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5.11.12

INQUÉRITO EXPRESSO “O SEXO DOS PORTUGUESES” - SEXO E INTERNET


A pedido do jornal EXPRESSO tive oportunidade de comentar os resultados de um inquérito sobre “O SEXO DOS PORTUGUESES”. Deixo aqui os resultados relativos ao capítulo “SEXO E INTERNET”, bem como a minha análise.

COSTUMA USAR A INTERNET?
 46% dos portugueses dizem que sim: 51% nos homens e 42% nas mulheres.
  A utilização é mais alta nas faixas mais jovens da população: 77% nos inquiridos entre 28-24 anos, 70% nos 25/34, 60% nos 35-44. A partir daí baixa significativamente.
  usam mais os das classes A/B (63%) e C (61%).
  O Norte Litoral é a região do país com menor percentagem de utilizadores (33%).

(A PARTIR DAQUI OS DADOS SÃO REFERENTES APENAS ÀQUELES QUE USAM A INTERNET)

JÁ PROCUROU PARCEIRO ATIVAMENTE NA INTERNET?
 14% dos homens portugueses admitem já ter procurado um(a) parceiro(a) na Internet para uma relação sexual ocasional. Nas mulheres apenas 2%.
 9% dos homens fizeram-no para uma relação amorosa / 4% das mulheres fizeram-no também para o mesmo fim.


Este é um número a aumentar?

De acordo com a minha experiência clínica, sim, este é um número em crescimento acentuado. Note-se, no entanto, que as respostas a este inquérito terão sido com certeza condicionadas pelo estigma e pelos preconceitos associados ao tema "encontrar parceiro através da Internet". Para a esmagadora maioria das pessoas a ideia de os membros do casal se conhecerem através da Internet continua associada a fragilidades emocionais e falta de competências sociais. Vivemos numa sociedade cada vez mais informatizada, as famílias têm desafios cada vez maiores em função de a comunicação presencial ser constantemente "atropelada" pelo uso da tecnologia de consumo e, no entanto, recusamo-nos a assumir que a Internet possa ser um recurso positivo na promoção de laços amorosos.

Achou demasiado baixo? Deveria ser mais expressivo?

Quando comecei a trabalhar com casais, há cerca de 12 anos, já havia Internet e também já existiam relações que se iniciaram por essa via. Mas há 12 anos, como agora, as pessoas revelavam a medo esse pormenor, mesmo em sede de terapia. Hoje há muito mais casais nestas circunstâncias, há muito mais pessoas com mais do que um relacionamento resultante da Internet mas continuam a prevalecer as tentativas de escamoteamento da realidade. Conheço casais que não revelaram à família alargada que se conheceram através da Internet, preferindo dar a conhecer uma versão diferente dos acontecimentos.

Nesse sentido, parece-me muito provável que, mesmo sob o anonimato, muitas pessoas optem por distorcer a realidade neste inquérito.

É curioso que quase 10% dos homens fê-lo em busca de uma relação amorosa... Que comentários faz sobre esta realidade? Considera que a internet é cada vez mais uma forma de procurar parceiro na nossa sociedade? Porquê? Também no seu consultório apercebe-se disto? De que há mais homens a procurar parceiros(as) mais ativamente. Para sexo e amor? Ou as mulheres comportam-se cada vez mais da mesma maneira?

A experiência clínica mostra-me que há uma ligeira diferença de géneros: a procura é mais ativa entre os homens. Na minha perspetiva isso está relacionado com o facto de os homens terem, de um modo geral, redes de suporte mais fracas do que as mulheres, sentindo-se significativamente mais sós quando estão solteiros (ou divorciados). Por exemplo, na sequência de uma separação conjugal, os homens levam, em geral, menos tempo até começar a procurar ativamente encontrar alguém. E uma larga percentagem fá-lo através da Internet, na medida em que é através das plataformas de comunicação que a Internet oferece que se sentem mais seguros. Deste grupo, nem todos buscam exatamente uma relação de compromisso. Muitos vão sobretudo em busca de experiências que permitam minorar a solidão associada ao período de luto.

Por outro lado, tenho recebido muitos pedidos de ajuda de mulheres que recorreram às mesmas plataformas de comunicação e que se confrontaram, desiludidas, com o facilitismo associado às relações ocasionais e com a dificuldade em encontrar parceiros dispostos a assumir relações de compromisso.

Há cada vez mais mulheres a enveredar por relações ocasionais, meramente baseadas no sexo, com início a partir da Internet - solteiras mas também casadas (relações extraconjugais). No entanto, pelo meu consultório continuam a passar mais mulheres que acedem a viver amizades coloridas por não serem capazes de assumir, de forma assertiva, que aquilo que procuram são relações sérias. Fazem-no quase sempre na esperança de que o outro mude e, mais cedo ou mais tarde, a relação evolua.

JÁ TEVE SEXO COM ALGUÉM QUE CONHECEU NA INTERNET?
 Sim: 13% dos portugueses. 19% dos homens / 6% das mulheres.
 Maior percentagem na população entre os 55-64 (20%) e nos mais jovens: 14% nos 18-24 e 25-34.

13% dos portugueses usa a internet também para este fim. Estava à espera de um número maior? A tendência é aumentar? Que tempos é que vivemos? As redes sociais proporcionam uma vida sexual mais expansiva? Mais oportunidades de sexo anónimo e rápido? Mesmo na internet são os homens os mais sexuais...

Mais uma vez, a experiência clínica mostra-me que estes números estão em crescimento. Não estou segura de que haja um equilíbrio entre homens e mulheres que busquem proativamente relações ocasionais sobretudo porque, como referi antes, existem diferenças de género no que toca à busca de uma relação de compromisso. Apesar disso, o número de mulheres que escolhe ter um relacionamento ocasional a partir da Internet é cada vez maior. A esta realidade não é alheio o fenómeno das redes sociais, em particular do Facebook.

As redes sociais vieram aproximar de forma socialmente aceite ex-colegas de escola, ex-namorados, ex-vizinhos e amigos de amigos, permitindo, de forma mais ou menos imediata, a partilha de dados mais ou menos íntimos. Daí ao flirt e ao relacionamento físico pode ser um pequeno passo.

FENÓMENO DO SEXTING: ALGUMA VEZ ENVIOU FOTOS, VIA TELEMÓVEL OU INTERNET, EM QUE APARECIA NU, MESMO QUE APENAS EM PARTE?
 Sim: 15% dos inquiridos/dos portugueses. Homens: 18%/mulheres:12%.
 Sim: 18-24: 19%; 25-34: 20%; 35-44: 17%; 45-54:7%.

É a faixa etária entre os 25 e 34 anos a que mais fez isto (20%), seguidos do grupo mais novo, 18/24 (19%). 15% é um numero interessante não acha? Ainda há pouca consciência dos perigos da internet e da perda de intimidade e privacidade?

O sexting é, cada vez mais, uma ferramenta de sedução, quer no início das relações, quer nas relações mais estáveis. Contudo, a esmagadora maioria das pessoas que partilha este tipo de dados ignora os riscos que corre. A experiência clínica mostra-me que a maioria das pessoas que o faz desconhece as definições de privacidade associadas às respetivas contas de Facebook, e-mail e telemóvel. De resto, uma parte significativa dos casos de infidelidade que chegam até ao meu consultório estão precisamente relacionados com a negligência em relação a esta matéria (acabando por tornar-se mais provável que o cônjuge aceda a estas mensagens).

ALGUMA VEZ ENVIOU FOTOS, VIA TELEMÓVEL OU INTERNET, EM QUE O SEU/SUA COMPANHEIRO(A) APARECIA NU(A), MESMO QUE APENAS EM PARTE?
 Sim: 5%: homens: 6%; mulheres: 3%.
 Sim: maior incidência: 25-34: 8%.

JÁ ALGUMA VEZ USOU A INTERNET PARA FAZER SEXO VIRTUAL, UTILIZANDO SALAS DE CHAT, PROGRAMAS DE MESSENGER OU WEBCAM?
 Sim: 9% (9% dos quem têm internet já tiveram “sexo virtual”).
 Sim: homens (12%), mulheres (7%).

A faixa etária que mais assume é a dos 25/34 (14%). Que comentário faz? Os números reais poderão ser mais expressivos? O sexo virtual é uma tendência da sociedade de hoje? Transversal nas idades e classes sociais? A verdade é que o mundo está frente a um computador e as situações eróticas podem proporcionar-se...

Não sei se a maioria das pessoas que responderam a este inquérito está de acordo em relação ao conceito de sexo virtual. A verdade é que para muitas pessoas nem sequer está clara a fronteira que separa as conversas inofensivas do flirt, pelo que acredito que para muitos uma conversa mais “picante” não equivalha exatamente a sexo virtual. Por outro lado, e até por comparação com as ferramentas que existiam há uns anos (salas de IRC), creio que o sexo virtual possa assumir hoje contornos diferentes. No tempo do IRC a privacidade estava, apesar de tudo, mais salvaguardada e muitas pessoas optavam pelo sexo virtual mesmo que não quisessem passa-lo para o campo real. Hoje a maior parte das relações virtuais acontecem através de plataformas que implicam maior exposição, como o Facebook. Isso implica menos privacidade mas maior facilidade de passagem ao ato, pelo que, mesmo que haja menos sexo virtual, há muito mais sexo real a partir da Internet.

ESSA EXPERIÊNCIA DE SEXO VIRTUAL TEVE COMO PARCEIROS:
 Desconhecidos: 29%. (homens: 41%; mulheres: 4%).
 Pessoas com quem já tinha um relacionamento na net: 23%.
 Pessoas com quem já tinha um relacionamento fora da net: 41%.
(Os dados devem ler-se seguindo a fórmula: x por cento dos portugueses que tiveram sexo virtual fizeram-no com…)

A ideia de sexo virtual pressupõe na maioria dos casos sexo com alguém desconhecido, não é? Esta é ma nova forma de as pessoas se relacionarem atualmente?

Tanto quanto posso perceber pela experiência no consultório, o sexo virtual faz sobretudo parte do jogo de sedução associado ao início das relações. Isso não significa que as pessoas envolvidas sejam propriamente desconhecidas (não o são na maioria das vezes). Implica, isso sim, que por esta via sejam ditas (ou escritas) coisas que mais dificilmente se diria nos primeiros encontros presenciais. De resto, há cada vez mais pessoas – solteiras e comprometidas – que alimentam estes jogos de sedução, esticando a corda, e aumentando a probabilidade de se envolverem emocional e fisicamente com alguém com quem não se envolveriam se houvesse apenas encontros físicos.

COMPORTA-SE DE FORMA MAIS OUSADA NA NET DO QUE COSTUMA FAZER FORA DELA?
❤ 16% dos portugueses que usam a net admitem comportar-se, por vezes, de forma mais ousada na rede.
 22% homens / 9% mulheres.

Esta é uma das características na net, não é? Desinibição pelo anonimato ou pela distância e controlo da situação, correto?

A Internet é, efetivamente, um meio de comunicação que facilita a desinibição social e que, consequentemente, nos expõe a riscos que, em definitivo, não correríamos no plano real. Como referi antes, a maior parte das pessoas sente que controla a situação ao mesmo tempo que ignora as “regras do jogo”. É relativamente fácil deixarmo-nos envolver por palavras de sedução e viciarmo-nos em plataformas de comunicação que nos encham o ego.

TEM PERFIL NO FACEBOOK?
 Sim: 66%.
 Não: 34%.
Filtro: Dos que usam internet.

O(A) SEU (SUA) ATUAL COMPANHEIRO(A) É SEU AMIGO NO FACEBOOK?
 Sim: 54% (18-24: 66%).
 Não: 19%.

Ainda assim 19% dos inquiridos não tem o(a) companheiro(a) como amigo no Facebook… Que comentário faz? Isto é indiciador de infidelidade? Ou de terreno para isso? Pelo que sei tem na sua experiência clínica muitos casos de relacionamentos afetados pelo Facebook. Que casos lhe chegam às mãos? O Facebook é um bom meio para a infidelidade? Os pudores desaparecem no FB?

O facto de os membros do casal não serem amigos no Facebook não é, em si mesmo, indiciador de infidelidade nem sequer um sinal de perigo. Existem alguns casos em que um dos membros do casal não é utilizador da rede social, assim como existem casais que optam por fazer utilizações independentes do Facebook sem que isso implique ausência de transparência e de confiança. No entanto, não posso ignorar o facto de em muitos destes casos este poder ser um fator de risco. A assunção da relação no Facebook não confere uma proteção especial aos membros do casal mas fomenta a confiança. Há cada vez mais pessoas que são infiéis a partir do Facebook – umas de forma premeditada, outras nem por isso. E também há cada vez mais pessoas que são amigas do cônjuge no Facebook ao mesmo tempo que criam perfis alternativos (ocultos) ou partilham apenas alguma informação com o(a) companheiro(a), recorrendo às definições de privacidade que o Facebook oferece. Há ainda quem “anuncie” a sua relação de compromisso apenas com uma parte dos seus amigos.

Há definitivamente uma parte dos nossos pudores que desaparecem com o Facebook e que nos expõem às tentações de uma relação virtual (e mais tarde possivelmente também física).

COSTUMA OMITIR AO SEU PARCEIRO INFORMAÇÃO QUE PUBLICA NO FACEBOOK?
 18% dos portugueses inscritos nesta rede social (26% nos homens) admite fazê-lo. Nas mulheres só 10%.

O Facebook per si pode criar situações de infidelidade em casais que estão aparentemente bem? Pode estimular relações extraconjugais?

O Facebook tem algumas especificidades que potenciam as relações extraconjugais. Isso está sobretudo relacionado com a circunstância de esta plataforma nos colocar em contacto direto com pessoas que, não sendo completas estranhas (amigos de amigos, por exemplo), também não são propriamente amigas e com quem partilhamos, no plano virtual, uma parte da nossa intimidade. Esse é (ou pode ser) meio caminho para a promoção de relações amorosas. A experiência clínica mostra-me que há um número crescente de relações extraconjugais com início a partir do Facebook.

JÁ ALGUMA VEZ FEZ UM PEDIDO DE AMIZADE A ALGUÉM NO FACEBOOK COM A INTENÇÃO DE QUE ESSA PESSOA PODERIA VIR A SER UM(A) PARCEIRO(A) SEXUAL?
 Sim: Um terço dos homens no Facebook (34,4%) já adicionou alguém com a intenção de que essa pessoa poderia vir a ser um(a) parceiro(a) sexual.
 Sim: elas apenas 11%.

Tanto este resultado como o seguinte são curiosos e mostram bem que boa parte dos que usam redes sociais como o Facebook fazem-no também para conhecer sexualmente ou amorosamente outros. As redes sociais propiciam... os encontros... certo? Que opinião tem sobre a dimensão das redes sociais para fins amorosos ou sexuais? É a tendência da sociedade? Haverá ainda muita gente a não assumir isto. Mesmo através de um inquérito?

No caso específico do Facebook há cada vez mais pessoas que encontram nesta rede social a oportunidade de conhecerem outras pessoas e, a partir daí, iniciarem uma relação amorosa. Atendendo aos casos que tenho acompanhado, parece-me uma via tão ajustada como qualquer outra mas, tal como acontece quando dois adultos se conhecem numa discoteca, num jantar de amigos ou em contexto profissional, é fundamental conhecer as “regras do jogo” e evitar comportamentos impulsivos. De um modo geral, os comportamentos impulsivos são geradores de erros e arrependimentos e isso é naturalmente generalizável ao Facebook e a outras redes sociais. Na Internet há um risco acrescido: a partilha que é feita pode dar a ilusão de que exista um nível de intimidade emocional e de conhecimento mútuo que, na prática, corresponde apenas àquilo que cada uma das pessoas envolvidas escolheu partilhar. As máscaras que usamos online são em muito maior número do que aquelas que conseguimos usar no contacto presencial.

Entendo que haja algum encantamento generalizado associado à possibilidade de se poder “conhecer” muita gente de forma relativamente imediata mas creio que para uma percentagem significativa dos portugueses (utilizadores da Internet) o Facebook ainda não é “a” forma de mais solidamente encontrar uma relação.

Outra questão: O Facebook está a mudar a forma como nos relacionamos com os outros? E há ainda um estigma perante as pessoas que se relacionam através do FB?

Em relação ao estigma creio que já me pronunciei antes. Na minha perspetiva o Facebook – e outras ferramentas disponíveis através da Internet – tem contribuído para que haja mudanças na forma como nos relacionamos, sim. Nas redes sociais quase tudo é cor de rosa, não acedemos ao tédio que os outros possam sentir a propósito das nossas preocupações, não há interrupções… Em suma, não há uma série de aborrecimentos que são incontornáveis quando se tem uma relação estável e duradoura. A disponibilidade aparente que nos mostra quem está do outro lado do ecrã contrasta – de forma perigosa – com o cinzentismo de alguns períodos de qualquer relação real. Um olhar superficial, desatento, pode dar a ilusão de que é ali, no plano virtual, que nos sentimos mais compreendidos, que vemos as nossas emoções mais validadas.

JÁ ALGUMA VEZ ACEITOU UM PEDIDO DE AMIZADE DE ALGUÉM NO FACEBOOK COM A INTENÇÃO DE QUE ESSA PESSOA PODERIA VIR A SER UM(A) PARCEIRO(A) SEXUAL?
 23% dos inquiridos com Facebook disse que sim.
 36% dos homens e 9% das mulheres.

Que comentário faz? É verdade que no seu consultório este tema começou a ser tão recorrente que a levou a escrever um livro? Sei que citou um estudo que aponta o FB como o causador de cerca de 28 milhões de divórcios. À escala portuguesa isto aplica-se?

Do mesmo modo que uma pessoa pode aproximar-se fisicamente de alguém apenas com o intuito de que haja um contacto sexual (precisando, neste caso, de recorrer a estratagemas mais ou menos complexos, mais ou menos formais), parece-me lógico que o mesmo se aplique no Facebook. Nas redes sociais o hiato entre uma primeira abordagem e o acesso a algum feedback positivo pode ser encurtado pela ausência de formalidades, pelo uso de linguagem mais despudorada e pela ténue fronteira entre a brincadeira inócua e o flirt. Dos pedidos de ajuda que chegam até mim, numa percentagem significativa dos casos de terapia de casal o Facebook é mencionado como fonte de dificuldades (não necessariamente como estando na origem de relações extraconjugais).
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