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14.1.15

FAMÍLIAS DE ACOLHIMENTO


A propósito da minha participação no programa AGORA NÓS onde voltámos a falar de Alexandra, a menina russa que vivia com uma família de acolhimento portuguesa e que há seis anos comoveu o país por ser forçada a viver com a família biológica, lembrei-me de um tema que nunca abordei aqui: o luto nas famílias de acolhimento. Como se sabe, estas famílias de coração são quase sempre lares temporários para crianças em risco que, mais cedo ou mais tarde, regressam às respetivas famílias ou são encaminhadas para adoção. Aquilo de que poucas vezes ouvimos falar é do sofrimento por que tantas vezes estas pessoas passam na altura em que têm de se despedir das crianças de quem cuidaram (e a quem, inevitavelmente, se ligaram).


A primeira dificuldade que estas famílias enfrentam é mesmo esta: para quem está de fora, pode parecer estranho falar-se do luto comparável à perda de física de alguém. Mas é exatamente disso que se trata porque, seja qual for a duração do acolhimento, é inevitável que se criem laços que, de um momento para o outro, são desfeitos. Alguns pais e mães de acolhimento reconhecem que começaram a sofrer logo no dia da chegada da criança. Porquê? Precisamente por saberem que um dia teriam de dizer adeus. Essa consciência não os impede de dar todo o amor e a segurança de que as crianças precisam, pelo que é de altruísmo e afeto verdadeiro que falamos quando falamos destas pessoas.

A segunda grande dificuldade associada a este processo diz respeito à impossibilidade de se concluir o luto. Ao contrário do que acontece aquando da morte de um familiar ou amigo, nestes casos a pessoa de quem se gosta continua viva… mas deixa de poder haver contacto. Para algumas destas pessoas é como se tivessem passado pela terrível experiência de desaparecimento de um filho.


Depois há quem os tente confortar dizendo coisas como “Mas tu sabias que este dia ia chegar…”. Sim, é verdade que quem acolhe temporariamente uma criança sabe que o dia da partida pode chegar. Mas isso não faz com que doa menos! Quando uma criança tem uma doença incurável, o pai e a mãe também sabem que o dia da despedida chegará… A dor não é menor. É óbvio que, nestes casos, há a felicidade de saber que a criança está viva e saudável, apesar de estar longe. Mas até isso por vezes é questionável, já que o regresso à família biológica pode implicar que a criança volte a estar exposta a algumas privações ou até às mais diversas formas de violência. Como pode uma família de acolhimento conformar-se com o afastamento quando tem medo que o seu filho do coração esteja a passar dificuldades?

Por outro lado, e tal como acontece no luto “normal”, é importante ter em consideração que os membros do casal podem viver o seu luto de formas diferentes. É muito frequente que um queira falar ininterruptamente sobre os seus sentimentos, sobre a sua perda, enquanto o outro deseje sobretudo que a vida volte à normalidade o mais depressa possível. Cada um tem direito ao seu ritmo e a lidar com as próprias emoções à sua maneira. Mais: não se pode dizer que um esteja a sofrer mais do que o outro. Os mecanismos de defesa é que podem ser diferentes.


O que é verdadeiramente importante é que os familiares e amigos ofereçam toda a ajuda possível. Estando lá, mostrando-se disponíveis para ouvir, ouvir e ouvir, mais do que dar conselhos. E, sobretudo, é fundamental que não tentem desdramatizar uma situação que, vista de fora, é muito menos dolorosa. 
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