nível sexual, corre tudo muito bem. Quando alguma coisa falha, é relativamente fácil criarem-se ciclos viciosos em que um responsabiliza o outro pelas dificuldades.

Na conjungalidade mais vale só que mal acompanhado

A violência psicológica entre cônjuges, subtil, sorrateira e imperceptível, afecta mais que a agressividade física? 
O desprezo e o sarcasmo são sinais claríssimos de alarme. Boa parte dos pedidos de ajuda que recebo não estão relacionados com traição ou infidelidade mas com a existência de situações muito claras do tal sarcasmo e desprezo. Faço questão de sinalizar isso. Quando nos sentimos inseguros e insatisfeitos na nossa relação o nosso desespero cresce. Quando estamos dominados por estas emoções negativas, tendemos a cometer mais erros. Em algumas pessoas o desespero adopta a forma de interrogatório ou ataques de ciúme. Outras vezes é a ironia que toma conta daquela pessoa. Noutros casos mais graves o sarcasmo vai ao ponto da violência psicológica. Isto acontece quando um dos membros do casal humilha e inferioriza o outro. E a violência psicológica pode deixar marcas muito profundas na auto-estima da outra pessoa, muito mais violentas que as físicas. Infelizmente, a violência emocional continua a ser mais frequente dos homens para as mulheres, mas existem vários casos no sentido inverso. A violência emocional deixa sempre marcas.

Há alguma postura para evitar a violência doméstica?

Normalmente chamo a atenção para a necessidade de cada um de nós não se isolar socialmente. Independentemente de estarmos ou não casados, as outras pessoas que gostam de nós, os nossos amigos e a nossa família alargada, devem continuar a ser importantes e nossos confidentes. O que acontece nas tais situações de violência emocional é que o cônjuge agressor faz muitos juízos de valor a respeito da partilha que o outro possa fazer com terceiros, sobre a vida conjugal, limitando cada vez mais o outro e impedindo-o de se confrontar com opiniões que poderiam facilmente levá-lo a dizer: “basta, eu não posso sujeitar-e a isto”. O divórcio pode não ser o caminho mas o “basta” tem de ser, sob pena daquela pessoa começar a entrar num estado depressivo muito perigoso.

Como vê a ausência de psicólogos nos centros de saúde?
Diria que o grande entrave para o pedido de ajuda familiar não é nenhum estigma mas sim a ausência de oferta ao nível do Serviço Nacional de Saúde. As pessoas têm ainda de recorrer ao privado para receberam ajuda clínica psicológica. E a nossa saúde mental e emocional está directamente relacionada com a nossa saúde física. As pessoas felizes no seu casamento revelam níveis de bem-estar físico bastante mais elevados que os solteiros. As pessoas que, estando casadas, estão infelizes aparecem no fim da escala.No caso específico da conjugalidade, efectivamente, mais vale só que mal acompanhado.

Cláudia Morais é psicóloga, terapeuta familiar e autora dos livros O Amor e o Facebook (lançado em Setembro) e Sobreviver à Crise Conjugal, bem como de algumas investigações já divulgadas em congressos nacionais e internacionais de terapia familiar. Traduziu o livro Problemas de Alimentação na Criança e colabora regularmente com a imprensa escrita, rádio e televisão.
Graça Menitra

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