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1.2.18

OS FILHOS E A INFIDELIDADE


Falar de infidelidade é falar de segredos. Se há algo que todas as traições têm em comum é isso: o facto de haver comportamentos que são mantidos em segredo – pode ser um affair de longa duração, um caso de uma noite, conversas no Facebook, uma conta no Tinder ou visitas regulares a casas de massagens. Há escolhas que são feitas em segredo porque violam o compromisso, porque vão contra as regras que o casal definiu e porque implicam SEMPRE magoar os sentimentos de alguém ao ponto de colocar em risco a relação.

Mas aquilo que é feito em segredo muitas vezes deixa pistas e, infelizmente, nem sempre são os adultos que as encontram. Pelo meu gabinete têm passado vários casais que descrevem que foram os filhos que descobriram a traição em primeiro lugar.

Falar de infidelidade é falar de quebra de confiança e do trauma que daí possa resultar. Nenhum adulto está preparado para lidar com a traição, com o terramoto que ela acarreta. Afinal, contra todas as estatísticas, teimamos em acreditar que podemos ser felizes para sempre e que estas coisas só acontecem aos outros. Entregarmo-nos por inteiro numa relação também é viver sem medo e confiar. Confiar no caráter, na bondade e, sobretudo, no amor da pessoa que escolhemos. Sabemos que ninguém é perfeito mas confiamos. A descoberta de uma infidelidade implica passar a olhar para a realidade de outra forma – porventura mais consciente mas, sobretudo nos primeiros tempos, invariavelmente de forma mais pessimista.

A maior parte das pessoas traídas com quem tenho trabalhado acabam por recuperar a autoestima. Muitas conseguem perdoar e reconstruir a confiança na relação.

E as crianças e adolescentes?
Como é que lidam com a revelação da infidelidade?
Como é que processam estes acontecimentos?
Que impacto tem quando são os filhos a descobrir a infidelidade?

Os filhos esperam – sempre – que os pais os protejam, que façam as escolhas que garantam a sua estabilidade. Claro que à medida que vão crescendo, os filhos também se vão dando conta de que os pais não são perfeitos. No meio das zangas e dos ziguezagues característicos do processo de autonomização, vão-se dando conta de que errar é humano e de que aquilo que nos caracteriza não são os nossos erros mas sim a forma como nos responsabilizamos pelas nossas falhas.



Nenhuma criança sabe gerir os sentimentos que estão associados a um segredo como este – a tristeza, a sensação de desamparo, a impotência, a raiva, a desilusão, o medo, a vergonha mas também o conflito de lealdade. Deve contar ao outro progenitor? Deve assumir essa responsabilidade? Ou deve calar-se e viver com esse peso? Em quem pode confiar, afinal? Com quem pode contar depois de se dar conta de que uma das pessoas de quem sempre dependeu agiu desta forma?

Há quase sempre um trabalho muito importante a fazer com estas crianças e adolescentes e que começa – tem de começar – pela validação dos seus sentimentos. São muitos os casos em que a criança ou o adolescente se sente forçada(o) a manter o segredo, respeitando o silêncio dos adultos. De uma maneira geral, isso implica sobretudo que não haja voz para a sua dor e que o turbilhão emocional originado pela infidelidade seja gerido em solidão, sem o apoio dos adultos. Isso deixa marcas que só começam a sarar quando há espaço (e segurança) para exteriorizar tudo.

Depois é preciso que os pais façam a sua parte no restabelecimento da confiança. Tal como acontece noutras circunstâncias em que a confiança seja quebrada, é preciso aceitar que cada pessoa tenha o seu ritmo. É preciso dar tempo, é preciso respeitar os sentimentos. Nenhuma ferida sara mais depressa sob pressão. Pelo contrário.



Não basta mostrar arrependimento pelo dano causado e dizer «Não vou voltar a magoar-te». É preciso refletir sobre tudo o que pode ser feito para que os filhos se sintam seguros de novo. Não há fórmulas universais mas a preocupação e o interesse genuíno, a paciência, a disponibilidade para ouvir e responder com afeto são ingredientes essenciais.

Depois é fundamental refletir sobre todos os esforços que devem ser feitos para que a intimidade do casal continue a dizer respeito apenas aos membros do casal. Os filhos – mesmo adultos – não podem ser conselheiros matrimoniais. Não são robôs capazes de olhar para as dificuldades dos pais com objetividade. Pelo contrário, sofrem com as suas crises e precisam de sentir que os pais serão capazes de dar resposta a cada desafio (mesmo que isso implique pedir ajuda a outras pessoas).
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