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24.7.14

PORQUE É QUE OS CASAIS DISCUTEM? (SEGUNDA PARTE)


Ao meu consultório chegam todos os dias pessoas que, por um motivo ou por outro, perderam pelo menos uma parte da fé na sua relação. Cada história de vida é única mas há problemas que se repetem. Há queixas que se repetem. De tal forma que, como expliquei antes, é possível identificar as queixas mais comuns. Esta é a segunda parte da lista:

“ELE(A) NÃO FALA COMIGO”

O que é que acontece quando alguém tem a perceção de que está a dar tudo o que tem e, como recompensa, só leva “pancada”? O que é que acontece quando é precisamente a pessoa em quem apostámos todas as fichas que – de forma aparentemente descontraída – despreza os nossos apelos? Fechamo-nos. Desistimos. Calamo-nos. É verdade que o amuo não é propriamente um sinal de inteligência emocional. Mas não sendo um caminho frutífero, é o produto da sensação de insegurança, do desamparo, da acumulação de experiências negativas. O problema é que aos olhos do mais-que-tudo os comportamentos que mostram desprezo podem não ser assim tão claros. É muito frequente deparar-me com remorsos e sentimentos de culpa de quem não fazia ideia de que estava a falhar. O pedido de ajuda é muitas vezes o primeiro e importante passo para que quem “não fala” possa finalmente expor aquilo que sente e o casal volte a conectar-se.

 “EU QUERO TER MAIS UM FILHO MAS ELE(A) NÃO”

Aparentemente este é um impasse impossível de gerir. Não há negociação possível, certo? E um não pode (ou pelo menos não deve) obrigar o outro a ceder numa matéria como esta. Mas é preciso olhar para o problema de outro ângulo. É preciso conhecer o percurso daquele casal – os sonhos com que partiram para esta relação, aquilo que foram capazes de construir e, sobretudo, os laços que existem. A experiência mostra-me que quase todas as queixas estão relacionadas com a fragilidade dos laços afetivos. E se não houver uma relação coesa, marcada pela vontade genuína de fazer a pessoa que está ao nosso lado feliz e pela segurança de que essa pessoa também faz tudo em nome da nossa própria felicidade, instala-se o medo, a incerteza, a insegurança. Daí às cobranças, aos ultimatos, aos braços-de-ferro, pode ser só um pequeno passo. Porque há um que se sente inseguro e que, em função dessa insegurança, assume comportamentos mais ou menos desesperados e, de forma involuntária, afasta ainda mais o outro.

Quando se olha para trás e, sobretudo, quando ambos aprendem a comunicar de forma clara as suas necessidades afetivas, tudo se torna mais fácil. E os sonhos a dois voltam a fazer sentido.

“PARECEMOS DOIS IRMÃOS”

Ou dois amiguinhos. Esta queixa é muito mais frequentemente verbalizada pelos homens e está quase sempre associada à diminuição da satisfação sexual. Muitas vezes estamos perante pessoas que deixaram de ter relações sexuais. São casais novos, que não compreendem como é que chegaram até aqui. São quase sempre casais com filhos em idade escolar que permitiram que o tempo passasse sem que a relação continuasse a ser devidamente alimentada. E mesmo quando param para conversar sobre o problema e decidem que é tempo de voltar a namorar, esbarram numa multiplicidade de barreiras. Parece que nada funciona, parecem dois estranhos na cama. Não há chama, não há romance. Mas gostam um do outro! De um modo geral, esta é uma questão que gera aflição e que em muitos casos está na origem de conversas sobre o divórcio. Mas quando o pedido de ajuda é feito e os membros do casal têm oportunidade de olhar para a sua relação como um todo, percebem que a insatisfação sexual não é mais do que uma manifestação da fragilidade da sua ligação. Como não são robôs e a sexualidade está integrada na intimidade emocional, é preciso voltar a fortalecer outros laços para que ambos voltem a sentir-se seguros e apaixonados. Às vezes parece muito difícil e complicado mas é sobretudo uma questão de foco e perseverança.

“ELE(A) NÃO SAI DO FACEBOOK.”

Algumas pessoas optam facilmente por fugir às dificuldades voltando-se para fora, encontrando escapes que lhes permitam ignorar os problemas. Alguns saem de casa em direção ao café assim que a mulher (ou o marido) começa a resmungar, outros refugiam-se no trabalho ou vão às compras. E depois há aqueles que descobrem as maravilhas da gratificação imediata associada ao Facebook. A falta de vontade de encarar as dificuldades ou até a sensação de incapacidade de as resolver podem levar o comum dos mortais a escolher ignorar os apelos do cônjuge. Como o Facebook pode funcionar como uma boa massagem ao ego – um simples “Gosto” pode ser o suficiente para mascarar o estado emocional de uma pessoa -, percebe-se facilmente por que há tanta a gente a alienar-se do próprio casamento. Às vezes de forma gradual, às vezes de forma abrupta, o deslumbramento passa a ocupar demasiado tempo e espaço e sobra pouca disponibilidade para enfrentar as queixas da pessoa amada. Como nenhuma relação vive do ar, é só uma questão de tempo até que as queixas se transformem em ultimatos ou, pior, em anúncios de divórcio.


Nem todos os casais que apresentem queixas relacionadas com o tempo de utilização do Facebook estão à beira da rutura. Aquilo que quero dizer é que qualquer queixa é um apelo, é uma chamada de atenção. E quando nada muda, tudo pode mudar de repente.
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