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5.3.14

DEUS NÃO TEM FACEBOOK


Por motivos profissionais, por lazer, em nome das ligações afetivas com quem está fisicamente ausente, por causa do Candy Crush Saga ou porque é uma ferramenta de engate, o Facebook passou a fazer parte do dia-a-dia da maior parte dos internautas. Uns negam a importância da rede social nas suas vidas. Outros assumem a dependência. Alguns são capazes de dosear com sabedoria o tempo despendido a olhar para o ecrã azul e branco. Mas até os mais desprendidos aperceber-se-ão de quão fácil é opinar por detrás de um perfil de Facebook. É como se o escudo do ecrã fornecesse à generalidade das pessoas a coragem e o despudor que permitem que tudo seja dito. Qualquer pessoa atira para a rede, sem constrangimentos ou sentimentos de culpa, críticas (construtivas ou destrutivas) sobre a vida deste ou daquele. Fazem-se acusações relativamente sérias, muitas vezes baseadas em presunções, boatos, excertos de notícias e diz-que-disse, de ânimo-leve. Sem parar para pensar no peso da crítica, no sentido de justiça ou na possibilidade de, mais cedo ou mais tarde, quem critica poder ser alvo de violência semelhante. Sim, é de violência que se trata. De violência emocional. De cyberbullying.

Enquanto não pararmos para pensar nos efeitos nefastos desta forma de comunicação, enquanto continuarmos a aceitar que qualquer pessoa possa comportar-se como um deus julgador, atirando condenações e análises depreciativas para a Internet, continuaremos a ser confrontados com notícias de quem não aguentou e sucumbiu a esta forma de pressão.


É relativamente fácil condenar um bando de adolescentes que – direta ou indiretamente – tenham contribuído para o suicídio de um jovem. É infinitamente mais difícil refletir sobre aquilo que cada um de nós pode fazer para que a livre opinião não se confunda com a hostilidade característica do cyberbullying. A verdade é que as manifestações públicas de ódio, os rótulos pejorativos, a difamação, os boatos e a ridicularização são formas de violência. E se cada um de nós é livre de dizer o que entende sobre uma notícia, o comportamento de uma figura pública ou a atuação de um amigo próximo, é fundamental que tenhamos o bom senso de parar para pensar no possível impacto das nossas palavras. Especialmente quando as “notícias” estão longe de nos dar certezas sobre o que realmente aconteceu.
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