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11.2.14

NÃO ÉS TU, SOU EU


Quem nunca ouviu a frase “O problema não és tu… sou eu” para justificar o fim de uma relação? Você até pode não ter vivido a experiência na primeira pessoa, mas estou certa de que conhece um amigo ou um familiar que não possa dizer o mesmo. Consegue imaginar como é que ele/a se sentiu? E o que é que esta forma “delicada” de pôr fim a uma relação implica? Que a pessoa que é rejeitada sofra menos? Que o fim seja encarado como um intervalo? Ou tanta gentileza acaba por ser geradora de mais mágoa e ressentimento?

Não é fácil lidar com uma rejeição amorosa.

Ponto final. Parágrafo.

A pessoa investe, dá tudo de si e, no mínimo, espera ser correspondida. Espera que a pessoa amada sinta o mesmo entusiasmo, a mesma ligação, a mesma vontade de lutar pelo “até que a morte os separe”. Mas toda a gente sabe que isso nem sempre acontece. E se há quem esteja casado há décadas com o namoradinho de liceu, o mais comum nos dias que correm é que a maior parte dos adultos viva mais do que uma relação amorosa significativa. Mais: um em cada dois casamentos acabam em divórcio. Há, por isso, entre solteiros e divorciados, muita gente disponível para voltar a tentar, para voltar a experimentar, para voltar a arriscar. E é importante que tenhamos todos a noção de que o amor é isso mesmo: correr riscos.

Se é verdade que o início das relações é quase sempre idêntico: muito fogo-de-artifício, muito entusiasmo e uma crença inabalável de que “é desta”, também deveríamos estar cientes de que um namoro é um período experimental em que duas pessoas têm a oportunidade de criar uma ligação sólida… ou não. Entre as diferenças de personalidade, os objetivos de vida de cada um, as respetivas bagagens emocionais e estilos de vida, não é surpreendente que, quando as luzes do início se apaguem, um possa estar mais ligado do que o outro. E às vezes aquilo que os separa nem sequer é algo concreto ou gerador de grandes discussões. Quem achar que uma relação só está em risco se houver brigas de meia-noite está, no mínimo, a leste do que podem ser as vulnerabilidades de uma relação conjugal.

Quando a pessoa amada deixa de estar envolta naquele maravilhoso papel de embrulho que é a novidade, isto é, quando a ativação fisiológica da paixão desaparece, é perfeitamente legítimo que um dos membros do casal possa deparar-se com a circunstância de já não se sentir romanticamente envolvido com aquela pessoa. Não foi capaz de se ligar. Isso não significa que o odeie nem sequer que haja algum tipo de ressentimento. Não há isso e, provavelmente, também não há o entusiasmo que era suposto existir. Então, a pessoa que já não ama mas que continua a reconhecer que está envolvida com alguém que até é “uma pessoa impecável”, confronta-se com um dilema: deve permanecer numa relação que já não a entusiasma? Ou deve dar voz ao seu distanciamento afetivo e desperdiçar a oportunidade de viver uma relação “estável” com aquela boa pessoa? E todos nós sabemos que é cada vez mais difícil encontrar pessoas assim…

As coisas não acontecem sempre da mesma maneira para todos os casais e, na prática, cada um sabe de si. Há quem se veja numa situação como esta porque não foi, de facto, capaz de se ligar. E há quem possa ter acumulado alguns motivos de insatisfação e não tenha sido capaz de os verbalizar, sabotando qualquer ligação. Em qualquer caso, aquilo que não faz sentido é que uma pessoa possa manter-se numa relação quando já não está feliz. Porque isso implica, quase de certeza, que não seja capaz de fazer a outra pessoa feliz. Se já não há amor, por que haveria de manter o relacionamento? Por pena? Isso nem sequer seria um ato de dignidade e respeito pela outra pessoa.

Terminar uma relação com a mensagem “Não és tu, sou eu” pode ser uma forma relativamente enigmática de pôr fim à ligação. Pode até ser geradora de dúvidas do tipo “Será que é mesmo assim?”, “Ou será que esta pessoa está a esconder-me alguma coisa?”. Sejamos francos: muitas vezes esta frase é usada para escamotear uma triste realidade – há uma terceira pessoa. Mas isso só acontece numa parte dos casos.


Lidar com a rejeição numa situação como esta implica tanto sofrimento como em qualquer outra forma de acabar uma relação. Há dor na medida em que o outro membro do casal se sinta ligado. E é preciso tempo para que o sofrimento passe e a pessoa volte a acreditar no amor. Mas não é só isso que o tempo traz: ele também permite que, mais cedo ou mais tarde, a pessoa rejeitada se apazigue com o episódio da rejeição e olhe para aquela experiência como libertadora. Exatamente. Libertadora. Porque se aquela pessoa não estava envolvida, ao terminar a relação acabou por libertar a outra de um caminho de infelicidade, devolvendo-lhe, apesar do sofrimento inicial, a oportunidade de encontrar alguém capaz de o fazer.
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