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28.11.16

OS BEBÉS TRAZEM INFELICIDADE PARA AS RELAÇÕES?


«Eu adoro a minha vida, adoro o meu marido e não quero que nada mude.». Esta foi a frase que Carolina repetiu até à exaustão sempre que alguém lhe perguntava por que é que ainda não tinha filhos. Embora nunca tivesse colocado de lado a hipótese de engravidar, o medo de que a chegada de um bebé pudesse virar tudo do avesso fê-la adiar esse passo durante anos. Quando me pediu ajuda, continuava feliz ao lado de Francisco mas o casal tinha finalmente decidido ter filhos. Ao contrário do que costuma acontecer, o pedido de ajuda não surgiu em resposta a qualquer crise na relação. Era, isso sim, uma atitude preventiva. Carolina e Francisco queriam apetrechar-se de ferramentas que os protegessem da chegada de um bebé. Embora não estivessem pessimistas em relação ao futuro que escolheram, também não estavam dispostos a correr o risco de a sua relação ruir depois do nascimento do primeiro filho. «Toda a gente nos diz que, depois do nascimento de um bebé, muda TUDO. A maior parte das pessoas que conheço faz questão de abrir bem os olhos na altura em que pronuncia esta palavra: TUDO. Não me considero uma pessoa catastrofista e reconheço que há muitos casos de sucesso mas estaria a mentir se dissesse que me sinto segura. Temos dois casais amigos com filhos pequenos que acabaram de se separar, um dos meus primos está à beira do divórcio e toda a gente diz que, com crianças, o tempo a dois praticamente desaparece.».

Toda a gente sabe que os bebés dão trabalho. Aquela que é muitas vezes vista como a fase mais bonita da vida de um casal é, também, a altura em que o sono escasseia, as tarefas multiplicam-se e ambos vivem com a sensação de que o tempo voa. Para culminar, de um modo geral, as conversas e os momentos a dois são substituídos por turnos em que cada um está a alimentar/ adormecer/ limpar/ entreter o bebé. Mas será que há motivos para alarme?



As estatísticas dizem que sim. 67 por cento dos casais com filhos pequenos (até aos três anos) mostram-se insatisfeitos com a relação. Só 33 por cento dos casais se mantêm felizes depois do nascimento das crianças.

A minha experiência clínica, tal como a investigação nesta área, mostra-me que a maior parte das dificuldades por que os casais com filhos pequenos passam está relacionada com a deterioração da comunicação. Todos os casais discutem – com ou sem filhos - mas quando não há filhos há mais tempo para recuperar, para fazer as pazes, para falar sobre o que correu mal. E, sobretudo, há tempo para fazer coisas divertidas a dois entre discussões e, assim, manter um saldo positivo na relação. No primeiro ano de vida de um bebé os membros do casal dormem quase sempre muito pior, acumulam um conjunto de tarefas novas e tentam sobreviver nos respetivos empregos fora de casa. A vida muda, quase sempre para melhor, mas há mais exigências e menor disponibilidade para os afetos. Em muitos casos, a mulher vê o desejo sexual diminuir de forma drástica – fruto do cansaço, das alterações hormonais e da dedicação ao papel parental – e o marido sente-se abandonado. Como não há muito tempo para o romance e as noites mal dormidas trazem consigo mais irritabilidade, é possível que ambos digam muitas coisas sem sentido, que ambos se sintam magoados e que haja algum afastamento.

O que é que distingue os casais que sobrevivem com sucesso a todas estas dificuldades? O que é que caracteriza aqueles 33 por cento da população para quem a chegada de um bebé parece não produzir grandes danos à relação?


Desenganem-se aqueles que acham que o segredo é ter dinheiro para contratar dez empregados. Se fosse assim, as celebridades não se divorciariam, certo?

A verdade é que há psicólogos que se dedicam a acompanhar a vida de casais desde o noivado até à chegada dos filhos e as investigações nesse âmbito têm permitido tirar conclusões importantes. Hoje sabemos que os casais que resistem ao nascimento dos filhos (com felicidade) são aqueles que continuam a dedicar tempo à relação conjugal. Isso significa que fazem aquilo que está ao seu alcance para continuar a criar aquilo a que chamo de momentos de conexão. Na prática:

  • Esforçam-se diariamente para que haja conversas a dois que lhes permitam manter-se a par do que acontece no dia-a-dia de cada um (às vezes são só 15 minutos);
  • Procuram “dar colo” quando o outro se queixa (em vez de revirar os olhos e dizer “Não tenho tempo para isto”);
  • Continuam a conversar sobre tópicos “extra-bebé” (ainda que 99 por cento das conversas girem à volta deste assunto);
  • Esforçam-se por alimentar a relação através de gestos de afeto (um beijo de 5 segundos faz milagres por qualquer relação e só “rouba”… 5 segundos);
  • Aproveitam todas as oportunidades para estar sozinhos e namorar (ir ao supermercado enquanto os avós ficam com o bebé pode não ser tão romântico como um jantar à luz de velas mas saber-lhes-á pela vida se decidirem acarinhar a relação em vez de prolongar a última discussão com amuos);
  • Reconhecem que ambos precisam de tempo para si (uma hora para ir ao ginásio, ao café ou para ficar trancado no quarto sem fazer nada saberá a céu na terra se o parceiro ficar a tomar conta do bebé sem interrupções).



Nem todas as relações sobrevivem ao nascimento de um bebé. A de Carolina sobreviveu à chegada de dois.
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